sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ZÉ FÉLIX, O MEU IRMÃOZINHO MAIS VELHO


Óleo sobre tela de Alice Brandão


Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas
cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. (Manoel de Barros)


Escrever não é fácil. Quando a folha em branco alveja a imaginação, então a coisa fica preta. Derna tresontonte tento escrever sobre um amigo, rico em estórias de sofrimentos e de risos, e, mesmo com tudo guardadinho na memória, a emoção fechou com correntes e cadeados o pensadouro. Que fazer? Lutar contra a correnteza, afoito, fiado no acaso que por certo vai botar letras no papel e as acontecências acabam de fato acontecendo?
Então, vamos lá, nadando de costas com medo de piranhas, que nem um pressentido náufrago, pela própria vida.
Era uma noite negra, negra, sem luar, como os cabelos da amada de Castro Alves. Chovia lâminas d´água e as poças, nas ruas e nas calçadas, engoliam os bagaços, as carcaças e a vida minúscula da feira da véspera.
Um vulto vestido com roupas de mulher vagueava pelo breu como quisesse se proteger da chuva no manto negro da noite. Parou numa esquina, debaixo de um toldo. A luz embaçada de um lampião revelou cintura volumosa, talvez uma barriga de prenhez.
A mulher pôs-se de cócoras e durante alguns minutos grunhiu como os animais feridos e depois usando a sua voz de gente, variou dos praguejados aos pedidos de compaixão e, finalmente, aos gemidos.
Um gato passou ao largo, atravessando a rua e deu um fanhoso miado. Seria preto, o felino? Certamente, a julgar pela mancha quase que apenas sugerida da sua silhueta. Azar na certa!
Um vagido incerto, mas vigoroso, misturou-se ao ruído dos pingos d´água.
A mulher não mais chorava, não praguejava, nem pedia misericórdia. Jazia imóvel na calçada, dobrada sobre si.
A alguns metros dali, havia uma igreja, cujo perfil se impunha mesmo com a imagem embaciada pelo temporal.
Era madrugada. Pela queda da friagem, se o tempo estivesse desarmado, a barra do dia já estaria boatando as traquinagens e as tragédias da noite.
De repente, uns passos apressados chapinharam os veios d´água. Um vulto foi crescendo na direção da mulher caída. Os passos emudeceram. Um homem debruçou-se sobre o corpo imóvel e ouviu-se um grito de espanto, certamente do madrugador. Ele pôs no braço um pequeno volume, olhou ao seu redor e se pôs a correr, ignorando a lama e as poças d´água. Abriu a pesada porta da igreja e foi engolido por ela.

Naquela noite veio à luz, nas trevas, o menino que seria conhecido por Zé Félix, adotado e batizado pelo sacristão Félix José dos Santos, também chamado “Félix Folote”, que lhe deu o nome de Severino José dos Santos. A mãe, que morrera ao trazê-lo à vida era uma prostituta veterana, apelidada Maria-olho-de-gato, por conta dos olhos azuis. O pai, nem a defunta soubera, tantos eram os inquilinos da sua rotativa cama do cabaré “Riso da Noite”.
A cidade era Goiana, estado de Pernambuco, famosa pela produção de açúcar e de rapadura, e pela fartura de caranguejos e goiamuns. O ano? Entre 1920 e 1930. O dia em que foi expulso do feto materno foi o festejado 7 de setembro. Viveu a desdita de lembrar essa data como o dia de finado da mãe. E, mesmo quisesse celebrar, se filho insensível fosse tanto que não respeitasse a perda do ventre que o pariu, a grandeza do dia da pátria, apequenaria o seu aniversário.
Desgraça é assim, quando vem, chega completa: faz barba, cabelo, bigode e ainda bota água de cheiro, que queima a pele, mas, de consolação, deixa um perfuminho.
O sobrevivente foi um menino “mofino”, cercado pela neura dos pais, que o acolheram já velhos e o tratavam como se fora um neto fatalizado pela orfandade. Vivia perseguido pelo apelido do pai adotivo, já que o garoto era conhecido como Zé de Félix, e o “Félix” era um apelo mais do que forte, irresistível, para juntar o “Folote” do pai. Uma questão de azougue, absolutamente compreensível e justificável. Ficou então sendo chamado de “Félix Folote”, como o pai. E o “folote” na língua o povo, indica frouxura, coisa elástica ou algo muito largo. Nas cidades interioranas alinha-se automaticamente com a propriedade elástica ou o alargamento do fió-fó.
O sofrimento, que nem uma sombra persistente de um mau agouro, o acompanhou toda a sua infância pobre. Passou a meninice em brancas nuvens. Literalmente. O único momento em que desfrutava de paz era quando ficava no campanário da igreja descobrindo as formas sugeridas pelas nuvens: os carneirinhos, principalmente.
Os coleguinhas o rejeitavam pela triste figura, pelas roupas desajustadas e fora de moda e como que o agrediam com o apelido que sugeria um desvio sexual que nunca tivera, e que justiça se faça, nunca abusaram dele nesse sentido.
Quando não olhava as nuvens, brincava sozinho na casa reservada ao sacristão, geminada à igreja. Seus brinquedos eram improvisados: carrinhos de carretéis de madeira que sobravam das linhas de costura da mãe; bolas feitas de meias irrecuperáveis, com enchimento de retalhos e trapos (Aliás nunca foi de jogar bola. Os pés chatos, colados no chão, dificultavam o movimento e o cansavam). Bonecos de sabugos de milho: a cabeça feita de tampa de remédio, as pernas e os braços de velhas agulhas de tricô. Uns aros de ferro enferrujados das barricas de bacalhau que fazia girar ladeira abaixo...
Sua maior alegria era ouvir o velho rádio a galena do pai. Fascinava-o a música, qualquer uma, melhor ainda se fosse cantada: Vicente Celestino, Chico Alves, Augusto Calheiros, Orlando Silva, Sílvio Caldas, as irmãs Batista, Dalva de Oliveira, Nora Ney...
Assim era, e tanto não fez que a infância se acabou também em brancas nuvens.
Morta a mãe, o pai, esclerosado, foi recolhido a um abrigo. Já rapazinho feito, aceitou a proposta de um torneiro mecânico especialista em caldeiras e moendas de engenhos para auxiliá-lo no ofício em Ceará-Mirim, no estado do Rio Grande do Norte, onde o futuro patrão se estabeleceria para atender à demanda dos usineiros e senhores de engenho.
Quando o torneiro se estabeleceu, foi o rapaz, de fato, deslocado para auxiliar a mulher de Zebedeu – vamos chamá-lo assim – nos serviços domésticos. Aprendeu a lavar louças, varrer e encerar o piso, fazer a limpeza da cozinha e banheiros, e, principalmente, a cozinhar.
Durante algum tempo a sua vida encontrou alguns porquês e muitos senões. A casa de Zebedeu ficava na rua Grande, próxima à estação ferroviária. Distraía-se com as chegadas e partidas dos trens (denominados de “Motriz” e “Horário”) enquanto vendia pastéis e bolos aos passageiros, feitos por dona Zizinha (o nome também é falso, para preservar a identidade da senhora), mulher do patrão e sua atribuída patroa.
À noite ficava rodeando a sala que nem cachorro sestroso, se chegando devagarzinho para perto do rádio, onde a família inteira se acomodava. Geralmente a manobra dava certo. Salvo quando chegava um estranho “de cerimônia” para visitar o casal. Então era enxotado sem cerimônia – só faltava o “xô” pra ficar igual a bicho incômodo no meio da casa.
Vez por outra variava de audiência. Deixava o rádio e ia ouvir a amplificadora local, principalmente nas noites das tais “visitas de cerimônia”. Era uma festa. O locutor era seu amigo e lhe proporcionava um tratamento especial, do tipo “Acabou de chegar à Amplificadora Flor do Vale, o meu amigo Zé Félix, para abrilhantar o nosso programa”. E retocava a homenagem, quando não havia nenhuma dedicatória musical nem “reclame” comercial, tocando um disco de sua preferência. Alcides Gerardi dava na medida, mesmo com os chiados das 78 rotações de tanta rodagem.
O tempo foi passando, entre o trabalho e as distrações – o trem, o rádio e a amplificadora, a feira aos sábados (ou domingos, dependendo da vontade dos usineiros), o “sereno” nas festas da burguesia, e, valha-o Deus, a descoberta do cinema, que passou a ser sua maior distração.
Roía as unhas nos seriados de Nyoka, Tarzan, Flash Gordon e Zorro. Vibrava com a valentia de Roy Rogers, Gene Autry, Bill Elliott e John Wayne. Quase se mijava de tanto rir com as comédias de Carlitos. Chorou na “Dama das Camélias” e outras interpretações de Greta Garbo. Dançou com Fred Astaire e Ginger Rogers. E saía dos filmes de caubói caracterizado como um deles, com os braços bem afastados do corpo, prontos para o saque, e aquele olhar sombrio, de baixo pra cima, o cigarro displicente, no canto da boca...só faltava o chapéu arriado na testa com a aba meio quebrada.
(Minha irmã e eu temos gratíssima recordação do cuidado com que ele nos dedicava quando íamos ao cinema de Jorge Moura, que ficava em frente à nossa casa. Punha-nos no extremo da fila de cadeiras para que ninguém se sentasse próximo de nós, e quando chovia, atravessava a rua levando-nos nos braços. Divertia-nos também, contando-nos “causos” fantásticos e relatos de filmes que já assistira e o impressionaram).
Um dia, criou coragem e apresentou-se no programa “Domingo Alegre”, no cinema de Jorge Moura, fantasiado de Carmen Miranda, cantando “Tabuleiro da Baiana”. Foi um sucesso. A cidade o adotou como artista. Tinha uma bela voz, grave e rica em modulações, embora tivesse usado o falsete na gloriosa apresentação com balangandãs e chapéu ornamentado com frutas de cera, típico da “garota notável”.
A glória não lhe trouxe benefícios no trabalho doméstico. Zebedeu enfadou-se da vida de torneiro e decidiu montar um restaurante, valendo-se de dois argumentos animadores: o conhecimento culinário de sua mulher Zizinha, que contava com o providencial auxílio de Zé Félix, e um mercado consumidor florescente e desassistido, composto pelos passageiros dos trens que procediam de Natal e retornavam de Lajes, com parada obrigatória em Ceará-Mirim.
Mãos à obra e o restaurante revelou-se um ótimo negócio, confirmando a opinião do torneiro-mecânico.
Só não foi bom negócio para o auxiliar de copa, cozinha e mesa, também encarregado da limpeza e um agilíssimo garçom. Precisava ser uns dois ou três para atender à freguesia e ainda ajudar à patroa na cozinha. As reclamações terminaram por enfezar quem já era azedo por natureza, o velho Zebedeu, que, quando em crise de irritação, cada vez mais freqüente, quebrava pratos e mais pratos na cabeça do rapaz, quando não jogava pesados copos de vidro para atingi-lo.
Demitiu-se do emprego e foi ser “biscateiro” de mil e uma utilidades. Desde “faxineiro” a garçom, cozinheiro, animador de festas, jardineiro, babá. Justiça seja feita, em alguns desses ofícios ele era inigualável. Entre outras qualidades, tinha “mão verde” - o que plantasse ou cultivasse, nascia e crescia viçoso e de beleza incomparável.
Ninguém encerava um piso como ele. O “mosaico” como se chamava antigamente o piso cerâmico, se convertia em espelho, expondo, às vezes, a própria roupa íntima das donas de casa. Manobrava a enceradeira manual de modo cadenciado e metódico, geralmente ao ritmo das melodias com que encantava os seus ouvintes domésticos. Dava gosto.
Como animador de festas era como um encantador de serpentes. A platéia ficava fascinada, tanto com os números de canto, quando imitava Dick Farney, como quando contava passagens anedóticas de sua própria vida. Sua figura era cômica. Precocemente calvo, a testa era muito larga, os fios de cabelo reunidos nas têmporas, eram meio sarará e enroladinhos feitos molas. O nariz era despropositadamente grande em relação ao rosto, e adunco. A boca era funda e os dentes falhados pelas perdas também precoces. O queixo pequeno e equivocadamente pontudo.
(A propósito da boca funda e dos dentes falhados, muito tempo depois, quando conseguiu com o seu amigo “Doutor Ivan Péplos” (Ivan Pípolo, estudante de odontologia, á época), um “casal de chapas”, ria por brincadeira para melhor exibir os novos recursos fisiológicos e estéticos. E ainda se vantajava de outra vantagem prazerosa – quando doessem os dentes, bastava retirar a dentadura e pô-la num copo com água.)
Era de baixa estatura, talvez metro e meio. E andava com as pernas muito abertas, (eram um tanto tortas, como os caubóis dos filmes de faroeste) e os pés na posição de “quinze para as três”. Queixava-se muito de um incômodo nos pés, exageradamente chatos, tanto que se colavam ao chão, como ventosas. Tinha até calos no lugar onde devia ter a cava. No Ceará-Mirim, tal anatomia era conhecida como “pés de mata-formigas”.
Salvavam-se, e com louvor, os olhos, azuis como os de sua mãe, a finada Maria-olho-de-gato. A voz grave, cálida, de bom locutor de rádio. A alma alforriada, alegre, apesar de tudo. Uma imaginação que desconhecia limite. E uma inteligência incomum.
Esforçava-se para enriquecer o seu vocabulário, preferindo as palavras incomuns, às quais dava conotação bem pessoal. Lembro-me de “nostrogiado”, que indicava dor de barriga; “xixiado”, quando ficava sem fôlego; “otróras”, quando se referia a antigamente; “repitivamente”, no sentido de seguidamente mesmo.
Quando esteve com a garganta inflamada insistiu com meu pai para lhe dizer o nome científico do orgão afetado (amídalas). Meu pai nem pestanejou: “testículos” e assim ficou sendo até receber uma duríssima reprimenda de minha mãe.
No “diz-me com quem andas”, enturmou-se com uns boêmios que freqüentavam o Bar de Silvio Brandão, onde prestava serviços, e deu para beber. Quando exagerava nas doses de cachaça, freqüentemente entrava em coma alcoólico. Numa dessas crises, resolveu dar mais realismo à caracterização favorita de caubói, armou-se com o revólver do patrão e ficou praticando saques rápidos. Numa das vezes em que empunhava a arma retirando-a do coldre imaginário, o cão foi ativado e a arma disparou atingindo-o num quadril,
Noutra ocasião, em Muriù, meu pai foi chamado para atendê-lo. Fora um ato de quase-suicídio. Morria de amores por “Santa”, uma empregada de Manoel Pereira, que namorada de um motorista que atendia pelo sugestivo apelido de “Amor”.
Apesar de ter tudo para não dar certo, o namoro da “santa” (de pau oco) com o “amor” (pecaminoso) do motorista, versado no complicado trânsito dos cabarés, perdurava, e parecia cada vez mais consolidado, para desespero de Zé Félix que amava a moça em segredo. Os porres ficavam por conta da rejeição, coisa de mal amado mesmo, de amor sem esperança, bem ao gosto dos folhetins, dos dramas circenses e das músicas de “roedeira” de antigamente. Era para esquecer a desdita.
Meu pai tratou dele, aumentando o seu nível de glicose, e o levou para a nossa casa. Quando ele se recuperou, o médico o advertiu que numa dessas crises ele poderia até morrer. Intuindo a natureza impressionável do rapaz, assustou-o tanto com explicações científicas e pseudo-científicas sobre os males do alcoolismo, que Zé abandonou a bebida enquanto viveu. Exceto num único episódio em que fui o responsável pelo desvio de sua conduta (*).
Daí em diante foi adotado por nós, que nunca o tivemos como empregado, mas como alguém que colaborasse com os serviços da casa e partilhasse das mesmas regalias e mimos da família.
Tinha um passarinho na alma que não suportava a gaiola, precisava de espaço para voar, por sua conta e risco, navegando esse mundão de Deus. Vez por outra sumia, sem qualquer aviso e quando, tempos depois retornava, relatava estórias do Paraguai, do Paraná, e de outras lonjuras. Ás vezes daqui-perto, de Lajes, Macau, Baixa Verde, natal, sob o teto de Zezo Roque ou do doutor Dutra.
Contou-me que tinha sido “garaxué” numa pensão de mulheres na fronteira do Paraguai. E que viu muita gente cair morta por causa de bebida e de paixão. E das vezes em que foi encarcerado por pequenos furtos – o que ocorria de vez em quando porque sempre o exploravam, nunca lhe pagavam, para os seus empregadores ele só valia o prato de comida e o quartinho para dormir.
Revelou-me que nunca se sentiu tão orgulhoso de ser nordestino quanto certa vez assistia a um filme num cinema de Campo Mourão, no Paraná. O filme era “O Cangaceiro”. Depois de muita matança e de muita macheza, um paranaense muito alto e forte de voz grossa e chapelão na cabeça levantou-se e disse pra quem quisesse ouvir: “Isso que é terra de macho!” Saíu do cinema forçando o já arrastado e cantado sotaque pau de arara e ainda complementava para que não houvesse dúvidas: “Sou nordestino da gema”
Ele não escondia o machismo, nem mesmo nas preferências políticas. Quando se instalou o conflito dos mísseis cubanos, na década de sessenta, anunciou a mim e ao meu pai que Keni (o presidente John Kenneddy) era frouxo; macho era Cruxév (Kruschev, o premier soviético), explicando o porquê da preferência: o homi só faltou jogar os sapatos na cara de Keni. (referia-se à cena, transmitida pela televisão, em que o russo tirara o sapato e batia com ele na mesa de reuniões da ONU, em protesto pela invasão americana à Baía dos Porcos).
(Quando eu era Secretário de Segurança, levava-o comigo para não fazer nada, apenas dar-lhe o prazer de ser o amigo do rei, situação que o deliciava. Quando eu chegava à Secretaria, os policiais que guarneciam a entrada do prédio perfilavam-se e faziam continência. Depois eu soube que invariavelmente, Zé Félix devolvia as continências, às minhas costas).

Disse-me também de quando viajou pela primeira vez de avião, com o doutor Dutra, a caminho do Paraná. A estranheza começou no avião, quando a aeromoça pediu que pusesse o cinto. Não soube o que fazer, nem encontrou o tal cinto. Estava sentado sobre ele. Depois, como apertá-lo, no que foi salvo pelo padrinho Dutra (Chamava todo benfeitor de “padrinho”, inclusive o meu pai). E quando o avião saiu do chão? Parecia que o “estombo” subia pra cabeça, diferente de quando pousava, aí a cabeça se enfiava no “estombo”.
Pernoitou no Rio de Janeiro, num hotel. Quando acordou, buscou o banheiro, servindo-se do sanitário e lavou o rosto pra tirar a ressaca do sono. Quando encontrou o padrinho comentou que no Rio a bacia de lavar o rosto era diferente, tinha um chuveirinho pregado num vaso branco que jogava água de baixo pra cima. Foi ruim porque se molhou todo. Concluía a estória dizendo que o doutor Dutra o havia esclarecido que aquilo era um tal de “bideco”, e explicou a sua serventia. Arrematava a estória com uma cara de nojo.
Não dava sorte com mulher. A primeira vez que acasalou, descobriu que quando saía de casa para exercer as suas funções de operador de filmes, um amigo(?) o substituía nos deveres de macho. Avisado por outro amigo(?) deu uma incerta. Deixou o projetor ligado e correu para a casinha, que ficava próxima ao cinema. Não deu outra. Debaixo do lençol os dois pareciam gatos pernoitados no telhado. E a mulher miava de um jeito como nunca fizera com ele.
Tentou o suicídio sem muito entusiasmo e os amigos o contiveram.
De outra feita, já com outra mulher, Cristina, aquela que deu como o amor de sua vida, decidiu dar uma de “homem”. Viajaria conosco a Boquim, em Sergipe, como fazíamos sempre nas férias do meio do ano, mesmo contra a vontade da mulher. Dito e feito. Quando chegou, a mulher havia vendido os poucos pertences e sumira no mundo. Sofreu ,mas incorporara ao ego e à opinião pública a fama de macho.
A melhor fase de sua vida aconteceu quando José Maria Palhano, dono do Cine Glória, deu-lhe também a função de locutor. Dava gosto ouvir as propagandas dos filmes pela amplificadora do cinema.
“Hoje à noite, às oito horas da noite, no Cine “Gróra”, com o finado Tirano Pôver (Tyrone Power) e Rita Reorte (Rita Hayworth), “Sangue e areia” - em tenicolo (technicolor), sensacional, não percam! – no título, engrossava a voz e quase soletrava as letras. E botava um entusiasmo persuasivo na parte final da convocação.
Como operador de projeção, superava-se cada dia mais na sincronização entre o término de um carretel e o início da outra parte. Só era perceptível a troca, por causa dos números que apareciam no início da fita. Depois, aprimorou-se ao ponto em que já colocava o carretel no início na cena.
Deu-me uma “bronca” danada quando me encontrou sentado na platéia para assistir ao filme Paris à Meia-Noite, espetáculo impiedosamente açoitado pelos sermões do Padre Rui. Uma sessão exclusivamente masculina fora marcada para dez horas da noite, após a sessão normal. Argumentei com ele que já era rapaz feito. Cansado de discutir, disse-me que no dia seguinte iria dizer ao padrinho.
O filme era de sexo explícito, não tinha nada a ver com erotismo. Era sacanagem mesmo, nem enredo tinha. Eram cenas sucessivas de garanhões e prostitutas nas posições mais originais, alternadas com a recorrente prática do sexo oral. Cumpriu a promessa e me denunciou ao meu pai. Depois, já serenado pela compreensão do seu padrinho, sempre tolerante, deu-me alguns pedaços de celulóide, recortados do filme, guardados até há pouco tempo atrás, bem na direção contrária do lírico Cinema Paradiso, de Tornatore.
Nas viagens a Sergipe, nas nossas férias escolares, ele era a atração de Boquim, pequena cidade onde nasceram minha mãe e minha irmã e onde meu pai passara a adolescência. Lá, era amigo do delegado, do juiz, do padre, e sobretudo dos integrantes do clã Simões, um bando de gente alegre, arteira e bem humorada. Armavam cada presepada de arrepiar, do tipo preparar um boneco de pano recheado com gelo deitado em sua cama, o quarto iluminado apenas por uma lamparina, lá conhecida como “fifó”. Então, aguardávamos o momento do contato com o gelo e quando isso acontecia ouvíamos o grito e a saída apressada do nosso amigo. Como se dizia antigamente, era uma pândega!
Ou quando prendiam um fio elétrico na fechadura, para um choque inofensivo, mas suficiente para arrepiar os cabelos e dar uma descarga no corpo, no momento em que punha a chave.
Eram, de fato, malvadezas, mas era o modo como os meus tios se divertiam. Um deles, tio Newton, o mestre das artes dos maus tratos e travessuras, subia no telhado, segurava um gato pelo rabo e jogava-o para cima, confirmando ou não a lenda de que o felino sempre caía de pés. Coisas assim...
Um dia, o animador cultural local, Tota, resolveu encenar a peça “A louca da aldeia”. Zé Félix tinha veleidades teatrais e cinematográficas. Ofereceu-se para uma “ponta” e foi aceito. O seu personagem dirigia-se a alguém que, escondido atrás de uma moita, emitia gemidos e pedia caridade. Então o personagem de Zé Félix lhe perguntava: o que você quer, alma perdida? Quer uma reza? A alma respondia, não! Quer uma vela? De novo, não! Então ele perguntava o que queria alma tão sofredora e a suposta alma respondia: “Quero papé pra mode limpar o meu Zé Félix”.
Retirou-se indignado e nunca mais falou com Tota.
Não reclamava nem se queixava dos bem intencionados mau tratos – se isso é possível. Fingia-se indignado, mas, no fundo sentia-se satisfeito por saber-se aceito na família. Para ele, o abuso era uma prova de intimidade e de confiança. Sabia que era amado e que poderia contar com cada um dos que o “judiavam”, como se dizia è época, uma expressão preconceituosamente anti-semita.
Quando meu pai se invalidou após a quarta (ou quinta?) trombose, ia vê-lo diariamente só para diverti-lo. E o velho “padrinho” alternava-se em risos freqüentes e também em lágrimas, neste último caso, certamente, recordando os momentos em que extraía o humor do velho amigo com sadia e lúcida compleição.
Nos idos de 1996, morávamos na Alexandrino de Alencar e Zé Félix estava conosco há cerca de um ano, vindo de outra das suas andanças. Havia conseguido aposentar-se pelo Funrural e apenas cuidava do nosso jardim para justificar a pensão – ele era assim orgulhoso. Então, queixava-se de um “ardor” intolerável no estômago. Insistimos diversas vezes para acompanhá-lo a um médico e ele se negava. Quando o ameaçávamos ele dizia que iria embora mas não pisava no consultório do médico.
Tinha dores tão intensas e insuportáveis que ficava dobrado sobre si mesmo, gemendo e com uma cor amarelo-esverdeada. Dávamos um paliativo para a digestão e um analgésico, que, segundo ele, aliviava.
Uma noite acordamos com o miado aterrorizador de um gato no nosso quintal, onde havia um quartinho que servia de alojamento para o nosso amigo. Levantei-me e cheguei a tempo de ver um gato preto pulando o muro. Fui ver Zé e ele estava deitado na posição do feto, contorcendo-se de dor. Os remédios não produziam mais o efeito sedativo e, de manhãzinha cedo, vencido pela dor intermitente, deixou-se levar ao Hospital Santa Helena, o mais próximo da nossa casa.
Foi atendido por Dr. Pedro Athiê, que lhe deu a melhor assistência possível, dado às suas condições. Estava com câncer agressivo, tanto, que o médico disse que não adiantaria a cirurgia. Era questão de dias.
Desse dia em diante, até a sua morte, minha mulher, Jailza, dedicou-se o quanto possível a fazer-lhe companhia, visto que a minha ocupação em dois expedientes me impossibilitava de lhe dar assistência efetiva. Minha companheira passou a ser, então, a sua enfermeira em tempo integral.
Posso afirmar, em sã consciência, que não lhe faltou carinho, conforto ou atenção.
Certa manhã, quando nos preparávamos para visitá-lo, fomos abordados por alguém que se dizia agente de uma funerária, dando conta da morte do nosso amigo durante a madrugada, sem qualquer aviso do hospital. Morreu sem a nossa companhia, mas não só. Tenho certeza que Félix Folote e sua mulher, Maria-olho-de-gato e o meu pai, estavam ao seu lado para conduzi-lo em sua última arribada.
Até imagino a troça que fizeram os seus amigos na recepção, ignorando a má catadura de São Pedro.
Com a sua ida, perdi as minhas melhores referências da infância.

(*) Certa noite, Célio Soares, Afrânio Cavalcanti (já falecido) e eu, fomos ao “Céu Azul” uma boate “chique” da ZBM cearamirinense dos anos sessenta, próxima à rua do Cipó, e levamos conosco Zé Félix, prometendo financiar a sua noite de amor com Da Paz, uma pequenina de pernas roliças e de seios e ancas protuberantes, por quem Zé Fèlix se babava de paixão. Mas o nosso financiamento dependia de uma caracterização que ele faria, da entrada do caubói no “saloon”.
Ele não se fez de rogado. Imitou o artista descendo do cavalo, arrumando os coldres, abrindo a porta que ele chamava de “vai-e-vem”, e, dirigindo-se a um imaginário mas previsível garçom, ao mesmo tempo em que jogava uma moeda (de um “dolare”), pedia um” tringer” (drink) e simulava entornar a bebida.
Animou-se com a própria encenação, merecedora de aplausos entusiásticos da platéia e, cada vez que alguém pedia para repetir a cena, ele ia criando mais gosto tanto que, para dar mais realismo à sua caracterização, passou a beber, de fato, um dos copos de cachaça que encontrava sobre as mesas. Depois da quinta ou sexta “lapada”, desmaiou.
Fizemos uma “cadeirinha” com os nossos braços e o levamos para a maternidade, único centro de saúde da cidade. Lá, foi devidamente hidratado e glicosado. Quando “tornou”, chorava feito menino surrado e gritava por Cristina – o amor de sua vida, aquela que o abandonou quando viajou a Sergipe.
O mesmo Afrânio, amigo querido, chamado por nós de “Levi”, tornou-se médico e especializou-se em pediatria. Belo dia, encontro um Zé Félix acabrunhado que me revela, quase choroso, que o doutor Afrânio, gente boa, quase que o vira nascer, tinha virado pederasta. Confundira a pediatria com pederastia.

PEDRO SIMÕES, o “Pedrinho de doutor Percílio”, aqui qualificado apenas como amigo de Zé Félix

terça-feira, 7 de setembro de 2010

07/09/2010

7 de setembro de 1822

7 de setembro de 2010

BRASIL, Pátria Amada, Idolatrada, Salve, Salve;

DEUS, Criador e Redentor da humanidade, Salvai o Brasil;

Filhos deste solo sagrado, o Brasil ainda tem jeito - AME-O com todas as suas forças.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010


Ao Mestre AMÉRICO, com carinho

CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES,
Membro Honorário Vitalício da OAB/RN,
Da Academia de Letras Jurídicas do RN,
Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN,
Sócio da União Brasileira de Escritores do RN, e
Sócio do Instituto Norte-Riograndense de Genealogia.


O convite para prestar um depoimento sobre o Professor AMÉRICO DE OLIVEIRA COSTA chegou para mim como um desafio difícil, dado o fato da minha pequenez cultural para avaliar esse homem notável e sua obra.
Preferi, então, voltar aos bancos acadêmicos da velha Faculdade de Direito da Ribeira, para dali evocar os dias de convivência do circunspeto homenageado, de feições completamente amenas e andar absolutamente simétrico, impactando seus alunos com aulas diferentes, doces e profundas, de quem percorreu o mundo e, sobretudo, de quem cresceu no meio de livros em sua rica biblioteca, convivendo com seus incontáveis habitantes, amigos invisíveis em cada compêndio, que davam ao ambiente aquele cheiro característico, em que o pó tomava o corpo e se depositava nas mãos.
Pela sapiência transmitida aos seus pupilos, era fácil deduzir que a sua leitura não era apenas mecânica, explorando os olhos já bastante cansados e massacrados pelas madrugadas de leituras e que lhe impôs pesadas lentes por todo o seu tempo vivente. Penetrava na intimidade dos autores e, em cada livro, compartilhava com a alma de quem o escrevera.
Deste modo, perpetuou algumas obras e se fortaleceu com a essência que delas encontrava.
Foram algumas avenidas de volumes percorridas e incontáveis emoções, acumuladas em cada livro que o adotara. Disso tudo nos dava notícias, reproduzindo alguns trechos que o empolgavam mais recentemente, deixando-nos ansiosos para obter a oportunidade de também abraçar aqueles nobres ensinamentos – era assim um apontador de obras, facilitando a natural preguiça dos jovens leitores iniciantes, em procurá-los nas livrarias ou bibliotecas disponíveis.
Vale lembrar as palavras de MAQUIAVEL, em transcrição do homenageado no alvorecer do seu livro “O Comércio das Palavras” – vol. IV, que merecem registro:

‘Finda a tarde, retorno aos meus aposentos. Vou para minha biblioteca. Deixo, na ante-sala, as roupas poeirentas de todos os dias e visto-me como se fosse aparecer nas Cortes e diante dos reis. Preparado, assim, convenientemente, penetro nos salões antigos dos homens do passado, Eles me recebem amavelmente; em sua companhia, eu me nutro do alimento que é especificamente o meu e para o qual nasci. Ouso, sem timidez, conversar com eles, interrogá-los sobre a razão de seus atos; tão grande é sua delicadeza que eles me respondem’.

O tempo passara mais rápido do que pretendíamos e reencontramos o Mestre nas lides da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Por incrível que pareça, éramos colegas e já diferente o relacionamento. Eu já amadurecera um pouco, com mais coragem de aproximação com aquela vetusta pessoa.
Em um dos nossos encontros recebo o presente do seu livro ‘A Biblioteca e seus Habitantes’, numa primeira edição pela Imprensa Universitária, com capa de Navarro e o carinhoso oferecimento ‘Ao prezado amigo e colega Carlos Gomes, com apreço e admiração, Américo de Oliveira Costa. Natal, 3/2/77’. Foi uma glória.
Grifei várias expressões do seu pensamento, a destacar, de forma muito breve:

‘A República dos autores tem uma população variada e colorida, a viver e a movimentar-se entre sentimentos e posições extremas: ambições, entusiasmos, vaidades, idiossincrasias, louvores incompreensões, suscetibilidades, ódios...’ E mais adiante: ‘Que seria o homem sem o pensamento e a alocução? Ou melhor: sem o livro?’

Ainda em 1977, pela mesma EU recebo ‘Visões da Pátria’, como comemoração da Semana da Independência daquele ano. Nesta ‘plaqueta’, compartilhada com o aluno João Frederico Abbott Galvão Júnior pontifica o seu ardor nacionalista, em determinado momento, após aludir que todas as grandes religiões possuem os seus textos sagrados, que são recitados e comentados nos templos, nas sinagogas, nas mesquitas, nos pagodes asiáticos, conforme o ritual específico, concluindo que:

‘A religião da Pátria, porque a Pátria também é uma religião, uma crença e uma fé, porque a Pátria é espírito e moral, possui, igualmente, memória, símbolo, testemunhos, fastos, legendas ou canções de gesta, que se impõem com a mesma incoercível ardência, com a mesma projeção, constituindo-se em ideário, em exemplo, em sustentáculo de confiança e “esperança”.

E daí por diante passei a buscar seus demais trabalhos, os quais tenho em minha biblioteca, como o livro de estréia, em 2ª edição, pela Achiamé/FJA, 1982, seguindo-se da série ‘O Comércio das Palavras’, volumes I, pela ed. Presença, 1989, volume II, pela FJA, em 1991, volume III, pela mesma Fundação, em 1992 e o volume IV, pela editora CLIMA, em 1994. Nestes trabalhos seqüenciados não tenta refazer a obra anterior ‘A biblioteca e seus Habitantes’, mas são escritos paralelos, dentro dos diversos caminhos e expressões do território literário, e com o mesmo amor aos livros (advertência que faz no início do primeiro volume), que denominou de ‘Textos e montagens’, comentando consagrados autores, seus atos e suas obras, assim continuando nas publicações que se seguiram. Aqui, porém uma digressão em razão do volume II, quando, num rasgo de sentimento e justiça proclama:

‘Conta-se que, de volta do cemitério, onde acabavam de enterrar o corpo do educador Anísio Teixeira, o professor Péricles Madureira Pinho confidenciou ao escritor Hermes Lima: “Agora, temos de aprender a viver sem Anísio”. Circunstância ingrata, esta, sem dúvida, e que se pode repetir aqui e ali, na vida comum dos homens. Quando os amigos de Walter Pereira, por exemplo, retornávamos do cemitério do Alecrim, onde dele nos despedimos pela última vez, a sensação que nos polarizava era a mesma: “Agora, temos que aprender a viver sem Walter”.

É bom lembrar que Walter abrigava em sua Livraria Universitária, no segundo espaço físico que ficava a partir do Beco da Lama, a reunião regular do “Senado dos Intelectuais”, com as presenças certas, dentre outros e além de Américo, de Alvamar Furtado de Mendonça, Mário Moacyr Porto, Gorgônio Regalado de Medeiros, Coronel Leão, Humberto Nesi e, de quando em vez, de João Medeiros Filho, Luiz Romano e Edgar Dantas, enquanto, em outro local, se reuniam os integrantes do ‘Senadinho’, por onde eu transitava com tantos outros companheiros: Inácio (o bispo de Taipu), Doutores Chiquinho, Gilvan Carvalho, Roberto Furtado (Bob), Djacir Macedo, Stênio da Silveira, João Batista Costa de Medeiros, Vicente Serejo e outros que a memória perdeu neste momento.
Com a morte de Walter, a casa do Dr. Américo passou a abrigar as tertúlias culturais e o baixo clero dispersou-se.
Foi jornalista, escritor, ensaísta, e crítico literário, tendo merecido um prêmio pelo ensaio biobibliogrático denominado ‘Viagem ao Universo de Câmara Cascudo”, FJA, 1969 e republicado agora em 2008. Nesta publicação destaca sobre Câmara Cascudo:

‘Esboçar-lhe um retrato, completo e definido em todas as suas linhas e dimensões, ainda é cedo...’ E complementa: ‘Estas imagens são, assim, visões, ângulos, posições, projeções sem dúvida insuficientes e inconclusas, de quem andou percorrendo, paciente e sistematicamente, áreas julgadas mais significativas e ricas do mundo por ele construído.’

De sua produção literária só não conheço ‘Seleta de Luís da Câmara Cascudo’, da editora José Olimpio, 1972 e 1976.

Participou de várias antologias e tem dois trabalhos biobibliográficos em sua homenagem, de autoria de Vitória dos Santos Costa, Sebo Vermelho, 2003 e Memória Viva organizado por Carlos Lyra, EDUFERN, 1998.
Este cidadão do nordeste entrelaçou a cidadania de vários irmãos vizinhos, era macauense de 22 de agosto de 1910; filho do baiano Pedro Vicente da Costa e da potiguar Victória Petronilla Alves, casado com a pernambucana Josefa dos Santos Costa e seus filhos Pedro Américo, José Américo, Vitória, Paulo Américo e Carlos Américo, todos natalenses. Faleceu em Natal em 1º de julho de 1996. Bacharel da tradicional Faculdade do Recife, turma de 1935, fundador da Faculdade de Direito de Natal, um dos fundadores da Aliança Francesa de Natal, foi também político, magistrado na condição de jurista e diplomata honorário. Recebeu inúmeras condecorações nacionais e estrangeiras. Enfim, um homem notável cujos demais atributos certamente serão destacados pelos demais participantes desta homenagem.
Resta-me dizer da minha gratidão pelo convite em colaborar nesse preito de saudade e justiça proporcionado pelo seu neto, o jovem escritor João Eduardo de Carvalho Costa.

domingo, 5 de setembro de 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

JUSSIER, A CONCHA E A PÉROLA



Vivo que te quero vivo
Renascente
Redivivo
Vivo que te quero vivo
Vivo como antigamente
Sem sair de nós ás pressas
Sem partir subitamente
Sem apagar-se tão cedo
Qual círio exposto ao vento.

Vivo que te quero vivo
Na tão oculta bondade
Na escondida verdade
De um amor não proclamado
Na perfeição
No cuidado
Na incessante entrega
Na construção de uma tela
Na beleza de um traçado

Trecho de um poema de Augusto Severo Neto em memória de Jussier

O HOMEM PLÁSTICO

Salvo os colegas médicos da sua geração, os intelectuais, os colecionadores dos seus quadros, e, evidentemente, os seus amigos, poucas pessoas sabem quem foi Jussier Ribeiro Magalhães. E bem menos ainda o guardaram na memória para recorrentes ou mesmo escassas recordações. Em boa hora o Governo do Estado criou no Hospital Walfredo Gurgel, um Centro de Tratamento de Queimados com o seu nome, dotando-o de equipamentos e de recursos satisfatórios ao seu objetivo, uma pertinente obsessão do meu amigo
A memória, mais do que o pássaro trêfego e travesso da concepção poética, é pântano, rio caudaloso e manso regato. A superfície lodosa do pântano encobre as más recordações, tudo o que queremos esquecer. O rio caudaloso leva e traz o memorial exuberante, um imagético cinematográfico de curta metragem e efeitos especiais. O regato, as lembranças gravadas prazerosamente na memória, aquelas que apreciamos e degustamos com lentidão e calma, qual a preguiçosa corrente do riacho.
Tudo isso me vem a despropósito, ou a propósito do esquecimento. Porque Jussier se imortalizou para os que o conheceram e ainda hoje o velam, vivo, pelas grandes expressões e pequenas, quase anônimas iniciativas que indicam a nobreza do seu caráter solidário e a imensa ternura que abrigava avarentamente debaixo de sete chaves.
Quando digo quase anônimas as suas iniciativas é porque ele fazia o possível para que elas não fossem dadas como suas, ou as barateava tanto que se desvalorizavam, passando despercebidas. Pelo menos ele assim imaginava. Porque se supunha ou se queria sombra, como se isso fosse possível, logo ele, um colorido que, todavia, se desenhava negro. Sombra é incolor.
Quanto à ternura, referi-me a ela quando tratei de Armando Holanda e o comparei a Jussier. Transcrevo:
“É um tanto desajeitado nos agrados, tal outro amigo querido, Jussier Magalhães, cirurgião plástico e dos maiores pintores do nosso estado, convocado por Deus para o Seu Reino. Entendia o sem-jeito de Jussier e entendo o de Armando. As almas muito sensíveis precisam resguardar o seu carinho, porque se vulnerabilizam, tal como se expusessem as suas “fraturas”, correndo o risco de que alguém, valendo-se dessa fragilidade, ponha o dedo na ferida. Por isso, preservam-se, adotando uma carapaça de indiferença ou de rudeza no ofício do carinho, que as protege, afastando os predadores.”
Não modifico uma vírgula. Era assim o meu amigo.
Tímido, às vezes não suportava que o encarássemos, embora a sua “cara limpa” não aceitasse máscaras, não escondesse subterfúrgios nem subjacentes maquiagens existenciais. Era frágil e vulnerável emocionalmente e sabia disso, tinha receio que outros o soubessem, pela janela escancarada do olhar, dando margem às temerárias explorações que destruíssem a sua precária blindagem, expondo-se às agressões predatórias.
Cultivava um andar rígido e sem girândolas nos braços, estes, quase colados ao corpo, um tanto inertes. A cabeça, quase sem movimentos, projetada na direção do caminho à sua frente, apoiava-se firmemente no pescoço. Postura típica de um que vive sob tensão, de quem se policia para não chamar atenção, de quem não se quer denunciar como espécie diferenciada. De quem, mesmo em movimento, se concentra nas idéias, para não se perder no trivial insatisfatório.
Vestia-se com muito bom gosto, roupas claras, simples, bem talhadas, que pareciam feitas somente para ele, tal a elegância e a casualidade com que as vestia. Ele era “clean” e isso se evidenciava nele por inteiro – no rosto sempre escanhoado, nas roupas, na rígida estética do andar, na disciplina da sua rotina, numa franqueza sem arrodeios que nos confortava, apesar de rude, pela sinceridade. Mesmo que fosse escuro no grafismo dos belíssimos desenhos.
Usava óculos permanentemente, que disfarçavam os olhos, grandes, com cílios tão longos que se encurvavam. Muitos anos depois, conheci um texto que o trouxe até mim. Gilberto Freyre, referindo-se a Randolph Bourne(1), descreveu-o como dono de
“...uns olhos grandes, enormes, tão comuns nos órfãos, nas pessoas feias, nos indivíduos que vivem sós, nos aleijados, nos corcundas.”
Eram grandes e negros os olhos de Jussier. Mas ele não era aleijado, nem corcunda, nem feio, nem órfão. Era um homem bonito. Tinha uma família afetuosa e unida. A mãe, dona Dalva, o pai, seu Antonio, dois irmãos muito devotados a ele – Judson, engenheiro, a quem chamava “neném” e Letúsia, a única irmã, com quem mantinha permanente troca afetiva e diálogo fácil e que se tornou uma espécie de “curadora” de sua obra.
Talvez o “solitário” lhe caiba. Talvez. O modo ressentido dos incompreendidos, carentes ou irrealizados manifestarem o seu protesto – mudo, dissociado, mas sem molestar ninguém, como o fazem os ruidosos panfletários.
Era triste, evidenciava-se triste, embora descobríssemos indícios de uma alegria transitória, trânsfuga, pendular. Aqui e ali mostrava um humor um tanto cáustico, duro, seco - o seu modo de se dizer integrado ao espírito do grupo, mas amostrando as suas diferenças, o seu contido ressentimento que não era contra ninguém em particular, pois amava a todos dadivosamente, mas contra o sistema – o monismo que exigia um alinhamento compulsório ao senso comum e à moral burguesa, ao jeito único de ser humano, a diáspora segregacionista por aí afora...
E ele era uma criatura especial. Nem questionamos o caráter da sua excepcionalidade, embora o tivéssemos como exemplar. Mas era diferente. O modo como se expressava e como se afirmava.
Certa vez “rebolou” uma caixa para o meu filho mais velho, Marcos Frederico, e disse rispidamente: “não use mais aquela porcaria!” Era uma caixa com parafina importada, adquirida quando verificou que o meu filho, surfista àquela época, utilizava um produto de qualidade inferior.
Ou quando nos convidou para jantar, na sua casa de Búzios, defronte à nossa. Um jantar requintado, desde a excelência dos talheres, da louça, dos jogos americanos, do extraordinário cardápio, com direito à entrada, piéce de résistence e sobremesa, tudo feito por ele mesmo, pois era um competente cozinheiro, mais para “gourmet” que para “gourmand” e uns vinhos de “griffe”, licores nativos e importados, água mineral de boa origem e guardanapos de linho, imaculadamente brancos.
Foi-nos servido um bouillabaisse capaz de fazer inveja aos mais renomados chefs de cuisine franceses: desde a escolha correta ao tempo certo de cozimento dos peixes e carne de caranguejos, do bom comportamento dos temperos ao preparo do ruille, com as indispensáveis gotas de Pernod. As torradas, cobertas, melhor dizendo, mergulhadas no molho picante, estavam uma delícia. Os pedaços de peixe e crustáceos também imploravam a submersão completa no mar vermelho do molho picante. Meu Deus do céu!
Para arrematar, uns espertos e quase crocantes pastéizinhos de Santa Clara. É evidente que ninguém poderia ficar insensível a esses mimos. Nem mesmo um profano carnívoro trivialesco que nem eu.
Senti-me, pois, motivado a tecer elogios à altura das carícias recepcionais. E não regateei. Fiz um discurso laudatório de longo curso, detalhando o excepcional banquete, partindo, inclusive, da consideração de que aquele era um prato historicamente plebeu – de restos de comida – e que o seu engenho e arte o havia convertido em acepipe nobre.
Ele aguardou pacientemente o aparentemente digestivo lengalenga e quando acabei ele me encarou – uma das raras vezes que o fazia – e me disse, áspero e inclemente: “não precisava pagar a conta!”



O CIRURGIÃO PLÁSTICO


Creio que foi através do mecanismo que os psicólogos chamam de “compensação” que ele chegou à cirurgia plástica, ao desenho e à pintura. De fato, ele foi vocacionado para essas altiplanuras, mas a necessidade agregou-se á sua própria natureza, naquela troca do genes e da adaptação que definem a matriz do caráter das criaturas. Agora eu consigo estabelecer uma análise mais isenta e percuciente dessas decisões, coerentes com a sua natureza, com a maturação do tempo, que é o senhor de toda a razão e de toda a verdade. Ele tentou corrigir as distorções e colorir, mal-colorindo nos bicos de pena, a fealdade do mundo que descobriu ampliado através das poderosas lentes dos seus olhos de artista.
No ofício da cirurgia plástica, limitou o atendimento estético ao mínimo necessário, já que sobrevivia dessa espacialidade, e se dedicou com maior empenho à prática corretiva dos “queimados” do Hospital Walfredo Gurgel, satisfazendo a sua alma missionária e a esses pacientes deu o melhor de si. Constrangia-lhe a falta de recursos para o atendimento de gente tão sofrida, submetida a dolorosos processos curativos. Custeava do próprio bolso as carências que identificava. E eram muitas. Contam os seus amigos mais íntimos, que o salário que recebia do Walfredo Gurgel só era contabilizado como crédito mês sim, mês não, porque de dois em dois meses, consumia todo o ganho na compra de caríssimos insumos que o Hospital não tinha condições de adquirir.
A sua devoção comoveu a pequena equipe que o auxiliava, um grupo de abnegados enfermeiros e uma grande profissional, sua colega anestesista doutora Rosa Vale do Amaral, a tal ponto, que se deixaram “contaminar” pelo “fransciscanismo” de Jussier.
Muitas vezes nos relatou as dificuldades e os sofrimentos dos seus “queimados”, sobretudo aqueles relacionadas às crianças e aos idosos. Em algumas dessas vezes, em casos mais dramáticos em que punha lado a lado a dor e a indisponibilidade de recursos por descaso e insensibilidade dos governos estaduais, misturava a revolta com um disfarçado arremedo fugidio de lágrimas que eram tangidas como os incômodos argueiros ou os microscópicos insetos que só ele os via. Tentava amostrar-se como um ser humano distante das humaníssimas reações emocionais. Sobretudo as lágrimas que mais e mais o fragilizavam, de si já tão frágil de constituição.
Certa vez, quando se anunciou a visita do então governador Lavoisier Maia, combinou com a sua equipe manter a ala dos queimados do modo em que habitualmente se encontrava, ao invés que “maquiá-la” para a visita do chefe do executivo estadual, para que o administrador avaliasse o estado de emergência daquele departamento. Foi um pandemônio e um escândalo, prato feito para os jornais. Só não foi convenientemente punido, porque precisavam dos seus serviços.
Dormia, acordava, alimentava-se, andava, revolteava, surfava (praticava esse esporte na lagoa de Alcaçuz, solitário e em horas igualmente solitárias), confraternizava com meia dúzia de amigos fiéis, e o tema dos “queimados” terminava aflorando.
Além da família, tinha como amigos, entre outros, Jarbas Borges de Lima, Joventina Simões Oliveira, minha irmã, Ivoni Vieira de França, sua colega, Paulo de Tarso Correia de Melo e Ana Maria, Augusto e Lúcia Severo, Iaperi Araújo, seu duplamente colega, médico e pintor, Dorian Gray, Ana Lígia, Zoraide Melo, Mailde e Cláudio Galvão e a colega-parceira do Walfredo Gurgel, Rosa Amaral.
O ARTISTA PLÁSTICO

Passava ano inteiro preparando as suas telas e promovia exposições com regularidade. Era original no que fazia. Suas obras não “lembravam” nenhum outro desenhista ou pintor. Se houvesse similaridade seria incidental, ou fruto temporão da memória artística subliminar de Jussier. Expressava-se com timbre e linguagem pessoal. Exatamente por isso os seus quadros eram tão disputados nos tempos da Galeria Vila Flor, do amigo e poeta Augusto Severo Neto, desde a Galeria L´Atelier, no longínquo 1966 e depois, o mundo.
Quatro telas produziram-me grande efeito. Uma que eu adquiri e depois fiz uma permuta com minha irmã, atendendo a uma quase-súplica que me fez; outra de propriedade de Jarbas Borges Lima e as outras, respectivamente do meu particular amigo Manoel Onofre Júnior e a de propriedade de Paulo de Tarso.
O quadro de Jarbas é de um lirismo pungente. A poesia transborda da tela e vem até o observador. Um violão recosta-se sobre uma velha cadeira, as paredes perdem a densidade e cedem ás flores e folhas que sustentam um relógio ancestral. O tema é singelo, mas a força impressionista do artista é tão sugestiva que você se enreda com o cenário, se envolve na “atmosfera”, sentindo-se como inocente “voyeur, que, de repente, converte-se num intruso tentado a acariciar ou num gesto mais ousado, tocar o instrumento.
Rescende a solidão, o quadro. E a lembranças. A algo que você já viveu embora não possa precisar a época, nem o lugar. Mas a imaginação lhe apresenta dezenas de circunstâncias e roteiros para estórias vividas ali, num espaço que sugere um quartinho de pensão ou uma água furtada que se perdeu num cenário imponderável.
Entre les deux, son coeur balance. Jussier era um pênsil, um móbile, um galo-dos-ventos. Estava sempre em indeciso trânsito entre as pradarias, veranistas e outonais a um só tempo, e os luares das praias desertas, conferindo a lua, úmida pela emergência do mar. Gosto de pensar que ele se concebia violonista, nestes momentos. Aquele violão recostado na cadeira era seu, de fato. Não conheço a sua preferência musical, mas é difícil imaginar outra composição que não fosse Bach.
Clair de Lune é lugar comum para criatura tão original e de gosto tão apurado. Teria de ser Bach, uma de suas suítes para Cello, com arranjo para o brasileiríssimo instrumento de cordas que com certeza adquiriu. Ou as Bachianas do “nosso” Villa Lobos.
A “minha”, exibe uma recorrente toalha de mesa recortada e sugestivamente ondulada (provavelmente com labirintos nas bordas), tecida com fios grosseiros esgarçados, depondo sobre o testemunho da vida em extinção sugerida pela ossada do peixe, em contraponto com os igualmente recorrentes cajus, que, ao invés gritam a vida, como descreve Jorge Fernandes num dos seus poemas. Há o recurso do mar, ponto de fuga para tanta desolação, revelador do íntimo dorido e atormentado do meu amigo – de fato, um escapista. Por isso se fez pintor, como outros se fazem escritores, ou músicos ou atores. Sobretudo o poeta, em toda a extensão da palavra, todos os que são capazes de sentir com a alma, mais que com a percepção física.
Lembro Pessoa: O poeta é um fingidor/e finge tão completamente/que finge sentir a dor/a dor que deveras sente.
O poeta é um escapista. Os artistas o são. Não adiante prendê-los, porque eles são da espécie Houdini que, por mais preso e mais seguras que sejam as trancas da prisão, sempre se livram das amarras.
A composição poética e musical, a literatura, as artes plásticas, as artes cênicas, a devoção, são métodos infalíveis de fuga. Jussier valia-se da devoção e da pintura, transfigurava-se nas telas, transferia-se, doava-se por inteiro, corpo e alma, o sentimento que sovinava e as emoções que reprimia, às vítimas das chamas.
A composição de Onofre é lírica e quase barroca. Não nego que o invejei por tê-la em casa, sempre ao alcance dos olhos e da imaginação. Uma flor compõe-se com um manuscrito escrito a bico de pena, postos sobre uma toalha bordada. Uma parede carcomida pelo tempo contrapõe-se a uma janela com gradil de madeira, deixando exposto um casario colonial.
Sempre que a vejo, imagino-me em Vila Rica, na casa de um dos inconfidentes, certamente o poeta Tomás Antonio Gonzaga, nos estertores de um poema dedicado à amada Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marilia dele Dirceu.
A de Paulo de Tarso poetiza com ele-mesmo poeta, um momento de recordação, de uma lembrança ancestral ou fixação de ícone intelectual. Sobre a recorrente toalha bordada á Richilieu, repousa uma folha de papel virgem, um vidro de tinta de escrever e uma velha foto em que um suposto patriarca com jeito de poeta, busca um ponto de fixação no horizonte para buscar a sua inspiração.

AS OPINIÕES SOBRE O ARTISTA PLÁSTICO

Dele diz Dorian, o poeta-plástico: “A arte de Jussier está na sua coerência artesanal e no seu equilíbrio instrumental. Possuidor de um traço ágil e firme, ele recupera a tradição do desenho em nosso estado que teve em Erasmo e Navarro seus grandes momentos. Um desenho onde o lirismo está presente em todos os seus quadros, liames de um tema romântico recuperado pela maestria do traço seco e lúcido.”
(Convenho que o seu traço é preto, e deliberadamente esgarçado na sua tessitura. Dá-me a sensação de filamentos elétricos, fibras musculares, feixes nervosos, barbantes desgastados. Já a espinha de peixe, não sei porque, talvez pela premonição de vida extinguida, sugeria-me morte. É terrivelmente, tragicamente belo, assim como a Guernica de Picasso).
Ou, como interpreta Navarro, com poesia lúcida (se isso é possível): “O velho candeeiro sobre a mesinha com pano de labirinto parece no seu traço aqui e ali desmanchado, uma presença fantasmal. Uma luz mágica se adentrando em um mundo antigo de coisa perdida, tempo passado.”
O amigo, poeta Paulo de Tarso adentra a alma de Jussier: “Nos desenhos de Jussier está o insistente contraponto entre o objeto e o elemento natural e através destes, uma poderosa sugestão da presença humana, muito maior que a do simples retrato ás vezes mal conseguido e, portanto, estéril.”
Paulo está correto – sente-se o humano, intui-se a presença de alguém em cada uma das composições de Jussier. Ele está ali como observador, interpenetrando os desenhos. Pôs-se ali, transportou-se para a superfície do desenho. Tive essa mesma premonição nas marinhas de Dorian, quando tracei o seu perfil.
A propósito, lembro-me da “luz interior” de Rembrandt, que atrai e se funde com a luz externa. Veja-se que Jussier trabalha mais com o negro do nanquim, aqui e ali violado por um colorido incidental e fugaz. Mas pressente-se a luz, qual fosforescência sobrenatural, a que alude Navarro. Do interior para o exterior.
Três visões mais que reveladoras do desenhista-pintor: o artesão que trabalha “presenças” espectrais.
Diversamente do grande cineasta John Ford, ele não precisava valer-se de grandes locações para produzir os seus temas. Nem de modelos. Mas foi com natural fidelidade, autêntico ás recomendações dos modernistas de 1922, que abandonou as regras acadêmicas europeizadas e se fixou no conhecimento e devoção á sua aldeia.
Radicou-se - ele, cosmopolita como todo natalense o é por genética – junto ás suas raízes, negando ao refinamento que lhe era característica, o lugar-comum que reclama referências as mais remotas, do ponto de vista geográfico, pilhado de algum manual que pouquíssima gente leu. Não era pedante, nem blasé.
De fato, era como Anteu, semideus dado como rei da África na mitologia grega. Filho de Posidon e de Gaia, (Gea, a terra) o que tinha de extraordinário era a sua invencibilidade nas disputas físicas. Hércules não conseguiu vencê-lo, embora tivesse tentado como nunca o fez. Até descobrir que, se o afastasse do chão, ele perdia a sua força. E assim foi feito. Hércules o levantou do solo e, incontinenti, o oponente perdeu a sua força e foi vencido.
Jussier, na sua obra, expõe a sua força criativa, plantando sementes telúricas com as quais se nutre e se identifica: cajus, redes de pescar, toalhas de labirinto, candeeiros, velas de jangada, ossadas de peixes, mangas, bananeiras e limões, velhas e solitárias cadeiras e instrumentos musicais, uma janela se abrindo para o mar, e, surpreendentes e suspeitados girassóis. Os manuscritos soltos ao acaso continham textos poéticos e partituras. As taças guardavam o vinho das celebrações.
Tudo que ele precisava para dar testemunho de vida e de dizer-se.
Jamais se retratou. Se o fizesse, certamente seria uma espécie de orquídea, de difícil germinação, vida breve e cheia de cultivos. Mas bela. E rara.

(1) Randolph Silliman Bourne (1886 / 1918) escritor nascido em Bloomfield, EUA, graduado da Universidade de Columbia. Bourne é conhecido por seus ensaios, especialmente "O Estado". Nasceu paralítico e desfigurado por um acidente na infância e era, essencialmente, um atormentado. De fato um outsider e rebelde, ele mergulhou no intenso pessimismo de Hardy (Judas o obscuro) e sentia a pungente dor existencial de Tolstoi. Gilberto Freyre o descobriu quando estudava em Columbia e o jovem pensador americano exerceu extraordinária influência sobre o pensamento do notável sociólogo brasileiro.


PEDRO SIMÕES NETO – Professor de Direito (aposentado). Escritor e Advogado.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

ISAUTINA DO OUTRO LADO DO CAMINHO

Arte – Óleo sobre tela de Alice Brandão

A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho.
O que eu era para vocês continuarei sendo.
Me dêem o nome que sempre me deram, falem comigo como vocês sempre falavam.
Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo
que nos fazia rir juntos. Pensem em mim. Rezem por mim.
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho.
(Santo Agostinho)

Estou novamente diante de uma folha virgem, que me pede para ser violada. Mas a libido escrevinhadora está reprimida pela emoção, um sentimento arrebatador, transcendente, traduzido numa palavra que é somente nossa, duplamente nossa, os de língua brasílica e os que a experimentam em solidão: saudade.
Tentei inúmeras vezes transpor para o papel um relato sobre a ausência de Isautina, a minha sogra, amiga solidária e sempre presente, mas não pude. Não sabia por onde começar, nem como refrear essa caudalosa torrente de lembranças e de afetos que nos leva para muito distante da margem de onde melhor poderíamos apreciar os horizontes a que nos propomos desvendar.
Quase sempre eu era arrastado pela enchente do rio da memória, que transbordava as margens e cada vez mais me afastava da visão do horizonte.
Agora eu sei por onde começar: pela revelação mais contundente, porque fora do comum. A da “sogra amiga”, partindo-se da constatação de que essa associação é inconciliável, na opinião popular generalizada. No mundo inteiro as sogras são levadas à fogueira inquisitorial como verdadeiras bruxas, e queimadas em fogo brando para arderem mais lentamente, e experimentarem dores e sofrimentos inimagináveis.
De fato, fomos, no sentido pejorativo tradicional, genro e sogra. Batemos de frente inúmeras vezes até nos fazermos entender e respeitar pelo outro, delimitando os nossos territórios. Daí pra frente, deixamos essa condição parenteral(*) e nos convertemos em amigos. Uma amizade construída a partir dos dissensos, das nossas diferenças superadas e, portanto, amadurecida, duradoura.
Amávamos a mesma pessoa. Jailza era a sua única filha e companheira. Amiga incondicional, confidente, consoladora, parceira de “buraco” e de infortúnios, alma sexuadamente gêmea, e por isso capaz de compreender os gemidos, a importância das minimalistas rusgas existenciais cotidianas, como o ato de envelhecer, por exemplo, de se sentir só no meio da multidão e uma vontade leviana de chorar.
As duas eram cúmplices e co-habitantes de um universo só delas que eu nunca quis nem mesmo trafegar, para não quebrar o encanto de um esconderijo, um refúgio, um santuário exclusivo onde se desarmavam e se convertiam nelas mesmas. Em que eram ao mesmo tempo arrimo uma da outra, numa troca permanente de afeição.
Contentei-me em ser a sombra ou a ausência, quando as duas estavam juntas, porque moravam em cidades diferentes e pouco se viam, embora se telefonassem diariamente.
Ela-Isautina percebeu a manobra através de uma das pontes mais sólidas que construímos entre nós – o sentir intuído, sem necessidade de palavras ou explicações. Era uma pessoa de muita sensibilidade e um grau de percepção incomum, beirando o extra-sensorial. Salvo quando se recusava a acreditar no que intuía, como nas questões de família que a infelicitavam. Aí se tornava uma pessoa comum, debilitada e vulnerável.
Nesses momentos, sofria um processo acelerado de um envelhecimento sobrenatural, surpreendente. As rugas aprofundavam-se, os cabelos mais se encaneciam, as costas se curvavam sob peso imaginário insuportável, os olhos se embaciavam. E a voz adquiria um tono mais brando e mais grave. Como se mastigasse o fel para torná-lo mais digestível.
Li que em certas culturas primitivas e isoladas – os esquimós, por exemplo – os mais novos mastigavam os alimentos sólidos, tornando-os pastosos, para facilitar a alimentação dos muito idosos, desdentados. Era manifestação de carinho e de dedicação aos que se haviam devotado á família.
Provavelmente dava-se algo semelhante com Isautina, de modo inverso. Mastigava as fibras, os nervos e os músculos cozidos no sal e no fel do sofrimento, para transferi-los amaciados para os que a consolavam.
Via-a chorar apenas duas vezes e nunca mais desejei vê-la assim. Era uma explosão de dor comprimida, uma expressão magoada de desespero antigo sempre recorrente. Um grito gemido, se é que me entendem. Como o silvo de uma chaleira de água fervente, resultante de uma pressão muito poderosa reprimida sob controle.
Foi quando morreu o seu filho mais velho, Jailson . E quando se sentiu impotente para corrigir uma questão familiar. Jailza me informou que ela muito chorou, também, na morte do ex-marido, em trágico acidente numa rodovia em Mossoró; que, nessa ocasião ela literalmente desabou, pela primeira vez na vida.
É evidente que deve ter chorado muitas vezes sozinha, quando podia dar vazão, sem constrangimento, á sua tristeza que vinha de muito longe, coisa muito antiga e peregrina.
De alegria, lembro-me que chorou quando a filha casou-se comigo. E quando vieram os netos.
Como dizia um outro velho amigo, Jomar Elpidio de Oliveira, referindo-se á sua própria resistência às lágrimas, morava muito longe o “chorador” de Isautina
Porque, apesar de tudo, a alegria era o seu chão. Mercadejava sempre que podia numa feira de trocas, em que a tristeza era moeda corrente para a compra do riso fácil e do desfrute da bem-aventurança da alegria. Feliz não era, mas fazia força para arrancar de dentro de si as raízes da tristeza anciã e andeja, como já foi dito.
Gostava de serestas puxadas a cerveja. Amava a vida. Era generosa e conselheira. Tomava a si os problemas dos amigos e também dos quase amigos e, mesmo sem ter sido convocada, distribuía conselhos e “carões”. Não tinha papas na língua. Na hora de dizer verdades não poupava ninguém, nem mesmo os superiores nem as autoridades em geral. Era uma dessas paraibanas do brejo, retas, transparentes, diretas, solícitas, mas arrelientas, que dão um pão para não entrar numa briga, mas, se provocadas, não saem nem com a oferta de uma padaria.
Respeitava as pessoas e se fazia respeitar por elas. Principalmente pelos homens - que eles não se metessem a besta que ela lhes punha no lugar. Era mulher valente, de pelo na venta. Havia sido Delegada da Mulher e daí em diante, responsável pela coordenação do Juizado da Infância e da adolescência da comarca de Ceará-Mirim.
Na condição de Delegada da Mulher, prendeu muitos agressores do sexo feminino e por isso, deu força às mulheres e pôs cabresto nos ímpetos dos costumeiros torturadores de esposas e de mulheres da rua. Como espécie de Inspetora dos meninos e adolescentes, chamou muitos pais à responsabilidade e coibiu o liberalismo estimulante da paternidade machista daqueles que prendiam as suas “cabras”, mas soltavam e eram excessivamente tolerantes com os seus “bodes”.
Nesse trabalho, sempre contou com o apoio decidido da Juiza responsável pela vara especializada e pelos delegados da cidade.
Era um ser humano transitório, como as flores que só desabrocham em épocas determinadas. Nossa sorte é que ela era mais de uma dezena de espécies e por isso estava sempre florescendo. Era também instável, porque navegava entre o oceano em fúria e o mar em repouso e por isso o seu barco perdia-se entre tempestades e calmarias. Sua vida imitou a arte, fornecendo argumento para um folhetim dramático.
Quando nasceu a mãe trabalhava no cabo da enxada. Enquanto tinha leite para amamentá-la e alguém para ter a menina sob cuidados, ela foi ficando. Quando abandonou o aleitamento materno e o estômago passou a reclamar farinha, feijão e carne, a mãe entregou-a a um casal de conhecidos, para criá-la e depois ser serventia da casa, ate quando arrumasse emprego decente para sustentá-la. Em seguida, trocou a paraibana Araruna pelo solo potiguar.
A menina cresceu e começou a sofrer maus tratos. Era suficiente uma cara feia para justificar uma surra além dos limites do tolerável, que a deixava inativa no dia seguinte. Um dia, a mãe foi viver com um ex-combatente, velho conhecido, e lhe contou o infortúnio da filha. Foi o suficiente para que o companheiro, revoltado com o relato de maus tratos, fosse resgatar a menina e a trouxesse para Natal.
A menina cresceu num lar tranqüilo, com pai adotivo severo, estudou no Colégio das Neves e no Atheneu. E concluído o curso secundário foi levada pelo “padrinho” a alfabetizar os recrutas do então 16º Regimento de Infantaria, na Salgado Filho, onde o pai adotiva servia. Lá, conheceu o “Galego”, rapaz de Serra Negra, analfabeto, bonito e jeitoso, que era ordenança do padrasto. De olho em olho, toque de mãos, proximidade cheirosa, terminou em atração recíproca. Ela, uma morena bonita, de corpo roliço bem feito.
Casou-se com o ordenança, que dera baixa do quartel e agora era caminhoneiro, e foi viver em Mossoró. O marido tinha um espírito aventureiro, não conseguia esquentar lugar. Foi comerciante, dono de frigorífico, motorista particular e assentou-se mesmo havia começado, como caminhoneiro, piloto de sua própria liberdade.
Os filhos foram nascendo: um, dois, três, quatro bocas para alimentar. E o marido no mundo, deixando um dinheirinho que se acabava no meio do mês. Ela foi trabalhar. Depois, decidiu que iria para a Universidade. E foi. Graduou-se em Serviço Social e passou num concurso do estado, para lotar-se em Ceará-Mirim. O marido enfezou-se, mas, diante do inevitável, acompanhou a família, sempre com um pé na casa e outro na estrada.
Um dia o marido a põe contra a parede: ou ele ou o emprego. Preferiu o emprego, a estabilidade, a possibilidade de alimentar e de orientar os filhos na vida. Decisão que lhe custou o marido, a incompreensão de alguns filhos que a culparam pela ruptura da família e a silenciosa censura da sociedade, ainda preconceituosa, da cidade que a acolhera. E particularmente inepta por ocupar um cargo de conselheira social, vale dizer familiar – que autoridade poderia ter para apaziguar casais e orientar a educação dos filhos, com o casamento desfeito, a unidade familiar comprometida, e por decisão dela?
Impôs-se pelo trabalho, dedicação e competência. Recebeu seguidas promoções e preitos de reconhecimento profissional.
O coração era o seu órgão de choque, a caixa de ressonância dos seus embates com as desventuras que o mundo lhe impunha. Os filhos a censuravam por não cuidar-se e era mesmo que nada. O trabalho era sempre mais importante – embora fosse refúgio para não perder o juízo com tantos desencontros. Achava-se forte e portanto capaz de “tirar de letra” qualquer dificuldade. Deus a proveria, a sua fé a manteria sempre protegida.
Certa madrugada sentiu fortes dores no coração e foi levada ao hospital Dr. Percilio. O médico que a atendeu, em face da gravidade do seu estado, recomendou-lhe que viesse a Natal. Providenciou uma ambulância e a conduzimos ao Hospital Antonio Prudente, único autorizado pelo seu plano de saúde, Hapvida.
Aí começou um verdadeiro inferno. Posta numa dependência de primeiro atendimento, foi medicada segundo os padrões regulares do suposto diagnóstico de infarto. O clínico que a atendeu, fez a recomendação de encaminhamento à UTI e a possibilidade de intervenção cirúrgica. Nesse meio tempo, a matriz da empresa responsável pelo plano de saúde, a Hapvida, localizada em Fortaleza, informou que o seu prazo de carência recomendado, não havia sido ultrapassado. E, de fato, a carência já fora superada. Em seguida, que a recomendação do clinico não poderia ser atendida, porque não havia provisão no seu contrato. E havia.
Mesmo que não houvesse, a lei determinava o atendimento em caráter compulsório, em situações semelhantes, porque ela corria risco de vida. Esses trâmites consumiram mais de quatro horas, tempo precioso perdido em detrimento das suas chances de sobrevivência. Finalmente, desesperados, requisitamos uma UTI móvel da SAMU e, depois de mais uma hora de atendimento a procedimentos burocráticos, a dita ambulância e a respectiva equipe chegaram ela foi transportada ao Hospital do Coração.
Nessa unidade de saúde, ela foi conveniente e competentemente tratada, submetendo-se a duas cirurgias que, no entanto, dado ao agravamento do seu estado de saúde em razão da demora na tomada de providências, veio de falecer.
Morreu por negligência e omissão criminosa da dupla Hospital Antonio Prudente/ Hapvida, useiros e vezeiros deste tipo de expediente doloso, e que, nada obstante, ainda não foi suficientemente sancionado. Permanecem impunes, operando os seus negócios comerciais de modo criminoso.
Mas, sem que a ocorrência trouxesse nenhum consolo ou compensação pela perda da nossa querida amiga, as duas instituições criminosas foram condenadas, por sentença com trânsito em julgado, que reconheceu o direito à indenização dos seus herdeiros por perdas morais e materiais, reconhecendo, por conseqüência, a omissão e a negligência desses fabricantes de viúvos e viúvas.
Entre a indignação, a raiva e o sentimento de perda, prevaleceu a saudade, o sentimento de havermos sofrido a amputação de parte de nós, uma mutilação que nos deformou e cuja marca não pode ser enxertada. Uma cicatriz indelével, uma fratura exposta que nos denuncia sempre a origem: a falta do sorriso brejeiro de Isautina, do seu andar arrastado de quem padece de “esporões” nos pés, a voz roufenha pelo vício do cigarro, os vestidos de estamparias alegres, a maquiagem caprichosa, as suas mãos de fada no preparo das refeições triviais e extraordinárias, os seus resmungos cavilosos e os “carões” desconcertantes, mas tolerados.
Ficou-me uma última imagem, de uma foto tirada no São Pedro de 2008, dois meses antes de sua morte. Ela encarou a máquina com um sorriso meio debochado, cheio de brejeirice, que acentuou a falha nos dentes frontais mais expostos – uma marca pessoal. Trajava um vestido de florzinhas roceiras, bem a propósito da festa, e uma flor vermelha (uma papoula?) presa nos cabelos. A maquiagem lembrava a pintura das roceiras de antigamente.
Quando conclui a fotografia, disse-lhe que estava parecendo uma donzela do pastoril.
Ela olhou-me, zombeteira e provocadora, dizendo o seu bordão preferido:
- Você gosta de mexer, não é? Macaco não olha pro rabo...
Ainda nos vimos, e não sabíamos que seria a penúltima vez, quando veio para o velório de uma amiga, Chica, a irmã da nossa amiga Ana “Balaio”. Depois, pela derradeira vez, no hospital, sofrendo anginas insuportáveis mas encontrando tempo para mais um chiste: Gente ruim não morre fácil...É verdade. São os bons que Deus convoca para auxiliá-lo.

PEDRO SIMÕES – Professor de Direito (aposentado) Escritor e Advogado

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

domingo, 29 de agosto de 2010


“SINTO VERGONHA DE MIM”
Poema – (Sétimas em setissílabos)


“SINTO VERGONHA DE MIM!”
Dissera Ruy, no Senado,
Completamente arrasado,
Por não poder fazer nada,
Em favor da mocidade,
Ante a falta de hombridade,
Da época, a “companheirada”.

Moralidade? acabada,
No seu conceito geral.
Pressentira que esse mal,
Por suas incongruências,
Levaria a juventude
À maior decrepitude,
Às piores conseqüências.

Da massa, as resistências,
Estavam todas minadas.
As estratégias, forjadas,
No cadinho mais imundo,
Desde roubo à safadeza,
Já denotava esperteza
Em dominar todo mundo.

Hoje, o povo moribundo,
Vive da enganação.
O conceito de Nação
Não tem sentido, nem fim.
Sai ladrão, entra assaltante,
Guerrilheira flamejante...
“SINTO VERGONHA DE MIM!”.
.

Wellington Leiros
wleiros.169@digi.com.br
(27.08.2010)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

PAULO MACEDO – DA ARTE DE FALAR BEM



"Eu não sou eu. Sou eu e minha circunstância".
(Ortega y Gasset)




Certa figura do socialite potiguar, muito orgulhoso da sua ascendência, da singular estirpe que lhe emprestava o pomposo nome composto, informava a Paulo Macedo que os seus ancestrais desde há cento e cinqüenta anos participavam da vida sócio-política e econômica do Rio Grande do Norte. Relatava esse fato na expectativa de que o colunista noticiasse essa invejável marca histórica em favor de tão ilustre família.
Paulo ouviu o relato atentamente, como é da sua natureza e, quando o interlocutor fez-se mudo para aguardar as palavras elogiosas do jornalista, ouviu, de fato, outra revelação - a de que os fenícios, ancestrais do colunista, cujo pai é sírio, tiveram origem há cinco mil anos.
O meu então companheiro de Rotary, transmitiu a desconcertante notícia sem afetação nem malícia, apenas registrando com naturalidade a ancianidade da sua linha de sucessão. O quase-nobre engoliu a bebida e a lição de humildade e mudou de assunto.
De fato, a história registra a existência dos fenícios, antepassados dos sírios e libaneses, há cerca de 5.000 anos antes de Cristo. E a sua origem é controvertida, concordando a maioria dos historiadores que ela se deu entre o Mar Morto e o Mar Vermelho. A própria história dos fenícios indica apenas o endereço onde se localizaram nessa migração: a região conhecida na antiguidade como Canãa, eis porque eles também se denominaram de Cananeus.
Os fenícios teriam sido hábeis navegadores, os mais competentes construtores de embarcações, destacando-se como excepcionais comerciantes e artesãos. Consta que a denominação “fenícios” teria sido dada pelos gregos (Phoinix – designativo da cor vermelha). Tal denominação encontraria justificativa na pele acobreada dos antigos cananeus ou no seu produto mais requisitado, a púrpura, substância utilizada para tingir tecidos. Os nobres e os abastados a prefiriam porque as vestes rubras conferiam status aos seus portadores uma vez que na antiguidade só existiam roupas com cores entre o preto, o branco e o cinza.
Observe-se que os fenícios destacaram-se exatamente como empreendedores de produtos onde havia maior demanda ou carência tecnológica entre os povos da antiguidade: navegação, comércio de artesanato e de tinturas. Isso explica o sucesso desse povo extraordinário e os seus descendentes.
(Os mascates árabes que aportaram em terras brasileiras foram responsáveis, como se fossem verdadeiros bandeirantes do comércio, pela interiorização e acesso dos consumidores dos mais longínquos grotões do nosso país aos produtos indispensáveis à sua economia doméstica. À maneira dos botequineiros portugueses, vendiam fiado, mas se revelaram os mais hábeis na arte de negociar.
Quem quer que tenha vivido no interior do nosso estado haverá de recordar de pelo menos um “turco” de língua engrolada que nos fazia comprar sem querer ou pagar o preço que imaginávamos justo, pelo menos duas vezes maior que o custo do produto adquirido. Estão no nosso imaginário e merecem lugar de destaque na própria formação da nossa cidadania).
Três das maiores cidades desse período – Tiro, Biblos e, principalmente, Cartago – foram erigidas e povoadas pelos fenícios. Cartago foi a cidade fenícia de maior importância histórica desse remoto período, por ter sido o centro do comércio e da navegação. Chegou a provocar ciúmes e desafiar os grandes impérios da antiguidade, inclusive o romano.
Inteligentes e práticos, os fenícios pagavam tributos aos vizinhos para que eles os deixassem exercer livremente o comércio e ainda permitiam que estrangeiros morassem em suas cidades permitindo que estes abrissem qualquer tipo de negócio. Não temiam a concorrência porque tinham ciência de que eram mais bem dotados na arte de marcadejar.
Por tais estratégias, esse aguerrido povo prosperou e Cartago chegou a tal poderio e fausto que os romanos a tinham como ameaça permanente, tanto que Catão, o antigo, senador do poderoso império romano escolhera como bordão a expressão “Delenda est Cartago” – Cartago deve ser destruída – para iniciar e encerrar s seus discursos. Um alerta em favor do poderio romano.
Toda essa introdução serve a um propósito, o de contextualizar Paulo Macedo, que não é comerciante, nem construtor de barcos, mas é mestre navegador, mercê de sua singular inteligência e profundo conhecimento da natureza humana, herdada dos ancestrais. Navega nas afeições dos seus conterrâneos adotivos, na condição de decano do colunismo potiguar e pela invejável condição de mecenas da promoção alheia, valendo-se do seu tesouro mais peculiar – o artesanato da palavra de bem dizer.
Conheci-o há muito tempo atrás. Mais precisamente no auspicioso ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1955, numa festa para escolha da Rainha do Colégio Marista em que disputavam duas lindas meninas em flor: Eliane das Virgens, irmã do meu colega Jobel Amorim, e Naide Dantas, irmã do amigo e conterrâneo Hamilton de Sá Dantas. A primeira candidata que, salvo falha da memória, foi a eleita, já se encantou em outros planos existenciais, não sem antes deixar-nos um legado de sapiência, e dedicação, como Desembargadora integrante do Tribunal de Justiça do Estado e de carinho no trato pessoal.
Ainda tive o prazer de resgatar a minha posição de torcedor da sua competidora - minha amiga de infância Naide Dantas - quando fui Promotor em Serra Negra, tendo-a como Juiza. Rimos muito com a lembrança daquela época de descompromissos e inocência.
Então, Paulo Macedo era mestre de cerimônias do evento, dado o seu ofício de colunista social e expert de cerimoniais. Fizera essas vezes como gentileza ao colégio – o mais conceituado do Estado em matéria de ensino e disciplina. Na ocasião, acompanhava-se pela aprendiz e neófita no ofício do colunismo, Luiza Maria Dantas, uma das mais belas jovens da Natal dos anos cinqüenta, com quem depois viria a se casar.
Surpreendi-me com o modo determinado, o desembaraço e o magnetismo que o jornalista irradiava. Pequenino, “pouquinho” como se dizia em Ceará-Mirim, mas dominador. Uma personalidade polarizadora. Não sei se era a sugestão decorrente da sua fama ou de fato era privilegiado pelo carisma herdado dos seus ancestrais, mas a sua figura causou-me forte impressão.
O tempo passou com tamanha velocidade que às vezes me surpreendo buscando uma certa memória deixada na década de sessenta como se fosse coisa de ontem e me surpreendo com os mais jovens me dizendo o quão longínqua está essa lembrança: “Ora, eu nem era nascido ainda!”
Pois bem, se a minha ligação com Paulo era unilateral, pois ele sequer me conhecia, bilateralizou-se nos anos oitenta. É bem verdade que, antes dessa década, eu já o acompanhava como leitor assíduo no Diário de Natal, e também aguardava ansiosamente, todos os dias, a transmissão do seu programa na Rádio Poti, aberto com a sugestiva “Tea for two” dos anos quarenta, glamorosa e aliciante. A música era ainda sucesso no mundo todo, um convite à sofisticação encarnada pelo novo way of life americano, imagine-se em Natal, ainda memoriosa e nostálgica dos anos da guerra quando abrigou os filhos do Tio Sam que se valeram do “Trampolim da Vitória”.
Mas o contato “ao vivo” e a cores só se deu quando me transferi do Rotary Alecrim para o Rotary Sul, a instâncias dos amigos Orione Cavalcanti Barreto e Gleire Belchior.
Lá, além dos já citados, e de outros amigos queridos, encontrei Sid Fonseca, Thiago Gadelha e Valmir Targino, três quadros sociais da melhor qualidade. Thiago iniciava as exportações dos “confeitos” de sua fábrica para os Estados Unidos; Sid levava muito a sério a missão rotária da prática do companheirismo e da prestação de serviços e se preparava como candidato a vereador; Valmir nos encantava com a sua “verve” e rompantes de interiorano que não leva desaforo para casa. Quanta falta nos faz esse companheiro!
Conta-se, em meio às tantas lendas que cercam a biografia de Paulo que, num jantar que ofereceu ao conterrâneo, o então Ministro César Cals, ex-governador do Ceará, teria advertido a Valmir que se controlasse pois não queria submeter a autoridade a constrangimento, já ressabiado com o à vontade do amigo.
Não deu outra. O ministro, cearense de quatro costados, começou a tecer loas à sua terra, e, sem querer, apequenando o nosso estado, por gravidade. E gabava a inteligência dos conterrâneos, dando-os como descendentes dos judeus, embora muito mais espertos. Valmir contou até mil, e depois, como a autoridade continuasse o seu rosário de pabulagens, esperou que ele tomasse fôlego e aí atacou: “Ministro o senhor permite que eu conte uma anedota de cearense?”. O ministro não teve alternativa.
Um Paulo em pânico sugere um licor, um cafezinho, um doce, qualquer coisa que pudesse desviar o curso da tempestade que se prenunciava.
Como ninguém se dispusesse a aceitar um dos regalos do anfitrião, exatamente pelo fascínio da “mise em scéne” do nosso contador de causos, Valmir começou a anedota.
“Um pau de arara cheio de cearenses parou à beira da estrada para que os passageiros `arriassem o óleo`. Dois deles se afastaram para muito longe e quando voltaram o caminhão já tinha partido. Desesperados, ficaram o meio da estrada e paravam cada um dos veículos que vinham na rota do caminhão que os abandonou e perguntavam esperançosos: viram um caminhão cheio de cearenses faltando dois?”
César Cals engasgou-se com o licor que afinal aceitara e Paulo quase é hospitalizado. Todos riram descaradamente.

Paulo não é arquiteto nem engenheiro, é graduado em Jornalismo pela antiga Faculdade da Fundação José Augusto, mas doutorado “summa cum laudae” na Escola da Vida. Que aprendizado mais completo e de maior sabedoria? Pois aprendeu a construir com o João de Barro e com os pequeninos pássaros nidificadores. Cultiva a observação, a paciência, a tolerância e o trabalho perseverante. Como os passarinhos transporta no bico as migalhas, os pedaços, as sobras, e os aproveita numa construção pequena e sólida, convertendo os resíduos em materiais nobres. Nunca planeja palácios, nem arranha-céus, embora as suas construções se postem nos elevados dos serrotes e das árvores.
Mas, mesmo que não projete esse resultado, surpreendentemente, as construções se transformam em castelos. Humilde, nunca perseguiu a glória, mas ela lhe vem ao colo ou aos pés. Predestinação? Talvez. Prefiro a explicação da premiação ao mérito. De que? Poderão indagar os mais sarcásticos e também os invejosos que se auto-denominam “injustiçados”. Ora, a glorificação não se dá apenas pelo mérito intelectual, embora Paulo o tenha, mas, no seu caso, se dá pela sua própria contribuição como original Mestre de Obras dedicado à construção da reputação e da glória alheias.
Alguém já se deu ao trabalho de verificar quantas personalidades Paulo ajudou a construir, a desenvolver ou a manter no pódio da vida social, política ou econômica do nosso estado? Sem nenhum esforço, lembro-me de algumas centenas de beneficiário(a)s, apoiadas por ele nos momentos de crise, estimuladas e impulsionadas nos seus projetos de conquista, afagadas quando o ego pedia compensação, reputações estrategicamente disfarçadas, com muita areia jogada nos olhos dos desafetos e mesmo da opinião pública, além do emprego de táticas diversionistas quando era necessário contornar certos problemas.
De um modo ou de outro, todos os que fizeram parte num dado momento, ou se mantêm até hoje na constelação de estrelas que emoldura o firmamento da terra potiguar, receberam o alento da coluna de Paulo Macedo.
Todos os que privam da amizade de Paulo sabem da impulsividade do colunista quando simpatiza uma causa. É o único momento em que não raciocina como árabe, que de hábito sopesa a iniciativa, avaliando os riscos e o custo/benefício da empreitada.
Quando concorri à eleição para a Reitoria da UFRN, procurei o apoio de Paulo e, no seu pequeno gabinete do Diário de Natal, fiz-lhe o relato dos meus projetos. Entusiasmado, ele me disse que poderia contar com a sua coluna, único recurso de que dispunha para auxiliar-me e que ele sabia que era um valioso instrumento formador de opinião.
Algum tempo depois soube que tivera uma divergência com um seu amigo muito querido, amizade sedimentada ao longo de muito tempo, que apoiava outro candidato, sem o conhecimento de Paulo. Preferiu o confronto a alijar-se do compromisso. Deve ter lamentado, contudo, a impulsividade, pois sabia que o amigo era educador e certamente teria interesse na sucessão da universidade federal do seu estado.

Há quem o considere exagerado nas opiniões e em algumas estórias. Esses se esquecem de dois pormenores. Primeiro, ele é integrante de uma geração de hiperbólicos, dos quais faziam parte, entre outros, o meu amigo Vivi, Veríssimo de Melo, o inesquecível e reverenciado mestre Alvamar Furtado, e o impagável Luiz Tavares, entre outros. Lembro-me de que convidado a relatar certo assunto no Conselho Estadual de Cultura nos anos oitenta, em plena reunião fui alertado pelo extraordinário conselheiro Alvamar a não me alongar muito para que não saíssemos no escuro, enfrentando “a tempestade que se abatia sobre a cidade”. De fato, tratava-se de uma garoazinha recém-iniciada e sem fôlego para prosseguir além de alguns minutos...
Era um estilo, um modo especial de dizer-se, de criar redundâncias imperativas, de bordar adjetivos em torno de composições tão pobremente triviais. Eu sempre me deixei fascinar por esse modo de relatar os fatos, e nunca o considerei aberração, ao contrário era um apoio estilístico, como já afirmei, para enriquecer os relatos sem importância, ou realçar aqueles que pudessem ser julgados desimportantes, sem o serem, na perspectiva do narrador.
Depois, há que considerar, como referi ao tratar do meu amigo Franklin Jorge, nesta mesma série, que Paulo é um personagem. Teve de se inventar para dar certo. E para dar certo precisou construir-se segundo as circunstâncias.
Quem sonhou como ele, teria de se construir de sonhos também, para mimetizar-se às suas quimeras e delírios. E a estratégia deu certo. Paulo deu certo. Ninguém ostenta tantas honrarias nem foi tão distinguido quanto ele. É o decano dos colunistas do Rio Grande do Norte e, com presumidos oitenta anos, mantém-se na invejável posição de formador de opinião com o programa “Sala VIP”, na televisão Ponta Negra, do sistema SBT, de satisfatória audiência, uma coluna na Revista Foco e duas páginas no vespertino “Jornal da Tarde”, onde escreve sobre automobilismo, uma velha paixão. E ninguém é tão reconhecidamente querido.
Os que banalizam ou injuriam as suas conquistas, o fazem por inveja ou incompetência. Sim, porque há gente que não é capaz de construir coisa nenhuma, ou de ascender a qualquer altitude, ficando no rés do chão. E, como não ousam ou não têm recursos para estimular o seu próprio crescimento, procuram trazer os vencedores para o seu nível. Ora, Paulo não alcançou o sucesso gratuitamente, mas fê-lo por merecer.
Se o mereceu em contrapartida pelos serviços prestados pela sua coluna, como entendem alguns desses detratores, nada mais meritório, pois foi homenageado por alguns que se sentiram gratificados. Embora os galardões que conquistou lhes foram concedidos pelo seu próprio mérito humano e intelectual.
Quanto à fascinante lenda que paira sobre a sua origem e chegada a Natal, prefiro deixar aos cuidados do imaginoso Pedro das Malasartes.
“Paulo não veio. Surgiu. E com uma emergência tão determinada, e com tanta força, e com tanta vivacidade, que nem fosse um corisco, um relâmpago, um raio. Por isso que prefiro soltar a imaginação que nem uma pipa nas mãos de uma criança a quem se sovina brinquedo, e pensar que ele bem pode ter vindo das bandas da Síria ou do Líbano, numa daquelas embarcações fenícias. E que, para dar uma pitada de credibilidade à lenda, teria aportado na praia de Canoa Quebrada, em terras do Ceará, a sua Cabrália.
E que depois de algum tempo veio caranguejando pelo litoral até as brancas areias condominiais porque comuns ao nosso estado e à terra de Alencar. Prosseguiu até a Redinha e lá, não resistiu ao apelo da cidade, de longe quase-ilha, embrumada pelo vapor do Potengi rescaldado, escorrendo das dunas, espalhando-se trepadeira pela Junqueira Aires, beijada pela água salgada dos mares de mil-avôs ao longo da generosa orla onde Clara Camarão deve ter amado Felipe.
De resto, a prosa Cascudiana recontou e o seduziu: o romance do rio-mar na boca da barra, o patriciado dos cajueiros, o soldo capitâneo dos Jerimuns , os xarias, os canguleiros, o ABC, o América...
Resisitir, quem há de?
Ficou.
Até hoje.
Noivo da cidade noiva do sol. Alianças trocadas por algemas de touceiras de jasmim do jasmineiro de Auta de Souza. Incerto mas feliz entre seguir a luz do farol de Mãe Luiza ou o misterioso e sombrio caminho do Castelo de Keulen.
De fato, prende-o um amor insano, selvagem, tropical, possessivo. Que, todavia, se alimenta do cotidiano ensolarado, da cálida brisa oceânica e das cruvianas madrugadeiras da terra de Navarro.
Ficou. Ficus.

PEDRO SIMÕES – Professsor de Direito (aposentado). Escritor e Advogado



Com a publcação 302 - "ANÊMONAS", do poeta Ciro José Tavares, o SEBO VERMELHO - edições apresentou sua nova logomarca. Parabéns Abimael e parabéns Ciro pelo belo lançamento e comemorações dos seus 70 anos. A arte é de Alexandre Oliveira.

Sobre o livro, basta transcrever a absoluta realidade da apresentação de Paulo de Tarso Correia de Melo:

"Assim sendo, o que me chamou atenção na poesia de Ciro não são as características eruditas de que outros já falaram, nem a sua própria justificativa dos estudos alentados e cuidadosos. O que me encanta e faz inveja é a simplicidade ancestral e gregamente de pessoas e situações da pequena cidade nordestina e canavieira de Ceará-Mirim."

terça-feira, 24 de agosto de 2010


Convite

Zuleide, Adele, Emílio Carlo e Gabriel, convidam para o coquetel dos 70 anos de CIRO JOSÉ e lançamento do seu livro ANÊMONAS, dia 26 de Agosto a partir das 19:30 hs, no Espaço Di Cavalcanti do Hotel Imirá Plaza. Toda a renda será doada à Casa DURVAL PAIVA de Apoio à Criança com Câncer.