quarta-feira, 30 de janeiro de 2013


   succession
CARTAS DE COTOVELO – 2013.12
Carlos Roberto de Miranda Gomes, escritor-veranista

Vejam só, despertado pela polêmica sobre a passagem ou não de Exupéry por Natal, dei-me ao trabalho de fazer uma releitura de alguns dos seus livros, como relatei em Carta anterior.
Fui além e li outras obras pela primeira vez, como: “Um sentido para a vida” e “Cartas ao Pequeno Príncipe”, além de um ensaio da irmã Rosa Maria: “E o céu sem limite”, Ed. Duas Cidades, São Paulo, 1959.
Petit Prince et la Cape Rouge Arte por Antoine de Saint-Exupéry
Num resumo da minha tarefa, retornei ao referencial maior desse piloto-escritor: “O Pequeno Príncipe” e então constatei o inusitado – buscava uma coisa e acabei encontrando outra, bem mais atrativa, porque invadindo as cercanias do espírito.
Então resolvi selecionar algumas frases e pensamentos resultantes das minhas leituras dos seus escritos e dos de outras pessoas, que podem representar um norte, uma régua ou um compasso para os caminhos a palmilhar.

DE SOLIDÃO
É uma escola para as almas magnânimas, os eternos peregrinos em marcha para a fonte da vida. (Ex)

Para as almas fortes, a solidão se torna o prelúdio da ação fecunda. (irmã RM);

Ai, a solidão vai acabar comigo! (Dolores Duran)

O HOMEM
Os homens são mesmo assim: as provações servem para lhes consolidar lentamente as virtudes.

Temem-se os fantasmas, não se temem os homens.

DE VERDADE
A verdade é aquilo que simplifica o mundo e não aquilo que cria o caos.

A verdade, para o homem, é aquilo que faz dele um homem.

DE NOSTALGIA
A nostalgia é o desejo não se sabe de que.

SOBRE A VIDA
Urge conquistar um sentido para a vida dos homens – a paz ou a guerra. Para salvar a paz basta tomar consciência desse silêncio; Na paz a vida é um círculo fechado.

Viver é nascer lentamente.

A vida sempre destrói as fórmulas feitas.

DE AMOR
Quando um acaso faz despertar em nós o amor, tudo no homem se ordenará de acordo com esse amor, e o amor traz-lhe o sentimento da extensão.

DAR E RECEBER
É preciso dar antes de receber, e construir antes de habitar.

DE DERROTA
A derrota pode vir a revelar-se como o único caminho para a ressurreição, não obstante os seus diminutos atrativos.

A NOITE
À noite, a razão dorme e as coisas são o que são.
HUMILDE, MAS CONSCIENTE = VERDADEIRO


terça-feira, 29 de janeiro de 2013


CARTAS DE COTOVELO - 2013.11
Carlos Roberto de Miranda Gomes, escritor-veranista

A SAGA DOS ARTISTAS NORDESTINOS

No limiar do meu veraneio em Cotovelo, terminei a leitura do elucidativo livro "O Fole Roncou", de autoria dos jornalistas Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, Ed. ZAHAR do Rio de Janeiro, 2012.
Até então tinha noção da trajetória individual de alguns artistas nordestinos, os mais famosos, a partir do Rei do Baião, LUIZ GONZAGA, cujo centenário de nascimento foi comemorado no ano que findou, mas ignorava a verdadeira saga de muitos deles, em especial, da verdadeira corrente de solidariedade que possibilitou, após sacrifícios e sofrimentos, a divulgação para o eixo Rio-São Paulo, o valor e a fibra do nordestino, que justifica o adágio: "o nordestino, antes de tudo, é um forte".
A obra começa narrando a viagem de Câmara Cascudo às entranhas do Rio Grande do Norte, percorrendo 1.370 quilômetros de estrada de ferro, e outros tantos usando transportes os mais diversificados, desde o automóvel, canoa, rebocador até hidro-avião, para constatar que o sertão se esvaía. Tinha então 41 anos e lá se iam os idos de 1934.
Anotou a construção de açudes, o sofrer do homem rural, a insegurança ainda remanescente do "cangaceirismo", enfim, os seus dramas, seus anseios e potencialidades, que foram divididas em dezessete crônicas publicas em A República e depois condensadas no livro "Viajando o sertão".
Dentre os temas desenvolvidos não esquece o estudo de suas danças de antigamente e as estórias transmitidas pelos cantadores e as transformações de costumes ditadas pelo progresso.
Partido dessas constatações começa a história de um novo tempo, entre os períodos de 1920 a 1930 com Seu Januário nos forrós das cidades pernambucanas, então acompanhado pelo jovem Luiz Gonzaga, que aprendeu essa habilidade, passando a ser sanfoneiro afamado, eis que confundido com os cabras de Lampião, pois usava vestimentas semelhantes.
Na verdade, suas vestes tinham a intenção de evidenciar as tradições do sertanejo e homenagear sua bravura, o foi sendo assimilado até ganhar o título de "Rei do Baião".
Em 1950 já era nome respeitado e a disseminação do xaxado e depois o baião, gênero musical que surgiu no Brasil, nas composições de Gonzaga e dos seus grandes parceiros Humberto Teixeira (advogado) e Zé Dantas (médico).
O nordeste estava sendo "sanfonizado", criando escola para dezenas de outros grandes instrumentistas, sem desprezar o velho fole de oito baixos: "Luiz respeita Januário"!
Os primeiros ensaios de sucesso foram surgindo: Penerô Xerém, Cortando Pano, Xamego, Dezessete e setecentos, culminando com as antologias No meu pé de serra, juazeiro, Baião, Qui nem jiló, Assum preto, Baião de dois e Mangaratiba, até o apogeu da monumental Asa Branca.
Vencendo a resistência dos paulistas e cariocas, o consagrado Gonzaga passa a recepcionar outros artistas imigrantes, dando-lhes abrigo de teto, comida e colocação nas emissoras e gravadoras. Nessa levam contabilizam-se Marinês (Rainha do xaxado), Abdias e Cacau, a chamada Patrulha de Choque de Luiz Gonzaga, que veio a criar fama com "Marinês e sua Gente". Seguem-se Zito Borborema e Miudinho.
Paralelamente chega ao Rio o jovem José Gomes Filho (Jackson do Pandeiro) que, vencedor em sua carreira adota o mesmo propósito de Gonzaga, dando guarida aos novos conterrâneos Almira Castilho, Zé Calixto, Antonio Barros, Genival Lacerda, João do Vale, o compositor Onildo Almeida e tantos outros.
O livro é meticuloso e esclarecedor, mostrando os problemas emergentes de cada década, com a incrível transformação de costumes, de ritmos e de instrumentos, o forrock, forró universitário, gênero sertanejo,  numa mistura que, no entanto, não destruiu o tradicional, haja vista o surgimento de novos sanfoneiros e cantores nordestinos, com destaque para Dominguinhos e Anastácia, Alceu Valença, Elba e Zé Ramalho. Desse tempo temos ainda Fagner, Quinteto Violado, Sivuca, Amelinha, Morais Moreira, Waldick Soriano.
As mudanças e os amantes de outros gêneros não ofuscaram o xaxado e o baião, pois houve compreensão e apoio da jovem guarda - Roberto Carlos, Erasmo, Wanderléia, os tropicalistas Caetano, Gal, Gil e Betânia.
Surgem os programas específicos de apresentadores de Televisão ou criadores de programas ao vivo, como "O forró de Zé Lagoa", de Rosil Cavalcanti, Aberlardo Barbosa (Chacrinha), Chico Anysio e outros mais, que deu emprego a muitos imigrantes.
A solidariedade sempre esteve presente entre os nordestinos, mas ganhou espaço entre artistas de outros gêneros, como Antonio Carlos Jobim: Se eu fosse editor, ia buscar no Nordeste: as coisas mais geniais do mundo estão lá., Vinicius de Morais, Angela Maria, do apresentador.
  O Rio Grande do Norte esteve presente nessa corrente através dos meninos do Trio Irakitan (Edinho, João e Gilvan), Elino Julião, Trio Mossoró (Oséas, Hermelinda e João Batista), e até de um médico-compositor potiguar Janduhy Finizola, que consagrou a "Missa do Vaqueiro", em homenagem a Raimundo Jacó, primo de Gonzaga, pelo menos.
Muitos empecilhos à normalidade dos nordestinos aconteceram com os festivais da Televisão, mas outros tantos também vieram em alento, como o Projeto Pixinguinha e outros semelhantes.
Hoje vivemos a moda das casas de show, onde o forró se faz presente, fora dos discos, mas criando o interesse de divertimento e com isso garantindo a sobrevivência, dando ensejo às bandas Mastruz com Leite, Calcinha Preta, Aviões do Forró, Cavaleiros do Forró, Garota Safada, etc.
Prolifera a "apelações", com letras de duplo sentido,
Mesmo diante de sucessivas crises, certamente a música nordestina nunca será esquecida, mercê dos velhos artistas que ainda estão na estrada e novos nomes, como Oswaldinho, Waldonys. Chico Cesar, Jorge de Altinho, Dorgival Dantas, Genário e outros mais.
Sei que esqueci muitos outros nomes. Perdoem, mas o importante é ler o livro!
O fole nunca mais deixou de roncar!

"Porque o que se leva dessa vida, coração, é o amor que a gente tem pra dar."
(Antonio Barros e Cecéu, consagração na voz de Marinês)










Dois Tempos - Khrystal com a Orquestra Sinfônica do RN


domingo, 27 de janeiro de 2013

 

A CONFRARIA DA LIVRARIA CÂMARA CASCUDO PERDE O SEU DECANO

No final do ano que passou escrevi uma série de artigos sobre a morte das livrarias, narrando a sua importância, não apenas para difundir as obras dos escritores, mas por dar guarida a intelectuais que a elas se agregam ao longo dos anos.
No segundo artigo, denominado MORRE OUTRA LIVRARIA (Parte II), fiz a narrativa da nossa trajetória, nos termos seguintes:          
        
         "Não durou muito tempo e fomos convidados por Marconi Macedo, gerente da Livraria Câmara Cascudo e que trabalhara na Universitária e na Potylivros, para continuarmos em nossos encontros num terceiro grupo, com os mesmos Inácio, Bob, Gilvan, Carlos Gomes, Manoel Onofre Junior, Palocha, Manoel Moura, Soares, José Maria, acrescido agora de Manoel Sergio(Juiz), Dr. José Pinto, Pedro Vicente, Edson Gutemberg, Racine Santos, Francisco de Paula Medeiros(Alma de Vaqueiro), o oriental Satoro e, esporadicamente, Volonté, Homero, Ney Leandro de Castro, Antônio Capistrano, Wandyr Villar, Tarcísio Gurgel e outros."

Hoje, com pesar, registramos que o nosso confrade DR. JOSÉ PINTO partiu para outra dimensão da vida. Homem bom, ameno, apesar da sua idade vetusta, participava das brincadeiras da turma, que o apontava como possuidor de terras com petróleo e ele, com um sorriso largo, retrucava que dinheiro ganhava o Desembargador Manoel Onofre e tudo terminava em boas risadas.

Esteja certo, querido amigo, que a sua presença será sempre registrada em nossas tertúlias. Você não levará falta, pois está justificada a sua partida. Fique agora com Deus e participe da confraria dos que se foram antes, como o Clube dos Inocentes, tendo à frente Cascudinho e Professor Saturnino. Nós nos veremos em breve.

(na foto o Dr. José Pinto é o terceiro da esquerda para a direita)

COISAS DO COTIDIANO EM FORMA DE POESIA

"ELOGIO DA PREGUIÇA
Juvenal Antunes

Bendita sejas tu, preguiça amada,
Que não consentes que eu me ocupe em nada.
Mas, queiras tu, preguiça, ou tu não queiras,
Hei de dizer em versos, quatro asneiras.

Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.
Está na Bíblia esta doutrina sã:
Não te importes com o dia de amanhã.

Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.
Oh! Sábios! Dai à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento.

Todo trabalho humano em que se encerra?
Em, na paz, preparar a luta, a guerra.
Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões.

Juristas que queimais vossas pestanas,
Tudo o que legislais dá em pantanas.
Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas.

Cresce o teu filho; é forte, é belo, é louro.
Mais uma rês votada ao matadouro,
Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz,
Que arda depressa a colossal fogueira
E morra, assada, a humanidade inteira.

Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar fosse indolente?
Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim do mundo é sempre o nada, a morte?

Queres riquezas, glórias e poder...
Para que, se amanhã tens de morrer?
Qual mais feliz, o mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro,
Ou seus antepassados que, selvagens,
Comiam livremente nas pastagens?

Do trabalho, por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas.
Talvez o sejam mais, vivendo em farras,
As preguiçosas, pálidas cigarras.

Oh! Laura! Tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei à hora da entrevista,
E que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor por outro amor,
Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal...

Que não me faças mais essa injustiça!
Se ontem, não fui te ver, foi por preguiça.
Mas, Juvenal estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir, sonhar!"


Mote de Sebastião Siqueira (Beijo)
Dedé Monteiro

(NA ÍNTEGRA)

Nunca pensei na velhice,
Mas a danada chegou…
E o seu fantasma me disse
Que o tempo bom acabou.
E o mesmo tempo, sisudo,
Me quis despojar de tudo,
Desmoronando os meus planos.
E, pra maior pesadelo,
Jesus pintou meu cabelo
Co’a tinta branca dos anos.

O tempo passa veloz,
Deixando tudo em desgraça.
Nós nem pensamos em nós
Tão veloz o tempo passa.
Eu mesmo, em mim, só pensei
Depois que velho fiquei,
Depois de mil desenganos…
Já não represento nada,
Tendo a cabeça pintada
Co’a tinta branca dos anos.

Tudo na vida se acaba…
A mocidade, também.
A juventude se acaba
Quando a caduquice vem.
Sinto que a morte me afronta
E que a consciência conta
O meu tempo entre os humanos.
Vejo os meus dias contados
Nos meus cabelos pintados
Co’a tinta branca dos anos.

A tinta que o tempo bota
Sobre a cabeça da gente
É d’uma que não desbota,
Permanece eternamente.
Tem gente que compra tinta,
Mete na cabeça e pinta,
Só pra nos causar enganos…
Mas é besteira do povo.
Depois sai cabelo novo
Co’a tinta branca dos anos.
  C O R T  A R  O  T E M PO
Carlos Drummond

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
A que se deu o nome de ano,
Foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
Fazendo-a funcionar no limite da  exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
E entregar os pontos,,
Aí entra  o milagre da renovação
E tudo começa outra vez, com outro número
E outra vontade de acreditar que
Daqui prá diante vai ser diferente.

*****
MORO NO NORDESTE, SOU DE NATAL
Ivam Pinheiro.

Essa é a minha Terra Potiguar
Beleza pura demais à encantar
Olhares na natureza tão linda
Natal com seu litoral nos brinda.

Moro na Natal que namora o mar.
No Potengi rio e durmo na redinha
que nina na brisa do mar o sonhar,
o sol da manhã e lua quase minha. 

Pode ser minha a lua, se for amor
ou talvez do cantor - eu, menino
poeta potiguar de uni.versos à pôr
sinais de realeza no lar nordestino 

Essa é a bela terra de tanta luz
de Poti - Felipe e Clara Camarão.
Nação Natal do ABC no coração
e da Praieira do amor que seduz.

Seduzir tem minha cidade e lugar
Seu povo cordial faz o bem valer
e meu coração bate e tem prazer
de dizer que Natal é feita de amar. 

"Prece do Agradecimento" por Maia Pinto

Nós vos agradecemos
Menino santo
Por todos os dias que nos destes

Nós vos agradecemos
Menino santo

Pela saúde que temos
Pelo pão que comemos todos os dias

Nós vos agradecemos
Menino santo

Pelo amor que recebemos
Dos nossos pais
Dos nossos irmãos
Dos nossos filhos
Dos nossos parentes
Dos nossos amigos

Nós vos agradecemos
Menino santo

Pelo afeto das nossas namoradas
E dos nossos namorados
Pelo beijo das nossas noivas
E dos nossos noivos
Pela cumplicidade amorosa
Das nossas mulheres
E dos nossos maridos

Nós vos agradecemos
Menino santo

Pelos filhos que temos
Pelos filhos que somos

Nós vos agradecemos
Menino santo

Pelo poder que nos destes
De mitigar a fome dos famintos
De levar a água à boca que tem sede

Nós vos agradecemos
Menino santo

Pela ferida que sarou
Pela dor aliviada
Pela lágrima consolada

Nós vos agradecemos
Menino santo

Pela caridade que tivemos
Para tocar na chaga
Do irmão ferido

Nós vos agradecemos
Menino santo

Por tudo que recebemos
Por tudo que podemos dar

E agradecemos
Menino santo

Acima de tudo
Por terdes plantado em nós
A milagrosa semente do amor



sábado, 26 de janeiro de 2013




CARTAS DE COTOVELO-2013-10
Carlos Roberto de Miranda Gomes, escritor-veranista

COINCIDÊNCIAS

Não sei explicar a atração que os mais velhos têm pelas coisas passadas, como guardadas no recôndito da alma, para aflorarem em momentos oportunos.

Outra vez, na placidez do meu alpendre da casa de Cotovelo, fico em devaneios com as minhas leituras, ligando os fatos de um tempo bom que passou.
Agora terminei de ler o livro sobre Dolores Duran, do jornalista Rodrigo Faour, que oferece passagens da vida daquela extraordinária cantora-compositora que coincidem com a minha passagem pelo rádio, no curto período de 1948-1954.
Primeiro, o gosto pelo repertório de Edith Piaf, Noel Rosas e os bolerões de Gregório Barrios,   Bienvenido Granda,  Fernando Fernandez e as canções de Frank Sinatra e Charles Aznavour.
Depois as emoções dos bastidores – a primeira temporada fora do seu lugar, ela e eu, no período 1950/1951, respectivamente para Vitória(ES) e Forteleza(CE), onde travamos conhecimento com pessoas notáveis e fundamentais para a carreira. Da minha parte registro o compositor Luiz Assunção, que me presenteou, com dedicatória, a partitura do samba-canção “Que linda manhã” e que guardo até hoje com muito carinho e que anos depois foi gravada por Rinaldo Calheiros; o maestro Mozart Brandão, com quem fiz algumas apresentações e foi também arranjador de Dolores, que então se transferira para a Tupi de São Paulo; o violonista Evaldo Gouveia, hoje estrela de primeira grandeza no cenário musical do Brasil.
Foi nessa época que fiz a minha primeira e única gravação, cujo resgate do disco desgastado pelo tempo e dado como imprestável, foi salvo pela competência do técnico carioca Fernando Acar, juntamente com outra relíquia gravada em um gravador de fio, nos idos de 1949 e transportado para um acetato, tendo de um lado um trio que veio a se chamar Irakitan, cantando a canção “Você não sabe amar” e no outro lado eu cantando “Sin ti”, acompanhado pelo trio. Os componentes do trio – João, Edinho e Gilvan jamais tomaram conhecimento dessa gravação, pois só a resgatei após a morte dos três.
Dolores dominava os idiomas inglês, francês e espanhol e eu arranhava o “castelhano” e o “italiano”, chegando a gravar um programa de aniversário da Rádio Poti nos idos de 1953 ou 1954, com as músicas “Novillero” e “Encantesimo”, nas línguas de origem e que delas nunca mais tive notícias. Lembro que o discotecário de então era o radialista Eugênio Neto.
Outras coincidências – nossa estatura de menos de 1,60m, que ensejaram apelidos - ela conhecida como “um pinguinho de gente” e eu era “o cantor mignon”, tanto que às vezes, para alcançar o microfone (cabeção), usava o  - banquinho do maestro.
Tudo o que ela cantava fazia parte do meu repertório eventual, pois o meu forte era o repertório de Silvio Caldas, Augusto Calheiros e Paulo Molin, este último chegou a fazer um programa com Dolores e Déo (o ditador de sucessos), denominado “três num só” e eu cheguei a cantar em programas com Molin e Déo, aqui em Natal.
Seus artistas preferidos também eram os meus – Sílvio Caldas, Angela Maria, Elizeth Cardoso, Dóris Monteiro, Ivon Curi, Lúcio Alves e Caubi Peixoto.
Tivemos amigos comuns – os meninos do Trio Irakitan, fomos eleitores no mesmo ano, 1958. Éramos constantes leitores da Revista do Rádio e Radiolândia e do escritor escocês A.J.Cronin, que representou para mim o despertar pelo gosto pelos livros.
Fomos pintores amadores e alimentávamos temas ligados à solidão. Registro, da mesma época , sua composição "Fim de caso": Eu desconfio, que nosso caso está na hora de acabar" ...   enquanto eu compus "Tudo, terminou": "Afinal, terminou nosso amor, mas de um modo banal. Afinal acabou, esse nosso idílio irreal"...
Nossos grandes momentos aconteceram em 1954, mas com efeitos completamente opostos, pois Dolores deu impulso à sua carreira que duraria somente até 1959, com seu falecimento aos 29 anos e eu abandonei o rádio, quando já tinha contrato com a Rádio Tamandaré de Recife e possibilidade de gravação na Rosenblit, tendo sido o contrato cumprido por Agnaldo Rayol, optando eu pela dedicação aos estudos, o que me proporcionou incontáveis vitórias e me sustentam além dos 70 anos – coisas do destino!
Fica o lamento de nunca ter conhecido Dolores pessoalmente, pelo menos neste plano existencial, mas a sua voz ainda encanta os meus ouvidos e enleva a minha alma.
Está vendo Didi Avelino, o presente que você me deu de Papai Noel? 

Por José Romero Araújo Cardoso*



ALTEMAR DUTRA, O ETERNO

 "REI DOS BOLEROS"





A voz inigualável de Altemar Dutra imortalizou grandes sucessos musicais, principalmente diversos de autoria da genial dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorim, chegando a ser conhecido como o “rei dos boleros".



Impressiona a técnica musical que se tornou marca registrada de Altemar Dutra, pois a sonoridade precisa embalou paixões e amores perdidos ao longo de décadas, tornando-se um dos artistas preferidos de quem cultua os segredos da alma e do coração.



O passaporte para fama teve seu registro através da ajuda do amigo Jair Amorim, pois antes de completar a maioridade manteve contato com o consagrado compositor através de carta de apresentação, pois já apontava para o sucesso em Colatina (ES) quando encantou expectadores da Rádio Difusora interpretando sucesso de Francisco Alves.



Levado em 1963, por Jair Amorim, para se apresentar no programa Boleros Dentro da Noite, na Rádio Mundial, Altemar Dutra foi conduzido no mesmo ano, por Joãozinho, do Trio Irakitan, para a Odeon, onde foi contratado e logo se tornou sucesso nacional quando da gravação de Tudo de Mim, grande sucesso de autoria de Jair Amorim e Evaldo Braga.



O gênero musical que caracterizou Altemar Dutra logo se tornou febre nacional, pois romântico por excelência, as interpretações daquele que se transformou em um dos maiores artistas musicais brasileiros conseguiram atingir o imaginário de todos que buscam refúgio nos refrães de belas canções a fim de entronizar universos particulares marcados pela complexidade da própria psicologia humana, na qual o amor, a paixão e os devaneios ocupam lugares proeminentes.




Sublime interpretação de El bolero se canta así, contida em LP gravado em parceria com Lucho Gatica rendeu-lhe reconhecimento em toda a América Latina, tendo em vista que suas versões em espanhol chegaram a vender mais de 500 mil cópias. Altemar Dutra caiu no agrado popular nos países hispânicos em razão de sua voz belíssima e de suas canções que tocam fundo na alma das pessoas que valorizam sentimentos peculiares aos amantes da boa música.



A comunidade de origem latina, radicada nos Estados Unidos, também se agradou da voz e das canções do humilde e simpático brasileiro. A partir de 1969, Altemar Dutra conquistou milhares de fãs entre imigrantes que falam espanhol e seus descendentes radicados na maior potência do globo.  



Em 1977, gravou o LP “Sempre Romântico”, no qual se encontra a interpretação da versão de Margherita, música italiana popularíssima na península européia onde se originou as línguas latinas. Margarida, em minha opinião, transformou-se em símbolo do romantismo de Altemar Dutra, sendo cantada até hoje em serestas, as quais, invariavelmente, cultuam a memória do grande trovador brasileiro.



A música que ele pediu para que fosse lembrado tem o título de “Brigas”, de autoria de Evaldo Braga e Jair Amorim, pois ode maior ao amor e à reconciliação, em sua belíssima interpretação se tornou sinônimo de recomeço e apelo ao instinto racional que nem sempre envolve relações a dois.



No dia nove de novembro de 1983, pouco depois de ter completado a idade de quarenta e três anos, tendo em vista que nasceu no dia seis de outubro de 1940, Altemar Dutra sofreu um derrame cerebral em Nova York (EUA), quando se apresentava em um show para a comunidade latino-americana no clube noturno “El Continente”.



A sua morte foi sentida por todos que cultuam a beleza de interpretações singulares de clássicos imortalizados em sua voz, os quais nunca hão de se apagar da memória de quem sabe dar valor aos encantos da salutar sonoridade que o transformou em ícone da MPB.



*José Romero Araújo Cardoso é Geógrafo e Professor-adjunto IV da UERN.  

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013


CARTAS DE COTOVELO – 2013.9

Carlos Roberto de Miranda Gomes, escritor-veranista

Neste 23 passado, foi um dia de graça para mim. Logo cedo, no Supermercado Nordestão encontro-me com o Dr. Ernani Rosado e D.Madalena, que me entregaram cópia do filme “Amor de Outono” (Le Blé en Herbe), produção da Franco London Filme, sob direção de Louis Wipf, a que fiz referência em uma das primeiras Cartas de Cotovelo, edição 2013.
O filme é de 1954 e devo tê-lo assistido nesse mesmo ano, quando ainda adolescente e, seu enredo, muito bem se amoldava aos meus anseios, daí o haver incorporado aos meus devaneios juvenis, haja vista se passar com um jovem (Pierre-Michel Beck), mais ou menos da minha idade e num período de veraneio, como era do meu costume, lugar onde as aventuras afloravam com maior intensidade.
No meu comentário confundi o ator que encarnava o personagem “Philippe”, como se fora Gino Leurini, de origem italiana, quando foi o francês Pierre-Michel, contracenando com Nicole Berger, personalizando “Vinca”, que nutria por Phil um amor platônico, com a indiferença deste, até travar, por acaso, conhecimento com a “Madame Dalleray”, interpretado pela atriz Edwige Feuillère, de idade já madura, que protagonizou la prima volta do amor carnal de Phil.
Consumado o idílio, o jovem adolescente é imbuído de sentimentos diferentes, quando se depara com uma dupla situação, entre um amor inocente da menina-moça, ainda não assumido, interrompido por uma louca paixão, consumada com o encontro da sexualidade, que lhe proporciona o amadurecimento inusitado, que até então não cogitara.
Naquele momento de amor ele se desconhece ao olhar no espelho e em seguida toma quase que um banho de água benta disponível costumeiramente em pequenos santuários de estrada, muito comuns nas cidades europeias de então, como para lavar o espírito conturbado.
Voltando à razão, reconhece que tudo não passara de uma aventura e então tem a sua atenção despertada para a pureza de Vinca, coincidindo com o retorno de Dalleray à Paris.
Verifiquei, então, que havia retornado quase 60 anos no tempo. Fiquei com a paz de criança dormindo e, diferentemente dos dias comuns, só acordei depois das 8 horas.
Que belo presente!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


G R A T I D Ã O




CARTAS DE COTOVELO – 2013.8
Carlos Roberto de Miranda Gomes, escritor-veranista

APOLOGIA DA PREGUIÇA

A preguiça, segundo os léxicos, é um estado de inação que inibe a apetência para o trabalho.
Na conceituação dada pelo costume, é um torpor que reduz a atividade laborativa.
Pode até ter todos esses significados e ser algo não condizente com o normal.
Contudo, quando se está num veraneio, diria que a preguiça vira um estado de graça para o corpo cansado de guerra  a merecer uma justa reparação, indiscutivelmente prazerosa e bemfaseja.
Assim diz um poeta, que Odúlio Botelho colheu o nome através de Gilson Barbosa, sobrinho  do grande Gil Barbosa, como sendo VERÍSSIMO DE MÉLO:


Coisa boa é querer bem
Ter alguém, namorar.
Coisa boa é um xodó,
um fobó, vadiar.
Coisa boa é o mar e o luar,
É caju com pitu,
Cafuné, cochilar.
.......
Esses versos são um prelúdio à preguiça, sobretudo em sua estrofe final:

Coisa boa é tudo isso que se diz e que se faz
Na hora que a gente quer.
Coisa boa é uma casa,
Numa praia, num alpendre,
Uma rede e uma mulher.

A lembrança me trouxe essas coisas e, preguiçosamente resolvi anotar em um caderno, pois após um bom churrasco e a brisa que sopra do mar não permitem que demore muito fora do ventre da minha rede.
Aaahhaaarrr ..... coisa boa é ...... 


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


o acervo do diário de natal


Mais uma vez O NOVO JORNAL sai na frente para reivindicar um destino correto para o acervo deixado pelo DIÁRIO DE NATAL, que encerrou sua edição impressa e também a virtual, entrevistando intelectuais e instituições potiguares.
Ainda ontem recebi telefonema de Valério Mesquita, futuro presidente do IHGRN preocupado com o assunto e propondo uma ação junto aos Poderes Executivo e Legislativo.
Com a edição de o NJ de ontem, lembro que fui um dos primeiros a abordar o assunto, em meu blog, edição que agora reproduzo:


SÁBADO, 6 DE OUTUBRO DE 2012

Um final pouco feliz
CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES, advogado e escritor

No último dia 2 deste mês de outubro do ano de 2012, a sociedade potiguar teve uma surpresa desagradável – a comunicação do encerramento da circulação impressa do tradicional DIÁRIO DE NATAL.
Fundado no momento histórico da eclosão da Segunda Guerra Mundial, esse jornal, mercê da importância estratégica da cidade de Natal, tornou-se um veículo consultado em todo o Brasil e em algumas partes do mundo, haja vista a sua conexão com o palco do conflito bélico.
Sua criação aconteceu no dia 18 do mês de setembro de 1939, contando,por conseguinte,com a vetusta idade de 73 anos, quase exatamente com o meu nascimento, oito dias antes.
Inicialmente foi denominado simplesmente “Diário”, por Valdemar Araújo, Aderbal de França, Djalma Maranhão e Rivaldo Pinheiro, mas em abril de 1942 foi vendido ao empresário Rui Moreira Paiva e, em 25 de janeiro de 1945 foi comprado pelo grupo Associado, de Assis Chateaubriand, que mudou o seu nome para O DIÁRIO DE NATAL em 4 de março de 1947, assim permanecendo até os dias presentes.
Sua sede, inicialmente, foi na Rua Dr.Barata, depois na Frei Miguelinho, em seguida na descida da ladeira da av. Rio Branco, já no começo da Ribeira, passando para as novas instalações da ladeira da av.Deodoro, onde também funcionava a Rádio Poti, sob o comando do destemido e controvertido jornalista Luiz Maria Alves e somente em 2010 transferiu-se para a nova sede do Centro da Zona Norte de Natal.
Foi considerada a maior escola de jornalismo do Estado, por ela passando articulistas da maior envergadura e que fizeram novas escolas e fundaram outros jornais, como no caso de Vicente Serejo e Cassiano Arruda. Escritores consagrados foram seus colaboradores e o jornal passou a compor o patrimônio cultural do Rio Grande do Norte.
Em 29 de julho de 1954 foi criado o jornal “O POTI”, que substituía a circulação de O Diário de Natal nos dias de domingo.
Pioneiro em modernização técnica de impressão, atravessou alguns momentos de dificuldades o que lhe obrigou a retirar de circulação “O Poti”, depois retornando, atendendo aos insistentes pedidos da população.
Fez publicações memoráveis sobre a história da cidade e de pessoas ilustres, em capítulos, depois condensados em livros.
Tive alguma vivência com o jornal, pois trabalhei na Rádio Poti e conduzia matérias de divulgação da parte artística, a pedido do jornalista Sebastião Carvalho e cheguei até a gravar músicas com a orquestra de Julio Granados, ao tempo do Dr.Edilson Varela, mantendo programa semanal com Agnaldo e Selma Rayol, além de participar dos programas de Luiz Cordeiro e Genar Wanderley.
Na qualidade de tradicional assinante e ainda com contrato válido, estranhei a falta de informação sobre o assunto, senão pela lacônica comunicação, que considero desrespeitosa e que põe em risco o conceito de um veículo que fez história e cujos arquivos devem ser recolhidos a um banco de dados acessível aos pesquisadores.
O Ministério Público deve atentar para alguma providência, pois se trata de material histórico que ganha foros de documentos de utilidade pública.
Ontem, na sessão plenária da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Rio Grande do Norte, que tinha um espaço aos sábados, propus um voto de protesto pelo acontecimento.
Louvo a reportagem de O Novo Jornal sobre o assunto e a manifestação de inúmeros intelectuais e jornalistas. Seria de grande valia uma entrevista com o Dr.Eider Furtado, um dos pioneiros da imprensa potiguar.
ONDE ESTÁ O RESPEITO AO CIDADÃO?

Embora esteja ainda fora de Natal, oferto o meu integral apoio ao movimento e até renovo o apelo que fiz ao Ministério Público e à OAB/RN, em nome da preservação da nossa memória histórica:


O Ministério Público deve atentar para alguma providência, pois se trata de material histórico que ganha foros de documentos de utilidade pública.
Ontem, na sessão plenária da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Rio Grande do Norte, que tinha um espaço aos sábados, propus um voto de protesto pelo acontecimento.