sexta-feira, 3 de setembro de 2010

JUSSIER, A CONCHA E A PÉROLA



Vivo que te quero vivo
Renascente
Redivivo
Vivo que te quero vivo
Vivo como antigamente
Sem sair de nós ás pressas
Sem partir subitamente
Sem apagar-se tão cedo
Qual círio exposto ao vento.

Vivo que te quero vivo
Na tão oculta bondade
Na escondida verdade
De um amor não proclamado
Na perfeição
No cuidado
Na incessante entrega
Na construção de uma tela
Na beleza de um traçado

Trecho de um poema de Augusto Severo Neto em memória de Jussier

O HOMEM PLÁSTICO

Salvo os colegas médicos da sua geração, os intelectuais, os colecionadores dos seus quadros, e, evidentemente, os seus amigos, poucas pessoas sabem quem foi Jussier Ribeiro Magalhães. E bem menos ainda o guardaram na memória para recorrentes ou mesmo escassas recordações. Em boa hora o Governo do Estado criou no Hospital Walfredo Gurgel, um Centro de Tratamento de Queimados com o seu nome, dotando-o de equipamentos e de recursos satisfatórios ao seu objetivo, uma pertinente obsessão do meu amigo
A memória, mais do que o pássaro trêfego e travesso da concepção poética, é pântano, rio caudaloso e manso regato. A superfície lodosa do pântano encobre as más recordações, tudo o que queremos esquecer. O rio caudaloso leva e traz o memorial exuberante, um imagético cinematográfico de curta metragem e efeitos especiais. O regato, as lembranças gravadas prazerosamente na memória, aquelas que apreciamos e degustamos com lentidão e calma, qual a preguiçosa corrente do riacho.
Tudo isso me vem a despropósito, ou a propósito do esquecimento. Porque Jussier se imortalizou para os que o conheceram e ainda hoje o velam, vivo, pelas grandes expressões e pequenas, quase anônimas iniciativas que indicam a nobreza do seu caráter solidário e a imensa ternura que abrigava avarentamente debaixo de sete chaves.
Quando digo quase anônimas as suas iniciativas é porque ele fazia o possível para que elas não fossem dadas como suas, ou as barateava tanto que se desvalorizavam, passando despercebidas. Pelo menos ele assim imaginava. Porque se supunha ou se queria sombra, como se isso fosse possível, logo ele, um colorido que, todavia, se desenhava negro. Sombra é incolor.
Quanto à ternura, referi-me a ela quando tratei de Armando Holanda e o comparei a Jussier. Transcrevo:
“É um tanto desajeitado nos agrados, tal outro amigo querido, Jussier Magalhães, cirurgião plástico e dos maiores pintores do nosso estado, convocado por Deus para o Seu Reino. Entendia o sem-jeito de Jussier e entendo o de Armando. As almas muito sensíveis precisam resguardar o seu carinho, porque se vulnerabilizam, tal como se expusessem as suas “fraturas”, correndo o risco de que alguém, valendo-se dessa fragilidade, ponha o dedo na ferida. Por isso, preservam-se, adotando uma carapaça de indiferença ou de rudeza no ofício do carinho, que as protege, afastando os predadores.”
Não modifico uma vírgula. Era assim o meu amigo.
Tímido, às vezes não suportava que o encarássemos, embora a sua “cara limpa” não aceitasse máscaras, não escondesse subterfúrgios nem subjacentes maquiagens existenciais. Era frágil e vulnerável emocionalmente e sabia disso, tinha receio que outros o soubessem, pela janela escancarada do olhar, dando margem às temerárias explorações que destruíssem a sua precária blindagem, expondo-se às agressões predatórias.
Cultivava um andar rígido e sem girândolas nos braços, estes, quase colados ao corpo, um tanto inertes. A cabeça, quase sem movimentos, projetada na direção do caminho à sua frente, apoiava-se firmemente no pescoço. Postura típica de um que vive sob tensão, de quem se policia para não chamar atenção, de quem não se quer denunciar como espécie diferenciada. De quem, mesmo em movimento, se concentra nas idéias, para não se perder no trivial insatisfatório.
Vestia-se com muito bom gosto, roupas claras, simples, bem talhadas, que pareciam feitas somente para ele, tal a elegância e a casualidade com que as vestia. Ele era “clean” e isso se evidenciava nele por inteiro – no rosto sempre escanhoado, nas roupas, na rígida estética do andar, na disciplina da sua rotina, numa franqueza sem arrodeios que nos confortava, apesar de rude, pela sinceridade. Mesmo que fosse escuro no grafismo dos belíssimos desenhos.
Usava óculos permanentemente, que disfarçavam os olhos, grandes, com cílios tão longos que se encurvavam. Muitos anos depois, conheci um texto que o trouxe até mim. Gilberto Freyre, referindo-se a Randolph Bourne(1), descreveu-o como dono de
“...uns olhos grandes, enormes, tão comuns nos órfãos, nas pessoas feias, nos indivíduos que vivem sós, nos aleijados, nos corcundas.”
Eram grandes e negros os olhos de Jussier. Mas ele não era aleijado, nem corcunda, nem feio, nem órfão. Era um homem bonito. Tinha uma família afetuosa e unida. A mãe, dona Dalva, o pai, seu Antonio, dois irmãos muito devotados a ele – Judson, engenheiro, a quem chamava “neném” e Letúsia, a única irmã, com quem mantinha permanente troca afetiva e diálogo fácil e que se tornou uma espécie de “curadora” de sua obra.
Talvez o “solitário” lhe caiba. Talvez. O modo ressentido dos incompreendidos, carentes ou irrealizados manifestarem o seu protesto – mudo, dissociado, mas sem molestar ninguém, como o fazem os ruidosos panfletários.
Era triste, evidenciava-se triste, embora descobríssemos indícios de uma alegria transitória, trânsfuga, pendular. Aqui e ali mostrava um humor um tanto cáustico, duro, seco - o seu modo de se dizer integrado ao espírito do grupo, mas amostrando as suas diferenças, o seu contido ressentimento que não era contra ninguém em particular, pois amava a todos dadivosamente, mas contra o sistema – o monismo que exigia um alinhamento compulsório ao senso comum e à moral burguesa, ao jeito único de ser humano, a diáspora segregacionista por aí afora...
E ele era uma criatura especial. Nem questionamos o caráter da sua excepcionalidade, embora o tivéssemos como exemplar. Mas era diferente. O modo como se expressava e como se afirmava.
Certa vez “rebolou” uma caixa para o meu filho mais velho, Marcos Frederico, e disse rispidamente: “não use mais aquela porcaria!” Era uma caixa com parafina importada, adquirida quando verificou que o meu filho, surfista àquela época, utilizava um produto de qualidade inferior.
Ou quando nos convidou para jantar, na sua casa de Búzios, defronte à nossa. Um jantar requintado, desde a excelência dos talheres, da louça, dos jogos americanos, do extraordinário cardápio, com direito à entrada, piéce de résistence e sobremesa, tudo feito por ele mesmo, pois era um competente cozinheiro, mais para “gourmet” que para “gourmand” e uns vinhos de “griffe”, licores nativos e importados, água mineral de boa origem e guardanapos de linho, imaculadamente brancos.
Foi-nos servido um bouillabaisse capaz de fazer inveja aos mais renomados chefs de cuisine franceses: desde a escolha correta ao tempo certo de cozimento dos peixes e carne de caranguejos, do bom comportamento dos temperos ao preparo do ruille, com as indispensáveis gotas de Pernod. As torradas, cobertas, melhor dizendo, mergulhadas no molho picante, estavam uma delícia. Os pedaços de peixe e crustáceos também imploravam a submersão completa no mar vermelho do molho picante. Meu Deus do céu!
Para arrematar, uns espertos e quase crocantes pastéizinhos de Santa Clara. É evidente que ninguém poderia ficar insensível a esses mimos. Nem mesmo um profano carnívoro trivialesco que nem eu.
Senti-me, pois, motivado a tecer elogios à altura das carícias recepcionais. E não regateei. Fiz um discurso laudatório de longo curso, detalhando o excepcional banquete, partindo, inclusive, da consideração de que aquele era um prato historicamente plebeu – de restos de comida – e que o seu engenho e arte o havia convertido em acepipe nobre.
Ele aguardou pacientemente o aparentemente digestivo lengalenga e quando acabei ele me encarou – uma das raras vezes que o fazia – e me disse, áspero e inclemente: “não precisava pagar a conta!”



O CIRURGIÃO PLÁSTICO


Creio que foi através do mecanismo que os psicólogos chamam de “compensação” que ele chegou à cirurgia plástica, ao desenho e à pintura. De fato, ele foi vocacionado para essas altiplanuras, mas a necessidade agregou-se á sua própria natureza, naquela troca do genes e da adaptação que definem a matriz do caráter das criaturas. Agora eu consigo estabelecer uma análise mais isenta e percuciente dessas decisões, coerentes com a sua natureza, com a maturação do tempo, que é o senhor de toda a razão e de toda a verdade. Ele tentou corrigir as distorções e colorir, mal-colorindo nos bicos de pena, a fealdade do mundo que descobriu ampliado através das poderosas lentes dos seus olhos de artista.
No ofício da cirurgia plástica, limitou o atendimento estético ao mínimo necessário, já que sobrevivia dessa espacialidade, e se dedicou com maior empenho à prática corretiva dos “queimados” do Hospital Walfredo Gurgel, satisfazendo a sua alma missionária e a esses pacientes deu o melhor de si. Constrangia-lhe a falta de recursos para o atendimento de gente tão sofrida, submetida a dolorosos processos curativos. Custeava do próprio bolso as carências que identificava. E eram muitas. Contam os seus amigos mais íntimos, que o salário que recebia do Walfredo Gurgel só era contabilizado como crédito mês sim, mês não, porque de dois em dois meses, consumia todo o ganho na compra de caríssimos insumos que o Hospital não tinha condições de adquirir.
A sua devoção comoveu a pequena equipe que o auxiliava, um grupo de abnegados enfermeiros e uma grande profissional, sua colega anestesista doutora Rosa Vale do Amaral, a tal ponto, que se deixaram “contaminar” pelo “fransciscanismo” de Jussier.
Muitas vezes nos relatou as dificuldades e os sofrimentos dos seus “queimados”, sobretudo aqueles relacionadas às crianças e aos idosos. Em algumas dessas vezes, em casos mais dramáticos em que punha lado a lado a dor e a indisponibilidade de recursos por descaso e insensibilidade dos governos estaduais, misturava a revolta com um disfarçado arremedo fugidio de lágrimas que eram tangidas como os incômodos argueiros ou os microscópicos insetos que só ele os via. Tentava amostrar-se como um ser humano distante das humaníssimas reações emocionais. Sobretudo as lágrimas que mais e mais o fragilizavam, de si já tão frágil de constituição.
Certa vez, quando se anunciou a visita do então governador Lavoisier Maia, combinou com a sua equipe manter a ala dos queimados do modo em que habitualmente se encontrava, ao invés que “maquiá-la” para a visita do chefe do executivo estadual, para que o administrador avaliasse o estado de emergência daquele departamento. Foi um pandemônio e um escândalo, prato feito para os jornais. Só não foi convenientemente punido, porque precisavam dos seus serviços.
Dormia, acordava, alimentava-se, andava, revolteava, surfava (praticava esse esporte na lagoa de Alcaçuz, solitário e em horas igualmente solitárias), confraternizava com meia dúzia de amigos fiéis, e o tema dos “queimados” terminava aflorando.
Além da família, tinha como amigos, entre outros, Jarbas Borges de Lima, Joventina Simões Oliveira, minha irmã, Ivoni Vieira de França, sua colega, Paulo de Tarso Correia de Melo e Ana Maria, Augusto e Lúcia Severo, Iaperi Araújo, seu duplamente colega, médico e pintor, Dorian Gray, Ana Lígia, Zoraide Melo, Mailde e Cláudio Galvão e a colega-parceira do Walfredo Gurgel, Rosa Amaral.
O ARTISTA PLÁSTICO

Passava ano inteiro preparando as suas telas e promovia exposições com regularidade. Era original no que fazia. Suas obras não “lembravam” nenhum outro desenhista ou pintor. Se houvesse similaridade seria incidental, ou fruto temporão da memória artística subliminar de Jussier. Expressava-se com timbre e linguagem pessoal. Exatamente por isso os seus quadros eram tão disputados nos tempos da Galeria Vila Flor, do amigo e poeta Augusto Severo Neto, desde a Galeria L´Atelier, no longínquo 1966 e depois, o mundo.
Quatro telas produziram-me grande efeito. Uma que eu adquiri e depois fiz uma permuta com minha irmã, atendendo a uma quase-súplica que me fez; outra de propriedade de Jarbas Borges Lima e as outras, respectivamente do meu particular amigo Manoel Onofre Júnior e a de propriedade de Paulo de Tarso.
O quadro de Jarbas é de um lirismo pungente. A poesia transborda da tela e vem até o observador. Um violão recosta-se sobre uma velha cadeira, as paredes perdem a densidade e cedem ás flores e folhas que sustentam um relógio ancestral. O tema é singelo, mas a força impressionista do artista é tão sugestiva que você se enreda com o cenário, se envolve na “atmosfera”, sentindo-se como inocente “voyeur, que, de repente, converte-se num intruso tentado a acariciar ou num gesto mais ousado, tocar o instrumento.
Rescende a solidão, o quadro. E a lembranças. A algo que você já viveu embora não possa precisar a época, nem o lugar. Mas a imaginação lhe apresenta dezenas de circunstâncias e roteiros para estórias vividas ali, num espaço que sugere um quartinho de pensão ou uma água furtada que se perdeu num cenário imponderável.
Entre les deux, son coeur balance. Jussier era um pênsil, um móbile, um galo-dos-ventos. Estava sempre em indeciso trânsito entre as pradarias, veranistas e outonais a um só tempo, e os luares das praias desertas, conferindo a lua, úmida pela emergência do mar. Gosto de pensar que ele se concebia violonista, nestes momentos. Aquele violão recostado na cadeira era seu, de fato. Não conheço a sua preferência musical, mas é difícil imaginar outra composição que não fosse Bach.
Clair de Lune é lugar comum para criatura tão original e de gosto tão apurado. Teria de ser Bach, uma de suas suítes para Cello, com arranjo para o brasileiríssimo instrumento de cordas que com certeza adquiriu. Ou as Bachianas do “nosso” Villa Lobos.
A “minha”, exibe uma recorrente toalha de mesa recortada e sugestivamente ondulada (provavelmente com labirintos nas bordas), tecida com fios grosseiros esgarçados, depondo sobre o testemunho da vida em extinção sugerida pela ossada do peixe, em contraponto com os igualmente recorrentes cajus, que, ao invés gritam a vida, como descreve Jorge Fernandes num dos seus poemas. Há o recurso do mar, ponto de fuga para tanta desolação, revelador do íntimo dorido e atormentado do meu amigo – de fato, um escapista. Por isso se fez pintor, como outros se fazem escritores, ou músicos ou atores. Sobretudo o poeta, em toda a extensão da palavra, todos os que são capazes de sentir com a alma, mais que com a percepção física.
Lembro Pessoa: O poeta é um fingidor/e finge tão completamente/que finge sentir a dor/a dor que deveras sente.
O poeta é um escapista. Os artistas o são. Não adiante prendê-los, porque eles são da espécie Houdini que, por mais preso e mais seguras que sejam as trancas da prisão, sempre se livram das amarras.
A composição poética e musical, a literatura, as artes plásticas, as artes cênicas, a devoção, são métodos infalíveis de fuga. Jussier valia-se da devoção e da pintura, transfigurava-se nas telas, transferia-se, doava-se por inteiro, corpo e alma, o sentimento que sovinava e as emoções que reprimia, às vítimas das chamas.
A composição de Onofre é lírica e quase barroca. Não nego que o invejei por tê-la em casa, sempre ao alcance dos olhos e da imaginação. Uma flor compõe-se com um manuscrito escrito a bico de pena, postos sobre uma toalha bordada. Uma parede carcomida pelo tempo contrapõe-se a uma janela com gradil de madeira, deixando exposto um casario colonial.
Sempre que a vejo, imagino-me em Vila Rica, na casa de um dos inconfidentes, certamente o poeta Tomás Antonio Gonzaga, nos estertores de um poema dedicado à amada Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marilia dele Dirceu.
A de Paulo de Tarso poetiza com ele-mesmo poeta, um momento de recordação, de uma lembrança ancestral ou fixação de ícone intelectual. Sobre a recorrente toalha bordada á Richilieu, repousa uma folha de papel virgem, um vidro de tinta de escrever e uma velha foto em que um suposto patriarca com jeito de poeta, busca um ponto de fixação no horizonte para buscar a sua inspiração.

AS OPINIÕES SOBRE O ARTISTA PLÁSTICO

Dele diz Dorian, o poeta-plástico: “A arte de Jussier está na sua coerência artesanal e no seu equilíbrio instrumental. Possuidor de um traço ágil e firme, ele recupera a tradição do desenho em nosso estado que teve em Erasmo e Navarro seus grandes momentos. Um desenho onde o lirismo está presente em todos os seus quadros, liames de um tema romântico recuperado pela maestria do traço seco e lúcido.”
(Convenho que o seu traço é preto, e deliberadamente esgarçado na sua tessitura. Dá-me a sensação de filamentos elétricos, fibras musculares, feixes nervosos, barbantes desgastados. Já a espinha de peixe, não sei porque, talvez pela premonição de vida extinguida, sugeria-me morte. É terrivelmente, tragicamente belo, assim como a Guernica de Picasso).
Ou, como interpreta Navarro, com poesia lúcida (se isso é possível): “O velho candeeiro sobre a mesinha com pano de labirinto parece no seu traço aqui e ali desmanchado, uma presença fantasmal. Uma luz mágica se adentrando em um mundo antigo de coisa perdida, tempo passado.”
O amigo, poeta Paulo de Tarso adentra a alma de Jussier: “Nos desenhos de Jussier está o insistente contraponto entre o objeto e o elemento natural e através destes, uma poderosa sugestão da presença humana, muito maior que a do simples retrato ás vezes mal conseguido e, portanto, estéril.”
Paulo está correto – sente-se o humano, intui-se a presença de alguém em cada uma das composições de Jussier. Ele está ali como observador, interpenetrando os desenhos. Pôs-se ali, transportou-se para a superfície do desenho. Tive essa mesma premonição nas marinhas de Dorian, quando tracei o seu perfil.
A propósito, lembro-me da “luz interior” de Rembrandt, que atrai e se funde com a luz externa. Veja-se que Jussier trabalha mais com o negro do nanquim, aqui e ali violado por um colorido incidental e fugaz. Mas pressente-se a luz, qual fosforescência sobrenatural, a que alude Navarro. Do interior para o exterior.
Três visões mais que reveladoras do desenhista-pintor: o artesão que trabalha “presenças” espectrais.
Diversamente do grande cineasta John Ford, ele não precisava valer-se de grandes locações para produzir os seus temas. Nem de modelos. Mas foi com natural fidelidade, autêntico ás recomendações dos modernistas de 1922, que abandonou as regras acadêmicas europeizadas e se fixou no conhecimento e devoção á sua aldeia.
Radicou-se - ele, cosmopolita como todo natalense o é por genética – junto ás suas raízes, negando ao refinamento que lhe era característica, o lugar-comum que reclama referências as mais remotas, do ponto de vista geográfico, pilhado de algum manual que pouquíssima gente leu. Não era pedante, nem blasé.
De fato, era como Anteu, semideus dado como rei da África na mitologia grega. Filho de Posidon e de Gaia, (Gea, a terra) o que tinha de extraordinário era a sua invencibilidade nas disputas físicas. Hércules não conseguiu vencê-lo, embora tivesse tentado como nunca o fez. Até descobrir que, se o afastasse do chão, ele perdia a sua força. E assim foi feito. Hércules o levantou do solo e, incontinenti, o oponente perdeu a sua força e foi vencido.
Jussier, na sua obra, expõe a sua força criativa, plantando sementes telúricas com as quais se nutre e se identifica: cajus, redes de pescar, toalhas de labirinto, candeeiros, velas de jangada, ossadas de peixes, mangas, bananeiras e limões, velhas e solitárias cadeiras e instrumentos musicais, uma janela se abrindo para o mar, e, surpreendentes e suspeitados girassóis. Os manuscritos soltos ao acaso continham textos poéticos e partituras. As taças guardavam o vinho das celebrações.
Tudo que ele precisava para dar testemunho de vida e de dizer-se.
Jamais se retratou. Se o fizesse, certamente seria uma espécie de orquídea, de difícil germinação, vida breve e cheia de cultivos. Mas bela. E rara.

(1) Randolph Silliman Bourne (1886 / 1918) escritor nascido em Bloomfield, EUA, graduado da Universidade de Columbia. Bourne é conhecido por seus ensaios, especialmente "O Estado". Nasceu paralítico e desfigurado por um acidente na infância e era, essencialmente, um atormentado. De fato um outsider e rebelde, ele mergulhou no intenso pessimismo de Hardy (Judas o obscuro) e sentia a pungente dor existencial de Tolstoi. Gilberto Freyre o descobriu quando estudava em Columbia e o jovem pensador americano exerceu extraordinária influência sobre o pensamento do notável sociólogo brasileiro.


PEDRO SIMÕES NETO – Professor de Direito (aposentado). Escritor e Advogado.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

ISAUTINA DO OUTRO LADO DO CAMINHO

Arte – Óleo sobre tela de Alice Brandão

A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho.
O que eu era para vocês continuarei sendo.
Me dêem o nome que sempre me deram, falem comigo como vocês sempre falavam.
Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo
que nos fazia rir juntos. Pensem em mim. Rezem por mim.
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho.
(Santo Agostinho)

Estou novamente diante de uma folha virgem, que me pede para ser violada. Mas a libido escrevinhadora está reprimida pela emoção, um sentimento arrebatador, transcendente, traduzido numa palavra que é somente nossa, duplamente nossa, os de língua brasílica e os que a experimentam em solidão: saudade.
Tentei inúmeras vezes transpor para o papel um relato sobre a ausência de Isautina, a minha sogra, amiga solidária e sempre presente, mas não pude. Não sabia por onde começar, nem como refrear essa caudalosa torrente de lembranças e de afetos que nos leva para muito distante da margem de onde melhor poderíamos apreciar os horizontes a que nos propomos desvendar.
Quase sempre eu era arrastado pela enchente do rio da memória, que transbordava as margens e cada vez mais me afastava da visão do horizonte.
Agora eu sei por onde começar: pela revelação mais contundente, porque fora do comum. A da “sogra amiga”, partindo-se da constatação de que essa associação é inconciliável, na opinião popular generalizada. No mundo inteiro as sogras são levadas à fogueira inquisitorial como verdadeiras bruxas, e queimadas em fogo brando para arderem mais lentamente, e experimentarem dores e sofrimentos inimagináveis.
De fato, fomos, no sentido pejorativo tradicional, genro e sogra. Batemos de frente inúmeras vezes até nos fazermos entender e respeitar pelo outro, delimitando os nossos territórios. Daí pra frente, deixamos essa condição parenteral(*) e nos convertemos em amigos. Uma amizade construída a partir dos dissensos, das nossas diferenças superadas e, portanto, amadurecida, duradoura.
Amávamos a mesma pessoa. Jailza era a sua única filha e companheira. Amiga incondicional, confidente, consoladora, parceira de “buraco” e de infortúnios, alma sexuadamente gêmea, e por isso capaz de compreender os gemidos, a importância das minimalistas rusgas existenciais cotidianas, como o ato de envelhecer, por exemplo, de se sentir só no meio da multidão e uma vontade leviana de chorar.
As duas eram cúmplices e co-habitantes de um universo só delas que eu nunca quis nem mesmo trafegar, para não quebrar o encanto de um esconderijo, um refúgio, um santuário exclusivo onde se desarmavam e se convertiam nelas mesmas. Em que eram ao mesmo tempo arrimo uma da outra, numa troca permanente de afeição.
Contentei-me em ser a sombra ou a ausência, quando as duas estavam juntas, porque moravam em cidades diferentes e pouco se viam, embora se telefonassem diariamente.
Ela-Isautina percebeu a manobra através de uma das pontes mais sólidas que construímos entre nós – o sentir intuído, sem necessidade de palavras ou explicações. Era uma pessoa de muita sensibilidade e um grau de percepção incomum, beirando o extra-sensorial. Salvo quando se recusava a acreditar no que intuía, como nas questões de família que a infelicitavam. Aí se tornava uma pessoa comum, debilitada e vulnerável.
Nesses momentos, sofria um processo acelerado de um envelhecimento sobrenatural, surpreendente. As rugas aprofundavam-se, os cabelos mais se encaneciam, as costas se curvavam sob peso imaginário insuportável, os olhos se embaciavam. E a voz adquiria um tono mais brando e mais grave. Como se mastigasse o fel para torná-lo mais digestível.
Li que em certas culturas primitivas e isoladas – os esquimós, por exemplo – os mais novos mastigavam os alimentos sólidos, tornando-os pastosos, para facilitar a alimentação dos muito idosos, desdentados. Era manifestação de carinho e de dedicação aos que se haviam devotado á família.
Provavelmente dava-se algo semelhante com Isautina, de modo inverso. Mastigava as fibras, os nervos e os músculos cozidos no sal e no fel do sofrimento, para transferi-los amaciados para os que a consolavam.
Via-a chorar apenas duas vezes e nunca mais desejei vê-la assim. Era uma explosão de dor comprimida, uma expressão magoada de desespero antigo sempre recorrente. Um grito gemido, se é que me entendem. Como o silvo de uma chaleira de água fervente, resultante de uma pressão muito poderosa reprimida sob controle.
Foi quando morreu o seu filho mais velho, Jailson . E quando se sentiu impotente para corrigir uma questão familiar. Jailza me informou que ela muito chorou, também, na morte do ex-marido, em trágico acidente numa rodovia em Mossoró; que, nessa ocasião ela literalmente desabou, pela primeira vez na vida.
É evidente que deve ter chorado muitas vezes sozinha, quando podia dar vazão, sem constrangimento, á sua tristeza que vinha de muito longe, coisa muito antiga e peregrina.
De alegria, lembro-me que chorou quando a filha casou-se comigo. E quando vieram os netos.
Como dizia um outro velho amigo, Jomar Elpidio de Oliveira, referindo-se á sua própria resistência às lágrimas, morava muito longe o “chorador” de Isautina
Porque, apesar de tudo, a alegria era o seu chão. Mercadejava sempre que podia numa feira de trocas, em que a tristeza era moeda corrente para a compra do riso fácil e do desfrute da bem-aventurança da alegria. Feliz não era, mas fazia força para arrancar de dentro de si as raízes da tristeza anciã e andeja, como já foi dito.
Gostava de serestas puxadas a cerveja. Amava a vida. Era generosa e conselheira. Tomava a si os problemas dos amigos e também dos quase amigos e, mesmo sem ter sido convocada, distribuía conselhos e “carões”. Não tinha papas na língua. Na hora de dizer verdades não poupava ninguém, nem mesmo os superiores nem as autoridades em geral. Era uma dessas paraibanas do brejo, retas, transparentes, diretas, solícitas, mas arrelientas, que dão um pão para não entrar numa briga, mas, se provocadas, não saem nem com a oferta de uma padaria.
Respeitava as pessoas e se fazia respeitar por elas. Principalmente pelos homens - que eles não se metessem a besta que ela lhes punha no lugar. Era mulher valente, de pelo na venta. Havia sido Delegada da Mulher e daí em diante, responsável pela coordenação do Juizado da Infância e da adolescência da comarca de Ceará-Mirim.
Na condição de Delegada da Mulher, prendeu muitos agressores do sexo feminino e por isso, deu força às mulheres e pôs cabresto nos ímpetos dos costumeiros torturadores de esposas e de mulheres da rua. Como espécie de Inspetora dos meninos e adolescentes, chamou muitos pais à responsabilidade e coibiu o liberalismo estimulante da paternidade machista daqueles que prendiam as suas “cabras”, mas soltavam e eram excessivamente tolerantes com os seus “bodes”.
Nesse trabalho, sempre contou com o apoio decidido da Juiza responsável pela vara especializada e pelos delegados da cidade.
Era um ser humano transitório, como as flores que só desabrocham em épocas determinadas. Nossa sorte é que ela era mais de uma dezena de espécies e por isso estava sempre florescendo. Era também instável, porque navegava entre o oceano em fúria e o mar em repouso e por isso o seu barco perdia-se entre tempestades e calmarias. Sua vida imitou a arte, fornecendo argumento para um folhetim dramático.
Quando nasceu a mãe trabalhava no cabo da enxada. Enquanto tinha leite para amamentá-la e alguém para ter a menina sob cuidados, ela foi ficando. Quando abandonou o aleitamento materno e o estômago passou a reclamar farinha, feijão e carne, a mãe entregou-a a um casal de conhecidos, para criá-la e depois ser serventia da casa, ate quando arrumasse emprego decente para sustentá-la. Em seguida, trocou a paraibana Araruna pelo solo potiguar.
A menina cresceu e começou a sofrer maus tratos. Era suficiente uma cara feia para justificar uma surra além dos limites do tolerável, que a deixava inativa no dia seguinte. Um dia, a mãe foi viver com um ex-combatente, velho conhecido, e lhe contou o infortúnio da filha. Foi o suficiente para que o companheiro, revoltado com o relato de maus tratos, fosse resgatar a menina e a trouxesse para Natal.
A menina cresceu num lar tranqüilo, com pai adotivo severo, estudou no Colégio das Neves e no Atheneu. E concluído o curso secundário foi levada pelo “padrinho” a alfabetizar os recrutas do então 16º Regimento de Infantaria, na Salgado Filho, onde o pai adotiva servia. Lá, conheceu o “Galego”, rapaz de Serra Negra, analfabeto, bonito e jeitoso, que era ordenança do padrasto. De olho em olho, toque de mãos, proximidade cheirosa, terminou em atração recíproca. Ela, uma morena bonita, de corpo roliço bem feito.
Casou-se com o ordenança, que dera baixa do quartel e agora era caminhoneiro, e foi viver em Mossoró. O marido tinha um espírito aventureiro, não conseguia esquentar lugar. Foi comerciante, dono de frigorífico, motorista particular e assentou-se mesmo havia começado, como caminhoneiro, piloto de sua própria liberdade.
Os filhos foram nascendo: um, dois, três, quatro bocas para alimentar. E o marido no mundo, deixando um dinheirinho que se acabava no meio do mês. Ela foi trabalhar. Depois, decidiu que iria para a Universidade. E foi. Graduou-se em Serviço Social e passou num concurso do estado, para lotar-se em Ceará-Mirim. O marido enfezou-se, mas, diante do inevitável, acompanhou a família, sempre com um pé na casa e outro na estrada.
Um dia o marido a põe contra a parede: ou ele ou o emprego. Preferiu o emprego, a estabilidade, a possibilidade de alimentar e de orientar os filhos na vida. Decisão que lhe custou o marido, a incompreensão de alguns filhos que a culparam pela ruptura da família e a silenciosa censura da sociedade, ainda preconceituosa, da cidade que a acolhera. E particularmente inepta por ocupar um cargo de conselheira social, vale dizer familiar – que autoridade poderia ter para apaziguar casais e orientar a educação dos filhos, com o casamento desfeito, a unidade familiar comprometida, e por decisão dela?
Impôs-se pelo trabalho, dedicação e competência. Recebeu seguidas promoções e preitos de reconhecimento profissional.
O coração era o seu órgão de choque, a caixa de ressonância dos seus embates com as desventuras que o mundo lhe impunha. Os filhos a censuravam por não cuidar-se e era mesmo que nada. O trabalho era sempre mais importante – embora fosse refúgio para não perder o juízo com tantos desencontros. Achava-se forte e portanto capaz de “tirar de letra” qualquer dificuldade. Deus a proveria, a sua fé a manteria sempre protegida.
Certa madrugada sentiu fortes dores no coração e foi levada ao hospital Dr. Percilio. O médico que a atendeu, em face da gravidade do seu estado, recomendou-lhe que viesse a Natal. Providenciou uma ambulância e a conduzimos ao Hospital Antonio Prudente, único autorizado pelo seu plano de saúde, Hapvida.
Aí começou um verdadeiro inferno. Posta numa dependência de primeiro atendimento, foi medicada segundo os padrões regulares do suposto diagnóstico de infarto. O clínico que a atendeu, fez a recomendação de encaminhamento à UTI e a possibilidade de intervenção cirúrgica. Nesse meio tempo, a matriz da empresa responsável pelo plano de saúde, a Hapvida, localizada em Fortaleza, informou que o seu prazo de carência recomendado, não havia sido ultrapassado. E, de fato, a carência já fora superada. Em seguida, que a recomendação do clinico não poderia ser atendida, porque não havia provisão no seu contrato. E havia.
Mesmo que não houvesse, a lei determinava o atendimento em caráter compulsório, em situações semelhantes, porque ela corria risco de vida. Esses trâmites consumiram mais de quatro horas, tempo precioso perdido em detrimento das suas chances de sobrevivência. Finalmente, desesperados, requisitamos uma UTI móvel da SAMU e, depois de mais uma hora de atendimento a procedimentos burocráticos, a dita ambulância e a respectiva equipe chegaram ela foi transportada ao Hospital do Coração.
Nessa unidade de saúde, ela foi conveniente e competentemente tratada, submetendo-se a duas cirurgias que, no entanto, dado ao agravamento do seu estado de saúde em razão da demora na tomada de providências, veio de falecer.
Morreu por negligência e omissão criminosa da dupla Hospital Antonio Prudente/ Hapvida, useiros e vezeiros deste tipo de expediente doloso, e que, nada obstante, ainda não foi suficientemente sancionado. Permanecem impunes, operando os seus negócios comerciais de modo criminoso.
Mas, sem que a ocorrência trouxesse nenhum consolo ou compensação pela perda da nossa querida amiga, as duas instituições criminosas foram condenadas, por sentença com trânsito em julgado, que reconheceu o direito à indenização dos seus herdeiros por perdas morais e materiais, reconhecendo, por conseqüência, a omissão e a negligência desses fabricantes de viúvos e viúvas.
Entre a indignação, a raiva e o sentimento de perda, prevaleceu a saudade, o sentimento de havermos sofrido a amputação de parte de nós, uma mutilação que nos deformou e cuja marca não pode ser enxertada. Uma cicatriz indelével, uma fratura exposta que nos denuncia sempre a origem: a falta do sorriso brejeiro de Isautina, do seu andar arrastado de quem padece de “esporões” nos pés, a voz roufenha pelo vício do cigarro, os vestidos de estamparias alegres, a maquiagem caprichosa, as suas mãos de fada no preparo das refeições triviais e extraordinárias, os seus resmungos cavilosos e os “carões” desconcertantes, mas tolerados.
Ficou-me uma última imagem, de uma foto tirada no São Pedro de 2008, dois meses antes de sua morte. Ela encarou a máquina com um sorriso meio debochado, cheio de brejeirice, que acentuou a falha nos dentes frontais mais expostos – uma marca pessoal. Trajava um vestido de florzinhas roceiras, bem a propósito da festa, e uma flor vermelha (uma papoula?) presa nos cabelos. A maquiagem lembrava a pintura das roceiras de antigamente.
Quando conclui a fotografia, disse-lhe que estava parecendo uma donzela do pastoril.
Ela olhou-me, zombeteira e provocadora, dizendo o seu bordão preferido:
- Você gosta de mexer, não é? Macaco não olha pro rabo...
Ainda nos vimos, e não sabíamos que seria a penúltima vez, quando veio para o velório de uma amiga, Chica, a irmã da nossa amiga Ana “Balaio”. Depois, pela derradeira vez, no hospital, sofrendo anginas insuportáveis mas encontrando tempo para mais um chiste: Gente ruim não morre fácil...É verdade. São os bons que Deus convoca para auxiliá-lo.

PEDRO SIMÕES – Professor de Direito (aposentado) Escritor e Advogado

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

domingo, 29 de agosto de 2010


“SINTO VERGONHA DE MIM”
Poema – (Sétimas em setissílabos)


“SINTO VERGONHA DE MIM!”
Dissera Ruy, no Senado,
Completamente arrasado,
Por não poder fazer nada,
Em favor da mocidade,
Ante a falta de hombridade,
Da época, a “companheirada”.

Moralidade? acabada,
No seu conceito geral.
Pressentira que esse mal,
Por suas incongruências,
Levaria a juventude
À maior decrepitude,
Às piores conseqüências.

Da massa, as resistências,
Estavam todas minadas.
As estratégias, forjadas,
No cadinho mais imundo,
Desde roubo à safadeza,
Já denotava esperteza
Em dominar todo mundo.

Hoje, o povo moribundo,
Vive da enganação.
O conceito de Nação
Não tem sentido, nem fim.
Sai ladrão, entra assaltante,
Guerrilheira flamejante...
“SINTO VERGONHA DE MIM!”.
.

Wellington Leiros
wleiros.169@digi.com.br
(27.08.2010)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

PAULO MACEDO – DA ARTE DE FALAR BEM



"Eu não sou eu. Sou eu e minha circunstância".
(Ortega y Gasset)




Certa figura do socialite potiguar, muito orgulhoso da sua ascendência, da singular estirpe que lhe emprestava o pomposo nome composto, informava a Paulo Macedo que os seus ancestrais desde há cento e cinqüenta anos participavam da vida sócio-política e econômica do Rio Grande do Norte. Relatava esse fato na expectativa de que o colunista noticiasse essa invejável marca histórica em favor de tão ilustre família.
Paulo ouviu o relato atentamente, como é da sua natureza e, quando o interlocutor fez-se mudo para aguardar as palavras elogiosas do jornalista, ouviu, de fato, outra revelação - a de que os fenícios, ancestrais do colunista, cujo pai é sírio, tiveram origem há cinco mil anos.
O meu então companheiro de Rotary, transmitiu a desconcertante notícia sem afetação nem malícia, apenas registrando com naturalidade a ancianidade da sua linha de sucessão. O quase-nobre engoliu a bebida e a lição de humildade e mudou de assunto.
De fato, a história registra a existência dos fenícios, antepassados dos sírios e libaneses, há cerca de 5.000 anos antes de Cristo. E a sua origem é controvertida, concordando a maioria dos historiadores que ela se deu entre o Mar Morto e o Mar Vermelho. A própria história dos fenícios indica apenas o endereço onde se localizaram nessa migração: a região conhecida na antiguidade como Canãa, eis porque eles também se denominaram de Cananeus.
Os fenícios teriam sido hábeis navegadores, os mais competentes construtores de embarcações, destacando-se como excepcionais comerciantes e artesãos. Consta que a denominação “fenícios” teria sido dada pelos gregos (Phoinix – designativo da cor vermelha). Tal denominação encontraria justificativa na pele acobreada dos antigos cananeus ou no seu produto mais requisitado, a púrpura, substância utilizada para tingir tecidos. Os nobres e os abastados a prefiriam porque as vestes rubras conferiam status aos seus portadores uma vez que na antiguidade só existiam roupas com cores entre o preto, o branco e o cinza.
Observe-se que os fenícios destacaram-se exatamente como empreendedores de produtos onde havia maior demanda ou carência tecnológica entre os povos da antiguidade: navegação, comércio de artesanato e de tinturas. Isso explica o sucesso desse povo extraordinário e os seus descendentes.
(Os mascates árabes que aportaram em terras brasileiras foram responsáveis, como se fossem verdadeiros bandeirantes do comércio, pela interiorização e acesso dos consumidores dos mais longínquos grotões do nosso país aos produtos indispensáveis à sua economia doméstica. À maneira dos botequineiros portugueses, vendiam fiado, mas se revelaram os mais hábeis na arte de negociar.
Quem quer que tenha vivido no interior do nosso estado haverá de recordar de pelo menos um “turco” de língua engrolada que nos fazia comprar sem querer ou pagar o preço que imaginávamos justo, pelo menos duas vezes maior que o custo do produto adquirido. Estão no nosso imaginário e merecem lugar de destaque na própria formação da nossa cidadania).
Três das maiores cidades desse período – Tiro, Biblos e, principalmente, Cartago – foram erigidas e povoadas pelos fenícios. Cartago foi a cidade fenícia de maior importância histórica desse remoto período, por ter sido o centro do comércio e da navegação. Chegou a provocar ciúmes e desafiar os grandes impérios da antiguidade, inclusive o romano.
Inteligentes e práticos, os fenícios pagavam tributos aos vizinhos para que eles os deixassem exercer livremente o comércio e ainda permitiam que estrangeiros morassem em suas cidades permitindo que estes abrissem qualquer tipo de negócio. Não temiam a concorrência porque tinham ciência de que eram mais bem dotados na arte de marcadejar.
Por tais estratégias, esse aguerrido povo prosperou e Cartago chegou a tal poderio e fausto que os romanos a tinham como ameaça permanente, tanto que Catão, o antigo, senador do poderoso império romano escolhera como bordão a expressão “Delenda est Cartago” – Cartago deve ser destruída – para iniciar e encerrar s seus discursos. Um alerta em favor do poderio romano.
Toda essa introdução serve a um propósito, o de contextualizar Paulo Macedo, que não é comerciante, nem construtor de barcos, mas é mestre navegador, mercê de sua singular inteligência e profundo conhecimento da natureza humana, herdada dos ancestrais. Navega nas afeições dos seus conterrâneos adotivos, na condição de decano do colunismo potiguar e pela invejável condição de mecenas da promoção alheia, valendo-se do seu tesouro mais peculiar – o artesanato da palavra de bem dizer.
Conheci-o há muito tempo atrás. Mais precisamente no auspicioso ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1955, numa festa para escolha da Rainha do Colégio Marista em que disputavam duas lindas meninas em flor: Eliane das Virgens, irmã do meu colega Jobel Amorim, e Naide Dantas, irmã do amigo e conterrâneo Hamilton de Sá Dantas. A primeira candidata que, salvo falha da memória, foi a eleita, já se encantou em outros planos existenciais, não sem antes deixar-nos um legado de sapiência, e dedicação, como Desembargadora integrante do Tribunal de Justiça do Estado e de carinho no trato pessoal.
Ainda tive o prazer de resgatar a minha posição de torcedor da sua competidora - minha amiga de infância Naide Dantas - quando fui Promotor em Serra Negra, tendo-a como Juiza. Rimos muito com a lembrança daquela época de descompromissos e inocência.
Então, Paulo Macedo era mestre de cerimônias do evento, dado o seu ofício de colunista social e expert de cerimoniais. Fizera essas vezes como gentileza ao colégio – o mais conceituado do Estado em matéria de ensino e disciplina. Na ocasião, acompanhava-se pela aprendiz e neófita no ofício do colunismo, Luiza Maria Dantas, uma das mais belas jovens da Natal dos anos cinqüenta, com quem depois viria a se casar.
Surpreendi-me com o modo determinado, o desembaraço e o magnetismo que o jornalista irradiava. Pequenino, “pouquinho” como se dizia em Ceará-Mirim, mas dominador. Uma personalidade polarizadora. Não sei se era a sugestão decorrente da sua fama ou de fato era privilegiado pelo carisma herdado dos seus ancestrais, mas a sua figura causou-me forte impressão.
O tempo passou com tamanha velocidade que às vezes me surpreendo buscando uma certa memória deixada na década de sessenta como se fosse coisa de ontem e me surpreendo com os mais jovens me dizendo o quão longínqua está essa lembrança: “Ora, eu nem era nascido ainda!”
Pois bem, se a minha ligação com Paulo era unilateral, pois ele sequer me conhecia, bilateralizou-se nos anos oitenta. É bem verdade que, antes dessa década, eu já o acompanhava como leitor assíduo no Diário de Natal, e também aguardava ansiosamente, todos os dias, a transmissão do seu programa na Rádio Poti, aberto com a sugestiva “Tea for two” dos anos quarenta, glamorosa e aliciante. A música era ainda sucesso no mundo todo, um convite à sofisticação encarnada pelo novo way of life americano, imagine-se em Natal, ainda memoriosa e nostálgica dos anos da guerra quando abrigou os filhos do Tio Sam que se valeram do “Trampolim da Vitória”.
Mas o contato “ao vivo” e a cores só se deu quando me transferi do Rotary Alecrim para o Rotary Sul, a instâncias dos amigos Orione Cavalcanti Barreto e Gleire Belchior.
Lá, além dos já citados, e de outros amigos queridos, encontrei Sid Fonseca, Thiago Gadelha e Valmir Targino, três quadros sociais da melhor qualidade. Thiago iniciava as exportações dos “confeitos” de sua fábrica para os Estados Unidos; Sid levava muito a sério a missão rotária da prática do companheirismo e da prestação de serviços e se preparava como candidato a vereador; Valmir nos encantava com a sua “verve” e rompantes de interiorano que não leva desaforo para casa. Quanta falta nos faz esse companheiro!
Conta-se, em meio às tantas lendas que cercam a biografia de Paulo que, num jantar que ofereceu ao conterrâneo, o então Ministro César Cals, ex-governador do Ceará, teria advertido a Valmir que se controlasse pois não queria submeter a autoridade a constrangimento, já ressabiado com o à vontade do amigo.
Não deu outra. O ministro, cearense de quatro costados, começou a tecer loas à sua terra, e, sem querer, apequenando o nosso estado, por gravidade. E gabava a inteligência dos conterrâneos, dando-os como descendentes dos judeus, embora muito mais espertos. Valmir contou até mil, e depois, como a autoridade continuasse o seu rosário de pabulagens, esperou que ele tomasse fôlego e aí atacou: “Ministro o senhor permite que eu conte uma anedota de cearense?”. O ministro não teve alternativa.
Um Paulo em pânico sugere um licor, um cafezinho, um doce, qualquer coisa que pudesse desviar o curso da tempestade que se prenunciava.
Como ninguém se dispusesse a aceitar um dos regalos do anfitrião, exatamente pelo fascínio da “mise em scéne” do nosso contador de causos, Valmir começou a anedota.
“Um pau de arara cheio de cearenses parou à beira da estrada para que os passageiros `arriassem o óleo`. Dois deles se afastaram para muito longe e quando voltaram o caminhão já tinha partido. Desesperados, ficaram o meio da estrada e paravam cada um dos veículos que vinham na rota do caminhão que os abandonou e perguntavam esperançosos: viram um caminhão cheio de cearenses faltando dois?”
César Cals engasgou-se com o licor que afinal aceitara e Paulo quase é hospitalizado. Todos riram descaradamente.

Paulo não é arquiteto nem engenheiro, é graduado em Jornalismo pela antiga Faculdade da Fundação José Augusto, mas doutorado “summa cum laudae” na Escola da Vida. Que aprendizado mais completo e de maior sabedoria? Pois aprendeu a construir com o João de Barro e com os pequeninos pássaros nidificadores. Cultiva a observação, a paciência, a tolerância e o trabalho perseverante. Como os passarinhos transporta no bico as migalhas, os pedaços, as sobras, e os aproveita numa construção pequena e sólida, convertendo os resíduos em materiais nobres. Nunca planeja palácios, nem arranha-céus, embora as suas construções se postem nos elevados dos serrotes e das árvores.
Mas, mesmo que não projete esse resultado, surpreendentemente, as construções se transformam em castelos. Humilde, nunca perseguiu a glória, mas ela lhe vem ao colo ou aos pés. Predestinação? Talvez. Prefiro a explicação da premiação ao mérito. De que? Poderão indagar os mais sarcásticos e também os invejosos que se auto-denominam “injustiçados”. Ora, a glorificação não se dá apenas pelo mérito intelectual, embora Paulo o tenha, mas, no seu caso, se dá pela sua própria contribuição como original Mestre de Obras dedicado à construção da reputação e da glória alheias.
Alguém já se deu ao trabalho de verificar quantas personalidades Paulo ajudou a construir, a desenvolver ou a manter no pódio da vida social, política ou econômica do nosso estado? Sem nenhum esforço, lembro-me de algumas centenas de beneficiário(a)s, apoiadas por ele nos momentos de crise, estimuladas e impulsionadas nos seus projetos de conquista, afagadas quando o ego pedia compensação, reputações estrategicamente disfarçadas, com muita areia jogada nos olhos dos desafetos e mesmo da opinião pública, além do emprego de táticas diversionistas quando era necessário contornar certos problemas.
De um modo ou de outro, todos os que fizeram parte num dado momento, ou se mantêm até hoje na constelação de estrelas que emoldura o firmamento da terra potiguar, receberam o alento da coluna de Paulo Macedo.
Todos os que privam da amizade de Paulo sabem da impulsividade do colunista quando simpatiza uma causa. É o único momento em que não raciocina como árabe, que de hábito sopesa a iniciativa, avaliando os riscos e o custo/benefício da empreitada.
Quando concorri à eleição para a Reitoria da UFRN, procurei o apoio de Paulo e, no seu pequeno gabinete do Diário de Natal, fiz-lhe o relato dos meus projetos. Entusiasmado, ele me disse que poderia contar com a sua coluna, único recurso de que dispunha para auxiliar-me e que ele sabia que era um valioso instrumento formador de opinião.
Algum tempo depois soube que tivera uma divergência com um seu amigo muito querido, amizade sedimentada ao longo de muito tempo, que apoiava outro candidato, sem o conhecimento de Paulo. Preferiu o confronto a alijar-se do compromisso. Deve ter lamentado, contudo, a impulsividade, pois sabia que o amigo era educador e certamente teria interesse na sucessão da universidade federal do seu estado.

Há quem o considere exagerado nas opiniões e em algumas estórias. Esses se esquecem de dois pormenores. Primeiro, ele é integrante de uma geração de hiperbólicos, dos quais faziam parte, entre outros, o meu amigo Vivi, Veríssimo de Melo, o inesquecível e reverenciado mestre Alvamar Furtado, e o impagável Luiz Tavares, entre outros. Lembro-me de que convidado a relatar certo assunto no Conselho Estadual de Cultura nos anos oitenta, em plena reunião fui alertado pelo extraordinário conselheiro Alvamar a não me alongar muito para que não saíssemos no escuro, enfrentando “a tempestade que se abatia sobre a cidade”. De fato, tratava-se de uma garoazinha recém-iniciada e sem fôlego para prosseguir além de alguns minutos...
Era um estilo, um modo especial de dizer-se, de criar redundâncias imperativas, de bordar adjetivos em torno de composições tão pobremente triviais. Eu sempre me deixei fascinar por esse modo de relatar os fatos, e nunca o considerei aberração, ao contrário era um apoio estilístico, como já afirmei, para enriquecer os relatos sem importância, ou realçar aqueles que pudessem ser julgados desimportantes, sem o serem, na perspectiva do narrador.
Depois, há que considerar, como referi ao tratar do meu amigo Franklin Jorge, nesta mesma série, que Paulo é um personagem. Teve de se inventar para dar certo. E para dar certo precisou construir-se segundo as circunstâncias.
Quem sonhou como ele, teria de se construir de sonhos também, para mimetizar-se às suas quimeras e delírios. E a estratégia deu certo. Paulo deu certo. Ninguém ostenta tantas honrarias nem foi tão distinguido quanto ele. É o decano dos colunistas do Rio Grande do Norte e, com presumidos oitenta anos, mantém-se na invejável posição de formador de opinião com o programa “Sala VIP”, na televisão Ponta Negra, do sistema SBT, de satisfatória audiência, uma coluna na Revista Foco e duas páginas no vespertino “Jornal da Tarde”, onde escreve sobre automobilismo, uma velha paixão. E ninguém é tão reconhecidamente querido.
Os que banalizam ou injuriam as suas conquistas, o fazem por inveja ou incompetência. Sim, porque há gente que não é capaz de construir coisa nenhuma, ou de ascender a qualquer altitude, ficando no rés do chão. E, como não ousam ou não têm recursos para estimular o seu próprio crescimento, procuram trazer os vencedores para o seu nível. Ora, Paulo não alcançou o sucesso gratuitamente, mas fê-lo por merecer.
Se o mereceu em contrapartida pelos serviços prestados pela sua coluna, como entendem alguns desses detratores, nada mais meritório, pois foi homenageado por alguns que se sentiram gratificados. Embora os galardões que conquistou lhes foram concedidos pelo seu próprio mérito humano e intelectual.
Quanto à fascinante lenda que paira sobre a sua origem e chegada a Natal, prefiro deixar aos cuidados do imaginoso Pedro das Malasartes.
“Paulo não veio. Surgiu. E com uma emergência tão determinada, e com tanta força, e com tanta vivacidade, que nem fosse um corisco, um relâmpago, um raio. Por isso que prefiro soltar a imaginação que nem uma pipa nas mãos de uma criança a quem se sovina brinquedo, e pensar que ele bem pode ter vindo das bandas da Síria ou do Líbano, numa daquelas embarcações fenícias. E que, para dar uma pitada de credibilidade à lenda, teria aportado na praia de Canoa Quebrada, em terras do Ceará, a sua Cabrália.
E que depois de algum tempo veio caranguejando pelo litoral até as brancas areias condominiais porque comuns ao nosso estado e à terra de Alencar. Prosseguiu até a Redinha e lá, não resistiu ao apelo da cidade, de longe quase-ilha, embrumada pelo vapor do Potengi rescaldado, escorrendo das dunas, espalhando-se trepadeira pela Junqueira Aires, beijada pela água salgada dos mares de mil-avôs ao longo da generosa orla onde Clara Camarão deve ter amado Felipe.
De resto, a prosa Cascudiana recontou e o seduziu: o romance do rio-mar na boca da barra, o patriciado dos cajueiros, o soldo capitâneo dos Jerimuns , os xarias, os canguleiros, o ABC, o América...
Resisitir, quem há de?
Ficou.
Até hoje.
Noivo da cidade noiva do sol. Alianças trocadas por algemas de touceiras de jasmim do jasmineiro de Auta de Souza. Incerto mas feliz entre seguir a luz do farol de Mãe Luiza ou o misterioso e sombrio caminho do Castelo de Keulen.
De fato, prende-o um amor insano, selvagem, tropical, possessivo. Que, todavia, se alimenta do cotidiano ensolarado, da cálida brisa oceânica e das cruvianas madrugadeiras da terra de Navarro.
Ficou. Ficus.

PEDRO SIMÕES – Professsor de Direito (aposentado). Escritor e Advogado



Com a publcação 302 - "ANÊMONAS", do poeta Ciro José Tavares, o SEBO VERMELHO - edições apresentou sua nova logomarca. Parabéns Abimael e parabéns Ciro pelo belo lançamento e comemorações dos seus 70 anos. A arte é de Alexandre Oliveira.

Sobre o livro, basta transcrever a absoluta realidade da apresentação de Paulo de Tarso Correia de Melo:

"Assim sendo, o que me chamou atenção na poesia de Ciro não são as características eruditas de que outros já falaram, nem a sua própria justificativa dos estudos alentados e cuidadosos. O que me encanta e faz inveja é a simplicidade ancestral e gregamente de pessoas e situações da pequena cidade nordestina e canavieira de Ceará-Mirim."

terça-feira, 24 de agosto de 2010


Convite

Zuleide, Adele, Emílio Carlo e Gabriel, convidam para o coquetel dos 70 anos de CIRO JOSÉ e lançamento do seu livro ANÊMONAS, dia 26 de Agosto a partir das 19:30 hs, no Espaço Di Cavalcanti do Hotel Imirá Plaza. Toda a renda será doada à Casa DURVAL PAIVA de Apoio à Criança com Câncer.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Com as mãos cheias de poesia

Dr. Olímpio Maciel

“Sem a música, as flores e a poesia eu estaria perdida”. Ficou-me esta confissão da poetisa Ivonne Câmara, feita a uma repórter do Diário de Natal, há seis ou sete anos. De fato, música, flores e poesia têm tudo a ver com a poetisa ceará-mirinense, artista em estado de graça com a vida, de onde recolhe flores, canções e poemas com abundância.
A autenticidade da arte de Ivonne Câmara é tão evidente, tão óbvia, que rompe com a barreira entre as gerações e se identifica naturalmente com artistas das mais diversas escolas e tendências. Um Joca Costa, um Pedro Mendes, um Wigder, uma Rachel, todos se identificam de imediato com seu estilo. E as canções que ela compõe por artes e artifícios de um ouvido miraculoso que prescinde de instrumentos, são capazes de agradar ao exigente gosto musical de um crítico como Jorge Galvão.
Todos esses talentos de Yvonne Câmara parecem encontrar na poesia sua melhor expressão. É que sugere a leitura de seu livro “Mãos cheias de estrelas”, da Câmara3 Editora (Natal, 2000).
Dentre as virtudes que saltam à vista desse livro de recorte tão singular, apontaríamos um que nos chamou especialmente a atenção: a sinceridade poética, ou seja, a capacidade de transmitir a idéia que um poema encerra de forma a que cada palavra preencha uma função única e fundamental de coerência e sentido.
Esses traços ficam perfeitamente claros no poema “Constatação”, que transcrevemos a seguir, substituindo os espaços por barras. Diz o poema: “Sou terrivelmente sentimental,/ Choro por qualquer motivo,/ e às vezes mesmo sem razão de ser/ qualquer palavra amável/ me conquista/ um gesto de carinho/ me comove/ Qualquer passo em minha direção/ de apoio ou interesse por mim/ me emociona/ qualquer insinuação de ternura/ ou afeto/ Um sorriso de simpatia/ Um olhar de amor por mim/ me leva às lágrimas/ Mas, hoje, sinto-me/ miseravelmente triste/ ao constatar/ que nunca mais chorei!”.
O desfecho desse belo poema, que exprime toda a sensibilidade de que uma mulher é capaz de expressar em palavras, é ao mesmo tempo de uma cristalina sinceridade poética, o que vale dizer que ao fazê-lo, a poetisa realizou plenamente seu intento artístico.
Essa alquimia poética, essa carpintaria verbal que parece fruto de um feliz acaso é, na verdade, a síntese de uma progressão poética que chega à sua plenitude. O poema “Constatação” não é, porém, uma exceção entre os trabalhos que compõem “Mãos cheias de estrelas”. Senão, vejamos o poema “Objetivo”, poema que resume com simplicidade e precisão toda uma teoria sobre a arte de fazer versos:
“Em poesia/ o esforço maior/ é escolher as palavras/ arrumá-las/ colocá-las juntas/ umas das outras/ de tal maneira/ que não se agridam/ não se machuquem/ de tal modo/ que umas completem as outras/ e se afinem/ se harmonizem/ de tal jeito que de entre elas/ flua o pensamento,/ se manifeste/ dando-lhes vida e sentido/ e fazendo das mesmas/ veículos de suas mensagens/ de paz, amor e alegria/ de protestos e de contestações/ ou de súplicas e admoestações/ Quando não,/ apenas música e ritmo/ clima propício/ para o prazer de se criar/ algo com que realizar/ seja por alguns instantes,/ a desejada plenitude da alma”.
Poliglota, Ivonne Câmara reescreve alguns dos seus poemas em francês e italiano, o que dá um toque de requinte a uma poesia que já apresenta tantas qualidades na língua materna.
Por essas e outras tantas razões me surpreendo quando alguém, que sei que é um bom leitor de poesia, me confessa que ainda não leu os poemas de Ivonne Câmara.
Não posso negar que me entristeço por essas pessoas, porque sei o quanto elas estão deixando de desfrutar poeticamente. Mas esse é um “mal” facilmente sanável. Basta procurar o livro nas livrarias, bibliotecas públicas ou sebos. Em último caso, tomar emprestado a um amigo mais “atualizado” com a nossa poesia, a qual ainda se mostra capaz de produzir agradáveis surpresas, como o livro “Mãos cheias de estrelas”.
____________________
Enviado por LÚCIA HELENA
CARLOS GOMES - UM PEQUENO GRANDE HOMEM

Óleo sobre tela de Alice Brandão

“Quem acende uma luz é o primeiro a se beneficiar da claridade”. (G.K. Chesterton)

Ele me diz, com voz muito grave e pousada nas palavras (como o pássaro no fio do telégrafo), que está cansado e desanimado e que agora quer descansar. Escrever suas memórias, talvez, realizar, quem sabe, um velho projeto de gravar um disco com as músicas prediletas, coisas da juventude, recolhidas nos programas da Rádio Poti...
Mas a voz sugestivamente musical que se vale da pauta no imaginário fio, é sem propósito, cavilosa, um lamento, um instante de distração do viés alinhavado da idade. Porque, percebe-se o brilho nos olhos, a firmeza da voz, a severidade com que trata a si mesmo. Até quando pede arrego, esgrima com uma retórica que nada mais é que o repositório das muitas decepções e indignações recolhidas no seu longo caminho de aprendizagem existencial.
Ele está com os braços apoiados no birô do seu escritório e olha, distraidamente, como um cacoete ou uma fuga para divagação, o retrato do seu velho pai. Percebo que desvia o olhar, certamente, permito-me a ilação, para não encarar a expressão de censura, somente captada por sua imaginação, desse notável jurista e homem público que nunca transigiu em questões de princípio, nem fugiu da liça dos bons combates.
Como se dissesse: “Que é isso, meu filho?” Ou não dissesse absolutamente nada e o olhar de censura pesasse mais que as palavras. Sei do que estou dizendo, porque era a maneira como o meu próprio pai me punia – com um olhar de doce censura, tristonho, frustrado, magoado.
No retrato, o desembargador José Gomes confronta a máquina fotográfica com serenidade, com um destemor natural, sem afetações. Talvez quisesse registrar a própria personalidade de homem simples que se conduzia segundo a sua própria essência, não quisesse aparentar algo diferente, distante daquele moço de Taipu, criado para ser um “homem de bem” segundo a cartilha dos antigamentes , especialmente do velho João Gomes.
Seu filho, Carlos Roberto de Miranda Gomes, Carlos Gomes, (Carlinhos para meia dúzia de amigos mais chegados) segue-lhe as pisadas na areia movediça da contemporaneidade, em que os valores se subvertem e a filosofia moderna se alicerça no propósito de “ter” ao invés do “ser”. Mesmo assim, ou talvez por isso, acompanha os passos do pai, evitando justapor às dele, as marcas do seu caminhar, porque embora seguindo as pisadas, marcadas indelévelmente no solo imemorial da mesma cidade onde viveram, com o mesmo norte magnético esmo balizado por Themis, a deusa da justiça, o filho forjou o própria molde, usando a mesma têmpera do pai.
Carlos Gomes é um pequeno grande homem – vou brindá-lo com o mesmo epíteto com que designei o meu pai, porque ele não comporta outra qualificação. De altura modesta, é um transcendente no seu íntimo, fato que compensa a baixa estatura, ou talvez a estatura seja um artifício, um engodo, ou um ato de humildade para não fazê-lo vaidoso por ser quem é.
Não temos uma biografia conjunta de longas jornadas. De fato, demos um com o outro na velha faculdade da Ribeira, quando cursávamos direito. Quando ele ingressou, eu estava no segundo ano. Alguém o apontou e me disse tratar-se do filho do desembargador José Gomes, um dos nossos professores de Direito Civil. E que o novo colega era um rapaz muito estudioso e esforçado. O “esforçado” ficava por conta do encargo adicional de uma ocupação formal no mercado de trabalho e de uma vida planejada para compromissos mais duradouros e efetivos.
Sinceramente, deu-me a impressão de um tipo que chamávamos de “Caxias”, equivalente, hoje, guardadas as proporções de tempo, espaço e recursos tecnológicos, a CDF ou NERD. Talvez tenha sido uma avaliação apressada e algo antipática da minha parte, que, áquela época me ocupava com coisas tão diferentes entre si e tão fascinantes quanto a filosofia existencialista, a literatura, a prática de esportes e as atividades sociais. Como me levei muito a sério na infância e na adolescência, descobrindo quem era e o que pretendia ser, realizava então a minha temporada adolescente, na contramão do meu amigo, um engajado nos batalhões da responsabilidade precoce. Alguém enredado nas malhas do exercício da maturidade enquanto os iguais viviam sonhos infanto-juvenis
Cruzávamos um pelo outro e nos cumprimentávamos formalmente. Éramos diferentes, saídos de mundos diferentes emoldurados, entretanto, pelos mesmos valores morais e intelectuais. Derivávamos. Ele, de criação rígida, disciplinada, cartesiana e positivista. Eu, oscilando entre o autoritarismo compensatório de minha mãe e o liberalismo arroubado do meu pai. Sobretudo no tocante à liberdade de pensamento, no descompromisso com doutrinas e dogmas, não apenas permitido, mas sugerido pelo meu pai, que se admitia materialista e ateu.
Mas, confesso, fascinava-me a postura de uma rigidez sem sossego do meu futuro grande amigo Carlinhos. A sua austeridade, o modo como pontificava entre os seus colegas de turma, sempre senhor de uma opinião ponderada, honesta e clarividente. Ele era estimado e respeitado, embora não cultivasse qualquer estratégia para conquistar uma ou outra posição. Nele essas qualificações eram tão espontâneas como o ato de respirar.
Destacava-se, na sua aparência, uns olhos vivos que pareciam captar tudo numa perspectiva de grande angular; o aprumo formal das suas roupas e uns bigodes negros e bem aparados. Pisava firme e decidido. Notei que tinha o hábito de falar, perscrutando ao seu redor, embora concentrado no interlocutor, como quisesse estar certo das suas possibilidades de defesa contra o imponderável, ou buscasse no vácuo uma linha de raciocínio adequada à argumentação.
Soube que trabalhava no Tribunal Regional Eleitoral, era exímio datilógrafo e dono de uma memória prodigiosa, capaz, por exemplo, de referir qualquer lei, decreto, regulamento ou ato normativo, sem consulta a qualquer texto ou repositório. E também que era casado e pai de uma filha. Já assentado no mundo, embora começasse a planejar a sua carreira.
Depois, os anos de chumbo nos afastaram. Perdi-me na voragem do desencanto e do medo, tolhendo-me, por vontade própria, a ânsia de explorar horizontes e de voar livre por espaços inexplorados. Vi-me, em 1965, no Rio de Janeiro, na Fundação Getúlio Vargas , e, retornando, fui contratado pela Prefeitura Municipal de Natal, no governo de Agnelo Alves, como Técnico em Organização e Orçamento, mercê do curso que fizera na FGV.
Em 1967 graduei-me, abandonando a velha faculdade e a convivência à distância com o meu notável colega.
(Nesse meio tempo, entre o pós-golpe militar e a ida ao Rio de Janeiro, apaixonei-me por uma colega de turma de Carlinhos com quem quase me casei, e ela reforçava a versão corrente que dava conta da inteligência, da aplicação aos estudos jurídicos e da integridade do meu amigo.)
Faço uma pausa providencial e necessária, para confessar que o cansaço existencial que atribuo como cavilação necessária ao meu dinâmico e tenaz amigo, é de fato, meu, genuinamente meu. Talvez tenha havido uma transposição motivada por uma sub-reptícia inveja do denodo e da persistência de Carlos Gomes. Cansei-me, porque me dei conta que o ser humano claudica pelo hábito de perseguir as mesmas imperfeições, e de cometer os mesmos erros. Fataliza-se à danação por conta própria.
Eis que, às vezes falta-me alento para animar os meus filhos, como muitas vezes careci de argumentos convincentes para estimular os meus alunos. Nunca Rui de Haia foi tão citado e o desalento tão incorporado ao leguleio dos desesperançados. O crime e os igualmente importantes e temerários pecados veniais das transgressões são composições triviais, empobrecendo as leituras do jornais e as audiências dos rádios e televisões. As tragédias são banalizadas. Os humanos parecem alimentar-se, como os urubus e os vampiros, da carniça e do sangue. E parecem não se importar com a corrupção e o declínio da moral.
Por isso tive a urgência de publicar uma série de perfis de criaturas que reputo comumente extraordinárias, porque conseguem permanecer pessoas comuns, alçando-se sobre os seus pares por praticarem conduta regularmente exigida pela ética, mas desprezada pela maioria.
É necessário essa amostra de modelagem para asseptizar os monturos de lixo, tonificar as mentes em crescimento e formação com exemplos dos que valem a pena, daqueles que, mesmo em minoria, valem por uma multidão.
Carlos Roberto de Miranda Gomes é um desses, dos mais destacados. Íntegro, no sentido de ser um feixe de fibras morais de incrível resistência, capaz de repelir as agressões fisiológicas dos corruptos e corruptores. Correto, na justa medida em que é capaz de aplicar a dosagem certa para cada uma das patologias sociais enfermiças e o justo incentivo à sanidade cívica.
É leal. Os que o conhecem, sabem da sua natureza solidária, fraterna, e, sobremodo combativa, quando se ombreia a alguém na veemente defesa das injustas ofensas e agressões. Eis porque a sua mediação é sempre solicitada nos conflitos corporativos e porque as suas opiniões são respeitadas como editos de sapiente jurisconsulto.
Casado há quase cinqüenta anos com a sua vizinha de ascendência italiana, Therezinha Rosso, mantém com a sua consorte uma relação de amor e de amizade, de um companheirismo bem sucedido. Pai de Rosa Lígia (de quem tive a honra de ser professor na UFRN), Teresa Raquel, Carlinhos (que é colega e amigo do meu filho mais velho, Marcos Frederico) e Rocco – todos graduados em Direito - deles recebeu outros filhos, tornando-se pai duas vezes, feito de açúcar candy, com cobertura de caramelo: Raphael, Gabriela, Lucas e Carlos Víctor, Carlos Neto e Maria Clara, que são as suas alegrias.
Família numerosa e unida, coesa, como aquele feixe de varas que o patriarca mandou os filhos quebrarem, sem sucesso, para amostrar o valor da união. Assim também o fizeram o pai, José Gomes e a mãe, Dona Lígia. Seis irmãos solidários: Moacyr, Fernando (falecido), Leda e Elza (que foram colegas de minha mãe no TRE), Socorro e José Gomes Filho (Zézinho).
Que ampliaram o patrimônio familiar com vinte e dois sobrinhos: José Neto, Flávio, Eduardo, Maria da Graça, Lúcia Maria, Renato, Maria Lígia, Fernando Filho, Clemente José, Gracinha, Rosângela, Eduardo,Itamires Filho, Gracia Maria, Tereza Cristina, José Júnior, José Henrique, Patrícia, Isaac Bruno, Flávia Luciana, Greenfell Filho, Rodrigo e Daniel.
Quem poderia aspirar uma riqueza maior?
Mantém-se como uma espécie de patriarca da família, menos por tradição e mais pelo espírito de clã, solidário, disponível, bom ouvinte e conselheiro, é também aquele cujo socorro é solicitado antes do recurso médico-hospitalar. É o enfermeiro experiente, o curandeiro milagroso que às vezes com a simples presença é capaz de afastar as idiossincrasias da saúde e do infortúnio.
É um ser Intelectual que, aproveitando a carona, como eu, segue a orientação de Chesterton quando esse nos adverte que a idéia sem a expressão, é idéia ociosa e a expressão, sem a ação é uma expressão inócua. Somos, permitam-me aproveitar novamente essa circunstância, homens de ação, executivos, embora criadores, contemplativos, líricos – numa definição, operários intelectuais.
Foi assim quando fizemos parceria para a criação do IBTJ, realizando o primeiro curso de direito para os cidadãos leigos; quando promovemos a edição de livros didáticos com metodologia inovadora, para circulação nas nossas turmas de direito da UnP; e foi assim na campanha pelas eleições diretas na OAB, já referida nos perfis de Adilson Gurgel e Paulo Lopo Saraiva.
Filiei-me a ele, a Adilson, o seu maior parceiro, e a Jales Costa. Enriqueci-me com essa adesão. Fortaleci-me porque pude dar vazão às convicções que mantinha reservadas na minha própria individualidade e encontrei identidade e ressonância nos propósitos que perseguia.
Posso, com essa série de perfis, e com o revigorante exemplo de Carlinhos, vivificar o legado de esperanças no futuro da minha terra, esmaecido e débil pelo campear das nulidades e das indignidades impunes. Porque esses modelos são contemporâneos, graças a Deus não integram ainda o “Era uma vez...” para que um cético não se refira aos exemplos como coisa passadista, sem viabilidade para sobreviver no “front” do contemporâneo.
É tão assustadora a conjuntura político-sócio-fiosófica que alguém já me disse que de nada adiantaria o retorno de Cristo, pois ele seria desprezado como visionário e inútil porque não traria teres e haveres, mas apenas palavras...
O tempo embarcou numa espaçonave no então Cabo Canaveral e, vencendo a gravidade e as distâncias, nos pôs frente a frente no Campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no final dos anos setenta, já amanhecendo os oitenta. Éramos, ambos, professores do curso de direito. Ele, vinculado ao Departamento de Direito Público e eu, ao de Direito Privado.
Até chegar ao magistério universitário, ele palmilhou muito chão de barro. O pai, juiz, fez a circunavegância no interior do estado - Angicos, Canguaretama e Macaíba - carregando na carroceria dos caminhões a mobília familiar, pois os magistrados de carreira, vocacionados para a função como o Dr. José Gomes da Costa, residiam nas suas comarcas para melhor atenderem aos jurisdicionados.
Por esta circunstância, atrasou-se nos estudos, embora os pais hajam feito fibras do coração, distribuindo-os entre casas de familiares para que pudessem estudar, já que a itinerância interiorana do pai tolhia tal iniciativa, já que cursavam o segundo grau e não existiam colégios desse nível nas cidades da judicatura paterna.
Fez o primário no Instituto Batista de Natal; o segundo grau no Ginásio Natal e o colegial no Atheneu. Graduou-se em Direito em 1968.
Teve um longo e proveitoso aprendizado no trabalho, realizado desde cedo, por decisão pessoal, consciente das dificuldades financeiras familiares, sem que tal empenho fosse solicitado pelo pai. Determinou-se a coadjuvá-lo na provisão de recursos, pela limitação financeira do ganho paterno – juiz daquela época ganhava pouco, e, se não aceitasse o subsídio dos governos municipais para manter-se independente, o salário acabava mal fosse recebido.
Tornou-se radialista, comerciário e comerciante e depois servidor do Tribunal Regional Eleitoral. De posse do título de graduação, foi Auditor do Tribunal de Contas e integrou o quadro de Procuradores do Ministério Público Especial junto ao mesmo órgão.
Foi o primeiro diretor da Escola de Contas Professor Severino Lopes de Oliveira e primeiro Controlador Geral do Estado do Rio Grande do Norte. Juiz do Tribunal Regional Eleitoral.
Por onde passou, deixou a marca do dinamismo, da correção e da eficiência. Por isso, foi tão requisitado para o provimento de outros cargos, não necessariamente remunerados, mas de suma importância para algum segmento do mister profissional a que se dedicava, a exemplo da Presidência do Núcleo de Estudos Jurídicos da UFRN (NEJUR) e do Instituto Brasileiro de Tecnologia Jurídica (IBTJ), além de integrante de diversas comissões e grupos de trabalho.
Foi Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e membro do Instituto dos Advogados do Rio Grande do Norte. Integra o Instituto Histórico e Geográfico do RN, União Brasileira de Escritores do RN e a Academia de Letras Jurídicas do RN. Foi agraciado com inúmeras honrarias, dentre as quais destacam-se o título de Professor Emérito e Doutor Honoris Causa concedido pela UnP e a Medalha do Mérito Universitário, concedida pela UFRN.
No entanto, confidenciou-me que, a despeito da gratidão e da honra por haver sido agraciado por homenagens tão significativas e importantes, teria sido a exposição de motivos elaborada pelo então Procurador Geral do Ministério Público Especial, professor Múcio Ribeiro Dantas, encaminhada ao governador Geraldo Melo, para concessão da sua aposentadoria, a distinção que mais o sensibilizou.
Foi Professor do Curso de Direito de quase todas as instituições de ensino superior do nosso estado (UFRN, UnP, FARN, FAL, FACEX, ESA, FESMP e ESMARN). É pós-graduado em Direito Civil e Comercial e em Direito Constitucional.
É convidado como consultor e palestrante para assuntos relacionados com a Gestão Pública e se mantém como colaborador de jornais e revistas, além de coordenar um dos endereços eletrônicos mais acessados do nosso Estado, o “Blog do Miranda Gomes”.
É autor dos seguintes livros: Da remuneração dos vereadores, Oração de despedida, A proteção das minorias nas sociedades anônimas, Cadernos de Direito Tributário* (2 vols.), Lei Orgânica dos municípios do Estado do Rio Grande do Norte*, Licitação – teoria, prática e legislação, Curso de Direito tributário*, Cartilha ABC do consumidor, Da imunidade tributária dos aposentados e pensionistas, Manual de direito financeiro e finanças, Licitação – noções elementares, Testemunhos, Cartilha de gestão fiscal e Traços e Perfis da OAB/Rn.
Primeira inconfidência – Pouca gente sabe, mas Carlinhos é dono de uma voz belíssima, que o tempo não descurou. Desde criança era requisitado para se apresentar em festas e nas rádios natalenses. A primeira vez que cantou em público foi no próprio Instituto Batista de Natal e depois no “Domingo Alegre” de Genar Wanderley.
Em 1950 ganhou o concurso da mais bela voz infantil, conquistando o título de “Campeão Vic-Maltema” e com esse galardão, foi contratado pela Rádio Poti, nela permanecendo até 1954. Integrou o elenco de cantores da Sociedade Artística Estudantil e, gravou duas faixas num disco coletivo com os artistas da Rádio Poti e um disco solo na PRE-9, Rádio Clube do Ceará, onde em certa ocasião foi acompanhado por ninguém menos que Evaldo Gouveia.
Gravou também com o Trio Irakitan. Teve um programa semanal na mesma Rádio Poti, denominado “Almanaquinho Seta”, onde também se apresentavam Agnaldo e Selma Rayol. Prosseguiu com entusiasmo a sua trajetória artística até que o Desembargador José Gomes decidisse realinhá-lo para projetos mais concretos e duradouros, exatamente quando a jovem revelação musical se preparava para vôos mais ambiciosos: havia sido convidado para integrar, como profissional, o “cast” da Rádio Tamandaré de Recife, com a promessa de gravar um disco na indústria Rozemblit, dona do famoso selo “Mocambo”
Mas esta é outra estória, e tão fascinante, que não quero roubá-la do meu amigo, que fica nos devendo um livro cujo título sugiro tomar de empréstimo do cancioneiro Luiz Vieira: “O Menino Passarinho”.
Segunda inconfidência – É de índole pacífica. Conciliador e homem contido pela educação, é daqueles que conta até mil para não perder a paciência, porque antes de tudo respeita a dignidade e a compostura alheia. Mas, depois que excede a milésima contagem, que me perdoem o despropósito da referência, mas não resisto ao meu ímpeto nordestino: é igual a um siri numa lata.
Querem ver um homem valente e destemperado, que se pise no calo de estimação: a sua honra, a sua dignidade pessoal.
Terceira Inconfidência – Há uma passagem de muita singeleza da vida do meu amigo que ele recorda com muito orgulho. Foi quando serviu ao Exército (1959) no 16º R.I, na Companhia de Comando e Serviços - CCS. O comandante do Regimento era Dióscoro Gonçalves Vale, conterrâneo do Seridó, que depois chegou ao generalato; o comandante da Companhia era Milton Freire de Andrade que muitos anos depois comandou a Polícia Militar do nosso estado.
Disse-me Carlos Gomes que no serviço militar aprendeu muito civismo e a idéia de igualdade. Recorda que, com muita honra foi distinguido com a Medalha Marechal Hermes, de aplicação e estudo, exatamente no dia da inauguração de Brasília."

Sinto-me lisonjeado e honrado por ser seu amigo. A ligação pessoal me engrandece, é referência curricular e certamente afiançará os seus herdeiros que se valerão dos laços co-sanguíneos para atestar a pureza e a excelência da linhagem.

(*) Vic-Maltema era a marca de um achocolatado dos anos cinquenta que concorria com o Toddy e o Nescau.


PEDRO SIMÕES – Professor de Direito (Aposentado) Escritor e Advogado.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

VERGONHA

ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Rio-Grandense de Genealogia e membro do IHGRN e da UBE-RN)

Foi com muita tristeza que, pela segunda vez, nesses últimos três meses, visitei as ruínas do que foi, há bem pouco tempo, o Museu Nilo Pereira em Ceará-Mirim RN. No último mês de maio, lá estive no finalzinho de tarde quando voltava de minha chácara, que fica no vizinho município de Maxaranguape. Naquela ocasião fui atraído pela beleza da lua cheia que surgia por trás do casarão do antigo Engenho Guaporé. Construído em meados do Século XIX, mais precisamente em 1850, em estilo neoclássico, o casarão foi residência do segundo vice-presidente da província do Rio Grande do Norte, Vicente Nelson Pereira, genro do Barão de Ceará-Mirim.
Fazia algum tempo que não percorria aquela estradinha que lava ao casarão. Costumava visitá-lo nos anos 80 e 90, quando trabalhava no Banco do Brasil e fazia fiscalização nas propriedades rurais da região.
Aproveitei o ensejo para ver de perto, a situação em que o mesmo se encontrava, pois naquela semana havia me chegado, por e-mail, uma filmagem de vândalos atirando pedras nos vidros que adornavam portas e janelas. Era uma cena deplorável. Uns rapazes filmavam os outros, que naquela euforia bestial, se revezavam em atirar pedras, ao tempo que deliciavam-se com a destruição do patrimônio público e a memória da cidade. Fiquei horrorizado pela cena e lamentei que aquilo estivesse sendo praticado por jovens, que pareciam ser estudantes que para ali tinham se dirigido com esse propósito, já que o museu está localizado em uma área que não é passagem para lugar nenhum.
Infelizmente a situação em que se encontrava o Museu, era pior do que eu havia imaginado. A guarita que fica na entrada, estava em ruínas. Suas portas e janelas foram arrancadas, e parte o telhado já havia caído. A estrada, calçada com blocos de cimento, que dá acesso ao Solar, estava totalmente coberta pelo mato, assim como o estacionamento.
Aproximei-me da porta, mas não tive coragem de entrar, pois como disse, já estava escuro e as casas de marimbondos caboclos, pendiam das portas e janelas em posição ameaçadora. Eram eles, junto com morcegos os guardiões daquele patrimônio. Na entrada principal, impávido, lá estava um grande sapo cururu, bem postado na soleira, como se fosse o mordomo a espera do visitante. Esperava, talvez, alguma mariposa descuidada que por ali passasse em busca dos canaviais, que lhe complementaria sua refeição diária. Fiz algumas fotografias e prossegui viajem.
Hoje, como retornei da chácara mais cedo e estava acompanhado por alguns amigos, resolvi percorrer novamente aquele caminho coberto de mato, que leva ao Museu, com a intenção de mostrar aos amigos que me acompanhavam a situação de abandono que se encontrava aquele patrimônio de inestimável valor histórico. Novamente me senti desconfortável diante daquelas ruínas, principalmente por ele ser parte da história da cidade de Ceará-Mirim, cidade que aprendi a amar e respeitar desde que aqui cheguei no início dos anos 80, para inaugurar a Agência do Banco do Brasil. Fiz e faço parte dessa cidade onde trabalhei durante 23 longos anos e conquistei grandes amigos.
Diante daquele quadro desolador, não pudemos deixar de nos perguntar: onde estão os Órgãos Públicos encarregados de manter e conservar aquele patrimônio? Porque deixaram a situação chegar até esse ponto? Que foi feito do mobiliário antigo que aqui existia? Onde estão as várias peças, confeccionadas em jacarandá, e o belo piano de calda que adornava a sala principal? É bem provável que hoje faça parte da mobília da casa de algum esperto, do tipo que considera o patrimônio público, como privado.
Adentramos ao casarão e pudemos constatar o que já imaginávamos quando chagamos próximos a entrada principal. Um verdadeiro espetáculo de destruição. Para todos os lados que olhávamos e por todos os cômodos que passávamos a visão era a mesma. Cheguei ao pé da bela escada de madeira que lava ao sótão e resolvi subir. Temeroso pela minha segurança, pois não sabia o estado que ela se encontrava, prossegui degrau por degrau até chegar lá em cima. A todo tempo me desviando de morcegos e marimbondos, consegui chegar são e salvo até a parte mais alta do velho casarão.
O sótão, composto por vários cubículos, é beneficiado por uma boa ventilação. Uns compartimentos com mais altura e outros, acompanhando o telhado, terminam em locais tão baixos que não permitem uma pessoa ficar em pé. No centro, onde fica a parte mais alta, uma janela para o nascente e outra para o poente, compõem sua arquitetura. Daquele local a visão é deslumbrante. Para o nascente se descortina o verde vale com seus canaviais ondulados ao sabor do vento. Para o poente vemos alguns coqueiros centenários e por trás deles o verde escuro da mata, que esconde aos pouco o crepúsculo que chega com o final da tarde, também constitui uma visão maravilhosa.
Ainda foi possível observar que a última seção do corrimão da escada, que também servia de parapeito, havia desaparecido. O piso ainda apresenta bom estado, em virtude de ter sido feito com madeira de lei. Entretanto, não pude deixar de notar que algumas tábuas estavam soltas, como se alguém as tivesse “preparado” para lavá-las em outra oportunidade. Talvez a mesma pessoa que se apropriou indevidamente do corrimão da escada.
Quando já me preparava para descer, fui surpreendido com uma visão inusitada. Num canto do corredor, que separa as duas extremidades da casa, quase despercebido, lá estava imóvel e bem acomodado, o velho cururu. Não sei como o batráquio conseguiu chegar até aquele local, pois para isso, teve que vencer três lances de uma escada íngreme e de degraus muito estreitos.
Mas, o importante é que ele conseguiu, pelo simples fato de ter tentado. E nós porque não tomamos o exemplo daquele velho morador do museu e também tentamos fazer algo para salvar aquele monumento enquanto as paredes ainda resistem ao abandono, ao descaso das autoridades e ao ataque dos vândalos?
Por que não tentamos conseguir um pouquinho do nosso suado dinheiro, que principalmente nessa época, é usado na compra de votos e consciências desse nosso povo sofrido e culturalmente ignorante, para recuperar uma parte da nossa memória? É justamente MEMÓRIA o que mais nos falta. Está literalmente em nossas mãos a oportunidade de mudar, escolhendo administradores comprometidos com a melhoria da Nação, principalmente no que se refere à educação. Um povo sem educação é presa fácil e sempre será refém de políticos espertalhões.
Natal, 13 de agosto de 2010.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

domingo, 15 de agosto de 2010


A GENIALIDADE DE NEWTON NAVARRO

Odúlio Botelho Medeiros-ex-presidente da OAB/RN



Tive o prazer e a felicidade de ter conhecido e convivido com o pintor e poeta Newton Navarro. Vivenciei, portanto, o seu lado boêmio e o seu valor cultural. Quando em estado de “graça”, apesar de não lhe fugir à genialidade, tornava-se irônico e, de uma certa forma, polêmico. Todavia, esse comportamento diferenciado é próprio dos poetas, que são rebeldes por natureza. E esse conviver esporádico com o grande artista deveu-se à amizade que ele manteve com meu irmão Emanoel Botelho (Maneco, que se foi para o Estado do Pará e nunca mais voltou) e com Nei Leandro de Castro, tudo nas décadas de 50/60, nos velhos tempos do Granada Bar, que funcionava na Avenida Rio Branco em Natal.

O Granada era, com toda certeza, o centro cultural da boêmia natalense. Nos seus corredores e nas suas mesas não era difícil àqueles da minha geração encontrar figuras como Câmara Cascudo, Luís Carlos Guimarães, Nei Leandro, Jurandyr Navarro, Berilo Wanderley, Diógenes da Cunha Lima, Nilson Patriota, Sanderson Negreiros, Moacir Cirne,Veríssimo de Melo, o próprio Newton Navarro, talvez o seu mais assíduo freqüentador, Luis Rabelo, que fez escola na literatura norte-riograndense, na opinião dos críticos da época.

A minha geração, essa geração do pós-guerra, foi muito rica em valores intelectuais e boêmios famosos, como Roldão Botelho, Luís Tavares, Alexandre Garcia, Valter Canuto, Nei Marinho, Antônio Elias França, e seu filho Glicério, Gil Barbosa, Luís Cordeiro, Castilho, Raimundo do Cartório, Albimar Marinho, a figura mais pitoresca da cidade. Ao encontrar o advogado João Medeiros Filho, indagava-lhe cheio de prosopopéia: “e então, Dr. João Medeiros, o direito continua líquido e certo?”. Isso era ótimo! Peço venia aos outros que aqui não foram mencionados. Eram tantos e tantos que os seus nomes não comportariam nesse pequeno espaço. Natal era uma festa!

Na verdade, o que me inspira mesmo a escrever essas reminiscências é a grandiosidade de Newton Navarro. Entendo que Natal esqueceu muito cedo o seu maior artista, ou melhor, possivelmente um dos mais completos intelectuais na modesta maneira de eu enxergar a cena urbana da cidade. Sendo um intelectual polivalente, Newton foi o mestre maior da pintura nordestina. Além disso, era excelente cronista, com as suas estórias curtas, ricas de beleza e criatividade. E que dizer de sua poesia? Lembro-me que foi ele quem desasnou o grande Nei Leandro para a vocação poética, ao dar-lhe régua e compasso para esse difícil campo das atividades humanas. Além das citadas qualidades, ainda escreveu peças teatrais, literatura infantil, perfilando no campo da oratória, a meu ver o mais completo orador de sua geração, com atuação em todos os campos do discurso: sacro, popular, em recinto fechado, em palanques públicos, em grandes eventos sociais e, principalmente, nos bares da vida. Nesses é que os homens revelam os seus melhores sentimentos e os seus dotes humanitários.

Destacou-se, também, como novelista...(De Como se Perdeu o Gajeiro Curió). Não se pode esquecer o Newton folclorista, cultor dos fandangos, cheganças, bumba-meu-boi, lapinhas, pastoris, cocos de roda, maxixes, xotes, e tantas outras manifestações populares atualmente esquecidas e em desuso.

Tudo isso, Djalma Maranhão incentivava na condição de Prefeito de Natal. Foi, inegavelmente, o mais lírico e popular prefeito desta cidade de xarias e canguleiros. A obra deixada pelo genial escritor é significativa, por ser variada e múltipla; Poesias: Subúrbio do Silêncio; ABC do Cantador Clarimundo. Crônicas: 30 Crônicas Não Selecionadas. Contos: O Solitário Vento do Verão; Os Mortos são Estrangeiros (o seu livro preferido); Do Outro Lado do Rio, Entre os Morros. Novela: De Como se Perdeu o Gajeiro Curió (o escritor Nilo Pereira afirmou que esta novela deveria ter sido filmada). Teatro: Um Jardim Chamado Getsemani; O Caminho da Cruz – uma Via Sacra encenada ao ar livre, em Natal, pioneira nesse ramo teatral; Hoje tem Poesia, encenada no TAM; O Muro, encenada no TAM. Além dessas, existem muitas outras peças inéditas que sua mulher Salete Navarro esperava que fossem publicadas, por quem de direito. Salete lutava ardentemente pela criação de uma fundação para que a obra do grande escritor não viesse a perecer.Morreu sem poder realizar o seu sonho!

Inesquecível Newton Navarro, falecido aos 63 anos de idade, receba esta crônica pelo menos como uma homenagem da minha geração. Ainda bem, que agora, o atual governo prestou-lhe merecida homenagem ao denominar Ponte Newton Navarro, essa grande obra de integração urbana e social. Somente assim Newton, essa cidade continuará sempre sua.