quarta-feira, 18 de abril de 2012

ATENÇÃO AOS CANDIDATOS À IMORTALIDADE
Academia Norte-Rio-Grandense de Letras

Informamos que os editais referentes as inscrições pára preenchimento das vagas nas cadeiras 4, 32 e 38 da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras estão abertos, tendo cada um seu vencimento nas datas abaixo:


Cadeira 4 - antes ocupada por Enélio Lima Petrovich, vence dia 21 de abril, devendo as inscrições serem entregues até ao dia 20, sexta-feira próxima. Foi publicado no Diário Oficial do Estado, em 21 de março de 2012. 

Cadeira 32 - antes ocupada por João batista Cascudo Rodrigues, vence dia 14 de maio, devendo as inscrições serem entregues até o dia 11 de maio, sexta-feira. Foi publiacdo no Diário Oficial do Estado, em 13 de abril de 2012.

Cadeira 38 - antes ocupada por América Rosado, vence dia 29 de abril, devendo as inscrições serem entregues até o dia 27 de abril, sexta-feira.

Francisco Martins Alves Neto
9158 3151 e 8719 4534
3221 1143 - Academia Norte-Rio-Grandense de Letras





O VALOR DE NOSSOS PAIS

Se você ficar emocionado, é natural.
Quando o assunto é mãe, todos nós temos de ficar genuflexos.
WG
Colaboração de: "Walter Gomes" walgom@uol.com.brm, jornalista em Brasília-DF 
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Um jovem de nível acadêmico excelente candidatou-se à posição de gerente de uma grande empresa.

Passou a primeira entrevista, o diretor fez a última entrevista e tomou a última decisão.

O diretor descobriu através do currículo que as suas realizações acadêmicas eram excelentes em todo o percurso, desde o secundário até à pesquisa da pós-graduação e não havia um ano em que não tivesse pontuado com nota máxima.

O diretor perguntou: "Tiveste alguma bolsa na escola?"

O jovem respondeu: "Nenhuma".

O diretor perguntou: "Foi o teu pai que pagou as tuas mensalidades ?"

O jovem respondeu: "O meu pai faleceu quando eu tinha apenas um ano, foi a minha mãe quem pagou as minhas mensalidades."

O diretor perguntou: "Onde trabalha a tua mãe?"

E o jovem respondeu: "A minha mãe lava roupas."

O diretor pediu que o jovem lhe mostrasse as suas mãos. O jovem mostrou um par de mãos macias e perfeitas.

O diretor perguntou: "Alguma vez ajudaste a tua mãe a lavar as roupas?"

O jovem respondeu: "Nunca, a minha mãe sempre quis que eu estudasse e lesse mais livros. Além disso, a minha mãe lava as roupas mais depressa do que eu."

O diretor disse: "Eu tenho um pedido. Hoje, quando voltares, vais e limpas as mãos da tua mãe e depois vens ver-me amanhã de manhã."

O jovem sentiu que a hipótese de obter o emprego era alta. Quando chegou a casa, pediu feliz à mãe que o deixasse limpar as suas mãos. A mãe achou estranho, estava feliz mas com um misto de sentimentos e mostrou as suas mãos ao filho.

O jovem limpou lentamente as mãos da mãe. Uma lágrima escorreu-lhe enquanto o fazia. Era a primeira vez que reparava que as mãos da mãe estavam muito enrugadas e havia demasiadas contusões nas suas mãos. Algumas eram tão dolorosas que a mãe se queixava quando limpas com água.

Esta era a primeira vez que o jovem percebia que este par de mãos que lavavam roupas todo o dia tinham-lhe pago as mensalidades. As contusões nas mãos da mãe eram o preço a pagar pela sua graduação, excelência acadêmica e o seu futuro.

Após acabar de limpar as mãos da mãe, o jovem silenciosamente lavou as restantes roupas pela sua mãe.

Nessa noite, mãe e filho falaram por um longo tempo.

Na manhã seguinte, o jovem foi ao gabinete do diretor.

O diretor percebeu as lágrimas nos olhos do jovem e perguntou: "Diz-me, o que fizeste e aprendeste ontem em tua casa?"

O jovem respondeu: "Eu limpei as mãos da minha mãe e ainda acabei de lavar as roupas que sobraram."

O diretor pediu: "Por favor, diz-me o que sentiste."

O jovem disse: "Primeiro, agora sei o que é dar valor. Sem a minha mãe, não haveria um eu com sucesso hoje. Segundo, ao trabalhar e ajudar a minha mãe, só agora percebi a dificuldade e dureza que é ter algo pronto. Em terceiro, agora aprecio a importância e valor de uma relação familiar."

O diretor disse: "Isto é o que eu procuro para um gerente. Eu quero recrutar alguém que saiba apreciar a ajuda dos outros, uma pessoa que conheça o sofrimento dos outros para terem as coisas feitas e uma pessoa que não coloque o dinheiro como o seu único objetivo na vida. Estás contratado."

Mais tarde, este jovem trabalhou arduamente e recebeu o respeito dos seus subordinados. Todos os empregados trabalhavam diligentemente e como equipe. O desempenho da empresa melhorou tremendamente.

Uma criança que foi protegida e teve habitualmente tudo o que quis, vai desenvolver- se mentalmente e vai sempre colocar-se em primeiro. Vai ignorar os esforços dos seus pais e, quando começar a trabalhar, vai assumir que toda a gente o deve ouvir...e quando se tornar gerente, nunca vai saber o sofrimento dos seus empregados e vais sempre culpar os outros.

Para este tipo de pessoas, que podem ser boas academicamente, podem ser bem sucedidas por um bocado, eventualmente não vão sentir a sensação de objetivo atingido. Vão resmungar, estar cheios de ódio e lutar por mais. Se somos este tipo de pais, estamos realmente a mostrar amor ou estamos a destruir o nosso filho?

Pode deixar o seu filho viver numa grande casa, comer boas refeições, aprender piano e ver televisão num grande plasma. Mas quando cortar a relva, por favor, deixe-o experienciar isso. Depois da refeição, deixe-o lavar o seu prato juntamente com os seus irmãos e irmãs. Isto não é porque não tem dinheiro para contratar uma empregada, mas porque o quer amar como deve de ser. Quer que ele entenda que não interessa o quão ricos os seus pais são, um dia ele vai envelhecer, tal como a mãe daquele jovem.

A coisa mais importante que os seus filhos devem entender é a de apreciar o esforço e experiência da dificuldade e aprendizagem... e da habilidade de trabalhar com os outros para fazer as coisas.








Dia Internacional do Monumentos e Sítios - "Do Património Mundial ao Património Local" em Vila do Bispo - Portugal


No âmbito das comemorações do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, este ano subordinado à temática “Do Património Mundial ao Património Local – proteger e gerir a mudança”, a Câmara Municipal preparou um programa específico, celebrando a efeméride no próximo dia 21 de Abril, pelas 15h00, no Auditório do Centro Cultural de Vila do Bispo.

Assim “Vila do Bispo, o “Cabo do Mundo”, um lugar de encontros”, é a iniciativa agendada para comemorar aquela data que se celebra a 18 de abril. Esta iniciativa, aberta à população em geral, consta de uma palestra/tertúlia que tem como objetivo refletir sobre a temática do “Património Cultural Português no Mundo”, onde será abordado o facto histórico da partida de uma caravela, em 1455, do mítico Cabo de São Vicente com destino à costa ocidental africana, passando pela construção de toda uma área de influência no Mundo e terminando, novamente, no território local, onde atualmente vivem pessoas oriundas do Brasil e de África, por exemplo.

Na palestra/tertúlia estarão presentes os oradores Adelino Soares (Presidente da Câmara Municipal), Artur de Jesus (Licenciado em História da Câmara Municipal), Maria da Conceição Câmara - Ceicinha Câmara (ligada à Cultura Luso-Brasileira), a Dra. Dália Paulo (Diretora Regional de Cultura do Algarve), e um representante da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Esta ação será enriquecida com a participação da comunidade escolar de Vila do Bispo, alunos da Escola do Ensino Básico do 1.º Ciclo n.º 1, de Vila do Bispo, que farão uma abordagem colorida desta temática, ligando Vila do Bispo e o Mundo.

O IMPACTO DA COPA DE 2014 NA ECONOMIA DO RIO GRANDE DO NORTE

Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado e escritor

Numa tentativa elogiável de preparar os múltiplos segmentos da economia do Rio Grande do Norte, para a Copa do Mundo de 2014, foi realizada em Natal a 13ª edição do evento “Os Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte”, seminário realizado pela iniciativa da Tribuna do Norte, Sistema Fiern, Sistema Fecomércio, Universidade Federal do Rio Grande do Norte e o Governo do nosso Estado, tendo por sede a unidade do Pestana Hotel.

Pela indicação proclamada pelo empresário Amaro Sales, Presidente da Federação das Indústrias do RN, a Copa deixará três legados: o da infraestrutura, o social e o legado das oportunidades de negócios.

Sem pretender opor qualquer obstáculo de pessimismo ao Evento Internacional da FIFA, como cidadão, questiono a lentidão dos procedimentos que possam garantir os anseios dos empresários e da população.
Infelizmente, este Fórum devia ter vislumbrado o Mega Evento com mais antecedência, para ter evitado a demolição do Machadão, porquanto plenamente viável a sua adaptação, haja vista as reconhecidas dificuldades econômicas e financeiras do Estado do Rio Grande do Norte e, particularmente, da cidade de Natal. Assunto encerrado por aqui, posto que o Poema de Concreto Armado já foi demolido e a construção da Arena das Dunas ainda não decolou para os olhos dos que passam pelo local, senão para os que contribuíram para a nova construção, notadamente os políticos oportunistas que só pretendem colher dividendos para as futuras campanhas, como aconteceu com o quase trintenário projeto das ZPEs, do quase cinquentenário do projeto de ampliação do porto de Natal, que continuam a render palanque.

Claro está que todos nós agora voltamos nossa atenção para que efetivamente a Copa de 2014 se efetive e que deixe alguma coisa positiva para nosso Estado, em particular para o sistema de mobilidade urbana, principal gargalo do nosso desenvolvimento local, seja pela conservação das estradas estaduais, vias municipais, acessos, transporte coletivo, uma vez que já sentimos as dificuldades do descontrole do fluxo de veículos novos em relação às vias de trânsito e estacionamentos, além dos problemas de segurança e da rede hospitalar.

O assunto não passou despercebido no seminário, quando os palestrantes apontavam que a indicação de Natal para sediar uma das fases da Copa ocorreu no ano de 2009 e o andamento das obras não correspondem à realidade almejada.

É preciso recuperar o tempo perdido. Por enquanto há alguns projetos aprovados, faltando o dinheiro ser liberado; existem desapropriações a serem feitas; obras estruturantes, como o Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante carecem conclusão e, nos constrangem os argumentos oficiais, como do Senhor Ricardo Gomyde, quando afirma “o atraso das obras de mobilidade urbana não atrapalha a realização da Copa do Mundo de 2014”.

Mas não foi isso que se alegou para sediar a copa, mas prometido um legado permanente para a cidade, que teria a copa como a oportunidade de sua consecução, pois os três ou quatro jogos da copa não tem maior interesse, pois os ingressos serão dirigidos para os turistas, com mínima oportunidade para os desportistas do Rio Grande do Norte.

Nosso lucro desse Evento é o que ficar como legado. São soluções para a drenagem das águas pluviais, a mobilidade urbana através de novas alternativas de trânsito, conclusão do novo aeroporto, aí sim, teria razão de ser a euforia de Amaro Sales, e garantidos o legado da infraestrutura, o legado social e o legado das oportunidades de negócio.

Até agora só vemos “blá, blá, blá!”. ACORDEM SENHORES EMPRESÁRIOS, estamos aí diante de dificuldades na economia, com uma seca anunciada e o reiterado descumprimento das necessidades básicas prometidas para o povo crédulo e sofrido desta terra potiguar. Vamos fazer o dever de casa e arrumá-la para receber os visitantes em 2014.



terça-feira, 17 de abril de 2012

   Igreja de Westminster                   Abadia de Westminster
 
A IGREJA ANGLICANA [FINAL]
Por Marcelo Alves Dias de Souza

Semana passada, conversamos aqui um pouco sobre a história da Igreja Anglicana. Hoje, vamos ver a quantas anda essa Igreja.

Primeiramente, constitucionalmente falando, embora continue misturando uma fortíssima herança católica (que remonta aos primeiros séculos depois de Cristo) com as ideias reformistas de Calvino (1509-1564), a Igreja da Inglaterra, como foi dito anteriormente, não está submetida à autoridade papal. O Monarca inglês, presentemente a Rainha Elizabeth II, é a autoridade suprema da Igreja da Inglaterra (e também o é da Igreja da Escócia). Pelo menos no papel, como dizemos. Segundo li em “Britain for Learns of English” (2011, de autoria de James O’Driscoll e publicado pela Oxford University Press), Inglaterra e Escócia são os únicos casos remanescentes, na Europa, de países com religiões legalmente (ou constitucionalmente) oficiais. Em segundo lugar, doutrinária ou teologicamente falando, o “English Book of Common Prayer” (com as devidas adaptações ao longo dos séculos) e a versão autorizada da Bíblia do Rei Jaime (“King James Bible”) são os textos básicos da fé Anglicana.

A estruturação da Igreja Anglicana é muito parecida com a da Igreja Católica (que, na Inglaterra, sob a autoridade máxima do Papa, é liderada pelo Cardeal-Arcebispo de Westminster e tem sede na catedral de mesmo nome – cuidado para não confundir com a “Abadia de Westminster”, esta anglicana). Basicamente, no topo da hierarquia da Igreja Anglicana, há dois arcebispados, o de Canterbury e o de York. Abaixo estão os bispados (ou dioceses) e, em seguida, as paróquias. Os clérigos recebem, nas devidas traduções para o inglês, nomes muito parecidos com os da Igreja Católica: “archbishops”, “bishops”, “priests”, “vicars”, “chaplains” e por aí vai. Diferenças existem, claro. Por exemplo, os clérigos anglicanos sempre puderam se casar. E, desde a década de 1990, algo bastante avançado e controverso à época (a mudança na regra passou com apenas dois votos a mais do que os dois terços exigidos), mulheres podem fazer parte de clero. Ademais, claramente misturando religião com política, 26 bispos da Igreja Anglicana são membros da “House of Lords” (uma das casas do Parlamento inglês), entre eles, necessariamente, os arcebispos de Canterbury e York e os bispos de Londres, Durhan e Winchester.

O Arcebispado de Canterbury, cidadezinha no sudeste da Inglaterra, é o mais importante na hierarquia da Igreja (ou mesmo da Comunhão) Anglicana. O seu arcebispo é o líder religioso da Igreja Anglicana. Talvez por isso, ele, curiosamente, more em Londres (no Lambeth Palace) e não em Canterbury (como era de se supor). Em seguida, vem o Arcebispado de York. A cidade de York, aliás, merece uma visita para quem vem por estas bandas. Cortada pelo rio Ouse, é belíssima. Um intricado de ruelas que nos faz, prazerosamente, confundir passado e presente. De quebra, a catedral de York (York Minster), considerada a segunda maior no estilo gótico no norte da Europa, é de tirar o fôlego.

No mais, levando em conta uma pesquisa de 2005, sobre o comportamento social dos britânicos, cerca de 53% destes se dizem cristãos (esses números diferem um pouco do senso nacional de 2001, que aponta algo em torno de 72% de cristãos, quase três quartos da população total da Ilha). Desses 53%, praticamente a metade, um pouco mais de 26%, se afirma anglicano. Cerca de 10% da população se diz católica, com o restante compondo os percentuais das demais denominações cristãs. Entretanto, assim como se dá com o catolicismo no Brasil, um percentual muitíssimo pequeno frequenta regulamente a igreja para missas e assemelhados. Esse baixo percentual de comparecimento à igreja pode até parecer estranho, já que, pelo que sei, legalmente é obrigado, nas escolas públicas, haver algum tipo de culto coletivo. Mas o fato é que, embora não oficialmente, a Inglaterra se considera um país secular.

Por fim, para quem não sabe, a Igreja da Inglaterra passa agora por outro momento crucial. Nada que se compare às estripulias do período “Tudor”, claro. Na verdade, o teólogo Rowan Douglas Williams (1950-), 104º e atual Arcebispo de Canterbury, considerado um liberal e um pacifista (o que sempre fomentou a ira dos mais conservadores e dos radicais), anunciou que vai renunciar (previsão para dezembro de 2012). Não se preocupem, nenhum escândalo. Jovem, com pouco mais de 60 anos de idade e 10 de arcebispado, acha que cumpriu o seu papel na Sé. Irá ocupar um posto na Universidade Cambridge e dar o lugar aos ainda mais jovens. O favorito para sucedê-lo é Arcebispo de Canterbury de York, John Sentamu (nascido em 1949 e, por alguns, considerado “velho” para o cargo), natural de Uganda, negro e com um bela história de vida. Além de teólogo, é formado em Direito, tendo exercido essa profissão até ser preso pela ditadura de então e de ter de sair do seu país natal. Os partidários do Arcebispo Sentamu já estão nos jornais, com declarações como “let African faith lead the Church of England”, para influenciar a Rainha que, constitucionalmente (após muita política, claro), indica o líder espiritual de sua Igreja.

O fato é que, seja quem for o próximo Arcebispo de Canterbury, a Igreja da Inglaterra, para sobreviver, terá de lidar a contento com temas delicadíssimos, como o casamento entre homossexuais, a questão dos símbolos religiosos nos prédios públicos e os movimentos separatistas e de convergência (com a Igreja Católica) em seu seio. Será que ela conseguirá? Meu palpite é que sim. A Inglaterra, onde Estado e Religião oficialmente se misturam, contraditoriamente, é hoje um dos países mais adaptáveis e tolerantes que existem. O que desmente os radicais – sejam carolas ou ateístas – de plantão.

[1a. PARTE]
A Semana Santa está chegando. Que tal, então, mudarmos suavemente de temática? Um pouco de Religião e Direito, misturado com Literatura e Cinema, cairia bem? Minha sugestão: dois dedos de prosa sobre a curiosa Igreja da Inglaterra (“Church of England”).

Comecemos com um registro sobre o momento histórico-político do nascimento da Igreja Anglicana (também conhecida como Igreja Episcopal, nos EUA e na América Latina, embora a equivalência não seja completa). Era um dos períodos mais tumultuados da história europeia e da Igreja Romana: plena efervescência da Reforma, protagonizada por Martinho Lutero (1483-1546) e suas 95 teses (de 1517), com o Papado também entrelaçado nas políticas e nas guerras das poderosas casas reais da Espanha e da França e do Sacro Império Romano-Germânico.
Henrique VIII, criador da Igreja Anglicana, retratado por Holbein

Católico fervoroso até então, o Rei inglês Henrique VIII (1491-1547), à falta de um herdeiro homem para dar continuidade à casa “Tudor”, desejava anular o seu casamento com a espanhola Catarina de Aragão (1485-1536), ficando assim livre para casar com Ana Bolena (1501-1536). Após uma tentativa malograda perante legatários do Papa Clemente VII (1478-1534), em 1534, por iniciativa de Henrique VIII, a Igreja da Inglaterra separa-se do Papado Romano, tendo agora o próprio Rei como autoridade máxima. Casamento feito, claro (o segundo de meia duzia desse rei casador). E, com o passar dos anos, muitas cabeças rolando, entre elas, as da própria Ana Bolena, do poderoso Cardeal Wosley (1471-1530), do escritor, jurista, estadista e santo Thomas More (1478-1535) e de Thomas Cromwell (1485-1540), que foi, talvez, o grande arquiteto, sob ponto de vista jurídico, da primeira fase do cisma religioso. Todos eles foram, de algum modo, acusados de traição. Mas traição, à época, era o que o Rei ou seus advogados “decidiam” ser. Em seguida, o herdeiro homem de Henrique VIII, Eduardo VI (1537-1553), anglicano, reinou apenas por 6 anos. Foi sucedido por Maria I (1516-1558), filha de Catarina de Aragão e católica fervorosa. A reconciliação entre a Inglaterra e a Igreja Romana é feita. Mas o reinado de Maria também é curto (cerca de 6 anos). Sobe ao trono Elizabeth I (1533-1603, filha de Ana Bolena), que reina por 44 anos e consolida, com o estabelecimento de uma doutrina de via média entre o Catolicismo e a Reforma (de viés calvinista, acima de tudo), a Religião Anglicana. E esse complicadíssimo caldeirão histórico, como era de se esperar, deu ensejo a séculos de intolerância e perseguição religiosa (que só veio a diminuir, gradativamente, a partir do século XIX).

Tudo isso não poderia ser feito sem uma legislação que lhe desse amparo (e aqui entramos nós, os supostos “juristas”). O “Ecclesiastical Appeals Act 1532” proíbe apelações ao Papa em religião e outras matérias, fazendo assim do Rei, indiretamente, a autoridade máxima em tais questões na Inglaterra. O “1º Act of Supremacy 1534” expressamente reconhece o Rei como a autoridade máxima da Igreja da Inglaterra e dá outras providências. Ambos são do período de Henrique VIII. Já no período elisabetano, temos o “Act of Uniformity 1558”, que define as regras de culto na forma do “English Book of Common Prayer”. Em seguida, vem o “2º Act of Supremacy 1559”, que substitui o primeiro, após o período de catolicismo do tempo de Maria I. E, por fim, os “39 Articles of Religion”, de 1563, historicamente definem a Religião Anglicana como um meio termo entre o Catolicismo e a doutrina calvinista. Num momento seguinte da história, em 1611, a esses diplomas legais soma-se a famosa Bíblia do Rei Jaime (“King James Bible”) que, reconhecidamente, é um dos mais importantes documentos da língua inglesa, tendo um papel fundamental na consolidação do Anglicanismo como religião oficial do Reino. Devido à escala da sua produção e ao sucesso da sua aceitação, ela acabou por tornar-se a versão “oficial” da Bíblia para o mundo de língua inglesa (sobre a “King James Bible”, vide a crônica “A biblioteca e a Bíblia”).

Para quem quer conhecer essa história/estória de modo mais suave (e sem um completo rigor histórico), sugiro, porque faz muito sucesso por aqui, a série de romances históricos, sobre a dinastia “Tudor”, de Philippa Gregory (1954-): “The Other Boleyn Girl” (2001), “The Queen’s Fool” (2003), “The Virgin’s Lover” (2004), “The Constant Princess” (2005), “The Boleyn Inheritance” (2006) e “The Other Queen” (2008). Sei que muitos desses títulos, senão todos, já estão disponíveis em português. “The Other Boleyn Girl” (“A outra Bolena”), aliás, foi adaptado para o cinema em 2008, com as belíssimas Natalie Portman e Scarlett Johansson, respectivamente, interpretando as irmãs Anne e Mary Bolena (portanto, vale a pena!). Para quem quer algo mais denso, uma opção é “Wolf Hall” (2009), de Hillary Mantel (1952-), sobre o qual já falei aqui (vide a crônica “O importante é ter meta”). É uma biografia romanceada da vida de Thomas Cromwell, o principal ministro do Rei Henrique VIII. Com ele, Mantel ganhou o “Booker Prize” de 2009, o mais importante prêmio literário para uma obra de ficção, em inglês, no âmbito dos países da Commonwealth e da Irlanda. Por fim, sugiro a maravilhosa série de TV “The Tudors”, com um excelente Jonathan Rhys Meyers no papel do Henrique VIII, que, tenho certeza, estava passando na TV Brasileira dia desses. Na verdade, ficção é o que não falta abordando as vidas de Henrique VIII, das Bolenas, do Cardeal Wosley, do grande Thomas More e outros menos votados.

Mas, voltando à realidade, a quantas anda hoje a Igreja da Inglaterra? Bom, isso é assunto para a nossa próxima conversa.
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.Marcelo Alves Dias de Souza é Procurador Regional da República, M1estre em Direito pela PUC/SP e Doutorando em Direito pelo King’s College London – KCL
postado por O Santo Ofício
abril 16, 2012
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HOMENAGEM ENTRE AMIGOS


A MAIS LONGA DAS ESPERAS

Ao Pedro Simões
Por Ciro José Tavares

“Sob carvalhos sombreados e escuros, floresciam
as avencas que exalavam um perfume agradável,
e debaixo das ribanceiras cheias de musgo
dos cursos d’água pendiam inumeráveis renques
de samambaias e tinhorões.”
John Steinbeck, in A Leste do Éden

Agora que cruzamos nossas últimas fronteiras
somos convidados pelos deuses a lavar
o que restou das noites derramadas
na insólita matéria que nos cobre.


Vamos pelas mãos de Tétis que de Peleu gerou Aquiles,para sermos batizados,outra vez, no azul profundo do Egeu,
depois vestir-nos com a sagrada túnica de Nessos.


Assim, puros e libertos, deitaremos nossos olhos saudosos sobre os vales verdes da nossa Tessalônica.


E sentiremos emergir do ventre da terra morena
o aroma inconfundível das romãzeiras esquecidas
nos quintais das casas que deixaram de existir.


Agora nebulosas horas da existência atravessadas
Somos espécies raras de armaduras
porque a mais longa das esperas ainda não nos derrotou.



segunda-feira, 16 de abril de 2012

O FORTE DOS REIS MAGOS

          O assunto me foi despertado por trabalho do meu confrade Luiz Gonzaga Cortez, que escreveu artigo a propósito da autoria do projeto do Forte dos Reis Magos, o qual, diferentemente das indicações divulgadas por pesquisadores, teria sido feito pelo engenheiro-mor Francisco de Frias Mesquita.
Apresentou documentos antigos que cuidam do assunto, dando azo para que a polêmica continue.
Estudando o tema, confesso o meu conhecimento superficial, mas compreendi que em verdade parece que a questão se coloca no seguinte patamar: a minha crença é de que o projeto é efetivamente do padre Gaspar de Samperes (ou Gonçalves de Samperes), e que teve a sua construção pelo engenheiro-mor Francisco de Frias Mesquita (1603-1634), quando adquiriu a atual conformação. Assim, no meu sentir, o engenheiro deve ter alterado a primitiva planta para dar-lhe um outro formato. Contudo, solicitei ajuda de Ivoncisio, que esteve em Portugal pesquisando o assunto e a resposta dele vai reproduzida em seguida. Por enquanto, o documento histórico que foi enviado por Cortez confirma que Francisco Frias foi o construtor. Isso não tem dúvida:

"Sobre o Forte: 1) Tavares de Lyra em História do Rio Grande do Norte (fls.31)"...se ordenou que Manuel Mascarenhas fosse por mar ao Rio Grande, na armada que veio de Pernambuco, e levasse consigo o Padre Gaspar de São João Peres, da Companhia, por ser grande arquiteto e engenheiro, para traçar a fortaleza, com seu companheiro o Padre Lemos, e o nosso irmão frei Bernardino da Neves, por ser muito perito em língua brasílica..." 2) Cascudo em "História do Rio Grande do Norte" 2ª ed. (fls.24): " A planta é do padre Gaspar de Samperes que fora mestre nas traças de engenharia na Espanha e Flandres, antes de entrar para a Companhia de Jesus,. É a forma clássica do forte maríotimo, afetando o modelo do poligno estrelado". 3) Pe. Serafim Leite S.J. em "História da Companhia de Jesus no Brasil - Cap. V - Rio Grande do Norte" (fls. 516): Nesta jornada foram dois padres: por Superior o Pe. Francisco de Lemos e por seu companheiro o Pe. Gaspar de S. Peres, ao qual nomeadamente pediu o Capitão pera lhe dar alguma boa traça do forte, que El-Rei lhe mandava fazer, como lha deu, porque sabia bem dessa arte e a exercitara, em Espanha e no Brasil, antes de entrar na Companhia, quando professava a milícia." 4) Hélio Galvão em "História da Fortaleza da Barra do Rio Grande" (fls. 53 -ítem 19 até fls. 56). O forte tem o traço do poligno estrelado denominado de " a Vauban" arquiteto militar francês, criador dessa forma de fortificação. Vicente de Lemos e Tarcísio Medeiros seguem as informações de Frei Vicente do Salvador em "História do Brasil - 1500 a 1627". a planta original e de Frei Gaspar de São João Peres, com o está enunciado pelos antigos historiadores, feito de pau a pique e taipa coma lama do rio que não resistiu as ondas do mar. A construção em pedra é de Frias. O holandez ocupou o forte inacabado já com o traçado de Francisco Frias de Mesquita, como conta Hélio Galvão em op.cit. Um abraço e a sua disposição." Ivoncísio

O assunto é palpitante e solicito os comentários dos pesquisadores.

domingo, 15 de abril de 2012


A velha Faculdade da Ribeira vai ser restaurada
Carlos Roberto de Miranda Gomes (aluno da 10ª Turma, 1968)
Neste radioso domingo de Páscoa, tomo conhecimento de que a Reitora Ângela Paiva pretende restaurar o prédio na velha Faculdade de Direito da Ribeira, para ali instalar um projeto de Centro de Referência dos Direitos Humanos e o Museu do Advogado.

Argumenta a Reitora que será desenvolvido naquele prédio o maior projeto de extensão da UFRN.

A notícia não poderia ser melhor, pois há muitos anos vários segmentos da Universidade, da Ordem dos Advogados e de ex-alunos lutam para a recuperação daquela Casa que tanto honrou a história do nosso Estado, dando provas de lutas democráticas e resistência aos tempos de ditadura, onde tantos professores e estudantes ofertaram o brilho de erudição que ressoam no espírito da tradicional Ribeira.

“Até que tudo cesse, nós não cessaremos” era uma placa que foi retirada e perdida no tempo e, mesmo que não reencontrada, merece que outra seja reposta em seu lugar, para marcar os tempos gloriosos da juventude estudiosa do Direito em nossa cidade.

As demais placas, que marcam a passagem de muitas pessoas idealistas estão jogadas em algum depósito da UFRN, posto que retiradas dos corredores do CCSA e nunca mais recolocadas, num atentado à memória dos estudantes e professores,mas que agora serão resgatadas para um lugar de honra.

Sei, por conhecimento próprio, quando por três vezes adentrei no prédio centenário projetado pelo Arquiteto Herculano Ramos, que é plenamente restaurável toda a sua estrutura, guardando-se a mesma distribuição das salas da entrada, das aulas, das reuniões da Congregação dos Professores, do setor administrativo, da cantina, do salão onde jogávamos “ping-pong”, do local do barbeiro, do DAAC, do pedestal do busto de Amaro Cavalcanti, que poderá a ele retornar, do auditório do primeiro andar, da biblioteca formada com desvelo pelo Professor Otto de Brito Guerra e das suas áreas externas, com suas grades importadas de Portugal, tendo ao alto esculturas francesas.

Tenho a certeza de que essa providência da Reitora marcará o retorno daquele pedaço à vida útil da cidade, com lançamento de livros, pesquisa de documentos históricos, exposições, para onde devem ser colocados os arquivos da polícia política, que já foram liberados para consulta.

Um pouco da sua história:

"ANTIGO PRÉDIO DO GRUPO ESCOLAR AUGUSTO SEVERO
HISTÓRICO
O prédio foi construído em um momento de verdadeira revolução ocorrida nos métodos educacionais. O então Governador Alberto Maranhão, pelo Decreto de 29 de abril de 1908, reformou a instituição primária, inspirado na concepção sonhada pelo Senador Pedro Velho. Nascia então a Escola Normal, os grupos escolares (nas escolas municipais) e as escolas mistas. Estabeleciam-se métodos e renovava-se o ambiente educacional.
O Grupo Escolar Augusto Severo foi o primeiro construído no Estado, dentro do novo modelo educacional preconizado. Sua inauguração data de 12 de junho de 1908. O ato inaugural foi assistido pelo Governador Alberto Maranhão, altas autoridades, representantes do Ateneu Norte-Riograndense e da Escola Normal, além de diversas famílias da sociedade natalense.
Pelo Decreto 198, de 10 de maio de 1909, o Grupo Escolar Augusto Severo foi convertido em Escola-Modelo. Em 02 de janeiro de 1911, foi instalado no mesmo prédio a Escola Normal. Em 1914 surgia a Escola Isolada Noturna, todos eles funcionando naquele prédio que assim se desdobrava para servir à educação da juventude.
Em 1952, o antigo prédio do Ateneu Norte Riograndense foi desativado, passando aquele tradicional estabelecimento de ensino a funcionar no Grupo Escolar Augusto Severo, até 1954, ano em que foi inaugurada a nova sede daquele Ateneu, na Avenida Campos Sales, à época do Governador Sylvio Pedrosa.
No dia 21 de abril de 1956, a Faculdade de Direito de Natal, instalada há pouco mais de um ano em uma sala do Ateneu, transferiu-se para o prédio que abrigava o Grupo Escolar Augusto Severo. A faculdade lá permaneceu até a sua transformação em Curso de Direito, em 1974, quando ocorreu sua transferência para o Campus Universitário.
No dia 04 de setembro de 1973, o professor Edgar Ferreira Barbosa, sob intensa emoção, proferiu "Aula da Saudade", abordando o tema "Navegar é preciso". O professor concluiu a sua aula com a frase :
"Iremos na melhor companhia, todos numa esquadra idealista e compreensiva, levando nossa ajuda leal e consciente, pois navegar é necessário. Muito embora o velho porto não nos saia da memória
E repetiu um poema de Manoel Bandeira :

‘Vão demolir esta casa
Mas meu quarto vai ficar
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências,
Vai ficar na eternidade
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar !’"
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Leia mais: http://jus.com.br/revista/texto/16836/acao-civil-publica-para-reparacao-de-predio-tombado#ixzz1s6vLBAMN

sábado, 14 de abril de 2012

É GENTE NOSSA
MÚSICA POTIGUAR BRASILEIRA
Livro de Deífilo Gurgel será lançado dia 18/04, quarta-feira (Palácio da Cultura), 19h

Romanceiro Potiguar, de Deífilo Gurgel será lançado quarta-feira, 18 de abril
Lançamento da obra inédita do folclorista será na Pinacoteca do Estado, a partir das 19h

A Coleção Cultura Potiguar, que reúne os mais diversos temas da literatura norte-rio-grandense, da Secretaria Extraordinária de Cultura do RN e Fundação José Augusto (Secultrn/FJA) terá mais uma obra entre seus títulos. Dessa vez, uma das mais ilustres: O Romanceiro Potiguar, que será lançado na quarta-feira, 18 de abril, no Palácio Potengi - Pinacoteca do Estado, a partir das 19h. O livro será adquirido ao preço de R$ 40. O Romanceiro Potiguar é uma obra inédita do folclorista e pesquisador, Deífilo Gurgel - falecido em fevereiro deste ano - fruto de uma pesquisa realizada entre as décadas de 1980 e 1990 e que reúne um dos mais ricos apanhados da oralidade dos romanceiros tanto de origem Ibérica, quanto brasileira. O livro conta com ilustrações do presidente do Conselho Estadual de Cultura, Iaperi Araújo.

De acordo com Alexandre Gurgel, que em algumas viagens ao longo dos dez anos de pesquisa acompanhou o pai, Deífilo Gurgel conversou com muitas pessoas para a elaboração d´O Romanceiro Potiguar, como por exemplo, seu Atanásio, detentor deste saber popular e pai de outra conhecida romanceira, Dona Militana, que também figura na pesquisa, dentre muitos outros. Com esse feito, andando de norte a sul pelo Estado, Deífilo Gurgel conseguiu compilar romances que fazem parte do cancioneiro popular, desde as origens Ibéricas (da Espanha e Portugal), passando pelos romances Religiosos, do Cangaço, da Caatinga e da Pecuária. "Ele viajou o Estado inteiro e conseguiu reunir uma obra que preserva pelo menos cinco origens de Romances. E o mais importante desse trabalho é que ele conseguiu colher versões inéditas de alguns romances", informa o filho.

Para a secretária Extraordinária de Cultura, Isaura Rosado, O Romanceiro Potiguar dignifica o plano editorial do Governo do Estado conduzido pela Secultrn/FJA. "Deífilo pesquisou em sítios, vilas, povoados, nos espaços mais distantes do RN, seu trabalho é reconhecido para além do solo potiguar. Pensando em cultura de tradição, a assessoria de Deífilo sempre foi imprescindível. Digo isso para atestar minha admiração enquanto gestora, ao pesquisador, amigo, estudioso da cultura popular. Digo isso para expressar o quanto nos orgulhamos de Deífilo e o quanto as gerações que nos sucederem serão gratas a ele pelo registro e proteção às nossas raízes", disse ela em apresentação da obra.

O poeta e membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, Paulo de Tarso Correia de Melo, é quem faz a abertura do Romanceiro Potiguar, a convite do próprio Deífilo Gurgel e em determinado trecho, revela o apuro e dedicação deste que, certamente, foi um dos maiores estudiosos da cultura popular no RN e no Brasil: "O milagre é o mesmo de seus outros livros de pesquisa folclórica. A documentação precisa e conscienciosa de sempre. O relacionamento exato de fontes, lugares e datas da situação de pesquisa. Desta vez quero realçar o registro de saborosíssimos epílogos prosificados e por vezes prosificações completas de romances registrados acuradamente".

O trabalho e pesquisa de Deífilo Gurgel foi realizado de maneira solitária, já que não conseguiu bolsistas ou outros interessados na pequisa. E assim, aos 70 anos, Deífilo Gurgel de dispôs a "cansativas", porém "gratificantes" viagens pelo Rio Grande do Norte "à cata das últimas pepitas desse fabuloso tesouro, representadas pelas quase trezentas versões de romances, que coletamos nas mais diversas regiões do nosso Estado, dos romanceiros peninsular e brasileiro", escreve o próprio pesquisador em seu livro, agora póstumo.

O livro é constituído das seguintes divisões Romances Ibéricos e Romances Brasileiros, que se subdividem-se da seguinte forma: Romances Palacianos, acontecidos entre a nobreza europeia; Romances Religiosos ou Sacros, que falam da vida de Jesus e de episódios ocorridos na vida de santos do catolicismo; Romances Plebeus, da gente do povo; Romances da Pecuária, que contam a vida de bois legendários: Boi Espácio, Boi Misterioso, Boi Surubim; Romances do Cangaço, relatos da vida e da morte de valentões sertanejos, desde épocas remotas: “Zé do Vale”, “O Cabeleira” e vários outros; Romances Burlescos, encenados outrora em teatrinhos mambembes e circos de cavalinhos. Ao todo são 330 versões de romances ibéricos e brasileiros.

Mais informações:
Alexandre Gurgel: 8840 2767
Secultrn/FJA: 3232 5321
De: "Assessoria Fundação José Augusto" assecomfjarn@gmail.com







sexta-feira, 13 de abril de 2012


PIPA, TERRA DE NINGUÉM – Parte I
Ormuz Barbalho Simonetti

Uma noite tranquila é direito de todos

Há anos que o um dos mais famosos balneários do Brasil, a praia da Pipa, vem convivendo com um problema recorrente, e aparentemente sem solução. Quando acontece grandes feriados, horda de jovens, na sua grande maioria, procedentes de outros Estados, desembarca na praia da Pipa com o propósito de diversão a qualquer custo e a nítida intenção de transgredir a Lei e a Ordem pública.

Foi o que aconteceu no último feriado da Semana Santa. Apenas três casas foram alugadas pelos seus proprietários, porém, o suficiente para deixar toda a parte baixa da praia, onde se concentra a maioria das casas de veraneio, em polvorosa.

Quando acontecem esses aluguéis, os contratantes tratam diretamente com os proprietários e depois vendem os ingressos aos que desejarem participar da “festa”. Geralmente casas que comportariam de doze a quinze pessoas, são acomodadas, se é que podemos chamar de acomodação, até setenta indivíduos em sua maioria, constituída por jovens de ambos os sexos.

Munidos de equipamentos de som de alta potência, são ligados em todo o volume o que resulta num verdadeiro pandemônio. Nessas casas, para chamar a atenção, são colocadas faixas e cartazes com palavras obscenas e algumas exibem, com pequenos disfarces, a genitália masculina, indicando ser ali a Casa de todos. Não fosse esse cronista de página limpa, tentaria levar o leitor a identificar o verdadeiro nome.

Dentro delas a visão é estarrecedora. Homens e mulheres se entregam a uma orgia sem precedente. O álcool comanda o ambiente e dita o ritmo da festa. As mulheres, normalmente mais vulneráveis aos efeitos das bebidas alcoólicas, são as que mais se destacam e se exibem. Em notória degradação de sua dignidade, convidam, através de musiquetas com cunho sexual, cantadas em coro, futuros parceiros, com se fossem mercadoria em liquidação. Numa verdadeira afronta as famílias que residem nas adjacências, bem como aos turistas, palavrões de toda espécie são recitados em alto e bom som, independentemente de quem estiver passando nas imediações. Famílias quando acompanhadas de menores, se apressam para escapar daquele ambiente de permissividade comportamental e promiscuidade social e moral.

Quando a noite chega os grupos continuam no mesmo ritmo que iniciaram, porém, a embriaguez já tomou conta da maioria dos participantes. E assim continuaram durante todo o feriado. Enquanto alguns dormem, obviamente, vencidos pelo cansaço misturado ao estado de embriaguez, outros continuam na farra, de maneira que o som permaneça ligado no último volume.

É notória a indolência do poder público Municipal e principalmente a ausência do Estado, com relação ao policiamento, já que este é de competência do Governo Estadual. O efetivo responsável pela manutenção da ordem e da lei, em todo o balneário, é de apenas três homens. Segundo especialista em segurança pública, em razão das características e peculiaridades da praia da Pipa, esse número seria de no mínimo, dez homens para atender a demanda, principalmente durante os feriados prolongados. Imagine, meu caro leitor, o que é passar a noite fazendo rondas, solucionando conflitos dos mais diferentes níveis sem que o Estado lhes ofereçam as condições necessárias ao bom desempenho de suas funções constitucionais. É um caos. E mais. Há relatos de que as gratificações prometidas para o período do veraneio, ainda não foram lançadas nos contracheques dos valorosos militares.

Além do mais, pergunta o Agente, o que poderia fazer o policial para coibir esse tipo de abuso? Sem o apoio do Judiciário e do Ministério Público, seus poderes são altamente limitados. Questiona-se.

E foi o que aconteceu. Quando o policial ao se aproximar da residência para solicitar que o som fosse diminuído, um dos participantes o admoestou: “se não tem mandado a conversa é do portão pra fora”. De antemão, o policial sabe que dentre aquelas pessoas, existem vários advogados “com notórios saber jurídico” que conhecem bem “seus direitos”, mas infelizmente usurpam, ofendem e fazem menoscabo com os direitos alheios. Temendo a desmoralização, o agente da lei procura através de conversa, em sua maioria sem êxito, convencê-los a atender o clamor da população e pelo menos diminuir o volume do som, para que principalmente idosos e crianças possam dormir em paz.

Mesmo se os moradores-veranistas quisessem usar do direito assegurado no art. 42, III da Lei das Contravenções Penais, iriam até a Delegacia de Policia Civil e fariam um Termo Circunstanciado de Ocorrência, objetivando a solução do conflito. Ocorre, porém, que na Delegacia de Policia Civil da praia da Pipa, tem apenas um agente e, pasmem, sem viatura. Nesse caso, não restaria nenhuma outra solução a não ser reclamar ao Senhor Bispo, Dom Jaime, representante de Deus entre os homens.

Diferentemente, na praia de Pirangí acontecia problema semelhante. Mas, ao que pude apurar, as autoridades competentes dotaram, os policiais de instrumentos legais, previstos em nossa Constituição, para que pudessem ser utilizados no cumprimento da lei. Munidos de Mandado Judicial, aos policiais era permitido adentrar ao ambiente e apreender o equipamento de som que estivesse em desacordo com a legislação, caso o infrator se recusasse a cumprir o que determina a lei.

Solicitamos aos leitores que se manifestem a respeito da matéria para que possamos pressionar as autoridades competentes.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A CONSTITUCIONALIZAÇÃO DAS CONTROLADORIAS

Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado e escritor

Há cerca de doze anos, mercê dos novos princípios introduzidos pela Constituição Federal de 1988, surgiu no Brasil a ideia de ampliação dos sistemas de controle da gestão pública, o que motivou, no Estado do Rio Grande do Norte a criação da Controladoria Geral do Estado, órgão de natureza instrumental que integra a Administração Pública Direta, através da Lei Complementar n.º 150, de 09 de janeiro de 1997, com posteriores alterações introduzidas pela lei Complementar n.º 157, de 23 de dezembro de 1997.

Com a nomeação do seu primeiro Controlador Geral, que tive o privilégio de ter sido o escolhido, deu-se início à sua instrumentalização, com a aprovação do Regimento Interno, através do Decreto nº 13.745, de 16 de janeiro de 1998, para funcionar como órgão central do Sistema Integrado de Controle Interno do Governo Estadual.

Nossa Controladoria adotou estrutura e funcionamento de tal ordem, que encontrou prontas e eficazes soluções de problemas da gestão pública, e serviu de modelo para outras iniciativas de Estados e Municípios.

É do conhecimento geral que o nosso País vem atravessando mares agitados no combate às frequentes irregularidades e ineficiências denunciadas na Administração Pública, com larga escala de corrupção em todas as esferas de governo, despertando a atenção do Parlamento e da própria Administração, tanto que motivou o então Senador pelo Estado do Espírito Santo, Renato Casagrande, hoje governador capixaba, que apresentou ao Senado a Proposta de Emenda Constitucional nº 45, de 2009, que institui a obrigatoriedade de todos os entes federativos criarem em suas estruturas órgãos nos moldes da Controladoria Geral da União.

A PEC teve a sua tramitação regular e foi aprovada na manhã da quarta-feira (04.04) pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) do Senado Federal, inserindo ao artigo 37 da Constituição Brasileira o inciso XXIII, que dispõe sobre a criação de órgãos em suas estruturas administrativas que congreguem as funções de Ouvidoria, Corregedoria, Auditoria e Controle Interno, seguindo para sua apreciação em Plenário.

Na justificativa do projeto, temos a indicação dos fundamentos de sua elaboração:

“Desta forma, a regulação constitucional incorporará de forma explícita a noção de controle interno, tornando ademais obrigatória a sua estruturação, inclusive em tratamento similar ao que recebeu a função de arrecadação a partir da Emenda Constitucional 42, de 2003. Este conteúdo organizacional e funcional reflete a longa experiência acumulada pela União e pelos principais Estados da Federação”.

A iniciativa teve respaldo nas diversas discussões promovidas pelo Conselho Nacional dos Órgãos de Controle Interno (Conaci) nos últimos anos, bem como as boas experiências verificadas por vários Estados Brasileiros, assim como a própria União, no estabelecimento e criação de órgãos que congreguem as quatro funções expostas.

Infelizmente não se deu maior ênfase ao pioneirismo do Rio Grande do Norte, até porque todo o acervo de suas realizações - informativos, atos normativos, doutrina e legislação foi retirado da internet, ficando difícil pesquisar suas fontes históricas e a comprovação do seu efetivo funcionamento que, pela atuação eficaz desde o início, provocou à época uma oposição cerrada de vários segmentos com a pretensão de logo na reforma administrativa que ocorreu no Estado, a extinção, não apenas da Controladoria, mas igualmente da Consultoria Geral do Estado, com o que não concordou o Governador Garibaldi Alves Filho, que manteve as duas Instituições e lhes conferiu até mais poderes.

Ficamos felizes por assistir a elevação dos Órgãos de Controle Interno à altitude de natureza constitucional, esperando possa aperfeiçoar as diversas instâncias de poder, permitindo uma fiscalização mais eficiente, no caminho da extirpação da corrupção ou sua radical redução.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

NO MEIO DA SELVA DA CORRUPÇÃO, UM GRITO DE PATRIOTISMO:
VAMOS SALVAR O BRASIL!

terça-feira, 10 de abril de 2012

CONVOCAÇÃO PARA A ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA.


EDITAL 01/2012

ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA - EDITAL DE CONVOCAÇÃO

O Presidente da União Brasileira de Escritores - UBE/RN convoca os associados que estejam em pleno gozo de seus direitos sociais estabelecidos no Estatuto, para se reuniram em Assembléia Geral Ordinária, que se realizará no dia 12 de Abril (quinta-feira) de 2012, no auditório da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, à Rua Mipibu,443- Petrópolis, nesta Capital, às 16h30 (Dezesseis horas e trinta minutos) em primeira convocação, com presença de maioria absoluta dos associados; trinta minutos após, em segunda convocação, com qualquer número dos Associados, a fim de discutir e deliberar sobre a seguinte Ordem do Dia:

A) Eleição de novos sócios;
B) Relatório das Atividades de 2011;
C) Prestação de contas do exercício de 2011.


Natal/RN, 30 de março de 2012

Eduardo Gosson

Presidente

Entrevista de Millôr Fernandes à revista "Oitenta" (*)Sexta-feira, 6 de Abril de 2012
Millôr - Eu quero fazer um pequeno introito a esta entrevista absolutamente sincero: não gostaria de estar dando esta entrevista. Estou porque gosto muito fraternalmente - como não posso dizer fraternalmente por causa da idade, eu costumo dizer fra-paternalmente - do Lima e do Ivan. Por osmose comecei a gostar dos outros. Eu só não digo que estou começando a ficar gaúcho porque não tenho rebolado gaúcho. Agora - nada, na minha estrutura, soi disant intelectual, com todas as aspas, me conduz a dar uma entrevista a sério, sobretudo a pessoas altamente respeitáveis como vocês. Quero que fique gravado nesta entrevista: realmente, eu não me levo a sério. Mas na proporção em que o tempo passa, a idade avança, as pessoas vão te levando insuportavelmente a sério, e você acaba assumindo um mínimo disso.

- Quando você começou no Jornalismo?

Millôr - Eu comecei a trabalhar no dia 28 de março de 1938; tinha 13 pra 14 anos de idade. E essa é uma das coisas de que me orgulho - a minha vanglória - a consciência profissional. Eu era um menino solto no mundo, uma vida que dependia só de mim mesmo. Naquela época, o Ministério do Trabalho era recém-fundado. O meu empregador já era O Cruzeiro. Pedi que me assinassem a carteira de trabalho. Quando cheguei em casa (uma pensão) e vi que a data que estava lá na carteira era a data em que eu havia pedido a assinatura da carteira e não a em que eu havia começado a trabalhar, voltei e pedi retificação. Veja você, um menino com menos de 14 anos, sem nenhuma influência ideológica de trabalhismo, de nada, apenas com aquela consciência de que tinha direito. Então a carteira diz assim: "onde se lê tal, leia-se tal data". Está lá registrado o primeiro dia de trabalho: 28 de março de 1938. Já fiz 43 anos de jornalismo, mais anos do que vocês, em conjunto, têm de vida.

- Obrigado pela generosidade. Você acha que o jornalismo brasileiro melhorou muito de lá pra cá?

Millôr - Muito, tecnicamente. Lamentavelmente, porém, do ponto de vista ético, moral e social, melhorou muito pouco. E já era quase criminosamente ruim naquela época. Conforme você sabe, eu não tenho nenhuma formação marxista, não acredito em excessivos determinismos históricos. É evidente, é liminar, que as forças de produção regem muitas coisas. É liminar que o contexto da sociedade reja fundamentalmente muitas coisas. Agora - o que não é liminar é o seguinte: há forças metafísicas, há entrerrelações no mundo que não estão previstas em qualquer ideologia; a isso eu chamo o anticorpo. O Marx é o próprio anticorpo dentro da sociedade em que vivia. Se as teorias de Marx fossem perfeitas, ele não existiria. Porque o contexto social e as relações de produção da época não o previam, não o permitiram. Você pode dizer que a imprensa é resultado do meio, a imprensa é resultado da sociedade em que funciona. Certo. Mas, às vezes, por força de um indivíduo, ou por força de um pequeno grupo de indivíduos, ela pode se antecipar ao seu meio e fazer progredir esse meio. Mas a imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o país. Acho que uma das grandes culpadas das condições do país, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa. Repito, apesar de toda a evolução, nossa imprensa é lamentavelmente ruim. E não quero falar da televisão, que já nasceu pusilânime.

- Há um consenso de que a imprensa brasileira, tecnicamente, teria atingido uma qualidade comparável com o que de melhor se faz no mundo.

Millôr - De acordo. A revista onde trabalho, Veja, é um exemplo, tem todas as possibilidades; praticamente iguais às da Time. A TV Globo só não tem mais possibilidades porque não quer. Ela pode mandar 30 repórteres amanhã pra Polinésia com o poder que tem, fazer a cobertura que quiser. Mas só age em função do merchandising. Nos falta até o contraste, que existe em países supercapitalistas como os Estados Unidos, onde o choque de interesses é tão violento que faz da imprensa americana a melhor imprensa do mundo. Quando o New York Times não quer dar cobertura a um setor, o Washington Post vai em cima. A França tem dois fenômenos de boa imprensa: são Le Monde e Le Canard Enchainé: prova de que a chamada imprensa burguesa, ou a imprensa dentro de países burgueses, pode ser realmente a expressão de uma absoluta liberdade, maior do que em países socialistas (nestes não há imprensa: há boletins).
É possível fazer imprensa com independência. Se o Canard Enchainé faz, se o Le Monde faz, por que não se pode fazer no Brasil? É uma coisa que pode parecer até brincadeira: quando nós fizemos o Pasquim, num certo momento eu disse pro pessoal: "Olha, eu sou o único comunista daqui". Eu acreditava que aquele negócio fosse mesmo um negócio comunitário, para o bem público. É verdade! Os que se presumiam comunistas (não só eles!) começaram a roubar da maneira mais deslavada, mais escrota possível. Mas que se pode fazer dentro de um contexto capitalista, de um contexto burguês, uma imprensa de alta eficiência social voltada para o bem público, isso se pode, sim! Dei provas: você tem o Le Monde e o Canard Enchainé, duas coisas até bem contrastantes.

- Em Nova York, há um Village Voice, e um canal 13 de televisão orientado como serviço público. Por que no Brasil não existem condições, neste momento ao menos, de se ter uma imprensa alternativa - mas não marginal - de grande penetração na sociedade? Por que não existe isso?

Millôr - Respondo voltando àquela velha anedota de Deus criando o mundo: todo mundo conhece. Alguém (havia mais "alguém" por ali?) reclamou que Deus tinha feito este país maravilhoso, sensacional. O Chile foi feito cheio de terremotos, o Paraguai tinha pântanos incríveis, outro país tinha furacões, o outro tinha desertos e o escambau e, de repente, no Brasil não tinha nada desastroso: florestas maravilhosas, mares maravilhosos, montanhas lindas. Aí Deus parou e disse: "Espera porque você vai ver a gentinha que eu vou botar lá".

- Que tipo de imprensa poderia contribuir melhor pro bem social?

Millôr - Estou pensando, além dos que já citei, no Village Voice. Hoje, um jornal rico. Já é até um jornal do sistema. Talvez hoje, curiosamente, jornais maiores, como o Washington Post e o New York Times, para falar dos dois que sempre se confrontam, ajam mais em função do bem público do que o Village Voice. Mas a imprensa alternativa (e o Village Voice foi um dos seus grandes exemplos), eu acho que ela é a grande solução para a liberdade de expressão. Os jovens precisavam se conscientizar disto. Saber que eles podem fazer um jornal que, ocasionalmente, vai ficar preso ao bairro, mas é importante que o bairro seja protegido, é importante que as misérias do bairro sejam mostradas ao poder público, até que o poder público chegue àquele negócio mínimo (que é o máximo!) que é consertar o buraco da rua. Não se vai partir para a solução do mundo partindo do macrocosmo; precisamos partir do microcosmo, não tenha dúvida nenhuma. Cristo começou com uma cruz só. Essa pretensão do homem de fazer o organograma universal acaba em Delfim Neto, acaba em tecnocracia, acaba em "herói". E chega de heróis. O homem tem que se convencer de que o mais importante de tudo é o dia a dia. O homem vive é todo dia. A maior utopia é a resistência diária. Ser herói é fácil. Herói se faz em três meses. Tem amigos nossos, feito o Gabeira, que fazem três meses de heroísmo, viram heróis de todos os tempos e passam a viver disso. E é aquele negócio, é bicha porque está na moda, elogia mulher porque está na moda, é incapaz de dizer alguma coisa contra a corrente, mesmo que a corrente seja lamentável, odiosa, reacionária.

- E você acha, por exemplo, que os jornais alternativos estão contribuindo pra alguma coisa neste sentido no Brasil?

Millôr - Neste momento estão um pouco em recesso. Mas de qualquer forma estão contribuindo. A maior contribuição que foi dada à imprensa brasileira, nos últimos tempos, foi a imprensa opcional a partir do Pasquim, não tenho dúvida nenhuma. Mas a própria abertura forçou um pouco o recesso no setor. A própria abertura trouxe junto muita vigarice, os caras estão explorando demais o sexo, estão explorando o homossexualismo, o sensacionalismo: pegando os vícios da outra imprensa. A coisa essencial é "vender". Mas continuo achando que a imprensa opcional é uma solução. Bem feita, essa imprensa opcional forçará a grande imprensa a dar cobertura a certos assuntos. Cobra! Envergonha! Força! Aquele negócio: o socialismo força o capitalismo a ceder em certas coisas. Você pega o Manifesto do Partido Comunista do Marx: das oito ou dez exigências básicas do Marx, pelo menos uns seis itens nem Uganda deixa de aplicar hoje em dia. O imposto de renda é um deles.
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(*)No início da década de 1980, a revista "Oitenta", inspirada na “Granta” inglesa, entrevistou o escritor e jornalista Millôr Fernandes por mais de sete horas.
Colaboração de "Walter Gomes" walgom@uol.com.br

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O   M E N I N O,   de  CHICO ANYSIO
<Chico Anysio na Primeira Comunhão
RIO - Num Natal, já faz alguns anos, Chico Anysio escreveu um texto e pensou em usá-lo na TV Globo. Acabou não fazendo isso. O texto permaneceu inédito e agora é publicado com exclusividade pelo O GLOBO. Trata-se de um texto autobiográfico, em que o humorista — que morreu na sexta-feira passada, aos 80 anos — relembra o menino que um dia foi.
            Apesar do tom melancólico e triste, há uma passagem bem-humorada, quando ele diz que o mundo pode ser um inferno ou uma badalação, dependendo se ele é visto pelo escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues ou pelo novelista Gilberto Braga.
            O texto mostra o Chico Anysio já adulto procurando pelo Chico Anysio ainda criança, um menino de 11 anos, comum, tímido, com grandes olhos, "desproporcionais ao tamanho do rosto".
            Nessa busca, ele relembra um amor não correspondido, os brinquedos de infância, as roupas de época, os sentimentos de então. Um autorretrato revelador e inédito de um grande gênio do humor nacional. Leia abaixo o texto:
O menino, de Chico Anysio
            Vou fazer um apelo. É o caso de um menino desaparecido.
Ele tem 11 anos, mas parece menos; pesa 30 quilos, mas parece menos; é brasileiro, mas parece menos.
          É um menino normal, ou seja: subnutrido, desses milhares de meninos que não pediram pra nascer; ao contrário: nasceram pra pedir.
          Calado demais pra sua idade, sofrido demais pra sua idade, com idade demais pra sua idade.
          É, como a maioria, um desses meninos de 11 anos que ainda não tiveram infância.
          Parece ser menor carente, mas, se é, não sabe disso. Nunca esteve na Febem, portanto, não teve tempo de aprender a ser criança-problema. Anda descalço por amor à bola.
          Suas roupas são de segunda mão, seus livros são de segunda mão e tem a desconfiança de que a sua própria história alguém já viveu antes.
         Do amor não correspondido pela professora, descobriu que viver dói. Viveu cada verso de "Romeu e Julieta", sem nunca ter lido a história.
         Foi Dom Quixote sem precisar de Cervantes e sabe, por intuição, que o mundo pode ser um inferno ou uma badalação, dependendo se ele é visto pelo Nelson Rodrigues ou pelo Gilberto Braga.
         De seu, tinha uma árvore, um estilingue zero quilômetro e um pássaro preto que cantava no dedo e dormia em seu quarto.
         Tímido até a ousadia, seus silêncios grita$nos cantos da casa e seus prantos eram goteiras no telhado de sua alma.
         Trajava, na ocasião em que desapareceu, uns olhos pretos muito assustados e eu não digo isso pra ser original: é que a primeira coisa que chama a atenção no menino são os grandes olhos, desproporcionais ao tamanho do rosto.
         Mas usava calças curtas de caroá, suspensórios de elástico, camisa branca e um estranho boné que, embora seguro pelas orelhas, teimava em tombar pro nariz.
         Foi visto pela última vez com uma pipa na mão, mas é de todo improvável que a pipa o tenha empinado. Se bem que, sonhador de jeito que ele é, não duvido nada.
Sequestrado, não foi, porque é um menino que nasceu sem resgate.
         Como vocês veem, é um menino comum, desses que desaparecem às dezenas todas os dias.
Mas se alguém souber de alguma notícia, me procure, por favor, porque... ou eu encontro de novo esse menino que um dia eu fui, ou eu não sei o que vai ser de mim.
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Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/um-autorretrato-inedito-de-chico-anysio-4428439#ixzz1r5ekM3kg
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COLABORAÇÃO DO LEITOR DIDI AVELINO, RIO DE JANEIRO.
OSWALDO DE SOUZA E A MODINHA
postado por O Santo Ofício - abril 1, 2012
(Transcrito do NOVO JORNAL) [Natal, 01 de abril de 2012]

Por Franklin Jorge

Do tempo em que o maestro Oswaldo de Souza e Dona Lourdes nos recebiam para o almoço, jantar, ou simplesmente para tomarmos um drinque de fim de tarde, quase todos estão mortos. O professor Henrique Batista, o maestro Waldemar Henrique, e, mais remotamente, o escritor Luis da Câmara Cascudo [a quem chamava de Cascudinho] e Dona Dahlia, Grácio Barbalho e Dona Zoraide, as cantoras líricas Atenilde Cunha, dormem profundamente. Sobrevivemos poucos dessa época: Anna Maria Cascudo Barreto, Camilo Barreto e este escriba que volta pela memória a curta e acanhada Rua do Motor, no Areal. Uma noite, creio que encontrei lá, num jantar, o jornalista Vicente Serejo e Carlos Lira.

Oswaldo era um acontecimento. Trabalhara no Embu, em São Paulo, com o polígrafo Mário de Andrade, mas creio que dele não tinha boas lembranças, ao contrário de seu grande amigo, Câmara Cascudo, que era chegado ao autor de “Macunaíma”. Era cheio de manias e, apesar disso ou por espírito de contradição, odiava os velhos maniáticos; na verdade, tinha horror á velhice e ao provincianismo. Seria a sua principal mania não ter manias. Era um perfeccionista em tudo.

Compositor requintado, fazia parte de uma geração de músicos abençoada por predecessores ilustres, como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Alberto Nepomuceno, Francisco Mignone, Oswaldo Lacerda, Villa-Lobos… Era amigo de Waldemar Henrique, que o jovem Cascudo interpretava ao piano com virtuosidade, embora nunca tivesse estudado música. Como critico musical, muito arguto e sensível às individualidades, dizia-me Oswaldo do virtuose Cascudo que ele conheceu em pessoa, na cidade de Nova Cruz, no inverno de 1918.

Recebia como um grão-senhor, com distinção e savoir faire. Gostava de fabricar licores caseiros de pitanga e jabuticaba – sua especialidade -, apreciadíssimos por todos os que freqüentavam aquela casa de onde se descortinava uma nesga de mar. Gostava de conversar e beber uísque quando acompanhado. Ao tempo em que freqüentava a sua minúscula casa cheia de atrativos e raridades, como o quadro pintado por Anita Malfatti – que trouxe do seu tempo de servidor público em São Paulo -, conversávamos sobre a crônica secreta da cidade e sobre a esfera da música que dominou em sua mocidade laboriosa. Tínhamos em comum a amizade do maestro paraense Waldemar Henrique, autor de Tambatajá, que o visitava toda vez que passava por Natal voltando para a sua Belém.

Autor de algumas preciosidades musicais, como “Pingo d´água”, notável na interpretação de Atenilde Cunha, Oswaldo realizou notável pesquisa, coletando as canções dos barqueiros do rio São Francisco, publicadas em dois volumes pelo Ministério da Educação e Cultura. Mas, a sua grande pesquisa, a pesquisa que o consagraria, estava destinada a ser sobre a Modinha norte-riograndense, sobre a qual ele nos falava com entusiasmo e às vezes lia algum fragmento desta que seria a sua magna obra, como historiador da música. A obra que deleitaria a sua velhice, vendo o mar do seu terraço, enquanto a escrevia. Embora trabalhasse lentamente, à medida que ia escrevendo o livro, lia-nos o resultado de seus esforços, em reuniões que culminavam, geralmente, com um delicioso jantar. Assim, em 1984, chegou a publicar em plaquete “A modinha” pela Nossa Editora, pequeno fragmento de uma obra que se agigantava com o passar do tempo.

Pararia alguns momentos, para fumar o seu cachimbo e pensar quanto sua vida fora boa. Quanto a aproveitara, em seu hedonismo musical, elaborado segundo uma verve popular filtrada pela cultura e o talento do artífice. Era um grão-senhor e, como tal, recebia-nos, servindo-nos em seus cristais e Limoges, fumando e bebendo o seu uísque com espírito e vagar, enquanto Dona Lourdes, uma paulistana quatrocentona, duma dessas famílias que tem o nome em algumas ruas dos Jardins; educadíssima e elegante, cuidava para que tudo saísse a contento.

Nos últimos anos, após a morte de seu amigo Cascudinho, não foi mais visto pelas ruas de Natal. Às vezes, viajava para o Recife por alguns dias, segundo me contaria Henrique Batista, em almoço em Ponta Negra, que passara a vê-lo só muito raramente, por que não simpatizara com um seu novo amigo que passou a monopolizá-lo. Aos poucos, os outros também foram sendo contagiados por esse espírito de auto-exclusão e reduziram ou deixaram de visitar o velho músico modernista, que representara para a nossa cultura musical papel semelhante ao da poesia Jorge Fernandes. No caso de Oswaldo, um músico erudito trabalhando uma matéria popular eclética.

As Modinhas, combustível dos saraus e das tocatas do seu tempo de moço, seriam a alma nostálgica e melancólica de Natal, cidade que, desde o seu surgimento, amou a música e a exemplo de outras cidades de tradição portuguesa, teve os seus outeiros, suas cantatas e serenatas rituais. Pertencente a uma corrente musical nacionalista, Oswaldo pesquisou os ritmos populares e deles se abeberou para compor sua arte alegre e comunicativa. Fez aqui o que o maestro Waldemar Henrique fez pela música do Pará, sua terra natal cheia de magia e sortilégios florestários. Suas chulas marajoaras seriam, certamente, as Modinhas que tanto o encantara desde a mocidade, quando a cidade não se fartava nem enjoava de seus menestréis que saíam às ruas em noites enluaradas.

domingo, 8 de abril de 2012

P Á S C O A
Páscoa (do hebraico Pessach - Êxodo 12, 14, significando passagem através do grego Πάσχα). Para os Cristãos significa a vitória da Ressurreição de Jesus Cristo depois da sua morte por crucificação; Para os Judeus é a vitória da Libertação do cativeiro do Egito para a Terra Prometida; Os Muçulmanos não festejam propriamente a Páscoa, mas a festa da primavera, coincidindo com o mesmo período. Contudo, em tal oportunidade sempre será a Renovação da Fé Islâmica.

A Páscoa não representa confronto, mas restauração, confirmação de crenças, renovação do amor entre os povos e com Deus.

Aos Meus Amigos Cristãos, Judeus e Muçulmanos, no respeito da fé de cada um, o abraço fraterno de Páscoa.

Carlos Roberto de Miranda Gomes e Família.