quinta-feira, 10 de outubro de 2019



REVISITANDO UM MITO

Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com

A simplicidade de Oscar Niemeyer era contagiante. Fez-me pegar a caneta como eu gosto e me habituei e passar a escrever ao sabor da emoção. Ateu, mas tão socialista na oferta como Francisco de Assis. Agnóstico, mas tão sábio quanto Agostinho. Reconhecido mundialmente no traço e no poder do concreto quanto Paulo nas planetárias epistolas: lógico e conciso. Tão comunista quanto cristão na concepção arquitetônica de igrejas e capelas pelo Brasil afora. Humilde, acessível e carismático tanto quanto João Paulo II na arte de conquistar o povo de Deus pelo olhar de plenitude e fragilidade. Niemeyer foi maior que qualquer rei do rock, do rap, dos ricaços de qualquer conglomerado empresarial neste país. Isso tudo porque foi um simples, que viveu, amou, se divertiu e se deu a respeito. Nunca ninguém leu o seu nome envolvido em falcatruas em meio a tantas criações e obras em governos mil.
Limpo e feliz, criativo e dedicado, suavizou o concreto e até a morte, nunca dela falando, mesmo a vida se esvaindo. Inspirou-se no mestre Le Corbusier. Brasília, de parceria com Lúcio Costa, ele foi o cara e o coroa quando expirou aos 104 anos. Postava- se tímido, fumante (vejam só), gostava do romance, mas na arquitetura era instintivo. Falava em Deus, mas não acreditava em religião. Já li esse fato em entrevista que concedeu. Claro que foi maior que sua arte. Falava em céu, firmamento, estrelas, tudo criado pelo Supremo Arquiteto do Universo, enquanto ele era “o maior arquiteto do Brasil e um dos melhores do mundo”. Neste último conceito o seu estilo foi inimitável, único e incomparável.
Oscar Niemeyer possuía o dom de viver, daí a longevidade: sem ostensividade, vaidade ou vã glória. Laureado em todo o mundo, mas avesso às homenagens. Quando se sentiu ameaçado no regime militar autoexilou-se em Paris. Não conspirou, não ameaçou nem foi terrorista. Apenas, confiava no comunismo como na sua arquitetura. Ficará conhecido e perenizado pela arte e não pela crença política. Mesmo assim, dava-se a respeito, mais do que muitos que a professaram. Sua morte foi lamentada em todo mundo. Nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Israel, Espanha entre outros países, ele deixou um legado de obras cativantes, admiradas pela tipicidade e a “curva livre e sensual das suas linhas”.
Mas, a chama inapagável de Niemeyer não se notabilizou tão somente no milagre que esculpiu com a linha reta embelezando as curvas de tantas edificações. Embora centenas, todavia, dezenas de suas criações ao vivo ou a cores pela TV e fotos eu já admirava. Fui, exatamente, me emocionar com a simplicidade cósmica desse personagem. Famoso, rico honestamente – frise-se – no entanto, pacífico, modesto, recatado, ciente de sua transitoriedade. Enfim, um cristão sem reza, oração, igreja ou templo. Um pintor de arcos voltaicos, de auroras boreais, de crepúsculos planaltinos, de galáxias estelares, com um pincel singelo, a pobreza de um proletário, revolucionário, vidente, vermelho mas suave no canto e na voz. Uma personalidade marcante para não ser esquecida que tinha no crayon o sentimento do mundo, apesar da “vida ser um sopro”, como dizia.

(*) Escritor

terça-feira, 8 de outubro de 2019


Santa Dulce dos Pobres
Padre João Medeiros Filho


A notícia de sua canonização divulgada, no dia 01 de julho passado, trouxe alegria aos brasileiros, em especial aos católicos baianos. Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes era o seu nome civil. Nasceu em Salvador, aos 26 de maio de 1914, ali faleceu, em 13 de março de 1992. No entanto, é mais conhecida como Irmã Dulce ou Bem-aventurada Dulce dos Pobres, denominada, também, de forma grata e carinhosa pelos soteropolitanos, “o Anjo bom da Bahia”. Foi beatificada em 2011 e, no próximo dia 13, será canonizada pelo Papa Francisco. Trata-se da primeira brasileira nata (não mártir) a ser declarada santa pelo catolicismo. Sabe-se que entre as vítimas dos massacres de Cunhaú e Uruaçu, havia mulheres. Irmã Dulce era de saúde frágil, sofria de problemas respiratórios e dormia sentada.
O Papa Francisco afirma frequentemente que “a santidade é a face mais bela da Igreja”. O testemunho de vida dos santos é o seu maior patrimônio. Como diz a Carta aos Hebreus, estamos “envolvidos por uma nuvem de testemunhas [exemplos]” (Hb 12,1), servindo de estímulo para trilhar o caminho da justiça e do amor. O processo canônico para a Igreja reconhecer oficialmente a santidade de um cristão consta de três momentos: “Vox Populi, Vox Ecclesiae e Vox Dei” (a voz do povo, a da Igreja e a de Deus). De fato, a santidade é vivida no cotidiano da existência humana, na maioria das vezes, na simplicidade de uma vida de seguimento a Cristo e ao Evangelho (normalmente, de forma discreta e sem notoriedade). O primeiro passo é o reconhecimento de uma vida humana e cristã exemplar, ou seja, a fama de santidade verificada pelo povo (“Vox Populi”). Isto já era corrente, quando Irmã Dulce vivia aqui na terra. Desde jovem, foi movida pela misericórdia e ternura com os pobres e desvalidos. Com o consentimento da família, ainda jovem, foi transformando sua residência num centro de atendimento aos necessitados. Sua casa era conhecida como “a portaria de São Francisco”. Dentre tantas outras iniciativas, destaca-se a fundação, em 1959, das Obras Sociais Irmã Dulce.
A voz do povo, confirmada pelo testemunho de sua vida, é o núcleo da santidade. O reconhecimento da Igreja (“Vox Ecclesiae”) passa pela aceitação de dois milagres (“Vox Dei”) que são atribuídos pela sua intercessão. O ato miraculoso para a canonização de Irmã Dulce aconteceu com José Maurício Bragança Moreira, músico, natural de Salvador. Estava cego de ambos os olhos. Em meio a uma crise inflamatória ocular, tomou a imagem da Beata Dulce e a levou até os olhos, suplicando com muita fé que ela aliviasse o seu sofrimento. Algumas horas depois, voltou a enxergar. Recebera mais do que havia pedido. Rezou apenas pelo alívio das dores. Mas, a generosidade da santa o fez voltar a ver. O milagre atesta a voz de Deus, testemunhando que a santidade é, acima de tudo, fruto da graça divina. É assim que a Igreja proclama solenemente a santidade de um cristão.
No prefácio da missa da festa de um santo, rezam-se estas palavras: “Nos vossos santos ofereceis um exemplo para a nossa vida, a comunhão que nos une, a intercessão que nos ajuda”. São estes elementos fundamentais da presença dos eleitos de Deus em nossa vida de fé. Quando a Igreja eleva aos altares um batizado é para que sirva de testemunho de vida, pois pelo caminho por ele trilhado, deixa sinais, incentivando-nos a buscar também a santidade. Pela canonização, a Igreja manifesta igualmente a comunhão da fé que nos torna uma única família, em Cristo Jesus. Aqueles que aqui peregrinam, estão unidos aos que já vivem na glória da Eternidade e continuarão a fazer o bem, intercedendo por nós, confirmando a comunhão em Cristo, nosso verdadeiro mediador junto do Pai. É importante que nossa devoção a um santo, seja sempre fundamentada no seu testemunho de vida. “A vontade de Deus é que sejais santos” (1Ts 4, 3). Ou ainda, como diz o apóstolo Pedro: “Como aquele que vos chamou, tornai-vos santos, em todo o vosso proceder” (1Pd 1, 15).

sábado, 5 de outubro de 2019

AS FLORES DO JARDIM DE MINHA THEREZA


Neste sábado primaveril estão chegando as flores. Jardim florido e a falta física de THEREZA, mas a presença espiritual da criatura que jamais esqueceremos.
A sua partida, inicialmente, deixou somente saudade e dor, mas agora está nos encantando com a sua paz através da lembrança de todos, com carinho e amor. Claro, também com saudade.
A cada dia que passa sentimos o valor daquela extraordinária criatura de Deus, esposa sem defeito e mãe inigualável.
No meu atelier continuo, prazerosamente, recuperando imagens de Santas e cada uma eu comparo com o retrato dela.
Nunca a nossa casa esteve tão cheia - filhos, noras, genro e netos sempre reunidos para desfrutarem o sentir da doce devota da Irmã Dulce.
Cada coisa, enfim, tudo nos traz sua lembrança e o sentimento se saudade se mistura com a paz da união familiar.
Ah! teria sido bom se isso tivesse acontecido sempre! Mas o mundo é misterioso, somente permitindo o alcance dos momentos ideais com a partida de alguém. Por que não com a presença!
Desculpem, nada a reclamar e tudo a agradecer.
Lamentamos a perda de dois moradores do jardim - Aleijadinha de Pombal e o velho "tarado", que já era chamado de castrado. Moram agora no nosso jardim.
Para compensar chegou Mikaela, que ocupa novo espaço na casa.
Os de rua estão sendo alimentados e os pombos continuam esperando por você.
O jasmineiro está cheiroso como nunca.
A piscina está funcionando todos os dias com Guilherme, que me obriga a acompanhá-lo.
Paro por aqui, pois o peito está doendo e as lágrimas atrevidamente estão chegando, como a flores vieram.
AMOR, O TEMPO, A VIUVEZ. OS CORPOS SE SEPARAM OUTRA VEZ,
A LEMBRANÇA, A TRISTEZA, A SAUDADE.
AMOR, REENCONTRO ETERNIDADE.
Beijos do seu "preto".


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

MEMÓRIA VIVA





NOTA SOBRE AS RAÍZES DA POESIA POTIGUAR

                                                           -  Horácio Paiva*  -    

                        O Rio Grande do Norte, apesar de ter seu território, sobretudo seu litoral, conhecido e mapeado pelos europeus (portugueses, espanhóis e franceses) desde o início do ciclo de suas grandes descobertas marítimas e da expansão de sua colonização, no século XVI, somente veio a intensificar-se como polo social e cultural autônomo a partir de meados do século XIX (quando deixou a dependência econômica e política de Pernambuco), não obstante bem antes ter sido demarcado como Capitania Hereditária (na colonização portuguesa) e, depois, Província. Com o advento da república (1889), tornou-se Estado. Antes disso, todo o Nordeste oriental brasileiro (Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Leste do Ceará) tinha, como centro político e civilizatório, Pernambuco. Aliás, Recife, capital de Pernambuco, fora a capital do Brasil holandês.

                        É inegável a grande influência da lírica portuguesa (diria mesmo galego-portuguesa) no surgimento e desenvolvimento da poesia no Brasil literário e, notadamente, no Nordeste, principal herdeiro dessa notável vertente, que também se expressou e ainda se reproduz na oralidade dos “cantadores de viola” (verdadeiros aedos que no passado saíam, de cidade em cidade, a cantar seus romances) e no cordel, cujos folhetos traduzem não apenas o lirismo da alma popular, mas todo um conhecimento que remonta à Idade Média e à Antiguidade. Aí temos romances de amor, cavalaria, heroísmo e mitologia. Cordéis belíssimos tais como “A história do pavão misterioso”, “A verdadeira história do herói João de Calais”, “Carlos Magno e os Doze Pares de França”, dentre muitos outros, são verdadeiras obras-primas desse acervo maravilhoso que formou a alma lírica do Nordeste.

                        Nesse contexto, podemos dizer que um dos primeiros destaques da poesia potiguar foi Fabião das Queimadas (Fabião Hermenegildo Ferreira da Rocha - 1848-1928), “um escravo que cantava acompanhando-se de uma rabequinha” (no dizer de um amigo meu, o escritor Tarcísio Gurgel) e autor do “Romance do boi de mão de pau”, com 48 estrofes. Mas nosso primeiro bardo de renome, contemporâneo de Nísia Floresta, também poeta, foi, sem dúvidas, o natalense e árcade romântico Lourival Açucena (Joaquim Eduvirges de Mello Açucena  -  1827-1907), cujos poemas foram reunidos após sua morte e publicados pelos amigos sob o título de homenagem “Polianteia”.  

                        Assim, estão muito presentes em nossas origens, tanto em forma como em conteúdo, a sensibilidade galego-portuguesa de suas cantigas e a doçura de sua poesia. Tal estilo, combinando simplicidade, leveza e sonoridade, elementos tão caros à nossa tradição poética, insere-se nessa grande vertente lírica galego-portuguesa, que já fizera desse idioma, na Idade Média, o idioma culto da Península Ibérica, no qual se expressavam seus trovadores, e que influenciou e produziu, em tempos próximos e atuais, poetas de alta qualidade.

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(*) Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019


BARRO VERMELHO
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes, morador
         A formação dos bairros fora do perímetro mais importante da cidade de Natal – Rocas, Ribeira, Cidade Alta, Petrópolis, Tirol e Alecrim, que concentravam os segmentos das atividades produtivas como comércio, navegação (a Igreja de São Pedro, em construção em 1919 ergueu uma torre alta para orientar os barcos), a pesca e serviços essenciais, decorreram de circunstâncias naturais.
         O bairro do BARRO VERMELHO (e não bairro Vermelho) teve essa denominação decorrente da coloração do seu solo (areia vermelha), e já era conhecido desde os primeiros tempos da fundação da cidade em 1599 quando os enviados de Dom Felipe II, Rei da Espanha procuravam um local adequado para iniciar a povoação. Isso se conhece pelos documentos históricos encontrados em fins do Século XVIII nos registros de doações de terras em 1787 e 1816. No entanto, o despertar de suas terras ocorreu por ser um lugar fora da área de comércio, se prestando para local de lazer, recomendado pelos médicos para melhoria da saúde, em razão de sua altitude, ventilação abundante, arborização preservada e visual exuberante das cercanias, particularmente do Rio Grande (Potengi), próximo do centro da cidade e por isso bastante procurado para formação de sítios, casas de repouso e de veraneio.
         Uma das motivações mais evidentes era de ser perto do Baldo, onde existia desde1905 uma fonte de água que servia de balneário e sanitário público, ponto de encontro dos seresteiros.
         A propósito, afirma CASCUDO, “Os melhores violões, as mais lindas vozes femininas e masculinas, as mais modernas saias balão, mangas presuntos inauguram-se no Barro Vermelho, nos São João famosos, com fogueiras e adivinhações”.
         Oficialmente se fez bairro pela Lei nº 4.327, de 05 de abril de 1993, publicada no Diário Oficial do Estado de 07 de setembro de 1994. Apesar disso, muitos imóveis são identificados como pertencentes ao Alecrim, Lagoa Seca e Tirol.
         Alguns acontecimentos marcaram a atenção para o bairro: em 1838 deu-se o assassinato do Presidente de Província “Parrudo” (Dr. Manoel Ribeiro da Silva Lisboa), no sítio Passagem; em 1868 foi realizada uma apresentação de teatro livre com a peça “Os Salteadores do Monte Negro”; vacarias, com leite cru, festas nos sítios dos seus mais vetustos moradores – Antonio Melo, Joaquim das Virgens, Desembargador Silvino Bezerra; Coronel João Gomes da Costa; família Pacífico de Medeiros, residência do Senhor João Café, pai do Presidente da República João Café Filho; residência da poetisa Palmyra Wanderley, que costumeiramente hospedava Alta de Souza; pic niks na Lagoa de Manuel Felipe; aqui moraram personalidades da vida social como Paulo Maux o Rei Momo, empresários, juízes, desembargadores, médicos, arquitetos, engenheiros, professores, escritores, cantores (Giliard e Pedrinho Mendes), poetas, grandes comerciantes, industriais, construtores e políticos como os Senadores Jessé Freire e Carlos Alberto.
         Eu tive a sorte de conhecer parte desses encantos e convivi com descendentes de todas essas famílias, inclusive sendo pertencente a uma delas.      Fui da primeira turma do Instituto Batista de Natal, nesta mesma rua; participei de muitas festas de São João; testemunhei quando aqui chegou o calçamento e a união da Rua Meira e Sá com a Alexandrino de Alencar com a retirada de pequena mata na rua Jaguarari.
         Assisti as missas dominicais na Igreja de São Pedro; compareci às festividades do Colégio das Neves; assisti muitos filmes, no Salão Paroquial da Igreja de São Pedro, depois Teatro Jesiel Figueiredo e Cine Olde.
         Agora, com a chegada do Padre Mota, começa a ressurgir a tradição no Barro Vermelho e adjacências, trazendo alegria, fé e confraternização a este bairro tão querido, ordeiro e trabalhador, que possui instituições importantes como a Casa de Apoio à Criança com câncer Durval Paiva, clínicas, padarias, farmácias, docerias e escritórios profissionais.
         Preservemos com carinho essa dádiva de Deus, na esperança da construção da nossa primeira Igreja de Nossa Senhora da Salette.
OBRIGADO.
Pronunciamento feito em 22/09/2019, após a missa de encerramento da festa em homenagem a Nossa Senhora da Salette.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

DUELO DE TITÃS

Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com

E lá se foi o tempo que uma dupla de área dominava a rua da Cruz e as Cinco Bocas em Macaíba, com os seus porres homéricos e hilários. Neto Soares era comerciante, pioneiro do setor de eletrodomésticos da cidade e foi um fiel curtidor dos whiskys Bradford, Drurys e Royal Label. A bebida subia-lhe a cabeça e triste de quem fosse lhe aporrinhar. Era tolerância zero. Bom orador, as suas afobações etílicas fechavam a rua Francisco da Cruz.
Vizinho, outra figura boêmia revelava-se: João Pampa (João de Casto Gomes), era funcionário público e comerciante, falava alto e discutia sobre tudo. Nessa época (anos oitenta), Macaíba pertencia mais aos seus filhos, tinha identidade própria e se divertia com as brincadeiras, os folguedos e até os excessos dos seus habitantes. Neto Soares e João Pampa foram expressões de uma época de lirismo em que as pessoas divergiam sem odiar, com a vida correndo mansa, embalada pelas canções de Nelson Gonçalves e Roberto Carlos.
Quando os dois entravam em “curto-circuito” a rua tremia. E logo vinha a mente a cena do filme de faroeste “Duelo ao Pôr do Sol”. Imaginava-se os dois, no meio da rua, vestidos à cowboy e alguém contando até dez para saber quem sacaria primeiro. Mas tudo era só invenção. Só barulho, papo furado, para no dia seguinte a cidade ter o que falar de forma divertida.
As histórias que protagonizaram ainda permanecem vivas na memória de muita gente. Relembrando os dois, hoje, homenageando uma época, uma fase da vida social de Macaíba e, por extensão, outros tantos que encararam o lado sério da vida com dissipações e travessuras para ratificar o ditado de que nem só de sisudez e recato vive o homem. Mas tudo passou.
Foram cidadãos voltados  para suas atividades profissionais. Quem passa na rua hoje não há quem não se recorde daqueles tempos dos porres, dos berros e da agitação que promoviam. As paredes das casas e o calçamento estão impregnados dos seus passos. O vento carpidor que vem do rio Jundiaí ainda ecoa as bravatas de Pampa e Neto. Quando visito Macaíba e a casa dos meus pais, hoje Casa da Cultura Popular Nair de Andrade Mesquita, olho para a residência de João, quatro casas à direita e a de Neto, vizinho de frente, ainda sentindo arrepios imaginando, de repente, aquela cena de filme – mesmo sem estarem mais conosco nessa vida – mas só para reviver o tempo e manter a escrita de que os dois fechavam mesmo, no passado, a rua Francisco da Cruz.

(*) Escritor.



OUTRA VISÃO DE TAIPU
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes, sócio do IHGRN

                Compulsando a recente publicação da Revista nº 98 (julho de 2019), do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, deparei-me com dois arquivos que se entrelaçam na história de dois municípios da nossa zona da mata – Taipu e João Câmara (Baixa Verde).
        Sem renegar as informações dos seus autores, respectivamente João Batista dos Santos e Aldo Torquato, senão o meu desconhecimento da inimizade entre João Câmara e o Desembargador João Maria, decidi complementar alguma coisa dos textos, pelo fato das minhas raízes com o lugar Pitombeira, então do meu avô, Coronel João Gomes da Costa, terra onde nasceu meu pai, Desembargador José Gomes da Costa.
        O nome Taipu, segundo alguns historiadores, vem da linguagem dos índios potiguares (primitivos habitantes): Itaipi (era um aldeamento indígena), consoante citação do padre Manuel de Morais, apud CASCUDO, localizada a sete milhas ao oeste do Rio Grande do Norte. Mas poderia ser, também, de Itaipu, que significa pedra preta, tipo de solo arenoso existente naquela região, de tabuleiro com partículas silicosas, pedras e minérios, nas terras do Tapuio.
        Noticia-se que em 1645, durante o domínio holandês já se convivia com aldeias indígenas chefiadas por Antônio Papapeba.
        Ainda invocando o Mestre CASCUDO, ali existia em 1709 um poço de Manoel Rodrigues Coelho, nas terras da Fazenda Tabuleiro do Barreto, de propriedade de Antônio Alves da Rocha, que chegou a possuir olarias. Mas igualmente possuía massapé, nos vales úmidos, com húmus de arisco que se prestava a cultivo de cereais – mandioca, fruticultura, sem desprezar a criação de gado. Também solo
        O nome inicial da povoação, já em fase de colonização era conhecido como “Picada”, abertura onde começa o sertão até o Mato Grande (zona da mata). O início do seu desenvolvimento aconteceu no século XIX, com a participação dos fundadores do povoado Jorge Pegado Galvão, Marcos Pereira dos Santos, Bernardo Gadelha, André Soares da Silva e Joaquim José da Costa, alcançando as cercanias das povoações Barreto, Poço Branco, Gameleira, Contados, Boa Vista e Pitombeira, chegando a alcançar terras das localidades Ceará-Mirim, Extremoz, Genipabu, Muriú e Taipu.
        Depós, são registrados alguns beneficiamentos: em 1851 foi concluída uma capela em louvor a Nossa Senhora do Livramento, após trinta anos de labuta, sendo anualmente comemorada desde novembro de 1913; em 1864 criou-se uma escola; em 28 de junho de 1889 o distrito de Picada mudou seu nome para Taipu, ganhando Delegacia de Polícia e sendo desmembrada de Touros para Ceará-Mirim.  Em 10 de março de 1891 a Vila foi desmembrada de Ceará-Mirim pelo Decreto nº 97 do então Governador provisório Francisco Amintas da Costa Barros, sendo seu primeiro intendente o Capitão Candido Marcolino Monteiro. Fez-se Freguesia em 18 de abril de 1913 e Comarca em 16 de janeiro de 1960.
        Contudo, o seu desenvolvimento efetivo só aconteceu no final do século XIX, mas sobretudo no começo do século XX, com atividade econômica sustentável na avicultura, agricultura, pecuária e exploração de pedreiras. A Vila tornou-se cidade (Município) em 29 de março de 1938, quando era prefeito Rosendo Leite da Fonseca.
Estudos mais aprofundados foram desenvolvidos pelos escritores da região, JOSÉ HUMBERTO DA SILVA e TEREZINHA DIAS DA SILVA que escreveram o livro “Genealogia e História de Quatro Famílias Taipuenses”, preservando fidelidade às raízes da Terra Taipu, mostrando a saga dos pioneiros que, pondo de lado as vicissitudes da região, deram seu suor e sangue pela esperança visionária de alcançar prosperidade econômica, política e religiosa, ao mesmo tempo em que lhes prestam um justo tributo. Afinal, quem não cultua o seu passado não encontrará rumo do futuro.
        Taipu fez-se Vila e foi conduzida gozando o respeito do povo e de Deus, gerando uma povoação rica de homens de bem, na concepção preconizada por Mateus, 5. 44 a 48, tanto que doou ao mundo alguns descendentes de Mártires de Cunhaú e Uruaçu.
        No entanto, é mister que se faça justiça a alguns taipuenses que se destacaram pela dedicação de suas famílias, em particular quatro delas, aqui retratadas como as famílias que se seguem, três das quais de um mesmo tronco: Miranda, desenvolvida do nascedouro português de João Gomes Carneiro, que se casou com Ana Ferreira de Miranda e alargou-se com os Rodrigues Santiago (da Silveira), Câmara (Boa e da Silva), Severiano da Câmara,  Azevedo, Peixoto, Torres, Arruda, Soares, Pereira, Paiva, Paula, Amaral Lisboa, Ferreira (da Cruz, de Miranda), Leite da Fonseca, Furtado Menezes e Gomes da Costa; a família Rodrigues Santiago que ampliou sua estirpe com os Gomes da Costa (da Silva), os Praxedes, os Melo, os Rodrigues da Silveira, posteriormente com os Raposo da Câmara, Rabelo Dantas, Alves de Medeiros, Rego, Galvão, Urbano de Araújo, Amaral de Andrade, Leite da Fonseca e outros, partidos dos embriões de Jerônimo Ferreira de Miranda e Felipa Rodrigues da Silveira; segue-se a família do Coronel João Gomes da Costa, da qual sou oriundo, do tronco Manoel Gomes da Costa e Cândida da Costa Gadelha, que se tornou dona dos povoados Gameleira e Pitombeira onde teve feira livre e parada de trem onde se deu o início da bela trajetória de João Severiano da Câmara, casado com Maria (AA), cujo patriarca entrelaçou-se com as irmãs Bernardina e Anna Rodrigues Santiago, construindo uma prole numerosa. Esta última, por sua vez, era viúva de Sérgio Guedes da Fonseca, tendo, ainda, o concurso dos Gomes de Araújo, vindos da Paraíba, os Gomes de Almeida, Borges, Cunha Lima, Nobre da Costa, Ferreira da Costa (da Cruz), Soares da Câmara (da Silva, Severiano, Arruda), Leite da Fonseca, Furtado, Menezes, Rodrigues da Silva; completando o estudo temos a família Ponte ou  Pontes, que tem origem espanhola/portuguesa de Bartolomeu Pontes casado com Margarida Ribeiro, cujas raízes nordestinas (Ceará) surgem de Gonçalo Ferreira de Pontes, casado com Maria de Matos Coutinho, ele filho de Cosme de Freitas Pereira e Joana Barros Rego Coutinho até Alexandre Ferreira de Pontes – o grande patriarca, sendo que o ramo de Taipu surgiu de Manoel Alexandre de Pontes e Francisca Florentino(a) de Pontes, com o entrelaçamento das famílias Vieira, Gomes Costa, Aguiar e Bezerra de Menezes, do Estado do Ceará.
        Com estas poucas linhas não tenho o atrevimento de apresentar nenhuma informação definitiva da terra taipuense, mas apenas apontar uma bibliografia mais consentânea com a realidade, com indicação de autores que efetivamente têm o peso necessário para traçar a história, os costumes e as tradições da terra dos papagaios.


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Obras consultadas:
CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte, Natal e Rio de Janeiro: Ed. FJA e Achiamé, 1984.
_________________ História de Um Homem (João Severiano da Câmara), Natal: DIRN, 1954.
LYRA, Augusto Tavares de. História do Rio Grande do Norte, Brasília: Gráfica do Senado, 2012.
MORAIS, Marcus Cavalcanti de. Terras Potiguares, Natal: Ed. Foco, 2004.
NOBRE, Manuel Ferreira. Breve História Sobre a Província do Rio Grande do Norte. Natal: Sebo Vermelho Edições, 2011 (reprodução da impressão de 1877).
SILVA, José Humberto da. Centenário de Fundação da Paróquia de Taipu – Ação e Fé, Natal, Ed. Do autor, 2013.
_______________ A Vila de Taipu e as famílias Ferreira da Cruz e Boa da Câmara, Natal, Ed. Do autor, 2011.
_______________ em parceria com SILVA, Terezinha Dias da. Genealogia e História de Quatro Famílias Taipuenses, Natal, 2019 (no prelo).


sexta-feira, 13 de setembro de 2019


DA POLÍTICA DO TALIÃO
Valério Mesquita*

01) Mergulho no tempo para resgatar fatos verídicos acontecidos na velha Macaíba dos anos trinta. Era o reinado dos interventores estaduais mentores da política do talião. Anos de chumbo, de prisões arbitrárias e perseguições sem fim. Macaíba vivia o curto-circuito dessa política de alta tensão dos liberais e perrepistas. No governo de Mário Câmara, o comando municipal fora entregue ao intendente Teodorico Freire, filho do chefe político Manoel Maurício Freire (Neco Freire), que mandou absoluto, durante décadas, com o apoio da oligarquia de Pedro Velho de Albuquerque Maranhão. As famílias Mesquita e Andrade, unidas, ficaram na oposição. No início de sua vida pública, Alfredo Mesquita Filho foi vereador em Macaíba. Combatia a interventoria de Mário Câmara e a intendência de Teodorico Freire. Certa vez, Mesquita desrespeitou a “lei da mordaça”, que imperava naquele tempo, e foi preso com mais três correligionários, recolhidos a um cubículo denominado “quarto da bosta”, na cadeia pública da cidade, a mando de Teodorico Freire. A dança dos interventores que se sucediam no governo estadual alternava o comando da situação local. Tanto era assim em Macaíba, como, via de regra, nos outros municípios. Cai Teodorico Freire, sobe Alfredo Mesquita debaixo do mesmo calor emocional das brigas paroquiais. Bastou a repercussão de nova discrepância entre os litigantes para que uma decisão fosse tomada, de caráter imediato e revanchista. Teodorico Freire, com alguns seguidores, foram “engaiolados” no mesmo “quarto da bosta”, onde curtiu as mesmas horas de “odor” do seu adversário.
02) Em Assu, lá pelos anos setenta, Walter Leitão era o prefeito municipal. Na irreverência e na ironia era inexcedível. De uma feita, chegava a sua casa na cidade, quando encontrou um eleitor dormindo na poltrona da sala de visita. Não o despertou. Tomou banho, almoçou e ficou só de cuecas samba-canção. Quando o correligionário acordou e viu o prefeito caminhando pela casa só de ceroula, exclamou: “Mas, seu Walter o senhor tá só de cueca?”. “Claro, é para você entender que a merda dessa casa é minha e não se permitir a fazer certas intimidades”.
03) O prefeito Walter Leitão atendia o povo na rua, em casa, na prefeitura e em qualquer parte. Uma mulher a ele se dirigiu com certa arrogância para lhe reclamar um desconforto: “Prefeito, estou aqui com o pé da barriga doído porque comi macaxeira. O senhor não vai dar um jeito não?”. Walter Leitão, que não suportava malcriação, de bate pronto, respondeu com grossa irreverência: “E eu estou com a macaxeira doida de tanto comer pé de barriga”.

(*) Escritor.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019


H O J E


INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RN IHGRN <ihgrn.comunicacao2017@gmail.com>

C O N V I T E


Caro sócio(a),

Estamos anexando o convite para a palestra desta QUINTA CULTURAL, proferida pelo confrade André Felipe Pignataro Furtado de Mendonça e Menezes, hoje.  dia 12/09/2019, no Salão Nobre do IHGRN.
Contamos com a sua importante participação.

ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO


terça-feira, 10 de setembro de 2019


CHEGUEI CHEGANDO

          Quem diria, apesar dos problemas de saúde, cheguei chegando aos 80 anos de existência neste dia 10 de setembro, que coincide com a data em que teve início o Segundo Conflito Mundial.
       Este dia não será de festas, até porque, sem a presença da minha eterna THEREZINHA, não tenho motivação de comemoração. Contudo é momento de agradecer por vários motivos.

        Primeiro porque nasci de um casal predestinado JOSÉ e MARIA, depois tive uma infância de felicidade, conhecendo o valor da amizade, da ética e da atenção às coisas da natureza e da arte.

         O tempo me trouxe uma companheira que solidificou minha família, dando-me dadivosamente Rosa Ligia, Thereza Raquel, Carlos Rosso e Rocco José, que continuaram florescendo com Lucas, Victor, Raphael, Gabriela, Clara, Carlos Neto e Guilherme.

          Estou cercado de parentes amorosos, ainda contando com o Patriarca Moacyr, Leda, Socorro e Zezinho para compensar as saudades de Fernando e Elza; conto com a minha cunhada Rachele que nos deu uma prole maravilhosa, oriunda do casal Rocco e Rosina e o legado de Arnaldo.

    Agradecer a Deus pela extrema benevolência quando levou a minha THEREZA, poupando-lhe maior sofrimento.

      Tenho bons e fiéis amigos, que preenchem a minha saudade e a minha tristeza do cotidiano.

        Fui tudo aquilo que pensei um dia ser, exerci com dignidade todos os encargos das funções que ocupei. 

          A Bíblia diz que é normal viver até 70 ou 80 anos mas que algumas pessoas vivem mais tempo. Nossas vidas são curtas e passam rápido, em comparação com Deus, que é eterno. Agora espero o momento de prestar contas afirmando que combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé.

          Por derradeiro, registro que o nosso jardim trouxe de presente duas orquídeas brancas. Numa dela vê-se um rosto. Deve ser ELA certamente!

            Hoje às 16,30h, na Igreja de São Pedro, louvaremos a Deus e espero me confraternizar com os que comparecerem.
          

OBRIGADOOOOO. Carlos Roberto de Miranda Gomes, agora um oitentão.



sábado, 7 de setembro de 2019


D I A     D A     P Á T R I A

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

        Do sonho nativo ao ato real do governante nacionalista D. Pedro I nasceu a INDEPENDÊNCIA DO BRASIL.
        Estávamos, então no dia 22 de setembro de 1822, nas cercanias do riacho Ipiranga, quando após a leitura de mensagens descabidas do Governo de Portugal, nosso Imperador D. Pedro I proclamou a frase célebre: Independência ou Morte. Foi consumada a nossa separação da Corte Portuguesa.
        Esse fato histórico, todavia, teve precedentes de coragem e patriotismo desde a execução de Tiradentes, primeiro revolucionário da nossa independência e, mais adiante, quando o domínio português em Lisboa insistia em pressões sobre o nosso Príncipe Regente, este rebelou-se contra a exigência do seu retorno a Portugal, e em 9 de janeiro de 1822, externou seu desejo de rompimento com os laços da terra europeia, que ficou consagrado como o “Dia do Fico”, momento em que o governante fez seu voto de amor pelo Brasil.

        Dessa atitude resultou a convocação de uma Assembleia Constituinte, organização da Marinha de Guerra e obrigou as tropas de Portugal a voltarem para o reino. Determinou também que nenhuma lei portuguesa seria colocada em vigor sem o "cumpra-se", ou seja, sem a sua aprovação. Era o passo inicial para nossa hegemonia política. No mês de dezembro de 1822, D. Pedro foi declarado imperador do Brasil.
       
        Hoje, em plena República, renovamos em 2019 a nossa esperança de um Brasil melhor, com igualdade e prosperidade.

        EU DE AMO MEU BRASIL. INCONDICIONALMENTE.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019



REFORMA ELEITORAL URGENTE!

Valério Mesquita*

Jesus Cristo, o amado mestre, falava através de parábolas. O ser humano comum, quando muitas vezes quer dizer uma verdade, escreve por linhas tortas. Esse preâmbulo indefectível vem esbarrar num assunto que desejo abordá-lo via deduções preterintencionais, comparativamente a uma bula medicamentosa. Repleta de disse-me-disse. Falo do famigerado coeficiente eleitoral, a mais afiada faca de dois gumes do processo eleitoral brasileiro. Modelo injusto e antidemocrático, que eleva ao podium o lanterninha em detrimento do mais votado. O resultado, muitas vezes, de uma eleição, não reflete a manifestação da maioria, principio fundamental de qualquer processo decisório.
O escorre das votações ou proclamação de resultados, em qualquer atividade institucional ou não, baseia-se na lógica numeral dos sufrágios. Nos plenários do Legislativo, do Judiciário, dos Tribunais de modo geral, no placar das competições esportivas, no Vaticano, no sindicato, na OAB, no ABC, no grêmio escolar, enfim, em qualquer seguimento coletivo a expressão dos mais sufragados - é a respeitada. Até a lei de Gerson é a da vantagem. Somente o processo eleitoral brasileiro é liquidificado, diluído, triturado, para inverter e subverter a escolha popular que deu três mil votos a um candidato mas o que se elege é aquele dos quinhentos. Acho perverso esse sistema. A maioria dos pequenos partidos que abunda o elenco eleitoral é useira e vezeira na prática de registrar candidatos fajutos apenas com o intuito de alimentar a legenda.
O coeficiente eleitoral, assim, é semelhante a bula medicamentosa. Esta tem efeitos colaterais pois ofende a todo organismo da eleição. Elege quem não devia. Retira do eleitor a primazia de escolher o melhor, retirando do túmulo do processo o opaco e o onomatopaico. Envia para a casa do povo o que não deve ir – o lôgro. Verifique o resultado das urnas, à luz mortiça das reações adversas que o coeficiente eleitoral tem provocado nos legislativos de modo geral só para atender ao cálculo equivocado que premia o caricato partido político e derruba o valor pessoal, humano e majoritário do candidato. Ainda dentro da posologia sobre o assunto as minhas precauções residem no fato de entender que o homem deve ficar acima da agremiação. A proliferação das legendas tem trazido mais problemas para a democracia do que o político solitário. Afinal, o mensalão e outros escândalos foram obras da proliferação de partidos, de legendas.
A superdosagem de corticóide no coeficiente eleitoral mascara o exercício da democracia. Além de alarmante, a sua aplicação penaliza, deturpa a face das urnas, a liquidez da escolha, a lisura da lei. Vamos construir um Brasil eleitor. Respeitando o direito da maioria do povo e não o artifício matemático, algébrico, trigonométrico do computador eleitoral. O voto é algo numeral e ordinal. Sentar na cadeira do eleito o menos votado é invenção escabrosa. É gambiarra, “morcego” e tapeação. Voto é maioria e não medicamento controlado e manipulado. Tarja preta para o coeficiente eleitoral! Aceito tudo o que for eletrônico numa eleição menos o coeficiente digitalizado porque nega o direito da maioria.
Por último, outro escárnio que turba a democracia brasileira é a quantidade excessiva de partidos políticos existentes (quase quarenta). São verdadeiras Ong’s deturpadoras do quadro político-eleitoral sustentados pelo erário público. No orçamento da próxima eleição foi consignado três bilhões e oitocentos milhões. Por isso, faltam os recursos para pagar funcionários, a bóia dos recrutas, os remédios da saúde e as obras públicas inconclusas. É mais um tema para comentar na reforma da lei eleitoral.
(*) Escritor.