quarta-feira, 6 de dezembro de 2023
quinta-feira, 30 de novembro de 2023
ONDE ESTÃO OS DISCOS VOADORES?
(*) Escritor.
(**) Composição: José Jorge, Márcio Moura,
Paulo Sérgio Valle, Rui Mauriti e Tavito.
quarta-feira, 29 de novembro de 2023
LONGE DO MAR, PERTO DO RIO
- Horácio Paiva *
Em minha viagem a Petrolina e Juazeiro, no alto sertão nordestino, fiz duas navegações: uma, no Rio São Francisco, o Velho Chico, generoso e amado, estendendo-a também ao lago de Sobradinho, um dos maiores lagos artificiais do Mundo; outra, num clássico da poesia norte-americana moderna, o poema “The road not taken” (“O caminho não percorrido”), do aclamado (também por mim) Robert Frost.
Na estrada da vida não raro topamos com a difícil escolha da direção a seguir, quando dois ou mais caminhos surgem à nossa frente e disputam a nossa decisão. Esse é o tema de Frost. O grande poeta ilustra esse impasse existencial pela escolha do caminho mais adequado, com a sua conclusão nesses versos finais, aqui numa tradução livre:
“(...)
Dois caminhos divergiam num bosque, e eu,
Eu tomei aquele menos trilhado,
E isso tem feito toda a diferença.”
Poesia e profecia andam juntas... e ante a riqueza do florescente polo agrícola - que tem como maiores expressões demográficas os municípios de Petrolina e Juazeiro -, voltado sobretudo para a fruticultura, vê-se que a opção desse caminho, historicamente recente no semiárido, aqui adotada pelos investidores, foi acertada e fez toda a diferença na alta produtividade alcançada.
O cultivo da uva, por exemplo, que já gerou duas importantes vinícolas na Região, apresenta produção no impressionante patamar de duas safras anuais (potencialmente acrescido de mais meia safra), acima do dobro do alcançado no Sul do País, que registra apenas uma safra.
Mas esse caminho maravilhoso, recentemente trilhado, esteve, durante muito tempo, destinado às criações extensivas de gado, desde os tempos coloniais, quando a área litorânea era, por lei, destinada à agricultura, mais precisamente ao cultivo da cana de açúcar, haja vista que a coroa portuguesa, através de Carta Régia, de 1701, visando proteger e priorizar a atividade canavieira e seu notável sucesso econômico à época, proibira a criação de animais numa faixa de dez léguas da costa.
A história, a poesia, a fraternidade e o bem estar acompanharam-me nessa viagem de conhecimento e identificação. Sim, pois o Nordeste que está em nós é muito maior do que imaginamos, e a tradição nordestina é um baião de dois: amor e solidariedade.
E se o Nordeste é fraternidade, assim também se formou o nosso grupo de navegantes pela Inaraí Tour, sob o alegre almirantado de Carlinhos, nosso anfitrião de Natal, e que inclui, na conexão com Petrolina, Josué Pereira, simpático e arguto guia, também nordestino, natural de Conceição do Canindé, no bravo Piauí.
Petrolina, filha de Pernambuco, e Juazeiro, da Bahia, criadas juntas (Juazeiro apenas 30 anos mais velha que Petrolina), são irmãs que, ricas, ajudam a criar a família e as demais irmãs que as cercam (Casa Nova, Sobradinho, Curaçá, Lagoa Grande e outras), no mesmo passo e no mesmo polo que ilumina o vale do santo de nossos rios, São Francisco, pois se a chuva é escassa nestes sertões, não faltam em suas veias subterrâneas as milagrosas águas.
“O sertanejo é antes de tudo um forte!”, dissera Euclides da Cunha, ao descrever a sua resistência e bravura. E há tempos as carrancas, símbolos de sua audácia, espantaram os demônios da miséria!...
E agora, voltando a Frost e à profecia, teria o caminho influenciado o viajante? Teria, como na clássica oração ensinada pelo Mestre, o Reino vindo ao pecador? Pois foi o que me parece haver ocorrido, após ouvir o emocionado relato existencial do Sr. Didi (Valdemiro Rodrigues Gonçalves), técnico agrícola e dono da Fazenda Santa Isabel, pequeno mas próspero sítio de cultivo de uva, que brindou nossa chegada com um farto banquete de frutas, servido à sombra de um juazeiro, mas, sobretudo, com a luz de sua grande alma acolhedora!... Ali pulsava o coração do Nordeste!...
.............................................................................................................................
(*) Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.
terça-feira, 28 de novembro de 2023
Escrever, terapia e mística
Padre João Medeiros Filho
Em determinados momentos, terapeutas e orientadores espirituais de diferentes matizes psicológicos ou religiosos aconselham pacientes e orientandos a registrar seus sentimentos. Nascem daí poemas, diários, romances, crônicas, autobiografias etc. Um dos propósitos é ajudar a lidar com emoções que assaltam a mente humana. Por vezes, escrever torna-se um instrumento de resistência diante de sofrimentos, que ultrapassam o suportável, ameaçam o equilíbrio psíquico e a continuidade da própria vida. Há milênios, Deus dissera ao profeta Jeremias: “Escreve num livro todas as palavras” (Jr 30, 2). Assim agiram pessoas, em meio ao horror do holocausto. Na escrita, encontraram um modo de continuar vivendo diante da dor e ameaça de morte iminente. Foi o caso de Edith Stein, convertida ao cristianismo e canonizada pela Igreja Católica. Há o exemplo da filósofa Simone Weil. Faleceu aos 34 anos, legando-nos uma obra de dezenove volumes, destacando-se “Attente de Dieu” (Espera de Deus). Inclui-se, dentre elas, Etty Hillesum, morta com apenas 29 anos, em Auschwitz. Deixou-nos três tomos de um diário e inúmeras cartas, as quais impressionam pela profundidade de suas manifestações místicas. Sua produção literária motivou a brilhante pesquisa de Michael Davide, intitulada “Etty, humanidade enraizada em Deus.” O Diário de Anne Frank foi leitura indicada em colégios religiosos, nas décadas de 1950 e 1960. Anne passou meses escondida no porão de um prédio, em Amsterdam. Durante esse tempo, escreveu suas memórias. Após sua morte em Bergen-Belsen, a obra foi reconhecida mundialmente como um hino de fé na humanidade diante das ingentes atrocidades perpetradas pelo nazismo. Escrever tem sido o caminho encontrado por muitos para lidar com o sofrimento e o luto. Assim aconteceu com Joan Didion, cuja saúde se fragilizava pela tristeza com a enfermidade de sua filha Quintana. Em seu livro O ano do pensamento mágico, pode-se encontrar reflexões sobre a limitação humana, a doença e a própria morte. Escrevendo, Joan encontrou forças para enfrentar a angústia, a tristeza, o luto e continuar vivendo. Assim conclui: “Sem a escrita, não teria sido possível a superação do infortúnio.” A escuta de si mesmo, colocada em textos, é algo que o homem pratica, há séculos e em várias circunstâncias. Autores de ficção projetam seus tormentos e inquietudes nos personagens por eles criados. Deste modo, exorcizam medos e ajudam os leitores a identificá-los, aprendendo a viver com eles. Em situações difíceis, escrever é a maneira que muitos encontram para resistir aos opressores e eventualmente vencêlos. O texto literário carrega a experiência da aflição e do desespero. Registra igualmente a esperança que conserva a vida, mesmo sob a espada inexorável da morte ou destruição. Belíssimos escritos são produzidos por autores em regimes de exceção, ditaduras, exílios, privação de liberdade. Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere emocionou seu defensor Sobral Pinto. Em circunstâncias análogas de prisão, pode-se citar Miguel de Cervantes com Dom Quixote, Oscar Wilde em “De profundis” etc. Isabel Allende, vendo sua filha em coma, afirmou: “O meticuloso exercício de escrever torna-se nossa salvação.” Quem decide redigir, mesmo sob a arrogância de outrem, reafirma a força da vida, que teima em acontecer sob a navalha da violência. O escrito produz algo que servirá de legado às gerações futuras. Importa gravar as próprias experiências e oferecê-las, como espaço no qual outros poderão refletir suas perplexidades e alegrias. Diante da efemeridade da existência, a escrita é terapêutica por ser algo que se fixa para não desaparecer. Nos casos mencionados, a morte ou o tempo interrompeu a vida, mas o texto faz reviver seus atores e autores. O livro não deixa perder na noite do tempo preciosas vivências e resistências. Com ele, outros aprenderão. A leitura será uma visita dolorosa ou aprazível, produzida por aqueles que viveram e narram os fatos. Poder-se-á evitar a repetição de tragédias e dramas. E até criar universos novos, em que a vida triunfe sobre a morte. Jeremias fez dos pergaminhos sua grande terapia, clamando ao Altíssimo: “Cura-me, Senhor, e ficarei curado. Salva-me, e serei salvo, porque Tu és a minha glória e meu refúgio” (Jr 17,14; 16).
domingo, 26 de novembro de 2023
Nossa Senhora da Apresentação
Padre João Medeiros Filho
No dia 21 de novembro, celebra-se a solenidade da Apresentação de Maria Santíssima no Templo por seus pais Joaquim e Ana. A Bíblia não relata tal acontecimento, chegado até nós por meio dos escritos apócrifos, como no Evangelho de Tiago. Este episódio da vida de Nossa Senhora despertou o interesse dos cristãos e de artistas plásticos, surgindo daí várias obras sobre o tema. A Igreja dos primeiros séculos ressaltava a figura e a missão da Corredentora. A tradição cristã e descobertas arqueológicas atestam que a Mãe Celestial era reverenciada na liturgia, desde os tempos apostólicos. O fato é registrado por desenhos e pinturas da Virgem de Nazaré, encontradas nas catacumbas romanas. Desde os primórdios do cristianismo, os fiéis veneravam a Mãe do Senhor. Em 62 A.D, junto com uma efígie de Cristo Bom Pastor, deparou-se com inscrições da Ave Maria, indicando que as primeiras comunidades cristãs rezavam essa prece. Daquela época, data um afresco da Virgem, descoberto na Catacumba de Santa Priscila, no qual Ela aparece amamentando o Menino Jesus. Em 451, foi localizada a imagem mais antiga da Mãe de Cristo, atribuída a São Lucas. Mostra Nossa Senhora com a Criança no colo.
No Oriente, a partir do século IV, desenvolveu-se a piedade mariana. Junto com a edificação de templos, iniciou-se o culto às imagens e aos títulos marianos. Desde então, os ícones em sua memória tornaram-se inspiração de talentosos mestres e presentes em muitos locais. Os fiéis guardavam-nos em suas residências e os monges nas celas. Os anacoretas acendiam velas diante deles. Eram levados às prisões para dar força e paz aos apenados. No Ocidente, desde o século VII, celebra-se a festa da Apresentação no dia 21 de novembro, rememorando o aniversário da dedicação da Basílica de Santa Maria, no ano de 543, em Jerusalém. Entretanto, a festa foi oficialmente criada por Gregório XI, em 1372. Em Avignon, os sumos pontífices já celebravam a missa solene da festividade. No Brasil, segundo Frei Agostinho da Beata Virgo, citado por Luís da Câmara Cascudo, a primeira paróquia dedicada a esse orago mariano foi erigida em 1599, na cidade do Natal (RN).
Maria é a mais venerada pelos brasileiros, dentre todos os santos do catolicismo. Amada com afeto filial, faz-se o destino de muitas súplicas, desejos e esperanças dos fiéis, mormente dos que sofrem. A expressão de nossa religiosidade revela-se fortemente na devoção mariana. É inegável o vínculo de permanência na fé. O amor à Virgem apresenta-se em todas as regiões e classes do país, sob muitas manifestações. A base da fé de nossa gente tem a ver com a piedade à Rainha Celestial. São terços, ofícios, orações, benditos, ladainhas, procissões, coroações e inúmeras maneiras de externar a sua crença. O culto mariano não se ensina nos livros. Transmite-se pelo testemunho das comunidades. A participação nos tríduos, novenas e outras comemorações alimenta a religiosidade, penetrando na vida das pessoas. No Brasil, a veneração a Nossa Senhora não se reveste de esquemas e conceitos intelectualizados, mas de sentimentos profundos que brotam da alma do povo.
Maria é expressão da benevolência divina. Pela intercessão da Virgem Santíssima, plena de graça, o Pai não nos abandona à própria sorte. Ela é uma prova de que o Onipotente não se arrependeu de ter criado o ser humano. Foi a Mulher escolhida pelo Altíssimo para sacrário corporal e terreno de seu Filho. Sendo Genitora do Salvador, contempla Deus Pai sem cessar com o seu sacratíssimo olhar. Maria de Nazaré é também nossa Mãe, por livre vontade de Jesus (cf. Jo 19, 26-27). E como tal, é nossa permanente intercessora junto a Cristo. Não se pode viver sem o carinho materno, por isso o nosso Redentor quis legar-nos Maria, face temporal do Divino. Sua ternura continua a se oferecer a cada um dos filhos. Ela poderá atenuar nossas saudades do Céu, uma vez que também esperou por Aquele que nos trouxe a vida e a paz. Privilegiada, teve o Salvador em seus braços. Ela acalentar-nos-á sempre nos momentos de desânimo, com um afetuoso sorriso e um meigo olhar de Mãe. “Bendita és entre todas as mulheres” (Lc 1, 42).
quinta-feira, 16 de novembro de 2023
Paixão por livros
Padre João Medeiros Filho
Quando estudante, sonhava em ter uma biblioteca contendo coleções, enciclopédias, passando pelos clássicos da literatura, filosofia, ciências sociais, teologia etc. Durante anos, comprava os livros que podia. Tive um acervo bibliográfico razoável, doado posteriormente a instituições diocesanas de ensino superior, em função de seu credenciamento pelo Ministério da Educação. O acervo bibliográfico foi fruto de poupanças, durante permanência universitária na Bélgica e enquanto docente no Brasil. Era uma quantidade de publicações, mais do que suficiente para minhas necessidades ou capacidade intelectual. Tarefa árdua: controlar a voracidade livresca, quando o dinheiro e o tempo de leitura eram parcos.
À medida em que ia envelhecendo, havia mudanças nas preferências. Hoje, faço opção por títulos de literatura, espiritualidade, arte, exegese e história. Em geral, os escritos científicos são lidos raramente. Com as obras de conteúdo artístico, poético e místico acontece diferente. Cada vez que são folheadas, trazem um novo encantamento. Tenho incontido fascínio por traduções da Bíblia. A beleza da Palavra de Deus encanta-me. A mensagem transcendental, o estilo e o texto bem escrito levam-me à oração. Sinto-me extasiado ao ler os salmos e evangelhos. Conduzem-me à prece. Considero a oração a forma perfeita e o ápice da poesia. Deus comunica-se também nas entrelinhas de um texto esmerado. A mensagem espiritual merece a beleza literária. Se o falar correto e elegante dos homens toca a alma, quanto mais a Palavra divina.
Fui um leitor sôfrego. Mamãe dizia a Dom Manuel Tavares, que me ungiu sacerdote: “Joãozinho leu tanto que derreteu o juízo.” Talvez, tivesse razão em sua simplicidade e sabedoria. Comovem-me bons textos e belos discursos. Acredito que minha vocação sacerdotal aflorou com os sermões de Dom José Delgado. Emocionava-me, ouvindo-o pregar sobre as Bem-aventuranças com frases lindas e ternas, seu tom e flexão de voz. Parece que escutava algo do Infinito. Realmente, são palavras celestiais. As acuradas edições dos Textos Sagrados me envolvem num clima transcendente. Sábia e profunda a resposta do apóstolo Pedro ao Mestre, quando instado se iria abandoná-Lo, exclamando: “A quem iremos, Senhor, só Tu tens palavras de Vida!” (Jo 6, 68). Hoje, com a visão limitada, recorro à inteligência artificial, pedindo à Alexa (Echo dot) que recite trechos bíblicos e poemas de vates nacionais ou estrangeiros.
Quando a velhice bateu à porta, mudaram minhas preferências literárias. Veio o momento em que, olhando aquelas estantes cheias de livros, senti que estava velho. Terei tempo de os reler? Não, respondi a mim mesmo. Então, por que guardá-los? Resolvi doá-los. Para Roland Barthes “os livros também querem provas de que são amados e desejam ser manuseados.” O tempo vai passando e a leitura sendo mais seletiva. Na juventude, deslumbravam-me livros volumosos. Essa ilusão foi sepultada, ouvindo Frei Ludovico Mourão (diretor da Editora Vozes). Ao atender um autor, vangloriando-se de escrever “obras que se punham em pé”, o editor respondeu: “Tenho quarenta anos de ofício. Um livro que se põe em pé, talvez não seja lido nem vendido.” Hoje, como leitor e modesto escritor, não me preocupa a quantidade de páginas, mas trabalhos compactos com frases densas.
Atualmente, meu hábito de leitura imita os gatinhos. Nenhum felino abocanha de imediato a comida. Primeiramente, cheira. Se o nariz não aprovar, desiste de comer. Faço o mesmo com os livros. Antes, procuro sentir o perfume do autor. Se não tem um aroma bem humano, leve e atraente, deixo de consumir. “Ler é um ritual antropofágico”, escreveu Murilo Mendes. A antropofagia não se dava por razões alimentares. Acontecia por motivação mágica. Segundo a mitologia e algumas lendas, quem come a carne do sacrificado se apropria das virtudes que existiam em seu corpo. No simbolismo da comunhão eucarística do Corpo e Sangue de Cristo, misticamente presentes no pão e no vinho, somos nutridos e contagiados pela riqueza de sua vida. A leitura é um ato sacramental de união do leitor com o autor. De maneira sábia, a Igreja une na missa: Palavra (leituras bíblicas) e Pão. Ambos são alimentos. Teologicamente, Verbo e Pão tornam-se sinônimos. “Tomai e comei.” (Mt 26, 26).
quinta-feira, 9 de novembro de 2023
Quem não tem cão, caça como gato
Padre João Medeiros Filho
Outro dia, Dom João dos Santos Cardoso, nosso arcebispo metropolitano, esteve na granja da Arquidiocese (onde moram eclesiásticos eméritos), trazendo seus cãezinhos de estimação para passear. Tenho em casa um gatinho muito mimoso. Vendo os animais soltos, pulando e correndo, lembrei-me da máxima supracitada e senti vontade de escrever sobre ela. Gosto de cultivar ditados e aforismos transmitidos ao longo dos séculos. Algo semelhante encontra-se na Sagrada Escritura, notadamente nos Livros dos Provérbios e da Sabedoria. Exegetas antigos e modernos afirmam que Cristo fez uso desse estilo literário, em suas parábolas e alegorias. Os axiomas e expressões populares constituem uma parte importante da cultura de cada nação. Apresentam metáforas éticas, sociais e religiosas. É uma incógnita a origem desse patrimônio e riqueza imaterial. Segundo o antropólogo norte-rio-grandense Luís da Câmara Cascudo, “ao longo de toda a história da humanidade, os axiomas e adágios sempre estiveram presentes na alma do povo.” Por seu conteúdo e qualidade sapiencial, revestem-se de grande importância para o convívio social. Nesse campo, o Brasil é detentor de um expressivo legado, herança de nossos ancestrais lusitanos e outras matrizes culturais. De acordo com o eminente pesquisador potiguar, “o provérbio [em tela] tornou-se conhecido no Brasil, após a invasão holandesa, na segunda metade do século XVII.” A partir de então, começou a ser citado na tentativa de reanimar a população espoliada. O renomado folclorista alagoano Théo Brandão partilha dessa mesma assertiva. Desde priscas eras, pessoas abastadas escolhiam cães para acompanhá-las em suas caçadas. Até hoje, em razão de seu porte, fidelidade, velocidade e excelência no farejar são treinados para detectar objetos, identificar e proteger pessoas. A máxima, aqui referenciada, difere da versão escrita em alguns livros: quem não tem cão, caça com gato. Grande parte dos estudiosos afirma que a variante usada no caput deste artigo é mais antiga. Entretanto, as mensagens se equiparam. Trata-se de aceitar as limitações e circunstâncias. Quando não se pode agir com a ajuda de um cão, deve-se adotar a estratégia do gato, que é solerte para alcançar os seus objetivos. Diante da falta de melhores recursos e oportunidades, é preciso encontrar alternativas para se atingir os fins almejados. Há coerência e lógica na lição que se pretende transmitir. Assim sendo, quem não tem cão para perseguir a eventual presa, deverá caçar inteligentemente, à maneira de um gato. Cristo aconselha em situação de adversidade “primeiro sentar-se e calcular” (Lc 14, 31). Recomenda prudência, objetividade e imaginação, antes de agir. O provérbio mostra a necessidade de ser criativo em situações desafiadoras. Na inexistência de meios adequados para resolver determinados problemas, é mister ser engenhoso para encontrar outras maneiras de conseguir os fins propostos. Em vez de lamentar, cruzar os braços e tornar-se refém dos obstáculos, urge buscar saídas honrosas e inovadoras. Convém lembrar que nem sempre a solução mais óbvia é a melhor. Devese ter lucidez para encontrar opções. Ao narrar a história de Esaú e Jacó, o Livro do Gênesis (Gn 25-26) refere-se à perspicácia, uma das nuances do anexim, que intitula este texto. O adágio em questão se presta a diversas interpretações e mensagens. Existe quem o considere uma crítica à falta de planejamento e organização, quando indivíduos ou instituições se veem obrigados a improvisar. Na prática, a frase pode ser aplicada em diferentes situações, ensejando a procura de respostas às dificuldades. O que dizer da postura dos cães e gatos? Machado de Assis escreveu: “Deve-se aprender com os gatinhos que pelo faro conhecem seus verdadeiros amigos. Não sabem falar, mas os acompanham em silêncio.” Certa vez, Marilyn Monroe desabafou aos jornalistas: “Os cães nunca me morderam nem me traem. São os humanos que me ferem no corpo e na alma.” A versatilidade, dedicação, fidelidade e prontidão dos caninos ou felinos impressionam e levam-nos a pensar sobre alguns atributos divinos. Diz o Livro dos Números: “Deus não é o homem para que minta, nem o filho do homem para que se arrependa. Acaso diz alguma coisa e não o faz? Promete e não o cumpre?” (Nm 23, 19).
REFLEXÕES SOBRE JOGO DUPLO
Valério Mesquita*
Fica decretado que no período da quaresma os homens públicos, já tão vergastados, não permaneçam submissos ao jogo da mentira. Não será preciso usar a couraça da desfaçatez para denegrir o semelhante. O Poder Legislativo, antes, rinha real, escarlate, com suas armadilhas e contendas, transmudou-se em Assembleia de Deus onde todos oram unidos pela paz enganosa dos pântanos. Antes, vi a baba e a saliva estilhaçarem vidraças num chiado contínuo além do brilho de punhais. Hoje, plantou-se uma estação de teorias esquisitas de acomodação e lazer. Esqueceram o andarilho vento alísio e caminheiro, portador de embates em favor da economia falida do Rio Grande do Norte. Enquanto isso, no palanque do dono da eleição, nenhum sopro eólico e planejador, irrompe a brida do cavalo viajor, à frente do tropel da sucessão.
Cumpre-se a assertiva de que jamais o lobo e o cordeiro jantarão juntos. O clamor do povo não chega porque o pasto é qualificado, mas a penúria é certa. Existe no sentimento de determinados homens públicos uma malandra e esperta fome de guaxinim. O povo deve exigir que a verdade seja servida antes dos aperitivos. Os rigores do combate a corrupção no país obrigaram o político aprender que tudo não é permitido. Ele deve deixar de ser privatizável, inconveniente e circunstancial. O sol das manhãs vindouras será para todos. Fica estabelecido, em nome de Jesus, que os políticos não se reúnam apenas para discutir os seus interesses de se eternizarem nos mandatos. E a imposição de que somente as suas vontades sejam revelantes, mas os segredos continuem irrevelados.
Cá do sereno, percebo que tudo o que acontece com a classe política é fruto do arbítrio. Nesse baile de máscaras, se escondem sorrisos e punhais. Não enxergo bem quem está dançando brega ou funk. Mas, me lembro daquela quadrilha junina de Lampião que no ensaio da dança caipira, exatamente no segundo movimento, no anarriê, quem vai levar o dedo indicador à boca? A omissão vai sobrar pra quem? Continuará valendo a tese ou a tesão de que contra governo rio cheio e o real ninguém dá jeito? Ante tudo isso, fico com a reflexão do escritor argentino Jorge Luiz Borges para acrescentar que não somente “O velório gasta os rostos”, mas candidato ruim também. Na política, devemos entender que não existem aliados, mas conspiradores que se unem.
Admito que o mapa político-eleitoral vai produzir tantas incertezas quanto espertezas para 2024. É cedo para ressentimentos e mágoas. Sigo o pensamento do Barão de Itararé: “Não nos queixemos de certos homens públicos pela sua arrogância, rudeza, egoísmo, vaidade, esquecimento. É a sua índole. Irritar-se com ele é como se irritar com o fogo porque queima ou com o cão porque morde”. La Bruyère, descendo numa sessão espírita lá em Mangabeira, afirmou que: “O demônio poder citar a Bíblia em proveito próprio”. Mas, grassa no Rio Grande do Norte, o entendimento de que “Os vícios são virtudes enlouquecidas”. Principalmente os eleitorais e administrativos. Na vida pública de hoje, não é à toa se dizer que cada político haverá de morrer agarrado a sua angústia. Está em curso um processo depuratório.
Garimpo o pensamento filosófico de que “O ser humano não só morre quando desencarna. mas também quando se desencanta”. E o povo? Bem, hoje, ele não é mais um detalhe... Graças a Deus.
quinta-feira, 2 de novembro de 2023
Para refletir no Dia de Finados
Padre João Medeiros Filho
Inexiste nos textos bíblicos neotestamentários qualquer palavra de Jesus se auto definindo como morte. Ao contrário, Ele proclama: “Eu sou o Pão da Vida” (Jo 6, 48); “Vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10), ou ainda, “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Santo Agostinho pregava: “O cristão não conhece a morte, mas a vida que começa com a morte.” Esta é a porta da Eternidade, o sono que conduz ao Infinito. Certa feita, o Filho de Deus, diante de uma família sofrida pela perda da filha, exclamou: “A menina não morreu, ela dorme” (Mt 9, 24). Com a notícia do falecimento de seu amigo Lázaro, Jesus afirmara: “Ele está dormindo, irei acordá-lo” (Jo 11, 12). Sono é o termo empregado pelos primeiros teólogos da Igreja, quando cessa nosso existir. Daí surge a expressão da liturgia de réquiem: “Requiescat in pace” (durma, descanse em paz).
Para Mário Quintana: “Morrer não é o último ato biológico. Acontece também nas perdas cotidianas e naquilo que nos traz saudades, quando acabam planos, esperanças, amizades.” Integra imprescindivelmente a natureza do ser humano. “Morrer é um ato natural, como beber, comer e dormir”, escreveu o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Anormal é aquilo que muitas vezes o precede: aparelhos conectados e tubos introduzidos no corpo sem o paciente poder fazer nada, pois não é mais dono de si mesmo. Mister se faz atenuar a solidão e a ansiedade que precedem à morte. Poucos têm palavras para falar tranquilamente sobre a realidade inevitável. Contudo, é um dever para os que creem, um ato de misericórdia, análogo ao preconizado no capítulo 25 do Evangelho de Mateus. A ciência e as religiões não refletem suficientemente sobre esse aspecto. Há carência de serviços e movimentos espirituais para proporcionar serenidade, aceitação e desprendimento naqueles que partem. Falta quem saiba cuidar da inexorável separação. É graça – quando pressentido ou anunciado – nosso fim acontecer, de forma mansa e sem dores, em meio às pessoas amadas e num clima de paz e quietude.
Para o cristianismo, a morte é apenas o umbral do Céu. A sabedoria da fé leva a viver com toda responsabilidade e despedir-se da existência com pleno despojamento. A morte é a devolução de algo que não pertence ao homem. Consiste no verdadeiro nascimento do ser humano – “mors vere dies natalis hominis” – pregou o Bispo de Hipona. A vivência da fé proporciona o equilíbrio humano. Se de um lado, pensarmos somente no término dos dias, colocaremos o sentido de tudo no final da existência terrena. Há algumas pessoas que tendem para essa posição e acabam desprezando o viver, diminuindo o sabor da vida, dom divino. Entretanto, a tentação mais comum é a abordagem contrária: priorizar o existir efêmero. O enfoque no provisório pode gerar desespero, quando as limitações começam a aparecer. “Somos migrantes, moradores temporários neste mundo” (1Cr 29, 15). O apóstolo Paulo arremata peremptoriamente: “Somos cidadãos do céu” (Fl 3, 20).
“Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer” (Ecl 3, 2), diz a Sagrada Escritura. Viver e morrer não são antagônicos, mas irmãos. São Francisco de Assis percebeu tal verdade, ao falar da “Irmã Morte”. Isto exige que sejamos sábios para nos preparar quando a vida irá se plenificar. Poderia a Medicina desenvolver uma nova especialidade (tanatoatria) para assistir aos que terminam sua caminhada terrena. Sua missão seria preparar para o definitivo que leva à plenitude. Deverá fazer tudo para que o desenlace seja tranquilo e cercado de carinho. Poder-se-ia designar como padroeira de tal ramo da ciência médica Nossa Senhora da Piedade, simbolizada na ternura de “La Pietà”, de Michelangelo. Naquela escultura, Maria está representada com o seu Filho Amado, morto em seus braços. No colo de uma mãe o morrer não causará medo. A Igreja deve ser essa Mãe, expressão de afeto, que sabe nos envolver nos momentos do desabrochar da vida plena, onde de acordo com o Apocalipse “não haverá mais luto, nem choro, nem dor, pois as coisas de antes passaram” (Ap 21, 4).
sexta-feira, 27 de outubro de 2023
A ALMA DAS CIDADES
A Alma das Cidades é o título de um de meus poemas, habitante de meu livro “A Torre Azul”. Mas é também a representação do status subjetivo da cidade, a aura de cada cidade, para cada um de nós, particularmente.
Dessa forma, essa impressão subjetiva da cidade, essa alma, transcende o sentimento comum, e se, em determinados momentos, a alguns desperta alegria, a outros, sobretudo aos que mais a vivenciaram, pode sugerir nostalgia.
Sim, porque tudo é vida, e todas as cidades são eternas e mortais... Mesmo Roma, chamada de eterna, tem ruínas à vista.
Quando a eternidade se sobrepõe - e sempre se sobrepõe, ao negar o tempo -, abre espaço para nosso voo íntimo, e esse sentimento, que a arte, em alguns momentos, chamou de impressionismo, toma conta de nosso espírito, molda nossas sensações, faz crescer nossa identidade e nos leva a quebrar paradigmas... E cada um passa a ter direito a um espaço ontológico ilimitado, a explicar-se conforme esse mundo gigante.
É isso que me faz associar o lugar onde vivi a qualquer um outro, com mais ou menos semelhanças entre si, já que ambos pertencem ao meu íntimo e falam às minhas emoções existenciais e estéticas. Tal o que me ocorre quando escuto, por exemplo, o “Estro Armonico”, de Vivaldi, e me vejo ora em Veneza e ora em Macau. É que Vivaldi costuma ir à minha infância, e minha infância é Macau.
Diz Santo Agostinho que as lembranças são a essência do passado, e faz essa reflexão: “Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras.” E acrescenta: “Existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras.” (“Confissões”, XI, 20).
Mas se as lembranças são a essência do passado, não seriam elas também a base da nostalgia? E se a nostalgia pertence ao tempo que morreu, não seríamos nós também uma sucessão de mortos em relação aos atos e fatos passados com nós mesmos, já que não podemos mais neles interferir?
Macau, porém, é mais que lembranças, e caminha comigo. Como Deleuze, sustento a realidade do passado e sua conexão com o presente e o futuro. É o que digo nesse meu haicai, a que pus o título “Em Macau”:
Estou em Macau -
as lembranças
caminham comigo.
Esse olhar sobre a cidade é um olhar sobre nós mesmos e que se justifica na adequação particular entre espaço, tempo e circunstâncias. Daí pensarmos a cidade como uma responsabilidade nossa e a sua vitória e derrota são vitória e derrota nossas.
Há uma frase do grande poeta e libertário José Martí, que sempre trago comigo e que diz: “No hay más que un medio de vivir después de muerto: haber sido un hombre de todos los tiempos - o un hombre de su tiempo” (“Não há mais que um meio de viver depois de morto: haver sido um homem de todos os tempos - ou um homem de seu tempo”).
No espaço de meu tempo, circunstâncias e afinidades, algumas cidades disputam, ou, melhor, formam meu coração: Macau, Natal, Recife, Lisboa e Veneza. Em todas essas águas há o navegar de um navio azul imaginário, a Nau Catarineta. Mas o cais é Macau, toda Macau, a eterna.
Vamos ao poema:
A ALMA DAS CIDADES
A cidade passou
antes de mim.
E não houve adeus.
Perdeu-se
no caos incontrolável
da impermanência.
E quando vi que passara
com seu séquito mudo
retirei-me.
Sem olhar para trás...
Anjos
- que não sabem que são anjos -
vieram ao meu encontro
e serviram-me.
Ainda não morri,
concordo.
Mas a alma de minha cidade
não existe mais.
.................................................................................................................
(*) Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.
quinta-feira, 26 de outubro de 2023
A CAUSA ABOLICIONISTA
Ivan Maciel de Andrade, Jurista e escritor
TEMPO DE OUVIR SINAIS
Valério Mesquita*
Gautama é a personagem histórica que fundou o budismo no século V a.C. Essa religião, que se opôs ao bramanismo, conta com mais de quinhentos milhões no Extremo Oriente, incluindo-se Índia, China e Japão. Já Maomé, profeta e fundador do islamismo, lá pela era de 632 d.C., domina, hoje, dezenas de países muçulmanos. Pois bem. Não se vê ninguém sistematicamente refutar, distorcer, incriminar, blasfemar através da literatura mundial, sobre a vida pregressa dos fundadores das duas religiões. Apenas, como objetivo deliberado de desmerecer e lambuzar o culto, de desestabilizar a fé, apenas, tal proceder, através de festejados escritores com relação à vida de Jesus Cristo, imputando-lhe comportamento mundano, incompatível com a imagem santa traduzida e ensinada pelo Novo Testamento das Sagradas Escrituras.
Os milhões de cristãos do mundo, entre católicos, evangélicos, ortodoxos, etc., já começam a indagar: por quê? Cumprem-se as profecias dos anticristos? A própria Bíblia previu, em várias situações, tanto no Antigo como no Novo Testamento, o aparecimento dos perseguidores do Cristo, que jamais deixou de admitir a influência de Satanás sobre os humanos. Ele próprio sofreu a tentação do maligno e triunfou com o seu poder de Filho de Deus para que se cumprissem as escrituras. Ora, a minha indignação é contra as maledicências de obras ficcionistas de livros e filmes que procuram imprimir comportamentos duvidosos e profanos tais como: conjunções carnais com Maria Madalena e que foi casado, pai de filhos. Além do mais, desacredita a Bíblia cristã ao afirmar que o imperador de Roma, Constantino, autorizou a elaboração de outra, a fim de ocultar informações depreciativas sobre Jesus. Todas alegações, integram a trama literariamente urdida, porém corrupta, porque falseia, calúnia uma verdade histórica que muitos pensadores e gênios da humanidade, através dos tempos, jamais contestaram. Creram.
As minhas assertivas não constituem crítica literária e nem é esse o meu propósito. Agora, difamar a vinda do Cristo subvertendo a vida e a mensagem legadas, sem apresentar qualquer prova documental, histórica, pesquisa ou descoberta antropológica, mas, só para exercício de vaidade cultural, com o fito de vender o livro, é ser trapaceiro. É crucificar Jesus de novo.
Minha decepção com o mundo de hoje também se fundamenta no fato de que mais de dez milhões de livros já foram vendidos. Deve ter atingido aquela faixa populacional que só se lembra ou invoca Jesus quando está morrendo no hospital. Ou, quando não, pede para que os serviços religiosos sejam ministrados após a morte, por via das dúvidas. Só me resta pedir a Jesus que venha logo desbaratar essa quadrilha de hereges. Venha fortalecer os seus missionários, sacerdotes, pastores, com a luz do Espírito Santo. Senhor, permita que aconteçam mais milagres, aparições, porque a incredulidade campeia. O Senhor procedeu assim naquele tempo. E agora, após a população do planeta ter crescido tanto, a ciência, a tecnologia, multiplicação de anticristos, não seria oportuno vim, ver e ouvir?
No Apocalipse 22, versículos 12 e 13, disse Jesus: “E eis que cedo venho e o meu galardão está comigo para dar a cada um segundo a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Derradeiro”. Palavras fortes que para um bom entendedor, bastam. Estariam os cataclismos no mundo inteiro acontecendo sem a permissão do Senhor para testificar a segunda e anunciada vinda de Jesus ao mundo em transe?
Por acaso, as guerras no Oriente Médio, na Ucrânia, o aumento devastador de terroristas, em todos os continentes, além de tempestades, pandemias, temperaturas extremas, rios secando, domínio do tráfico de drogas, e mais a matança de dois anticristos (árabes e judeus) podem ser entendidos como sinais?
(*) Escritor.
Nova capela para a Casa da Criança
Padre João Medeiros Filho
Em 1947, o Cônego Eugênio Sales, assessorado pelo Dr. Otto Guerra e acolhendo sugestão de Dom Marcolino Dantas, denominou a Casa da Criança de Natal (RN) “Escola-Ambulatório Padre João Maria”. O bispo diocesano recomendava seguir o exemplo do “Anjo da Caridade”, que havia fundado uma escola para crianças pobres. Dirigida pelas Filhas de São Vicente de Paulo, a Casa da Criança integrava a pastoral social da Arquidiocese de Natal, sendo igualmente campo de estágio da Escola de Serviço Social do RN. A professora Irmã Lúcia Montenegro, religiosa daquela congregação, doutora em Sociologia, supervisionava as atividades sociais e acadêmicas. Desde o final de 1944, a entidade já prestava assistência às crianças órfãs, mantendo uma creche para aquelas, cujas mães trabalhavam fora do lar. Proporcionava à comunidade atendimento médico-odontológico, cursos de alfabetização, capacitação profissional, liderança e ações não contempladas pelos programas governamentais da época. Inegável é o contributo de Irmã Lúcia, junto àquela entidade, que desempenhou papel relevante no Movimento de Natal. A Casa da Criança era um centro irradiador de vivência cristã, formação de líderes e quadros para o desenvolvimento social. Transformou-se em lugar de reflexão e laboratório do Curso Superior de Serviço Social, vinculado à Igreja, hoje incorporado à UFRN.
Muitos condomínios formaram-se nas imediações da escola-ambulatório, dela recebendo influência religiosa. Com o crescimento demográfico no entorno, aproximando-se o octogésimo aniversário da instituição, Monsenhor Lucas Batista Neto, capelão daquela Casa, empenha-se por reavivar o dinamismo evangelizador da entidade. Planejou um novo templo, que servirá de espaço litúrgico e sócio-educacional em comunhão com as orientações arquidiocesanas e paroquiais. “Deseja-se tornar uma comunidade viva, inspirada no Evangelho, alimentada pela Eucaristia e ícone da caridade cristã”, diz o capelão. Hoje, as instalações não conseguem abrigar centenas de fiéis participantes da liturgia dominical, sedentos da Palavra e do Pão da Vida.
O novo templo será dedicado a Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, cuja devoção nasceu em Paris. No dia 27/11/1930, a noviça Catarina Labouré entrou na capela das Filhas de Caridade de São Vicente para orar e meditar. A Virgem Maria apareceu-lhe, revelando que aconteceria no mundo uma onda extraordinária de milagres e conversões. Seria a devoção à Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças, manifestação do amor do Pai pela humanidade através da Mãe Santíssima.
Terminados os trâmites legais, na Festa de Nossa Senhora Aparecida, Monsenhor Lucas informou à comunidade o início das obras de edificação da Capela e do Portal da Saudade. Este será mais uma fonte de recursos para a manutenção das futuras atividades religiosas e sociais da instituição. Trata-se da construção de um columbário (cinerário), anexado à Capela, para guardar as cinzas dos fiéis que optaram pela cremação. Consiste num local apropriado, obedecendo às normas da Congregação para a Doutrina da Fé na Instrução “Ad ressurgendum cum Christo” (Para ressuscitar com Cristo), de 15/08/2016. A cremação de corpos dos católicos recebeu o beneplácito do Papa Paulo VI (1963), ratificada pelo cânon 1176 do Código de Direito Canônico (1983) e prevista no Catecismo da Igreja Católica (1999), nº 2301.
Realização pioneira nesse sentido teve Dom Eugênio Sales. Ao edificar a nova Catedral de São Sebastião (RJ), determinou a construção, na cripta do templo, de um ossuário, onde os fiéis pudessem inumar os restos mortais de seus familiares em local digno e seguro. À semelhança da Catedral do RJ, será o Portal da Saudade. Ali, haverá também missas semanais e atos religiosos nos dias dos pais, mães e finados em sufrágio daqueles que jazem no local. Seguindo as determinações eclesiásticas, Monsenhor Lucas deseja que as cinzas dos cristãos cremados possam ter o destino previsto nas normas eclesiásticas, “devendo ser colocadas em lugar santo e digno.” O documento da Sé Apostólica desautoriza a colocação das cinzas dos cremados nos mares, rios, lagoas, florestas, jardins e plantas. Reprova ainda o seu uso em joias. Não permite guardá-las nas residências, devendo ser conservadas em lugares sagrados, cemitérios e espaços destinados a esse fim. Convém recordar o profeta Isaías: “Os teus mortos reviverão” (Is 26, 19).