quarta-feira, 7 de outubro de 2026

                                                    SOMBRAS DA CIDADE


O progresso é um cárcere privado, muitas vezes, ominoso e
fatal para os telúricos, os proustianos como eu. Nasci na antiga Rua do
Comércio, hoje, Nair Mesquita, em Macaíba. O local é um sobrado que não
resistiu numa rua de casarões destruídos ou desfigurados. Assim ocorreu
com os sobrados onde nasceram na mesma rua: Auta de Souza, Henrique
Castriciano, Augusto Severo e Alberto Maranhão.

Da ponte sobre o rio Jundiaí, até a Igreja Matriz em frente a
antiga prefeitura, na avenida Nossa Senhora da Conceição - berço histórico,
social e cultural da cidade - todo o passado está sepultado sobre o asfalto e
edificações novas em nome do progresso. É um visual que choca, punge,
frustra. E como são falsas e hipócritas as coisas novas. Esse trecho parece
com o bairro do Alecrim, burguês, atrofiado, tumultuado e disforme.
Macaíba perdeu a elegância clássica, altiva, portentosa, de
cidade antiga nascida às margens de um rio. Cidade dormitório,
superpovoada, crescimento desordenado, são outras chagas doloridas de
sua deformação permanente. No centro investiram no seu futuro matando o
antigo, o passado, o histórico, como se não valessem. Destruíram a sua
identidade. Não conheço mais a minha cidade, porque baniram as antigas
tardes silenciosas e as manhãs contemplativas das velhas figuras da cidade
que tanto encantavam os meus olhos de menino: Olímpio Maciel, Euclides
Ribeiro, Emídio Pereira, Manoel Alves, Severino Aleixo, Francisco Moura,
Isbelo Vieira, Alfredo de Almeida, José Benevides Campos, Luiz Cúrcio
Marinho, Magno Tinôco, José Augusto Costa, Agnaldo Ferreira, João
Fagundes, Luiz Marinho de Carvalho (tenho dezenas de outros nomes que
se torna enfadonho declinar), sem esquecer as folclóricas: Maria Cabral, 
Pachêco, Cabeção, Sérgio Cabeceiro, Sabiá, Pirôba, Núbia Lafayette, Luiz
Bicho Feio, Manoel Dedo Melado, Zé Distinto e tantos outros.

Vivo e convivo com todos esses fantasmas da cidade na minha
mente. São sombras que não se desfazem com o tempo porque viveram
momentos profundos, densos e intensos. Por mais que Macaíba desintegre
a sua configuração urbana elas estão impregnadas nas paredes e refletem no
chão dos antepassados, tudo o que já foi. Ninguém pense que sou contra o
progresso. Não. Espero que entendam o meu sentimento. Registro o fato
como quem fotografa um instante, um instante triste, de um universo
perdido de sonhos e ilusões. Uma canção ligeira em louvor de tantos -
simples e sábios - hoje, sombras, nada mais.

(*) Escritor.

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