quinta-feira, 12 de maio de 2022

 


AUGUSTO SEVERO

120 ANOS DO SEU ENCANTAMENTO

 


Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 


No dia 12 de maio celebra-se 120 anos de morte do aeronauta, cientista, deputado federal, pesquisador, escritor e pioneiro da aviação Augusto Severo de Albuquerque Maranhão.

 

Augusto Severo nasceu em Macaíba a 11 de janeiro de 1864, num sobrado já demolido na praça que tem o seu nome. Filho de Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão e Feliciana Maria da Silva e Albuquerque, Augusto, enquanto garoto e adolescente, teve mais contato com a cidade, dividindo-se com Natal onde fez os estudos preparatórios. Matriculou-se na Escola Politécnica no Rio de Janeiro, onde o clima foi hostil a sua saúde, voltando para o Rio Grande do Norte. Recuperou-se mas não quis retornar ao Rio para concluir os estudos, dedicando-se ao magistério no colégio fundado por seu irmão Pedro Velho. Trabalhou no Porto dos Guarapes com Fabrício Gomes Pedroza, mas logo envolveu-se nas agitações políticas pela causa abolicionista e na propaganda republicana, onde destacou-se como orador e jornalista.

 

Foi deputado ao Congresso local em 1892, e no ano seguinte, deputado federal reeleito sucessivas vezes até a sua morte. Mas, apesar de haver desempenhado a vida pública com brilhantismo, não foi através dela que se tornou famoso mundialmente. Foi, exatamente, a pesquisa e o estudo desenvolvidos desde o verdor dos anos para descobrir a dirigibilidade dos balões. O ano de 1893, assinala definitivamente o marco de sua luta cientifica no enfrentamento das maiores dificuldades para provar a sua teoria. Quando obteve do governo federal a autorização e aporte financeiro para que fosse construído no Realengo (RJ) um pequeno balão para provar as suas experiências e o valor do seu invento, surgiram inimigos políticos que lograram a revogação da ordem anterior, prejudicando o seu projeto.

 

Ato contínuo, Severo não desanimou, e em 1901, seguiu para Paris. Com os recursos próprios e de doações de amigos construiu o balão Pax para voar na efervescente capital da Europa, para onde haviam aportado os mais consagrados inventores e pioneiros da aviação no crepúsculo do século dezenove e nos albores do século vinte. “O balão subiu, obedecendo docilmente o seu comando, mas, num momento dado, a explosão do motor produziu o incêndio da aeronave e a sua consequente queda, sendo Augusto Severo precipitado, gloriosamente morto, sobre a Cidade Luz”, é a descrição histórica, repetida e triste do dia 12 de maio de 1902, da morte do mártir da ciência e patrimônio moral da humanidade.

 

Mas a pergunta que não quer calar e que desafia os pesquisadores e biógrafos do aeronauta é a seguinte: Severo não teria sido vítima da dificuldade financeira que lhe impôs a aquisição de equipamentos de inferior qualidade? Ele mesmo reconheceu, aflito, que poderia ocorrer um sinistro. Mas o entusiasmo e o afã de servir à ciência, á humanidade foram superiores ao medo físico, à dor e à saudade de deixar a família que unida assistiu contrita o desenlace em Paris. Um inventor brasileiro ao qual o Governo da União fechou as portas, obrigando-o ao “asilo” na França para provar o seu invento. Se fosse hoje, o presidente da República teria o repúdio da sociedade porque o país que expulsa cientistas só merece a lata do lixo da história.

 

Por tudo que Augusto Severo sofreu, desde as humilhações no Brasil até a terrível dor física do corpo em chamas, sem renegar a pátria, merece com justiça e justeza que todos os potiguares se unam numa prece votiva pelos 120 anos dessa tragédia.


(*) Escritor

terça-feira, 10 de maio de 2022

 

O SILÊNCIO É UMA ARTE?

 

Valério Mesquita

Mesquita.valerio@gmail.com

 

 

Eminentes pensadores ao longo do tempo, construiram frases enaltecendo o silêncio. Muitos políticos, se tivessem juízo, jamais pronunciariam discursos. Por isso, concluo que às vezes, não falar é uma arte. “O silêncio é um argumento dificil de se refutar”, frase atribuída a Fenélon, que cabe mais a padres após uma confissão do que a políticos. Já prevendo o horário eleitoral, alguém cunhou esse pensamento. “O Silêncio, as vezes, diz mais que um longo discurso”. Em contraposição, outro cultor do silêncio o define como “uma das grandes técnicas da conversação”. Pode ser que, nessa frase, uma grande parte da chamada classe política tenha se inspirado para enrolar o eleitorado. Shakespeare, o inexcedível bardo inglês, pela boca de um dos seus ricos personagens seiscentistas disse que: “O silêncio é um dos arautos da alegria”.

O fato é que, o silêncio exige cuidados especiais. Um dos maiores predadores do silêncio é o improviso. O improviso imprevisto e impensado. Para ilustrar, lembrei-me de um fato que me foi narrado por Paulinho, servidor da Assembleia Legislativa, envolvendo a figura do professor Antenor que não usou a prerrogativa do silêncio.

As greves e as lutas sindicais, às vezes, revelam fatos e figuras interessantes. Antenor, ex-presidente da Associação dos Professores fazia uma inflamada exortação a classe, conclamando os companheiros a luta da seguinte maneira: "Professores, a greve está nas ruas. Torna-se necessário darmos as mãos, porque eu tenho fé e vocês tendo fé na hora de somarmos nossas fezes, tudo mudará!!!”. Não precisa dizer que foi merda muita. Grande chance perdida para ficar calado.



 Sombras de insegurança 

Padre João Medeiros Filho 

 

Estudiosos de várias ciências e representantes de diferentes matizes religiosos procuram analisar o atual clima de insegurança, medo e ameaças. No Brasil de hoje, pressente-se um malestar, psicológico, sociopolítico, moral e religioso. Autoridades insurgem-se umas contra as outras, em mútuas e constantes coerções. Setores da economia tornampessoas insones. A precariedade dos serviços públicos de saúde, educação, segurança e outros deixam cada vez mais a população desassistida e aflita, apesar da negativa dos responsáveis. Governantes continuam recitando a ladainha da escassez de recursos para gerir os diversos setores. “Administrar exige criatividade”, dizia Santo Tomás de Aquino. Pastores de almas vislumbram dias apocalípticos em virtude da negação de valores éticos. Trafega-se na contramão do anúncio proclamado pelo anjo, na Noite Santa: “Eis que vos anuncio uma grande alegria.” (Lc 2, 10). A mensagem de Cristo é um aceno de paz e Boa Nova (Evangelho). Outrora, crentes e agnósticos viveram épocas tenebrosas. Impossível esquecer a fogueira da Inquisição e os horrores do Holocausto. Houve momentos em que alguns pregadores apontavam a porta do inferno aos fiéis, considerando-se proprietários do céu. Entretanto, a intranquilidade hodierna não é menos difusa e dolorosa. Passam-se os anos e procurase ainda esconder a beleza do Evangelho com mantras e adereços ideológicos, ofuscando a ternura cativante de Jesus. Vive-se, física e espiritualmente, numa sociedade ameaçadora e intranquila. Muitos sentem a dor da desolação e as investidas da tecnologia com suas consequências e das ideologias reinantes. Os adeptos destas servem-se inescrupulosamente de tudo, máxime da mensagem dos profetas do caos. Ao sofrimento fisiológico soma-se o mental. Para amenizá-lo não basta a indignação ética. Urgem fraternidade e compaixão. O cristianismo é a religião do bom samaritano, relatada na parábola de Lucas (Lc 10, 25-37). Em tempos inseguros e amedrontadores, precisa-se cultivar a semente da esperança. Pairam temores e inquietudes, gerando desconforto. As agruras individuais e a infelicidade coletiva são o preço de desmandos, omissões e desigualdades, ao longo de anos, resultado de um descaso público crônico. As pessoas andam tensas. São tomadas por más notícias e imagens tristes, registrando dores e terrores. Veiculam-se raros noticiários de fatos positivos, construtivos e portadores de alegria. O Brasil lida com ameaças, agravadas pelos surtos de dengue, viroses etc., neste final de pandemia. Os sofrimentos que disso decorrem, acrescidos de palavras atemorizantes, tornam as pessoas confusas e abatidas. As igrejas têm o dever de consolar e animar o povo, como proclama o salmista: “Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro sempre encontrado nos perigos, por isso não há o que temer” (Sl 46/45, 1). A Bíblia é pródiga em palavras de alento e encorajamento. Os cristãos necessitam ser precursores de paz e mensageiros da renovação. Atravessa-se o ocaso de uma era. O pôr do sol é hipnotizante, justamente por carregar um misto de indefinições e dúvidas. “Elegante melancolia do crepúsculo”, proclamava Charles Chaplin. A tristeza traz em seu bojo a força de transformar a aparente decepção em luz e vida. Hoje, é preciso pedir com insistência renovada, como os discípulos de Emaús, no entardecer pascal: “Fica conosco, Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando.” (Lc 21, 29). Aos líderes religiosos cabe relembrar que “a luz brilhará na escuridão.” (Jo 1, 5). Compreende-se o desânimo que se abate nesse dramático momento brasileiro, sobretudo num conturbado ano eleitoral. Por isso, é bom ter em mente as palavras de Jesus: “Estarei convosco todos os dias.” (Jo 16, 33). Nestes tempos difíceis venha a lição da natureza, convidando-nos a aquietar e esfriar os ânimos. Praza aos céus que uma nova estação acalme os espíritos exaltados dos brasileiros, o radicalismo e o desrespeito aos outros. A metáfora das flores coloridas ensina aos homens que não é possível antecipar o florescimento. Entretanto, é factível transformar o “inverno” no despontar (em nós) de um novo ser humano. Ele poderá ser belo, fecundo e transformador. É preciso arrefecer as emoções intransigentes e o pessimismo para brotar a serenidade. As árvores dão-nos uma lição: as folhas caem, mas a vida persiste, mesmo em dias sombrios e frios. Deus cuidará sempre de nós. “Ele é o teu escudo de defesa e a tua espada que faz triunfar.” (Dt 33, 29)

 

ADMIRAÇÃO E DESAMOR

 

Diogenes da Cunha Lima

 

         De todos, o acontecimento mais admirável é a vida. Somos habitantes da galáxia. Bilhões e bilhões de corpos inanimados e nós seres vivos. E, ainda mais, pensantes. Por essa razão, admiramos a natureza que Deus nos deu.

         Observando bem, tudo é admirável: os animais e as plantas terrestres e aquáticas; as montanhas, as depressões, os vales, o vento, as nuvens, a cor do céu com os seus habitantes, os pássaros, e a visão das estrelas. Tudo é milagre porque não se pode descobrir a perfeita razão de ser.

         As qualidades que mais enobrecem o homem, o amor e a amizade, exigem a admiração do parceiro. O filósofo pré-renascentista Giovanni Pico della Mirandola recomenda voltar-se para o bem. O amor impede o instinto animal, é a perfeição humana.

         Admirar, do latim Ad mirare, é ver mais longe, significa olhar com encanto, o que leva o ser humano a respeitar, estimar e mesmo simpatizar com o outro.

         A admiração estimula e até torna-se causa da criação da arte, da ciência, da tecnologia, ainda que seja verdade que a admiração exacerbada pode causar inveja e desamor, assim como a admiração excessiva dá corpo à bajulação.

         A floração não seria o comportamento das plantas também para serem admiradas? Os intelectuais não trabalham também para serem admirados? Atentemos que o plágio é inveja causada pela admiração.

         O cantador paraibano Manoel Xudu ficou feliz por ter sido convidado por uma senhora para cantar em sua fazenda, no nosso Seridó. Ao chegar, encontrou a mulher, seu marido e mais três pessoas. Perguntou: “Cadê o povo? Cantador quer ser querido por todos e precisa saber de temas admiráveis”. Ela respondeu que o marido havia feito um açude admirável. Por fim, queixou-se de uma dor de cabeça que voltava de meia em meia hora. Xudu se entristeceu, mas cantou porque precisava ganhar a viagem. Finaliza dizendo: “me admira é o pica-pau / o mês de ouro de Angico / tem hora que é taco taco / tem hora que é tico tico / nem sente dor de cabeça/ nem quebra a ponta do bico”.

         O desamor é sempre omissivo, desafeição, indiferença. A raiva é um desamor doentio e o ódio é um desamor enlouquecido. Ambos são limitações da perfeição humana.

         Desamor é desconhecer. Quem admira procura conhecer mais profundamente o objeto amado. Reconhecer a beleza, certamente, eleva o espírito. Quem perde a capacidade de admirar perde o presente e o futuro.

 

        

 

quinta-feira, 5 de maio de 2022

 


MOACYR GOMES DA COSTA

No cenário bucólico do Seridó, o jovem bacharel José Gomes da Costa assume o cargo de Adjunto de Promotor de Justiça, em Caicó e, de pronto, reinicia um namoro interrompido e contrai núpcias com sua amada Maria Ligia de Miranda Gomes em 04 de setembro de 1926, quando esta tinha apenas 15 anos, com a presença do Patriarca da família “Gomes”, o Coronel João Gomes da Costa, proprietário da Fazenda Pitombeira (Taipu-RN) e líder político na região.

Dessa união, que assistiu íntegro o passar de meio século, nasceram nove filhos – o primogênito foi Moacyr, parido de uma gravidez de alto risco, agravada pela pouca idade da mãe – apenas 15 anos, o que levou “Mãe Quininha” (mãe do Monsenhor Walfredo Gurgel) a comentar com o amigo comum Dinarte Mariz, sobre o perigo que corria Lígia de Zé Gomes, cujo nascitura estava em posição inversa à natural e que não teria habilidade para resolver o problema.

O amigo, político influente na região, mandou motorista em seu automóvel até Currais Novos para trazer o renomado médico Mariano Coelho (médico que ficou na história).

Pelos dotes competentes do médico e pelas mãos santas da parteira Mãe Quininha, nasce de parto laborioso Moacyr Gomes da Costa em 07 de junho de 1927.

Depois chegaram outros filhos – Fernando, Therezinha, João, Lêda, Elza, Carlos, Socorro e José Filho, os três primeiros e a quarta já estão em outra dimensão da vida.

O menino Moacyr teve uma infância e adolescência normais, mas sem fartura, mas cercado do carinho e do desvelo dos muitos familiares do lado dos Miranda e dos Gomes da Costa. Muitos tios, tias, avós e primos. Nada lhe faltou.

Em Natal desenhou a sua mocidade, entre as dunas das cercanias da cidade e o rio Potengi, enriquecida pelos amigos e pelos devaneios e sonhos bem sonhados, de criar asas e buscar o seu lugar ao sol.

Terminada a 2ª Guerra, terminou o seu emprego na Base Americana de Parnamirim, pegou um Ita e foi pro Rio morar, estudar, viver, crescer profissionalmente e retornou arquiteto.

Fez incontável número de grandes amigos (impossível enumerá-los – quase o mundo todo), foi boêmio dos bons, juntou-se a grandes profissionais como João Maurício, Daniel Holanda e Ubirajara Galvão.

Teve algumas mágoas – ter de deixar a cátedra da Faculdade de Engenharia; ser taxado de copiador de um Estádio quando de uma viagem à Alemanha (ele nunca saiu do Brasil) e a sua concepção de uma Praça Esportiva vem de seu trabalho de curso, tendo por orientador um dos responsáveis pelo Maracanã, Professor Pedro Paulo Bernardes Bastos nos idos do ano 50; recentemente, após 40 de aposentado, o TCU reprova a sua aposentadoria por acumulação com um cargo no Estado, este somente assumido depois de já estar na inatividade, sob o fundamento da incompatibilidade de horários e de pronto retiraram os seus proventos. A maior delas foi a demolição do Machadão.

Mas a grandeza de Moacyr só merece a lembrança de tudo o que de bom teve em sua vida até a graça de virar estrela dormindo, neste dia 05 de maio de 2022.

Tive o privilégio de registrar a sua vida em dois livros: O Menino do Poema de Concreto e 90 anos bem vividos.

Querido irmão, obrigado por uma convivência maravilhosa de tantos anos, rogo ao nosso Deus do Universo que o receba e conduza para junto dos seus familiares queridos.

Para a família, uma indagação ... E agora José, sou o timoneiro mais antigo da família dentre os homens.

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Carlos Roberto de Miranda Gomes

 


segunda-feira, 2 de maio de 2022

 AQUELE SONHO

Tenha aquele sonho iluminado durante todo o seu dia

Precisou despertar? Sem problemas
Mas não esqueça aquele sonho
A salvação de seu dia está naquele sonho

O tempo está quente ou frio
Há turbulências no ar
E você não conseguiu sair

Não deixe que nada o perturbe
Que o grito insano o assuste
Não esqueça aquele sonho

Não se distraia e novamente
Não se perca no labirinto
Lembre-se que você tem aquele sonho
Não esqueça aquele sonho


(HORÁCIO PAIVA)

 

HÁBITOS E FUNÇÕES SEMIDESAPARECIDAS

 

Diogenes da Cunha Lima

 

As mulheres brasileiras costumavam cumprimentar com dois ou três beijinhos no rosto. Essa prova de afetividade natural surpreendia os estrangeiros que aqui chegavam. A pandemia fará desaparecer também a ternura?

Herdamos dos tupis o hábito de tomar um ou vários banhos por dia. A globalização e a carência de tempo estão diminuindo a frequência dessa saudável higiene corporal.

A Lei concede licença de paternidade, o que nos faz relembrar um ritual tupi: Logo depois de parir, a mulher ia trabalhar, enquanto o pai da criança, sentindo-se exausto, deitava-se na rede e recebia parentes e amigos. O filho era apenas semente do pai.

A tecnologia e as novas profissões aboliram antigas formas de estudar. A escola de datilografia de Dona Glorinha de Seu Heráclito conferia aos habilitados solenes diplomas. Havia forte demanda de um bom datilógrafo.

O leiteiro entregava as garrafas de porta em porta. Tive o privilégio de ser substituto de leiteiro, quando ele faltava ao serviço.

Telegramas e telegrafistas perderam o prestígio. As cartas comunicavam emoções de literatura.

Galena, ancestral improvisada do rádio, funcionava. As emissoras de rádio faziam programas de auditório, exibiam novelas e contratavam bons cantores.

As missas eram celebradas em latim. Quase toda igreja tinha o seu sacristão. Alguns ganhavam, apenas, quando badalavam os sinos. Na Semana Santa, os sinos tenores calavam dando lugar ao baixo das matracas.

Nas mãos dos doentes terminais colocavam-se velas acesas, que talvez evitassem o escuro da morte. Anoitecia na casa de Tambaú. O escritor apontou para a Estrela D’alva recitando: “Quando partir dessa vida / não precisa vela, não / pois esta estrela querida / é vela na minha mão. ”

O calendário era diariamente consultado. Retirava-se uma folhinha com o nome do santo do dia.

 As lojas de tecidos tomavam conta do comércio, não faltava trabalho para as costureiras, até que surgiram as roupas feitas.

No tempo da locomotiva maria-fumaça, havia a profissão de foguista, que punha lenha para alimentar o fogo e fazer fumaça. O chefe da estação mandava o guarda-trilhos conferir a limpeza da linha. O funcionário acionava o trolley com uma longa vara.

As crianças produziam seus próprios brinquedos: bois de barro ou de cactos, bozós (dados) de batata, bolas de meia. Jogavam castanhas, com tila e castelo. Capa de carteira de cigarro era dinheiro, colecionado.

A cultura era difundida em saraus, partilhando-se poemas e músicas.

O Homem faz mudanças, adaptações. Criaram a teoria do retorno. Se voltarem funções e hábitos, voltarão repaginados.