terça-feira, 30 de dezembro de 2025


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PERSONALIDADE

MULTIFACETADA

Marc de Groot: em busca de um tempo perdido

                                                                                                                                                                       


                                                                                                         


MÁRCIO DE LIMA DANTAS

Especial

Triste de quem vive em casa Contente com o seu lar Sem que um sonho, no erguer de asa Faça até mais rubra a brasa Da lareira a abandonar!

Fernando Pessoa

Marc de Groot nasceu em Eindhoven, Holanda (1963). Reside hoje em Ponta Negra, Natal. Arquiteto paisagista, durante sua formação estagiou um ano na Alemanha e outro nos EUA. Aqui no Brasil, cursa o sexto período de Psicologia. Personalidade multifacetada, dedica-se a diversas atividades sempre relacionadas ao estético e suas adjacências. Fornece design de joias, quase sempre voltadas para a confecção de anéis.

Como todo e qualquer holandês, é conduzido pela pontualidade e pelo perfeccionismo, gostando de contratos sérios e levando em conta suas razões interiores. Por exemplo, determina os materiais a serem usados nos anéis, preferindo ouro e prata legítimos. Sempre combina cores das pedras, justapondo opostos e acarretando um efeito estético de rara beleza e preciosidade. Entre as pedras que utiliza estão granada, ametista, topázio, turmalina e água-marinha.

Eis que temos a valia e o valor em uma boda de grata satisfação, para quem contempla ou adquire uma peça e deseja o melhor, pois o barato sempre sai mais caro. Mais adiante veremos como esse manuseio de cores antípodas reverbera de maneira insistente em sua pintura.

SÁBADO, 27 DE DEZEMBRO DE 2025

Quando tinha quatro anos, sua irmã mais velha, com doze, ensinou-lhe matemática e cálculo. Simultaneamente, sua pequena professora e cúmplice conseguiu compreender o funcionamento da gramática interna da psiqué de seu irmão. Logo percebeu que era alguém talhado para desenvolver coisas do espírito, pela sensibilidade e pela maneira como reagia aos afetos dos pais. Assim, incitou-o a desenvolver esse talento latente. Ora, já na caligrafia, fazia com primor o desenho das letras do alfabeto.

Logo matriculado no ensino formal, nada foi difícil ou incompreensível, pois sabia ler e escrever. O tempo que os colegas de classe dedicavam às noções básicas da língua e da matemática, ele já empregava no manuseio dos lápis, engendrando desenhos que o exultavam interiormente, aplacando anseios emanados de um menino.

Com efeito, as imagens que repousam no inconsciente, podendo se transmutar em palavras quedadas em espera de eclodir, não estão vinculadas à idade. Um olhar arguto contempla o modo de andar, o semblante, o timbre de voz. Desse modo, se fizer uma aposta consultando seu coração e seus oráculos interiores, dificilmente perderá o valor do que se apostou. E vero: tatear a maneira como funcionam os cinco sentidos não apenas dá prazer, mas também pode ser um elemento incentivador de um talento em esboço.

Vejamos suas esculturas: pedras de alabastro (uma forma de calcita branca, carbonato de cálcio, translúcida e macia para ser esculpida). Na Antiguidade, era usado para confeccionar vasos condutores de óleos e perfumes e, no Egito, para vasos canopos, portadores das vísceras retiradas do corpo do faraó a ser mumificado. São bem mais maleáveis para se trabalhar, vindos da Espanha, Itália e Portugal.

Marc de Groot limita a escultura aos torsos nus, como se quisesse afirmar domínio sobre a técnica de esculpir, talvez não valendo se estender por peças de corpo inteiro. Ocorrem ausências de rostos e semblantes, restritos ao tórax e às pernas, sempre permitindo entrever as partes mais voltadas para a sensualidade de um corpo nu que se expõe: peitos, ombros, genitália e nádegas.

Também trabalha com torsos de costas, sempre nus, dotados de sensualidade e de um silêncio que declara se encontrar pleno de si próprio, numa posição que remete a um sinal de aceitação do corpo, apesar dos defeitos e limites. E, se quisermos tatear as áreas relacionadas aos sentidos, inclusive a intuição, nada em seu corpo remete à autopunição ou a uma lascívia autopunitiva.


Sua trajetória no seio da pintura a óleo se encerrou aos 32 anos, devido ao fato de precisar estar sozinho para empreender os trabalhos relativos ao ato e costume de pintar. Casou-se, perdendo essa benfazeja solitude cultivada desde sempre. Parece existir uma incondicional escolha de se contentar consigo mesmo. Essa é uma tendência contemporânea, cujas declarações de pessoas com projeção social deixam transparecer essa busca por recolhimento.

Ao que parece, pelo físico longilíneo, magro, voz pausada e olhar natural dentro do olho do interlocutor, possivelmente possui um temperamento saturniano, buscando em terras de luto atenuado a solidão que tanto o gratifica, que tanto diz dele, que tanto necessita para ter ânimo e enfrentar com coragem e resiliência o dia bastante duradouro, já que desperta muito cedo e logo levanta, faz café e fuma algum cigarro.


                   

                                                                                                     

Apesar desse hábito de quedar-se diante de si mesmo, não rejeita o convívio social, tanto na faculdade quanto recebendo amigos em seu flat. E uma pessoa extremamente acolhedora como anfitrião no local onde reside.

Após 30 anos sem a paleta e os pincéis, retornou ao seu pendor nunca apagado. Precisou apenas dominar as técnicas da tinta acrílica, abandonando o óleo. As brasas do talento estavam apenas quietas, até que, por uma determinação interior, logo o fogo assomou, límpido e claro, a iluminar regiões pelágicas do seu ser, no qual se depositam as imagens do humano. Trouxe primícias que a todos surpreenderam, por serem diferentes do que era sua dicção estética de outrora.

Até parece que nada é por acaso: a vida se aproxima de modo sutil, sem ser explícita no que demanda da gente. O fato de ter vindo morar no Brasil levou, quase naturalmente, a iniciar uma vita nuova, tanto em relação a cursar outra faculdade quanto à renovação da índole do artista que se encontrava adormecido.

Vejamos como se caracteriza sua dicção estética no que concerne à pintura. E necessário partir da paleta cromática, do manejo das cores, pois o uso de suas cores se encontra em adjacências mais dramáticas do que líricas. Como sucede com artistas que se dirigem às paisagens naturais, com o intuito de expressar uma busca por um ambiente bucólico.

Observemos como isso acontece em Marc de Groot. Podemos contemplar conjunções de cores mais fortes, tais como um azul escuro, um verde mais puro, um amarelo-fogo, um roxo fechado, um lilás esmaecido. Por meio do manuseio dessas tintas antípodas, elabora conjunções de grande beleza plástica, sempre buscando imprimir um caráter dramático à retratação de paisagens da natureza.

Com efeito, poderia ser a busca de um locus amoenus, mas não vigora esse sentimento, tão querido pelos românticos. Há outra forma de os românticos representarem a realidade. Existe uma tradição da pintura romântica de paisagens naturais em ambientes fechados, sombrios, em que o humano se encontra só, contemplando a natureza de maneira extremamente melancólica.

Ora, quando os românticos se fizeram retratar em paisagens distantes do urbano, estavam felizes em balanços pendurados em árvores, faziam uma pausa na diversão, comiam alguma coisa sobre tapetes ou panos. Com certeza não é o caso dos nossos artistas, voltados, talvez, para uma projeção de seu estado atual.

Muito mais se percebe a sugestão de imagens voltadas a inventar composições nas quais o sombrio e o fechamento da ambiência estão presentes para conclamar o espectador. E perquirir, afinal de contas, quais as razões que o conduzem a se expressar dessa maneira. A morte ainda está bem próxima. O luto apenas deu início ao seu rosário de penas.

Com efeito, há que se deter sobre cada conta que forma o rosário, vindo às súplicas do nosso comportamento diante do morto. Na verdade, é uma elaboração por meio do bom senso, de entrega, de busca do que aquela pessoa que se foi nos deixou de sabedoria, de momentos bons, de um tempo duradouro, visando enfatizar o que as relações afetivas podem nos proporcionar de bem e de bom. Essa é a necessidade inexorável do trabalho de luto, deixando o outro estar como presença ausente. Essa postura nos diz do que se encontra no processo de compreender o comportamento de quem partiu tão cedo.

E preciso insistir nessa obstinação em plasmar em telas com acrílica, basicamente duas cores opostas: o amarelo-fogo e o azul-escuro, podendo aparecer o verde como elemento para separar as duas cores primaciais. Ocorre que essas marcas criadoras de uma atmosfera sombria e dramática hesitam, às vezes, entre o figurativo e o abstrato. Lembro aqui as marinas de Dorian Gray e Goreth Caldas, nas quais se atesta uma dúvida: se é uma paisagem marítima ou se é um exercício abstracionista.

Ainda as retratações do mesmo topos: paisagens naturais, com um foco invariante, persistente na maioria das telas, cuja presença é uma ou mais árvores. Repetem-se as cores já citadas, reverberando um ambiente em ausência de luz solar. Curioso é ser possível um traço assinalando quase todo o conjunto dos quadros nos quais as plantas estão presentes: há uma reclinação, como se tivessem crescido com o sopro de um vento mais forte.

O artista logra êxito ao plasmar com mais intensidade a árvore ocupando todo o centro da tela, manuseando a paleta com suas cores preferidas: o verde da árvore, o amarelo das terras desprovidas de vegetação rasteira, o azul intenso e o roxo, sempre funcionando como plano de fundo ou preenchendo toda a parte superior da tela.



Essa justaposição de cores não é recorrente na maioria dos pintores, haja vista o resultado: uma aparência lúgubre, escura, em que não há a iluminação do sol. E, quando ocorre a luz, esta vem da presença de um amarelo, quebrando um pouco a índole dramática de certas árvores solitárias, desprovidas da presença humana. Sobranceiras nuvens testemunham do alto a feição da organização de elementos restritos ou retirados dos caminhos ou das árvores.

Na verdade, menos que o referente (tema, assunto, topos), o que nos chega de sombrio vem por meio do uso das cores. Ao que parece, pressupõe um grande conhecimento da teoria das cores. Ou seja, não é espontâneo, mas uma deliberação da subjetividade desassossegada do pintor. Pode-se fazer o elogio das cores, mas longe de mim esquecer do domínio do artista sobre o desenho acadêmico.


Por fim, gostaria de extrair uma metáfora decalcada da forma como grande parte das árvores estão retratadas. Sim, estão derreadas, com uma inclinação voltada para o chão. Lembra-me um ditado, possivelmente japonês, que estabelece uma relação entre os bambus que se inclinam por causa da presença de um vento que sopra.


Assim, eles querem dizer da necessidade de se ter ânimo diante das atribulações, aceitar as vicissitudes e os limites impostos pela vida e pelo tempo. Ora, podemos até nos inclinar estrategicamente, mas não podemos deixar-nos abater, cair no chão. Melhor é vergar, aquiescer, banhar-se no rio da resiliência. Há que ser forte diante dos dissabores que a vida nos entrega sem que estejamos preparados para enfrentar. Há que perseverar, como Ulisses na Odisseia, com fulcro em suas navegações, dizendo sempre o mote: essa é mais uma para superar.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

 


Papai Noel nada tem a ver com o Natal

No Ocidente, o personagem Papai Noel irrompe no período que antecede o Natal do Senhor. Trata-se de uma criação, ligando-o a São Nicolau de Mirna, bispo na Turquia. Este era um eclesiástico muito generoso com todos, especialmente as crianças. No calendário da Igreja Católica, sua festa litúrgica acontece no dia 6 de dezembro. Conta-se que Nicolau era uma figura simpática, amiga da criançada, paternal e caridosa. Seus diocesanos chamavam-no de Papai. Nasceu provavelmente em 275, d.C e faleceu em 350. A palavra Noel em francês quer dizer Natal. Por volta do século IX, criaram esse personagem, em alusão a São Nicolau e ao período natalino. Vestiram-no com roupas invernais, gorro cobrindo a cabeça e botas. Puseram em seus ombros um saco, contendo presentes. A lenda foi se espalhando por conta de uma lacuna catequética sobre o verdadeiro sentido natalino e suas figuras. Em 1223, São Francisco de Assis criou o presépio para neutralizar essa imagem irreal de Papai Noel, invadindo as celebrações natalinas.

Papai Noel nunca existiu historicamente. Trata-se de uma lenda. E vamos continuar contando uma ficção aos filhos e netos, em lugar de importantes acontecimentos religiosos? Papai Noel é uma alienação cultural para as tradições brasileiras. Seu perfil e apresentação não condizem com a nossa realidade cultural. Infelizmente, nas comemorações do Natal, grassa por todos os recantos a figura de Papai Noel, que não se insere na verdadeira tradição cristã. Hoje em dia, quando se fala de Natal, vem à mente a figura do tal velhinho. Os shoppings estão cheios desses personagens em total desacordo com a beleza religiosa do natalício do Filho de Deus. Nas lojas, raramente encontram-se presépios. São inundadas com imagens e representações de uma realidade imaginária. Infelizmente, fala-se mais dele do que de Jesus, no mês de dezembro. A Europa hoje ressente-se da invasão muçulmana que impede a celebração pública do Natal. E para completar a esquisitice, por conta do politicamente correto, criou-se a Mamãe Noel.

Maria, José, Jesus são os grandes esquecidos, durante o período que antecede o Natal. E pior, pais, avós, tios, cristãos iludem crianças inocentes com os presentes de Papai Noel, dando continuidade a uma ficção e lenda. Por que não dizer que os presentes foram dados pelo Pai do Céu, representados pelos pais terrenos? Até quando vamos perpetuar essa inverdade? Por que não mostrar a figura da Mãe Celestial em lugar da Mamãe Noel?

Deve-se ressaltar também a ignorância da história cristã e da verdadeira teologia. Nos primeiros séculos do cristianismo, a Igreja lutou para cristianizar o Natal pagão. Hoje, a sociedade tenta a todo custo – tendo em vista o silêncio e a omissão dos cristãos –paganizar o Natal. E nós discípulos de Cristo até quando vamos calar e se omitir diante dessa aberração? Que o Menino Jesus nos ajude e ilumine os nossos passos. Que os Magos da Epifania venham em nosso socorro para que possamos encontrar a riqueza da Estrela do Presépio, aquele que é o “Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6).

Emaús, 24 de dezembro de 2025.

Padre João Medeiros Filho



 O nascimento de Jesus Cristo 

Padre João Medeiros Filho 

Quem haveria de acreditar que uma criança nascida num lugar ermo, de pastagem de animais, deitada numa gamela, poderia ser Deus? A convicção de que Ele deseja habitar na gruta do coração de cada criatura humana faz com que os cristãos lutem para tornar este acontecimento aceito por todos. Não é possível conter a alegria da Mãe desse Menino, dos anjos, dos pastores e de quem sente a importância daquele que veio trazer sentido à existência do homem. “Vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude” (Jo 10,10). Alguns não percebem a natureza do Verbo que se fez carne, ou seja, a comunicação de Deus com sua presença em nossa história. Ele assumiu a realidade dos homens, porque eram capazes apenas de olhar para eles mesmos. A luminosidade do amor do Deus-Menino faz-nos reconhecer os próprios limites, no entanto, superados, pela força e misericórdia da Criança, nascida em Belém. Aceitar o nascimento de Cristo é essencial para que o homem tenha a certeza de que a vida vale a pena ser assumida para perdoar e amar, como Ele fizera e ensinara. Olhar para fora de si é importante para uma convivência promotora de nossa existência, dom de Deus, que deve ser desenvolvida em comunhão de fraternidade, no respeito ao outro e à natureza. O Menino do Presépio, Deus-conosco, veio para entrar na manjedoura de cada um de nós, dando-lhe sentido. Aceitando-O, veremos que, na transitoriedade da nossa peregrinação terrena, é gratificante a caminhada em busca da Paz e da Verdade. Por que há tanta concentração de riquezas e poder nas mãos de minorias insaciáveis, sem promover a justiça social? Por que alguns se detêm numa religiosidade intimista, procurando seus interesses na busca de soluções de problemas pessoais, sem compromisso com a promoção dos outros em função de uma cidadania plena? Por que o uso da religião para oprimir grupos e desviar o sentido da fraternidade e do respeito à diversidade humana? Quando o nascimento de Jesus acontecer em cada pessoa, família e organização social, teremos sua luz a nos fazer compreender a nossa missão de construir mais solidariedade e dignidade. Estas levarão a promover o existir com maior sentido para todos. Mister se faz aceitar que o Menino-Deus nos torna criaturas novas. Se isto acontecer, realizar-se-á, então, o que o profeta Isaías anunciou: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença...” (Isaías 9, 1-2). O Natal de Jesus ainda não aconteceu para muitos. Quem O deixa nascer em si mesmo, é convidado a bater à porta do coração dos outros para compartilhar a alegria de tê-Lo dentro de si. A centralidade da festa do Natal é a união do Divino e do humano. Deus é Amor, que vem ao nosso encontro, “esvaziando-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,7). Hoje, verificamos um paradoxo. A Igreja fez de tudo para cristianizar a festa do Natal pagão. A sociedade de consumo deixa-se levar cada vez mais para paganizar o Natal cristão. O Menino Jesus está dando lugar ao Papai Noel. Este ganha mais destaque nos shoppings do que o presépio. Pobre ou rico, erudito ou iletrado, o homem carrega consigo um segredo, que só se torna claro à luz do mistério divino. E que verdade profunda: “O Verbo se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1, 14)! O mistério de Deus e o nosso se entrelaçam na pessoa de Jesus. A vida tem sentido. O Eterno-Absoluto existe e caminha conosco. Recebamos um Deus-Criança, inocente, solidário, vivo, em permanente comunicação conosco, iluminando nossa existência, transfigurando nossas dores e transformando a morte em passagem para a plenitude da vida. Por isso proclama o profeta Isaías: “Multiplicaste a alegria do teu povo, redobraste sua felicidade. Adiante de Ti vão felizes, como na alegria da colheita, como se repartissem conquistas de guerra” (Is. 9,2).

 

Cartas de Cotovelo- Tempo de verão 2025

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

Embora desmotivado por alguns episódios egoísticos e insanos de pouquíssimos moradores da nossa praia (Grupo do Ódio), ainda persisto em escrever as minhas Cartas de Cotovelo.

Aqui, tenho a paz do silêncio, do espaço e do tempo para contemplar a natureza e fazer múltiplas leituras, pondo em dia o meu acervo de livros recentes adquiridos, como os dos estimados Osair, Alexis Peixoto, Teimoso Zen (Claudionor de Oliveira Júnior) e uma coletânea organizada por Hérnan Reyes Alcaide sobre o Papa Francisco, tendo por ponto central “A Esperança”.

Ler tantos livros, na mesma oportunidade é um antigo vício herdado do desembargador José Gomes: “meu filho, quando estou cansado de uma leitura, separo o livro e começo outro, fazendo um revezamento produtivo”. Ele tinha razão, misturo narrativas, romances, polêmicas, com a renovação da esperança, causa maior da minha, já vetusta, vida de leitor.

Quando as tramas de um romance atingem o clímax, aborto a leitura para meditar o seu desfecho - nem sempre aquele que eu esperava.

Daí, no passar a outro texto, faço marcas e grifos, também para uma meditação.

Na obra sob o Papa Francisco, que veio na sequência de outra sobre Leão XIV (ótima), anotei: “A Esperança pertence aos pobres. Não é uma virtude para quem tem a barriga cheia”.

É uma verdade incontestável: “A pobreza se apresenta a nós diariamente, desafiando-nos com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e pela miséria, pela migração forçada.  Por isso que a Esperança está naquela pobreza que tem o rosto de “mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro”.  (mensagem do Papa Francisco para o Dia mundial dos pobres 19/11/ 17).

A transcrição pode parecer longa, mas não teria outras palavras para definir este assunto. Assino embaixo.

Vivemos no presente a globalização da indiferença e da cultura do “eu”.

Na minha longa jornada de professor sempre demonstrei que, no sentido geral, o estado é uma criação da sociedade, para ofertar controle e retorno da riqueza de forma democrática, organizada e eficiente.

Contudo, hoje ele agride o seu criador - o povo, escravizando-o através de tributos e ações que não vêm em seu efetivo proveito, senão em desfavor por dispender mais, além da sua capacidade contributiva - dentro disso estão os desvios e o protecionismo eleitoreiro, não democrático.

Ensinei errado todos esses anos? A teleologia apregoada nas normas tem nova interpretação: não se respeitam mais os princípios da impessoalidade, publicidade, imparcialidade e moralidade, em todos os espaços da estrutura estatal.

As ideologias proclamadas sob pretexto de boas intenções, do efeito democrático e republicano, nos afastam da realidade e nos impedem de avançar.

Os donos do poder declaram a força da democracia quando o povo grita por liberdade. Apenas jogo de palavras.

Conclamo todos a abrirem os olhos para a verdade e varrer “o cheiro de naftalina política e espiritual” daqueles que cultuam o “eu”.

Insisto em afirmar: nós os pobres, sem o poder, só temos uma alternativa – A Esperança verdadeira.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

 

Férias que te quero férias ...

Padre João Medeiros Filho

O final do ano se aproxima e com ele o veraneio e as férias escolares, determinadas pelo calendário das instituições de ensino, assim como o ritmo de vida de uma parcela considerável da população. A palavra férias origina-se do latim e significa ausência de compromisso e trabalho (de onde deriva o termo feriado) e daí, tempo de descanso para recuperação das forças físicas e mentais. Outro termo latino, “vacatio”, com significado análogo está correlacionado ao sentido dos étimos de outros idiomas: vacaciones (espanhol), vacances (francês), vacanza (italiano), vacation (inglês), vakantie (neerlandês) etc. Mas, o período que deveria servir de repouso, vem se tornando um frenético ir e vir, com agências de viagens, rodoviárias, portos e aeroportos cheios, hotéis lotados, praias repletas e as noites invadidas pelos famosos paredões de som.

A cultura da curtição, badalação e do prazer material imediato, na qual estamos mergulhados, mudou nossa capacidade de descansar e relaxar. Hoje, ao estresse do trabalho (em que a concorrência é cada vez maior e até desleal), à fadiga do ano letivo e laboral, somam-se a síndrome e a preocupação das férias. Criou-se o hábito de fazer programas intensos nessa temporada, viagens exaustivas e dispendiosas a lugares longínquos ou exóticos. Pode-se ver nos terminais de viagens pais impacientes, crianças entediadas, assediando sem parar seus genitores a fim de comprar, gastar o dinheiro que podem ou não dispender, adquirindo aparelhos eletrônicos de última geração, objetos da moda ou de marcas, que logo mais serão descartados, por conta da publicidade que leva compulsivamente ao consumo desnecessário e deletério. Hoje, para muitas famílias essa época torna-se sinal de status e exibição.

Muita gente corre para as praias e lugares de clima ameno, causando inquietação e medo de adoecer aos mais idosos e doentes. Outro dia, numa clínica cardiológica, uma senhora, proveniente do interior, falava que iria suplicar a Deus o término rápido dessa temporada. No ano passado, perdera a mãe com uma crise pulmonar. Não havia conseguido chegar a Natal a tempo para ela ser socorrida, por conta do congestionamento do trânsito nas estradas. Tal senhora dizia com tristeza que também não havia encontrado um sacerdote para as exéquias, pois muitos padres estavam veraneando. E, num tom de desabafo, acrescentou: “Todos têm direito a férias, mas deveria haver melhor planejamento para atender o público.”

Isto leva-nos a lembrar algumas situações. No passado, um bispo potiguar costumava recomendar rodízio entre os padres para tirar uns dias de repouso, pois muitos passavam anos sem o descanso merecido. Durante os meses de verão, os bispos das dioceses catarinenses estabelecem uma escala para os sacerdotes permanecerem no Balneário Camboriú, não em férias, mas para atender os numerosos turistas brasileiros e estrangeiros, que ali acorrem. O senador Marco Maciel, quando Ministro da Educação, atendendo às reclamações, publicou uma portaria determinando que apenas vinte por cento dos servidores do MEC, lotados no Rio de Janeiro, entrassem de férias, nos meses de janeiro e fevereiro, para não prejudicar o atendimento ao público usuário. “O tempora, o mores!”

Não raro, de retorno ao lar e à rotina, quantos não sentem o sabor amargo de desencanto, desânimo e tristeza diante do alto investimento em um programa que, afinal, não valeu tanto a pena, como se pensava. A sensação de encontrar-se talvez mais exaurido na volta – e com o cartão de crédito estourado – deixará no ar uma pergunta incômoda, mas inevitável: por que não se consegue mais descansar nas férias? A sociedade hodierna, de forma engenhosa, invadiu o nosso lazer. É exatamente isso que se deveria levar em conta, quando se pensa em férias e viagens. A máquina do consumo quer nos envolver, custe o que custar. E, paulatinamente, vamos sendo reduzidos a meros consumidores. Férias são uma pausa para voltar ao trabalho renovados daquilo que o cotidiano nos tem imposto com sua implacável exigência e estonteante ritmo. É importante ter consciência de que não somos máquinas de produzir e consumir. “Sois homens e não máquinas”, dizia Charles Chaplin. E afirma a Sagrada Escritura: “Somos criaturas feitas à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 26).

 VIDA É COLEÇÃO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Acho que todo aquele que vem ao mundo, mesmo para ser apenas estatística, é um colecionador. Quem não o é nessa vida? Câmara Cascudo, por exemplo, colecionava saber, erudição, cultura popular, e, até crepúsculos. O mestre Mussolini Fernandes era infalível filatelista. Há, ainda os que armazenam em estantes superpostas amarguras, decepções, ingratidões e liseus intermináveis. É a pior de todas as coleções. Conheço na praça centenas de colecionadores de antigas “promissórias”, “papagaios” e “pré-datados”. Na política existem compiladores eméritos de vitórias e, principalmente, em maior número - de derrotas. Muito embora, haja aqueles que colecionam dinheiro: real, dólar, euro, libra, etc, etc. No Brasil quem comanda uma das mais seletas coletâneas é o político Paulo Salim Maluf, entre muitos outros, tanto aqui quanto alhures. Não precisa nem falar sobre muitos que colecionam objetos e mulheres como troféus emocionais.

Mas, a coleção mais esquisita e estranha é aquela ligada às transformações da vida. Certa vez, aconteceu na Câmara Municipal de Natal uma merecida homenagem ao ex-prefeito Djalma Maranhão, cassado, perseguido e preso pelo Exército em 1964. O legislativo natalense reabilitou a sua memória e homenageou igualmente vários auxiliares e correligionários de Djalma, também, à época, penalizados como ele. E adivinhe qual a banda musical que prestigiou o evento, executando acordes musicais como pano de fundo: a do Exército. Quem diria que um dia, tudo isso e outras coisas mais, aconteceria de uma forma que não pode fugir do registro. Vale dizer que o homem, também, coleciona impossibilidades, imprevisibilidades e o inimaginável.

Uma coleção bizarra, macabra, repressiva dos governos totalitários diz respeito aos órgãos de informação e inteligência. Reúnem nos seus arquivos dossiês sobre pessoas, fatos e projetos. Recentemente, descobriram nos arquivos do FBI e da Marinha Norte-Americana que em 1908 o então Presidente Theodore Roosevelt, emérito caçador e ecologista, frequentador assíduo da selva amazônica, permitiu que se elaborasse um projeto de invasão ao Brasil, a começar pelo Rio de Janeiro (capital do País) em defesa, segundo os ianques, da desejada Amazônia. Até o super Djalma Maranhão figurava em 1947, nas prateleiras do FBI, disse-me o notável pesquisador potiguar Leonardo Barata.

Gerardo Melo Mourão, cearense, ex-integralista, ex-deputado federal, foi preso durante a 2ª Guerra Mundial, acusado de espião das nações do eixo. Passou seis anos na cadeia, durante o regime do “estado novo”. Saiu da prisão no alvorecer da redemocratização em 1947, alforriado por decisão do Supremo Tribunal Federal. Eleito deputado federal por Alagoas, foi cassado em 1964 e se exilou no Chile. Colecionou como muitos outros, prisões e banimentos. Através da TV Senado, de viva voz, narrou um episódio que demonstra cabalmente que o homem também coleciona ódios. Ele e mais três companheiros, denunciados e perseguidos tenazmente por David Nasser da Revista “O Cruzeiro”, armaram uma emboscada para sequestrar o famoso jornalista. Contou detalhadamente, Gerardo Mourão que Nasser, sob a mira de quatro revólveres, foi obrigado a comer, sentado à mesa, um prato cheio de excrementos. “Se não comer morre”, diziam. “Dê-me guardanapos”, pediu o jornalista. “Sem guardanapos”, respondeu um dos inquisidores. Concluída a abominável refeição, um dos odientos exclamou: “Mesmo assim vai morrer”. Contido pelos demais, liberaram David, que teria talvez, preferido enfrentar de novo o Golias. Afirmam as más línguas que o repórter colecionou, ao longo da vida jornalística, impiedosos inimigos. Vida é coleção.

No primeiro governo, entraram na mansão do ex-presidente Trump na busca de papéis secretos da Casa Branca. E para ratificar a assertiva de que a vida é coleção, não são poucas as residências de políticos e empresários brasileiros visitadas pelos federais na cata de papéis e outras coleções.


(*) Escritor

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

 

A poetisa de Divinópolis (MG)

Padre João Medeiros Filho

No dia 13 de dezembro deste ano, Adélia Prado fará 90 anos. Sou admirador de sua obra literária. Sua fé e poesia me cativam, suscitam um misto de transcendência, interioridade e reflexão. Sua poesia é telúrica, vestida de divino. A natureza em comunhão com o Transcendente. Versos com marcas do tempo e de religiosidade. Adélia tem duas virtudes fundamentais: o carisma poético e a simplicidade. A singeleza da escrita convida a permanecer na leitura aconchegante. Seus textos parecem com nossa história: inquietude, dúvidas, busca, encontro... São dádivas sagradas. Em linguagem coloquial descreve, de forma acessível, simultaneamente densa e reflexiva, situações corriqueiras. Por vezes, em seus poemas mimetiza falares de pessoas de seu mundo, trazendo oralidade aos textos com ternura e leve ironia. Revela o inaudito que se encontra para além da aparência e da rotina. É o que se verifica no poema intitulado “Epifania”. Os escritos adelianos falam de fragilidade humana, dúvidas, imperfeições e teimosias que nos fazem enveredar por caminhos, que poderão levar ao sofrimento e à dor. 

A poetisa demonstra despojamento ascético e entrega ao Criador. Nessa direção caminha a espiritualizante obra “Miserere”. Nela nada pode haver de mais místico do que a Comunhão, na qual Adélia une o seu cotidiano ao mistério divino, momento em que aflora a poesia. Críticos literários afirmam que “Miserere” é uma oração e há momentos em que o poético se aproxima do teológico e sagrado, lembrando a palavra revelada na Sagrada Escritura. Assim expressa: “Nos minutos de prazer e alegria do encontro com o Transcendente, fazer silêncio ainda é ruído.” É na vivência diária que a metafísica fulgura e na transitoriedade do tempo que o Eterno se desvela, como se percebe no esplêndido poema “Qualquer coisa que brilhe.”

Há alguns anos, li um texto da poetisa mineira falando sobre a tristeza. Esta, conforme alguns hermeneutas, é bíblica, desvenda o desconforto da vida e o sentir-se aparentemente esquecido por Deus. Segundo Jorge de Lima, “é a saudade do Céu nos rondando.” Faz lembrar a prece do salmista: “A minha alma derramou lágrimas de tristeza; levanta-me segundo a Tua palavra” (Sl 119/118,28). Desde então, passei a meditar sobre o que disse Adélia: “É preciso aprender a conviver com a tristeza, ela faz parte da existência humana, do mesmo modo que a alegria.” Foi isto o que escreveu a respeito de si mesma, sobre uma depressão vivida durante dois anos. No decorrer desse período, perguntava se “Deus lhe havia subtraído o poema.” Profundas as palavras da poetisa, que verseja, mesmo quando não tem a intenção de compor versos.

A tristeza causa grande temor. É medicada como se fosse uma doença execrável. Quando ela vem, assim como a dor de cabeça ou de ouvido, avisa que alguma coisa, grande ou pequena, não está bem dentro de nós. Por que a gente não escuta mais a nossa tristeza? Qual a razão de calar essa visita inesperada e insistente, antes que ela diga a que veio? Às vezes, um sincero e honesto diálogo com ela pode levar adiante. O que é a vida, senão um contínuo dobrar de esquinas, uma caminhada surpreendente na qual mudam paisagens, sonhos e companhias? Encontrar a tristeza num beco da existência e dar algumas voltas de mãos dadas com ela pode ser difícil, mas capaz de renovar e revigorar. A vate divinopolitana viveu sem a companhia dos poemas, mas fez as pazes com a alegria e voltou a escrever para o nosso deleite. Vinícius de Moraes cantou em “Samba da Bênção”: “É melhor ser alegre que ser triste...” Entretanto, é preciso passar pela tristeza para avaliar melhor o contentamento.

Adélia Prado sabe fruir poeticamente de tudo que vive, das experiências mais complexas aos momentos mais ínfimos e singelos. Transforma em literatura memórias da infância, paisagens geográficas e afetivas que viu e vivenciou. Sua obra tão variada e rica oferece inúmeras leituras espirituais e contemplativas, vertentes e recortes de interpretação. Necessita-se ler sua obra com os olhos da alma e do coração. “É um tesouro de onde tiramos coisas novas e velhas” (Mt 13, 52).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

 

Parabenizando Dom João e Dom Heitor

Padre João Medeiros Filho

No dia 3 de dezembro, celebra-se o aniversário natalício de Dom João Santos Cardoso, arcebispo metropolitano de Natal (RN). No mesmo dia, Dom Heitor de Araújo Sales completa 75 anos de sacerdócio. Nosso querido arcebispo emérito é um ícone na vida religiosa de nosso estado, com um inestimável legado místico-cristão à Igreja potiguar. Poucos sabem que Dom João em sua linhagem espiritual está inserido na história eclesiástica norte-rio-grandense. Na genealogia episcopal há um encadeamento. Nosso metropolita está ligado a Dom Eugênio de Araújo Sales, que ordenou bispo Dom Nivaldo Monte, o qual conferiu o episcopado a Dom Antônio Soares Costa. Por sua vez, este transmitiu o ministério episcopal a Dom Luís Gonzaga Pepeu, ex-superior do Convento Capuchinho de Natal, de quem nosso atual pastor recebeu a plenitude sacerdotal. “O caminho do Senhor é perfeito” (Sl 18/17, 30), proclama o salmista.

Dom João é para muitos alento e paz. Cabem-lhe as palavras de Isaías: “Deu-me o Senhor a sua voz para que eu possa ajudar com uma palavra quem está sofrido” (Is 50, 4). Quem se aproxima de nosso arcebispo, lembrar-se-á da recomendação do Mestre: “Vinde a mim vós todos que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28). A muitos traz esperança e ânimo, para carregar a cruz do cotidiano. Irradiando coragem e esperança, contém em sua alma a força divina. Encantam nele sua mansidão e simplicidade, seu jeito de ser paternal e amigo. Isso cativa os fiéis, que dele se aproximam. Coloca-se diante dos irmãos, com uma singeleza que lembra Santa Edith Stein diante do sacrário: “Tu me envolves e acalentas como um pai carinhoso, que eu jamais conheci.”

O zelo pastoral e a espiritualidade de Dom João dão continuidade à evangelização de seus antecessores neste arcebispado. Como Dom Marcolino, propôs a divisão da arquidiocese em mais duas circunscrições eclesiásticas, cujo projeto tramita no Vaticano. Segue a tradição de Dom José Pereira Alves no interesse pela educação e cultura. Visita as comunidades, à semelhança de Dom Joaquim Antônio de Almeida, nosso primeiro bispo, indo ao encontro de toda grei do Senhor. Os fiéis procuram com alegria o Pastor, mensageiro da beleza da graça e do perdão. É preciso fazer com que a misericórdia divina seja acessível a todos. Eis uma das constantes preocupações de nosso metropolita.

Dom João Santos Cardoso é um bispo terno, porém firme, aberto ao diálogo sem transparecer condescendência, servo fiel de Deus, uma criatura de sorriso e senso de humor espontâneo. A vida episcopal de Dom Heitor e Dom João é fonte do Eterno, folha da imensa árvore da Vida, cujo verdor não cessa jamais. Continuam nos ensinando que a existência humana, bem vivida, reveste-se de uma significativa parcela de divindade. “Deus também habita no coração da matéria e na existência terrena”, escreveu Heidegger. Homens de fé, centelhas do Divino, palavras do Sagrado e abraços do Infinito são marcas dos aniversariantes. Cedo, aprenderam que Deus é um tesouro que se descobre no silêncio. Daí, a sabedoria de ouvir os outros, pois a riqueza divina habita também neles. Animados pelo Espírito Santo, continuam sua trajetória de graças e bênçãos. Prosseguem firmes, concretizando o que escreveu Santo Agostinho: “Senhor, torna-me capaz de viver como enamorado da beleza divina, tocado pela benignidade de Cristo.” O desejo que os move não é somente o de pregar e celebrar, mas também o de compreender, perdoar, amar e fazer ecoar novamente a melodia da graça esquecida.

Continuam abrindo e trilhando novos caminhos com o sinal do Evangelho, colhendo frutos para o Bem do Povo de Deus. Amanhã será dia de festa e agradecimento, expressão da nobreza da alma. Cristo, protótipo da gratidão, incessantes vezes, elevava os olhos aos céus e proclamava: “Eu te bendigo e te agradeço, ó Pai” (Lc 10,21). Queremos hoje presentear Dom João e Dom Heitor com a inocência das crianças, o entusiasmo dos jovens, a prudência dos adultos, a sabedoria e experiência dos idosos, o silêncio dos claustros, toda a beleza e maravilhas que Deus derrama sobre a face da terra. Supliquemos para que possam dizer como o salmista: “Pertenço a Ti, Senhor; sê meu apoio e viverei” (Sl 119/118, 93-94).

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

 

A mensagem do Advento

Padre João Medeiros Filho

No próximo domingo, dia 30/11, terá início o ano litúrgico com o tempo do Advento. Este perdurará até a véspera do Natal. Celebrá-lo é viver espiritualmente o mistério da Encarnação do Filho de Deus. Este período concentra-se na figura de Maria Santíssima. Ela concretizou a vinda de Cristo ao mundo. “O Verbo de Deus se fez carne e quis morar conosco” (Jo 1, 14). Isto é um sinal de ternura e amor do Pai, que se inclinou até nós para nos elevar e partilhar conosco a sua infinitude. A Encarnação é Deus humanado em Cristo e o homem Nele divinizado. O fato mais significativo da celebração desse tempo litúrgico é se conscientizar sobre a valorização do ser humano (em Jesus) e sua elevação ao mais elevado grau. A criatura une-se definitivamente a quem a gerou, formando uma única pessoa. É algo inédito: o Absoluto para vir ao mundo, usa a corporeidade humana.

A Encarnação de Cristo encerra, no plano da salvação, um acontecimento marcado de mistério e encantamento. O autor da criação quis sentir a vida das criaturas e ser uma delas. Por outro lado, o homem nunca estivera tão unido ao seu Criador. Nesse sentido, Maria Santíssima torna-se lugar e sacramento do encontro de Deus com o ser humano. Ela é Advento em duplo sentido: a vinda do Pai para perto de seus filhos e a aproximação destes ao Altíssimo. O filósofo francês Jacques Maritain reiterava que “todos os mistérios divinos são inéditos, mas o mais impressionante é a Encarnação: Deus decidir conviver com os homens, fazer-se um deles, partilhando as suas dores e angústias, tristezas e esperanças.”

O Divino quis morar conosco. Cristo se encarna, descartando todas as convenções e a rotina do seu tempo. Maria recebe o dom da maternidade de forma insólita aos olhos do mundo. Jesus nasceu de modo singular. Deus está acima das etiquetas e normas humanas. Infelizmente, diante da beleza e poesia do mistério divino, o homem não foi capaz de perceber a magnitude desse momento. Sua reação é de rejeição, pois Cristo nasceu na manjedoura de um estábulo, sob o jugo de Herodes.

Desse tempo litúrgico fica uma grande lição. Cristo só vem, quando nos despojamos (seguindo o exemplo de Maria e José), decidimos aceitar o desconhecido e nos guiar pela mão divina. O Salvador da humanidade dispensou todo o aparato, poder e luxo para nascer. Necessitava apenas de corações livres. É exatamente isto o que Ele deseja encontrar para continuar, de forma mística, a sua vinda e presença entre nós. Deste modo, escreveu sabiamente São Francisco de Assis: “Somos suas mães, na medida em que com amor, consciência pura e sincera O trazemos em nosso coração e O damos à luz por obras santas que sirvam de luminoso exemplo aos outros.”

Deus anuncia uma nova esperança para o povo. Com Cristo, o homem não viverá mais sozinho. Poderá encontrar o “Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). A partir do nascimento do Filho de Deus, há quem escute o ser humano, o ilumine, sobretudo o compreenda e o ame gratuitamente. Viver o Advento, além de ser convite e oportunidade à conversão pessoal ou comunitária, deve ser para os cristãos uma prática profética, em que estejam conscientes de tudo o que os impede de sentir a manifestação de Cristo, como: indiferença, ódio, injustiça, desrespeito à pessoa humana etc.

É preciso que esse tempo seja a grande profecia contra a miséria, fome, solidão, tristeza, falta de ética, abandono, egoísmo e radicalismo. Tudo isso deixa o ser humano escravo de si mesmo, sem poder levantar a cabeça para vislumbrar o Senhor da Vida e da História. Ele se encarnou para libertar os oprimidos. O Advento é o anúncio da esperança, a véspera do sorriso e da alegria. É a noite dos sonhos da felicidade e da eterna bondade, que não se afastarão mais do coração do homem. É, sim, o despertar para a claridade divina! “Rorate coeli desuper et nubes pluant iustum” (Is 45, 8), ou seja, “Orvalhai, ó céus, do Alto e as nuvens chovam a justiça.”