sexta-feira, 7 de outubro de 2022

 

ANDONO INEXPLICÁVEL

 

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

 

Rua Seridó, Petrópolis, por trás do Atheneu Norte-Riograndense desaba o prédio do ginásio Sylvio Pedroza, orgulho esportivo da década de cinqüenta. Pontificou antes do Djalma Maranhão que precedeu o Humberto Nesi e tantos ginásios públicos e privados hoje espalhados pela capital. O Sylvio Pedroza tem a mesma importância histórica para a cidade quanto o estádio Juvenal Lamartine, inaugurado em 1929, para a prática pioneira do futebol. Ainda adolescente, assisti a disputa de partidas interestaduais de voleibol e basquete que levaram multidões ao ginásio e o Atheneu que era o único, à época, dentro das normas técnicas regulamentares. O futebol de salão nasceu praticamente ali e se difundiu depois em todo o Rio Grande do Norte. Foi um celeiro de craques nas três modalidades.

São mais de 50 anos de tradição, de história, de cultura esportiva que marcaram a vida de gerações. Tudo isso como está, hoje? Resposta: decaído, sem memória. Aliás, Natal é pródiga nos esquecimentos, omissões e negligências. Por exemplo: o prédio onde funcionou o antigo Liceu Industrial ou Escola Técnica que fica na avenida Rio Branco foi restaurado pela UFRN. Outros casarões antigos estão se desmoronando em silêncio, como túmulos antigos de cemitério cobertos de lôdo e desprezo. Visto de frente o ginásio Sylvio Pedroza parece sufocar os gritos e as emoções de antigamente. Os eventos culturais, as formaturas, os discursos dos patronos e paraninfos são também frias estatísticas do tempo, gravadas nas paredes enegrecidas pelo descuido das autoridades. 

O ginásio Sylvio Pedroza foi inaugurado em 27 de julho de 1954. Consta o registro social que era uma amena terça-feira, sem calor e poluição. A sua capacidade chegou a oitocentas pessoas nas arquibancadas. Segundo os estatísticos correspondia a dois por cento da população de Natal, estimada em quarenta mil habitantes no início da década de cinqüenta. A história do prédio é pobre em mudanças e preservação. Com o surgimento das novas praças de esportes nos bairros de Petrópolis e Lagoa Nova, os Caic´s, o ginásio esportivo de Petrópolis perdeu a majestade. Natal já exigia público nas dependências de doze a quinze mil espectadores. O processo de degradação física atingiu um ponto tal que, somente em 1990, programaram uma demorada e sofrida reforma, paralisada várias vezes por falta de verba e de verbo também. Falhas lamentáveis foram consignadas e até, em 2003, denunciadas pela imprensa local.

Depreende-se que, para o ginásio esportivo Sylvio Pedroza não há prioridade de conservação. O edifício geme sob o peso da negligência e das emoções de antigamente. “É um prédio velho. Deixa cair”, dirá algum técnico modernista, especializado em “cultura, educação e esporte”. Não se apercebe que duas questões são primordiais: o retorno da utilização dos serviços do ginásio para os alunos do Atheneu e o resgate da memória perdida, como se os desportos não constituíssem também a história de um povo.


quinta-feira, 6 de outubro de 2022

 JARDINS E FLORES – UMA VISÃO 

Diogenes da Cunha Lima 

Depois de criar o céu e a terra, as plantas e os animais, Deus deu ao homem um jardim, seu lar. Por isso, devemos fazer do lar nosso jardim. A beleza das flores ornamenta os jardins e adorna também casas, ruas, praças, até os estabelecimentos comerciais. Celebra a religião, o amor, o casamento, as despedidas. Torna menos sombria a morte. Recentemente, o Museu do Ipiranga em São Paulo foi restaurado, como também o seu jardim, estilo francês, implantado há 100 anos. Uma das sete maravilhas do mundo antigo são os jardins suspensos da Babilônia. Os povos daquela época, como os egípcios, gregos e romanos, cultivavam hortos florais. O Reino Unido revaloriza as casas dos escritores falecidos, preservando seus jardins. Na Escócia é possível visitar o belo jardim do poeta William Wordsworth, que contém seus inspiradores daffodils (narcisos). É encantador o “Queen Elizabeth” em Vancouver, Canadá, como outros que homenageiam a Rainha nos países em que ela era Chefe de Estado. São inimagináveis 130 hectares de atrações, inclusive o Conservatório para preservar maravilhas naturais. Plantas brasileiras dizem presente. Reconhecido como um dos mais fantásticos jardins do mundo, na cidade canadense de Victória, o Butchart Gardens foi criado por uma senhora há 116 anos e, hoje, é cuidado por sua bisneta. As flores das cerejeiras são símbolos do Japão. A floração acontece entre os meses de março e abril. O povo faz da contemplação um ato espiritual. Ao redor do palácio do imperador, as árvores esplendem e jogam flores sobre os visitantes. São inimitáveis os denominados jardins japoneses com plantas, águas, pedras e pontes em seu paisagismo. O de Campos do Jordão é visita imperdível na linda cidade da Serra do Mar. O Brasil tem inumeráveis flores nativas nos biomas amazônicos da Mata Atlântica, da Caatinga, do Serrado. Somos o único país do mundo que tem nome de árvore. O pau-brasil produz minúsculas flores amarelas. Assim tem merecido ser enobrecido com a delicadeza das orquídeas. O Rio Grande do Norte tem a flor Cattleya Granulosa como seu símbolo e a flor da manhã, a Xanana, simboliza Natal. O Baobá da nossa cidade costuma florar a partir de dezembro. O seu fruto verde abre-se com a flor branca e vai se tornando creme, marrom e termina em aveludada violeta. A sua textura, quando seca, torna-se permanente. As craibeiras cobrem-se de flores amarelas e os ipês, de flores roxas. Com esse colorido dão um toque especial ao verde das dunas. As flores são um recado de amor e paz da natureza ao homem.

 Reinados, reis e rainhas 

Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor do UNI-RN 

Em crônica recente na Folha de S. Paulo, o escritor Marcelo Coelho se refere ao rei Farouk 1º, do Egito, deposto em 1952, que dizia: “No futuro, só existirão cinco reis, os quatro do baralho e a rainha da Inglaterra.” Passadas cerca de sete décadas, a previsão do rei Farouk não se confirmou, pois, somente na Europa, ainda existem nove monarquias. Na Espanha atual, a monarquia retornou em 1975, criada num impulso do ditador Francisco Franco, que nomeou para a função o monarca Juan Carlos. Principalmente nos países mais representativos, como Reino Unido, Holanda, Suécia e Dinamarca, as monarquias têm somente o papel de representação, sem qualquer poder político. Não é à toa que a expressão “rainha da Inglaterra” é sinônimo de algo simbólico, alegórico. As monarquias, no geral, despertam simpatia e curiosidade nas pessoas, ao redor do mundo e ao longo do tempo. No entanto, nenhuma se iguala à monarquia do Reino Unido, que é líder de um grupo de 56 países soberanos, chamado de Commonwealth, dos quais 15 são reinados. Desde o dia 8 de setembro de 2022, com a morte da Rainha Elizabeth II, assumiu o Trono do Reino Unido o Rei Charles III, filho da charmosa monarca recémfalecida. Talvez falte ao novel rei o carisma tão presente na vida de Elisabeth II. Devido ao funeral da rainha do Reino Unido, a celebração dos 50 anos do reinado da rainha da Dinamarca, Margrethe 2ª, teve de ser reduzida somente para o âmbito interno. O reinado de Margrethe 2ª, hoje, é o mais duradouro da Europa. Ao se falar do reinado dinamarquês, vem logo à mente a frase “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, de Shakespeare, em sua obra mais famosa, a tragédia Hamlet. Nesta mesma obra, outra frase profunda e atemporal: “Ser ou não ser, eis a questão”. A rainha Margrethe 2ª, que tem aprovação de 80% dos súditos, é prima distante de Elizabeth II. No início do século XX, quase todos os países da Europa mantinham o regime monárquico, com raras exceções, a exemplo da França. A Alemanha, a Rússia e o Império Austro-Húngaro aboliram o regime monárquico logo após a Primeira Guerra. Decorridas cerca de três décadas, também mudaram de regime a Bulgária, Romênia, Iugoslávia e a Itália, mas todos abraçaram o sistema democrático. No Brasil, destaca-se o reinado de Dom Pedro 2º, que durou 49 anos, três meses e vinte e dois dias. Dom Pedro 2º é o melhor exemplo de homem público do país, culto, respeitado, um democrata de cetro e coroa. A ruptura do regime, com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, deu-se em moldes de golpe de Estado, pois os donos do poder deram ao velho monarca a única opção de entrar em um navio e zarpar para a Europa, tornando-o órfão do seu próprio país. O navio Alagoas, que transportou a família real, levou 21 dias entre o Rio de Janeiro e Lisboa. Dom Pedro 2º resistiu, buscou alento nos livros, mas a imperatriz Tereza Cristina faleceu, poucos dias depois de chegar a Lisboa. O Brasil não soube se espelhar nos exemplos de Dom Pedro 2º, de probidade no serviço público e de amor às letras, à ciência e à educação. Seus méritos de estadista foram mais louvados no exterior do que no seu próprio país, porquanto foi chamado na Europa e nos Estados Unidos de “Governante modelo do mundo”. 

 Desintoxicar-se e desapaixonar-se 

Padre João Medeiros Filho 

Após o primeiro turno das eleições, vamos dar uma chance à paz, desarmar os corações e serenar os espíritos. Urge desintoxicar-se e desapaixonar-se. Cristo pregou no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os mansos, pois eles herdarão a terra” (Mt 5, 9). Não esqueçamos que somos todos brasileiros e irmãos (para quem professa o cristianismo). As eleições devem ser concebidas como espaço da democracia. É assim que se precisa entender. Vivemos dias e semanas apreensivos, num clima raivoso, de intimidação, desconstrução de pessoas, radicalismo e agressões. Não é justo nem salutar quebrar os laços familiares e de amizade, dividindo o nosso lar, odiando nosso próprio sangue por conta de política. Podemos ser adversários, mas nunca inimigos. É necessário que assim ajam as pessoas civilizadas e cristãs. O ódio não faz bem, por isso foi condenado pelo Mestre da Galileia. “Fazei o bem aos que vos odeiam. Abençoai os que vos amaldiçoam. Orai pelos que vos caluniam (Lc 6, 27-28). Durante a campanha, sofismas e mentiras confundiram, desorientaram, desvirtuaram fatos e enlamearam pessoas. Como fazer cessar a aversão e a ira, o desrespeito vil e a agressividade? Primeiramente, é preciso desarmar os corações. Somos efêmeros, peregrinos na vida, “cidadãos de uma outra pátria” (Fl 3, 20). E para fazer esta experiência é necessário envolverse e conviver. O que nos une, supera aquilo que nos separa. Somos participantes de uma mesma natureza, temos problemas idênticos ou semelhantes, dificuldades análogas, pertencemos a uma só família. Deus nos dá a chance de nos realizar juntos, apesar de nossas limitações e pecados. Saibamos compreender e perdoar. “Ninguém é perfeito no país dos homens”, afirmava o Pequeno Príncipe. Ou como proclama com mais precisão o Evangelho: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8, 7). Durante a campanha eleitoral, talvez tenhamos caído na armadilha de alguns, que em vez de unir, nos polarizaram. Em lugar de agregar, nos tornaram inimigos, desejando que eliminássemos com violência e rapidez os rivais. Esqueceram que precisamos de todos para superar e sair das ruínas, juntar os cacos deixados pela pandemia e outras desgraças que possam nos ter atingido. Importa desintoxicar-se de tanta coisa que veicularam as redes sociais e a mídia. Vamos nos voltar para as nossas tradições de povo pacífico, generoso, hospitaleiro e fraterno. As campanhas passam. O poder não é eterno. Lembremo-nos da imagem de Cristo do Corcovado, plantado como símbolo e ícone de nossa hospitalidade e do acolhimento cristão. Ele está de braços abertos para nos receber. A filosofia ensina que o homem é um ser inacabado. Necessita dos outros para se completar. Por isso, é preciso aprender a dialogar, buscar convergências, transigir, unir e aproximar. É ilusório pensar que o vencedor nas eleições só receberá os louros. Ele terá diante de si antigos, novos e gigantescos desafios. Quem foi derrotado nas urnas, não pode fazer uma oposição irresponsável e raivosa. Não sejamos egoístas, pensando tão somente em nós, em nossos interesses e partidos. O Brasil vale mais que as ideologias e suas concepções. É preciso ter em mente o futuro. A pátria não pertence apenas aos que vivem agora. Não há nenhuma escritura passada em cartório de que grupos, pessoas ou partidos são proprietários desta rica e querida Terra de Santa Cruz. Vencedores e vencidos precisam estar conscientes de que o Brasil é de todos! É hora de pensar alto e grande, como fazem os verdadeiros políticos, estadistas e pacifistas da história. Sigamos os ensinamentos de São Francisco de Assis: “Senhor, fazei de mim instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor”. Nossa pátria precisa de serenidade. O Brasil é um país cristão. Jesus não veio incendiar o mundo com rancor e violência. Pregou e ensinou o amor. “Nisto conhecerão que sois os meus discípulos, se tiverdes amor uns para com os outros” (Jo 13, 35). Que Deus nos conceda alegria, esperança e coragem, para trilharmos juntos um caminho de união, justiça, paz e solidariedade. E que o Senhor esteja sempre no meio de nós. Meditemos as palavras do salmista: “Vede como é bom e agradável os irmãos viverem unidos” (Sl 133/132, 1).

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

 DÊ-ME UM MARTELO!


Valério Mesquita*

Em agosto passado, assisti por uma rede de TV, a retrospectiva dos chamados “anos de chumbo” desde março de 1964 até o período das diretas já. O documentário cinematográfico e fotográfico exibido realçou de forma abundante a reação da classe estudantil brasileira contra o regime militar. Vários depoimentos de líderes estudantis à época, hoje circunspetos e envelhecidos cidadãos, de diferentes camadas sociais, pintaram com tintas negras as prisões, as torturas, os espancamentos, a que foram todos submetidos. Lutaram contra o cerceamento das liberdades individuais, pelo restabelecimento do estado de direito e por eleições livres e democráticas.

Artistas do rádio e da televisão, estudantes, profissionais liberais, políticos como Brizola, Ulisses Guimarães, Miguel Arraes, José Serra e tantos outros escreveram, com gestos e atitudes, muitas páginas de desprendimento e coragem. Mas, foi a UNE (União Nacional dos Estudantes) liderada por Guilherme Palmeira e vários companheiros que travaram nas ruas de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Brasília com a polícia e os órgãos repressores, a luta desarmada e desigual por aquilo que mais acreditava: a volta do país ao regime democrático. O universitário brasileiro tornou-se a figura marcante da resistência. Na segunda fase do domínio político militar surgiu o estudante secundarista, os “caras pintadas” para protestar contra o regime e depois contra o trêfego Fernando Collor de Melo.

Deduz-se uma reflexão pontual e elementar de todo esse acervo patriótico: por que a UNE, os “caras pintadas”, a classe universitária brasileira não se levantam para protestar quando o assunto hoje é corrução oficial, impunidade administrativa, degeneração dos costumes políticos e desmoralização do serviço público. Os primeiros anos do novo milênio fase da roubalheira do dinheiro público, lastreado por CPIs, jamais se ouviu um libelo, um grito, um apito, um gemido da UNE ou dos diretórios acadêmicos ou ainda, da maquiagem facial da turma secundarista nacional. Este ano, ninguém bateu ponto na praça dos Três Poderes para pedirem a cassação dos alagoanos Renan Calheiros e Arthur Lira, presidente da Câmara Federal. Mas, o conterrâneo Collor que pecou menos, de lá foi expulso às carreiras.

Acho que dilapidar o patrimônio é ilícito tão grave quanto o de subverter a liberdade pública. O regime político de corrupção generalizada é tão nefasto quanto a ditadura organizada que suprime as garantias individuais. Por que ninguém protesta? Poucos homens públicos, cumprindo o ritual partidário, se opõem a iniquidade, a desordem e ao caos. O Ministério Público desvenda os crimes, expõe os criminosos comprovadamente mas a legislação pátria é frouxa, ligth, dietética e permissiva, liberando-os, depois, na maioria das vezes, através de abusivas liminares e outros expedientes jurídicos de ocasião. Mas, onde estão os jovens do meu país? Por que a tolerância com canastrões políticos incompetentes que desmoralizam o processo democrático pelo qual muitos lutaram? O fato é que perderam a capacidade de se indignar.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

 VIDA É COLEÇÃO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Acho que todo aquele que vem ao mundo, mesmo para ser apenas estatística, é um colecionador. Quem não o é nessa vida? Câmara Cascudo, por exemplo, colecionava saber, erudição, cultura popular, e, até crepúsculos. O mestre Mussulini Fernandes era infalível filatelista. Há, ainda os que armazenam em estantes superpostas amarguras, decepções, ingratidões e liseus intermináveis. É a pior de todas as coleções. Conheço na praça centenas de colecionadores de promissórias, “papagaios” e pré-datados. Na política existem compiladores eméritos de vitórias e, principalmente, em maior número - de derrotas. Muito embora, haja aqueles que colecionam dinheiro: real, dólar, euro, libra, etc, etc. No Brasil quem comanda uma das mais seletas coletâneas é o político Paulo Salim Maluf, entre muitos outros, tanto aqui quanto alhures. Não precisa nem falar sobre muitos que colecionam objetos e mulheres como troféus emocionais.

Mas, a coleção mais esquisita e estranha é aquela ligada as transformações da vida. Certa vez, aconteceu na Câmara Municipal de Natal uma merecida homenagem ao ex-prefeito Djalma Maranhão, cassado, perseguido e preso pelo Exército em 1964. O legislativo natalense reabilitou a sua memória e homenageou igualmente vários auxiliares e correligionários de Djalma, também, à época, penalizados como ele. E adivinhe qual a banda musical que prestigiou o evento, executando acordes musicais como pano de fundo: a do Exército. Quem diria que um dia, tudo isso e outras coisas mais, aconteceria de uma forma que, não pode fugir do registro. Vale dizer que o homem, também, coleciona impossibilidades, imprevisibilidades e o inimaginável.

Uma coleção bizarra, macabra, repressiva dos governos totalitários diz respeito aos órgãos de informação e inteligência. Reúnem nos seus arquivos dossiês sobre pessoas, fatos e projetos. Recentemente, descobriram nos arquivos do FBI e da Marinha Norte-Americana que em 1908 o então Presidente Theodore Roosevelt, emérito caçador e ecologista, frequentador assíduo da selva amazônica, permitiu que se elaborasse um projeto de invasão ao Brasil, a começar pelo Rio de Janeiro (capital do País) em defesa, segundo os ianques, da desejada Amazônia. Até o super Djalma Maranhão figurava em 1947, nas prateleiras do FBI, disse-me o notável pesquisador potiguar Leonardo Barata.

Geraldo Melo Mourão, cearense, ex-integralista, ex-deputado federal, foi preso durante a 2ª Guerra Mundial, acusado de espião das nações do eixo. Passou seis anos na cadeia, durante o regime do “estado novo”. Saiu da prisão no alvorecer da redemocratização em 1947, alforriado por decisão do Supremo Tribunal Federal. Eleito deputado federal por Alagoas, foi cassado em 1964 e se exilou no Chile. Colecionou como muitos outros, prisões e banimentos. Através da TV Senado, de viva voz, narrou um episódio que demonstra cabalmente que o homem também coleciona ódios. Ele e mais três companheiros, denunciados e perseguidos tenazmente por David Nasser da Revista “O Cruzeiro”, armaram uma emboscada para seqüestrar o famoso jornalista. Contou detalhadamente, Geraldo Mourão que Nasser, sob a mira de quatro revolveres foi obrigado a comer, sentado à mesa, um prato cheio de excrementos. “Se não comer morre”, diziam. “Dê-me guardanapos”, pediu o jornalista. “Sem guardanapos”, respondeu um dos inquisidores. Concluída a abominável refeição, um dos odientos exclamou: “Mesmo assim vai morrer”.  Contido pelos demais, liberaram David, que teria talvez, preferido enfrentar de novo o Golias. Afirmam as más línguas que o reporte colecionou, ao longo da vida jornalística, impiedosos inimigos. Vida é coleção.

Atualmente, entraram na mansão do ex-presidente Trump na busca de papéis secreto da Casa Branca. E para ratificar a assertiva de que a vida é coleção, não são poucas as residencias de políticos e empresários brasileiros visitados pelos federais a cata de papéis e outras drogas.

(*) Escritor. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2022


 


                                                             

Missa de 7º dia



INÁCIO MAGALHÃES DE SENA

Os amigos de Inácio convidam para a Missa de 7º dia

que mandarão celebrar em sufrágio da alma do

pranteado confrade e agradecem aos que

comparecerem a esse ato de piedade cristã.

DATA: 24 DE SETEMBRO (Sábado)

LOCAL: Igreja de Nossa Senhora de Lourdes

(Alto do Juruá) – onde se encontram os restos

mortais do Padre João Maria

HORÁRIO: 17,30 horas.

 

 A beleza da Palavra divina 

Padre João Medeiros Filho 

Em setembro, comemora-se o mês da Bíblia, em homenagem a São Jerônimo, cuja festa litúrgica é celebrada no dia 30. Esse notável exegeta e linguista dotou a Igreja de uma tradução latina da Sagrada Escritura, partindo dos originais em grego, aramaico e hebraico. O texto passou a ser chamado Vulgata, ou seja, versão para a língua da população (“vulgus”) do Império Romano. A Bíblia é revelação divina e literatura. Entretanto, contém peculiaridades distintas de outras produções literárias. Por vezes, verifica-se uma visão distorcida dos textos sagrados, concebidos por alguns apenas de forma denotativa, sem análise conotativa. Há também o seu aspecto metafórico. É preciso saber até onde se estendem a inerrância e a inspiração bíblicas. Tais características não abrangem necessariamente estilos, formas literárias, elementos culturais e tradições do tempo dos hagiógrafos. Há dados questionáveis, contributos das comunidades da época, advindos de sua cultura. Os escritos bíblicos são uma obra em coautoria. O homem colabora com o modo de narrar, escrever e outras informações de seu universo. O prólogo do Evangelho de João assegura-nos que “o Verbo Divino se fez homem e habitou entre nós” (“Verbum caro factum est et habitabit in nobis”. Jo 1, 14). Assumiu a humanidade, encarnando-se em nossos gestos e externando-se em nosso modo de falar. Somos sacramentais e instrumentos de sua teofania, isto é, manifestação transcendental.Certa feita, Salomão sonhou com o Onipotente, oferecendo-lhe auxílio para o seu governo. Então, fez-lhe o pedido: “Dai-me, Senhor, capacidade de escutar e discernir” (1Rs 3, 9). Saber ouvir e deixar-se interpelar pela Palavra Sagrada deve ser uma constante na vida dos cristãos. Isto poderá levar à sabedoria. Quanto mais se aprofunda o contato com o Altíssimo, por meio de sua revelação bíblica, melhor o fiel conhecerá a si mesmo. Santo Agostinho suplicava: “Senhor, que eu Te conheça, e eu me descobrirei melhor.” No coração da Igreja – que pulsa fortemente na vida litúrgica – a Escritura possui um lugar eminente. Entretanto, nem sempre tomamos consciência dessa realidade. Durante a missa, Deus nos fala na liturgia da Palavra. Na Eucaristia, Cristo renova misticamente o mistério de sua encarnação e presença entre nós. A Sagrada Escritura é um livro que não deve apenas ser lido, como qualquer escrito. Requer releituras e meditação: “Ao Eterno falamos quando rezamos, ouvimos o Senhor quando lemos o Livro Santo”, escreveu Santo Ambrósio. Ao nos deparar com os escritos bíblicos, podemos perceber que a vida do povo hebreu era semelhante à nossa. Assim como Ele protegeu outrora a nação escolhida, continua nos assistindo e amando. É necessário tratar os textos inspirados com toda a reverência. Não devem ser banalizados em seu anúncio, esquecidos nas estantes das bibliotecas ou instrumentalizados para fins ideológicos. É oportuno lembrar o que afirmara São Jerônimo: “desconhecer as Escrituras é ignorar o próprio Cristo.” Nossa espiritualidade nutre-se também dessa seiva divina, pois o Deus da Bíblia é o mesmo que pelo seu Filho nos sacia na Eucaristia. Fortalecidos por esse alimento espiritual, peçamos ao Mestre que sejamos sempre fiéis aos seus ensinamentos e possamos transmiti-los com fidelidade. Expressando a sua Palavra, Deus sai do seu silêncio recôndito, entrando em nossa intimidade. Penetra no código dos sons e sinais gráficos para possibilitar o nosso diálogo com Ele. A sua infinita misericórdia torna-nos capazes de entendê-lo e responder-lhe. Eis o mistério de fé patente na Sagrada Escritura, que a Igreja coloca em evidência, no mês de setembro! A Bíblia aponta-nos o caminho certo, a opção correta e sensata a ser assumida por nós. “Tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Sl 119/118,105), proclama o salmista. Pertinentes são igualmente a pergunta e resposta encontradas no mesmo salmo (v. 9): “Como pode o ser humano levar uma vida pura? Guardando a tua palavra!” A Bíblia é canto, louvor, súplica, ação de graças, fonte de sabedoria e poesia. Não há como negar a beleza de tantos de seus versículos e passagens, tais como: “Quando vejo os céus, obra de tuas mãos, a lua, as estrelas e tudo que criaste, pergunto: o que é o homem, Senhor, , para dele te lembrares?” (Sl 8, 4).

terça-feira, 20 de setembro de 2022

 A virtude da gratuidade 

Padre João Medeiros Filho

 “De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10, 8), recomendou Cristo a seus discípulos. O Mestre desaprova a exorbitância do interesse, utilitarismo e descarte. A gratuidade é uma virtude essencial. No entanto, muitos consideram-na atitude insólita. Reconhecer a sua importância, parece algo bizarro nos ambientes políticos, marcados pela lógica do “toma lá, dá cá”. Não faz tanto tempo, nossalões palacianos, consagrava-se o jargão: “é dando que se recebe”, deturpando inescrupulosa e maliciosamente as palavras da oração atribuída a São Francisco de Assis. A ausência dessa virtude desencadeia a espiral das desigualdades, impedindo o surgimento de um novo ciclo para a humanidade. Constata-se o distanciamento da sociedade atual das ações orientadas por esse atributo humano e cristão. Já se tornou lugar comum falar do crescente derramamento de notícias e narrativas falsas na mídia e nas redes sociais. São inverdades propagadas em larga escala para fragilizar e desmoralizar pessoas, incitar ódio e, assim, de modo pernicioso e imoral, gerar vantagens para os disseminadores e aqueles que levianamente os orientam. Passou-se a coroar:sua majestade, a sordidez. A gratuidade é determinante para desenvolver o altruísmo, que ilumina a alma e fecunda a inteligência. “Há mais felicidade em dar do que em receber”, proclamou Jesus, em Atos dos Apóstolos (At 20, 35). Apesar de ser uma qualidade fundamental, ela vai se afastando do mundo hodierno e do seu papel de estímulo no coração humano. Em certos meios sociais, chega-se ao extremo de se pensar que agir gratuitamente é sinônimo de ingenuidade ou parvoice. Equivocadamente, muitos consideram “virtude” o oposto: manipular tudo em troca de algum ganho pessoal ou conveniência. Essa perspectiva egoísta torna-se permissiva para a conquista de benesses. A escassez da gratuidade alimenta patologias, tornando as pessoas dominadas por forças sedutoras e hegemônicas, levando ao individualismo e à ganância. É impressionante o avanço do egocentrismo nos hábitos da civilização contemporânea. As relações são orientadas ou estabelecidas a partir de um jogo de interesses. Assim, determinados indivíduos e situações são reduzidos a instrumentos para obtenção do objetivo. Um exemplo: muitos filhos não conseguem cuidar mais dos pais idosos e fragilizados. Alguns alegam uma série de motivos e compromissos. No fundo, talvez não queiram perder tempo e ter preocupações. Carecem do sentido da gratidão e desprendimento. Vive-se no império do utilitarismo e do descartável. Gestos magnânimos são necessários entre amigos. Quantas vezes, entende-se por amizade, a possibilidade de se poder obter benefícios. Se ela é desprovida de solidariedade não conseguirá despertar alento e esperança, trazer luz e alegria ao viver de muitos. O mundo de hoje tenta sepultar a generosidade, ensinada por Cristo, com suas palavras e exemplos. O problema ecológico, que está se tornando cada vez mais grave, é fruto do descaso do homem pela mãe-natureza, que oferece tudo gratuitamente. Os resultados desse desrespeito são agressões a seres vivos e tudo que nos circunda. Dádiva do Criador, ela é indubitavelmente pródiga e espera-se apenas o reconhecimento da humanidade pela sua doação. A extração desordenada de minérios,focadano lucro e na idolatria do dinheiro, é deletéria. Tem-se verificado que esse tipo de empreendimento causa tragédias, cenários desoladores e mortes. É preciso reavivar e cultivar o sentimento da gratuidade. Sem ela, a humanidade aumentará a escalada de contrastes e indiferença, comprovando que não adianta alguns terem os bolsos cheios, enquanto a maioria vive na miséria. Esse quadro conduz ao fracasso do ser humano. Até a vivência religiosa sofre desvios, sendo marcada, por vezes, de um jogo quase comercial. Os fiéis esperam, em retorno à sua crença, favores e graças. Entretanto, Deus nos doa tudo, nada exigindo em troca. A gratuidade é importante na pauta das práticas necessárias para reconstruir a sociedade. O Evangelho apresenta elementos capazes de levar os seres humanos a redescobrir riquezas indispensáveis. Entre elas, está a valorização da generosidade, que é a expressão do amor do Onipotente pelos homens. É importante relembrar o ensinamento do apóstolo Paulo: “Que cada um dê sem medir. Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9, 6-7).

 

THE QUEEN

 

Diogenes da Cunha Lima

 

Elizabeth II não era uma rainha, era, sim, A Rainha. Para os britânicos, The Queen. A Espanha traduz o seu nome, Isabel II. O amor de sua vida, o príncipe Philip, chamava-a Lilibeth, que soava como lírio, a flor simbólica do sexo, da pureza, da paz.

Impecável no vestir, elegante no trato, bem-humorada, discreta, rigorosa com as tradições e no cumprimento das prerrogativas e atribuições do reino.

A Rainha escolheu como parceiro um personagem shakespeareano, um príncipe da Dinamarca, como Hamlet. Tiveram um casamento de amor em todo o tempo. Aos 13 anos, ela começou o namoro, por correspondência, com o então Oficial da Marinha. Ela viveu com o consorte amado amante. Geraram 4 filhos. A mãe não permitiu que ostentasse o sobrenome do marido, reafirmando a linha dinástica dos Windsor. Elizabeth II foi intensa e extensamente amada pelo seu povo. Seu reinado durou 70 anos.

Chegou ao trono por circunstâncias especiais. Seu tio, Eduardo VIII, apaixonou-se por uma norte-americana divorciada e foi compelido a renunciar. Seu pai tornou-se o rei George VI e preparou-a para a função com disciplina, compartilhamento e estudos necessários. Na juventude, suportou as agruras da Segunda Guerra. Solidária ao seu povo, serviu com os granadeiros da guarda, o mais avançado regimento do exército. Posteriormente, sujava as mãos de graxa, integrando a equipe de mecânica. Aprendeu a dirigir veículos, inclusive caminhões.

Com o príncipe consorte celebrou inúmeras solenidades na Commonwealth e em outros países.  Exerceu, apenas uma vez, o seu poder de Chefe de Estado em conflito bélico, proibindo a prevista invasão britânica ao Iraque.

Em 1968, a Rainha e o príncipe consorte estiveram em quatro capitais brasileiras. Em nosso país, o casal valorizou a inauguração do MASP. Eles andaram pelas ruas de São Paulo, cumprimentando as pessoas. Assistiram a um jogo de futebol no Maracanã. No Itamaraty, onde fez discurso, ela revelou o encantamento pela Capital e pelo nosso país. O Império Britânico outorgou o título de Sir a ícones do Brasil, entre os quais Gilberto Freyre e Pelé.

No Palácio Buckingham recebeu muitos cantores e bandas de música pop, rock e erudita, incluindo-se aí Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin e Elton John. Conta-se que, após o show dos Beatles, um deles apontou para o jardim do palácio e avisou que a próxima apresentação seria nele. A Rainha respondeu com ênfase: “No meu jardim, não!”. O ex-presidente Trump, sem autorização da dona da casa, pousou com o helicóptero no jardim. A polidez e a liturgia do cargo não permitiram a natural reclamação.

Contracenou com James Bond, interpretado pelo ator Daniel Craig, em cena para a abertura da Olimpíada de Londres, em 2012. Por simulação, a Rainha pula de paraquedas juntamente com o ator.

Elizabeth preocupava-se com a natureza e com os animais. Era inseparável dos seus cães e do mais belo dos animais, o cavalo. Deixou como herança 32 mil cisnes, tão elegantes quanto ela.

The Queen foi a mais nobre protagonista do seu tempo.

 

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

 


 

 

ENCANTOU-SE O “BISPO DE TAIPU”

Por Carlos Roberto de Miranda Gomes

 

         Nunca está só quem tem um livro para ler. INÁCIO MAGALHÃES DE SENA tinha muitos, muitos mesmos, sequer era possível saber a cor das paredes de sua modestíssima casa pois os livros iam até o teto.

         Dizia sempre, em suas conversas, que não conseguiria sobreviver sem os seus livros e por isso foi sufocado por eles.

         Nascido em Ceará-Mirim em 11 de dezembro do ano de 1938, completara seus 84 anos de existência e de andarilho por esse mundo afora. Conheceu Oropa, França e Bahia. Recebeu o título de Cidadão Natalense em 2015, sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e da Academia Cearamirinense de Letras Pedro Simões Neto – ACLA-PSN.

         Cristão devoto, escreveu poucos livros [Agora lábios meus, dizei e anunciai, Memórias Quase Líricas de um Vendedor de Cavaco Chinês e outros escritos, inclusive importantes pesquisas a serem publicadas], pois era um Menestrel divulgando a sua cultura de forma oral, com muita sapiência.

         Segundo Pedro Simões Neto, ele era sócio fundador da confraria dos “Amigos de Manoel Onofre Júnior, ex-presidente da turma de pensadores da Praça das Cocadas, diretor e animador do clube lítero-recreativo da Poty Livros.” Recentemente pertencia à Confraria do Café Avenida.

         Em que pese suas periódicas enfermidades, sempre se saía bem, mercê do costume de andar muito a pé, o que lhe deu muita vitamina “D” e um suporte muscular mais intenso para um homem de sua idade.

         Grande papo, com tiradas de prosa que mereciam ser anotadas para serem reproduzidas em conversas e debates. Chegou a gravar a sua vida em sucessivos áudios no UhatsApp, que merecem ser reunidos para se escrever sobre ele e assim ficar na imortalidade.

         Além dos livros, também os DVD’S e muito cinema, mais de 20.000 fitas até que virou filme, exibido no festival de gramado em 2015.

         Inácio voltou à Casa do Pai na madrugada deste domingo 18 de setembro, após um razoável período de internamento no Hospital do Coração onde não lhe faltou nada. Dizia nas mensagens que estava no céu.

         Sem ter uma família que cuidasse dele a contento, recebeu o apoio da grande quantidade de amigos e amigas, que logo se consternaram com a notícia de sua partida, em particular os seus anjos protetores Maria Emília e Rachel, esta que cuidou dele até os últimos instantes de sua existência.

         Os amigos lhe proporcionaram um velório digno e um sepultamento no cemitério de Ceará-Mirim, junto aos seus ancestrais, satisfazendo um pedido seu. Entidades e Instituições culturais publicaram notas de pesar: IHGRN, Conselho Estadual de Cultura, inúmeros grupos de whatsapp e privados.

MISSÃO CUMPRIDA NOBRE AMIGO.

         Muito breve reativaremos na Eternidade a nossa Confraria das Livrarias e Cafés da cidade de Natal para discussão dos problemas do Brasil, do Mundo e da Igreja. TCHAU!

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(*) Quadro que pintei da Igreja de Ceará-Mirim.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

 




FACE OCULTA

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Contemplo do alto a floresta de edifícios de Natal e me sinto soterrado nas fundações. Não consigo emergir à superfície de suas vaidades. A cidade virou feira de remarcações e os falsos valores estão arrematando caráter em banda de lata. Nunca a urbe dos reis magos sofreu tanto da coluna vertebral. Prefiro aquela pacata cidadela que não depositava caráter em conta bancária. Havia concórdia entre os cidadãos e amizade entre os vizinhos. Era o tempo em que a insônia provocada pela riqueza fazia emagrecer. Hoje, os sócios ocultos do erário público dormem com a justiça e celebram com a crônica social.

Dia passado, num escritório de advocacia assisti uma cena típica dos novos tempos. Ao telefone, um conhecido causídico homenageava o seu escritório revelando que recebia a visita de fulano de tal, político, médico e agora vivendo apenas da profissão. Era uma carta fora do baralho das riquezas emergentes. O obstetra aguardou curioso do outro lado da linha uma referência elogiosa mas não veio. O advogado desligou parecendo constrangido na fisionomia como se arrependido estivesse pela citação do visitante. Constrangimento. Ao lado, entendi que o médico passará a figurar como paciente da UTI dos novos lisos do Rio Grande do Norte. Virava estatística entre os decaídos. Assim é Natal, a cidade que mais negocia apartamentos no nordeste do País. Onde se conhece o preço de tudo e não se sabe o valor de nada. Muitos cobram comissão e não pagam dízimo a igreja mais próxima.

A difusa fluidez temporal da vida não comove o insensato que segrega o próximo e que não pensa na noite sem face e derradeira do ataúde. Outro dia foi a vez de um mequetrefe, assessor funcional de uma fundação estadual, que demonstrou sua vocação mórbida de bajulador e subserviente por dissimular e “resguardar” o seu chefe de contato com os que desejam dialogar sobre o serviço público. Deve viver numa jaula, limitado às imposições de uma vida miúda, repleta de frustrações. Outro aspecto digno de nota é o daqueles que, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras na mais profunda indiferença. Amizade para eles virou interesse, esbulho, vantagem, lucro, contrato leonino, no qual é sempre beneficiário. Perderam a densidade moral, a identidade, a musculatura dos gestos e dos passos que fazem história.

Hoje, em nossa capital, ainda se fala sobre Zé Areia, Newton Navarro, Câmara Cascudo, Alberto Maranhão, Augusto Severo, Albimar Marinho e tantos outros nomes da boemia, da política, da literatura, da medicina, da advocacia, etc. Mas os atuais poderosos da elite social que impõem iniqüidades à mídia não serão lembrados amanhã porque nada fazem por Natal. Saqueiam-na. São os predadores de plantão, os negocistas.

Ante o espanto de uma Natal de alma dilacerada preciso recuperar minha auto-estima. Deduzo que a burguesia não fede. Abomináveis são as rugas de sua infinita vaidade e grave insensibilidade estampadas no rosto dos jornais. Enquanto isso, nós, cristãos imolados do “baile fiscal” continuaremos lavrando o nosso campo ensanguentado de acácias douradas dos jardins de Natal.

Para encerrar, após um chatérrimo fim de semana de longa travessia do horário eleitoral, lembrei-me que até agora as autoridades da saúde municipal, nada fizeram para enfrentar a invasão iminente dos mosquitos da dengue. Os infectologistas já alertaram sobre o perigo dos imóveis desocupados, mas fechados. Enquanto isso, do fundo eleitoral tem dinheiro pra tudo. Essa vida é mesmo um ziguezague de contradições. E por outro lado, os pobres gemem nos hospitais sob o peso da matéria maldosa do escárnio.

(*) Escritor.


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

 

Reluz e é ouro
É difícil classificar a obra de William Shakespeare (1564-1616). Ela transcende época e lugar. Não pertence a qualquer religião, filosofia, ciência ou profissão, embora perpasse e instigue quase todas elas, aqui incluindo o que chamamos de “direito” (aliás, os elisabetanos da época do bardo eram fascinados por temas jurídicos). Isso é fato.
Todavia, embora o direito esteja presente em quase todas as peças de Shakespeare, a comédia “O Mercador de Veneza” (1597), ao lado de “Medida por Medida” (1604), é considerada uma das duas obras marcadamente “jurídicas” do maior escritor da língua inglesa. Isso é o que nos diz Daniel J. Kornstein, em “Kill All the Lawyers? Shakespeare’s Legal Appeal” (University of Nebraska Press, 2005), expressando o que parece ser um consenso entre os especialistas.
Quanto ao enredo de “O Mercador de Veneza”, assim o resume o site do British Council no Brasil (instituição à qual sempre serei grato): “Na peça, o nobre Bassânio está falido e precisa de dinheiro para viajar e conquistar Pórcia, uma rica e bela herdeira. A fim de ajudar o amigo, o comerciante Antônio pede um empréstimo a Shylock, um agiota judeu. Shylock aceita fazer o acordo, desde que os rapazes concordem com uma proposta insólita: se o pagamento não acontecer como combinado, Antônio terá de quitar a dívida com uma libra de carne do próprio corpo! É que Shylock vê nessa negociação a chance de se vingar de Antônio, que várias vezes o ofendera por sua origem judaica. Como o mercador não consegue honrar seu compromisso, o caso vai parar no tribunal. Para defender Antônio, Pórcia se disfarça de advogado e acaba encontrando uma solução surpreendente!”.
Desde o princípio da trama de “O Mercador de Veneza”, o direito aparece na sua multiplicidade de aspectos. Com a ajuda do “Cambridge Student Guide – Shakespeare – The Merchant of Venice” (por Robert Smith, Cambridge University Press, 2006), posso distinguir alguns deles: (i) a questão do recorrente preconceito para com o judeu Shylock, o que faz deste, modernamente, um misto de vilão e vítima e, quiçá, o grande protagonista da peça (e faz de Shakespeare, para alguns, um antissemita); (ii) o direito contratual, decorrente da qualidade de agiota/usurário de Shylock e exemplificado no contrato de mútuo/empréstimo entre este e Antônio com a inusitada forma de pagamento em uma libra de carne; (iii) a crítica à tradicional e vingativa visão de justiça “olho por olho, dente por dente”, imaginada por Shylock, em prol de uma justiça tendente à misericórdia e ao perdão; (iv) a forma como as profissões legais eram exercidas à época; (v) o tipo de “justiça” exercida in casu, que se afasta do direito comum de então (baseado em precedentes) em direção a uma decisão por equidade, a partir de um senso natural de justiça aplicado às especificações do caso (como se fazia na Corte de Chancelaria elisabetana de então); (vi) a cena de julgamento em si, o que faz da peça também um verdadeiro “courtroom drama”; (vii) e, no que posso considerar o clímax (geral e sobretudo jurídico) da peça, a lição de hermenêutica de Pórcia, que, embora atenta à “letra da lei” e aos “exatos termos” do contrato, chega a uma interpretação deste, em prol de Antônio e para a punição de Shylock, verdadeiramente revolucionária. E mais sobre o direito na estória eu não digo, seja para não causar spoiler, seja para não criar algum tipo de prejulgamento e mesmo para atiçar a curiosidade de vocês.
No mais, “O Mercador de Veneza” não é só direito. Com o apoio da minha edição anotada de “The Merchant of Venice” (editores Jonathan Morris e Robert Smith, Cambridge School Shakespeare Series, Cambridge University Press, 2008), posso relacionar inúmeros outros temas: comércio e usura, amor e ódio, pais e filhos, comédia e tragédia, aparência e realidade (“Nem tudo que reluz é ouro”, lembremos). E ainda ouso acrescentar: a história dos judeus, a bíblia, o papel das mulheres na sociedade, a amizade masculina e por aí vai.
Na verdade, Shakespeare joga luz sobre quase todos os aspectos da ambiência humana, da nossa relação com as instituições e as ideologias, com os outros seres e com a nossa própria psique. Shakespeare é ouro e reluz sobre todos nós. Isso também é fato!
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL