quarta-feira, 13 de julho de 2022

 

NA INFÂNCIA TAMBÉM SE FAZ COISA SÉRIA.
O encanto maior da vida é quando o rebento alcança a aselha meã da infância. Nela vêm o cénico das peraltices, a imitação a tudo aquilo que se vê e que é obra, o gosto pelas coisas que os outros fazem ou falam. No meu feudo infantil, o despertar já se fez de forma séria e colorida, sempre fui e continuo a ser amante dos tons, das formas harmônicas, dileto respeito ao modo como se apresenta a natureza de quem sempre fui um zeloso aliado. Aprendi a gostar do cinzento. Não do cinzento sem forma, sem vida. Mas do cinzento dos nimbos, que ofertam ao sertanejo o seu lacrimejar, trazendo as águas de março, molhando a terra roxa do meu sertão, juntando o paul, onde nascem as jitiranas de flores alvas ou rubras, florando os cactos da caatinga e as bromélias nos umbrais das aroeiras de eras.
A chuva sempre foi bem vinda. Torrencial, intensificava a alegria. Para nós, “petits enfants” que se deleitavam na confecção dos pequeninos barreiros, a imitação às grandes barragens, era um fato de significado e simbologia ímpar. Não éramos grandes mestres na arte de construir açudes, nem exímios tropeiros, oficiosos na arte de armazenar água, mas sinceramente asseguro: os pequenos esbarros, não ficavam só na expectativa de permitir que os barquinhos de papel flutuassem nestes, que em si já era uma canção infante, mas, com certeza também, não deixava de ser uma imensa preocupação da criança sertaneja, ansiosa e vocacionada a conservar a água para os limites de suas necessidades.
As feiras de gado no sertão infantil. Currais cercados de pequenos toros de madeiras, com porteiras confeccionadas com o lenho seco esbranquiçado dos talos de milho do inverno passado, onde as reses eram simbolizadas pela anatomia óssea do gado vacum ou ovino. Quando a extremidade inferior do fêmur do ovino representava a “novilha vacum”, fêmea na puberdade, o similar da rês adulta correspondia ao “touro”, o osso central do joelho deste, era o “garrote”, a parte inferior da tíbia do porco seria o “bezerro”. Variava a nomenclatura pelo tamanho ou o porte daquela forma óssea. Para todo animal, havia a atribuição do preço. E o preço desses animais imaginários, fazia a essência das transações comerciais, venda ou troca. A moeda corrente, era representada pelas notas confeccionadas, a partir de carteiras secas de cigarro, das mais variadas marcas. Fazia-se a verdadeira feira infantil do gado. Currais contíguos, cada dono arrumava os seus animais nos limites de suas cercas. Passavam vários dias com tal entretenimento. E era feito à imagem e semelhança das feiras tradicionais que os adultos na vida real faziam
Os certames da argolinha. Quão pomposo era, está montado num cavalo de pau, feito de marmeleiro da caatinga, pampo, em marrom tabaco e branco, desenhado pelas mãos do velho Eloi de Souza. Lança de ponta triangular, adereçada de fita encarnada, faixa no peito de papel seda ou crepom, feita por Lero do “Caboco Antônio de Virgino”, perfilado em filha indiana, esperando chegar a vez de partir em disparada para resgatar a argolinha, que estava na presilha da corda horizontal da barra montada, e resgatar mais um ponto para o meu time, que era o encarnado. Bem ali, entre as carnaúbas margeantes do riacho do saco, na Ribeira do Piranhas.
Nas chuvadas de dezembro da floração do mandacaru, terra molhada na superfície, disputar o famoso “jogo de triângulo”, certame que tinha sua vertente em desenho similar a essa forma poligonal, onde se utilizava pequeno ferro de extremidade aguda, para rodopiar em riscos circulares, estreitos, tal figura, e criar um labirinto a ser percorrido a exaustão pelos contendores, que se revezavam cada vez que o ferro não penetrava na terra, baita exercício de coordenação motora, aptidão e discernimento de crianças pobres porém sadias e inteligentes. Numa visão retrospectiva, era exatamente fazer, o que o herói grego Teseu da gesta helênica o fez.
Fragmento da Obra: "PORQUE VIVI, CONFESSO".
J.E.S.

terça-feira, 12 de julho de 2022

 

Diferenças no common law
A pedido de amigos, vou voltar a uma temática tratada dia desses, o common law, a conhecida tradição jurídica anglo-americana, desta feita para abordar algumas diferenças entre os direitos dos dois principais países a ela filiados, o Reino Unido e os Estados Unidos da América.
Como sabemos, a formação dos EUA remonta à fundação, pelos ingleses, nos albores do século XVII, de colônias independentes no chamado novo mundo (a primeira, em 1607, foi a Virginia). E, hoje, com a exceção do estado da Luisiana, o direito dos EUA está identificado com os princípios do common law inglês: conceitos semelhantes do direito e de suas funções, divisões similares quanto aos seus ramos, desenvolvimento de institutos jurídicos idênticos (torts, trust etc.) e um papel fundamental para o precedente judicial, entre outros.
Entretanto, no decorrer da história, o direito americano adquiriu características que o fazem diferir do direito inglês. A existência de uma Constituição escrita e rígida, o princípio da supremacia da constituição, o fato de ser uma federação, a descentralização do Poder Judiciário, a existência de alguns códigos, para citar as mais importantes, são singularidades que de fato fazem o direito americano algo diferente do seu modelo inspirador.
Compreende-se isso bem quando se faz uma comparação direta entre alguns aspectos dos dois sistemas jurídicos. Victoria Sesma, com o seu “El precedente en el common law” (Civitas, 1995), nos poupa parte desse trabalho: “Em primeiro lugar, a fundamentação do direito do common law (isto é, que o direito está baseado na autoridade não escrita do costume) é rejeitada nos EUA, onde está claro que a Constituição é a fonte fundamental e superior do sistema jurídico dos EUA. (...). Além disso, a Constituição americana prevalece sobre qualquer lei, enquanto que na Inglaterra o poder do Parlamento é ilimitado. Isto tem levado a que (devido à frequente necessidade de interpretação de preceitos constitucionais) os juízes dos EUA tenham enfrentado muito mais que os ingleses problemas de política pública (public policy), em particular no conflito entre direitos inalienáveis (vested rights) e política do estado social (social state policy). (...). Em segundo lugar, os EUA (diferentemente da Inglaterra) têm uma estrutura federal em que há dois sistemas de tribunais: estaduais e federais. Aqui não somente existem jurisdições próprias em cada estado, como também há uma multiplicidade de jurisdições federais ao longo de todo o território dos EUA e não somente na capital federal. A dispersão da organização judicial nos EUA acarreta problemas que não se apresentam na Inglaterra, e se tende a adotar atitudes mais flexíveis a respeito da autoridade das decisões judiciais. Em terceiro lugar, a necessidade de uma sistematização do direito se sentiu antes e mais urgente nos EUA que na Inglaterra, devido à quantidade de material jurídico, que é tanta, que se tornou praticamente inviável administrá-lo”.
Por fim, no que tange aos precedentes judiciais, área de minha expertise, o direito americano possui uma visão bem peculiar. Se bem que a função do precedente seja basicamente a mesma, os conceitos dos institutos sejam os mesmos, ele é mais flexível, mais pragmático e menos conservador que o direito inglês. Como regra, os precedentes devem ser seguidos porque, no interesse da sociedade, o direito deve ser estável e uniforme. Mas, como consta da decisão da Supreme Court em Hertz v. Woodman 218 US 205 [1910], a regra do stare decisis não é inflexível. Mesmo em se tratando de um precedente a priori obrigatório, os tribunais americanos não se consideram obrigados a segui-lo se ele não prima pela correção e razoabilidade; ademais, a validade de um precedente está condicionada à situação política, econômica e social presente.
As diferenças são justificáveis. Primeiramente, o número de precedentes nos EUA é colossal. Um sistema de Justiça Federal, ao lado de dezenas de sistemas estaduais, faz com que se tenham comumente precedentes contraditórios. E isso dá aos juízes a possibilidade de escolha do precedente mais adequado. Em segundo lugar, a rápida expansão americana implica mudanças políticas e sociais e isso sugere, comparando-se com a conservadora Inglaterra, que a estrita adoção da doutrina do stare decisis seja mais problemática. Por derradeiro, as questões constitucionais têm um papel crucial nos EUA. A interpretação do direito constitucional – eminentemente político – é caracterizada pela flexibilidade. E essa flexibilidade, na aplicação dos precedentes judiciais constitucionais, contamina, em maior ou menor grau, as outras áreas do direito. Fato!
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
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terça-feira, 5 de julho de 2022

 

MACAÍBA PEDE SOCORRO

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

O rio Jundiaí, no trecho em que atravessa a cidade de Macaíba, perdeu o solo, o curso, o chão, o cheiro, a visão e é ameaça a segurança dos habitantes. Entre o parque governador José Varela e a praça Antônio de Melo Siqueira, há mais de dez anos, deixaram crescer no leito poluído sinistros manguezais que enfeiam um dos mais bonitos logradouros urbanos, construído em 1950 (52 anos). Essa selva esconde lixo doméstico, carcaças de animais, marginais do tráfico de drogas em todo o seu percurso e os galhos já ultrapassam a altura da ponte e das balaustradas. A imprensa já publicou, excelente matéria sobre tudo que ameaça e destrói os rios Potengi e Jundiaí. Mas, o foco da minha questão e, creio, dos cidadãos macaibenses, reside exatamente neste aluvião de perguntas: por que o Idema e o Ibama não evitam, aparando, podando, somente nesse trajeto o “matagal” entre o antigo cais histórico do porto até a outra lateral da ponte? Por que não permitem a prefeitura  o fazer? Isso não afeta o meio ambiente em nada. É até risivel dizer isto.

A praça e o parque perderam o charme de antigamente. Ninguém enxerga ninguém, olhando de um lado para o outro. A conscientização ambiental deve ser obedecida até onde não prejudique a funcionalidade urbanística e o senso prático e plástico do mapa citadino. Desde quando, em 1950, se planejou e se construiu a estrutura de pedra e cal das duas margens, o choque do progresso jamais prejudicou a superfície do rio, nem cortou os manguezais. Nem, tão pouco, molestaram o rio, a expansão e o crescimento habitacional. Pelo contrário, a construção ordenou a trajetória das águas e defendeu as ruas periféricas contendo os transbordamentos. Contemplo, hoje, que os problemas das inundações estão equacionadas com a construção da atual barragem de Tabatinga. Por que os órgãos responsáveis não permitem apenas nesse pequeníssimo trajeto fluvial o corte da poluição que amputa a paisagem urbana e memorial de Macaíba?

Ali, a vegetação desproporcional encobre um dos pontos históricos do município. Refiro-me ao cais das antigas lanchas que faziam o percurso fluvial entre Macaíba e Natal: a lancha do mestre Antonio, o barco de João Lau, além da lancha “Julita” que transportou tantas vezes Tavares de Lyra, Eloy, Auta e Henrique Castriciano de Souza, Augusto Severo, Alberto Maranhão, João Chaves, Octacílio Alecrim e tantas outras figuras notáveis ou não da vida social, cultural, política e econômica. Ali, o centenário cais, jaz sob os escombros de verdes balizas envergadas e fantasmagóricas. A visão noturna é tétrica e arrepiante. Desfigura e mutila os padrões estéticos do planejamento da urbe que a faz parecer abandonada e suja. Até a lua cheia que nasce lá por trás do Ferreiro Torto foi encoberta.

Assim como se deve obedecer a educação ambiental, do mesmo modo, exige-se o tratamento e o corte, no pequeno trecho do matagal inútil por parte do Idema e do Ibama a fim de evitar o represamento do lixo no leito, exclusivamente urbano. Nas capitais e cidades importantes do Brasil banhadas por rios não se vê tratamento tão e indiferente da parte das autoridades. Ao redimensioná-lo neste texto, cabe uma reflexão, um reestudo sobre o cenário dantesco do rio Jundiaí na parte descrita. O povo macaibense tem o direito de ouvir e a coragem de duvidar que esse desdém dos parlamentares, que devora e perturba, seja explicada e resolvida, sem slogans, clichês, palavras de ordem, lugares comuns, peças de marketing ou princípios dogmáticos. Que venham à lume as boas intenções e que não fique a história de Macaíba submersa na floresta de manguezais. Até hoje, nenhum deputado federal ou estadual, senador ou governador, se preocupou com o problema. Mas, em outubro vêm pedir votos. Sugiro ao prefeito de Macaíba e aos vereadores que convidem os seus candidatos para visitarem a ponte, a praça Antonio de Melo Siqueira e o parque José Augusto Verela estão um lixo.

(*) Escritor

quinta-feira, 30 de junho de 2022

 


GUARAPES, VALE A PENA COBRAR DE NOVO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

O chamado Engenho dos Guarapes foi o marco expressivo do desenvolvimento econômico dos Séculos XVIII e XIX, através da comercialização de produtos agrícolas exportados para outros Estados e para o Exterior. Viveu o seu apogeu ao tempo de Fabrício Gomes Pedroza, rico comerciante, até chegar o seu declínio econômico no inicio deste século. O prédio situado no alto de uma colina, próximo a divisa dos municípios de Natal e Macaíba, embora em péssimo estado de conservação, a ele podem ser aplicadas as técnicas arquitetônicas utilizadas na reconstrução do Solar do Ferreiro Torto em Macaíba, cuja situação física era semelhante ou pior que o Casarão dos Guarapes, mas que para a sua consecução, houve empenho e verbas do Governo do Estado e do Patrimônio Histórico da União.

A Arquiteta Jeanne Fonsêca Nesi na sua análise técnica, assim se expressou: “Edificação majestosa e imponente, construída em alvenaria de tijolos, dentro das técnicas e padrões do século passado. Por volta de 1861, Guarapes era o centro comercial de repercussão, conhecimento, fama e poder. O seu proprietário e administrador era Fabrício Pedroza, o mais rico, mais poderoso e mais influente negociante da região. Exportava milhares de cargas de algodão, açúcar, sal, couros, peles, etc.”

Tarcísio Medeiros, no seu livro – Aspecto Geopolíticos e Antropológicos da História do Rio Grande do Norte – descreve: “...De lá, galeras, briques, caravelões, uma quantidade enorme e variada de embarcações a vela, transportava mercadorias para o estrangeiro. Somente no ano de 1869/70, 22 ganharam o mar alto, pejadas em busca da Inglaterra. De Natal, apenas 09.”

Em 1989, propus ao Conselho Estadual de Cultura o seu tombamento. O secretário da Educação e Cultura, por ofício, consultou o Sr. Gerold Gerppert que respondeu por carta, datada de 02 de abril de 1990, a sua anuência ponderando a realização do levantamento topográfico a ser efetuado pela Fundação José Augusto e o desmembramento legal do terreno para a sua averbação em cartório. Em 18 de dezembro de 1990, o Casarão dos Guarapes foi finalmente tombado pelo Governo do Estado através da Portaria nº 456/90.

E agora? Passado tanto tempo, de concreto, nenhuma medida foi tomada. Sei do interesse da Fundação José Augusto em resgatar esse sítio histórico. E daqui, renovo o meu apelo ao presidente da Fundação José Augusto escritor Crispiniano Neto que já visitou a área e ficou entusiasmado com a beleza da vista que se descortina do alto do Casarão, para que juntos, possamos dá a largada sensibilizando a governadora Fátima Bezerra, com quem já conversei este ano. É o resgate de uma etapa importante da vida econômica do Rio Grande do Norte, para a qual, o Governo, a FIERN, a Fecomércio e de outro lado dos rios Jundiaí/Potengi, o Santuário dos Mártires de Uruassu se conectam e avancem para o futuro e que não esqueçam que existiu um passado histórico.

Os apelos em favor da ressurreição desse ambiente, através da imprensa, televisão e rede social foram intensos desde os governos de Vilma de Faria (08 anos), Rosalba Ciarlini (04 anos) e Robinson Faria (04 anos). Esse último governador chegou a devolver uma dotação de hum milhão de reais enviados pelo Ministério do Turismo (governo Michel Temer), depositado na Caixa Econômica Federal do Rio Grande do Norte, iniciativa do ex-ministro Henrique Eduardo. Ano passado dirigi correspondencia a todos os deputados federais e estaduais para que apresentassem  emendas paralamentares em prol da restauração do Empório dos Guarapes. Apenas o deputado Eliéser Girão Monteiro Filho (General Girão) atendeu. A Prefeitura de Macaíba vai receber insuficientes trezentos mil reais. Os outros políticos que querem receber votos este ano ignoraram a importancia do benefício. Mas, vão pedir votos em outubro.

(*) Escritor.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

 A Igreja Potiguar 

Padre João Medeiros Filho

 Em “História do Rio Grande do Norte”, Câmara Cascudo e Tavares de Lyra registraram os primórdios do catolicismo em terra potiguar, inclusive dados sobre as paróquias (oragos e datas de criação). Monsenhor Paulo Herôncio de Melo despertou nos fiéis o interesse pelos martírios de Cunhaú e Uruaçu. Dom Eliseu Mendes contribuiu com seus escritos para a história da diocese mossoroense.Sua visão desenvolvimentista subjacente no projeto da “Missão Rural” merece estudos acurados.Também são importantes os apontamentos deMonsenhor Francisco Salessobre o Colégio DiocesanoSanta Luzia e a paróquia da catedral de Mossoró.Em 1985, Monsenhor Severino Bezerra lançou “Levitas do Senhor”, biografias de sacerdotes que aqui nasceram ou exerceram seu ministério, nos séculos XVIII-XX. A Coleção Mossoroense (vol. CCCXCIV) extraiu dados dessa obra e publicoua relação dospresbíteros que atuaram no bispadodeSanta Luzia. Padre Normando Pignataro escreveu sobre 98 paróquias norte-rio-grandenses. A direção do Colégio Diocesano Seridoense, coordenada por Padre Francisco de Assis Costa, está preparando as memórias do referido educandário, no ensejo de seus oitenta anos de fundação. Aconselha-nos o profeta Isaías “Lembremse de coisas passadas e fatos antigos” (Is 46, 9). Se alguém perguntar pelos nossos renomados oradores sacros, faltam-nos fontes de pesquisa, além dos livros de tombo paroquiais. Se o questionamento versar sobre os abnegados educadores eclesiásticos, verificam-se lacunas significativas na documentação. Monsenhor Amâncio Ramalho é pouco lembrado. O eminente sacerdote dirigiu oito colégios em cinco estados brasileiros (RN, PB, PE, BA e PI). Foi o primeiro titular do Departamento de Educação, órgão que antecedeu a Secretaria Estadual de Educação. É profícuo o itinerário de nossas escolas católicas. Admiráveis são as realizações educacionais de Dom Delgado no Seridó.Importa assinalar o papel da Igrejana educação no RN. Luís Eduardo Suassuna, membro do Conselho Estadual de Educação – ao tramitarem os processos naquele colegiado – preocupa-se em colher dados sobre os patronos das instituições de ensino. Dentre eles, destacam-se vultosreligiosos. Muitas figuras eruditas e estudiosas de nosso clero são desconhecidas. É o caso de Padre Sebastião Constantino de Medeiros, sacerdote caicoense, administrador do bispado de Olinda, durante a prisão de Dom Vital Maria de Oliveira, vítima da “Questão Religiosa”. Após exercer taisfunções, tornou-se jesuíta. Enviado a Roma, foi o primeiro brasileiro a lecionar na Pontifícia Universidade Gregoriana. Graças aos esforços do acadêmico Jurandir Navarro, dispõe-se de parte substancial da produção científica e literária deCônegoMonte. Monsenhor Huberto Bruening (pároco em Mossoró) estudou profundamente a apicultura brasileira. O Movimento de Natal foi objeto da tese doutoral de Alceu Ferrari, intitulada Igreja e Desenvolvimento. E Cônego Eugène Collard, em “L´ Église au carrefour des chemins”, narra para os belgas e holandeses essa rica experiência pastoral. O trabalho das escolas radiofônicas não deve ficar esquecido. Pioneiro e anterior ao de Paulo Freire, contribuiu para a alfabetização e educação integral de inúmeros norte-rio-grandenses. Quanto aos meios de comunicação (rádios e periódicos), as dioceses potiguares desempenharam papel relevante. O jornal A Ordem (Natal) foi destaque nas décadas passadas, respeitado por intelectuais ehoje fonte de pesquisas. Ali,brilharam líderes católicos que orgulham a nossa terra. As primeiras instituições de assistência à saúde e aos idosos de nosso estado foram iniciativa da Igreja, inspiradas nas obras vicentinas. Muitos de nossos irmãos se beneficiaram das casas de caridade, orfanatos, asilos etc., manifestação do amor cristão junto aos doentes e desvalidos. A Igreja temdeixado suamarca de serviço e presença junto ao Povo de Deus. A Academia Norte-rio-grandense de Letras (sem esquecer o brilho de Cascudo, Henrique Castriciano e outros), por intermédio de Padre Monte, teve também a influência de Dom José Pereira Alves, terceiro bispo natalense,membro da Academia Pernambucana de Letras. “Elefoi um de nossos maiores oradores sacros, arrebatando palmas nas naves da antiga Catedral da Apresentação”, como relata Padre José FreitasCampos, em “O Mestre da Palavra”. A Igreja do RN necessita cuidar de sua história. Algumas de suas belas páginas são representadas pelo ministério de Monsenhor Lucas Batista Neto, cujo natalício celebraremos no próximo dia 23. A dedicação e o zelo de tantos transcendem as fraquezas e limitações da Igreja. “Muitas vezes e de modos diversos, Deus falou outrora a nossos pais” (Hb 1, 1).

 Polarização e inquietude

Padre João Medeiros Filho

Atendendo a pedidos de leitores, retorno à temática de algumas semanas passadas. Vivem-se dias de inquietude e incerteza. Alta dos preços de produtos e serviços, tensão entre membros dos poderes constituídos e clima pré-eleitoral levam a vários tipos de manifestações nas redes sociais e mídia. O povo brasileiro está com os nervos à flor da pele. É preciso amainar essa onda de animosidade e ódio social. Diante de fundamentalismos ideológicos e religiosos, polêmicas jurídicas e políticas, importa meditar sobre as palavras de Cristo: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz, não como a dá o mundo” (Jo 14, 27).
Outrora, concebia-se a lídima política como a capacidade de saber dialogar, ponderar, transigir e negociar. Atualmente, considera-se bom político quem prima pelo radicalismo,
constrói narrativas, desferindo ataques, desaforos e atos vis. Pretende-se erigir o túmulo do diálogo. Muitos se arrogam o direito de dizer e fazer o que bem entendem, arrimados em suas distorções e equívocos. As divisões e intransigências levam a nossa sociedade à desintegração, a partir de conflitos. As polarizações fragilizam o povo, dificultando sua reação diante dos grandes desafios contemporâneos. Procura-se desviar a atenção do debate sobre problemas fundamentais e urgentes de nossa pátria. Talvez seja essa a intenção de falsos líderes.
Ao se debruçar sobre o atual cenário do país, chegar-se-á à conclusão de que há necessidade de recuperar os princípios éticos do bem comum, o altruísmo e o espírito público na busca de soluções para os graves problemas que afetam a nação. Predominam a falsa ideia, a afirmação equivocada e obsessiva de pretensos direitos individuais, bem como a insensibilidade diante do estado deplorável de grande parte da nossa população. Por vezes, priorizam-se açodadamente minorias em detrimento da maioria. A perda do referencial do bem coletivo leva a comportamentos reprováveis, que tendem ao triunfo da lei do mais forte, desprezando a razoabilidade e o senso de justiça. Isso acarretará indubitavelmente um retrocesso civilizatório. Segundo a doutrina cristã, estão entrelaçados o bem comum e a paz. E se esta não for fruto do desenvolvimento integral de todos, haverá sempre embates e diversas formas de violência.
Várias pessoas estão atônitas diante da situação nacional e da radicalização reinante entre
os brasileiros, jamais vista em nossa pátria. A preocupação de tantos, sobretudo de líderes religiosos, é como neutralizar esse ódio invasivo e contagiante. Uma sociedade que permite disseminar tal clima, destrói os laços mínimos de civilidade, sem os quais ela desmorona. Deve- se evitar as condições que tornem o caminho da agressividade e violência incontrolável ou até irreversível. O Brasil caracteriza-se ainda por viver antecipadamente o período eleitoral, contaminado pelos mesmos vícios. Deste modo, reduz-se a indispensável discussão política às ideias de pessoas que repetem esquemas inócuos e obsoletos, perpetuando-se dinastias de privilégios e erros. Os cidadãos esperam dos líderes e dignitários não uma briga medíocre, estéril e desprovida de qualquer sentimento republicano, inflando egos, mas uma ampla e legítima pauta dialogal civilizatória. Esta inclui essencialmente um linguajar sereno e construtivo, o manejo sábio das redes sociais e tecnologias contemporâneas.
É missão das igrejas indicar os caminhos da pacificação, passando necessariamente pelo entendimento e pela reconciliação. Têm a responsabilidade cívica, moral e espiritual de ensinar
como fomentar a fraternidade e a convivência harmoniosa entre todos. Segundo analistas, certos pensadores e líderes religiosos ajudaram infelizmente a acelerar o ônibus da intolerância e sabe Deus aonde chegará. Nos relatos dos evangelistas, ouve-se várias vezes a saudação do Mestre: “A paz esteja convosco. Não tenhais medo” (Jo 20, 19; 14, 27). Assim Ele cumprimentava os apóstolos,apósaRessurreição. Comtaispalavras,Jesusqueriaserenarosânimosdosdiscípulos, atordoados pelo temor de que algo pior lhes pudesse acontecer. O Ressuscitado devolveu-lhes a
paz, a alegria e a certeza de estar novamente com eles. Eis o desafio das entidades religiosas no Brasil, diante do atual contexto político e social! É necessário vivenciar verdadeiramente a oração atribuída a São Francisco de Assis: “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor!”

segunda-feira, 27 de junho de 2022

 

AS DAMAS DE TEFFÉ

 

Diogenes da Cunha Lima

 

Duas mulheres revolucionaram a comunicação do Rio de Janeiro e até costumes no Brasil. Eram lindas, amaram muito e tiveram destinos bem diferentes.

Nair de Teffé (1886 - 1981) pertencia a família aristocrática. Filha de barão (almirante herói da Guerra do Paraguai), neta de conde e, pelo lado materno, também sobrinha de barão. Com um ano de idade, foi para a França, estudou em Paris e Nice, inclusive frequentando aulas de pintura. Voltou ao Brasil aos 18 anos.

Muito contestou para elevar as mulheres. Com talento invulgar, desafiou convenções e preconceitos. Foi a primeira brasileira a usar calça comprida e a montar cavalo escanchada, como os homens.

Em tudo se fazia notar. Foi escritora, membro das Academias de Petrópolis e da Fluminense de Letras, atriz, cantora, pianista e desenhista. Reconhecida como a primeira mulher cartunista do mundo. Exímia em sua arte, exagerava traços físicos de personalidades da época. Publicou caricaturas em importantes revistas como “Fon-fon” e “Careta”, e no jornal Gazeta de Notícias”. O seu desenho gracioso e pitoresco foi aplaudido em exposições individuais e coletivas.

Seu charme natural encantou o presidente da República do Brasil, Hermes da Fonseca, com quem se casou. Como primeira-dama, comandou saraus no Palácio do Catete. Ela e o compositor Catulo da Paixão Cearense executaram o maxixe “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga. O maxixe era música e dança da gente mais humilde. A alta classe carioca o considerava lascivo e vulgar. A apresentação no Palácio indignou Rui Barbosa que, no Senado, fez discurso de agressivo desprezo.

Em sua arte, Nair assinava Rian, seu anagrama, que significa “nada” em francês. Ela se tornou a principal responsável pela criação do cinema Rian, um dos símbolos da arte na então Capital Federal.

Dana de Teffé (1921 - 1961) ganhou o sobrenome no seu quarto casamento, com o sobrinho de Nair, o diplomata e depois embaixador Manuel de Teffé.

De rica família judia, nascida em Praga, Tchecoslováquia, tornou-se bailarina clássica. Na Itália, casou com um militar fascista; na Espanha, com um dentista e no México, com um jornalista.

Milionária, no Rio de Janeiro, com sua beleza singular deslumbrava em festas e salões.

Para acompanhar seu divórcio, conferiu procuração a Leopoldo Heitor Mendes, que teria sido seu amante, com poderes ilimitados sobre sua fortuna.

O bandido-advogado a conduziu pela Via Dutra, em direção a São Paulo. No trajeto, ela desapareceu. Heitor apresentou três diferentes versões. O júri considerou-o culpado pelo assassinato, condenando-o a 35 anos de reclusão. Depois, o STJ o absolveu por falta de materialidade, faltavam os ossos da vítima. E o “advogado” ficou rico.