quarta-feira, 13 de julho de 2022
terça-feira, 12 de julho de 2022
terça-feira, 5 de julho de 2022
MACAÍBA
PEDE SOCORRO
Valério
Mesquita*
mesquita.valerio@gmail.com
O rio Jundiaí, no trecho em que atravessa
a cidade de Macaíba, perdeu o solo, o curso, o chão, o cheiro, a visão e é
ameaça a segurança dos habitantes. Entre o parque governador José Varela e a
praça Antônio de Melo Siqueira, há mais de dez anos, deixaram crescer no leito
poluído sinistros manguezais que enfeiam um dos mais bonitos logradouros
urbanos, construído em 1950 (52 anos). Essa selva esconde lixo doméstico,
carcaças de animais, marginais do tráfico de drogas em todo o seu percurso e os
galhos já ultrapassam a altura da ponte e das balaustradas. A imprensa já
publicou, excelente matéria sobre tudo que ameaça e destrói os rios Potengi e
Jundiaí. Mas, o foco da minha questão e, creio, dos cidadãos macaibenses,
reside exatamente neste aluvião de perguntas: por que o Idema e o Ibama não
evitam, aparando, podando, somente nesse trajeto o “matagal” entre o antigo
cais histórico do porto até a outra lateral da ponte? Por que não permitem a prefeitura o fazer? Isso não afeta o meio ambiente em
nada. É até risivel dizer isto.
A praça e o parque perderam o charme de
antigamente. Ninguém enxerga ninguém, olhando de um lado para o outro. A
conscientização ambiental deve ser obedecida até onde não prejudique a
funcionalidade urbanística e o senso prático e plástico do mapa citadino. Desde
quando, em 1950, se planejou e se construiu a estrutura de pedra e cal das duas
margens, o choque do progresso jamais prejudicou a superfície do rio, nem
cortou os manguezais. Nem, tão pouco, molestaram o rio, a expansão e o
crescimento habitacional. Pelo contrário, a construção ordenou a trajetória das
águas e defendeu as ruas periféricas contendo os transbordamentos. Contemplo,
hoje, que os problemas das inundações estão equacionadas com a construção da atual
barragem de Tabatinga. Por que os órgãos responsáveis não permitem apenas nesse
pequeníssimo trajeto fluvial o corte da poluição que amputa a paisagem urbana e
memorial de Macaíba?
Ali, a vegetação desproporcional encobre
um dos pontos históricos do município. Refiro-me ao cais das antigas lanchas
que faziam o percurso fluvial entre Macaíba e Natal: a lancha do mestre
Antonio, o barco de João Lau, além da lancha “Julita” que transportou tantas
vezes Tavares de Lyra, Eloy, Auta e Henrique Castriciano de Souza, Augusto
Severo, Alberto Maranhão, João Chaves, Octacílio Alecrim e tantas outras
figuras notáveis ou não da vida social, cultural, política e econômica. Ali, o
centenário cais, jaz sob os escombros de verdes balizas envergadas e
fantasmagóricas. A visão noturna é tétrica e arrepiante. Desfigura e mutila os
padrões estéticos do planejamento da urbe que a faz parecer abandonada e suja.
Até a lua cheia que nasce lá por trás do Ferreiro Torto foi encoberta.
Assim como se deve obedecer a educação
ambiental, do mesmo modo, exige-se o tratamento e o corte, no pequeno trecho do
matagal inútil por parte do Idema e do Ibama a fim de evitar o represamento do
lixo no leito, exclusivamente urbano. Nas capitais e cidades importantes do
Brasil banhadas por rios não se vê tratamento tão e indiferente da parte das autoridades.
Ao redimensioná-lo neste texto, cabe uma reflexão, um reestudo sobre o cenário
dantesco do rio Jundiaí na parte descrita. O povo macaibense tem o direito de
ouvir e a coragem de duvidar que esse desdém dos parlamentares, que devora e
perturba, seja explicada e resolvida, sem slogans, clichês, palavras de ordem,
lugares comuns, peças de marketing ou princípios dogmáticos. Que venham à lume
as boas intenções e que não fique a história de Macaíba submersa na floresta de
manguezais. Até hoje, nenhum deputado federal ou estadual, senador ou
governador, se preocupou com o problema. Mas, em outubro vêm pedir votos. Sugiro
ao prefeito de Macaíba e aos vereadores que convidem os seus candidatos para
visitarem a ponte, a praça Antonio de Melo Siqueira e o parque José Augusto
Verela estão um lixo.
(*) Escritor
quinta-feira, 30 de junho de 2022
GUARAPES,
VALE A PENA COBRAR DE NOVO
Valério
Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com
O chamado Engenho dos Guarapes foi o marco
expressivo do desenvolvimento econômico dos Séculos XVIII e XIX, através da
comercialização de produtos agrícolas exportados para outros Estados e para o
Exterior. Viveu o seu apogeu ao tempo de Fabrício Gomes Pedroza, rico
comerciante, até chegar o seu declínio econômico no inicio deste século. O
prédio situado no alto de uma colina, próximo a divisa dos municípios de Natal
e Macaíba, embora em péssimo estado de conservação, a ele podem ser aplicadas
as técnicas arquitetônicas utilizadas na reconstrução do Solar do Ferreiro
Torto em Macaíba, cuja situação física era semelhante ou pior que o Casarão dos
Guarapes, mas que para a sua consecução, houve empenho e verbas do Governo do
Estado e do Patrimônio Histórico da União.
A Arquiteta Jeanne Fonsêca Nesi na sua
análise técnica, assim se expressou: “Edificação majestosa e imponente,
construída em alvenaria de tijolos, dentro das técnicas e padrões do século
passado. Por volta de 1861, Guarapes era o centro comercial de repercussão, conhecimento,
fama e poder. O seu proprietário e administrador era Fabrício Pedroza, o mais rico,
mais poderoso e mais influente negociante da região. Exportava milhares de
cargas de algodão, açúcar, sal, couros, peles, etc.”
Tarcísio Medeiros, no seu livro – Aspecto
Geopolíticos e Antropológicos da História do Rio Grande do Norte – descreve:
“...De lá, galeras, briques, caravelões, uma quantidade enorme e variada de
embarcações a vela, transportava mercadorias para o estrangeiro. Somente no ano
de 1869/70, 22 ganharam o mar alto, pejadas em busca da Inglaterra. De Natal,
apenas 09.”
Em 1989, propus ao Conselho Estadual de
Cultura o seu tombamento. O secretário da Educação e Cultura, por ofício,
consultou o Sr. Gerold Gerppert que respondeu por carta, datada de 02 de abril
de 1990, a sua anuência ponderando a realização do levantamento topográfico a
ser efetuado pela Fundação José Augusto e o desmembramento legal do terreno
para a sua averbação em cartório. Em 18 de dezembro de 1990, o Casarão dos
Guarapes foi finalmente tombado pelo Governo do Estado através da Portaria nº
456/90.
E agora? Passado tanto tempo, de concreto,
nenhuma medida foi tomada. Sei do interesse da Fundação José Augusto em resgatar
esse sítio histórico. E daqui, renovo o meu apelo ao presidente da Fundação
José Augusto escritor Crispiniano Neto que já visitou a área e ficou
entusiasmado com a beleza da vista que se descortina do alto do Casarão, para
que juntos, possamos dá a largada sensibilizando a governadora Fátima Bezerra,
com quem já conversei este ano. É o resgate de uma etapa importante da vida
econômica do Rio Grande do Norte, para a qual, o Governo, a FIERN, a Fecomércio
e de outro lado dos rios Jundiaí/Potengi, o Santuário dos Mártires de Uruassu
se conectam e avancem para o futuro e que não esqueçam que existiu um passado
histórico.
Os apelos em favor da ressurreição desse
ambiente, através da imprensa, televisão e rede social foram intensos desde os
governos de Vilma de Faria (08 anos), Rosalba Ciarlini (04 anos) e Robinson
Faria (04 anos). Esse último governador chegou a devolver uma dotação de hum
milhão de reais enviados pelo Ministério do Turismo (governo Michel Temer),
depositado na Caixa Econômica Federal do Rio Grande do Norte, iniciativa do
ex-ministro Henrique Eduardo. Ano passado dirigi correspondencia a todos os
deputados federais e estaduais para que apresentassem emendas paralamentares em prol da restauração
do Empório dos Guarapes. Apenas o deputado Eliéser Girão Monteiro Filho
(General Girão) atendeu. A Prefeitura de Macaíba vai receber insuficientes trezentos
mil reais. Os outros políticos que querem receber votos este ano ignoraram a
importancia do benefício. Mas, vão pedir votos em outubro.
(*) Escritor.
quarta-feira, 29 de junho de 2022
A Igreja Potiguar
Padre João Medeiros Filho
Em “História do Rio Grande do Norte”, Câmara Cascudo e Tavares de Lyra registraram os primórdios do catolicismo em terra potiguar, inclusive dados sobre as paróquias (oragos e datas de criação). Monsenhor Paulo Herôncio de Melo despertou nos fiéis o interesse pelos martírios de Cunhaú e Uruaçu. Dom Eliseu Mendes contribuiu com seus escritos para a história da diocese mossoroense.Sua visão desenvolvimentista subjacente no projeto da “Missão Rural” merece estudos acurados.Também são importantes os apontamentos deMonsenhor Francisco Salessobre o Colégio DiocesanoSanta Luzia e a paróquia da catedral de Mossoró.Em 1985, Monsenhor Severino Bezerra lançou “Levitas do Senhor”, biografias de sacerdotes que aqui nasceram ou exerceram seu ministério, nos séculos XVIII-XX. A Coleção Mossoroense (vol. CCCXCIV) extraiu dados dessa obra e publicoua relação dospresbíteros que atuaram no bispadodeSanta Luzia. Padre Normando Pignataro escreveu sobre 98 paróquias norte-rio-grandenses. A direção do Colégio Diocesano Seridoense, coordenada por Padre Francisco de Assis Costa, está preparando as memórias do referido educandário, no ensejo de seus oitenta anos de fundação. Aconselha-nos o profeta Isaías “Lembremse de coisas passadas e fatos antigos” (Is 46, 9). Se alguém perguntar pelos nossos renomados oradores sacros, faltam-nos fontes de pesquisa, além dos livros de tombo paroquiais. Se o questionamento versar sobre os abnegados educadores eclesiásticos, verificam-se lacunas significativas na documentação. Monsenhor Amâncio Ramalho é pouco lembrado. O eminente sacerdote dirigiu oito colégios em cinco estados brasileiros (RN, PB, PE, BA e PI). Foi o primeiro titular do Departamento de Educação, órgão que antecedeu a Secretaria Estadual de Educação. É profícuo o itinerário de nossas escolas católicas. Admiráveis são as realizações educacionais de Dom Delgado no Seridó.Importa assinalar o papel da Igrejana educação no RN. Luís Eduardo Suassuna, membro do Conselho Estadual de Educação – ao tramitarem os processos naquele colegiado – preocupa-se em colher dados sobre os patronos das instituições de ensino. Dentre eles, destacam-se vultosreligiosos. Muitas figuras eruditas e estudiosas de nosso clero são desconhecidas. É o caso de Padre Sebastião Constantino de Medeiros, sacerdote caicoense, administrador do bispado de Olinda, durante a prisão de Dom Vital Maria de Oliveira, vítima da “Questão Religiosa”. Após exercer taisfunções, tornou-se jesuíta. Enviado a Roma, foi o primeiro brasileiro a lecionar na Pontifícia Universidade Gregoriana. Graças aos esforços do acadêmico Jurandir Navarro, dispõe-se de parte substancial da produção científica e literária deCônegoMonte. Monsenhor Huberto Bruening (pároco em Mossoró) estudou profundamente a apicultura brasileira. O Movimento de Natal foi objeto da tese doutoral de Alceu Ferrari, intitulada Igreja e Desenvolvimento. E Cônego Eugène Collard, em “L´ Église au carrefour des chemins”, narra para os belgas e holandeses essa rica experiência pastoral. O trabalho das escolas radiofônicas não deve ficar esquecido. Pioneiro e anterior ao de Paulo Freire, contribuiu para a alfabetização e educação integral de inúmeros norte-rio-grandenses. Quanto aos meios de comunicação (rádios e periódicos), as dioceses potiguares desempenharam papel relevante. O jornal A Ordem (Natal) foi destaque nas décadas passadas, respeitado por intelectuais ehoje fonte de pesquisas. Ali,brilharam líderes católicos que orgulham a nossa terra. As primeiras instituições de assistência à saúde e aos idosos de nosso estado foram iniciativa da Igreja, inspiradas nas obras vicentinas. Muitos de nossos irmãos se beneficiaram das casas de caridade, orfanatos, asilos etc., manifestação do amor cristão junto aos doentes e desvalidos. A Igreja temdeixado suamarca de serviço e presença junto ao Povo de Deus. A Academia Norte-rio-grandense de Letras (sem esquecer o brilho de Cascudo, Henrique Castriciano e outros), por intermédio de Padre Monte, teve também a influência de Dom José Pereira Alves, terceiro bispo natalense,membro da Academia Pernambucana de Letras. “Elefoi um de nossos maiores oradores sacros, arrebatando palmas nas naves da antiga Catedral da Apresentação”, como relata Padre José FreitasCampos, em “O Mestre da Palavra”. A Igreja do RN necessita cuidar de sua história. Algumas de suas belas páginas são representadas pelo ministério de Monsenhor Lucas Batista Neto, cujo natalício celebraremos no próximo dia 23. A dedicação e o zelo de tantos transcendem as fraquezas e limitações da Igreja. “Muitas vezes e de modos diversos, Deus falou outrora a nossos pais” (Hb 1, 1).
Polarização e inquietude
segunda-feira, 27 de junho de 2022
AS DAMAS DE TEFFÉ
Diogenes da Cunha Lima
Duas mulheres revolucionaram a comunicação do Rio de Janeiro e até costumes no Brasil. Eram lindas, amaram muito e tiveram destinos bem diferentes.
Nair de Teffé (1886 - 1981) pertencia a família aristocrática. Filha de barão (almirante herói da Guerra do Paraguai), neta de conde e, pelo lado materno, também sobrinha de barão. Com um ano de idade, foi para a França, estudou em Paris e Nice, inclusive frequentando aulas de pintura. Voltou ao Brasil aos 18 anos.
Muito contestou para elevar as mulheres. Com talento invulgar, desafiou convenções e preconceitos. Foi a primeira brasileira a usar calça comprida e a montar cavalo escanchada, como os homens.
Em tudo se fazia notar. Foi escritora, membro das Academias de Petrópolis e da Fluminense de Letras, atriz, cantora, pianista e desenhista. Reconhecida como a primeira mulher cartunista do mundo. Exímia em sua arte, exagerava traços físicos de personalidades da época. Publicou caricaturas em importantes revistas como “Fon-fon” e “Careta”, e no jornal “Gazeta de Notícias”. O seu desenho gracioso e pitoresco foi aplaudido em exposições individuais e coletivas.
Seu charme natural encantou o presidente da República do Brasil, Hermes da Fonseca, com quem se casou. Como primeira-dama, comandou saraus no Palácio do Catete. Ela e o compositor Catulo da Paixão Cearense executaram o maxixe “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga. O maxixe era música e dança da gente mais humilde. A alta classe carioca o considerava lascivo e vulgar. A apresentação no Palácio indignou Rui Barbosa que, no Senado, fez discurso de agressivo desprezo.
Em sua arte, Nair assinava Rian, seu anagrama, que significa “nada” em francês. Ela se tornou a principal responsável pela criação do cinema Rian, um dos símbolos da arte na então Capital Federal.
Dana de Teffé (1921 - 1961) ganhou o sobrenome no seu quarto casamento, com o sobrinho de Nair, o diplomata e depois embaixador Manuel de Teffé.
De rica família judia, nascida em Praga, Tchecoslováquia, tornou-se bailarina clássica. Na Itália, casou com um militar fascista; na Espanha, com um dentista e no México, com um jornalista.
Milionária, no Rio de Janeiro, com sua beleza singular deslumbrava em festas e salões.
Para acompanhar seu divórcio, conferiu procuração a Leopoldo Heitor Mendes, que teria sido seu amante, com poderes ilimitados sobre sua fortuna.
O bandido-advogado a conduziu pela Via Dutra, em direção a São Paulo. No trajeto, ela desapareceu. Heitor apresentou três diferentes versões. O júri considerou-o culpado pelo assassinato, condenando-o a 35 anos de reclusão. Depois, o STJ o absolveu por falta de materialidade, faltavam os ossos da vítima. E o “advogado” ficou rico.