IX
ENCONTRO POTIGUAR DE ESCRITORES – EPE 2020
Homenagem a Edgar Barbosa por Tereza Custódio
A
União Brasileira de Escritores UBE/RN, através de seus associados, vem, nesse
IX ENCONTRO POTIGUAR DE ESCRITORES - EPE, prestar homenagem aos escritores, in memoriam,que pertenceram a essa
entidade cultural e muito colaboraram para a cultura do estado.
Nesse cenário atual da pandemia
que assola o mundo, a arte parece ser necessária para suprir carências de seres
humanos fragilizados. Mesmo sem sairmos de casa e termos de passar horas
infindáveis nesses minúsculos espaços, temos nos alimentado de outras
linguagens artísticas e culturais através de visitas on line a bibliotecas,
livrarias e museus.
Muitos
livros saíram das prateleiras e passaram a ser lidos. Enfim, a arte
desvalorizada por alguns é que está alicerçando a sociedade nesses dias
sombrios em suas múltiplas facetas, permitindo-nos refletir sobre as nossas
vivências e o nosso papel na sociedade.
Reporto-me
aqui a Bert Hellinger, escritor, teólogo, terapeuta nascido na Alemanha em
1925, falecido aos 93 anos, inventor da Constelação Familiar. Em seus livros,
ele fala da importância de honrar nossos
ancestrais, aqueles que vieram antes de nós, para que possamos cumprir com o
papel que nos foi dado. Nós, palestrantes do IX EPE, não temos parentesco e nem
laços de sangue com os doze escritores (in
memoriam) que estão sendo homenageados, mas podemos honrá-los, cultuar suas
memórias e agradecer pelo tinteiro que nos foi legado, mergulhar nosso bico de
pena e dar continuidade ao trabalho da escrita independente da cor da palavra.
A minha fala é sobre Edgar Ferreira Barbosa, escritor e um ser humano admirável.
O nome Edgar Barbosa
surgiu-me pela primeira vez quando eu, ao terminar o curso de Letras na UFRN, em
1980, fui indicada para dar aulas na Escola Estadual Edgar Barbosa, na rua
Miguel Castro, no bairro Lagoa Nova, em Natal. Fui uma das
primeiras professoras a adentrar as portas dessa escola profissionalizante de
primeiro mundo. A Escola Edgar Barbosa fora equipada com ajuda financeira do
governo americano. Assim, os professores escolhidos para ensinar nesse
estabelecimento de ensino tiveram de fazer um curso de 120 horas para poderem
trabalhar com videocassete, slide e outros aparatos inovadores para a
época.
A segunda vez que o nome do professor Edgar Barbosa me
apareceu foi no VII Encontro Potiguar de Escritores - EPE 2017, ocorrido no
Teatro de Cultura Popular – TCP, momento em que me tornei membro
da UBE/RN. Tomei conhecimento via Eduardo
Gosson, presidente da UBE/RN, que Fagundes de Menezes, escritor potiguar
radicado no Rio de Janeiro, veio a Natal, em
1959, com a missão específica de negociar e fundar a União Brasileira de
Escritores, seção Rio Grande do Norte. Tal fato ocorreu durante a realização do
I Encontro Potiguar de Escritores – EPE, em 14 de agosto de 1959. O evento foi encabeçado
pelo professor Edgar Barbosa, com o objetivo de fomentar a cultura e dar apoio
aos escritores potiguares de quaisquer posicionamentos ideológicos ou
político-partidários.
Edgar Barbosa, Câmara Cascudo e outros três membros
compuseram o Conselho Fiscal da UBE, cargo que ocupei posteriormente. Daí, eu
pensar que estamos em sintonia.
Nesse
IX EPE escolhi falar sobre o escritor Edgar Barbosa, mas fiquei receosa por
dispor de poucas informações sobre sua vida e obra. Ao pedir ajuda ao jornalista,
ceará-mirinense, Franklin Jorge, sobre o escritor Edgar Barbosa, descubro, para
minha sorte, que o jornalista era sobrinho do próprio Edgar Barbosa, o que
facilitou o meu trabalho.
Afinal,
quem foi Edgar Barbosa?
Edgar Ferreira Barbosa nasceu em 16
de fevereiro de 1909 em Ceará-Mirim e faleceu aos 67 anos, em 15 de fevereiro
de 1976, ano em cheguei a Natal. Passou a infância em Ceará-Mirim e, em 1921,
aos 12 anos, veio para Natal onde estudou no Colégio Marista até 1929.
Trabalhou em jornais, dentre eles “A República”, iniciando aos 18 anos como
revisor, depois chefe-redator, chegando a Diretor da Imprensa Oficial. Casou-se
jovem, aos 21 anos, com a pianista Dolores Albuquerque e teve 4 filhos.
Formou-se aos 23 anos, em 1932, na Faculdade
de Direito do Recife. Foi um dos fundadores da OAB/RN. Exerceu a profissão de
advogado por pouco tempo, pois logo resolveu abraçar a magistratura, como Juiz
Federal substituto em 1937. Professor
de Português do Atheneu e da Escola de Aprendizes de Artífices (IFRN), ocupou a
cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras chegando ao cargo de presidente.
Foi membro de honra da Aliança Cultural
Franco-Brasileira, Presidente do Conselho Deliberativo do Instituto
Brasil-Estados Unidos, Redator-Secretário da Revista do Tribunal de Justiça e Presidente
do Rotary Clube.
Professor de
Direito Constitucional e Legislação de Menores, de Direito Internacional e
Teoria Geral do Estado da Faculdade de Direito de Natal, da qual foi um dos
fundadores. Foi professor, também de Filosofia Românica e Literatura Brasileira
e Portuguesa da Faculdade de Filosofia de Natal, de onde foi Diretor.
Juntamente com Onofre Lopes, ajudou a criar a UFRN. Foi o fundador da Faculdade
de Filosofia que deu origem à criação do Centro de Letras e Arte da UFRN.
Edgar
Barbosa era erudito, dominava qualquer assunto de áreas diversas. Era tímido.
Um jornalista sério, comprometido com uma
imprensa democrática. Valorizava a ética e a moral ea verdade como
valor absoluto.Segundo anotações em jornais, colegas diziam que ele era um magistrado
sem vaidade do cargo. Foi um jurista de invejável saber. Filósofo e humanista.
Alunos da UFRN o consideravam um mestre sábio sempre dando exemplo de outras
culturas. Apesar de ter mais de três mil trabalhos (crônicas e ensaios)
publicados em jornais e revistas, não se preocupava em editá-los. Em suas
crônicas, nos anos 1920, ele abordava a liberdade de expressão, a problemática
do ensino público e a importância do voto feminino.
O
escritor Franklin Jorge relata que o memorialista Edgar Barbosa fazia de
qualquer rasgo de memória uma crônica e conseguia falar de sua cidade natal com
seus vales férteis como se fora recortada por um Nilo transplantado para lá por
um sortilégio de Deus. Edgar captou a alma do homem potiguar, percebendo-se
nitidamente nos textos sobre Henrique Castriciano, Juvenal Lamartine, Padre
Monte, na descrição do jasmineiro de Auta de Souza e até de um velho engenho. Na
época da guerra, Edgar Barbosa escrevia crônicas diárias sobre a importância da
paz mundial. Seus textos chegaram a outros países através de agentes estrangeiros
e, como consequência, ele recebeu do reitor, filósofo e escritor espanhol Dom
Miguel de Unamuno (1864-1936) a Flama Olímpica da Universidade de Salamanca,
homenagem almejada por muitos. Recebeu também uma carta do Rei George VI (1895-1952),
do Reino Unido, pai da rainha Elizabeth II, parabenizando-o pelo seu trabalho
na luta pela paz dos povos.
O
escritor Nilo Pereira, seu conterrâneo, dizia que Edgar Barbosa foi o maior
escritor que Ceará-Mirim produziu em qualquer tempo. Precoce e inteligente, foi
aclamado como o príncipe dos escritores potiguares. Porém, manteve-se modesto e sem vaidade para
com as medalhas e prêmios que lhe concederam. Edgar Barbosa dizia que era
melhor merecê-las sem as ter do que tê-las sem merecer”.
Carlos
Roberto de Miranda Gomes, em sua crônica sobre Edgar Barbosa, relata que seu
professor era ameno por natureza, passos comedidos, gestos suaves e falar
pausado. Jamais negava atenção a quem dele se aproximava, sempre levando uma
palavra de esperança ou proclamando sua decepção diante de fatos políticos que
não tivessem trânsito pela essência da democracia. Na Faculdade de Direito, da
velha Ribeira, chegava com pontualidade e vestido com impecável terno de linho
branco, que fazia mais claro o dia e brindava os seus alunos com aulas
inesquecíveis, sempre na direção do espírito do Direito Constitucional, em sua
expressão essencial, sem gastar tempo com os textos legislados. Posicionava-se
contra o regime militar, que se instalou no Brasil em 1964, mas ao proferir
suas aulas, a sua postura crítica, a sua autoridade moral e o respeito que
impunha, nunca permitiu que lhe fosse colocada uma mordaça, tanta era sua
autoridade moral, tanto o respeito que impunha.
O
poeta Diógenes da Cunha Lima foi seu aluno da disciplina Direito Constitucional,
e dizia que suas aulas eram de humanismo. Durante a ditadura, ele não poupava
críticas aos militares detentores do poder discricionário.
Manoel Onofre Júnior, em seu livro Alguma Prata da Casa, 2ª. Edição, pela 8
Editora, 2016, fala do mestre Edgar como um exemplo de humanista e um dos mais
eminentes vultos da cultura potiguar. Enxerga-o como um artista conhecedor da
palavra, leitor de grandes clássicos, homem de grande cultura, amante das
letras, pois a palavra escrita figura-se-lhe como algo precioso, que nem ouro
ou prata.
Vários
colegas escritores escreveram sobre Edgar Barbosa: Veríssimo de Melo dizia que
ele era discreto e modesto, pois apesar de ter escrito uma vasta obra, publicou
poucos livros. O ensaísta Américo de Oliveira Costa, falecido, autor
de A biblioteca e seus habitantes (1982),
escreve sobre Edgar Barbosa e faz o resgate de seus ensaios de alta qualidade. Dentre eles: “Camões
lírico”, “A justiça no reino do
Quixote” e “Machado de Assis em
alguns dos seus tipos”. Conforme
nos relata o escritor Nelson Patriota em seu livro Uns Potiguares, escritos sobre as letras norte-rio-grandense e outras, Editora
Sarau das Letras; 2009, a Editora da UFRN resgatou
junto à família do escritor sua obra jornalística ao longo de 40 anos, com mais
de três mil artigos que escreveu para jornais e revistas. O objetivo almejado
foi o de selecioná-la e publicá-la em comemoração ao seu centenário com o título:
Artigos e Crônicas de Edgar Barbosa. Nelson Patriota, organizador da
obra, nos diz que o próprio Edgar havia colecionado cuidadosamente, por ordem
cronológica, parte de seus artigos, provavelmente prevendo uma futura
publicação, o que somente ocorreu 32 anos depois de sua morte. A maioria das
crônicas e ensaios foram escritas para a revista Cigarra (década de 1920) para o jornal a República, quando ele estreia a partir de 1927 e para o Diário de
Natal.
O
seu livro História de Uma Campanha, com
439 páginas, foi relançado pela
Editora da UFRN em 2008, em comemoração aos 50 anos da UFRN. Isso ocorreu depois de 72 anos da sua primeira
edição, na gestão do Reitor José Ivonildo do Rego. O livro apresenta a luta por
um partido popular democrático na defesa da democracia contra um partido
dominador de poderosos. Venceu o partido popular, gerando incômodos para os
perdedores do coronel Felismino do Rego Dantas.
Vale salientar que Edgar Barbosa enterrou, no quintal de sua casa,
grande parte da edição desse livro, na tentativa de abafar a corrupção, os
jogos de manobra e a violenta campanha política geradora de assassinatos na
família.
Edgar
Barbosa publicou apenas quatro livros: História de uma Campanha (1936/2008), Três
Ensaios (1960), Românticos
Norte-Americanos e outras Conferências (1966) e Imagens do Tempo (1966) e após sua morte Artigos e Crônicas de Edgar Barbosa (2009). Em 2009, a Editora da UFRN resgata junto à família do
escritor sua obra jornalística a fim de publicá-los em comemoração ao seu
centenário, conforme nos relata Nelson Patriota em seu livro Uns Potiguares, escritos sobre as letras
norte-rio-grandense e outras, Editora Sarau das Letras, 2012.
Edgar é um nome muito forte. O que me faz
lembrar o poeta americano
Edgar Allan Poe, nascido em 1809, editor
e crítico literário. Escreveu contos e
foi o pioneiro a criar um detetive e um ajudante
das histórias de mistérios. Edgar Wallace,
1875, inglês, escreveu 175 livros, 160 adaptados para o cinema, além de 24
peças de teatro. Edgar
Rice Burroughs, nasceu em 1875, americano, criou o personagem
Tarzan – o rei das selvas e Edgar Morin,
1921, filósofo francês, antropólogo e sociólogo.
Edgar
Barbosa, nos seus escritos, levantou a bandeira da paz, como também o faz Edgar
Morin, que, aos 99 anos, continua dando palestras no mundo inteiro sobre
educação e cultura, falando sobre a importância de valorizar o plural, a
solidariedade, a igualdade de direitos, o respeito à diversidade, pois somente
assim teremos um mundo melhor, em paz.
Quero
agradecer ao Dr. Carlos Roberto de
Miranda Gomes por ter me cedido sua crônica com fatos vivenciais com o
professor Edgar Barbosa, ao escritor Manoel Onofre Júnior pelo livro Alguma Prata da Casa, ao jornalista
Franklin Jorge, diretor de redação da Navegos, que pacientemente me passou
informações valiosas sobre o notável Edgar Barbosa.
Findo
deixando meu protesto ao apagamento, ao memoricídio, que nos impossibilitam de
sorver as obras de nossos escritores.
Tereza Custódio – Presidente da UBE/RN
Biênio 2020–2021