terça-feira, 4 de agosto de 2020




Do Éden ao coronavírus
Tomislav R. Femenick – Jornalista

No começo era o nada. Depois fez-se a luz e o universo. E nele, o nosso planeta, o sol, a lua, os cometas e as estrelas. Mas Deus queria mais, criou a terra, a água, o fogo e o vento; criou o dia e a noite. E, para coroar sua criação, criou o homem à sua imagem e semelhança. Mas era insuficiente. Criou a mulher e os colocou para morar no Éden. É pouco: não ter que trabalhar, morar no Paraíso sem ter que pagar IPTU nem taxa de condomínio e, além de tudo, ser casado e não ter sogra. É... o ser humano era o centro de todo o universo; uma espécie de antropocentrismo capenga, uma velada contraposição ao teocentrismo, que sempre põe Deus no lugar supremo. Essa é a história contada por várias religiões, para explicar a criação do cosmos e do ser humano.
O primeiro percalço foi aquele da cobra e da maçã. Pura sacanagem. A cobra levou Eva na conversa e essa sussurrou baixinho no cangote de Adão e deu no que deu: foram defenestrados e o jardim do Éden ficou guardado por querubins, armados com espadas flamejantes.
Mesmo despejado e tendo que trabalhar para ganhar o seu sustento, o homem continuava no centro de tudo, pois a sua casa natural, o planeta Terra, ficava no centro do Universo e em seu entorno giravam todos os outros corpos celestes. Aristóteles e Ptolomeu – o primeiro um dos maiores filósofos, e o segundo o maior astrônomo de então – estavam aí para garantir essa firme posição, o geocentrismo, aceito e sacramentado pela Igreja de Roma.
Estava tudo bem assentado e aceito, até que no século XVI o castelo começou a cair.  Galileu Galilei (um físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano) e Nicolau Copérnico (um cônego da Igreja Católica, astrônomo, matemático, administrador, jurista e médico polonês) desenvolveram, paralelamente, a teoria heliocêntrica, isso é, de que o sol é que era o centro de tudo. O geocentrismo cedia o lugar ao heliocentrismo, agora com resistência da igreja. Todas essas teorias tinham duas coisas em comum: a primeira, explícita, a concepção fechada e finita do Universo; e a segunda, implícita, a relevância do ser humano.
Esse “estado da ciência” permaneceu por um bom tempo, com pequenas diferenças de entendimento, até que estourou a bomba: o sol é apenas uma estrela de quinta categoria, e como a Terra, há outros sete planetas: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno; além de “Plutão que já foi planeta”, mas foi excluído. Quando a humanidade começou a se acostumar com o seu rebaixamento de categoria, outra bomba explodiu: o sistema solar inteiro é apenas um pequeno ponto na periferia da nossa Galáxia, a Via Láctea. O sol é apenas uma das cem bilhões de nebulosas, aglomerados, estrelas, poeira e gás do sistema galáctico.
Eita porrada certeira na moleira do ser criado à imagem e semelhança de Deus; agora reduzido a pó de titica de pulga de barata; a insignificância absoluta. Um detalhe a mais, existem bilhões de galáxias no Universo.  
Depois de humilhado no sentido macro e esmagado pela grandeza do Universo, finito ou não (mas essa é outra conversa), agora a raça humana está sendo desafiada e devorada por um ser minúsculo, pequenininho, invisível a olho nu, o novo coronavírus. Somente microscópios potentes, como o existente no Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), do Rio de Janeiro, mostra, em detalhe, a configuração do vírus e o momento exato em que uma célula é infectada pelo novo coveiro da humanidade. O estrago tem sido feio. Dezenas de milhares de pessoas morrem todos os dias, infectadas pelo “maledetto”, a economia do mundo está em frangalhos, a qualidade e o nível de vida dos mais pobres está em declínio crescente.



Enquanto isso, muitos se julgam infectáveis pelo vírus, igual àquele desembargador lá de São Paulo. O pior é que esses intocáveis colocam em risco a vida das outras pessoas com quem convivem – e até a de quem eles nem conhecem.

domingo, 26 de julho de 2020


A carnaubeira
Tomislav R. Femenick - Jornalista

Em uma das minhas últimas idas ao oeste potiguar, deparei-me com uma visão, para mim, inusitada: na estrada, três caminhões transportavam troncos serrados de carnaubeiras. Até os anos 1960, as várzeas dos rios Açu e Apodi eram naturalmente embelezadas pelas gigantescas carnaubeiras e seu cultivo era uma atividade rendosa. As palhas da planta forneciam o pó valioso que gerava riquezas, que alimentava famílias inteiras e que faziam os proprietários ainda mais orgulhosos daquela beleza rentável. Isso foi durante o ciclo da carnaúba; sua época áurea.
Uma vez “apurado” (processo de separação do pó, que existe nas folhas da árvore), aquele pó se transformava em cera, que era exportada para a Europa e para os Estados Unidos, onde tinha o mais variado uso industrial como matéria-prima básica ou adicionada. No Brasil a cera de carnaúba também era usada em larga escala, inclusive nos discos musicais.
Não era somente a cera que gerava emprego, que tinha utilidade. A palha da carnaubeira servia como matéria prima em profissão artesanal das mais curiosas. Dela se ocupavam famílias inteiras no fabrico de esteiras, chapéus, bolsas, sacolas (urus), peneiras (urupemas) e vassouras. Nas fazendas era utilizada no aparelhamento de cangalhas e em coberturas de residências; nas salinas, na construção de baldes de solidificação do sal. Na época em que os carnaubais perdiam parte da sua beleza com a corte de palhas, ganhavam os proprietários com a venda dos produtos. Era a riqueza em marcha.
A percentagem do lucro nessas transações era alta, o que fazia crescer o interesse pelos carnaubais. Todos ganhavam: os proprietários, os trabalhadores, os agentes compradores, as firmas exportadoras e o governo, este com os impostos.
Acontece que muitos fatores conspiraram contra essa riqueza natural. Os imensos carnaubais do Rio Grande do Norte, antes elementos de beleza telúrica e produtores de riquezas, tiveram seus dias contados, como fatores econômicos. Suas palhas, seu pó, já não mais têm a procura de antes. A ciência descobriu produtos sintéticos que tomaram seu lugar. Já não mais se vê o trabalho exaustivo de homens a cortar e juntar a palha rica, a apurar o pó gerador de riquezas. Famílias já não mais se ocupam do artesanato da tecelagem de palhas.
As despesas com o corte dos carnaubais e cozimento do pó aumentaram em escala nunca esperada. Os mercados interno e externo diminuíram o consumo. A oferta de cera excedeu a procura, e as vendas dos produtos de artesanatos estavam longe de cobrir as despesas básicas de todo o processo produtivo.
Dos carnaubais saía apenas uma pequena percentagem de palha e cera. Uma tênue lembrança daquilo que foi uma atividade altamente lucrativa. Foi preciso parar para evitar prejuízos maiores. Foi o início do fim da economia da cera de carnaúba.
Diante destes fatores adversos, os produtores de cera foram perdendo interesse e, pouco a pouco, os imensos carnaubais ficaram esquecidos e isolados em sua solidão. Continuam apenas como beleza nativa.
No Rio Grande do Norte, especialmente, a atividade carnaubeira enquadrou-se no quadro de ocupações deficitárias. As despesas crescentes e a pouca comercialização do produto deixavam ocioso por muito tempo o capital empregado. Além do mais, com a demora de comercialização, a cera perdia peso, aumentando o prejuízo.
O resultado foi o abandono dos carnaubais, que estão condenados à extinção, quando muitos proprietários já iniciaram sua derrubada e a consequente “operação arranca do toco”, a fim de desocupar as terras para outros cultivos.
 Hoje a carnaubeira é simples madeira para construção; como vi naquela carga dos três caminhões.
Tribuna do Norte. Natal, 26 jul. 2020.

terça-feira, 21 de julho de 2020

UMA ALEGRE LEMBRANÇA

                     Outra vez invoco a memória e na contagem de uma existência que hoje completaria 84 anos, a minha saudosa e eterna namorada THEREZINHA ROSSO GOMES, sai com a vitória.
            Sua vida só conheceu a bondade, a tolerância, a conciliação, a caridade e o amor para comigo, filhos, netos, familiares e a grande quantidade de amigos e amigas que ainda hoje reclamam a sua presença.
            No início foi um martírio. Hoje, porém, com a fé que tenho na espiritualidade, estou consciente da beleza de uma vida que só nos traz alegria.
            O que querer mais - a lembrança perene dessa criatura que se tornou imortal pelas suas ações é suficiente para ser homenageada no dia do seu aniversário.


            Um grande beijo, amor da minha vida, do seu preto Carlos Gomes

sexta-feira, 17 de julho de 2020



CINE-TEATRO INDEPENDÊNCIA

Valério Mesquita*
mesquita.valerio@gmail.com

Há mais de sessenta anos passados, surgiu o Cine-Teatro Independência em Macaíba, situado à rua Dr. Pedro Velho. Sua fachada era típica dos cinemas interioranos. Uma bilheteria, uma entrada central para os assistentes rotulados de primeira classe, e um portão de ferro lateral para os frequentadores da segunda classe, que sentavam em bancos, sem encosto, perto da tela cujo ingresso custava quinhentos reis. Era o local da plebe rude, de onde explodiam peidos e bufas monumentais.

A exibição quase sempre era interrompida para uma fiscalização sanitária. Às vezes, um líquido quente e mal cheiroso descia pelo declive do chão para regar os pés de algum desprevenido, aqui e acolá. Palavrões e ameaças competiam com o roteiro do filme, ao vivo. A sessão única começava às 20 horas. Antes, um alto-falante fincado na janela externa superior do prédio desfilava samba-canções e boleros de Nelson Gonçalves, Dalva de Oliveira, Chico Alves, Linda e Durcinha Batista, chamando os aficionados da chamada sétima arte.

Lembro-me que, certa vez, a imensa boca de som quadrada, de madeira, despencou lá de cima, caindo na cabeça de “Abafado”, apelido de um funcionário do cinema que mostrou, com o acidente, a sua predestinação física. Antes do filme, era comum o fervilhar na calçada de vendedores de pitomba, rolete de cana, laranja e os famosos confeiteiros: drops, buzy, cigarros e chicletes que terminavam grudados na cabeça dos meninos. De repente, oito da noite. As luzes do salão se apagam. Três batidas sonorizadas e compassadas, acompanhadas de gritos histéricos da platéia, indicavam o início da sessão. Vem, primeiramente, o chamado “complemento” ou um desenho animado. Era o “jornal movietone” com notícias estrangeiras, principalmente dos Estados Unidos, narradas em português, focalizando a guerra na Coréia ou atrocidades do nazismo. Com o tempo veio o canal de notícias brasileiro que sempre terminava mostrando um clássico do campeonato carioca. Os assobios se intensificavam com a exibição exaustiva de propagandas de outros filmes. Aí uma voz anônima e entendida surgia do fundo do cinema: “O filme vai ser curto”, “Vi-se”, “Roubaram a fita!”. Após o filme, começa a série e, mais um capítulo eletrizante para a sofreguidão dos admiradores. 

Da minha infância esse foi um mundo mágico, encantado, desaparecido. Relembro tudo e todos. O velho prédio, que depois ainda nele funcionou o Cine Universal, foi se desfigurando aos poucos: supermercado, loja de automóvel, Igreja Deus É Amor, etc. Daquele tempo mítico, restou Manoel Corcino, seu antigo proprietário que quando passa na rua, tal como a canção de Noel Rosa, faz “reclame” do saudoso cine.


* escritor

quarta-feira, 15 de julho de 2020




AS PANDEMIAS E O TEMPO

      No correr dos anos, surgem pandemias que afligem todo o universo. Isso acontece desde as pragas do Egito
      Atualmente registram-se a gripe espanhola, a vaca louca, o h1n1 e outras e agora o Covid 19, que vem dizimando pessoas em quantidade recorde.
       Em cada período de tais acontecimentos é orientado que as pessoas se confinem para não expandir o mal. Contudo, sem a compreensão de que isso é fundamental para a não proliferação do vírus ou bactéria, provocando mortes inusitadas.
      Lamentavelmente, é preciso que haja algum problema maléfico de ordem de saúde pública, quanto nos instante de guerras, para aguçar a inteligência das autoridades e dos pesquisadores para a evolução de uma vacina que solucione e supere todos esses tormentos, procedimento que já deveria existir com a suprimento dos recursos necessários e suficientes para a saúde pública, capacitando-a a suportar tais tempestades do mal.
      Para a nossa tristeza, nesses momentos trágicos, concomitantemente surge a bandidagem, corrompendo os dirigentes com desvios deletérios sem que haja uma punição capital para esses lesa pátrias.
      Chegamos a concluir, que enquanto as pandemias que afetam a saúde são periódicas, a pandemia do mal é ininterrupta, fortalecendo a bandidagem e aumentando os atos criminosos em todos os sentidos, com mortes através de assaltos, violência policial, formação de quadrilhas e deterioração dos políticos, que aproveitam a crise para exercer uma oposição destruidora, sem pensar no sofrimento do povo, mas com direcionamento do mal para os que governam.
      Os exemplos são muitos, mas adianto apenas um, atual, que nos atinge no RN - é o trabalho subalterno para não aprovação da reforma previdenciária, que tem prazo certo para acontecer, sob pena de não serem possíveis as transferências voluntárias da União, qualidade de recurso que permite a realização dos grandes projetos.
      É preciso que cada um assuma a responsabilidade, sem prejuízo que ao longo do tempo sejam corrigidos os equívocos para aperfeiçoar o sistema.
      O voto cego para torpedear uma obrigação legal é agir contra o povo. E as eleições estão chegando!!!!!!!




América Futebol Clube

105 anos de glória

O América Futebol Clube do Rio Grande do Norte, carinhosamente chamado de "Mecão" completou neste dia 14 de julho 100 anos de existência.
Anotações do torcedor americano e escritor Carlos Roberto de Miranda Gomes
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ALGUMAS CONQUISTAS ESPORTIVAS:
1.  O alvi-rubro começou glorioso, como primeiro campeão oficial da Liga de Desportos Terrestres da cidade, fundada, também, em 1918, sendo o campeonato realizado em 1919. Nesse intervalo de tempo (1919 a 1927), o América ganhou todos os títulos disputados, exceto no ano de 1925, que foi ganho pelo Alecrim Futebol Clube.

Oscar, Aguinaldo, Abel, Benfica, Canela, Lopes, Ricardo, Aminadabe, Arnaldo, Arary e Chiquinho
2. Ganhou o campeonato de 1922 na disputa da Taça em homenagem ao centenário da Independência do Brasil. Na final, João Maria Furtado, conhecido como "De Maria" fez o único gol da partida frente aos eternos rivais dos americanos, o ABC Futebol Clube.

Não poderia deixar de registrar um fato particular da minha família: O desportista José Gomes da Costa, peladeiro no Colégio Marista e nas ruas, quando estudante na Faculdade de Direito do Recife jogou no time do Náutico, depois jogou no America, ao lado de Nilo Murtinho Braga, mais tarde grande jogador do Botafogo carioca e da seleção brasileira, integrou essa equipe de 1922 ao lado de Nilo, Oscar Siqueira, Chiquinho, João Maria Furtado, Benfica, Canela de Ferro, João Ricardo, Américo, Ararí, Aguinaldo e Cazuza, conforme se vê em foto daquele tempo, em uma das partidas, verdadeira relíquia histórica. Quando deixou o futebol foi presidente do seu clube do coração e responsável, junto a outros membros da diretoria, pela aquisição do terreno onde foram erguidas as duas sedes, da Rua Maxaranguape e da Av. Rodrigues Alves.
3.  Sagrou-se VENCEDOR, em 1974, do primeiro campeonato estadual de futebol realizado pela Federação Norte-Rio-Grandense de Desportos.
4. Campeão do Centenário da República, em 1989. Essa vitória também levou à conquista do seu segundo tricampeonato (Machadão), com a equipe formada por César, Baéca (ou Lima), Medeiros, De Leon e Soares, Indio, Baíca e Demair (Fábio), Lico, Casquinha (Edson) e Edmilson. Técnico Ferdinando Teixeira. Outros jogadores que ajudaram em outras partidas: Eugênio, Baltazar, Edson, Alfinete, Lauro, Marcelo José, Nunes, Guetener e Almir.
5. Campeão  da Copa do Nordeste de 1998, derrotando o Vitória na final por 3 a 1, gols de Kobayashi, Biro Biro e Carioca.
6.  AMÉRICA FUTEBOL CLUBE CAMPEÃO DO CENTENÁRIO DE FUNDAÇÃO.

Infelizmente, em sua comemoração, um torcedor foi assassinado, mostrando que embora a pandemia do corona-vírus esteja em declínio, a pandemia da maldade ainda continua em alta, indicando que algumas pessoas ainda não compreenderam o sentido da vida e de respeito aos mandamentos de Deus.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

MEUS DOIS AMIGOS POETAS:


O VINHO
                                            Francisco de Assis Câmara

                                    Uma taça, apenas ─ solidão!
                                    Um prazer insulado, intimista;
                                    Autorretrato de um saudoso artista
                                    Em pleno despertar da criação.

                                    Duas taças transformam o cenário
                                    Na presença do amor e da amizade;
                                    Nesses momentos de felicidade
                                    Voa, sem asas, o imaginário.

                                    Gosto, perfume, tato e visão,
                                    Ao tilintar das taças ─ audição,
                                    O vinho toma forma de poesia.
                                   
                                    Ah!  O vinho!... Sabor de emoções,
                                    É liturgia nas celebrações,
                                    Em fraternos instantes de harmonia.

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Deusa da Feitiçaria, venenos e transformação
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/d/d9/Circe_Offering_the_Cup_to_Odysseus.jpg/280px-Circe_Offering_the_Cup_to_Odysseus.jpg

CIRCE

Na Lua Nova
irei visitá-la

Nada terei de provar
irei para vê-la
e cumprir ordem de meu coração

Dê-me vinho
e seus melhores encantos
mas não esqueça:
não quero ser imortal
quero a minha liberdade


- Horácio Paiva

sábado, 11 de julho de 2020

Espiritualidade e harmonia
Padre João Medeiros Filho
Nestes últimos meses, o Brasil se voltou intensamente para a questão da saúde. Esta se alicerça em vários pilares: biológico, econômico, social, psicológico, afetivo, religioso etc. Apesar de fisicamente saudáveis, muitos vivem espiritualmente doentes. Há uma polarização e ideologização da pandemia em torno do binômio economia e vida, como se a realização ou a felicidade humana se resumisse nisso. A unidade da pessoa fundamenta-se na íntima comunhão de corpo e espírito. Daí, todas as abordagens do ser humano (inclusive a espiritual) são interdependentes. Do equilíbrio delas dependem qualidade e estilos de vida, relacionamentos e atitudes diante dos desafios. Deus deseja o bem total de seus filhos! Assim sendo, a vivência religiosa é indispensável.
O homem vive em relação com o contexto no qual está inserido. Há condicionamentos que o influenciam: transformações culturais, tecnológicas, critérios de discernimento etc. Quando isso não é assimilado com sabedoria, poderá levar ao adoecimento interior, perdendo-se a serenidade e o equilíbrio. Viktor Flankl, observando as atitudes dos prisioneiros no campo de concentração de Auschwitz, percebeu que quase todos ali entravam com as mesmas condições físicas, mas o processo de definhamento era diferente entre eles. Concluiu que dependia da capacidade de dar sentido à própria existência naquela situação.
A experiência pandêmica provocou forte impacto no comportamento da população. O distanciamento ou isolamento social, o uso de máscara (de certa forma, despersonalizando), a inutilidade sentida por alguns de permanecer em casa atingiram várias pessoas. O medo de contágio, o pânico provocado pelos noticiários divulgando estatísticas de mortes e contaminados à espera de um leito hospitalar causaram sérios danos a muitos. O “pacto pela vida” parece ter esquecido as consequências disto. Não incluiu atendimento espiritual e psicológico dos vitimados e suas famílias. Isso leva ao padecimento do espírito. Cristo advertia: “Temei antes aqueles que podem destruir a alma” (Mt 10, 28).
A enfermidade resulta de uma série de fragilidades. Acontece quando não se consegue preservar as colunas do edifício da existência: referências biológicas, afetivas, econômicas e culturais, convicções religiosas, ideais e sonhos. Em virtude da unidade do corpo e da alma, os males sofridos interiormente, quando não tratados, podem se materializar. São as doenças psicossomáticas, decorrentes de desordens emocionais. Um mal-estar dessa ordem gera alterações internas e externas. Nesse ponto, a religião pode exercer um papel importante, ajudando os fiéis a vencer as dificuldades. No entanto, com o fechamento dos templos, parece que a vida espiritual se restringe unicamente ao culto e à liturgia. Famílias e grupos ficaram confinados, sem suporte psíquico-religioso.
Os relatos bíblicos nos iluminam e fortalecem. O Povo de Deus, orientado pelos profetas e patriarcas do Antigo Testamento, enfrentou a fome no deserto e a solidão do desconhecido. Venceu as pragas do Egito, inclusive a dos gafanhotos (que ameaça voltar). Lembraram-se pouco as palavras da Sagrada Escritura: “O Senhor irá à tua frente e estará contigo, Ele não te deixará nem te abandonará” (Dt 31, 😎. Careceu maior entrosamento das autoridades civis e religiosas em função do bem-estar dos fiéis. Um “pacto pela vida” não pode deixar de lado a espiritualidade do ser humano, qualquer que seja a sua crença. Participantes das missas do Mosteiro de Santana lamentaram: “Calaram-se os sinos das igrejas. Silenciaram os toques de esperança e fortaleza, dons divinos, emanados da vida em comunidade pela Eucaristia e Palavra Sagrada”.
Urge ensinar às pessoas a cultivar a capacidade de filtrar o negativo. Jesus, após a Ressureição, aparece aos discípulos, animando-os: “Não tenhais medo” (Mt 14, 27). Aliás, as palavras proferidas pelo anjo a Nossa Senhora – no nascedouro do cristianismo – são de encorajamento e paz: “Não temas, Maria” (Lc 1, 26). Por outro lado, infelizmente depara-se com os necrófilos. Cristo, jamais disse: “Eu sou a morte”. Afirmara: “Vim para que tenham vida, e a tenham em plenitude” (Jo 10, 10). Assim, deve-se crescer na paixão pela beleza da vida. É preciso insistir. A fé ajuda a curar. É terapêutica e confortadora. Por isso, disse o Mestre à mulher sofredora: “Coragem, filha! Tua fé te salvou. E ela ficou curada”! (Mt 9, 22).


O DESENCANTO DE JUDAS
Francisco de Assis Câmara

            “O desencanto tomou conta do meu coração”. Em uma representação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, Estado de Pernambuco, ouvi essa inquietante afirmação, as últimas palavras proferidas por Judas Iscariotes antes de cometer o suicídio.
            Essa frase, por sua intensa dramaticidade, não me saiu da memória. Pesquisei, nos quatro Evangelhos, sua autenticidade. Nenhum deles a registrou. Concluí, então, tratar-se de “licença poética”, caso não tenha sido buscada em um dos muitos Evangelhos apócrifos. Em todo caso, é inegável o mérito do diretor do espetáculo ao vislumbrar o efeito que ela produziria na monumental plateia, presente “ao maior teatro do mundo, a céu aberto”.
            Culpa, remorso e desespero. Nesse episódio histórico, instados a perquirir a causa desse desencanto, vamos identificar a figura de Judas como um dos doze apóstolos de Jesus de Nazaré. Na condição de judeu, acreditava na vinda de um messias, tal como anunciavam as Escrituras.
            A Palestina estava submetida ao jugo romano. Essa dominação, sempre contestada, constituía-se em insuportável violência contra aqueles que se autodenominavam “povo de Deus”. O exemplo de resistência, em passado próximo, dos Irmãos Macabeus, sustentava a possibilidade de uma nova reação, uma insurreição, sob uma firme liderança. Seria esse o papel do messias, ansiosamente esperado?
            O apóstolo Judas Iscariotes alimentava a esperança de um grande movimento de libertação. E Jesus de Nazaré, que fazia milagres, ressuscitava mortos e caminhava sobre as águas parecia incorporar, sem nenhuma dúvida, o perfil desse libertador. Judas estava encantado. Ecce homo! ─ Eis o homem!
            O convívio, porém, trouxe-lhe decepções: gestos de misericórdia, perdão como prática amorosa ─ Atire a primeira pedra..., elevação dos humildes, exaltação da caridade, respeito a todos, sem distinções de etnias, desprezo à hipocrisia,  cumprimento dos deveres de cidadania (─ A César o que é de César). Tudo isso culminou com a surpreendente e desalentadora afirmação (para ele, Judas) do Mestre de Nazaré:  ─ Meu reino não é deste mundo.
            Não! Esse não pode ser o messias, o libertador. A frustração matou a esperança e, em seu lugar, alojou sentimentos inferiores. É preciso fazer alguma coisa. Na sequência, trinta moedas e um beijo. Estava em curso sua predestinação.
            O resultado foi desesperador. Judas não compreendera que o caminho do messias seria percorrido sob o pesado e simbólico fardo de uma cruz, e que sua trajetória, em direção ao Gólgota, seria uma via sagrada. Também não se convencera de que o amor perdoa e salva; basta uma palavra, mesmo não se considerando digno (Domine, non sum dignus). Distanciou-se do grupo e nem pôde observar que Pedro, após a fraqueza da tríplice negação foi perdoado e elevado à condição de “pedra angular” da Igreja; já não presenciou a promessa feita ao “bom ladrão”, cujo arrependimento o levaria ao Paraíso.
            Ignorando que o amor abre os braços, em forma de cruz, e o perdão, sem limites, acolhe o arrependimento, Judas, desesperado, faz seu corpo balançar sob a árvore do destino, pois o desencanto, na tortura do remorso, penetrara em seu coração. Seus ouvidos já não puderam escutar o último perdão:  ─ Pai, perdoa-lhes; não sabem o que fazem.,





As Pequenas Sereias


As Pequenas Sereias é a primeira publicação do Projeto Ninho, uma proposta da Coruja Arquitetura que une decoração, ilustração e uma boa história.

Produzido sob encomenda e tiragem limitada, este livrinho infantil foi especialmente escrito para as irmãs Maria Helena e Maria Fernanda, as duas espertas e pequenas sereias da história.

Juntas, e com a ajuda do cavalo marinho e do vento, elas vão conduzir dois corajosos velejadores até o seu destino, a praia de Muriú.

Texto de Gustavo Sobral e ilustrações de Ariel Guerra.

2020, As Pequenas Sereias. 1ed. Natal, 2020, 24p.     

terça-feira, 30 de junho de 2020


Ainda tem quem leva Marx a sério
Tomislav R. Femenick - Historiador

            No meu tempo de estudante de pós-graduação na FGV e de mestrado na PUC, ambas em São Paulo, o clima entre professores e alunos era grandemente favorável à esquerda. Na FGV tínhamos como professores Bresser Pereira e Eduardo Suplicy; na PUC Paul Singer, Guido Mantega – só para ficar em poucos nomes. Nessa circunstância, o marxismo imperava, embora a maioria dos alunos quisessem aprendê-lo por osmose: andavam com os livros presos no sovaco, apertavam e achavam que assim apenderiam a doutrina socialista. Foi o professor Chico de Oliveira quem me chamou a atenção para esse clima, pois, embora marxista, detestava a mediocridade e, por extensão, a imbecilidade. Chico era estruturalista e do marxismo aceitava apenas aquilo que ele via como factível, sendo o “etapismo” a maior bobagem doutrinária.   
            De maneira geral, a análise do modo de produção tem sido mais uma tomada de posição, um discurso político, filosófico, partidário, ideológico ou dogmático do que propriamente um exame científico de uma realidade histórica, econômica e social. Sabe-se que as hipóteses e teorias das Ciências Sociais têm por base “interpretação da evidência, e a interpretação envolve um julgamento” e que todo “julgamento é marcado pelo preconceito” (ROBINSON, 1979). Talvez essa seja a explicação das muitas teorias que procuram apontar formações socioeconômicas e modos de produção diversos, como sendo os existentes ou predominantes.
Saindo da análise global das posições individuais dos diversos autores, devemos agora abordar a posição particular daqueles que aceitam e defendem, direta ou indiretamente, o “etapismo” ou gradualismo para o desenvolvimento das formações econômicas e sociais de todas as regiões da terra, apegando-se a conceitos da ortodoxia dita marxista, enquanto o próprio Marx afirmava que “acontecimentos notavelmente análogos que, no entanto, acontecem em meios históricos diferentes, conduzem a resultados totalmente distintos. Estudadas separadamente cada uma dessas formas de evolução e, depois, comparadas entre si, pode-se encontrar facilmente a chave do fenômeno, porém nunca se chegará a isso mediante o passaporte universal de uma teoria histórico-filosófica geral, cuja suprema virtude consista em ser supra-histórica” (MARX, 1947).
É certo que, se rastrearmos escritos de marxistas clássicos, encontraremos indicadores do “etapismo”. Engels foi o primeiro a apontar para o gradualismo, sendo seguido por Lenin; enquanto aquele tomou como campo teórico a Europa ocidental, este deu uma amplitude geral ao conceito dos degraus evolutivos. O “etapismo” foi sacramentado como dogma dessa corrente do marxismo por Stalin (STALIN, 1985), quando o dirigente soviético reconheceu como históricos somente “cinco tipos fundamentais de relações de produção: a comuna primitiva, a escravatura, o regime feudal, o regime capitalista e o regime socialista”. Os seguidores do pensamento oficial soviético viram-se, então, imbuídos do propósito de enquadrar o nosso país nesse quadro: foi o estopim da intentona de 1935. Interessante é que poucos autores tenderam a relacionar a formação econômica e social, o modo de produção ou as relações de produção das colônias escravistas da América com “a escravatura”, dita pelo dirigente soviético. Talvez porque Stalin tenha descrito esse regime como apenas a possibilidade de nele aparecerem as trocas entre indivíduos e grupos, a acumulação de riquezas, a acumulação real dos meios de produção e a submissão da maioria pela minoria. No Brasil, nos Estados do sul dos Estados Unidos e nas Antilhas essas não foram apenas possibilidades teóricas, mas sim realidade concreta: escravos produziam para o mercado.
Com a queda do muro de Berlin, em novembro de 1989, e a derrocada da hoje finada União Soviética, em dezembro de 1991, eu achava que teriam sobrevividos somente os saudosistas. Ledo engado, também sobreviveram os tresloucados.
Semana passado recebi um e-mail de alguém que leu o meu livro “Os Escravos: da escravidão antiga à escravidão moderna”. Não sei quem é, vez que o e-mail veio como se enviado por uma repartição pública, mas sei que é de alguém não muito honesto: usa de recursos públicos para suas bravatas e não tem coragem de mostrar a cara. A mensagem era curta e (como não poderia de ser) grossa: “Seu reacionário de merda, logo o Bozo cai e você vai sentir na pele por desrespeitar as ideários (sic) de Marx”. Não entendi nada. Embora tenha votado em Bolsonaro, na maioria das vezes discordo do procedimento dele e, além do mais, apontar os erros do sr. Karl Heinrich Marx é-me garantido pela Constituição.