sábado, 7 de setembro de 2024

INDEPENDÊNCIA OU MORTE
PROFISSÃO DE FÉ Valério Mesquita* mesquita.valerio@gmail.com Sempre gostei de repetir a definição do ex-senador Dinarte Mariz que: "Política, meu filho, é uns empurrando os outros". Não tfoi fácil para mim percorrer com sucesso, os caminhos da vida pública, sendo descendente de um político que empobreceu no exercício dessa atividade e que deixou materialmente para os filhos o que recebeu dos seus pais: uma casa na rua da Cruz e uma propriedade, já vendida, para custear campanhas eleitorais. Aqui e ali, surgem as estocadas dos invejosos de plantão. O meu mandato parlamentar pertenceu ao povo. Tenho, até com certo orgulho, uma larga folha de serviços prestados a Macaíba, Natal, Extremoz, São Gonçalo, Parnamirim, São Pedro, entre vários outros municípios. Quando me candidatei a deputado estadual em 1986, preparei-me, primeiramente, dezesseis anos. Ingressei na política em 1970, mas antes adquiri experiência como líder político e prefeito de minha terra para me lançar candidato. Não fiz de minha atividade política uma aventura inconsequente. Entendo que, quem chega deve respeitar os que já estão e se puder fazer melhor que lute por isso. Na política, ao longo de minha trajetória, sempre vivi as minhas horas mais completas. Um antigo amigo, certa vez, aconselhou-me: "Não fale nada dos outros e menos de ti". Mas, vivi episódios que falaram por si mesmos. Macaíba, Natal e São Gonçalo são a mesma geografia, a mesma história, a mesma vida em comum, uma corrente de afinidades e compreensão. Os nomes são diferentes mas a terra, o ar, as pessoas, tudo é tão parecido que as fronteiras se tornam flexíveis. Nessas paragens há passagens esparsas de minha vida por toda parte. Deixei o rastro no chão e a alma também, que no dizer do poeta Fernando Pessoa "é vasta e a obra imperfeita". Sou de Macaíba, o filho, o irmão, o cidadão, o íntimo, com uma presença evocativa de amor e respeito. Tanto aqui quanto ali, pisei o mesmo chão, respirei o mesmo ar, participei da mesma natureza. Na minha infância, eu já conhecia o mapa e os homens de bem da minha terra. Sem ilusões, não moro nas alturas e não tenho em minhas mãos o que não é meu. Atravessei as noites escuras do tempo, as dificuldades de reeleições difíceis em 1990, 1994 e 2000. Em 2002, cheguei ao Tribunal de Contas e fiquei por por 11 anos. Entendendo que ainda não soou a minha hora de silêncio e porisso não me calo. O que importa é ter a coragem de viver e sustentar a alma que não se rende. Serei para todos macaibenses sempre devedor de suas generosas votações. Os dias que me restam na política serão poucos para agradecer. Só posso fazer e dizer, finalmente, na emoção, igual ao do poeta nordestino: "Que sempre beijarei a terra que me dá a benção da maternidade".

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

BATO OUTRA VEZ Valério Mesquita* mesquita.valerio@gmail.com O rio Jundiaí, no trecho em que atravessa a cidade de Macaíba, perdeu o solo, o curso, o chão, o cheiro, a visão e ameaça o bem-estar dos habitantes. Entre o parque governador José Varela e a praça Antônio de Melo Siqueira deixaram crescer no leito poluído imensos manguezais que enfeiam um dos mais bonitos logradouros urbanos. Essa selva esconde lixo doméstico, carcaças de animais, marginais do tráfico de drogas em todo o seu percurso e os galhos já ultrapassam a altura da ponte e das balaustradas. A Tribuna do Norte publicou, excelente matéria sobre tudo que ameaça e destrói os rios Potengi e Jundiaí. Mas, o foco da minha questão e, creio, dos cidadãos macaibenses, reside exatamente neste aluvião de perguntas: por que o Idema não evita, aparando, podando, somente nesse trajeto o “matagal” entre o antigo cais do porto até a outra lateral da ponte? Por que não licenciam a prefeitura para fazê-lo? Não tem nada a ver com agressão ao meio ambiente? Tem? Tem não. A praça e o parque perderam o charme de antigamente. Ninguém enxerga ninguém, olhando de um lado para o outro. A conscientização ambiental deve ser obedecida até onde não prejudique a funcionalidade urbanística e o senso prático e plástico do mapa citadino. Desde quando, em 1950, se planejou e se construiu a estrutura de pedra e cal das duas margens, o choque do progresso jamais prejudicou a superfície do rio. Nem, tão pouco, o molestaram, a expansão e o desafio do crescimento habitacional. Pelo contrário, as balaustradas de proteção ordenaram a trajetória das águas e defendeu as ruas periféricas contendo os transbordamentos das enchentes. Contemplo, hoje, que os problemas das inundações estão equacionadas com a construção da barragem de Tabatinga. Por que o Idema, tão preocupado com o meio ambiente, não permite, apenas, nesse, pequeníssimo trajeto fluvial o corte da poluição visual da paisagem urbana e memorial de Macaíba? Ali, a vegetação gigantesca e desproporcional encobre um dos pontos históricos do município. Refiro-me ao cais das antigas lanchas que faziam o percurso fluvial entre Macaíba e Natal: a lancha do mestre Antonio, o barco de João Lau, além da lancha “Julita” que transportou tantas vezes Tavares de Lyra, Eloy, Auta e Henrique Castriciano de Souza, Augusto Severo, Alberto Maranhão, João Chaves, Octacílio Alecrim e tantas outras figuras notáveis da vida social, cultural, política e econômica. Todos se destacaram nos planos estadual, nacional e internacional. Ali, o centenário cais, jaz sob os escombros de verdes balizas envergadas e fantasmagóricas. A visão noturna é tétrica e arrepiante. Desfigura e mutila os padrões estéticos do planejamento da urbe que a faz parecer abandonada e suja. Até a lua cheia que nasce lá por trás do Ferreiro Torto foi encoberta. A turma do “Sempre-Macaíba” e da nossa Academia de Letras convidam o pessoal do Idema para uma visita à noite ao tétrico ambiente para assistir um filme de terror. Assim como se deve obedecer a educação ambiental, do mesmo modo, exige-se o tratamento e o corte do matagal por parte dos órgãos públicos responsáveis a fim de evitar o represamento do lixo no leito, exclusivamente urbano. Nas capitais e cidades importantes do Brasil banhadas por rios não se vê tratamento tão displicente e indiferente da parte dos setores responsáveis. Sei que o prefeito de Macaíba, não postulou a solução do assunto, nem uma vez. Ao redimensioná-lo neste texto, cabe aos órgãos prefalados uma reflexão, um reestudo sobre o cenário dantesco do rio Jundiaí na parte descrita. O povo tem o direito de ouvir e a coragem de duvidar que essa selva fantasmagórica que devora e perturba a todos seja explicada e resolvida, sem slogans, clichês, palavras de ordem, lugares comuns, peças de marketing ou princípios dogmáticos. Que venha à lume as boas intenções e que não fique Macaíba submersa na má fama da poluição de manguezais aterradores. Porisso, bato outra vez, tal qual Cartola, com esperança no endurecido coração do Ministério Público. Há mais de dez anos nada mudou: o rio Jundiaí continua punido. (*) Escritor.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Pedra e fé em Cristo Jesus Padre João Medeiros Filho Carlos Drummond de Andrade escreveu em um de seus poemas: “No meio do caminho tinha uma pedra...” Alguém já disse que “a poesia é a menina dos olhos da literatura.” Houve, entre os críticos literários, quem quisesse comparar os versos drummondianos com a poesia primitiva a ser burilada pelo autor. Seria semelhante ao granito, com o qual o escultor faz brotar sua obra de arte. Abgar Renault em “A lápide sob a lua” afirmou: “O poeta é artesão e bruxo das palavras.” A poesia, assim como a escultura, seria um trabalho artesanal do artista paciente e perseverante, evitando a inspiração apressada, fortuita e alienada. Ao contrário, é fruto do empenho “das retinas tão fatigadas”, segundo o vate de Itabira. Diante de tais interpretações, Drummond intervém, afirmando que ali ele tratava mesmo de pedra. João Cabral de Melo Neto era considerado um poeta de estilo contido e seco. Em sua obra “Pedra do Sono” afasta-se da tradição do simbolismo da linguagem, tornando a objetividade da prosa escrita envolta em poesia. Para esta transporta a dura realidade dos canaviais pernambucanos, também retratada nos pedregulhos em “Morte e Vida Severina”. A luta árdua pela vida traduz-se na estética do drama. Pode-se perceber o desafio compreendido por Cristo, quando usa a metáfora pétrea ao designar o primeiro papa. O granito inspira-nos a ser firmes, mas quando transformado em arte, leva-nos à admiração e ao amor. Deste modo, a fé deve ser inspiradora, capaz de suscitar atitudes de entrega, solidariedade e perdão, como o mármore que se presta a vários tipos de escultura. Vale lembrar o romance de Ariano Suassuna “A Pedra do Reino”, ao descrever a vida como uma pedra, “mas doce como uma cajarana madura.” Se ela chega a comover poetas e romancistas, não deixaria de chamar a atenção do autor das Bem-aventuranças. “Olhai as aves do céu... Aprendei dos lírios do campo...” (Mt 6, 26). Quanta beleza nesses textos bíblicos, que amenizam a aridez da existência! Cristo emprega várias expressões e imagens do cotidiano de seu tempo: terreno, rocha, grão, pastor, ovelha, senhor, servo etc. Revelava com alegorias e muita simplicidade o Reino dos Céus, que Ele veio pregar. Como é importante retornar à simplicidade das analogias evangélicas para se compreender o pensamento de Jesus! A realidade da rocha, mantida na retina ou na memória, é um desafio e encanto. Um olhar poético sobre ela a verá com mais profundidade e transcendentalismo. O Filho de Deus a tornou parábola do Príncipe dos Apóstolos, em cuja fé colocou os alicerces de sua Igreja. “Tu és Pedro e sobre esta pedra, edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18). Encontramos a palavra pedra vinte e sete vezes no Novo Testamento e vinte e quatro, o vocábulo rocha. Eis como Cristo é preconizado no Antigo Testamento: “A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular” (Sl 118/117, 22). O próprio Deus é assim lembrado: “E quem é a Rocha, senão o nosso Deus?” (2Sm 22, 32). Há algum tempo, o Sumo Pontífice, dirigindo-se a um grupo de freiras contemplativas, propôs-lhes “uma fé sólida e útil como a rocha”, contrapondo-a a um caminho “demasiadamente espiritualizante, abstrato e místico.” Com o significado da rocha o Salvador do mundo procurou definir a dimensão transcendente do ser humano. Queria mostrar nossa fé, inabalável e profunda, burilada pela graça divina, sem falsa e alienante espiritualidade. A pedra é ícone de nossa existência espiritual, desafiadora e objetiva, que se molda na firmeza da gratuidade sobrenatural. Ela também acolhe, serve de assento, referencial e repouso no cansaço da caminhada. Por isso, Cristo a constituiu símbolo de sua Igreja. Portanto, a condição pétrea de nossa humanidade não serve apenas para a poesia moderna, mesmo não sendo engajada na problemática social, segundo o pensar de alguns teólogos. É indispensável à fé, que deverá ser autêntica e testemunhada, isto é, fundamento da caridade e propulsora da esperança, nutrindo a transcendência do homem, cidadão do Infinito. Convém refletir sobre as palavras do apóstolo Pedro: “De igual modo, também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual” (1Pd 2,5).

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

AS PEQUENAS E BOAS ATITUDES MELHORAM O MUNDO Valério mesquita* Mesquita.valerio@gmail.com Nesse planeta de dúvidas e de dívidas – muito mais do que antes – é necessário compadecesse do ser humano. As pequenas atitudes melhoram o planeta, repito e é verdade. Contudo, a cada dia, se descobre que todo homem, por mais firme que esteja é pura vaidade. Não reflete que “passa como uma sombra amontoando tesouros e não sabe quem os levará”, conforme ensinou o salmista rei Davi, no auge do declínio político e de poder. Os dias de hoje são ominosos e fatais para a humanidade. Mesmo que você ore que o Senhor é a sua luz e a ninguém deve temer. O tempo mudou muito a imagem e a rigidez disciplinar do Vaticano. O poder doutrinário não é mais tão exigente quanto o de antes. Hoje é pacífico, conciliador. O ser humano vive a cultura do mundo das paixões, das relações homoafetivas, dos trágicos conflitos racionais, religiosos e políticos. As práticas já alcançaram o nível de extermínio. Nas favelas brasileiras o número de bandidos excedeu o de moradores pobres. Na história das repúblicas latino-americanas os índios foram vítimas de assassinatos, hoje são os doentes nos hospitais públicos pela falta de remédios e de médicos. O egoísmo dos homens corrompeu a democracia, as instituições. Tudo foi depredado: o meio ambiente, o sindicalismo, o mercado de trabalho, o sistema previdenciário, o ensino médio e superior, a legislação penal e a penitenciária. Até no Supremo Tribunal Federal, os ministros colidem e se agridem de forma banal, como nunca se viu décadas passadas. As Casas Legislativas cultivam o silêncio obsequioso em algumas questões e em outras submetem-se a dependência de cargos, favores ocasionais e sazonais. Prefiro laborar na tese de que o homem sem acreditar na Bíblia não tem futuro na terra e nem no que cuida ou governa. Caso se torne bem sucedido, fará infeliz uma multidão de seres humanos. Certa vez, procurei ler algo sobre a trajetória do teólogo e pensador Leonardo Boff, notadamente traços de suas colisões com a igreja católica, por causa da Teologia da Libertação. É claro que não pretendo num modesto texto discutir ou discrepar com o famoso escritor e pensador brasileiro. Pinço um fato do seu encontro em 1984, em Roma com o cardeal Ratzinger, sucessor de Wojtyła (Papa João Paulo II). O ex-pontífice era o então prefeito da Congregação para a Doutrina e a Fé. No dia aprazado, Boff escreveu ao cardeal explicando que não poderia comparecer ao chamado da Santa Sé porque naquele dia (05 de setembro), teria compromisso com a Associação das Prostitutas, vítimas de exploração, a qual recebia apoio da CNBB. O papa emérito (cardeal Ratzinger) telegrafou para dizer que “a Igreja deveria vir antes de tudo”. Leonardo Boff foi astuto. Respondeu “que, conforme as palavras de Jesus, as prostitutas gozam de precedências, no Reino dos Céus”. E citou a parábola de Jesus em Mateus 21.31, quando pregava no templo para os principais sacerdotes e os anciões do povo que davam respostas equivocadas as suas perguntas. (“Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus”). Veja como a interpretação da palavra de Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) pelas religiões cristãs do mundo está a merecer uma rediscussão a fim de chegar a unicidade e a verdadeira paz. Outro detalhe diferenciador das igrejas católicas e evangélicas: a primeira diz “a paz de Cristo!”. A segunda, para divergir, todavia dá no mesmo, proclama “a paz do Senhor!”. Chegou o momento fundamental de todos se entenderem que o reino desta vida também é de Deus, uno e indivisível. A paz é uma só. Outra grande atitude para melhorar o mundo já pregado e difundido pelo Papa Francisco é o diálogo das igrejas em favor da coletividade humana, sem o fermento da discórdia e do egoísmo na interpretação da palavra do Pai, do Filho e do Espírito Santo. “Quando dois ou mais estão reunidos em meu nome, estou presente no meio deles”. No mais, é deixar que Ele grave no senso trágico da brevidade humana os sinais de sua mensagem. (*) Escritor.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Jucurutu, paróquia sesquicentenária Padre João Medeiros Filho Há consenso entre os historiadores sobre o ano de criação da Paróquia de Jucurutu: 1874. Entretanto, dois expoentes de nossa história – Câmara Cascudo e Tavares de Lyra – divergem quanto ao orago e mês da elevação à categoria de matriz. Para o primeiro, a freguesia foi erigida em 1º de agosto, tendo como patrono São Sebastião. O segundo indica a data de 1º de setembro, sendo padroeiro São Miguel Arcanjo. Cascudo é fiel às fontes eclesiásticas, enquanto Tavares de Lyra prende-se aos registros civis, abordando temas religiosos. A Lei Provincial 707/1874/RN citada por ambos, erigindo a freguesia, é apenas uma das peças do processo de criação, sendo indispensáveis a autorização imperial e o decreto do bispo diocesano. Isto ocorria por força do regime do Padroado, herança da Coroa Portuguesa, em vigor no Brasil. Em razão dessa concordata entre o Brasil e a Santa Sé, o Imperador gozava das prerrogativas de escolher bispos, párocos, vigários, cônegos, capelães, criar, suprimir dioceses, paróquias, capelanias, irmandades etc. Ao Sumo Pontífice e aos bispos cabia confirmar os atos. Poucos historiadores tratam da presença dos jesuítas no RN, no período colonial. Cascudo tece elogios ao trabalho catequético-evangelizador dos padres da Companhia de Jesus. Devotos de Maria Santíssima, São João Batista e dos anjos, deixaram essa marca devocional por onde passaram. Nas antigas Reduções (RS) destaca-se a existência de cidades e paróquias identificadas com os nomes de São Gabriel, Santo Ângelo, São Miguel das Missões etc. No RN, não foi diferente. Em Arês (nas origens, conhecida por São João Batista de Guaraíras) introduziram a devoção ao precursor de Cristo. Na cidade de Extremoz (antiga São Miguel de Guajiru) difundiram a veneração ao Arcanjo, sendo até hoje o seu patrono. Posteriormente, os discípulos de Santo Inácio de Loyola adentraram os sertões potiguares, fixando-se em Angicos, cujo aldeamento teve nos primórdios o nome de “Curral dos Padres”. Os jesuítas não são denominados frades, e sim padres. De Angicos, rumaram para Assú, cujo padroeiro é São João Batista. Dali, foram até Apodi, onde catequizava Padre Felipe Bourel. Estiveram em Caiçara Velha (hoje São Rafael), tomando a direção de Jucurutu, estabelecendo-se à margem de um riacho, afluente do Rio Piranhas-Açu. “Eles eram perseverantes no ensinamento dos apóstolos” (At 2, 42). A notícia mais precisa sobre os jesuítas em Jucurutu vem do Padre Serafim Leite, em História da Companhia de Jesus no Brasil: “Perseguidos, os nossos [termos como os jesuítas chamam seus confrades] se refugiaram numa pequena aldeia, administrada pela Companhia [de Jesus] que do Arraial [Assú] dista cerca de dez léguas, à margem de um rio, povoado de piranhas, que banha igualmente o citado arraial.” Paira uma dúvida sobre o orago da paróquia jucurutuense. Já se aludiu à divergência de Cascudo e Tavares de Lyra sobre essa questão. Para o pesquisador caicoense, Monsenhor Francisco Severiano de Figueiredo, “o primeiro padroeiro de Jucurutu foi São Miguel Arcanjo.” A essa invocação alude outro caicoense, Padre Sebastião Constantino de Medeiros, governador do bispado de Olinda. Desde a época de aldeia à elevação como cidade, o lugar denominava-se São Miguel de Jucurutu. Posteriormente, em consequência de um voto, os habitantes solicitaram ao bispo de Olinda, Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, a mudança de orago do então povoado. Isso aconteceu quando grassava a epidemia do “colera morbus”, pósguerra contra o Paraguai. A partir de então, São Sebastião passou a ser o protetor. Alguns pesquisadores apontam o Santo de Narbona (Sebastião) como patrono na criação da freguesia, arrimando-se em Padre Gabriel Malagrida, jesuíta missionário nos sertões nordestinos, o qual asseverou: “Aos males que nos fazem, respondamos com o bem. Assim, a triste figura de Sebastião José de Carvalho e Melo [Marquês de Pombal] seja ignorada, denominando-se a paróquia por um santo de igual nome, apagando assim a memória de um personagem ímpio de nossa história.” Em 2023, pensando no sesquicentenário, o sétimo bispo de Caicó, Dom Antônio Carlos Cruz dos Santos, pelo Decreto Diocesano 18/2023, anexou salomonicamente a invocação de São Miguel ao lado de São Sebastião, declarando-os padroeiros de Jucurutu. O apóstolo Paulo suplicava: “Irmãos, estejais todos de acordo com o que dizeis para que não haja divisão entre vós” (1Cor 1, 10).

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Ilusão e poder Padre João Medeiros Filho Encontra-se no Livro do Eclesiastes a seguinte frase: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1, 2). Uma análise dessa assertiva revela que a tradução portuguesa não elucida exatamente o significado que o hagiógrafo quis imprimir no início de sua obra. Segundo vários exegetas, dentre eles Joseph Coppens, Lucien Cerfaux, Jean Giblet etc. o sentido mais próximo seria: ilusão das ilusões, tudo é ilusório; efemeridade das efemeridades, tudo é efêmero. A palavra, traduzida do hebraico “ḥebel” para o nosso idioma significa fugaz, passageiro. Daí o nome bíblico de Abel, aquele que teve vida curta. Tudo passa! Eis a mensagem de sabedoria do Livro Sagrado, aprofundada pela tradição cristã, partindo do ensinamento de Jesus. Vale a pena juntar tesouros que a traça corrói, ou o fogo devora? Cristo ensinou: “Que adianta ao ser humano ganhar o mundo inteiro, se vier a arruinar sua vida?” (Mc 8, 36). A história comprova tal realidade. Quantos dignitários e potentados são destroçados, ao longo do tempo! Líderes importantes caem no esquecimento e escárnio, mais cedo do que se imagina. Esta é uma profecia contida no Magnificat: “Depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os de condição humilde” (Lc 1, 52). Ao defender Graciliano Ramos, o jurista Sobral Pinto asseverou: “Nenhum ditador é infalível e eterno.” Sem Deus, tudo não passa de um sopro. Na antiga cerimônia de coroação do papa, o cardeal camerlengo proclamava: “Sancte Pater, sic transit gloria mundi” (Santo Padre, assim passa a glória do mundo). Vivem-se tempos em que o lucro, o prestígio e o mandar são imperativos que movem aspirações de muitos. Há séculos, a humanidade exalta o ter e o poder, desprezando o ser, “obra prima de Deus que não se repete”, na expressão do poeta Tagore. Incutiu-se a ideia de que com habilidade, poder-se-ia alcançar riqueza e status. Entretanto, verifica-se, como resultado, uma geração de pessoas desesperançadas e deprimidas. Diante de uma situação análoga, Jesus expressou: “Tenho pena dessa gente, cansada e abatida, como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). Infelizmente, a sede de poder faz calar as ações que visam ao bem comum e à dignidade humana. A sofrida realidade de alguns povos, outrora prósperos, agrava-se atualmente. Pelas ideologias inocula-se o vírus da dominação. A busca desenfreada para manter-se empoderado foi o primeiro pecado da humanidade. É o que se pode inferir da metáfora bíblica no Livro do Gênesis (3, 1-24). Adão e Eva queriam ser iguais a Deus. Mais adiante, lê-se que Caim matou Abel (Gn 4, 8-16) para permanecer senhor absoluto e único detentor dos bens paternos. É lamentável perceber que nessa guerra de interesses, quem sofre as consequências são os indefesos, cada vez mais privados das condições mínimas de vida e dignidade. A sedução do poder cega diante das necessidades do próximo. Impede ações iluminadas por amor e solidariedade. O povo fica relegado, a ponto de se tornar apenas peça no tabuleiro do jogo das conveniências políticas e ideológicas. Sociedade da manipulação! Tais atitudes opõem-se à vontade de Deus e colocam diante da absolutização de comportamentos humanos. Triste constatar que a sociedade brasileira polarizada, com atenuantes aqui ou acolá, vive uma guerra pelo poder. Isto tem causado incontáveis vítimas. A belicosidade dos sequiosos de hegemonia não admite limites e desrespeita o homem. Não importa se pessoas passam fome, ficam amontoadas nos corredores dos hospitais públicos, se a escola é de baixo nível, a população vive insegura e infeliz. O ensinamento do Mestre da Galileia: “Vim, não para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 28) é descartado. Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, outrora pároco de São Paulo do Potengi (RN), repetia: “Governantes e legisladores necessitam defender os pobres, e não se defender deles e usá-los.” Na certeza de que as alegrias, esperanças, tristezas e angústias dos homens de hoje são também de Cristo, somos impelidos a tomar consciência de nossa responsabilidade na construção de uma sociedade justa e digna. “O poder só é válido, quando se converte em serviço”, dizia Santa Dulce dos Pobres! Rezemos como o salmista: “Desvia, Senhor, os meus olhos, para que não vejam a vaidade, e faze-me viver no teu caminho” (Sl 119/118,37).

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

“A história se repete”: novos bispados Padre João Medeiros Filho Há muito de verdade no supracitado axioma popular. Dom Marcolino Esmeraldo de Sousa Dantas, baiano de Inhambupe, quando bispo de Natal, desvelou-se para dotar o RN de mais duas circunscrições eclesiásticas. Foram quase dez anos de árduo trabalho, entre 1929- 1939, coroado de pleno êxito. Sentiu a alegria de ver as origens das dioceses de Mossoró e Caicó, das quais foi administrador apostólico até a posse de seus primeiros bispos. Pelas bulas papais “Pro eclesiarum omnium” (datada de 28/07/1934) e “E dioecesibus” (promulgada em 25/11/1939), Pio XI e Pio XII erigiram os bispados, respectivamente, de Mossoró e Caicó. Dom Marcolino foi além. Durante mais de oito anos, empenhou-se juntamente com Dom Moysés Sizenando Coelho, arcebispo de João Pessoa, em prol da elevação de Campina Grande à categoria de sé episcopal. Teve mais um sonho realizado. Em 14 de maio de 1949, pelo documento pontifício “Supremum Universi”, Pio XII constituiu diocese aquela cidade paraibana, desmembrando-a dos bispados de João Pessoa e Cajazeiras. Dom Marcolino foi um prelado diligente e de grande atuação pastoral. A elevação daquela cidade paraibana à condição de bispado possibilitaria Natal em se tornar sé metropolitana, separando o RN da Província Eclesiástica da Paraíba. Isto ocorreu, em 16 de fevereiro de 1952, pela bula “Arduum onus”, de Pio XII, menos de três anos após Campina Grande ser constituída sé diocesana. Há de se reconhecer que para as condições da época, o bispo de Natal foi célere em suas decisões e gestões, em favor do Povo de Deus. Decorridas mais de oito décadas, Dom João dos Santos Cardoso (também baiano, de Dário Meira), arcebispo de Natal, em seu dinamismo, zelo pastoral e ampla visão eclesial, dá prosseguimento à tarefa de tornar a Igreja mais próxima dos fiéis. Em apenas sete meses de pontificado em solo potiguar, propôs a criação de duas dioceses no RN: uma na Região Trairi (sediada em Santa Cruz); a outra no Vale do Assú (com sede nessa cidade), incluindo a Região Salineira pertencente ao arcebispado natalense. A iniciativa conta com o total apoio do metropolita, as bênçãos do bispo mossoroense, Dom Francisco de Sales Alencar Batista e a colaboração do clero e fiéis católicos. Gesto nobre do arcebispo, que, além de ceder parcela significativa do território de sua jurisdição, sugeriu que a sede fosse em Assú, freguesia pertencente a outro bispado. A comissão interdiocesana, responsável pela elaboração do projeto, é presidida pelo eminente canonista Monsenhor José Valquimar Nogueira do Nascimento. Cumpre o seu cronograma, estando na fase de formação das subcomissões e escolha de assessores para o desempenho de sua missão. Em 25 de julho passado, recebi um primoroso estudo do advogado assuense e militante católico, Dr. Gregório Celso Medeiros de Macêdo Silva, sobre o futuro bispado. A obra resulta de pesquisas, iniciadas em 2022, sobre a região do Vale do Assú e seu entorno. Será de grande valia para ajudar a comissão a atingir os objetivos propostos. O ilustre autor de “Uma nova diocese no Rio Grande do Norte”, não poderia inicialmente vislumbrar a perspectiva pastoral do metropolita natalense, quando integrou a Região Salineira no projeto da sede diocesana a ser criada. Dr. Gregório aborda aspectos e dados geográfico-históricos, patrimoniais, socioeconômicos, pastorais e antropológico-culturais da futura diocese. A partir de elementos hauridos das paróquias que integrarão o novo bispado, a equipe responsável pela elaboração do texto final delineará o perfil da tão desejada sé episcopal. “Ad maiorem Dei gloriam”, tudo para a maior glória de Deus, afirmava Santo Inácio de Loyola, cujos discípulos evangelizaram os habitantes da primitiva paróquia do Assú na época colonial. Os católicos vinculados ao território da sonhada circunscrição eclesial não poderão ficar indiferentes a este projeto de Igreja, devendo cooperar com recursos humanos, financeiros e orações. Ele é obra do Reino de Cristo e uma necessidade do Povo de Deus. “Somos servidores inúteis” (Lc 17, 9), afirmara Cristo. É salutar que os fiéis leiam atentamente o trabalho de Dr. Gregório, com a participação do Professor Nestor Vieira de Melo Neto. Nosso reconhecimento aos que abraçaram essa causa. Convém lembrar as palavras do apóstolo Pedro: “Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual” (1Pd 2, 5).

domingo, 11 de agosto de 2024

Carta para o Dia dos Pais Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes Hoje, um domingo de inverno, amanheceu como dia de radiante verão, coisas do Criador para permitir as mais legítimas comemorações, principalmente o Dia dos Pais, onde se oportuniza o transbordamento do amor filial, com o congraçamento da família no sentido da eternização do respeito e da união. Acordei pelas 6 horas e vi que Clara dormia como criança, logo desci do meu quarto-ateliê para a primeira refeição do dia preparada com o auxílio dos meus filhos Rocco, Thereza Raquel e Rosa. Ao terminar o café matinal sentei-me na modesta sala da minha casa, entre as fotos da minha amada THEREZINHA, vivendo no reino de Deus, com os mesmos móveis que deixou, mas agora ornada com suas fotografias, santuário e a presença de um novo membro apanhado nas ruas – Thor, companheiro diário. Dei-me a ouvir músicas do meu tempo, tocadas num aparelho que recebi de presente e com comando de voz – coisa de outro tempo. Os cantores todos eram meus conhecidos e as músicas daquelas que minha companheira sabia de cor. As lágrimas foram inevitáveis. Cada música lembrava um momento e assim passei mais de uma hora em lágrimas, incomodando os filhos e netos que vinham me abraçar. Então dei o comando “Alexa pare” e vim ao meu retiro para guardar o silêncio e a saudade. Carlinho chega com o seu presente – um molde para fazer vitrais, o que vai ser um barato; recebi um comovente telefonema do meu amigo e filho do coração Eduardo Jorge. Meditações, orações e propósitos de não deixar que meus sentimentos estraguem um dia que prenuncia tão feliz, pois o rio continua a passar, embora a vala da saudade, e o amor não se apaguem, posso garantir – eles ampliam seus espaços em meu coração de uma forma linda. Troquei o choro físico pelas lágrimas espirituais, já iniciadas quando assisti, pelo celular, a missa das 6 horas. Não tenho dúvidas – o tempo não apaga o amor, quando verdadeiro. FELIZ DIA DOS PAIS PARA TODOS DA FAMÍLIA E DO ROL DE AMIGOS. E TUDO O MAIS VIRÁ POR ACRÉSCIMO.
DIA DO ADVOGADO Por: CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES, ex-Presidente Coincidiu outra vez num domingo, 11 de agosto de 2024, a efeméride do - Dia do Advogado, comemoração nascida do fato de no ano de 1827, na época do recém-instituído Império Brasileiro, o então imperador Dom Pedro I haver autorizado a criação das duas primeiras faculdades do Brasil - Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco, e a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, em São Paulo. Com o passar dos anos tornou-se necessário alforriar, além da independência política que fora conquistada, também a liberdade intelectual, através dos fatos antes referidos, representando uma verdadeira Carta Magna da Advocacia, que nos legou o esforço dos Bacharéis Teixeira de Freitas, José de Alencar, Castro Alves, Tobias Barreto, Ruy Barbosa, o Barão do Rio Branco, Joaquim Nabuco, Fagundes Varella, dentre tantos, sob a influência da Revolução de 1930, criando a Ordem dos Advogados do Brasil, que teve como primeiro presidente o advogado Levi Carneiro, o qual a comandou por muito tempo, tendo por instrumento primeiro o Decreto nº 19.408, de 18 de novembro de 1930, que assim proclamava: Art. 17. Fica criada a Ordem dos Advogados Brasileiros, órgão de disciplina e seleção da classe dos advogados, que se regerá pelos estatutos que forem votados pelo Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros, com a colaboração dos Institutos dos Estados, e aprovados pelo Governo. O Rio Grande do Norte foi um dos primeiros Estados a criar a sua Seccional, partindo da ideia do consagrado jurista Hemetério Fernandes Raposo de Mello, então Presidente do Instituto dos Advogados do RN, em reunião preparatória realizada no longínquo 05 de março de 1932, no prédio do Instituto Histórico e Geográfico, presentes os causídicos Francisco Ivo Cavalcanti, o Primeiro Presidente, Paulo Pinheiro de Viveiros, Manoel Varela de Albuquerque, Bruno Pereira e Manuel Xavier da Cunha Montenegro e oficialmente reconhecida em 22 de outubro do mesmo ano. No tempo do pioneirismo somente glórias e amor profissional, o que durou muitas décadas, cuja bandeira altaneira só procurou engrandecer a corporação e efetivar a defesa dos direitos humanos. Contudo, o tempo foi passando, a tecnologia aflorando com velocidade maior do que a necessidade e o espírito de corpo perdendo um tanto da sua essência inicial. Hoje, as disputas pelo seu comando tornam-se turvas em decorrência de interesses políticos, ideológicos e pessoais daqueles que pretendem usar o prestígio do mandato para alcançar alguma vaga de tribunal ou comissão de relevo. Nem por isso vou silenciar sobre a importância dos ADVOGADOS, guardiães da liberdade, da igualdade e dos direitos humanos, aos quais envio o meu fraterno abraço e a confiança de que continuarão mantendo as bandeiras gloriosas de uma classe cada vez mais forte com a adesão de número abundante de novos membros.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

BATE FORTE O TAMBOR Valério Mesquita* Mesquita.valerio@gmail.com Espero que esteja vivendo um tempo de desarmar os presságios. Não desejo acreditar que na política existam só amigos, mas, conspiradores que se unem. Aos olhos alheios, unidade partidária, coligação, ambas desapareceram para dar lugar a um consórcio, onde o partido menor nunca é sorteado. No meu entendimento virou tribo, facção e não tem quem junte os pedaços depois. Prefeitos, vereadores, líderes municipais, votam pacotes de candidatos díspares, de governador a senador, de deputado federal e estadual, como se fossem salada de frutas, ou coquetel exótico de bruxaria. A continuar assim, vamos chegar ao tempo de desarmar os frutos e até mesmo ao de querer desviver o tempo, ominoso e fatal para a coletividade. A reforma eleitoral neste país, é tema mais batido do que caminho de cemitério. Com o “fundão eleitoral”, o processo virou uma ação orquestrada que caracteriza as relações íntimas entre os lobos ideológicos contra pseudos pastores teólogicos. Presume-se, com o andar da carruagem, que estamos sob o fascínio do desconhecido, do buraco negro. A caixa preta do segundo turno está rondando a ressaca eleitoral dos candidatos. A hegemonia política de muitos líderes está morrendo. É o processo depurativo das figuras messiânicas, de megafone em punho, entoando chavões pela recuperação financeira do país e do Rio Grande do Norte. Esse caldeamento político dos nossos dias, é igual a despacho de encruzilhada. Lembrei-me daquele acordo de paz pública, no passado. Não há como acomodar numa mesa apetites tão difusos, confusos e obtusos. É por isso que bate forte o tambor da imprevisibilidade. Garimpando o pensamento do saudoso natalense João Sena, li essa jóia: “O ser humano não só morre quando desencarna, mas também, quando se desencanta”. E casados no desencanto continuam vivendo o povo e os políticos. Chegaram à exaustão. A praça pública virou banco de tormento. O povo aplaude mais os músicos do que os oradores. Todo orador, é um chato, cansativo e tedioso. Quando o candidato fala, o povo se afasta. Mas, o liseu não está no meio do mundo, pois o importante é não cair a Bastilha. Isso conforta os candidatos que se exporão tanto ao sereno, quanto ao sol, à chuva e ao mormaço das penosas aglomerações. São as fases da vida pública. Outro filósofo, já dizia “que a vida é feita de fases e de fezes”. As fases são as estações, as metamorfoses, e as fezes, o consumismo humano do Fundão. Outro fato relevante, que não dá para entender, são as pesquisas açodadas. Lembrei-me de Chesterton quando disse que “os vícios são as virtudes enlouquecidas”. Será que o povo brasileiro é tão volúvel assim? Essa eleição, face os perigos redibitórios, é uma esfinge? Antigamente, o silêncio antecedia o pleito, sem emitir sinais de mistérios, como a eleição presidencial deste ano. A sinfonia outonal vai deixar para trás, em outubro, muito candidato que empreende voo cego, impensado, sem bússola e sem bossa. Eu me recordo de Assis Besouro, experiente marqueteiro potiguar, explicando a situação daquele tempo (1998), das divergências do PMDB, PT, PSDB e etc., - com aquela fisionomia de permanente mormaço, proveniente das andanças políticas pelo Rio Grande do Norte - “que tudo numa eleição é estratégico”. Daí, ter surgido hoje, o orçamento secreto. E é fato que nas estações da política, as notas caem. E o outono chega. Pois eleição que não se ganha, se toma, dizem. Napoleão Bonaparte admitiu apenas duas potências no mundo: “a espada e o espírito. A longo prazo a espada sempre é vencida pelo espírito”. A espada é o poder e o espírito a palavra. É comum os dois não falarem o mesmo sotaque, o mesmo idioma. Mas, a canção do voto é tudo, pois tem sangue eterno e coração ritmado. Todo país já atravessou as noites escuras do tempo. É pobre o país que tem necessidade de mitos. (*) Escritor

terça-feira, 6 de agosto de 2024

“A história se repete”: novos bispados Padre João Medeiros Filho Há muito de verdade no supracitado axioma popular. Dom Marcolino Esmeraldo de Sousa Dantas, baiano de Inhambupe, quando bispo de Natal, desvelou-se para dotar o RN de mais duas circunscrições eclesiásticas. Foram quase dez anos de árduo trabalho, entre 1929- 1939, coroado de pleno êxito. Sentiu a alegria de ver as origens das dioceses de Mossoró e Caicó, das quais foi administrador apostólico até a posse de seus primeiros bispos. Pelas bulas papais “Pro eclesiarum omnium” (datada de 28/07/1934) e “E dioecesibus” (promulgada em 25/11/1939), Pio XI e Pio XII erigiram os bispados, respectivamente, de Mossoró e Caicó. Dom Marcolino foi além. Durante mais de oito anos, empenhou-se juntamente com Dom Moysés Sizenando Coelho, arcebispo de João Pessoa, em prol da elevação de Campina Grande à categoria de sé episcopal. Teve mais um sonho realizado. Em 14 de maio de 1949, pelo documento pontifício “Supremum Universi”, Pio XII constituiu diocese aquela cidade paraibana, desmembrando-a dos bispados de João Pessoa e Cajazeiras. Dom Marcolino foi um prelado diligente e de grande atuação pastoral. A elevação daquela cidade paraibana à condição de bispado possibilitaria Natal em se tornar sé metropolitana, separando o RN da Província Eclesiástica da Paraíba. Isto ocorreu, em 16 de fevereiro de 1952, pela bula “Arduum onus”, de Pio XII, menos de três anos após Campina Grande ser constituída sé diocesana. Há de se reconhecer que para as condições da época, o bispo de Natal foi célere em suas decisões e gestões, em favor do Povo de Deus. Decorridas mais de oito décadas, Dom João dos Santos Cardoso (também baiano, de Dário Meira), arcebispo de Natal, em seu dinamismo, zelo pastoral e ampla visão eclesial, dá prosseguimento à tarefa de tornar a Igreja mais próxima dos fiéis. Em apenas sete meses de pontificado em solo potiguar, propôs a criação de duas dioceses no RN: uma na Região Trairi (sediada em Santa Cruz); a outra no Vale do Assú (com sede nessa cidade), incluindo a Região Salineira pertencente ao arcebispado natalense. A iniciativa conta com o total apoio do metropolita, as bênçãos do bispo mossoroense, Dom Francisco de Sales Alencar Batista e a colaboração do clero e fiéis católicos. Gesto nobre do arcebispo, que, além de ceder parcela significativa do território de sua jurisdição, sugeriu que a sede fosse em Assú, freguesia pertencente a outro bispado. A comissão interdiocesana, responsável pela elaboração do projeto, é presidida pelo eminente canonista Monsenhor José Valquimar Nogueira do Nascimento. Cumpre o seu cronograma, estando na fase de formação das subcomissões e escolha de assessores para o desempenho de sua missão. Em 25 de julho passado, recebi um primoroso estudo do advogado assuense e militante católico, Dr. Gregório Celso Medeiros de Macêdo Silva, sobre o futuro bispado. A obra resulta de pesquisas, iniciadas em 2022, sobre a região do Vale do Assú e seu entorno. Será de grande valia para ajudar a comissão a atingir os objetivos propostos. O ilustre autor de “Uma nova diocese no Rio Grande do Norte”, não poderia inicialmente vislumbrar a perspectiva pastoral do metropolita natalense, quando integrou a Região Salineira no projeto da sede diocesana a ser criada. Dr. Gregório aborda aspectos e dados geográfico-históricos, patrimoniais, socioeconômicos, pastorais e antropológico-culturais da futura diocese. A partir de elementos hauridos das paróquias que integrarão o novo bispado, a equipe responsável pela elaboração do texto final delineará o perfil da tão desejada sé episcopal. “Ad maiorem Dei gloriam”, tudo para a maior glória de Deus, afirmava Santo Inácio de Loyola, cujos discípulos evangelizaram os habitantes da primitiva paróquia do Assú na época colonial. Os católicos vinculados ao território da sonhada circunscrição eclesial não poderão ficar indiferentes a este projeto de Igreja, devendo cooperar com recursos humanos, financeiros e orações. Ele é obra do Reino de Cristo e uma necessidade do Povo de Deus. “Somos servidores inúteis” (Lc 17, 9), afirmara Cristo. É salutar que os fiéis leiam atentamente o trabalho de Dr. Gregório, com a participação do Professor Nestor Vieira de Melo Neto. Nosso reconhecimento aos que abraçaram essa causa. Convém lembrar as palavras do apóstolo Pedro: “Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual” (1Pd 2, 5).

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Refletindo sobre as eleições Padre João Medeiros Filho Acontecem as convenções partidárias, antecedendo às campanhas em função das próximas eleições. Em breve, o período de comícios e embates. Os pleitos são cada vez mais onerosos, financeira e moralmente, sem considerar os logros e patranhas, já tradicionais e atávicos na política brasileira. O Tribunal Superior Eleitoral – TSE divulgou alguns dados, dentre eles, o orçamento do Fundo Partidário, definido em R$ 4,9 bilhões, dinheiro oriundo dos impostos obrigatórios, pesando sobre a população trabalhadora e desprezando suas necessidades mais prementes. Segundo cientistas políticos, trata-se de um dos embustes mais caros do mundo. Nessa bilionária dotação não estão incluídas ingentes despesas com a realização de votações em dois turnos. Tempestivamente, os marqueteiros entram em cena. Versão estilizada do publicitário, eles ganharam um nome aportuguesado, do inglês “marketing”. Trata-se do profissional encarregado de maquiar o perfil e a biografia dos candidatos, transfigurando a imagem dos pretendentes a funções públicas. No caso deles, buscam adorná-los com uma roupagem atraente. Após “o banho de simpatia e popularidade” (segundo os jargões da área), o “produto” está pronto para ser apresentado e consumido por um eleitorado incauto e alienado. Apresenta-se o candidato, como se fosse o melhor dos seres humanos. Procura-se moldar até o seu caráter a ser apresentado nas imagens televisivas ou em fotos fugazes e ilusórias. Existem verdadeiros “experts”, capazes de grandes transformações. Conseguem exibir na vitrine política um personagem rejeitado por muitos, como sendo o legislador ou executivo do sonho de eleitores exigentes. Empulhação que, muitas vezes, traz bons resultados. O comunicador habilitado em “marketing” tenta encontrar um meio de vender a imagem do político, cuidando de suas aparições, discursos e ideias. Amiúde, reina o axioma visceralmente antiético: “Os fins justificam os meios.” Tanto no presente, quanto no passado, verificam-se bons exemplos de criação publicitária. É clássica a história do anúncio da venda de um sítio atribuído a Olavo Bilac, após solicitação de um de seus amigos. Interessados poderão pesquisar o assunto. O autor do texto demonstra originalidade e preconiza técnicas modernas de “merchandising”, causando inveja aos marqueteiros atuais. O amigo de Bilac dissera-lhe que ele possuía muita imaginação, escrevia divinamente bem, capaz de produzir algo atraente. Foi redigido de forma poética. Não há certeza se o comunicado do vate carioca correspondia à realidade ou era mera ficção. Tempos depois, o poeta parnasiano teria perguntado ao amigo, se conseguira alienar a propriedade. Respondeu-lhe que havia desistido da venda, pois ao ler os classificados dos jornais, convencera-se da maravilha que possuía. Este texto é considerado por muitos publicitários uma página antológica da profissão. Não basta fazer. É preciso também saber como dizer ou escrever. Hoje, trava-se uma discussão sobre a ética publicitária. É justo e lícito, em campanhas eleitorais, realizar tipos de propaganda enganosa, quando está em jogo o bem-estar e o futuro do povo? O objetivo é eleger um candidato. Por isso, tenta-se a qualquer custo influenciar ou convencer, embora o postulante seja inapto ou despreparado. Já lamentava o profeta Jeremias: “Engana-se o próximo. Não se fala a verdade. Treina-se a língua para a mentira” (Jr 9, 4). Não se definiu ainda se tais manifestações poderão ser consideradas enganosas. Segundo os estudiosos, a rigor, não se trata de oferta de serviços ou bens de consumo, previstos na Lei 8078/90 (Defesa do consumidor). Entretanto, é uma situação diante da qual se requer honestidade intelectual, não se admitindo falsidade ideológica. O apóstolo Paulo já advertia: “Portanto, deixando a mentira, cada um diga a verdade a seu próximo, pois somos membros uns dos outros” (Ef 4, 25). William Ugeux, docente da Universidade de Louvain, outrora Ministro da Informação do Reino da Bélgica, colocava a propaganda política no mesmo patamar da publicidade de medicamentos. Os efeitos podem vir a ser altamente deletérios. Não é correto brincar com a vida de outrem, mormente de uma população. O eleitor, por vezes, tem a ingenuidade de uma criança e não se deve abusar de seus sentimentos. É preciso ser sincero e honesto. É o que pregava o Apóstolo dos Gentios: “Nossa palavra não contém erros, engodos, tampouco acompanhada de astúcia” (1Ts 2, 3).

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Sant’Ana, tradição e culto Padre João Medeiros Filho A devoção a Sant’Ana está entre as mais antigas tradições católicas. Detém grande popularidade entre os fiéis cristãos. Por ser a genitora da Mãe de Cristo, lhe são atribuídos vários privilégios, como obter rapidamente favores celestiais. Ela intercede na condição de avó “Daquele que faz maravilhas” (Sl 136/135, 4). No Brasil, a devoção se espalhou durante o período colonial, graças à veneração da corte portuguesa. O garbo e esplendor do barroco proporcionaram belas esculturas de Sant’Ana que hoje adornam imponentes altares de nosso país. No Oriente, o culto à mãe da Virgem Santíssima é antigo, consolidando-se no século VI. No Ocidente, introduziu-se anos depois. Em 1584, o Papa Gregório XIII fixou a data de 26 de julho para sua festa litúrgica. A devoção à esposa de Joaquim era tão forte entre os fiéis, a ponto de lhe concederem o título de “Senhora”, outorgado pela tradição à Virgem Mãe de Deus. Muitos católicos passaram a chamá-la de “Nossa Senhora Sant’Ana”. Assim é cultuada, especialmente, no Seridó potiguar. Em 710, as relíquias da avó de Jesus foram levadas de Israel para Constantinopla e posteriormente distribuídas para várias igrejas. A maior delas ficou num santuário que lhe fora dedicado, em Düren (Alemanha). Há poucos dados históricos comprovados a respeito dos pais de Maria de Nazaré. As referências sobre eles chegaram até nós por meio do Protoevangelho de Tiago, um livro que data provavelmente do primeiro século do cristianismo. Apesar de não integrar os evangelhos reconhecidos como oficiais pela Igreja, trata-se de importante obra histórica. É citado em diversos escritos da Patrística Oriental, como os bispos Epifânio de Salamina e Gregório de Nissa. O nome Ana deriva de “Hanna” (hebraico), cuja etimologia é graça divina, Deus tem misericórdia. Era descendente da família de Aarão e seu esposo Joaquim, da estirpe real de Davi, cujo nome bíblico significa: “confirmado por Deus”. Nesse casal encontra-se parte da nobreza da genealogia de Cristo. Ana casou-se jovem como toda moça de seu tempo. A tradição diz que seu marido era um homem de posses e bem situado na sociedade, relacionando-se com pessoas de todo Israel. Frequentavam as cerimônias e festas do Templo de Jerusalém. Ali, ao lado da Piscina de Betesda, está situada uma basílica, em honra à mãe da Virgem Imaculada. Há relatos de que Sant’Ana era estéril. Não conseguia engravidar, decorridos anos de casamento. Os conhecimentos científicos de então imputavam a esterilidade somente às mulheres. À época, eram consideradas não abençoadas por Deus. Consequentemente, o casal sofreu humilhações, sendo censurado pelos sacerdotes por não gerar filhos. Isto fazia com que ambos padecessem muito. Entretanto, eram pessoas de profunda fé e confiavam em Deus, apesar de todo o sofrimento. Joaquim resolveu retirar-se para o deserto a fim de rezar e fazer penitência. Nessa ocasião, um anjo lhe apareceu e disse que suas orações foram ouvidas. Igualmente, o mensageiro celestial visitou sua esposa, confirmando que as preces do casal haviam sido atendidas. “Ana, teu choro foi ouvido. Conceberás e darás à luz e por toda a terra tua descendência será lembrada”, disse-lhe o arauto divino. Assim, pouco tempo depois, Ana engravidou. Através das provações, Deus estava preparando o lar para o nascimento de Maria, a Virgem pura, isenta de pecado. Segundo algumas fontes, no dia 8 de setembro entre os anos 20-16 A. C., nasceu uma linda menina, à qual deram o nome de “Miriam”, que em hebraico significa Senhora da Luz. A Mãe do Salvador foi concebida por aquela que todos diziam ser infértil. Os pais de Nossa Senhora são de fundamental importância na história da salvação, não apenas pelo nascimento da Corredentora, sobretudo pelas virtudes e educação da futura Mãe do Redentor do Mundo. Os genitores de Maria Santíssima são um exemplo de fé profunda, acreditando que “para Deus nada é impossível” (Lc 1, 37). Sua vida e exemplo mostram-nos o poder e a força da oração. A prece não é nenhum monólogo. “Pedi e vos será dado, procurai e achareis, batei e a porta vos será aberta” (Mt 7, 7), recomenda-nos o Mestre.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

ALUMBRAMENTOS Valério Mesquita* mesquita.valerio@gmail.com Mantenho reações conservadoras diante dos fatores imanentes e iminentes da vida. Sou devoto dos hábitos e da retórica provinciana do interior. O costume secularizado da cadeira na calçada, da brisa sedutora do fim de tarde, do grito heróico do vendedor de cuscuz e mugunzá ainda me apascentam. São crenças básicas na simplicidade da vida como perpétuo e inalienável direito de existir, misturado ao povo miúdo, posto ser melhor do que o absolutismo dos donos do palanque e da burguesia consumista e desfigurada pelo cinismo materialista. Mas fui tomado pelo fascínio de mesclar o real e o imaginário. Não exercito artificial adesão ao modismo. Nenhum vestígio que se possa recolher da minha travessia terrena não passará da impressão de algo plástico, aéreo, estelar, humano e sobre- humano, difuso mas cintilante, místico e mítico. No meu bairro sou donatário da capitania não hereditária. Ou seu capataz dos mistérios circundantes como Cláudio Emerenciano e Vicente Serejo, hoje em Morro Branco. Não renegam a horizontabilidade urbana de onde extraem a alma e o sumo das verdadeiras descobertas. A minha rua em Lagoa Nova é modesta. A iluminação pública espalha no calçamento parnasiano a luz mortiça amarela, qual um abajour lilás. No céu estrelado passeio a nostalgia que vem da herança telúrica de um tempo que a memória ainda não desfez. O rio, a casa, a lua, a calçada, as aparições noturnas. Minha angustia factual e meu desespero tipicamente social estão inseridos no contexto das doenças que as seguradoras de saúde não cobrem. Componho o universo sensível, ferido, por vezes amargo e infeliz, que abomina a marginalização dos pobres, dos velhos, das crianças, vítimas do perverso sistema econômico-social. Por isso procuro a terra habitada pelo silêncio e pela distância das coisas, porque o meu grito é cárcere concreto e real e já não se faz mais ouvido. Conforta-me que as palavras não são fugazes nem constituem perdas instantâneas. Meu canto é harmônico sem divagações nem desvios, embora as tensões e os influxos se cruzem, se choquem mas não se anulam. Volto a minha ruazinha comum. Nela não residem poderosos. Afinal, sozinho perscruto a tolice dos seus mistérios visíveis e invisíveis. Não há muito que sonhar. Como mergulhador penetro nas ruínas da alegria de sua pobreza, sem jardins, às vezes, sem chananas, refletores ou praças. Rua opaca, empírica, apenas onomatopaica. Mas, é o território dos meus vãos e desvãos. Nem fantasmas líricos e bufões aparecem. Somente vislumbro minhas relíquias imemoriais da infância e da adolescência. Restos sagrados nos olhos de quem é intimo da ilusão, eterno aprendiz de um mundo de contradições, mas também repleto de lembranças antigas e serenas. Tudo torna minha rua como a quero ver. Mas, há quem não goste da época chuvosa e fria dos últimos dias. Só não podem negar que o vento e o frio, elementos naturais de Deus, exercem poderosa força proustiana em busca do tempo perdido em cada um de nós. São como se fossem energias cósmicas renováveis provindas de antiquíssimas mutações planetárias. Até porque elas são geradas na atmosfera terrestre. Não quis ir tão alto. Prefiro a humanidade comum das coisas simples de explicar. E, às vezes, o pior é que elas não são tão simples como parecem. Por isso, volto à solidão do meu quarto, onde permaneço em comunhão com a frialdade da madrugada incomum, mas hospitaleira. Sei que mais tarde terei outra sinfonia. A dos pardais, logo nas primeiras horas da matina, como se vaiassem o sol emergente. Diante de tudo, e apesar de tudo, a quem foi concedido o direito de desconhecer tais coisas: o vento, o frio e a chuva? Termino dizendo que elas estão, não somente fora de nós, mas, principalmente, dentro de nós. (*) Escritor.

domingo, 21 de julho de 2024

Carta de Amor - TEMPO DE LEMBRAR Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes No longínquo ano de 1936, o dia 21 de julho amanhecia mais rico com o nascimento de THEREZINHA ROSSO GOMES, filha dos italianos Rocco Rosso e Rosina Lovisi, tendo os seus primeiros dias na casa de Dona Georgina, defronte à Igreja do Rosário dos Pretos, no bairro da Cidade Alta. No passar do tempo foi encontrando outros pousos até a casa da Rua Meira e Sá, 118, no Barro Vermelho, vizinha à casa 120, da família do Doutor José Gomes da Costa e Dona Lígia onde, em 1948 conheceu este articulista, molequinho vindo de Macaíba, cheio de sonhos. Desse tempo em diante passamos a sonhar juntos até 31 de março de 2019, quando celebrou a sua Páscoa final, deixando um rastro de 71 anos de convivência, sempre no mesmo bairro, onde concebeu quatro filhos – Rosa Ligia, Thereza Raquel, Carlos Roberto e Rocco José, ampliando o casal com os netos Lucas Antônio, Carlos Victor, Raphael, Gabriela, Maria Clara, Guilherme e Carlos Neto. Em que pese a ausência física, nunca deixamos de comemorar os encontros, natalícios e outros momentos, com a lembrança de sua pessoa, pois foi o que ensinou para todos nós – a despeito de ausências – a vida deve ser comemorada. Assim aconteceu no dia imediato à sua vigem final, quando no dia primeiro de abril fizemos, todos com lágrimas contidas, o aniversário de Maria Clara. Tais gestos não representam coisas mórbidas, mas acontecimentos sublimes da verdadeira imortalidade, através da sua foto à frente da mesa posta. Hoje não poderia ser diferente – está programada a comemoração dos seus 88 anos de nascimento, eternizando a pessoa da mais bela flor do nosso jardim, com a sua presença espiritual ampliando o amor que plantou na vida física. Desnecessário dizer que a saudade está plantada em todos nós, mas igualmente as belas lembranças dos instantes lúdicos, sábios, conciliadores que nos brindou numa existência de luz permanente. Parabéns, minha beija-flor, e obrigado pelo que nos ensinou por tantos e tantos anos.

terça-feira, 16 de julho de 2024

Conviver, arte delicada Padre João Medeiros Filho Atualmente, o desrespeito e a agressividade nas relações entre as pessoassão frequentes. Aumenta a dificuldade ou inabilidade em saber conviver. Muitos sequer se apercebem disso. Um olhar pelas ruas de nossas cidades é o suficiente para presenciar flagrantes, que evidenciam a impressionante incapacidade de se desfrutar de uma vida social saudável. Parece que se abriu mão de muitos avanços positivos da civilização. E no tocante ao relacionamento humano, temse, não raro, a impressão do retorno à idade da pedra. A deterioração do tecido e relacionamento social chegou ao nível em que uma pessoa polida e urbana se torna uma joia rara, suscitando por vezes desconfiança ou escárnio. Noções básicas de polidez e civilidade parecem ter sido esquecidas e abolidas. A gentileza assume ares de fraqueza, exibicionismo ou esnobação. O Papa Francisco afirmou em uma de suas alocuções: “As coisas estão se invertendo cada vez mais. O feminismo saudável está se transformando num machismo de saia, relegando a um segundo plano a grandeza da mulher e sindicalizando a dignidade feminina.” Para muitos, ser gentil e solidário denuncia insegurança ou carência de aceitação comunitária. A noção de coletividade e pertença a um grupo – em que os direitos de outrem devem ser observados – virou uma metáfora pejorativa. A Ética tornou-se algo ultrapassado e sem espaço no mundo hodierno. As pessoas ignoram o seu significado e importância. Egoísmo, impaciência, intolerância, grosseria, radicalismo e arrogância passaram a dar o tom no dia-a-dia. “Honrai a todos. Aos irmãos amai; a Deus temei” (1Pd 2,17), aconselhava o apóstolo Pedro. Tudo isso tem suas causas. As condições educacionais, o desprezo e abandono da axiologia, a repulsa dos valores morais, como o escárnio pelo respeito, a ausência de prática religiosa (seja qual for), no parâmetro de vida, estão destruindo nossas tradições e hospitalidade. A educação tradicional foi substituída por uma lamentável permissividade. O que se constata hoje é a consequência dessa mudança imbuída da insanidade pela qual o mundo enveredou. Como pode se comportar um jovem criado sem limites e carente de preparo emocional e psíquico? Chegando à vida adulta, enfrentará uma sociedade altamente competitiva, escravizada pelo consumismo desenfreado, pela incontida fome de lucro, injustiça, corrupção, violência e por um culto mórbido à aparência física e social. Vive-se no mundo do descarte ao respeito, do culto ao ter, poder, prazer e aparecer. Isto é facilmente verificável em vários segmentos da vida pública. Noções e modos comezinhos do conviver são ignorados. O uso hipócrita das formas oficiais de tratamento, mesuras e rapapés não ofuscam essa degradação. Não se deve confundir autenticidade, convicção ideológica ou discordância de ideias com insultos, impropérios, baixarias e agressões. Projetos e conveniências pessoais ou partidárias nem sempre visam ao bem-estar coletivo. Muitos concordam que a educação permissiva fracassou e o antigo modelo também se revelou inadequado. Na verdade, o atual sistema educacional tem se mostrado aquém do almejado. A ênfase dada por algumas instituições de ensino é centrada no Exame Nacional do Ensino Médio (ou o equivalente), como se o futuro do ser humano se restringisse apenas ao mercado de trabalho ou à profissão. A escola prioriza a transmissão de muitas informações e subestima relevantes postulados humanos, desencadeando a fácil tentação da ideologização. O ensino superior propõe-se a preparar profissionais, esquecendo o cidadão e a família. Faltam líderes com exemplos e testemunhos de vida. “É preciso humanizar o homem” insistia Jacques Maritain, em sua obra “O humanismo integral”. E Charles Chaplin reiterava: “Sois homens e não máquinas.” É preciso incentivar noções claras de uma cordial convivência em sociedade. Isto pode soar aos ouvidos de vários como algo inútil e obsoleto. No entanto, é uma reivindicação imprescindível. Não lograram grande êxito os métodos rígidos, excessos de lições de moral. Tampouco cabe o laxismo. É fundamental que reine o respeito entre todos. O cristianismo tem a missão de aprimorar o ser humano. Assim nos ensina a Sagrada Escritura: “Ninguém agrida, desrespeite, desconsidere e oprima o seu próximo. Somente Eu estou acima de vós e sou o vosso Deus” (Lv 25, 17).

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Oração e silêncio Padre João Medeiros Filho Quem pensar em seguir Jesus Cristo não deverá esquecer que a oração integra a essência da espiritualidade. Entretanto, poucos rezam e, muitas vezes, quando o fazem, têm dificuldade de se expressar diante de Deus. Embora possa parecer que a prece seja uma manifestação da fé, por vezes, torna-se difícil ou talvez ineficaz. Os discípulos do Senhor observavam os hábitos de oração do seu Mestre. Viram-No frequentemente retirando-se a lugares desertos a fim de falar com o Pai. Numa dessas ocasiões, pediram-Lhe ajuda. Desejavam comunicar-se com Deus, como Seu Filho o fazia. E assim suplicaram: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11, 1). Jesus fez o que Lhe pediram. Ensinou-lhes com palavras e exemplos. Teriam eles aprendido? Dois episódios narrados nos Atos dos Apóstolos mostram que compreenderam a importância da oração. Perseguidos e presos por causa de sua pregação, Pedro e João uniram-se a outros fiéis e, com confiança, suplicaram coragem para continuar a obra apostólica (At 4, 23-31). Ao citar o Salmo 2 mostraram haver entendido que o poder da prece se encontra Naquele que a escuta, pois Ele “está nos céus” (Sl 2, 4). Quando confrontados com as necessidades materiais das viúvas na comunidade de Jerusalém, os apóstolos constituíram diáconos para atendê-las. E no texto bíblico, encontra-se o motivo de sua decisão: “E, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da Palavra” (At 6, 4). A caridade com as viúvas e necessitados não era para ser negligenciada, mas os discípulos do Senhor deveriam também reservar tempo suficiente para algo muito importante: conversar com Deus. Haviam aprendido a lição e os hábitos de Jesus. “Mas para aprender a rezar, é preciso pôr-se de joelhos e escutar o silêncio”, dizia a mística Santa Teresa d´Ávila. A importância de calar-se para orar encontra-se em todos os textos teológicos, bíblicos e litúrgicos. “No silêncio alguma coisa irradia”, escreveu Exupéry. Na missa da Oitava do Natal, lemos as palavras do Livro da Sabedoria: “Enquanto um profundo silêncio envolvia todas as coisas e a noite ia, no meio do seu curso, desceu do céu, ó Deus, a vossa Palavra onipotente” (Sb 18, 14-15). Na quietude das pessoas e do universo, Deus manifestou-se ao homem. E Sua Palavra onipotente se encarnou. Todo o universo se aquieta, quando Deus vem a nosso encontro. A atitude silente da criatura diante do Criador deve ser de adoração de um discípulo, que escuta o Mestre e dele aprende Palavras de Vida. A mesma mensagem pode-se encontrar no Profeta Habacuc: “O Senhor está em seu santuário sagrado. Cale-se diante de sua presença, ó terra inteira” (Hab 2, 20). Segundo os evangelistas, na quietude da noite, Cristo retirava-se para as montanhas a fim de encontrar-se com o Pai. No recolhimento interior, longe da azáfama do cotidiano, Jesus escutava-O para depois proclamar o grande mistério, gerado desde toda a eternidade. Assim escreveu Paulo aos Romanos: “Um mistério latente, desde os séculos eternos, agora foi manifestado” (Rm 16, 25-26). Além desse elemento fundamental à prece, é necessário também tempo. Nós, filhos da modernidade e tecnologia, somos escravos da cronologia. Trazemos nos pulsos nossas algemas interiores e exteriores (os relógios). Não sabemos dedicar tempo a Deus. Cada vez mais, oramos menos e não percebemos a dimensão de gratuidade e beleza do amor divino. A oração é a expressão de nossa intimidade com Deus e nosso amor por Ele. É um falar constante com Aquele que amamos. Quem ama sente necessidade de estar perto, conversar e ter momentos a sós com a pessoa amada. Da mesma forma, a oração é ato e expressão de amor pelo nosso Pai Celestial. E quando se ama, o tempo é um obstáculo. Nós, escravos da cronometria, não sabemos dispor da temporalidade para desfrutar da experiência amorosa de Deus. Falamos sobre Ele, suplicamos ao Onipotente, mas esquecemos de deixá-Lo falar dentro de nós. A oração acalma, consola e anima. Lembrava Santo Agostinho: “Ela é a fortaleza do homem e a fraqueza de Deus.” É preciso crer naquilo que assegura o Mestre: “Pedi e vos será dado, procurai e achareis, batei e a porta vos será aberta” (Mt 7, 7).

quinta-feira, 27 de junho de 2024

O pálio arquiepiscopal Padre João Medeiros Filho No dia 7 de julho próximo, Natal presenciará um rito milenar, remontando ao ano 336 da era cristã. Trata-se da imposição do pálio arquiepiscopal a sua Excelência Reverendíssima Dom João dos Santos Cardoso, nosso Arcebispo Metropolitano, pelo Excelentíssimo Senhor Núncio Apostólico no Brasil, Dom Giambattista Diquattro. É um ritual rico de significado e tradição católica. Tal cerimônia acontece pela primeira vez em solo potiguar. Os arcebispos anteriores receberam o distintivo da dignidade de metropolita, no Vaticano. O evento é mais um marco nas mudanças dos rumos da Igreja norte-rio-grandense. Dom João tem se revelado um líder e pastor, conquistando paulatinamente o rebanho com sua simplicidade, firmeza dialogada, escuta atenciosa, responsabilidade partilhada, abertura interior, espírito fraterno e paternal, marcado por amor ao Povo de Deus. Desde os primeiros dias de seu ministério episcopal em nossa terra, tem surpreendido com gestos discretos, porém icônicos. “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21, 9). Pálio provém da palavra latina “pallium”, antigo manto romano que cobria os ombros, protegendo-os do frio europeu. Isso explica sua confecção em lã. Atualmente, é uma espécie de colar com dois apêndices, em forma de “Y”, com seis cruzes ali bordadas e três alfinetes fixados, lembrando os cravos do Senhor. Originalmente, era privativo dos papas. Depois, estendeu-se aos metropolitas e primazes, expressando a jurisdição delegada pelo Sumo Pontífice. Destina-se aos prelados que assumem um arcebispado. Simboliza a colegialidade episcopal, comunhão com a Igreja e a missão de coordenar uma província eclesiástica. Conforme historiadores, começou a ser usado na primeira metade do século IV, pelo Papa Marcos. Este estendeu o uso ao bispo de Óstia (Itália), que na qualidade de decano no episcopado presidiu a investidura do Sumo Pontífice. Após o século VI, é concedido aos metropolitas, tornando-se obrigatório, desde o século IX. O ritual inclui a profissão de fé do metropolita e seu juramento de fidelidade ao sucessor de Pedro. O objetivo é recordar publicamente aos investidos com aquela insígnia seu vínculo com a Cátedra Romana, fonte de todas as prerrogativas, fortalecendo assim a comunhão com o Papa. Buscava neutralizar aspirações de alguns eclesiásticos, ansiosos de uma autonomia incompatível com a unidade eclesial. O pálio detém grande simbolismo teológico e forte dimensão metafórica. Sua feitura com lã de ovelha alude à figura do Bom Pastor, que coloca em seus ombros a ovelha perdida. Deseja relembrar o primeiro ícone da arte cristã, uma imagem de Cristo, Bom Pastor, atribuída ao evangelista João. O arcebispo, como na iconografia religiosa, deverá pôr em seus ombros as ovelhas que lhe são confiadas por Cristo. O pálio é preparado com a lã de cordeiros brancos, criados pelos monges trapistas e posteriormente costurado pelas freiras beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília, em Roma. A lã ovina é ofertada ao Papa no dia 21 de janeiro (festa de Santa Inês) e por ele abençoada numa missa solene na basílica, erguida em homenagem à Virgem Mártir, nos arredores de Roma. Uma vez preparados, os pálios são colocados, em 29 de junho, sobre o túmulo de São Pedro para exprimir a tradição apostólica e posterior imposição aos prelados. Inês, em latim, Agnes, significa cordeiro. O arcebispo deverá empenhar-se para que suas ovelhas sejam dóceis e santas. Eis um dos simbolismos do belíssimo ritual que nossa arquidiocese vivenciará brevemente. Será um evento memorável para a história eclesiástica norte-rio-grandense. A parábola da ovelha desgarrada que o pastor procura no deserto – evocada na insígnia – é para os Padres da Igreja uma imagem do mistério de Cristo Salvador. Sendo veste litúrgica, o pálio deverá ser usado em cerimônias religiosas em sua arquidiocese, mormente nas celebrações eucarísticas. Este é um momento em que o celebrante se assemelha a Cristo, desejoso de que haja um “só rebanho e um só pastor” (cf. Jo 10, 16). A referida vestimenta litúrgica sempre representou a unidade com a Sé Apostólica, simbolizando também as virtudes que adornam a vida daquele que dela se reveste. A cerimônia em Natal expressará nossa comunhão com o Vigário de Cristo. Cabe lembrar a profética frase do Quarto Evangelho: “Houve um homem enviado por Deus, cujo nome é João” (Jo 1, 6).

terça-feira, 25 de junho de 2024

O ATHENEU LEMBRANÇA QUE O TEMPO NÃO DESFEZ Valério Mesquita mesquita.valerio@gmail.com Naquele tempo, o nosso mundo começava no Atheneu, um nome bonito, sonoro, poético. Era o tempo da felicidade na sua forma mais simples; dos primeiros alumbramentos; dos gestos inaugurais dos amores clandestinos. Falar sobre o Atheneu dos idos 50 e 60, é caminhar numa procissão de relembranças. "Seu Babau, quantas declinações existem no Latim". "Sei não, professor". "Sente, zero. Nominativo, genitivo, dativo, acusativo, vocativo e ablativo." Era o Cônego Luiz Wanderley arguindo o saudoso Raimundo Torquato, apelidado de Babu, mas o padre já declinava no acusativo: "Babau". Vascaíno fanático, só havia um jeito da turma se livrar da terrível chamada oral de latim da segunda-feira: elogiar o Vasco e comentar a sua vitória. No caso de derrota: delenda est Babau! Sem nenhum demérito aos atuais mestres do Atheneu norte-rio-grandense de hoje, mas será que o tempo poderia restituir essa seleção de ouro? Floriano Cavalcante (que ensinava história proferindo discurso); Protásio Melo (que nos influenciou o interesse pelos autores ingleses e americanos); Esmeraldo Siqueira professor de francês (com o seu indefectível charuto, cuja fumaça desenhava no ar os perfis de Hugo, de Daudet, de Vigny, de Balzac, de Gide, etc); Álvaro Tavares (modesto, simples, erudito); Cônego Luiz Wanderley (grande orador sacro e latinista), só para citar aqueles que nos ensinavam diretamente. Nesse universo perdido havia outras figuras inesquecíveis que não travaram contato conosco mas povoaram a mesma amorável galáxia que vai ficar na memória e na moldura do século. Mensurar o quanto a intelectualidade do Rio Grande do Norte deve ao Atheneu é uma tarefa impossível. Desde o tempo do inexcedível professor Celestino Pimentel, de Alvamar Furtado (o Clark Gable dessa Hollywood Potiguar), Câmara Cascudo (o mais sedutor dos mestres), e toda uma plêiade de professores quase todos absorvidos mais tarde pela Universidade Federal, nos faz deduzir que o Atheneu não foi, apenas, uma usina preparatória e educadora de gerações mas também de mestres que ajudaram a erigir o edifício de um novo tempo: uma instituição de ensino superior. O Atheneu de Petrópolis tem o dom da dimensão entre o efêmero e o eterno. Nele há algo mais para se sentir do que para se dizer. O Atheneu é a história de uma fé que se fez realidade. Concebido pelo arrojo arquitetônico extra época, insignes diretores deram vida e estabilidade definitivas ao idealismo renovador do ex-governador Sylvio Piza Pedroza. "Ver bem não é ver tudo, é ver os que os outros não vêem". Nessa frase perfeita de José Américo, Sylvio Pedroza, quem sabe não estaria enxergando longe o embrião da futura Universidade? Só sei que o tempo respeitou o que nele construiu para depois os próprios mestres, ao longo do tempo, se encarregarem da materialização do seu sonho. Isso porque, é na própria criação que o homem faz descobertas. O mestre Protásio Melo que teve uma vida inteira consagrada ao ensino de gerações, hoje nada "tendo nas mãos que foram pródigas", não viu a hora do silêncio e nem se calou. Abriu as asas de sua pesquisa sobre a História do Atheneu, a história de todos nós. E já entardecia para que se pudesse resgatar esse acervo rico de humanismo e tradição. Só Protásio mesmo, que cresceu nas ervas de Walt Whytm para ainda hoje, nos respingar da água benta de uma aurora, onde foi um dos protagonistas dos mistérios circundantes. (*) Escritor