sábado, 17 de junho de 2023
Santo Antônio, de Lisboa e de Pádua
Padre João Medeiros Filho
Celebra-se sua festa litúrgica em 13 de junho. Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo era seu nome civil. Nasceu aos 15/08/1195, em Lisboa. Faleceu com apenas 35 anos, aos 13 de junho de 1231 em Pádua (Itália), onde vivera alguns anos. Por essa razão, passou a ser chamado de Santo Antônio de Pádua, não obstante sua origem lusitana. Inicialmente, ingressou na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, tendo sido ordenado sacerdote no Mosteiro da Santa Cruz, de Coimbra, em 1220. Posteriormente, após uma tentativa frustrada de fixar-se no Marrocos – onde pretendia ser missionário entre os muçulmanos – partiu para a Itália. Durante a viagem, foi acometido de grave doença. O navio em que embarcara acabou desviado por uma tempestade para a Ilha da Sicília. Ali chegando, resolveu ir até Assis para conhecer São Francisco. Este o impressionou e marcou tanto sua vida, que resolveu deixar os agostinianos e ingressar na ordem franciscana. Sua lucidez e equilíbrio eram relevantes. Em carta, São Francisco o chama: “Meu bispo”. Grande pregador e conselheiro, Antônio orientou nobres e ricos de seu tempo. Intermediou vários casamentos entre membros da aristocracia europeia. Conta-se que ajudou muitas noivas a comprar o enxoval e pagar o dote esponsal. Daí, nascem a fama de promotor de matrimônios e o epíteto de “casamenteiro”, surgindo também a devoção das moças casadoiras. Combateu os erros doutrinários de sua época com tanta convicção e sabedoria que São Francisco o designou superior provincial dos franciscanos. Sediado no Convento de Arcella (Pádua), viajou pela Europa com tanta rapidez e frequência, a ponto de a tradição atribuir-lhe o dom de ubiquação, pelo qual podia estar em vários lugares ao mesmo tempo. Dotado de grande eloquência, inteligência privilegiada e exímio conhecimento teológico, reiterou que a virtude maior do cristianismo é a caridade. O convento onde morava era rodeado por pobres e famintos, que lhe suplicavam o pão material e o alimento espiritual. A tradição conserva até hoje o símbolo de sua atenção e amor pelos pobres: o pão de Santo Antônio, distribuído à porta dos conventos franciscanos às terças-feiras (dia da semana em que ocorreu o seu sepultamento). Compreendeu desde cedo a lição de Cristo: “O que fizerdes ao menor dos meus irmãos, é a Mim que o fazeis” (Mt 25, 40). Para pregar unicamente a Palavra de Deus, renunciou à cátedra da Universidade de Bolonha. Sabia da existência dos mais sedentos da Água que nos sacia e famintos do Pão da Vida. O ministério da pregação foi a prioridade de seu apostolado. Na verdade, transmitia “palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Na sociedade contemporânea, inundada de falas e informações pelas redes sociais e mídia, sua mensagem convida-nos a buscar os ensinamentos que nos salvam. Num mundo contaminado por falsos valores, que nos deixam perdidos e atônitos, ele nos leva a encontrar Deus, “tesouro que a traça não corrompe” (Mt 6, 19). Fez muitos descobrir Jesus Cristo. Impressionou tanto os cristãos e as autoridades eclesiásticas pela sua santidade e sabedoria que o Papa Gregório IX o elevou às honras dos altares, canonizando-o em apenas onze meses após a sua morte, declarando-o Doutor da Igreja. Dada à influência portuguesa e à catequese dos franciscanos, primeiros missionários a aportarem no Brasil, bem como à devoção por parte do povo mais simples, Santo Antônio foi integrado aos festejos juninos, ao lado de São João e São Pedro. Muitos conhecem o folguedo: “Matrimônio, matrimônio, isso é lá com Santo Antônio.” Sua influência contribuiu, à época, no registro batismal de muitos portugueses. Havia incidência significativa do prenome Fernando, oriundo das dinastias espanhola e lusitana. O ilustre frade mudou essa rotina. Muitos passaram adotar o nome do santo como prenome ou acrescentá-lo ao já existente. Exemplo relevante é o do poeta Fernando Pessoa. Essa tradição foi trazida para o Brasil. Podem ser encontrados vários registros de Fernando Antônio nos livros paroquiais de batismo e nos cartórios. Rezamos em nossas igrejas: “Bendito seja Deus nos seus anjos e nos seus santos.”
sexta-feira, 9 de junho de 2023
RELEMBRANDO LAURO DA ESCÓSSIA
Valério Mesquita*
Em 1981, o plano editorial da Fundação José Augusto, a qual presidia, contemplava a publicação do livro “Memórias de um Jornalista de Província”, do mossoroense Lauro da Escóssia, profissional da imprensa e então diretor do Museu Municipal de Mossoró. A obra foi composta e impressa na Gráfica Manibu da Fundação José Augusto e lançada em Natal, na livraria Universitária sob a bandeira desfraldada de Walter Pereira com a presença do mundo cultural de Natal e de Mossoró. Raimundo Augusto da Escóssia, seu filho, meu colega do Tribunal de Contas, trouxe-me a foto do evento para a minha curiosidade e alegria no ensejo da data do centenário do seu pai. Prometi-lhe que faria o registro público para resgate do relato autobiográfico daquele que foi não somente um marco na imprensa mossoroense mas que deixou o legado primoroso de discípulos como Dorian Jorge Freire e Jaime Hipólito Dantas que enobrecem a intelectualidade da terra de Vingt-Un Rosado.
O livro tomou o número CLVI da Coleção Mossoroense e a capa confeccionada pelo competente artista plástico Vicente Vitoriano. O prefácio de Dorian Jorge Freire foi inexcedível no estilo e na forma emocional que só ele sabia fazer, dizer e sentir quando o assunto era Mossoró e seus ídolos. A orelha foi de Raimundo Soares de Brito, monstro sagrado do tabernáculo da cultura daquele “país”. Senti-me, partícipe desse banquete de reminiscências do mestre Lauro da Escóssia porque decidi, à época, imprimir as estórias vindas de sua infância à maturidade, entre 1905 até aqueles dias do ano da graça 1981. A narrativa do autor se confunde com a própria história de Mossoró na diversidade dos temas focalizados.
Relembro-o quando o conheci pessoalmente, do alto dos seus 76 anos, aqui em Natal, na manhã luminosa dos autógrafos. O corpo, pouco curvado, pareceu-me advinda da forma da postura repetida, à máquina de escrever. Os olhos expressivos procuravam detalhes nas coisas que enxergavam como todo bom escriba provinciano. A cabeleira leonina revelava as lutas vencidas e outras adiadas porque ninguém vence todas. Exalava por todos os poros o jeito de ser, o jeito inconfundível do ser mossoroense. Ninguém melhor do que Dorian traçou o seu perfil, como amigo, colega, compadre e aluno no seu memorável prefácio. Superar o brilhante colega e imortal quem há de? A impressão que Lauro me deixou é só minha, exceptuando-se a alegria singular de haver contribuído para a impressão do seu primeiro livro.
Nasceu, como bem afirma, na madrugada friorenta de uma quinta-feira 14 de março de 1905, no número 16 da rua Almeida Castro, centro de Mossoró. A sua marca registrada, em meio a tantos fatos notáveis ligados a sua vida, está fincada na trincheira jornalística de “O Mossoroense”, verdadeira universidade onde se formou e educou gerações na arte e na lide de informar, servir e defender sua urbe, como diria o velho e saudoso alcaide Dix-Huit Rosado.
Nas comemorações dos 100 anos, “Memória de um Jornalista de Província” mereceu a 2ª edição de parceria com outras pertinentes homenagens ao velho repórter. Ao redigir a ata dos meus sentimentos pela primeira edição, eu o faço com o orgulho de haver também modestamente contribuído para que se revelasse a força evocativa de um baluarte do bravo povo de Mossoró.
Como jornalista, Lauro tinha rara luz singular que provinha de dentro de si mesmo, sem reflexo político de ninguém. Cresceu e se firmou entre as raízes de sua terra, com a tez queimada no cristal do sol de Mossoró. Na lide jornalística, Lauro honrou e dignificou o jornalismo de sua terra.
(*) Escritor
quarta-feira, 7 de junho de 2023
A solenidade de “Corpus Christi”
Padre João Medeiros Filho
É uma festa móvel, celebrada numa quinta-feira, após o Domingo da Santíssima Trindade. A Eucaristia é um gesto sublime do amor de Cristo. Nela, repete-se o mistério da Encarnação, de forma intensa e profunda. Jesus transforma elementos materiais na sua pessoa. Consagra assim o universo, através dos três elementos que o representam: o trigo (pão), a uva (vinho) e a água. Seres inanimados tornam-se suporte da divindade, ali presente, abscôndita aos olhos materiais, mas patente à visão da fé. Na beleza da presença silenciosa, Ele deixa sua palavra repercutir no íntimo daqueles que dele se achegam para mitigar a sede e fome.
No sacramento do altar, a humildade assumida pelo Verbo na Encarnação é levada ao ápice. Por isso, entende-se o motivo pelo qual os judeus, ao ouvirem o Senhor anunciar que deveriam “comer a sua carne e tomar o seu sangue” (Jo 6, 51-52), consideraram tais palavras demasiadamente duras. E não podendo ou querendo aceitá-las, foram se retirando. Diante dessa reação, Cristo desafiou os apóstolos: “Vós também quereis ir embora?” (Jo 6, 67). Pedro respondeu-lhe: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Teologicamente, sua resposta converte-se em profissão de fé.
A Eucaristia perpetua os ensinamentos do Senhor, máxime no que tange ao serviço e à humildade. “Com efeito, o que entre vós for o menor, esse é o maior” (Lc 9, 48). Nela, o Filho de Deus continua o seu ensinamento do amor fraterno: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,12). No Pão Eucarístico, Ele se oferece como alimento igual para todos: pobres e ricos, eruditos e iletrados, santos e pecadores. E nesse augusto sacramento, faz-nos compreender o seu gesto de perdão, doando-se indistintamente a todos. Perdoar é difícil, pois ultrapassa por vezes nossos temperamentos e limitações. Naquele alimento sagrado, Jesus ensina como deve ser o homem: despojado, disponível e de braços estendidos. Assim aceitou a Cruz, gesto este precedido do grande mistério de amor, perpetuado na missa. Nesta, continua milagres de vida. Durante sua permanência neste mundo, curou doentes e ressuscitou mortos. Hoje, pela Eucaristia reanima os desfalecidos pela dor, tibieza na fé ou ausência de Deus.
Cristo é nossa fortaleza. Quanto mais dele nos aproximamos, mais necessidade sentimos. É uma lenta caminhada até a realização definitiva no banquete celestial. Ao receber Jesus eucaristicamente, já não somos nós que existimos, mas é Ele em nós. “Eu vivo, mas não eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20), expressou o apóstolo Paulo. A Eucaristia é o plantão permanente da eterna solidariedade divina; meiguice de um Pai que envia seu Filho Unigênito para dialogar com os irmãos. Ali, Ele nos diz: “Quem vem a mim, jamais terá fome” (Jo 6, 35). A Eucaristia é a espera de Deus por nós, o abraço celestial que nos é reservado. Beijo carinhoso de um Pai cheio de bondade, que no silêncio da Hóstia nos revela amor e perdão. Eis o sublime sacramento, continuidade da presença transcendental a partir da Encarnação do Verbo. Este quis se unir à humanidade, mostrando-nos que ela tem valor infinito, não importando suas fraquezas. Deus nos perfilhou por ato de sua inefável misericórdia e generosidade.
A Eucaristia antecipa a eternidade, na qual alcançaremos a plenitude de nossa história. “Sem ela, o homem é pequeno demais para o Céu. Com ela, demasiadamente grande para a terra”, afirmou Cônego Luiz Gonzaga Monte. Ela é Deus – em seu Filho –abrandando em nós as saudades do Eterno. É impossível não ficar extasiados diante de tão admirável mistério! Interrogações e inquietudes poderão surgir no coração de alguns. Entretanto, encontrarão a paz na intimidade com o Mestre, presente no altar, de forma sacramental. Sustentados pela fé e sua luz, que ilumina nossos passos na noite de dúvidas e dificuldades, poderemos proclamar, como o saudoso Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, no Congresso Eucarístico de Currais Novos (RN), em 1937: “Glória a Ti, ó Mistério querido, Ó Milagre sublime de amor! Glória a Ti, ó Jesus escondido, Cristo Rei e dos povos, Senhor!”
terça-feira, 6 de junho de 2023
domingo, 4 de junho de 2023
sexta-feira, 2 de junho de 2023
VOLUME MORTO DA MORALIDADE
Valério Mesquita*
Se um golpe nas instituições democráticas desmoraliza ponderavelmente o país, pior do que ele é a corrupção de um governo. Outra constatação deplorável reside na legislação punitiva que continua frouxa, lasciva e insuficiente. A Polícia Federal, o Ministério Público fazem a sua parte. Descobrem, flagram, prendem, exibem os ladrões, processam, ouvem delações, depoimentos, testemunhos. Tudo!! Mas a lei, - assim como a carne – ela é fraca, volúvel, iníqua. Não é do bem. Dorme de mala e cuia na cama com o defensor do réu. O benefício da dúvida faz o advogado botar sempre no bolso. Mas, o dinheiro público foi roubado! Acontece que o povo, apenas, é um detalhe. Pra que tornozeleira eletrônica? Melhor para os gestores desonestos é o supositório eletrônico.
Qual o brasileiro que diante de todos esses escândalos não perde a autoestima? Até mesmo o sentimento patriótico porque o Brasil está desmoralizado dentro e fora das fronteiras. A dimensão do assalto no país é o maior da história político-administrativa universal. Se existissem critérios, princípios, sensatez, os gestores desonestos, renunciariam, mesmo que não tivessem praticados os atos ou serem responsáveis diretamente. Mas, por vergonha, para provar que são honestos e que desejam a apuração isenta de todos os crimes contra o patrimônio do país. Permanecendo nos postos, repassam a nítida impressão que no fisiologismo com os congressistas contaminados e magistrados e ministros poderosos (do próprio governo e de outros poderes), o tráfico de influência deturpa a busca da verdade. Por muito menos, nas democracias de países civilizados da Europa, gabinetes de governo são depostos naturalmente, sem crise, sem crase e sem cruzes. A democracia é soberana. O caráter superior. Mas, a lei do toma lá dá cá, é prostituição.
Outro fato aberrante é a tática do político denunciado ou empresário corrutor negarem permanentemente. “Não sei”, “Não conheço o delator”, “Nunca o vi”, “A imputação é falsa”, “Essa prática, vem desde os governos anteriores...”.
O abuso da desfaçatez cabe na carapuça de muitos. Acho que a maioria dos brasileiros chegou a exaustão com o noticiário da mídia nacional e da rede social. Entrevistar essa gente é pura carniça. Prefiro o canal musical da tv, que diariamente nos brinda com canções do tempo da jovem guarda. E o de forró daquele época? Vixe... É bom demais.
Ninguém pode negar que hoje existe uma guerra civil, gerada pela droga em toda nação, cujas estatísticas de homicídios exibem uma juventude devastada por revolucionários sociais bem municiada e ocultos, cuja guerra a polícia vem perdendo, paulatinamente. Um país desorientado e com essa multidão de marginais não pode suportar tanta dor e tantas perdas. Sem contar as mortes para o Covid e acrescente-se a falta de assistência de médicos e medicamentos nas UPAS e nos hospitais as filas quilométricas para cirurgias em pobres da rede social do INSS.
E o pugilo da saúde pública nos hospitais da capital? Esse merece veemente repulsa. É um libelo à competência dos administradores. A situação deplorável me infunde a convicção de que ninguém mais se comove com a dor humana. O melhor homem é o homem morto. Vivo é desprezível. Doente e pobre, ele fede. Onde deveriam remunerar melhor, paga-se pior e se gasta menos. Hospital público é a antessala da morte iminente porque está desprovido das mínimas condições de higiene e serviços. Denunciar o estado de calamidade não constitui o meu propósito. Mas, apenas, lembrar ao leitor que o ser humano coisificou-se. Deixou de ser carne inteligente. Hospital - lugar de repouso e cura - virou empório do estado, verdadeiro guardador de rebanho, onde o pobre, sem nenhum plano de saúde, tem defeito de circulação do sangue no corpo à alma. Tenho dito.
(*) Escritor
DO PASSADO E SUAS ANTIGUIDADES
Horácio Paiva *
Relendo velhos escritos de meu irmão Daltro, que morreu em 1996, eis que fixo a atenção nesse curioso soneto que escreveu provavelmente no início da década de 1960 e que trata da morte de um gatinho que criávamos em Macau, de nome Ariel. Todos gostávamos desse gatinho amarelo e branco. Tínhamos também outro, inteiramente branco, no qual pusemos o nome do centauro mitológico Quíron... mas esta é outra história...
No soneto em destaque, Daltro intercala versos de Augusto dos Anjos, Camões e Baudelaire, entre os seus próprios, produzindo um bom efeito estético.
O GATO ARIEL
Vinte e dois de setembro. Madrugada.
“Nem uma névoa no estrelado véu...”
Banhei a face despreocupada,
respirei forte, contemplando o céu.
A Morte se apaixona. Enamorada,
vai-nos a vida para o seu vergel.
Safo de Fáon foste desprezada...
Cavalga a morte fúlgido corcel.
“Se lá no assento etéreo se consente,”
“Vive tranquilo, as nobres atitudes
de esfinge a olhar além das solitudes...”
Deixaste a vida prematuramente
para melhor cingir justo laurel,
pobre amigo querido, meu Ariel!
(Daltro de Paiva Oliveira – n. 04/07/1937; m. 29/05/1996)
Sobre a lenda de Fáon, escreveu o professor Jônatas Batista Neto, em seu blog JONATASNETO’S BLOG, edição de 08/10/2011:
“Fáon, Safo e Alceu: três personagens da ilha de Lesbos, envolvidos numa trama meio histórica, meio mitológica. Os antigos diziam que o barqueiro Fáon - um velho pobre e feio - tinha dado, um dia, carona à deusa Afrodite (Vênus) sem lhe cobrar passagem, naturalmente. Agradecida, a divindade presenteou-o com um frasco de unguento mágico: esfregando-o repetidas vezes sobre o corpo, Fáon recuperou a juventude e ainda conseguiu tornar-se o mais belo homem da ilha, a ponto de deixar todas as mulheres caídas por ele. Até a célebre poetisa Safo apaixonou-se pelo barqueiro, só que, por alguma razão, não teve sorte: rejeitada, atirou-se da falésia de Lêucade e encontrou a morte “nas ondas verdes do mar”. Aristóteles diz que foi castigo porque, um pouco antes, ela havia descartado o notável poeta Alceu, que também morava na ilha.”
A propósito de Safo e Alceu, dois grandes poetas da Grécia antiga, recolho esse interessantíssimo e curioso diálogo poético que se encontra na antologia POESIA GREGA E LATINA, organizada e com traduções de Péricles Eugênio da Silva Ramos (Clássicos Cultrix, Editora Cultrix, São Paulo, 1964), na página atribuída a Alceu:
PALAVRAS DE ALCEU A SAFO
Ó cheia de pureza,
ó Safo coroada de violetas
que docemente ris:
eu te diria de bom grado certa coisa,
se não fosse a vergonha que mo impede.
RESPOSTA DE SAFO A ALCEU
Se quisesses tão só o bom e o belo,
se em tua boca más palavras não tramasses,
não haveria essa vergonha nos teus olhos
e poderias exprimir-te francamente.
A antiguidade clássica grega ressurge, aos nossos olhos modernos, no brilho de uma coroa formada por nove musas humanas, nove grandes poetisas, segundo o saber da tradição e citadas no Epigrama 26, do poeta Antípatro da Tessalônica (sécs. I a.C. – I d.C.) - Safo, Corina, Anite, Erina, Telesila, Praxila, Mero, Nóssis e Mírtes -, mas, de sua produção poética, pouco resistiu à corrosão do tempo e das “intempéries” humanas, às vezes movidas pela intolerância, ficando-nos, porém, fragmentos que atestam a sua grandeza. Assim como este, ainda de Safo, na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, que é a nossa chave de ouro no fecho desta breve notícia:
“A lua já se pôs,
as Pêiades também:
meia-noite, foge o tempo,
e estou deitada sozinha.”
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(*) Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.
quinta-feira, 1 de junho de 2023
Mais uma Outra Carta Avulsa de outono (2023)
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
Quase no iniciar do inverno, tomo de volta a coragem de escrever, desta feita movido pelos fatos sociais e políticos que ocorrem nesse nosso querido Brasil.
Primeiramente, deploro inúmeras mensagens recebidas pelo WhatsApp em que se coloca o nome do nosso País como Brazil - perdemos a nossa identidade perante o resto do mundo?
Pelo lado político parece que sim, nosso governo cantando loas para as pessoas e doutrinas estranhas ao nosso sentimento nativo, este sempre albergado na Cruz de Cristo.
Os recentes acontecimento no Planalto nos impele a termos vergonha de sermos honestos quando se vê em um dia o firme propósito de parlamentares em não reduzir os mecanismos de salvação da nossa natureza através de Ministérios que lutam pela preservação e, no outro dia, contrariando as notícias de uma imprensa insegura, aprovando uma medida provisória que desmonta um Projeto de Estado que teve peso na hora da escolha dos novos governantes, mediante outra notícia de que mais de um bilhão de reais havia transitado nos acordos para obtenção desse resultado.
Este meu blog jamais se intrometeu em questões políticas partidárias e assim continuará, mas como cidadão e homem político na percepção Platônica, sou forçado a dar meu testemunho, fazer o meu protesto, em nome do futuro dos meus netos.
Outro relance desta Carta prende-se ao comportamento social, que claramente se corrompe em todos os vértices da caminhada existencial - no percorrer as ruas (tão diferente quanto aquela foto que recebi do meu irmão do coração Adilson Gurgel, onde se vê a rua do Ouvidor com transeuntes bem vestidos, sem pedintes ou maltrapilhos), sem nenhum preconceito com os mais desvalidos, mas como denúncia da falta de empregos, de política econômica que permita o cumprimento da tarefa mais sagrada do ser humano, o direito ao trabalho e à dignidade humana.
Esse trajar já não existe no mundo atual, seja nas ruas, nas igrejas, nas reuniões, nos velórios e até nas sessões magnas acadêmicas, onde não se dá ao traje a indicação de respeito ao ambiente.
Sei muito bem, que estes são os últimos atrevimentos de um homem velho, descendo aceleradamente os degraus da existência, que deixa como legado poucos haveres e muitos saberes e quer ser lembrado sempre como um homem honrado, simples e solidário.
Para tirar o amargor desta minha Carta, gostaria de enfatizar que, apesar da pouca saúde e de uma idade provecta, ainda consigo laborar em benefício das instituições às quais pertenço até o canto final da jornada. Mas, só deixo o meu Cariri no último Pau de Arara.
quarta-feira, 31 de maio de 2023
Voz, palavra e silêncio
Padre João Medeiros Filho
Santo Agostinho, com sua sabedoria e profundidade teológica, mística e poética, discorre em um dos seus sermões sobre a voz e a palavra. A primeira é a sucessão de sons e tons. A segunda, o pensamento organizado. Uma é instrumento; a outra traz conteúdo ou mensagem. A reflexão agostiniana poderá servir de remédio para a verborragia descontrolada do tempo presente, facilitada pelas redes sociais. A pletora de falas nem sempre equivale a diálogo e solidariedade. Na aludida homilia, o Bispo de Hipona refere-se a dois personagens bíblicos: João Batista e Jesus. Aquele denominava-se “A voz que clama no deserto” (Jo 1, 23). E no prólogo do quarto evangelho, identifica-se Cristo como a Palavra. “No princípio era o Verbo e este estava em Deus” (Jo 1, 1).
A voz é efêmera, submete-se à matéria e temporalidade, “sendo uma das últimas coisas que mudam no ser humano”, consoante a brilhante professora Cleonice Berardinelli. A palavra é irreversível. Sem a verbalização consciente e lógica, tudo não passa de ecos. A prédica agostiniana constitui-se em rico ensinamento para a sociedade hodierna, carente de diálogos mais harmônicos e assertivos para garantir a verdadeira liberdade de expressão. O saudoso Dom José de Medeiros Delgado, quando chegou à diocese de Caicó (RN), repetia aos oito padres que integravam o seu presbitério: “Deveis ser “homens de palavra e da Palavra. Chega de falas inócuas.”
Para os cristãos há necessidade de jejum da língua e tirocínio do silêncio, uma das delicadezas divinas para os seres humanos. Na Babel da contemporaneidade tornam-se ainda mais urgentes atitudes de conversão, convergência e unidade. Para isso, requer-se silêncio. A palavra é sua filha. O Verbo divino brotou da eternidade tácita de Deus. Fala-se muito, mas pouco se constrói com a disseminação atual de discursos despidos de sentido e luz. Na verdade, corre-se o risco de prejuízos relevantes. A voz desvinculada da verdade poderá compor um coro de inutilidades. E desnudada da sabedoria ressoa ao ouvido, mas não alimenta o nosso coração.
Apegar-se ao direito de usar a voz para expressar simplesmente juízos e opiniões não pode ser considerada uma atitude ética e cristã. Para o cristianismo a prerrogativa de expressar-se é indissociável do compromisso com a veracidade dos fatos e falas edificantes. É um dos requisitos para seguir o Evangelho. Hoje, prega-se o direito à liberdade de expressão a qualquer preço, não importando quando, nem como. Mas, censura-se, cala-se, oprime-se e pune-se quem possui discurso discordante. Convém lembrar que a cruz de Cristo é o ápice da censura. A comunicação só faz sentido se construir e não demolir. Não raro, invoca-se o direito à liberdade de expressão para reivindicar, agredir, destruir e não edificar. Os discípulos de Jesus Cristo devem levar mensagens do Bem. Por coerência e fidelidade ao Mestre, o cristão não detém o apanágio de falar o que é alheio à edificação do próximo e à construção da unidade. Imbuído do espírito evangélico, tem a missão de expressar o que pode gerar lucidez e esperança ao mundo. Deste modo, contribuirá para o fortalecimento da fraternidade e dos vínculos sociais. “Quem guarda a própria boca preserva a vida, quem se descuida no falar, causa a própria ruina”, assevera o Livro dos Provérbios (Pr 13, 3).
Segundo Santo Agostinho, João Batista “era semelhante a um sino, acenando para o Verbo encarnado.” Promoveu o seu acolhimento, revelando-o como “lâmpada para os nossos pés e luz para as nossas veredas” (Sl 119/118, 105). Sendo um discípulo exemplar, o Precursor indicou a Palavra, tornando-se assim referência e modelo de seguidor do Nazareno. É inspiração para aqueles que assumem o compromisso de proclamar a Boa Nova, possibilitando o encontro com Cristo. João se considerava uma fagulha, temendo que o vento do orgulho pudesse apagá-la. Inspirados no exemplo do Filho de Zacarias, os cristãos procurem ser mais simples, valendo-se humildemente dos lábios para anunciar a Palavra, seguindo a recomendação do apóstolo Paulo: “Proclama-a, insiste oportuna e inoportunamente, convence, exorta com toda a longanimidade e empenho em instruir” (2Tm 4, 2).
terça-feira, 30 de maio de 2023
Minha passagem pelo América FC
Atento aos acontecimentos do futebol potiguar e vibrando com mais uma conquista da equipe do América FC (2023), me vem a boa e rica lembrança do ano de 1967, quando, atuando no time rubro, me sagrei campeão da cidade.
Após ter sido bicampeão pelo Alecrim FC (1963 e 1964), iniciei o meu caminho de despedida do futebol profissional motivado pelo meu ingresso no curso médico, aprovado no vestibular do ano de 1964.
Não foi fácil essa separação. E, assim, permaneci atuando no futebol até o ano de 1967, dois anos antes da minha formatura (1969).
O América FC tinha pedido um afastamento temporário do campeonato da cidade, só retornando cinco anos depois, em 1966. Em 1967, o time foi melhor preparado e procurou voltar a lutar por títulos com o seu maior rival, o ABC FC.
Tinha como treinador o ex-atleta Osiel Lago, que, com um trabalho brilhante, conseguiu fazer o América ganhar e levantar a Taça de campeão no ano de 1967.
Apesar de toda dificuldade para encontrar tempo para treinamentos e concentração, aceitei e assumi o desafio.
Fizemos um campeonato impecável e decidimos o certame contra a boa e eficiente equipe do Riachuelo Atlético Clube (RAC) pertencente à Marinha de Guerra, treinada pelo competente Tenente Level.
Tivemos uma final em jogo realizado em uma noite de 4ª feira, com Estádio Juvenal Lamartine super lotado, quando nos sagramos campeões com o resultado de um empate de 1X1.
Naquela noite de 4ª feira, fiz a minha despedida definitiva do futebol potiguar, com um balanço positivo: com dois títulos pelo Alecrim (1963/1964) e 1967 pelo América; e a minha participação honrosa na seleção do Rio Grande do Norte, no certame nacional de seleções estaduais, em 1962.
E, assim, tudo aconteceu em seu tempo certo e oportuno na minha trajetória inesquecível no futebol potiguar. Que fique registrado nos anais do futebol potiguar e não caia no fosso do esquecimento para jamais ser lembrado.
A vida sem história é como um poeta sem poesia, na escuridão e no vazio do tempo.
terça-feira, 23 de maio de 2023
- HOMENAGEM -
ALFREDO MESQUITA FILHO
Valério Mesquita*
Alfredo Mesquita Filho nasceu em Macaíba, a 23 de maio de 1901. Filho de Alfredo Adolfo Mesquita e Ana Olindina de Mesquita. Fez os seus estudos preparatórios em Macaíba, Natal e Recife, quando cursava medicina, teve que retornar à Macaíba por motivo do falecimento do seu pai, ocorrido em 1929. Passou a se dedicar junto com os irmãos às atividades de comércio, agricultura e criação. Na sua infância, o desejo da família era vê-lo padre. Resistiu. Não foi para o seminário.
Em 1946, foi constituinte elegendo-se deputado estadual pela legenda PSD. Reelegeu-se em 1950 e 1954, exercendo nesses períodos diversos cargos e comissões. Já em 1958, candidatou-se novamente a prefeito vencendo as eleições, tendo este sido o seu último mandato eletivo, até, 1963. Como deputado estadual a ele se credita o esforço da vinda de inúmeras obras para os municípios que representava na Assembleia, tais como: Macaíba, São Gonçalo do Amarante, Bom Jesus, Serra Caiada (Presidente Juscelino), Caiada (Eloy de Souza), São Pedro, Ielmo Marinho entre outros. Não obstante seus 40 anos de vida pública, 30 dos quais militou na Oposição. Mesmo assim, conseguiu com os governos escolas e estradas, além de junto com todos os amigos da época, haver experimentado o triunfo da implantação da Escola de Jundiaí e a construção da ponte da cidade de Macaíba. Sobre essa ponte há um episódio. A antiga ponte de Macaíba havia desabado. Como deputado pessedista cobrou do governo do Estado (Dr. José Varela) a sua construção.
Como o erário estadual não podia arcar com as despesas, teve que recorrer ao antigo Ministério de Obras e Viação.
Entretanto, ao aguardar a resposta da bancada federal do seu partido, recebeu espontaneamente a ajuda do então deputado federal, Aluízio Alves, udenista que se prontificava a conseguir os recursos. Tal fato, no Rio Grande do Norte calcinado das brigas do PSD x UDN, em 1950, em Macaíba, aceitar apoio de um udenista era um opróbrio.
Houve cenas de tumultos, pressão e rompimentos políticos. Mas, como Macaíba para Alfredo Mesquita era mais importante que os partidos, aceitou a ajuda, o dinheiro chegou e a ponte foi construída e até hoje está lá. Em 1961, após a campanha de Djalma Marinho a quem ajudou por haver o PSD se fracionado para apoiar dois udenista, vendeu a sua propriedade Uberaba, em Macaíba, por "treze mil contos" ao fazendeiro Adauto Rocha, a fim de poder pagar os compromissos da campanha. As eleições de 1962, 1965, 1966 e 1968 quando, já doente, enfrentou sua última campanha política, testemunham a fidelidade do seu espírito partidário e sua dedicação exclusiva ao seu povo.
No dia 12 de abril de 1969, pobre mas querido pelos humildes, morreu Alfredo Mesquita. Nesse dia sua cidade parou. Não para lhe dizer adeus, mas, para lhe garantir que ele e ela formariam naquele dia, mais do que qualquer tempo, um binômio inseparável: um pacto de identificação. Ele e ela. Abraçados permanentemente em suas entranhas.
sexta-feira, 19 de maio de 2023
BATALHA DE LEPANTO: EXEMPLO DE LEGÍTIMA DEFESA COLETIVA
- Horácio Paiva *
Estive em Bari, sul da Itália, cidade portuária na orla do Mar Adriático. Realizava minhas viagens vivendo a História. E ali o destino que me fazia sonhar era a Grécia, a começar pelo Golfo de Patras, onde, na Baía de Lepanto, ocorrera a famosa batalha entre cristãos católicos e turcos otomanos, islâmicos, que invadiam a Grécia e punham em alerta a Itália e, portanto, o próprio Vaticano.
De Bari, fiz o trajeto até a cidade de Patras navegando à noite, num navio de passageiros. No desembarque, pela manhã, encontrei a cidade em festa: havia passeata e comício do Pasok, Partido Social-Democrata Grego, do então primeiro-ministro Andréas Papandréu, que disputava eleição naquele ano contra a Nova Democracia, coligação de centro-direita (afinal vitoriosa).
Mas eu buscava o passado, e o trago aqui como um entre inúmeros exemplos históricos que bem simbolizam a utilização da legítima defesa coletiva, e este, a Batalha de Lepanto, ora narrado, a própria defesa da corporação eclesial católica e dos Estados papais, quando também em risco a vida daqueles que os dirigiam.
A memorável Batalha Naval de Lepanto ocorreu no Golfo de Patras, Baía de Lepanto, na costa da Grécia, no contexto histórico da expansão do Império Otomano e seu avanço sobre a Europa e o Mar Mediterrâneo (o antigo Mare Nostrum dos romanos). Em terra, os otomanos haviam chegado às portas de Viena e, em mar, conquistaram Chipre e avançaram sobre a Grécia, levando às repúblicas e reinos da Itália, inclusive aos Estados papais ali constituídos, iminente risco de ocupação. Entretanto, essa batalha marcou também o fim do avanço turco e da expansão islâmica no Ocidente.
Já em 1570, o Papa Pio V, sentia o perigo dessa possível invasão à Itália, com a ocupação do Vaticano e dos demais Estados papais, e clamava ajuda aos governantes cristãos ocidentais, conseguindo, no ano seguinte, com dificuldades inerentes à época, formar uma esquadra de defesa para o possível confronto militar, tendo a participação da República de Veneza, do Reino da Espanha, dos Estados Pontifícios, da República de Gênova, dos Cavaleiros de Malta, que passaram, juntos, a integrar a chamada Santa Liga.
A batalha, entre a Santa Liga e o Império Otomano, ocorreu no dia 7 de outubro de 1571, a partir das 11h30min da manhã e durou dez horas, com a vitória dos cristãos e hasteamento da bandeira do Papa, onde antes havia a bandeira dourada de Meca.
No Vaticano, o dia da batalha foi vivido integral e intensamente como dia de jejum e oração do santo rosário pelos fieis e o Papa, e diz-se que este chegou a ter uma visão sobrenatural da vitória, quando teria, quase em transe, exclamado: “Vencemos! Vamos dar graças a Deus pela vitória que acaba de conceder à nossa esquadra.” E essa data até hoje é dedicada a Nossa Senhora do Rosário (de início, a Nossa Senhora da Vitória), cuja imagem era conduzida na nau capitânia da esquadra da Santa Liga em Lepanto.
Uma curiosidade - dita, sobretudo, para os que, além da História e do Direito, amam também a Literatura: Cervantes, o genial criador do “D. Quixote de la Mancha”, também participou dessa famosa batalha. Ali ferido, sobreveio-lhe o apelido de “el Manco de Lepanto”.
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(*) Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.
quinta-feira, 18 de maio de 2023
VII Congresso da Liga Contra o Câncer
Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor do UNI-RN e Romeica Cunha Lima Rosado Oftalmologista
Em suas palavras de acolhimento aos participantes do VII Congresso da Liga Contra o Câncer, realizado no Centro de Convenções de Natal, de 04 a 06 de maio/2023, o Presidente do VII Congresso da Liga, Dr. Ivo Barreto, afirmou: “Formamos equipes para que não tenha um vitorioso, mas todos vitoriosos, porque vestem o conjunto do espírito, harmonia, e dedicação à Liga”. Mesmo com esse apelo para que o sucesso do Congresso fosse creditado a muitos, o médico e um dos pioneiros da oncologia no RN, Presidente Ivo Barreto mereceu e recebeu justíssima homenagem dos integrantes das equipes, no encerramento do Congresso, em face da sua brilhante atuação e empenho, que garantiram o êxito desse magistral evento médico, com ênfase nas áreas humanística e técnico-científica. O grande médico e gestor Ivo Barreto demonstrou sua emoção diante da espontânea homenagem prestada pelos seus colegas, em destaque, as palavras da sua filha, médica Cristina Rocha. Registramos também a justa homenagem que foi prestada a um dos nomes de relevo na organização e gestão da Liga Contra o Câncer, o grande médico mastologista Maciel Matias, que participou da organização da Arena de Inovação em Saúde. Foi outro momento de muita emoção para o homenageado e para todos os presentes. Alusivo aos seus 50 anos de atuação médica, Dr. Maciel recebeu um quadro, do médico e pintor Francisco Iroshima. Escrever sobre a Liga Contra o Câncer, torna-se fácil para mim, por minha condição de ex-paciente. Em 2013, submeti-me a uma cirurgia para a retirada da próstata, devido a um tumor do órgão. Dois anos depois, precisei fazer aplicação de radioterapia no local onde se situava a próstata, a fim de completar a cura. Na Liga, recebi 33 seções de radioterapia pélvica, sob os cuidados da Dra. Rosa Maria Naja, como tratamento adicional após a cirurgia da próstata, feita dois anos antes. A Dra. Rosa Maria, que trabalha em tempo integral na Liga Contra o Câncer, reúne, em uma só pessoa, as qualidades máximas da profissão médica: competência, humanismo, atualização contínua, total cuidado com o doente, dedicação à profissão, além de outras virtudes. Aliás, esse elevado padrão profissional, parece permear os diversos setores de atuação da Liga, a começar pelos competentes e dedicados gestores da Instituição. Na sala de espera, no aguardo da chamada dos seus nomes para fazerem a seção da rádio, havia um clima de descontração, quando os presentes mantinham conversas amenas e alegres, uma espécie de partilha de coragem, de apoios mútuos e de ânimos. No meu primeiro dia da rádio, ao me sentar na sala de espera, um cidadão de pele negra e com cabelos brancos me reconheceu e veio conversar comigo. Era Geraldo, pedreiro, que trabalhou como auxiliar na construção de uma casa minha, 35 anos atrás. Relembramos fatos e pessoas daqueles tempos passados. Foi uma forte emoção reencontrar Geraldo depois de tanto tempo, os dois, agora, com o mesmo diagnóstico, no mesmo lugar e em busca dos mesmos intuitos. A Liga está certa na atenção igual para todos, pois todos são iguais. É bastante relembrar: “Do pó que fomos, ao que haveremos de ser.” Somente os soberbos e os tolos desprezam essa verdade. O Rio Grande do Norte está de parabéns pelo êxito do VII Congresso da Liga Contra o Câncer, de 04 a 06 de maio/23, um magistral evento médico-científico, de âmbito nacional, realizado por uma também magistral instituição, a Liga Norte-Rio-Grandense Contra o Câncer. Texto publicado na Tribuna do Norte, em 18/05/2023.


