quarta-feira, 17 de março de 2021

 


PRAIEIRA (99 ANOS)

Valério Mesquita

Muitos já cantaram e falaram sobre “Serenata do Pescador”, composição imortal de Othoniel Menezes e musicada por Eduardo Medeiros que atravessou o tempo e o vento com a mesma beleza sonora e poética. A pesquisadora Leide Câmara reuniu a melhor geração de intérpretes norte-riograndenses que gravaram a composição, uma estrofe cada um, pela primeira vez em estúdio. Se os estilos de cantar de cada um são distintos, pelo timbre de voz, a inflexão, a entonação dos versos, é inegável a intensidade e a paixão de todos na interpretação, como se estivessem vivendo a fascinação do pescador ante o permanente e o efêmero da aventura marítima. 

Esse poema musicado de 1922, alcançou a força de uma obra prima e se tornou hoje a canção tradicional de Natal pelo paladar do povo. Nem precisaria a eficácia de um decreto oficial. Lembro a noite de lançamento que se realizou no Palácio da Cultura (80 anos), onde a confrade Leide Câmara, fiel porta-estandarte da música potiguar, reuniu centenas de natalenses de boa vontade que não deixam cair a bandeira, a riqueza e a beleza do talento dos nossos músicos e intérpretes. O disco teve a capa do imortal Dorian Gray e a apresentação de vários expoentes da nossa cultura. Fui presente e me senti feliz por prestigiar o evento, passageiro do batel naquela noite de navegação e delicadeza aquática.

Tratou-se de um acontecimento que fala a alma e o coração de Natal e precisava repercutir por que não é fugaz e frívolo como o carnatal. Vivemos numa cidade que lança livros que não se lêem, línguas que não se aprendem (exceção para aquelas ferinas), amor que não se dá, a não ser aqueles movidos à álcool e as drogas, próprios da folia doidivana onde tudo depois é esquecido. Província que desfila vaidade nas crônicas e só veste abadás nas passarelas. Natal precisa saber quem é e a que veio. Carnatal não é cultura. Mas, sim dinheiro, ganância, transitoriedade e consumo de carne. Por que não prestigiar o autor, o músico, a música e o cantor norte-rio-grandense? Só pensam em lucro fácil e fáctil. Todo folião que se despedaça no carnatal não retorna mais inteiro. Perdem a identidade assim como Natal perde, a cada ano, a sua cara e a própria identidade cultural. 

Por isso cultuo o “pão cotidiano” das coisas nossas sem deixar de me preocupar com o poente apagado do Potengi amado, outrora tão aceso e contemplado por Câmara Cascudo que sempre valorizou os temas, as criações, os autores e o patrimônio da cultura do Rio Grande do Norte. O mundo ainda não acabou por causa de dez por cento de cristãos de fé e penitência de todas as religiões do planeta. E a música potiguar brasileira não se exauriu ainda por que existem figuras como Leide Câmara e todos os doze intérpretes de Praieira, além dos seis músicos, somados às dezenas de outros profissionais espalhados pelo Rio Grande do Norte que vivificam o labor diário de compor e cantar a música genuína de nossas origens e vertentes. Ouçamos Fernando Pessoa:  “a vida é breve, a arte é longa”. 

(*) Escritor

 

terça-feira, 16 de março de 2021

 


Minhas Cartas de Cotovelo – verão de 2021-19

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

DIA 16 DE MARÇO DE 1963/2021

       Foi nesta data, há 58 anos que, na capela de Santo Antônio, da Diocese da Santíssima Trindade, na cidade de Belém, Estado do Pará, que aconteceu a minha união com THEREZINHA ROSSO GOMES.

       Longo percurso, iniciado em 1948 quando chegamos à Rua Meira e Sá, vindos de Macaíba, onde o meu pai era Juiz de Direito, quando nos encontramos pela primeira vez e daí caminhamos até sua partida no dia 31 de março de 2019.

       Assim ela se pronunciou num escrito encontrado após o seu encantamento:

Foi no ano de 1948, numa bonita casa (Rua Meira e Sá, 120 – Barro Vermelho), que chegava um caminhão de mudanças para abrigar uma família – do Juiz José Gomes da Costa, casado com Dona Maria Lígia de Miranda Gomes e seus filhos. Não sabia na minha ingenuidade, que aquele caminhão e aquela família chamava-se “Felicidade”.

    Sim, “Felicidade” é o nome perfeito, porque ali, entre aqueles filhos do casal (que também se amava muito) estava o homem da minha vida, o homem que seria futuramente meu Grande Amor.”

Passaram-se anos e sempre um ao lado do outro sem perceber e saber que um pertenceria um ao outro. Enfim um grande amor.

     Hoje, nas águas tranquilas de Cotovelo, lembro muito bem o carinho que ela devotava a este recanto do litoral sul, conforme registrou em seu diário:

 

Nossa casa, nosso paraíso COTOVELO

Não sei porquê lá nós somos diferentes.

Parecemos até adolescentes.

Porquê?

Será este mar mexe com a gente?

Este mar tem um feitiço.

Deixa a gente diferente.

Nós cantamos, declamamos e amamos também.

Um amor só da gente

Um amor diferente

Um amor envolvente.

_________

Que alegria quando vejo todos juntos a mim – não é egoísmo, é amor.

A nossa casa na praia é nosso paraíso,

construída com aquele desejo enorme de nos reunir.

Cada tijolo que subia, seu pai sorria de alegria,

por ter realizado o grande sonho. Cotovelo nosso ninho. (1997)

 

       Aqui vivemos com ela o seu último veraneio (janeiro/fevereiro 2019). Voltaríamos para o Carnaval – chegamos a comprar as camisas de 3ª Cotovelada, mas a enfermidade foi rápida demais e nos levou a razão de toda a nossa felicidade. Agora só restam a saudade e o relembrar de dias tão ditosos.

       Um beijo minha querida. Estou aqui em Cotovelo aguardando o nosso reencontro.

segunda-feira, 15 de março de 2021

 



Carta ou missiva?
Sempre me interessei pelo Big Brother. E não me refiro ao livro “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” (“Nineteen Eighty-Four”, 1949), de George Orwell (1903-1950), embora seja fã da obra do escritor indo-britânico. Falo mesmo do BBB (Big Brother Brasil), que, nestes tempos de pandemia, é uma ótima opção para descansarmos da nossa triste realidade. Indico!
Por estes dias, uma das polêmicas do BBB21 foi o vocabulário, digamos difícil, da sister Lumena. Psicóloga de formação, ela nos brindou com coisas como: “ressignificar”, “fenotipicamente triste”, “deslegitimação”, “itinerário” e por aí vai. Muitas “jornadas”. E, embora muitas vezes eu entendesse quase nada, dada a ausência de contexto das palavras na realidade da Casa, eu achava era engraçado.
Foi daí que eu me lembrei do vocabulário dos juristas (ou pretensos juristas, sei lá): um tal “juridiquês”. Na verdade, é natural o direito ter um vocabulário próprio, dito técnico. Isso se dá – e deve ser assim – com qualquer ciência. Na medida certa, ele ajuda a evitar desentendimentos. O problema é o seu uso exagerado ou descontextualizado. Palavras enormes, verborragia ou o uso desmedido de expressões em latim são exemplos disso. Obviamente, fica complicado para os leigos (e aqui me refiro àqueles sem formação jurídica) entender esse palavreado empolado. E é também complicado para nós, supostos juristas. Bom, nada pior que um suposto douto que fala muito e diz nada.
Um dos grandes desafios do jurista contemporâneo (e falo aqui do jurista de verdade) é trabalhar melhor a linguagem. Como disse certa vez, direito e linguagem estão muito mais relacionados do que imaginamos. Esta é o veículo daquele. E se vocabulário jurídico é um campo ideal para desentendimentos, agora acrescento: é também um campo fértil para platitudes.
Mas o que fazer para corrigir ou melhorar isso?
Se eu morasse na França, talvez fizesse uma carta, digamos um apelo desesperado, à famosa Académie Française, aquela fundada pelo Cardeal Richelieu (1582-1642), em 1635, no reinado de Luís XIII (1601-1643), hoje parte do não menos famoso Institut de France (que engloba ainda outras quatro academias de artes e ciências). Entre as funções da Académie Française, essencialmente relacionadas às letras e à cultura, está a de disciplinar o uso da língua francesa. Sua gramática, seu vocabulário e por aí vai. A Académie, por exemplo, publica um dicionário, o “Dictionnaire de l'Académie française”, que já está na nona edição. Pediria uma diretriz, talvez do tipo: “Juristas, falem e escrevam fácil”.
Mas vivo no Brasil, precisamente entre o Rio Grande do Norte e Pernambuco. Não posso apelar para a Academia Brasileira de Letras. Muito menos para as Academias norte-rio-grandense e pernambucana. Acho que elas não teriam nem atribuição nem força para baixar uma ordem de “falar fácil”. Ademais, os nossos supostos juristas são teimosos e tinhosos. Inventariam logo uma “fórmula legal”, obscura por si só, para fugir à “obrigação” de serem claros.
Resta-me advertir por aqui. Não basta vestir um terno para dizer coisas importantes. Não adianta falar difícil se você não sabe dizer o fundamental em português fácil. Soa vazio e até engraçado (num contexto despretensioso como o do BBB). Teremos apenas mais uma daquelas ignorâncias bem-vestidas. Um Conselheiro Acácio do “Primo Basílio” (1878) de Eça de Queiroz (1845-1900). A representação da mediocridade empolada. Seja da psicologia, seja do direito.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
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BIOGRAFIA DE JACOB RABBI

RAÍZES DA CEARÁ-MIRIM ESCONDIDA - CONHEÇA A HISTÓRIA DE JACOB  RABBI 


 Existe uma unanimidade entre os historiadores sobre o caráter violento e desnecessário dos massacres promovidos pelos batavos, e seus aliados janduís, na Capitania do Rio Grande.
A execução dessas matanças foram comandadas, como já foi demonstrado, pelo judeu-alemão Jacob Rabbi, que veio para o Brasil com o conde João Maurício de Nassau, em 1637, originário de Waldeck.

Para Câmara Cascudo, ele era violento e astuto, cruel e sem escrúpulo, saqueador e mandante de assassinatos, é a figura mais sinistra e repelente do domínio holandês no Nordeste brasileiro, denegrida e acusada por todos os historiadores do seu tempo".

Olavo de Medeiros Filho completa o perfil de Jacob Rabbi, afirmando que o judeu-alemão possuía "certa cultura, poliglota (pelo menos falava os idiomas alemão, holandês, português, tupi e taraiui). De sua pena deixou uma crônica famosa, ou relação de viagem contendo preciosas informações sobre a geografia da capitania, bem como sobre a etnografia dos tapuias".

Câmara Cascudo chama a atenção para outro aspecto: "todos os assaltos, saques, tropelias, morticínios dos janduís rendiam gado, roupa, jóias, ao amigo Rabbi". Como resultado, o judeu conseguiu acumular uma pequena fortuna.

Jacob Rabbi permaneceu durante quatro anos vivendo entre os selvagens. Com o passar do tempo, crescia a afinidade entre o europeu e os tapuias, Rabbi foi assimilando os costumes nativos. Passava por um processo de indianização. De fato, na interpretação de Câmara Cascudo, "o sórdido e desconfiado europeu inteligente e branco, que era por dentro um cariri autêntico, desde o temperamento aos costumes diários".

Rabbi vivia com uma nativa, de nome Domingas, num sítio de sua propriedade, chamado "Ceará". Segundo Olavo de Medeiros Filho, "o sítio corresponde atualmente à localização denominada Araça, ribeira do Ceará-Mirim entre Massagana e Estivas.

No massacre de Uruaçu, foi morto João Lostau Navarro, sogro de Gardtzman que, revoltado, decidiu se vingar, afirmando "que o mundo nada perderia se desembaraçassem de semelhante canalha". Chegou, inclusive, a entrar em contato com dois homens para que matassem Jacob Rabbi. Primeiro foi com Wilhelm Jansen, que colocou uma série de dificuldades. A outra pessoa foi Roeloff Baron, que concordou em realizar a sinistra missão, caso recebesse ordens do Alto Conselho Secreto. Nesses contatos, portanto, Gardtzman não conseguiu efetivar seu intento. Mas não desistiu de eliminar Rabbi.

Mais adiante, convidou o seu desafeto para uma reunião, com a finalidade de promover um entendimento e esquecer as mágoas passadas. O judeu-alemão aceitou, finalmente, participar de uma ceia que aconteceria na casa de Dirk Mulden Van Mel, a qual, segundo Câmara Cascudo, estava localizada nas proximidades de Refoles. Olavo Medeiros afirma que a casa de Muller "fica à margem direita do então chamado riacho Guajaí (água dos caranguejos), entre os distritos de Igapó e Santo Antônio do Potengi. Dista cerca de 10,5 km da matriz".
Ainda participaram desse encontro outros militares: Wilhelm Becke, Roulox Baro, Jacob de Bolan, Denys Baltesen, Johannes Hoeck, Wilhelm Tenberghe etc.

Após a realização da conferência ente os dois desafetos, Gardtzman saiu primeiro. Pouco depois é que Rabbi saiu. E não demorou muito tempo para que se ouvissem dois disparos de fuzil. Caía, mortalmente ferido, Jacob Rabbi. A vítima recebeu, além dos tiros, golpes de sabre que deformaram partes do cadáver.

Ficou provado, mais, uma vez, que a violência provoca violência, Jacob Rabbi, que praticou assaltos e crimes, sendo um dos responsáveis, pelos massacres de Cunhaú e Uruaçu, morreu como conseqüência do ódio, tendo seu corpo deformado por golpes de sabre. Olavo Medeiros descreve a situação em que o corpo foi encontrado: "Um dos tiros penetra-lhe do lado esquerdo do corpo, fazendo-lhe um ferimento muito profundo, em que Muller pudera introduzir até o fim dos seus dedos. A outra bala varara-lhe o lado direito das costelas falsas. Seis golpes de armas branca haviam-lhe deformado o rosto, a cabeça e o braço direito. Um dos olhos do cadáver estava aberto; as suas algibeiras achavam-se voltadas e esvaziadas. Faltava-lhe um anel de ouro, que ainda trazia no dedo quando se retirara da casa de Muller". O crime ocorreu na noite de 4 de abril de 1646.

Jacob Rabbi foi sepultado no lugar onde morreu. Gardtzman, ao ser informado do crime, cinicamente disse:
- "Antes ele do que eu".

Apesar de ter negado se o mandante do crime, ficou provado que houve um acordo entre Gardtzman e Bolan para matar e depois roubar os bens de Jacob Rabbi. Domingas foi despojada, totalmente, dos bens de seu companheiro. Os janduís, decepcionados, voltaram para o sertão. Não houve mais morticínio na Capitania do Rio Grande.


FONTE: tribunadonorte.com.br

sexta-feira, 12 de março de 2021

 

 

Minhas Cartas de Cotovelo – verão de 2021-18

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

Ontem tive a oportunidade de participar, com um orgulho sadio, da atividade da Academia Norte-riograndense de Letras com uma live sobre o centenário de nascimento do Professor José Hermógenes, muito bem conduzida pelo acadêmico Ivan Lira de Carvalho, na parte técnica e do Presidente Diogenes da Cunha Lima, na parte institucional.

O programa retratou, com exatidão, a vida daquele ilustríssimo acadêmico, com palestra proferida pelo seu sobrinho-neto Xisto Tiago de Medeiros Neto, Procurador do TRT da 21 Região, com as cores exatas daquele intelectual da paz.

Essa iniciativa coloca a nossa ANRL no século XXI, com toda a modernidade dos dias atuais, aguçada pela crise da pandemia, que confina as pessoas em suas casas e induz a uma postura meditativa dos acontecimentos e das atitudes.

Hoje, recebo do meu filho Carlos Rosso a transcrição de um artigo do Padre João Medeiros Filho, possivelmente publicado há algum tempo, mas que não conhecia, pois estou residindo em Cotovelo e não tenho os jornais locais. Esse texto, que em seguida reproduzo, representou para mim a confirmação de tudo o que venho ponderando nas redes sociais, na esperança de que os intelectuais assumam uma postura exata de um nacionalismo mínimo, para que saiamos vitoriosos contra o inimigo comum. Eis a mensagem:

Tempos polêmicos e doentios

Padre João Medeiros Filho

O Brasil contamina-se cada vez mais com polêmicas e radicalismos, acarretando desgaste emocional e desperdício de energias nos indivíduos. Desprezam-se oportunidades ricas de diálogos sensatos, capazes de ajudar na solução de vários problemas. A dificuldade em debater, de forma construtiva, tem revelado despreparo com o exercício das responsabilidades civis, profissionais e até religiosas. Isso não é novo. Na época de Jesus Cristo, seus concidadãos viviam psicologicamente armados. A animosidade reinava entre as províncias da Samaria e Judeia (cf. Lc 9, 52-53 e Jo 4, 9). As constantes diatribes com escribas, fariseus, saduceus e outras correntes eram análogas aos atuais embates ideológicos. Os evangelhos contêm várias alusões a esse tipo de comportamento. 

Verifica-se um descompasso entre as possibilidades científicas ou tecnológicas do Brasil contemporâneo e as contradições da sociedade. Esta se enfraquece, ainda mais, com lutas fratricidas, impactando sobre o exercício das diferentes atividades. Disso resulta a fragilização crescente das instituições. Na ausência de equilíbrio ético, psicológico, político e social, falta clareza às pessoas. Assim, prevalecem conveniências e acordos condenáveis, dificultando soluções adequadas. Nesse contexto, a capacidade de diálogo se debilita, travando a percepção da verdade e o exercício da justiça e solidariedade. Discernimento e consenso estão praticamente ausentes da convivência hodierna. O outro passa a ser inimigo, lembrando o pensamento de Sartre: “O inferno são os outros”. 

Atualmente, o país e os cidadãos vêm se nutrindo patologicamente de polêmicas. “Não se informa mais com objetividade e razoabilidade. Decide-se jogar mais lenha na fogueira”, advertiu o Papa Francisco, em uma de suas recentes audiências públicas. Hoje, as pessoas revelam-se incapazes de escutar e aceitar críticas que possam contribuir para a construção de dinâmicas renovadoras dos diferentes contextos. “Foi-se o contraditório, reina o ditatório”, desabafou o jurista Afonso Arinos, da tribuna do Senado, na década de 1970. Desprovidos de humildade, tangidos pela vaidade e empáfia, muitos se arrogam melhores do que realmente são.  

Nos dias atuais, julga-se açodadamente. Há pressa na emissão de juízos. Desconsideram-se as ponderações necessárias para interpretar adequadamente falas e fatos. Geralmente, não se analisa o porquê das coisas. As sentenças são quase imediatas, impulsionadas por ódio, preconceitos ou interesses duvidosos. Por isso, opiniões e pareceres distanciam-se da realidade e prejudicam inúmeros processos importantes. Daí, surgem obscurantismos e polarizações. Deste modo, as instituições vão definhando. E, consequentemente, os acontecimentos são banalizados na velocidade da mídia, sem análise responsável dos conteúdos e seus alcances. Valoriza-se mais o frenesi abusivo e alienante das redes sociais, ameaçando a saúde mental dos indivíduos e da nação.

Entre as consequências desse cenário estão a ausência de habilidade para se relacionar e a crescente violência. O lar está deixando de ser local de diálogo, tornando-se reduto de conflitos. “Muitas famílias reduzem-se a meros pensionatos”, como afirmava Dom Nivaldo Monte. Isso concorre para o adoecimento do país, somado à pandemia, que também se tornou escudo ou álibi para inépcia, ausência de honestidade e seriedade em muitos. Em artigo anterior, afirmamos que as imunizações são urgentes, não apenas para vencer o Sars-CoV-2, mas também para superar outras enfermidades, que podem levar ao colapso nacional, inclusive pessoas capitularem da vida.

A desorientação generalizada é sinal de que a estrutura da nação está abalada. É preciso fortalecer a dinâmica da fé. Jesus tranquilizou o leproso: “A tua fé te salvou” (Lc 17, 19). A recuperação do Brasil clama igualmente por uma solidez espiritual e mística. Diante da crescente morbidade das pessoas e instituições, urge buscar o remédio da espiritualidade. Evidentemente, não se deve abrir mão de outros remédios, mas a verdadeira religiosidade integra a terapêutica capaz de restabelecer a dimensão mais essencial do ser humano. Ela colabora para que o sentido da vida seja percebido. Igrejas e religiões precisam desenvolver dinâmicas e vivências que ajudem o país a recompor sua interioridade, superar situações depauperantes e intransigências que dissipam a paz. Torna-se imprescindível abandonar o hábito de sofismas e disputas cegas ou deletérias. É preciso insistir nas palavras do Mestre à samaritana: “Ah, se conhecesses o dom de Deus!” (Jo 4, 10).

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Nestes tempos em que as pessoas forjam comentários com coloração política disfarçada, vemos um artigo, magistralmente escrito pelo Padre João Medeiros, que preenche, com sabedoria, todos os espaços. Todos leiam e aprendam a se comportar.