segunda-feira, 21 de outubro de 2013


“SE EU QUISER FALAR COM DEUS”
PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO (pe.medeiros@hotmail.com)
Aprendemos em Filosofia que há um elo entre beleza e bondade, desejadas constantemente pela arte e pela religião. Através delas, Deus se antecipa e visita-nos pelos recursos delicados e frágeis da temporalidade. Passa pelos jardins de nossas vidas na poesia, na música, na oração, na teologia e em todas as maravilhas que nos cercam. Às vezes, tomamos consciência de que Ele está perto de nós, e de repente o perdemos. Não se deixa aprisionar. É de sua natureza e mistério. Mas, as marcas de sua passagem nos dão a consciência de sua presença. O ausente torna-se presente. Segundo o místico São João da Cruz, “o que conhecemos de Deus são apenas as pegadas de sua passagem entre nós”.
Deus não se encontra apenas nos conceitos estabelecidos pela teologia. No dizer de Adélia Prado, “Ele habita fora da definição fria e racional que dele fazem”. Há coisas que Ele sopra aos poetas e artistas. Também se manifesta na inquietude e na incerteza. “Buscai e achareis” (Lc 11, 9), dissera Cristo. O Pai se revela na pluralidade de sua grandeza. Teresa d’Ávila afirmara que: “Ele se esconde para que o descubramos. Brinca de esconde-esconde conosco para que sintamos a alegria e o prazer de encontrá-lo. Depois sorri para nós, suas eternas crianças”. 
Em 1980, Gilberto Gil compôs uma música, cujo título inspirou este pequeno artigo. A primeira estrofe da canção faz-nos refletir. Vivemos num mundo, onde há pouco espaço para o Divino. Assim se expressou o ex-ministro da Cultura: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós, apagar a luz, calar a voz, encontrar a paz, folgar os nós, dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios, esquecer a data, perder a conta, ter mãos vazias, a alma e o corpo nus”.
Realmente, para estar e falar com Ele, a solidão – acompanhada do silêncio e do desprendimento – é um elemento privilegiado, diríamos, íntimo e fundamental. Não se trata de uma solidão que machuca e nos distancia dos outros. E sim, aquela que nos aproxima de nós mesmos e nossas carências, de forma equilibrada e serena. A luz que devemos apagar é a das ilusões, a fim de que brilhe a chama da quietude do coração, única forma de calar a voz da angústia e desatar os nós de tudo que possa nos deixar presos à nossa escravidão interior. Eis em que consiste o início do esvaziar-se, para ter a alma e o corpo nus. É a verdade evangélica, em que Cristo ensina aos apóstolos: “Aquele que quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Lc 14, 33).
“Se eu quiser falar com Deus, tenho que aceitar a dor”, continua o autor soteropolitano. Para se falar com Ele, a aceitação do sofrimento é essencial. Mas, não a resignação passiva ou alienada e, sim, a refletida, capaz de gerar a libertação de quem sofre e da própria dor, pela conquista da sabedoria em enfrentá-la.
É preciso que descubramos que a busca de Deus e do sobrenatural é como o pão para o faminto, o agasalho para o desnudado, a água fresca e cristalina numa tarde de verão, quando a sede se apodera de nós, como o sopro da brisa, quando estamos suados e cansados. Há uma necessidade de procurá-Lo. Acreditemos que todos os corações ardentes que se aproximam do mistério, encontrarão acolhida e proteção. “Recordai-vos de mim, que Eu me recordarei de vós” (Alcorão 2, 152). Vale terminar com as palavras de Teilhard de Chardin: “Aquele que procurar sinceramente Deus, escondido na beleza da música, da poesia, da arte e da natureza, Ele paternalmente erguê-lo-á em seus braços protetores e o fará contemplar a beleza de seu rosto”.


“MAIS MÉDICOS: QUO VADIMUS, DOMINE?”
Geniberto Paiva Campos – Observatório da Saúde/DF  - outubro/2013

O programa “Mais Médicos” é filho dileto, e inesperado, das Manifestações de Junho. Estas pegaram de surpresa os poderes constituídos da República, particularmente o Executivo e o Legislativo, os quais se empenharam na busca de respostas convincentes e imediatas que pudessem aquietar a turba.
A contratação de médicos para municípios e regiões carentes do país, através do programa planejado e executado pelo  Ministério da Saúde, foi a resposta que ganhou mais evidência. E a que provocou maior polêmica.
As comunidades e as nações também vivem os seus momentos, os bons e os ruins. E, parece, no quesito inovação e criatividade, o Brasil não vive um dos seus melhores momentos. Devemos admitir, no entanto: os  desafios  são outros e maiores, neste início de século. E, de repente, surgiu um novo ator  que, de forma abusada e irreverente, se insinuou no palco político a criticar as obras executadas, os projetos e os planos dos três níveis de governo. E ele tem pressa. E paciência curta. O que torna as coisas mais difíceis para os governantes. Afinal, as respostas precisam ser rápidas. E consistentes.
Um outro importante fator a ser considerado é o grau crescente de despolitização que o país atingiu na última década. Graças ao trabalho persistente e incansável da Imprensa, instituições do poder, a classe política, pessoas físicas e jurídicas foram levadas a um ponto extremo de descrédito. E não são mais vistos como confiáveis. Por serem pecadores, presumivelmente pegos pela Mídia em flagrante delito, tornaram-se um mal. Se possível a ser extirpado. Enfim, deixa-se gradativamente de se fazer Política e se adentra no perigoso terreno da moralidade teológica, característico de épocas anteriores, onde predominavam a intolerância e o arbítrio. O velho e confiável Maniqueismo. Que simplifica  - e  facilita - tudo, dividindo o mundo entre bons e maus. Mocinhos e bandidos. O claro e o escuro, sem nuances.
Nesse inquietante caldo de cultura o “Mais Médicos” foi  concebido e apresentado pelo Governo Federal, através do Ministério da Saúde, como solução mágica para uma série de problemas vivenciados pelo Sistema Único de Saúde. Inicia-se, então, um desatinado confronto entre o MS e as entidades médicas. Uma comédia de erros sucessivos em que a  mínima racionalidade foi esquecida. Uma guerra particular entre o Governo e a categoria dos médicos. E como dizem, em todas as guerras a primeira vítima é sempre a verdade. Só que neste conflito específico a vítima habitual, eterna, o Usuário é a primeiríssima a tombar. Os conceitos atuais de Saúde Pública foram para o espaço. Convenientemente esquecidos pelos litigantes. Infelizmente, não se ouviu nenhuma voz chamando os bravos guerreiros à razão.
O Congresso Nacional foi o local de desfecho das primeiras batalhas. Como esperado, as decisões não favoreceram os anseios impeditivos das entidades médicas. Afinal, não ficaria bem aos “representantes do Povo” votar contra ida de médicos – agora chamados, pejorativamente(?) de “intercambiantes”- para locais onde eles não existem. E onde talvez nunca puseram os pés.
O que teria levado o conflito a esse ponto? O que faltou, ou teria sobrado, para que a irracionalidade atingisse tal impasse? Despolitização, maniqueísmo talvez expliquem  apenas parte desse estranho litígio. Mas além do preconceito, existem aí sérios erros de avaliação,  conceituais e políticos. Imperdoáveis, considerando a natureza  profissional dos litigantes.
Pode-se começar  pelo foco, praticamente exclusivo, na figura do Médico como centro dos Serviços Assistenciais. Nada mais equivocado. E esse enfoque teve início há mais de dez anos, com o projeto do “Ato Médico”, muito caro às entidades de classe. Mas que transitou  por  longo tempo no Congresso, sob o bombardeio das outras profissões de saúde, absolutamente  inconformadas com papel subalterno a que foram relegadas no Projeto. O que estaria na contra-mão das tendências observadas nos países em que a assistência médica atinge graus elevados de excelência , nos quais profissionais de outras especialidades vêm há longo tempo, e naturalmente, exercendo funções cada vez mais relevantes na esfera assistencial .
Como consequência desse enfoque, foi  adotada no debate a contagem relativa dos médicos  disponíveis para a população geral, praticada no século passado, cravando-se um  número ideal dessa relação, 2 médicos por mil habitantes. Esquecendo-se,  nessa matemática simplista, que a célere introdução de novas tecnologias  médicas, além do concurso de outros profissionais da saúde no diagnóstico e no tratamento dos pacientes, tornou obsoleta essa contagem. Os padrões mudaram. Por exemplo, a  oferta de  leitos relacionados à população, também mudou. As internações são mais curtas e a capacidade resolutiva de instâncias assistenciais de nível intermediário reduziu a necessidade de leitos disponíveis para a população.
O debate sobre Saúde Pública ficou empobrecido. Quase não se falou sobre modelos assistenciais. A importância crucial da Atenção Primária de Saúde  como locus estratégico da organização de serviços na Rede Pública. O debate ficou restrito à criação de obstáculos à execução do Programa por parte das entidades da classe e à capacidade do MS em superá-los. De passagem, foi tocado no tema “carreira de Estado” para profissionais de saúde, mas se avançou muito pouco, considerando a urgência do assunto.
Enfim, o que se presenciou, lamentavelmente, na refrega entre os dois contendores, foi apenas uma visão arcaica do conceito de Saúde, não compatível com os padrões atuais. Recuamos  para o século passado.  A luta(?) não teve vencedores. O mais provável é que o Povo Brasileiro, sobretudo o Usuário carente de serviços públicos de saúde, tenha sido o grande perdedor dessa incrível, espantosa  batalha entre o rochedo e o mar. Vejamos o que  se pode aguardar nos próximos capítulos.
“QUO VADIMUS, DOMINE?

domingo, 20 de outubro de 2013

LÁ E CÁ


"
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
 tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos...
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

(Fernando Pessoa)

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DEUS ALVORECENDO EM NÓS.
Ivam Pinheiro.

Eu quero Deus no amanhecer
abençoado amor para sempre.
O sol brilha apaixonando o mar
do nosso existir - ondas do ser.
Amar no bem que se relembre
a alegria de pássaros no voar.

Que amanheça musa em mim
imã, bem querer que nós valha.
Ter fé é poder ser mar e assim
ser voo ave alvorecendo praia.

O bem do Criador será a meta
de paz, afeto, amor em oração.
A cardial paixão rítmica e astral
no luar é jazz e fulgor temporal.
E em mim amanhece luz certa,
a leveza da beleza no coração.

Que entardeça para trazer lua
na sua ternura venha sorrisos.
Pois, junto de nós chega a rua
que se fosse paz seria paraíso.

Por ínfimos segundos todo voar
dos pássaros são flashes belos.
Areia de praia é porto que atura
onda que bota condição segura.
Clarear de quasar são estrelos
que pulsam distantes na orbe lá.


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sábado, 19 de outubro de 2013




PITADAS DO POETINHA CENTENÁRIO
(Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 — Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980)


O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado.
Vinicius de Moraes
A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.
Vinicius de Moraes
Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos...

Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido... Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre...

Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nos e-mails trocados...

Podemos nos telefonar... conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar... meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo...

Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos...

Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado... E nos perderemos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades...

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!!
Vinicius de Moraes
Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes
Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles. Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver. E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase : ' Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus !' Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxuga-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas ? Sim??? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu . . . Sabe porque ? Porque... Ser seu amigo já é um pedaço dele !
Vinicius de Moraes

LUIS GRECO E ALAOR LEITE
Fatos e mitos sobre a teoria do domínio do fato
A teoria não condena quem, sem ela, seria absolvido. Não dispensa a prova da culpa nem autoriza que se condene com base em presunção
Desde o julgamento do mensalão, não há quem não tenha ouvido falar na teoria do domínio do fato. Muito do que se diz, contudo, não é verdadeiro.
Nem os seus adeptos, como alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, nem os que a criticam, como mais recentemente o jurista Ives Gandra da Silva Martins, parecem dominar o domínio do fato.
Talvez porque falte o óbvio: ler a fonte, em especial os escritos do maior arquiteto da teoria, o professor alemão Claus Roxin. Mesmo os técnicos tropeçam em mal-entendidos, de modo que o público merece alguns esclarecimentos.
Primeiro, um fato. Simplificando (vide nosso estudo "O que é e o que não é a teoria do domínio do fato", RT 933, 2013, p. 61-92), a teoria do domínio do fato define quem é o autor de um crime, em contraposição ao mero partícipe. O autor responde por fato próprio, sua responsabilidade é originária. Já o partícipe responde por concorrer em fato alheio --sua responsabilidade é, nesse sentido, derivada ou acessória.
O Código Penal brasileiro (art. 29 caput), embora possa ser compatibilizado com a teoria do domínio do fato, inclina-se para uma teoria que nem sequer distingue autor de partícipe: todos que concorrem para o crime são, simplesmente, autores.
A teoria tradicional diz que fatos alheios também são próprios; emprestar a arma é matar.
Para o domínio do fato, porém, o autor, além de concorrer para o fato, tem de dominá-lo; quem concorre, sem dominar, nunca é autor. Matar é atirar; emprestar a arma é participar no ato alheio de matar.
Na prática: a teoria do domínio do fato não condena quem, sem ela, seria absolvido; ela não facilita, e sim dificulta condenações. Sempre que for possível condenar alguém com a teoria do domínio do fato, será possível condenar sem ela.
Passemos aos mitos. A teoria não serve para responsabilizar um sujeito apenas pela posição que ele ocupa. No direito penal, só se responde por ação ou por omissão, nunca por mera posição.
O dono da padaria, só pelo fato de sê-lo, não responde pelo estupro cometido pelo funcionário; ele não domina esse fato --noutras palavras, ele não estupra, só por ser dono da padaria.
Parece, contudo, que, em alguns dos votos de ministros do STF, o termo "domínio do fato" foi usado no sentido de uma responsabilidade pela posição. Isso é errôneo: o chefe deve ser punido, não pela posição de chefe, mas pela ação de comandar ou pela omissão de impedir; e essa punição pode ocorrer tanto por fato próprio, isto é, como autor, quanto por contribuição em fato alheio, como partícipe.
A teoria do domínio do fato não é teoria processual: ela nem dispensa a prova da culpa, nem autoriza que se condene com base em presunção --ao contrário do que se lê no voto da ministra Rosa Weber, que fala em uma "presunção relativa de autoria dos dirigentes", e na entrevista de Ives Gandra.
Sem provas, ou em dúvida, absolve-se o acusado, com ou sem teoria do domínio do fato.
A teoria tampouco tem como protótipos situações de exceção, como uma ordem de Hitler. Isso é apenas uma parte da teoria, talvez a mais famosa, certamente a mais controvertida, mas não a mais importante.
Um derradeiro fato. A teoria do domínio do fato não pode ter sido a responsável pela condenação deste ou daquele réu. Se foi aplicada corretamente, ela terá punido menos, e não mais do que com base na leitura tradicional de nosso Código Penal. Se foi aplicada incorretamente, as condenações não se fundaram nela, mas em teses que lhe usurparam o nome.
Não se deve temer a teoria, corretamente compreendida e aplicada, e sim aquilo que, na melhor das hipóteses, é diletantismo e, na pior, verdadeiro embuste.
LUIS GRECO, 35, e ALAOR LEITE, 26, doutor e doutorando, respectivamente, em direito pela Universidade de Munique (Alemanha), sob orientação de Claus Roxin, traduziram várias de suas obras para o rtuguêS.
___________________
Colaboração do Dr. Geniberto Campos, Brasília, DF

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

REMINISCÊNCIAS DA RUA PRINCESA ISABEL E A SAGA DE FLORIANO - "EL BODEGUEIRO" - POR ORMUZ BARBALHO SIMONETTI.






  Parte I 

 A estória começa quando, no final do século 
XIX, o emigrante italiano Paolo Luigi Curcio, 
proveniente da região de Nápoli, desembarca 
no Brasil, possivelmente, pelo porto do 
Recife, porta de entrada de vários imigrantes, 
inclusive os italianos, que no Brasil teve 
como ápice o período compreendido 
entre 1800 a 1930. Rumou 
para o interior do Rio Grande do Norte 
visando maiores e melhores 
possibilidades em sua 
nova vida e se estabelece na cidade de Vera 
Cruz. 
Artesão profissional especializado no 
fabrico de tachos de cobre e assemelhados, 
inicia um pequeno negócio naquela cidade 
do agreste potiguar. 
Tempos depois casa-se com uma 
moça nativa da região da tradicional família 
Ribeiro Dantas. Dessa união nasceram 
diversos filhos e entre eles, Sofia Arlinda 
Curcio (1883/1959). Como um bom 
profissional, ganha algum dinheiro, 
investe no ramo do 
comércio e amplia seus horizontes adquirindo 
terras na região, tornando-se, também, 
proprietário rural e agropecuarista. Por 
diversas vezes ouvira falar em Macaíba, uma
promissora cidade próxima ao litoral, a 14 
uilômetros da capital, que sob a batuta do 
paraibano da cidade de Pilar, Fabrício Gomes 
Pedroza (1809-1872), tornara-se um grande 
entreposto comercial. Com faro aguçado 
para bons negócios, vende todo seu 
patrimônio na cidade de Vera Cruz, 
muda-se com a 
família para Macaíba e inicia um novo 
negócio voltado exclusivamente para o 
amo de estivas, também denominado 
popularmente de secos e molhados. 
Dario Jordão de Andrade, nascido em 
Pirpirituba, microrregião do Brejo 
paraibano, chega à cidade de Macaíba 
em companhia de seu primo Olinto Maciel 
de Andrade, agradam-se 
da cidade e resolvem se estabelecer. 
Tempos depois, Dario casa-se com Dona 
Sofia Arlinda Curcio que passa a se 
chamar Sofia Curcio 
de Andrade. Dessa união nasceram 
seis filhos. 
A exemplo do sogro envereda pelo 
ramo do omércio e se estabelece com 
um pequeno negócio ao lado de sua casa. 
A vida transcorre 
lenta e preguiçosamente naquele final de 
século, o olhar atento de Dona Sofia. 
O primogênito Clóvis fez carreira como 
funcionário federal 
no Recife e ocupou posto de destaque na 
Alfândega daquela cidade. Escritor e poeta 
de grande sensibilidade, deixou algumas 
obras escritas; Nair, mãe de do atual 
presidente do IHGRN Valério Mesquita; 
Nilda, que faleceu solteira; Sofia, mãe 
do nosso confrade Ticiano Duarte; Dario, 
juiz de direito de destacada atuação em 
nosso Estado, pai de Ivan Maciel de Andrade 
e, finalmente, o caçula de todos, o saudoso 
Floriano Jordão de Andrade. 
Em janeiro de 1910, 
falecia Dario Jordão de Andrade aos 
33 anos de idade, quatro meses antes do 
nascimento de Floriano, que veio ao mundo 
em 05 de maio de 1910. Estava sentado em
uma cadeira de balanço na porta de seu 
comércio, numa das tardes fagueiras do 
mês de janeiro, quando foi fulminado por 
um aneurisma, deixando a viúva com cinco 
filhos menores e um ainda para nascer.
Dona Sofia ainda continuou por algum 
empo tocando o comércio com as 
dificuldades inerentes a uma viúva no 
começo do século XX.
 Entretanto, enxergando mais adiante 
Com olhos e coragem de uma autentica 
napolitana, vende o comércio e muda-se 
para a Capital preocupada em oferecer 
melhor educação para os filhos. Então, em 
uma manhã ensolarada, por volta do 
ano de 1918, desembarca em Natal com 
cinco filhos pequenos um para nascer, com 
o receio do desconhecido, e a esperança 
de vencer na cidade grande. Compra uma 
velha bodega que já existia naquele 
mesmo endereço, anexa a uma casa que 
dava frente para a Rua Apodi, n°160. 
Inicia seu pequeno comércio, com vontade 
férrea, própria das grandes mulheres, já 
com comprovada experiência do tempo 
em que exercera a mesma atividade ao 
lado do marido, em sua cidade natal. 
Com o tempo, os filhos cresceram, 
casaram-se, com exceção de Nilda que 
faleceu solteira, e tomaram seus rumos 
pela vida. Somente Floriano, o mais 
novo de todos, continua na casa materna. 
Muito apegado à mãe, desde tenra idade, 
dedicou-se a ajudá-la no atendimento na 
bodega. Quando rapaz inicia um namoro 
com uma moça que trabalhava na casa 
de dona Belarmina Ferreira Gomes, mais 
conhecida como Dona Bela, grande amiga 
de Sofia, que vem a ser a mãe dos Padres 
Monte e Nivaldo, que residia, na época, 
na Avenida Rio Branco n° 777, próximo 
à sua casa. A família não via com bons 
olhos aquele relacionamento, em virtude 
da grande diferença sócio-economica 
e cultural entre os enamorados, 
entretanto, nunca fizeram oposição ao 
relacionamento, respeitada assim, a 
vontade do jovem apaixonado. Com a 
continuidade do namoro, Floriano 
resolve bancar Minervina, era esse o 
nome de sua namorada, e aluga pra 
ela uma casa no bairro das Rocas. 
Posteriormente, resolve transferi-la para 
mais perto, aluga outra casa numa região 
antigamente denominada Salgadeira, que 
ficava próxima ao Baldo, no lado direito 
de quem sobe a ladeira em direção ao bairro 
do Alecrim. Nesse novo endereço, por
ser próximo à bodega, passou a dormir
com mais frequência nos braços 
aconchegantes de Minervina. 
Finalmente, com o falecimento de 
Dona Sofia, ocorrido em 21 de março 
de 1959, Minervina muda-se para a casa 
da Rua Apodi, casaram-se no civil e assim 
permaneceram até o fim de suas vidas. 
Como todo jovem idealista da época, 
admirava do PCB - Partido Comunista 
Brasileiro. Homem de grande inteligência,
leitor compulsivo e autodidata, 
apreciador das teorias do filósofo 
alemão Karl Marx e também 
admirador de Vladimir Ilitch Lenin. 
Nos anos de
intensa repressão aos comunistas chegou 
a dar guarida em sua residência a dois 
líderes tupiniquins do partido: o médico
Vulpiano Cavalcanti(1911-1988) e 
Luiz Inácio Maranhão Filho (1921- dado 
como desaparecido a partir de 03 de 
abril de 1974, em São Paulo-SP). Vez 
por outra, confidenciava a amigos mais 
próximos cheio de orgulho: “ontem 
Vulpiano dormiu aqui em casa”. 
Luiz Maranhão também gozava desse 
mesmo privilégio. Não era ativista, 
nem se envolveu diretamente com as 
ações do partido. Entretanto, como 
simpatizante, mesmo pondo em risco 
sua integridade física e também de sua 
família, mostrou-se solidário aos 
“camaradas” dentro de suas grandes
limitações e parcos recursos (...) ...
HOJE


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

  Imagem Interna
A ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL, Seção do Rio Grande do Norte, perde um dos seus mais valorosos baluartes.
HÉLIO XAVIER DE VASCONCELOS, natural de Macaíba, o filho de Salomão Lima de Vasconcelos e Maria de Vasconcelos, nasceu no dia 26 de novembro de 1932. Cursou Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Norte na turma de 1961. Foi ele que representou o corpo discente na Cerimônia de instalação da Universidade.
Teve uma trajetória brilhante na Instituição, sendo o seu Presidente no período 1993-1995, com registro de vários importantes feitos.Durante sua gestão recebeu a medalha “Djalma Marinho” e fez questão de dividi-la com a própria OAB/RN.


Na gestão do advogado José de Ribamar de Aguiar foi designado para compor comissão para processar estudos preliminares no sentido da criação da Escola Superior de Advocacia (ESA), tendo como companheiros integrantes os colegas  Francisco de Assis Câmara, Hérbat Spencer, Giuseppi da Costa e Marcelo Navarro Ribeiro Dantas.


Na administração de Carlos Roberto de Miranda Gomes, a ESA começa a ser estruturada sob a batuta do seu diretor, advogado Hérbat Spencer, tendo recebido a denominação de Escola Superior de Advocacia  Dr. João Medeiros Filho, em homenagem a esse extraordinário causídico. No entanto, a sua formatação legal só aconteceu na gestão de Odúlio Botelho, com a sua regulamentação, que foi aprovada em 14/11/1991 pela Resolução nº 003/91.

Daí em diante, todos os presidentes passaram a investir na Escola, em particular Hélio Xavier de Vasconcelos que deu especial atenção à Escola Superior de Advocacia, levando-a ao interior através de Adilson Gurgel de Castro como Diretor da ESA. Na nova administração Adilson Gujrgel, foi eleito diretor da ESA o advogado Noel Pinheiro Bastos, que a dinamizou, apresentando um plano de atividades para a ESA com vistas à Semana do Advogado. No final da gestão foi registrada a excelente atuação da Escola Superior de Advocacia.


A administração Hélio Xavier priorizou, também, a defesa das prerrogativas, a luta contra a violência policial e deflagração da campanha para a melhoria da prestação jurisdicional, quando realizou um histórico movimento defronte ao Fórum Judiciário que funcionava no antigo Grande Hotel, na Ribeira, quando então tem início o movimento para a construção do Fórum Miguel Seabra Fagundes. Nesse ato público trouxe a Natal representante do Conselho Federal.

A cerca de 11 anos estava acamado, contando com os cuidados e carinho de Hilda e seus familiares, completando o seu ciclo de vida terrena, praticamente no dia do Professor deste ano de 2013, profissão que também exerceu com brilho e dignidade,