domingo, 4 de julho de 2010


VER E ENXERGAR SÃO COISAS DIFERENTES


"Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos" Anaïs Nin


Confesso que já mantinha certa desconfiança, mas só tive a certeza de que havia aprendido muito pouco nesta longa jornada, desde o nascimento até o portal da velhice, quando a minha neta Isabela (Belinha), menina viva, cheia de interrogações e exclamações estonteantes, me perguntou com voz arrastada:
“Vovô, por que essa rosa vermelha não é azul?”
(Então, estávamos no “Jardim de Maria”, área do Reino da Quinta dos Pirilampos, devotada às flores mais destacadas, pela beleza e pelo aroma. Ali reinavam aquelas que mereceram de nós a preferência por suas qualidades e por isso as declaramos princesas: rosas, açucenas, jasmins, bugaris e algumas flores silvestres.)
Pensei numa infinidade de respostas recheadas de lógica ou em explicações baseadas no fenômeno ótico ou na botânica, imaginei uma resposta teológica, e até mesmo tive vontade de contar a estória de Monteiro Lobato, “O reformador da natureza”. Pensei em tudo o que um ser humano, em seu senso comum, teria cogitado naquelas circunstâncias.
Mas, contive a enxurrada das minhas sabenças, quando tive a percepção de que nenhuma das respostas atenderia à curiosidade de Belinha, porque ela era uma criança e dessas cheia de imaginação - por certo haveria de querer sempre mais do que a lógica simplória poderia lhe oferecer - e não seria eu a subverter esse privilégio que Deus lhe concedera, de pensar com os olhos (ou de ver com a alma).
No pouquíssimo tempo em que refleti sobre a orientação da pergunta e me assegurei do contexto adequado para a resposta, fui tomado por uma lembrança-relâmpago, que acendeu a memória da minha própria infância. Esse recurso não é nada incomum. Sempre retorno às minhas recordações infantis para compreender os jovens, assim como me valho do meu difícil aprendizado existencial, para entender os obstáculos enfrentados pelos recém- iniciados ou alheados da sabedoria.
Vi-me, então, diante do olhar tolerante, mas perplexo, do meu pai, avaliando a minha pergunta sobre “o quê sustentava o céu, e o que evitava que ele desabasse sobre a nossa cabeça”.
Lembro-me que naquele momento mágico, único, em que eu iria ter, talvez, a mais fantástica descoberta da minha curiosidade infantil, a minha ansiedade só era contida pela certeza de que receberia uma explicação que iria pacificar a minha imaginação.
Então, eu não ansiava por verdades, até mesmo porque as desconhecia, mas pelas revelações, pela decodificação mágica do fenômeno, pelo seu envolvimento com a fantasia, porque este era o meu universo. Contrariá-lo, contrapondo a ele os fatos desprovidos de imaginação, seria um desfloramento à tenra e fantasiosa natureza infantil.
(Como ocorreu quando a minha crença na existência de Papai Noel foi contestada por um realista amante da verdade, pai de um amigo de infância, que achou absurda a iniciativa de alguém estimular mentiras na mente de uma criança. Talvez por isso o seu filho nunca foi feliz. Até hoje é um desassossegado filho das sombras.)
Meu pai afagou o queixo com a mão esquerda, como se buscasse socorro num cavanhaque imaginário, vagou o olhar pelo horizonte e retornou ao nosso plano, transfigurado, pareceu-me. Era um mago ou um contador de estórias, daqueles com longas barbas brancas, confiáveis óculos de aros redondos com lentes incolores e um cajado entre as duas mãos.
“O céu, meu filho, é como uma peça de tecido especial que não tem começo nem fim, imenso, onde estão bordadas as nuvens, o sol, a lua...”
Como se adivinhasse a minha próxima pergunta, prosseguiu:
“Esse tecido tem pequenos furos, invisíveis para nós, por onde escorrem a chuva e o vento. Pois bem, acima desse imenso toldo, que é como se fosse a lona de um circo, há um gigante, mais forte do que milhares de Hércules reunidos num só, cujo único trabalho é segurar os fios que sustentam o céu.”
Ainda mais uma vez antecipando-se à pergunta inevitável, esclareceu:
“Esse gigante é incansável e imortal. Há milhões e milhões de anos que faz o seu serviço e o céu nunca caiu.”
“E por que os trovões, os relâmpagos, as estrelas cadentes, o arco-íris..?”
“O trovão é o som de um grande tambor, que é o modo como o gigante nos avisa de alguma tempestade. Os raios e os relâmpagos acontecem quando duas nuvens entram em choque, uma delas é afastada e chora. As chuvas são as lágrimas das nuvens. Quando um cometa arremete contra o toldo, este se rasga, e temos as tempestades. O arco-íris é um aviso desse gigante de que a lona foi costurada e está tudo bem.”
A cada uma das questões que eu lhe apresentava a imaginação do meu pai mais burilava as respostas e mais o meu encantamento crescia com elas. E, naturalmente, o fortalecimento da minha confiança, de que a abóbada celeste estava segura, entregue ao mais forte e vigilante dos heróis.
(Alguns anos depois, já adulto, descobri na revista em quadrinhos “Asterix” que o rei dos gauleses tinha a mesma preocupação que eu: que o céu desabasse sobre a sua cabeça.)
Abandonei a divagação e retornei à questão da rosa. E desejei que os “olhos” da imaginação de minha netinha enxergassem a nova roupagem que eu adquirira, apropriada para o momento: vesti-me com um manto azul claro, sedoso, e um comprido chapéu cônico cheio de estrelas sobre a cabeça.
Assim caracterizado, encarei a minha neta por trás dos óculos de lentes e aros ovais, rezando para que ocorresse o milagre de torná-los redondos, cofiei os fios brancos da minha própria barba, e respondi, com a voz um tanto embargada pelas recordações:
“Um anãozinho, Belinha, um anãozinho trapalhão e daltônico (expliquei o que significava a palavra) pinta as rosas de acordo com o seu humor – se está zangado, pinta de vermelho, se alegre, de amarelo, quando não sente nada e está sonolento, deixa-as brancas. Como ele confunde as cores por causa do defeito da vista, às vezes o resultado fica ao contrário do que queria...mas ele nem percebe.”
Arrematei:
“Você se lembra de “Alice no país das Maravilhas”, onde as rosas eram pintadas de vermelho para agradar á rainha?”
Ela confirmou.
“E Então! Você pode dar às rosas o colorido que você quiser, usando um pincel mágico, especial, que só você o vê.”
Ela, um tanto insegura quanto ao resultado, argumentou:
“E se as tintas não “pegarem”? Porque em “Alice” as flores eram pintadas com pincel de verdade, não eram, vovô?”
Nem pisquei.
“Aí você fecha os olhos, pensa na cor que você deseja e se afasta. Quando estiver bem longe, você abre os olhos. Elas ficarão gravadas na sua cabeça, como uma fotografia, e então, você poderá vê-la na cor que você escolheu. E tem mais uma mágica - só você poderá vê-la na cor escolhida”
Ela me olhou com uns olhinhos miúdos e maliciosos e sentenciou:
“Já sei! Todas as cores estão na minha cabeça, então a gente escolhe uma e manda um recado pros olhos dizendo para eles verem do jeito que a gente quer, não é?”
Confirmei, e ela se deu por satisfeita.
Alguns dias depois ela me telefonou dizendo que tinha inventado uma nova brincadeira. Quando ela não gostava de uma certa cor em qualquer objeto – e até em pessoas - ela mudava, fazendo do jeito que eu havia ensinado e que estava se divertindo muito.
Sempre vigilante, o meu querido irmão José fez-me refletir sobre o sentido e a percepção, o real e o intuitivo. E veio na companhia do clarividente Rubem Alves, capaz de enxergar na escuridão, como o fazia o poeta Jorge Luis Borges. Atrevo-me, portanto, a navegar entre abrolhos.
Por minha conta e risco, mas balizado pelos mestres, faço uma distinção entre ver e enxergar, cuja distinção é desestimulada pelos dicionários, mas, ao menos o Houaiss, embora sutilmente, esclarece que no enxergar há mais acuidade que o ver.
No entanto, tenho para mim que o primeiro vocábulo é o atributo do sentido da visão, o ato de distinguir as coisas pela forma, cor e luminosidade, no mundo de relações denominado por nós como real. O segundo consiste num ato de revelação, numa percepção que ultrapassa o simples ato de captar as imagens desse universo real – vê-se também com o pensamento, com a projeção da imaginação.
Enxergar é ver além da distinção imagética, é ver com a alma. E esse modo, mais perceptivo que sensitivo de decodificar o universo, é tão ou mais importante que simplesmente entrevê-lo pelo órgão da visão, sem qualquer arrebatamento.
Enxergar é ver com a imaginação, como o fizeram os pintores impressionistas e surrealistas, ou os fotógrafos e cinegrafistas que trabalham com efeitos especiais.
Por que? A resposta está numa nova pergunta; por que nos sentimos tão atraídos pelas imagens ilusionistas, pelas “sensações” que elas nos transmitem? Certamente porque há um processo de empatia entre elas e o nosso inconsciente. Algo que transcende à lógica.
Defendo que não há barreiras entre o ilusório e o real, senão aquelas criadas por nós mesmos, por medo, conveniência, desesperança ou cegueira. Não teríamos energia elétrica ou nuclear, telefone, cinema e televisão, computador e outras miraculosas “invenções” se não fosse o sonho dos criadores.
As teorias ditas científicas são, na verdade hipóteses criadas pela nossa imaginação a que alguém, um visionário, deu crédito e as converteu de energia em estado sutil, em massa, energia em estado condensado. Ou as manteve em estado natural – as ondas eletromagnéticas...
Às vezes, vê-se o universo que chamamos de real, sem forçar a imaginação para mais além, distinguindo-o nu e cru, sem nenhuma fantasia. Mas se alongarmos o olhar buscando a essência mágica das coisas, poderemos perceber, por exemplo, que o efeito produzido pelo reflexo da lua, numa poça d’água, não se resume à imagem espelhada, mas às cogitações e divagações que esse fenômeno nos desperta.
Por que não cogitar que a lua é vaidosa e que se distrai vendo-se refletida na poça. Cuidar para que ninguém pise na poça, para não ferir a lua, que se transporta para o espelho d’água... situar-se além do plano visível, alcançando uma outra dimensão, a imaginativa.
Por que? Porque não satisfaz ao apetite da nossa porção espiritual apenas o registro das descobertas para o conhecimento do consciente, mas para a satisfação da nossa alma, para nutrição da nossa sensibilidade.
É necessário cuidar de dois processos no nosso aprendizado existencial. O do conhecimento e o da sabedoria, sendo o primeiro a educação das habilidades e o segundo a educação das sensibilidades. Dessa divisão, conclui-se que o domínio da habilidade sem o concurso da sensibilidade é inócuo, porque conduz o ser humano ao automatismo, ao invés da criatividade, que é da sua natureza.
O universo é recriado todos os dias, e por isso atende à sua essência dinâmica, pela ação da imaginação, da inventividade humana, que tem efeito transformador. A evolução, portanto, é fruto da criatividade e não da repetição. Einstein percebeu essa verdade quando admitiu que a imaginação era mais importante que o conhecimento.
Faço, portanto, uma convocação. Vamos enxergar. Quando estivermos diante da beleza. Quando nos roubarem as cores do arco-íris. Quando nos oferecerem um cavalo de tróia carregado de cores escuras para invadir os nossos luminosos quintais de sonhos multicoloridos. Quando quiserem emudecer o canto dos passarinhos que buscam pouso na nossa alma. Quando nos negarem o pão do espírito e nos condenarem à única opção do pão de trigo para a nossa sobrevivência.
Quando formos levados pelas circunstâncias a enxotarmos o menino que se esconde no sótão da memória, para abrigar apenas o adulto e o velho, sem lembranças ou sem fantasias...
Que jamais sejamos como as pedras, que não mudam, nem se transformam – permanecem pedras pela eternidade, sem florescerem jamais. Se nossa humanidade insistir na transmutação e não encontrar o vegetal ou outra espécie mutante, e o destino da pedra seja-nos reservado, que nos convertamos pelo menos no limo ou no fungo que as recobre, para sermos o testemunho de vida que habita o ser inanimado, imóvel e insensível.
Pedro Simões – Escritor. Avô de belinha e filho de Percílio.

quinta-feira, 1 de julho de 2010


Charge – José Carlos

O sol não manda arautos à frente para anunciar-se, mas a sua luz (Zalkind Piatigórsky)


DIÓGENES, INVENTOR DE CRIATURAS, COLECIONADOR DE AMIGOS

(RETRATO 3 X 4 DE UM AMIGO-POSTER MERECEDOR DE OUT-DOOR)

Ninguém foi mais biografado, referido, louvado e amado que Diógenes da Cunha Lima, filho.
É o modo que os seus muitos amigos encontraram de expressar o seu bem-querer e a sua
gratidão pela amizade-sombra-guarda-chuva de tão querido parceiro. Quem chegou tarde
encontrou pouco espaço para dizeres, querências e louvações. Restaram os entretantos
e vieses. Pouco mais que uma ou outra pose para um retratinho no lambe-lambe das feiras
interioranas. Nesses espaços, confins e lindes ainda assim aventuro-me, temerário e desajuizado, sovinando
ouro, incenso e mirra por pauperismo de origem, carecendo até mesmo de riqueza narrativa
ou vocabular para fazer o enfrentamento das circunstâncias. Mesmo assim, rendo merecidas loas
porque o santo não é de barro nem o andor colado com cuspe.


Trouxe a lume o dia mais claro e mais azul que pudesse ser. Alumiou mais ainda a claridade para observar a criatura. Descobriu-se um Diógenes diferente do grego, amante da criação e da criatura. Não mais buscava, anunciava. Tornou-se poeta, de frase curta, rima incidental, palavra grávida de beleza e de intenções, precisa. Suficiente.
E por amar o mundo e os seus habitantes, fez-se, naturalmente, generoso. Largo de gestos, talvez, parafraseando a poeta, gesticule seu pensamento, de sorte que mesmo estando parado é já ter compreendido ou não ter dúvidas.
Com um abraço, transfere-se, com um sorriso se explica. Com a palavra constrói amigos e abrigos, inventa alvores e ainda reúne os escombros do dia para fundear a noite.
Em suas lidas, “... reparte a côdea, o boi (...) e sobretudo e mais que tudo, a palavra sem fel”. Uma pomba seria a imagem mais adequada para o seu verbo – branca, plumosa, digna, no bico um ramo de algaroba anunciando o fim da estiagem e os rigores do inverno.
O sorriso sempre pronto, freqüente e estimulante, mal comparando, como as portas automáticas que se abrem quando o sensor indica a presença humana, e, bem comparando, qual o girassol que se volta na direção da luz. Um sorriso a meio caminho do vicariato, no rumo do hospitaleiro interiorano. Com gosto, sempre. Um meio aguado quando de simpatia, apenas. Mas cheio de sol nos portantos e portentos.
Todavia, cautela é recomendável, sem pressa conclusiva quando o virem assim, na tarde, sorridente, imaginando-o sem propósito. Jorge Fernandes adverte:

Habitualmente vivo assim, sorrindo.
O riso para mim exprime tudo...
E no ato mais sério, estando rindo
Sou mais sério rindo que sisudo.

Porejado por uma santidade profana, porque aceitou, melhor dizendo, acoitou os pecadilhos como contraponto de sua natureza e fatalidade inelutáveis. Legítima defesa. Afinal, tornara-se mortal e nordestinado desde que viera á luz num vale de lágrimas, cuja tanta profusão formou o Curimataú, recorrente rio da infância. Nessas águas, dessalinizadas e adoçadas no sobejo da boca do Diógenes-pai, e Eunice-mãe, navegou até o Potengi.
Primeiro, desembarcou no refoles de Riffault. Quando, que nem Crusoé espiando as sextas-feiras, descobriu as margens ramosas. Um dia, teve vontade de continente e, conduzido pela maré, fincou raízes provisórias à beira do cais da Tavares de Lira.
Depois, transplantou-se pelas ribeiras e alecrins e pelas alturas e baixios da cidade. Virando homem-árvore (imponderável baobá) danou-se cabeça arriba para as dunas, mergulhou a folhagem mística no mar de arrebentação pouquinha, recolhendo a sutil renda branca tecida pelas ondas para formar as nuvens, e, fiado no farol de Mãe Luiza, aventurou-se por mares nunca dantes navegados.
Conheceu os sábios do Sião, os Reis Magos, o santo Cascudo de muitos saberes e muitos charutos, os mitos e as lendas de um Natal memorável, seiva de suas raízes – Navarro, Dorian, Rabelo, Veríssimo, Djalma Marinho, Jorge Fernandes, Zila Mamede, Onofre Lopes, Nei Leandro, Lula Capeta (também louvado como Guimarães), Sanderson, o almocreve de sextante apontado para as estrelas...fábula, fábula.
(De Itajubá, o Ferreira, só conheceu a poética, mas foi suficiente. Rendido pelas tantas belezas dos versejados, num culto à sua imortalidade, mandou restaurar a casa onde nasceu. Como mandou esculpir e pintar quadros dos seus cultuados, num ritual pagão pré-franquado por Deus. É assim o magnífico Diógenes.)
Com aprendizado bem posto e afamado, foi ensinar o que aprendeu, para não sovinar a ciência. Capitulou-se à universidade e ficou sendo seu Reitor. Refém do seu ofício, entregou-se escravo de ventre livre à sua terra e à sua gente. Foi mais além, foi deão de todas as universidades brasileiras, e é presidente do Panteão de Letras Potiguares, sem perder o sotaque, nem perder de vista o verde oceânico potiguar, a fascinação das dunas caprichosas e o aleitamento do Curimataú.
Porque foi sempre e a vida toda uma criatura compromissada com a sua aldeia, que nem o santo besouro cascudo Luís da Câmara e o Fernandes que Jorgeou com os pássaros.
Andou por Seca e Meca, Oropa, França e Bahia. Foi condecorado, enaltecido, honrado e comendadorado, mas, no terceiro dia sempre ressurge dos céus mais luminosos e promissores e planta-se nos quintais da sua terra adotiva. Toca o sino, como os nativos dos mares do sul sopravam os búzios, para as celebrações dos amigos, em Pirangi – o mar embaixo, caminho de navegação, carta de alforria da alma viajora.
Homem que bota fé nos compromissos assumidos, leal, pastoreador de amigos e de sonhos delirantemente perseguidos e realizados, surpreende os alheados e se assombra, ele próprio, com a o tamanho e a extensão dos seus devaneios.
Decidiu criar o projeto Rio Grande do Norte, em que faria a Universidade debruçar-se sobre os problemas de sua terra e oferecer-lhes alento e cura. Assim o fez. Enfrentou o desafio de executar o maior programa de editoração da produção intelectual dos docentes e discentes da sua academia. Foi feito.
Beiradeiro de Nova Cruz, fez propósito de liderar os dirigentes das instituições de ensino superior do país. Tudo gente bem letrada e bem falante. E foi. Quis ser dono de um baobá, ao menos tutorar um espécime dessa árvore-útero, sementeira da raça, instituir-se o seu poeta e oficiante, e deu no que deu. O “baobá do poeta” é atração turística de Natal. É, por isso mesmo, o homem-árvore referido nos prolegômenos desse escrito.
Deu até nome de Estação Ferroviária, a da Ribeira, de mor valia. Quem já emprestara seu nome a tanto alvoroço, gente de indo e vindo, lendo na plaquinha o porto seguro de partida e de chegada: Diógenes da Cunha Lima? Só um predestinado a ser.
Coleciona amigos como outros o fazem com coisas ditas muito importantes sem importância nenhuma.
Diz que até inventa pessoas, descobre um quê embutido em cada um e, por artes d´alquimia, faz florescência desse intuitivo insuspeitado.

Cada causo tem três estórias: a sua, a minha e a verdadeira.
Mas esse causo eu conto, como o causo foi. Rei é rei e boi é boi.

Conto um causo de vera acontecência como romance sem rima, seco que nem o chão da catinga, aqui e acolá, um respiro de uma macambira e de um mata-pasto. Lá vai:
Malsucedido numa fábrica de ração para aves, certo advogado, ainda jovem, mas já renomado, desfez-se do seu patrimônio para saldar as dívidas comerciais e aceita convite para administrar um grupo de empresas na distante Teresina, capital de Piauí.
Corria o ano da graça de 1976/1977, por aí...
Dito causídico que tinha até veleidades literárias, um poeta passivo e militante de sonhos vários, de repente vê-se degredado para um sítio ermo de praia e de brisa, os floreios convertidos em atos de gerência, haveres e deveres, exilado da sua aldeia. Os filhos, todos mui pichotos, deram para emagrecer e apresentar um calundu de fazer dó. Saudades da terra Natal, textualmente.
Passou ano e meio cabeça baixa, sem olhar o céu, impondo-se ofício missionário: já que a quimera havia murchado, que recuperasse viço o patrimônio perdido.
Em fins de 1978, recebeu a convocação do amigo, então candidato a Reitor – que voltasse para Natal, que era o seu lugar. Quando chegasse os problemas seriam solucionados a contento, sob seu patrocínio.
Vendeu o que tinha e atendeu, confiante, ao chamamento do seu patrono. Incorporou-se à campanha para conquista da Reitoria da UFRN, participando de um grupo com centenas de militantes e após dura batalha, hoje mitigada mas dantes celebrada como encarniçada, Diógenes foi nomeado para o cargo.
Nesse meio tempo, sentou praça como editor-assistente do Rn-Econômico, que atravessava uma extraordinária fase de expansão, não por seu auxilio, mas porque confirmava-se a excelência da parceria Marcelo Fernandes-Marcos Aurélio Sá, dois grandes amigos e profissionais competentes, que se completavam.
Certo dia, o amigo-reitor comunica que quer tê-lo como o seu substituto na cátedra de Direito Comercial. Que buscasse Amaury Sampaio Marinho, então chefe do Departamento de Direito Privado, para os acertos.
Pouco mais de um ano depois, o inventor de gente consultou Marcos Aurélio Sá, seu também amigo, porventura o desfalque do editor assistente era perda irreparável, ou suportável em curto ou médio prazo. O jornalista respondeu que preferia manifestar opinião depois de conversar com o seu editor, para aferir as suas conveniências e sugestões e avaliar a conjuntura.
Deu-se então que Sanderson Negreiros havia pedido exoneração do cargo de Pró-Reitor de Extensão e Diógenes, inconformado com a perda, queria ter o amigo, a quem creditava a qualidade de bom executivo, para ocupar a vacância do notável intelectual.
Um complexo de inferioridade apossou-se logo do convidado, pari passu com a preocupação de deixar os dois amigos que lhe confiaram a editoria da revista em dificuldades. E porque substituir José Sanderson Adeodato Fernandes de Negreiros, era tarefa para kamikaze, tamanha a criatividade, a inteligência e a referência de boa gestão na área responsável pela cultura da UFRN.
Afinal, feita as ponderações necessárias, e tirado os nove-foras, decidiu conforme o que é sempre dito como lugar comum em tais situações – aceitar o desafio.
O resto é história conhecida.
A Pró-Reitoria de Extensão, graças às idéias e ao apoio irrestrito de Diógenes, converteu-se em modelar, mantendo cinco programas inovadores que mudaram a feição dessa unidade acadêmica: Programa de Editoração do Trabalho Intelectual da IES (Peti), gerenciado por Dona Salete e Amaral; Programa de Aplicações Científicas e Tecnológicas (Pacto), pelo Professor Adilson Gurgel de Castro, com ajutório de Uilame Umbelino, Liacir Lucena e Glaucus Brelaz; Programa Memória, pelo professor Iramar Araújo e Programa Vanguarda, pelo professor Ari da Rocha.
Além disso, o afoito desafiado tinha sob sua guarda, o Crutac, menina dos olhos do sempre-reitor Onofre Lopes, a Editora Universitária, o Núcleo de Arte e Cultura, o Núcleo de Estudos Panamericanos, a Televisão Universitária, e o Centro de Convivência. Era um mundéu de coisas para cuidar e tocar, tudo feito com dedicação e carinho por uma equipe memorável: Fernando Lira, Airton de Castro, Vilma Sampaio, Lúcio Brandão, Carlos Lira – ah, meu Deus, Carlinhos Lira, ele próprio Memória Viva, vivo e eterno na memória. E Franco Maria Jasiello, romano erudito de chapéu de couro e gibão. Tão “magnífico” amigo quanto Diógenes que encarnou e deu essência afetiva a esse título acadêmico.
Graças a essa equipe e ao apoio do Reitor, o titular da Pró-Reitoria alcançou tal prestigio e notoridade que se habilitou a disputar a sucessão do próprio Diógenes, merecendo dos conselhos superiores o maior número de votos e a primeira posição da lista sêxtupla na disputa pela sua sucessão.
Esse tal fui eu, também criatura “inventada” por Diógenes.

Fim do causo e continuação das loas de merecimento

Há nessa criatura-criadora, também, e um tanto sobretudo (literalmente reforço e abrigo), um advogado de tanta maestria e alquimia que é capaz de tocar Midas e convertê-lo no que quiser, um abre-te sésamo que é univitelino com o direito regente no país. Cortez Pereira, injustiçado e fustigado indignamente como fosse, com licença da má palavra, boi-de-piranha, foi tocado por esse-um.
Mas, até esse dom é diluído em tantas vertentes, quantos heterônimos de Fernando Pessoa, tributando-se a jusante e a montante a uma corrente que é principal e essencial: o poeta-escritor, que magicamente, valendo-se do próprio ofício e dele recorrente, inventa gente e coleciona amigos.
É também compositor, escreve estórias infantis, e, se brincar, casa, batiza, faz chover no seco e no molhado e inventa uma lua três vezes sol.
Cogito que é espécie dissemínula, diáspora. Reproduz-se em outras tantas espécies, transplanta-se, transmuda-se, transfigura-se ocasionalmente. Transfere-se grão no bico de ave-palavra-pomba, não mais algaroba, mas sementeira de baobá robusto e frondoso, sagrada habitação telúrica onde as oferendas são plantadas em demanda da beleza.
Eis porque mordo a língua...
“ ...e deixo minha fala secar comigo,
e cair como poeira
sobre os olhos famintos”
monte de cinzas
uberdadivosas
adubo de bem quereres

OBS. Quando me ponho e me colho a transfigurar os amigos, inventando personagens e cenários onde pudessem caber, vejo sempre um Diógenes olímpico, boêmio e cristão: túnica e louros de tribuno romano, harpa a tiracolo, como os tangedores de violão, sentado à mesa da santa ceia no mesmo lugar do Divino Mestre, os amigos ao redor aguardando a multiplicação dos pães e do vinho, com gestos largos e solenes, como é seu jeito de ser.


PEDRO SIMÕES – Professor de Direito aposentado, escritor e advogado.

domingo, 27 de junho de 2010

DONA MILITANA: CHEIRO DE ANCESTRALIDADE
Rizolete Fernandes, mrizolete@yahoo.com.br

O mundo cultural nem tinha absorvido a perda, na semana que passou, de José Saramago, o grande nome da literatura portuguesa e nós aqui do Rio Grande do Norte já acrescentamos outra dor à tristeza generalizada. Estou falando da partida, no sábado, 19, da romanceira Dona Militana Salustino.
Descoberta do folclorista Deífilo Gurgel, em São Gonçalo do Amarante, Dona Militana era considerada a maior expoente viva do folclore em terras brasileiras, memória dos romances ibéricos entre nós. Em 2005, recebeu das mãos do Presidente da República a Medalha do Mérito Cultural, cobiçada distinção que a colocou de vez no rol dos grandes nomes da cultura no país. Apesar da notoriedade, era humilde, de pouca fala e tinha no cachimbo um companheiro inseparável, o que lhe acarretaria problemas de saúde e, no ano passado, uma internação hospitalar.
Conheci-a por ocasião do lançamento em Natal do livro “Mulheres Negras do Brasil”, do qual ela faz parte. Transcorria 2007 e a líder feminista carioca, Schuma Schumaher, autora da obra (em conjunto com Érico Vital Brazil) estava presente ao evento, promovido pelo Coletivo Leila Diniz, que eu então presidia. Nessa condição, compus a mesa coordenadora dos trabalhos da solenidade, para a qual havia sido especialmente convidada nossa romanceira, que sentou, ao lado da filha Benedita, bem à nossa frente. Prestava atenção em tudo.
Terminada a primeira parte e, antes de passar à exposição de fotografias montada no mesmo espaço, a platéia seria brindada com os cantares da senhora artista de 82 anos, à época. Mas ela não atenderia de imediato ao convite da mesa, nem aos apelos de Benedita para iniciar a apresentação. Já se ouvia um discreto coro de “canta, canta!”, mas a filha de seu Atanásio Salustino, entre assustada e como se não entendesse, permanecia calada. Aguardava-se. Um misto de ternura e compreensão me envolviam quando fui em sua direção, pus a mão em seu ombro e num impulso lhe disse ao ouvido: só cante se quiser, está bem? Ela me olhou com um olhar de quem se sente acolhido e na mais inocente simplicidade perguntou: é? Reafirmei com a cabeça para, em poucos segundos, ouvi-la emocionar o público com o repertório do seu cancioneiro. Durante todo o tempo da apresentação, permaneceria apoiada em meu braço.
Quando terminou e antes das dezenas de braços que a procuravam, enlacei-a demoradamente, ocasião em que senti o cheiro forte nela entranhado, do seu cachimbo. Algo se passou nesse instante, que definirei como que uma bacia de lembranças da infância entornada sobre minha cabeça, uma invasão ruidosa dos olores exalados pela fumaça de cachimbos antepassados. Do meu pai, que depois de anos pitando os seus, de diferentes tamanhos, modelos e cores, houve por bem substituí-los pela praticidade do charuto artesanal, não eliminando o ritual do corte do fumo de rolo que eu gostava de presenciar; das tias e tios sempre com seus pitos à boca, dando baforadas a torto e a direito a embaçar rostos infantes; e até do meu avô materno que, segundo relatos, pitou com voracidade e dos longes onde já pairava, continuou espargindo sobre a neta que não chegou a conhecer, aromas imaginários de nostalgia.
Fumaças essas mais tarde esmaecidas em mim, pela ação dos ventos litorâneos, na correria diária da luta pela vida, mas ali evocadas repentinamente, face aos eflúvios daquela fumante que eu enlaçava com ternura. Submergi numa onda de pranto.
Acorreram amigas querendo saber o que se passava, pressurosas na oferta de consolo. Respondi com evasivas na hora. Como iria lhes explicar que chorava por estar sentindo cheiro de ancestralidade?
Cheiro doravante cada vez mais tênue. Já seu canto, registrado, vai perdurar.
É sempre bom lembrar coisas passadas!


Vou-me embora pra Pasárgada



MANUEL BANDEIRA

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca da Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d`água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
-Lá sou amigo do rei-
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
A IMPORTÂNCIA DO DIÁLOGO

Carlos Roberto de Miranda Gomes - Professor e advogado

Um dos assuntos atuais na seara jurídica potiguar é a PEC que extingue a Consultoria Geral do Estado, incorporando-a à Procuradoria Geral do Estado.

Sobre o tema fui contatado para oferecer opinião. Contudo, ao adiantar que era contra a proposição, fui desconvidado para ser ouvido por um órgão da imprensa, o que não me causou preocupação.

Dias depois, sendo do conhecimento de muitos a minha posição, aliás externada em meu blog, fui indicado para defender o meu ponto de vista em sessão na OAB/RN para confrontá-la com outras opiniões na referida sessão. Para isso dei-me a uma pequena pesquisa e estive presente na aprazada reunião para o salutar diálogo.

Estranhei o atraso, em uma hora, para o início da sessão, quando vi o trânsito de alguns Procuradores do Estado pelos corredores da OAB/RN e em seguida a informação de que os mesmos tinham solicitado o adiamento daquele encontro. Claro que fiquei frustrado, pois me preparei para o encargo.

Nos jornais do dia seguinte vi a notícia do ‘lobby’ dos Procuradores junto ao Presidente da Assembléia Legislativa, o que me deu a certeza de que a discussão da Casa dos Advogados estava sem finalidade. Diante disso, resolvi apresentar neste modesto texto os fundamentos que pretendia expor e fui tolhido.

A Consultoria é uma Instituição secular. Mas não é por isso que a defendo, pois não sou blindado às necessidades da modernidade, nem devoto das atitudes demolitórias precipitadas.

A sua concepção, no Brasil, vem do tempo do Império, através da escolha de pessoas juridicamente competentes e iluminadas para a nobre missão de orientar as grandes decisões do Imperador. Na República não foi diferente e os Pareceres elaborados pelos Consultores, em diversos momentos da nossa História, firmaram convicções inabaláveis e peças de extrema grandeza, acolhidas pelo Estado e pelos cidadãos como se verdadeiras leis fossem.

No Rio Grande do Norte, dentro da mesma simetria, foi criada a figura do Consultor Geral do Estado, provavelmente, nos primeiros anos do Século XIX e com o mesmo escopo de emitir parecer sobre as controvérsias de direito público, informar reclamações e recursos puramente administrativos e dirimir dúvidas em relação à aplicação de leis, respondendo às consultas que fossem formuladas.

Oficialmente foi criada em 26 de novembro de 1912 pela Lei n° 319. Sofreu interrupções em 1917, retornando em 1933. Desde então, figuras de maior grandeza ocuparam esse tão eminente cargo, a saber, Antonio José de Mello e Souza, Kerginaldo Cavalcanti Albuquerque, Luís da Câmara Cascudo, Raimundo Nonato Fernandes, Ivan Maciel de Andrade, Múcio Villar Ribeiro Dantas, Francisco de Assis Fernandes, Armando Roberto Holanda Leite, Diógenes da Cunha Lima e Tatiana Mendes Cunha, cujos pareceres também compõem vasto repertório de jurisprudência administrativa, invocadas para as grandes controvérsias jurídicas no âmbito estadual.

Com a atual Carta da Federação a missão da Consultoria Geral da República foi substituída pela Advocacia Geral da União. Contudo, no art. 69 do seu ADCT foi permitido aos Estados manter consultorias jurídicas separadas de suas Procuradorias Gerais ou Advocacias Gerais, desde que à data de sua promulgação tais órgãos existissem. Assim, não há que se falar em proibição da Constituição Federal.

Por outro ângulo, é fundamental verificar as finalidades de cada um desses órgãos, cabendo à Consultoria, dentre outras competências, assessorar o Governador em assuntos de natureza jurídica, de interesse da administração estadual; pronunciar-se, em caráter final, sobre matérias de ordem legal que lhe forem submetidas pelo Governador; orientar os trabalhos afetos aos demais órgãos jurídicos do Poder Executivo, com o fim de uniformizar a jurisprudência administrativa; elaborar e rever projetos de lei, decretos e outros provimentos regulamentares, bem como minutar mensagens e vetos governamentais. É, portanto, um órgão de Governo.

A Procuradoria, por sua vez, tem o escopo de defender os interesses do Estado, exercendo a representação judicial e extrajudicial e o assessoramento jurídico ao Poder Executivo. É órgão de Estado.

Em sua missão oficial a Procuradoria defende os interesses do Estado e para isso os seus Procuradores têm plena liberdade de interpretação, motivo que permite, de quando em vez, conflitos de pensamentos e conclusões diferenciadas ou, sempre existirá um entrave quando estiver em jogo direitos do cidadão em conflito com as diretrizes do Estado, notadamente nas ações de execução fiscal, direitos de servidores e outros. Nesse instante é que surge a missão da Consultoria, a pedido do Governador, para dirimir controvérsias, as quais muitas vezes são concluídas em sentido contrário ao que antes provia a Procuradoria.

Não vemos nenhuma incoerência, até porque as competências de cada um desses Órgãos já preenchem exuberantemente todos os espaços do entendimento jurídico do Estado e cumular em um só deles as duas missões, certamente irá reduzir a eficiência das soluções encontradas, no tempo e espaço ansiados.

Para que tal união venha a acontecer não será através de apenas uma PEC, transferindo competências e aumentando poder, mas primeiro promovendo uma ampla reestruturação da Procuradoria Geral do Estado e ampliação do seu quadro funcional para então ser possível uma condição sustentável para não haver descontinuidade nas soluções das questões jurídicas e possa ser mantida a eficiência preconizada no art. 37 da Lei Maior.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A condenação do Cristo marxista
Gilson Caroni Filho

Nas páginas do “Evangelho segundo Jesus Cristo”, a grande heresia não está no fato de o personagem pedir perdão pelos pecados de Deus. O que o Vaticano não pode perdoar é a denúncia corajosa a um cristianismo imperial e colonialista.
Que estranhos desígnios inspiraram o “L’Osservatore Romano” a atacar,em editorial, o escritor José Saramago, falecido recentemente na Espanha? Chamá-lo de populista extremista, que se referia “com comodidade a um Deus no qual jamais acreditou por considerar-se todo poderoso e onisciente” não revela apenas uma atitude fria e inflexível com um humanista ateu. Vai além. Reforça apreensões em relação aos objetivos políticos do Vaticano e suas consequências éticas.
Se a eleição do cardeal Ratzinger como supremo pontífice da Igreja Católica constituiu um acontecimento cuja gravidade poucos subestimaram, a superação integrista das contradições do Concílio Vaticano II já se delineava claramente no pontificado de seu antecessor, João Paulo II, quando as bases sociais da Teologia da Libertação foram firmemente atacadas.
Em 1983, ao visitar a América Central, suas homilias mantiveram fina sintonia com o projeto do governo Reagan para a região. Em Manágua, o papa não apenas não correspondeu às expectativas do povo nicaraguense de condenação clara às agressões incentivadas pelo imperialismo estadunidense, como também deu ênfase ao que mais dividia o governo sandinista e a hierarquia eclesiástica, à época: o da fidelidade dos sacerdotes e religiosas à igreja e à exigência de não participarem na responsabilidade da gestão governamental. Uma declaração de guerra aos partidários de um cristianismo progressista. Reafirmação classista de uma instituição multissecular.
Na Guatemala, um dos países em que a repressão dos governos militares fez mais vítimas entre os religiosos, João Paulo II não só visitou o presidente Ríos Montt, conhecido por ordenar massacres contra a oposição, como permitiu que o general lhe pedisse o afastamento de sacerdotes da política. Nos discursos papais não houve qualquer protesto contra fuzilamentos sistemáticos; apenas menções genéricas a Direitos Humanos. O Cristo do Vaticano, ao contrário do de Saramago, não deu ouvido a comunidades indígenas e camponesas tratadas como estrangeiras em seus próprios países.
Embora saiba muito bem que estão implícitas, na violência que se expande, a questão do poder, dos interesses econômicos nacionais e internacionais, além das considerações geopolíticas, o Jesus do “L’Osservatore” ignora que a promessa anunciada só se efetivará provocando uma transformação radical da condição social do homem. No livro de Saramago, Jesus, filho de José e amante de Madalena, vive a Paixão dos novos sujeitos. Seu sacrifício é a labuta das populações negras, o sofrimento das índias e o sangue camponês que jorra nos latifúndios.
A coexistência de um papado ultra-reacionário com governos de extrema-direita, como foi o de Bush, implica uma luta mundial de idéias que, não duvidem, será muito intensa. A crítica a uma religião de mercado, que exige o sacrifício de vidas humanas e o aniquilamento de natureza é a batalha da esquerda de nosso tempo.
Nessa guerra, ao contrário do que afirma o Vaticano, o Cristo de Saramago é aliado fundamental. Nas páginas do “Evangelho segundo Jesus Cristo”, a grande heresia não está no fato de o personagem pedir perdão pelos pecados de Deus. O que o Vaticano não pode perdoar é a denúncia corajosa a um cristianismo imperial e colonialista. Um sistema de crenças que, para validar a opressão, necessita de uma metafísica negativa sobre os homens e sua história.
Saramago provocou a ira da cúpula da Igreja Católica ao reafirmar a modernidade e os valores de igualdade e liberdade. Foi isso que seu Cristo Marxista proclamou. Não de maneira idílica, mas de forma dialética, como reafirmação de vidas que devem transcender a si mesmas, eliminando práticas e relações que geram opressão e miséria.


(Colaboração do escritor Ciro Tavares, de Brasília)

quinta-feira, 24 de junho de 2010


DONA MILITANA
O CINEASTA HERMES LEAL LANÇA EM 28 DE JUNHO DE 2010 NO CINE CEARÁ EM FORTALEZA O DOCUMENTARIO “DONA MILITANA A ROMANCEIRA DOS OITEIROS” COM TRILHA SONORA DO VIOLONISTA GEREBA

Dona Militana deixa romances em CDs
Publicação: 22 de Junho de 2010 às 00:00 Tribuna do Norte
Diferente do norte-rio-grandense Fabião das Queimadas, que morreu sem fazer qualquer tipo de registro sonoro de seus romances entoados, Dona Militana deixa para os pesquisadores e apreciadores de seu trabalho, suas palavras, sua voz e sua imagem em discos como o CD triplo Cantares, realizado pela Fundação Hélio Galvão e Scriptorin Candinha Bezerra. O disco Cantares, mais que o registro sonoro de Dona Militana foi o que impulsionou a romanceira no cenário da cultura nacional. Foi a partir dos eventos de lançamento do disco, que intelectuais, jornalistas e pesquisadores passaram a conhecer a dimensão do fenômeno Militana. O disco teve a direção artística do produtor cultural e escritor Dácio Galvão.
Segundo Dácio, o disco foi o resultado de dois anos de trabalho ininterruptos. “Dona Militana era muito tímida. Às vezes ela ia para o estúdio gravar, cantava duas músicas e voltava”, relembra Dácio. Nas 53 faixas do CD a romanceira canta acompanhada de grandes instrumentistas, como a pianista Dolores Portela (que tocou um cravo trazido de Pernambuco), o músico Osvaldo D’Amore (violino) e o flautista Carlinhos Zens. Além do violino, do cravo e da flauta, outros instrumentos foram usados para acompanhar Dona Militana.
Os instrumentistas tiveram que seguir a linha melódica da romanceira, suas pausas e até suas desentoadas. “Não violentamos digitalmente as gravações, por isso os músicos tiveram que se submeter ao seu estilo”, disse Dácio. Segundo o produtor, o disco é uma verdadeira atualização do romance ibérico, num cenário contemporâneo. No lançamento do disco, no Sesc Pompéia (SP), Dona Militana protagonizou ao lado de Ariano Suassuna e Antônio Carlos Nobrega, dois dos principais nomes da cultura brasileira. O produtor cultural lembra que Dona Militana no palco do Sesc de São Paulo, já sentia que deveria assumir uma postura cênica, tanto que já incorporava uma postura diferente diante do público. Dácio relata que naquela noite, Antônio Carlos Nóbrega combinou o romance que ela iria cantar na apresentação, mas na hora ela não cumpriu com o combinado, deixando todo mundo louco. “Dona Militana foi ovacionada de pé”.
O disco além de registrar 53 dos 800 romances guardados na memória de Dona Militana, traz fotos e uma representação escrita da sonorização de palavras, que não estão relacionadas a nenhum idioma conhecido.
O CD teve a tiragem de 1000 cópias, muitas das quais doadas a instituições e pesquisadores. Outra parte foi entregue a própria Dona Militana para que pudesse vender. Segundo Dácio, os discos restantes compõem a reserva técnica da Fundação Hélio Galvão e do e Scriptorin Candinha Bezerra, mas podem ser consultados mediante solicitação.
Além de Cantares, outros três discos trazem a voz, a letra e a melodia de Dona Militana: “Songa também dá Coco” feito pela prefeitura de São Gonçalo do Amarante em 1999; “Romances e cantos de Incelências”, da Fundação José Augusto, também no final da década de 90; e “Sergipe Cantadores e Violeiros”, da Secretaria de Educação de Sergipe em 1990.
Dona Militana, do Estrelato ao Abandono
“Lá nos Barreiros onde eu nasci,
Em São Gonçalo onde eu me criei,
Eu vou voltar pra meu sítio Oiteiro,
Adeus Rio de Janeiro, adeus.”
(versos cantados por Dona Militana numa apresentação no Teatro João Caetano, Rio de Janeiro, durante participação especial no espetáculo "Lunário Perpétuo", ao lado do brincante pernambucano Antônio Nóbrega).
Matriarca de uma grande família, administra a vida e uma vila de casas de taipa, pertencentes a seus filhos, netos e bisnetos que moram no entorno de sua casa de tijolo humilde, visitada por artistas e pesquisadores importantes. Aos 79 anos de idade, Dona Militana mora com a filha Benedita no alto de Canaã, comunidade de São Gonçalo do Amarante. Seu ambiente já foi objeto de ensaio fotográfico por Candinha Bezerra, por quem Dona Militana guarda especial apreço.
Dona Militana canta romances. Um estilo popular que foi herdado da Europa Medieval, mais precisamente da cultura ibérica, carregando em seus enredos histórias trágicas sobre príncipes e plebeus. A romanceira lembra de músicas que poderiam ser perdidas com o tempo e, com elas, uma fatia da cultura brasileira, nordestina e potiguar.
Dona Militana só começou a cantar os romances na década de 1990, depois que o pesquisador e folclorista Deífilo Gurgel a descobriu. De acordo com o folclorista, Dona Militana é importantíssima para o folclore brasileiro. “Ela cantou um romance religioso pra mim, chamado O Milagre do Trigo, esse romance não existe no Brasil nem em Portugal, só existe versos dele na Espanha. O que me intriga é como isso veio parar na cabeça dela. Ela é uma pessoa fabulosa em matéria de cultura tradicional do romanceio. A mulher é fora de série. Atualmente, ela é a maior romanceira do Brasil” afirmou Deífilo Gurgel.
Conhecedora de dezenas de peças raras dos romanceiros ibéricos e brasileiros, Dona Militana aprendeu os cantos através de seu pai, Atanásio Salustino do Nascimento, conhecida figura do folclore de São Gonçalo do Amarante.
Dona Militana foi destaque em 1992, na imprensa nacional quando esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro cantando durante o lançamento do CD triplo "Cantares", do Projeto Nação Potiguar, e ainda participando de outros eventos. Ela fez sucesso entre pesquisadores e intelectuais, que viram nela uma das últimas representantes vivas dessa tradição.
Críticos e jornalistas de grandes jornais brasileiros se renderam aos encantos e mistérios da voz de Dona Militana. O jornalista Mauro Dias, de O Estado de São Paulo assim a descreveu: "Canta romances. Histórias centenárias, sobre reis e princesas, duques e plebéias; histórias terríveis, romances de amor e morte, de ciúmes e vinganças mantidas, por algum motivo, a ser descoberto, num formato muito próximo ao da origem, os cantadores medievais da península ibérica."
Romances, xácaras, modinhas, toadas de boi, coco, romarias, desafios, cancela, parcela, moirão, aboios, jornadas de chegança e fandango constituem o universo imaginário de Dona Militana. Essa diversificação de gêneros fornece o ambiente propício para que a romanceira conte estórias de reis e princesas, de duques e condes, de cangaceiros, escravos, súditos, santos, coronéis e mitos, que compõem o legado herdado pela intérprete de seus antepassados, que a memória privilegiada fez preservar, permitindo o justo registro para a posteridade.
Visivelmente abatida pela idade e com sérias crises de pressão alta, Dona Militana reside com uma de suas sete filhas, Benedita e alguns netos, numa casa simples e sem conforto, na comunidade de Canaã, São Gonçalo do Amarante.
Apesar de ter uma grande consideração pela fotógrafa Candinha Bezerra, Dona Militana sente-se esquecida pela mesma. “Ela mandou arrancar todos os meus dentes e prometeu colocar uma prótese. Já se passaram cinco meses e ninguém nunca mais apareceu por aqui”, desabafou.
Dona Militana também não recebe nenhum centavo dos royalties ou direitos autorais com a venda do CD Cantares, desenvolvido pela Fundação Hélio Galvão, dentro do projeto Nação Potiguar. A romanceira diz que recebeu apenas R$ 2 mil. Não há nenhum CD em casa para que ela possa vender ou mostrar aos seus visitantes.
Durante o Auto de Natal, ao lado da cantora Elba Ramalho e do ator global Lázaro Ramos, Dona Militana fez uma apresentação especial e, até hoje não recebeu o cachê prometido pela Fundação José Augusto, órgão responsável pelo evento. Enquanto isso, o Governo do Estado pagou uma fortuna aos “artistas” nacionais pela participação na peça. “Já cansei de ligar para a Fundação e ninguém diz quando minha mãe vai receber o dinheiro”, disse Benedita Nogueira, filha de Dona Militana.
Comovidos pela situação da romanceira, um grupo de poetas da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte foi fazer uma visita à Dona Militana. Segundo a poeta Cíntia Gushiken, Dona Militana foi abandonada por muita gente. Pelas nossas autoridades e pela prefeitura de São Gonçalo do Amarante. “Por ela ser um patrimônio daquela cidade e morar em nosso Estado, deveriam colocar assistência médica, jurídica e habitacional para ela. Quando chegamos lá, deparamos com uma situação que expressa um total abandono. É uma realidade que impressiona, mas temos que ajudá-la”, disse Gushiken.
Essa é a hora de render homenagens à Dona Militana, enquanto lhe resta um lampejo de saúde e disposição. Artistas, jornalistas, advogados, escritores, médicos, políticos, profissionais liberal, enfim, toda sociedade civil organizada, deve se unir, cobrar das entidades culturais oficiais e não governamentais para que o destino de Dona Militana não seja semelhante ao do mestre de Boi-de-Reis, Manoel Marinheiro.

| Alexandro Gurgel, Jornalista

“O QUE SÃO ROMANCES”
Romances são poemas musicados, cujas raízes mais profundas mergulham na Idade Média (476 – 1453 d.C), particularmente, nos séculos das Cruzadas (1096 – 1270), fase áurea da Cavalaria, em que a bravura dos cavaleiros cristãos deu origem às canções de gesta que traduziam em verso e canto, as aventuras dos Cruzados. Eram longos poemas, com centenas de estrofes, transmitidos oralmente, antes do advento da imprensa e perpetuados fielmente, pela memória popular.
Por volta de 1500, autores europeus tomaram a si a tarefa de sintetizar as canções de gesta (canções que celebravam grandes feitos) medievais, fragmentando-as em pequenos poemas que receberam a denominação de romances.
Romanceiro é, pois, a coleção desses romances que nos foram legados pelos colonizadores portugueses, acrescidos de outros criados aqui mesmo, no Brasil.
Os romances existiram com outras denominações, em diferentes países europeus, mas foi em Portugal e na Espanha que eles ganharam maior projeção.
O Estudo do romanceiro no Brasil compreende duas grandes vertentes: O Romanceiro Ibérico (de Portugal e Espanha) e o Romanceiro Brasileiro.
O Rio Grande do Norte, como os demais Estados nordestinos, é rico, ainda hoje em romances ibéricos e brasileiros.
Dona Militana
Dona Militana Salustino do Nascimento nasceu em Barreiros, município de São Gonçalo do Amarante, RN, no dia 19 de março de 1926 e residia no sítio Oteiro, do mesmo município.
Considerada a Guardiã do Romanceiro Medieval Nordestino, é a mais importante Romanceira do Brasil, já tendo sido condecorada pelo Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva.
Em setembro de 2005, Dona Militana recebeu do Presidente da República no Palácio do Planalto, em Brasília, a Comenda do Mérito Cultural Brasileiro, pela missão de preservar para o futuro o valioso acervo de Romances, legado de Portugal.

Fonte: Eventos Assessoria – eventosbr@yahoo.com.brFrancisco Alves da Costa Sobrinho

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Saramago e a busca espiritual
Leonardo Boff
José Saramago se considerava ateu, mas de um ateismo muito particular. Entendia o "fator Deus" como vem veiculado pelas religiões e pelas Igrejas como forma de alienação das pessoas acerca dos graves problemas da humanidade. Seu ateismo era ético, negava aquele "Deus" que não produzia vida e não anunciava a libertação dos oprimidos.
Essa compreensão pude discuti-la pessoalmente num memorável encontro na noite do dia 5 de dezembro de 2001 em Estocolmo no Suécia. Ele viera à cidade para um encontro-celebração de todos os portadores do prêmio Nobel. Eu lá estava pois fora indicado para o prêmio "The Right Livelihood Award", chamado de Nobel Alternativo da Paz. Nesta ocasião convidou a mim e à minha companheira Márcia para um jantar. Foi um festim de espiritualidade mais do que de literatura. Levei-lhe um livro de contos indígenas "O Casamento do Céu com a Terra" e para a sua esposa Pilar um outro, "Espiritualidade: caminho de realização". Ele logo foi dizendo: "quero o livro de espiritualidade, pois pretendo me aprofundar neste tema". E foi então que falamos longamente sobre religião, Deus e espiritualidade. Negava a religião, mas não a espiritualidade como sentimento do mistério do mundo, da profundidade humana e do amor aos oprimidos. Mostrou sua admiração pela Teologia da Libertação por fazer do "fator Deus" uma força de superação da miséria humana. A comunhão foi tão profunda que fomos madrugada adentro, já em seu quarto de hotel, como se fôssemos velhos amigos. Márcia estava lendo o seu “Ensaio sobre a cegueira”no qual lhe fez comovente dedicatória.
O e-mail abaixo revela a experiência espiritual que juntos vivenciamos:
"Querido Leonardo, querida Márcia,
Para nós, o grande acontecimento em Estocolmo foi ter-vos conhecido. Não exageramos. O resto foi a pompa e a circunstância do costume, em que até mesmo o que é sincero e autêntico acaba por se perder no meio dos formalismos e dos artifícios. O tempo que estivemos juntos foi um banho para o espírito. Quem dera que em breve surja outra ocasião.
Os anos são todos terríveis para aqueles para quem a vida é terrível. Às vezes as coisas correm melhor no mundo e isso leva-nos a pensar que estamos em paz, mas o mesmo não poderiam dizer os milhões de seres humanos cujas opiniões contam tão pouco que praticamente não se dá por elas. E se de alguma maneira chegam a manifestar-se, os modos de as silenciar, não faltam. O vosso trabalho cria e reforça consciências livres ou em processo de libertação, precisamente o que anda a faltar no mundo. Não sois pessoas para ceder ao cansaço, e essa é uma característica dos que são imprescindíveis.
Desejamo-vos o melhor, sabendo que o melhor para vós é que possa melhorar a vida àqueles a quem haveis consagrado a vossa.
Com todo o carinho
Pilar e José
Natal de 2001".
Ganhamos um amigo e a fé me diz que agora mergulhou naquele Mistério de amor que sempre buscou.



(colaboração de Maria Rizolete Fernandes, da UBE/RN)

DE COMO BARTOLA, O ANJO-TROVADOR, FOI MESTRE DE OBRAS DE NOSSA SENHORA nh(MEMORIAL DOS FUNDAMENTOS DA CRIAÇÃO DA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DO RIO DOS HOMENS)


“E eu, que ando só, me reencontro
na sombra de cada coisa perdida.”
Sanderson Negreiros


Bartolomeu Correia de Melo, cearamirinense naturalizado, tem-se distinguido como das melhores expressões da literatura norte-rio-grandense e, sem sombra de dúvida, o mais original contista dessas e doutras terras do nordeste e dos Brasil. É dono de uma linguagem bem tecida porque de boa urdidura, emprestada da língua do povo de sua terra. Não há como confundi-lo, nem como desentranhá-lo do fabulário e do imaginário popular – melhor dizendo, da massa de sangue e das raízes telúricas de sua gente e de sua terra. O modo como reencontrei o menino do meu convívio, o adolescente apenas riscado a giz na memória, nessa imerecida
velhice precoce, só pode ser explicado através do fantástico e do mágico. E é isso que faço, numa homenagem ao meu amigo de memórias conterrâneas e de afinidades, e ao nosso terreiro, pedindo licença aos leitores para fugir do trivial, e o perdão a Nossa Senhora pela heresia. A benção, meu padim Padre Cícero Romão Batista e o nihil obstat do meu amigo Padre Rui Miranda.

A EXPLICAÇÃO
Não creio nos acasos. Sustento a tese de que se aceitássemos como manifestações autenticamente espontâneas as interferências na nossa vida, sem o concurso da nossa vontade, estaríamos admitindo que o livre arbítrio franqueado pelo Criador apenas ao ser humano, se estendesse à própria natureza e se vulgarizasse. O mundo seria, então, fruto de gerações espontâneas e Deus, apenas um espectador silencioso e impotente. Ou omisso.
Nada tão falso. Deus é onipotente e nenhuma ramada é colorida, nem uma só folha se move, sem a sua aquiescência. Acredito, sem tentar fazer proselitismo religioso, mas apenas declarando a minha convicção, que Deus tem planos para cada um de nós. Sou de crença espírita cristã e acredito na reencarnação e nos seus desdobramentos.
Eis porque acolhi Bartolomeu Correia de Melo, a quem trato carinhosa e propositadamente de Don Bartolo, qual um personagem de ópera transversal a Don Giovanni, como meu irmão. Teríamos sido assim em alguma dobra do tempo. Senão, como explicar o fato de que o vi tão poucas vezes na adolescência e só voltasse a vê-lo na nossa precoce velhice, e ainda assim se estabelecesse entre nós tanta afinidade, tanta memória comum, tanta substanciação existencial?
Por isso, confirma-se a minha tese e aqui declaro, sem pompa nem circunstância, mas de peito aberto e lavado e espírito enxaguado, a geminação da nossa alma.

AS REVELAÇÕES

Segundo informações da dupla de saltimbancos Cherubino e Zambetta, iniciados nas adivinhatórias e esoterismos, Don Bartolo teria sido um anjo trovador, desses que andam sempre com uma lira à mão e versejam à toa, tanta fartura de imaginação e riqueza vocabular rimosa.
Por isso, o Divino sempre foi muito tolerante com ele, permitindo que fizesse a sua graduação com os pássaros e os bardos do naipe de Camões, Zé Limeira, Carlos Pena Filho e, principalmente, com “Rebequinha”, o poeta nativo das terras ainda virgens do que viria a ser Ceará-Mirim, de dia contemplador de paisagens e tocador de burro no bota-água nas casas , de noite, repentista e tocador de rebeca – daí o nome.
Foi a sua danação. Tinha dia de se perder, doido de tanto trinado bonito, tanta poesia e tanta música, quando, então, cutucado pelos saltimbancos, procurava parelha com Juvenal Antunes e Jorge Fernandes, ganhando os partidos de cana e os tabuleiros cheios de cajus, para encher os olhos dos mais verdes e mais vermelhos, amarelos e azuis que já tinha visto. Era a cura de sua ressaca, pelo método homeopático: quanto mais beleza, mais depressa a cura da tontice pela beleza vertiginosa.
Um dia, com os ouvidos prenhes de tanta reclamação beata o Todo-Poderoso cansou da contagiante humanidade do seu anjo e o desterrou definitivamente no nosso planeta, também louvado no similia similibus curandi.
Desterro? Parece brincadeira, não é? Melhor seria dizer premiação, se era só o que o anjo enviesado queria.
Se não foi premiar, a intenção do Senhor ficou bem juntinho disso. A dupla apelidada por Bartola como Quero-mais e Cambeta, confirmou que o Todo Poderoso concordava em soltá-lo na buraqueira, digo, no alagadiço do vale porque tinha planos para ele, só que essa verdadeira missão não podia ser revelada, senão iriam comentar que era caso de preferência, privilégio, proteção – sabe como é a língua do povo, que dirá dos anjos, meões de defeitos e meeiros de santidade.
Mas teve um “porém”: ficaria confinado, até nova ordem, no campanário de uma igreja apenas idealizada, mas já de concretude visível na imaginação mística dos entes divinos, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Deu-lhe a penitência de tanger no imaginário os sinos nos finados, nos júbilos e nas procissões, espantar e limpar os morcegos e suas titicas, sossegar algumas almas desgarradas e alimentar os passarinhos mais afoitos.
De vantagem, contar estrelas, pastorar a lua, adivinhar as esculturas feitas pelo vento nas nuvens gordinhas e brancas que brincavam no céu, catar os cavacos de noite na barra o dia e beber o vinho rosé dos ocasos para celebrar a noite renovada, quando todos os gatos são pretos.
Foi quando Nossa Senhora da Conceição, surpresa e prazerosa por encontrá-lo nesse ofício, o convocou para uma missão muito importante: colorir o lugar de que era madrinha, dar-lhe o jeito, um aroma, traçar o perfil das ruas e a geografia do município, e, finalmente, o caráter dos seus habitantes. O anjo, entre afoito e cauteloso, ainda perguntou se a Divina Pastora tinha alguma preferência ou proibição. Tanta era a confiança da Madona que não lhe impôs nenhuma regra nem lhe fez nenhuma advertência. Disse apenas que queria algo especial, digno do seu amadrinhamento.
Era dar corda ao jumento, soltar a corrente do cachorro, abrir a gaiola ao pássaro, semear na terra uberosa de húmus e de água. Dar de beber e de comer a quem tem sede e fome.
O anjo soltou-se. Ficou que nem um beija flor ou um zig-zag, flanando algum tempo ao redor do fantasioso campanário, como se buscasse o néctar da inspiração, naquele dilema do burrinho da estória de Apuleio, que teria morrido de fome e sede, rodeado de bacias de água e de milho, por não saber por onde começar.
Depois, cravou o “seja o que Deus quiser” e decidiu iniciar o trabalho.

A CRIAÇÃO

Pintou de um verde luxuriante o vale lá-embaixo, chegando até a embriaguez e a um embaralho nos olhos, espantado com tanta beleza. Nem acreditou no que tinha feito.
Coloriu o céu de algo mui levemente fletido num verde muito esmaecido colhido do canavial e de todos os tons de azul que inventaram e pudessem ser – só assim conseguiu a cor do manto de Nossa Senhora, a homenagem que lhe fez. Depois de se embriagar de tanto azul no azul do céu, e mais azul não havia, ouviu Carlos Pena Filho:
Então pintei de azul os meus sapatos por não poder de azul pintar as ruas depois vesti meus gestos insensatos e colori as minhas mãos e as tuas
Para extinguir de nós o azul ausente e aprisionar o azul nas coisas gratas Enfim, nós derramamos simplesmente azul sobre os vestidos e as gravatas
Pôs o verde sobre o azulado, puxado mais para o verde cana, nas águas dos rios e dos mares que beijam a terra da imaculada conceição.
Da alquimia fez e agrimensurou os solos mais variados - da piçarra da Jacoca e o arisco do Gravatá ao alagadiço do vale. Fez dois balneários de águas tão límpidas e transparentes que ele próprio não resistiu e se banhou e os denominou de Diamante e Jericó, este último, à lembrança da cidade bíblica das palmeiras, berço da redenção de Israel. Secou uma porção de terra alagada que rodeava uma coroa no meio da mata fechada e deu-lhe o sugestivo nome de Ilha Bela.
Deu a Jacoca o abacaxi mais doce; a farinha de mandioca de alvura e finura incomparáveis a Ponta do Mato; a laranja mais doce e sumosa a Comum e Primavera; o beiju e o grude mais gostosos a Aningas; a goma de mandioca e a tapioca mais caprichosas a Coqueiros; a Mineiro, deu o picado receitado por Geraldo Abdias; ensinou a Cicinha, a arte da feitura da cocada preta e da branca, preparada com o coco tirado do futuro sitio de Manoel Pereira, na divisa de Muriú com Maxaranguape.
Plantou umas canas de valia, a partir de “soca” divina, dando matéria prima para adoçar a boca dos nativos, mesmo os mais amargosos pela dura vida do eito – mel de furo e refinado, rapadura, açúcar mascavo (impropriamente dito “bruto”) e açúcar branco; cachaça (que ninguém é de ferro) e álcool.
Semeou umas frutinhas doce-azedinhas no tabuleiro dos ariscos praieiros e adjacentes, tais que chamou de camboim, guajiru e massaranduba. Fincou uns troncos de árvores rugosas que nem os rostos de velhos muito mais velhos e as chamou de mangaba. Fincou paus mais ou menos linheiros, de copas ramosas e os considerou cajueiros. E se divertiu queimando as “catotas” nos lajedos para fustigar os calangos, as cobras e a própria pele.
Compôs o mais lindo amanhecer, no meio do oceano vegetal do vale, e o mais belo e nostálgico por do sol, por trás das ondulações do morro do Patu.
Era forte a influência mediterrânea do mestre de obras da Virgem e ele resolveu fundar a cidade nas encostas de uma pequena serra, à falta de falésias. E também, para dar um quê de ascencionalidade ao plano diretor da sua arquitetura. Nada que se assemelhasse a segregação ou divisão de castas, a partir de maior ou menor altura, mas uma insinuação, uma metáfora que sugerisse o plano evolutivo do ser humano, sempre para o alto, na direção de Deus.
Mas, para evitar dúvidas e insinuações, arrumou uma compensação. Se o lá-em-cima fosse, de fato, a ascensão, o lá-embaixo era a sua inspiração. Não há recompensa maior para a subida, que olhar o vale verde se espreguiçando todo lindo e verdoso na aba da colina.
Deu margem ao “lá-em-cima” e o “lá-embaixo”, simplificando a topografia e a geografia da cidade. Na compreensão dos habitantes, que sempre se referiam ao lá-em-cima como uma peregrinação penosa e cansativa, vencer a subida era um prêmio, pela visão que oferecia ao peregrino, o lá-embaixo. E assim a metáfora era assimilada. Para se chegar ao céu, era preciso muito esforço e muito sacrifício, mas valia a pena.
Da parte urbana, só cuidou para que quando a cidade sucedesse à briosa vila em que a freguesia se tornaria, plantassem pés de fícus benjamim nuns canteiros no meio da rua. Sombra e facilidade para as idas e vindas. E também para a alegria da meninada, que se enfeitiçaria com o som das modinhas assopradas por seu Alegria, dono do Circo Alegria, na dobradiça das folhas do fícus
Deu-se então que num domingo em que estava embriagado com a sua própria criação, decidiu se superar. Deixou-se levar pela onipotência megalômana, voou em linha quase reta até um ponto do oceano em território do município e convocou aquele que viria a ser Dorian Gray, mestre desenhista e colorista das azuis e verdes cartografias, para sugerir-lhe a paisagística do litoral da freguesia.
Areias alvas, coqueiros, muitos coqueiros, lagoas, mar tépido e calmo – sugeriu o pintor. E uns parrachos de contraponto, anteparo de predadores e de marés bravias. Até mesmo uns salpicos de sargaço. Então, usando a sua paleta criou uma cor especial para o mar: nem azul nem verde, sem deixar de ser azul, nem deixar de ser verde - uma cor especial, particular apenas àquela parte do oceano.
Bartola não conseguiu distinguir a cor dada pelo grande artista de outras que conhecia. Na sua percepção aquele colorido era comum, encontradiço em outras praias do litoral nordeste do continente brasileiro.
O pintor ofendeu-se e foi direto ao ponto – o anjo, apesar de criatura angelical, não tinha a retina, nem a íris do artista plástico, era uma espécie daltônica, porque havia consumido a sua percepção visual na embriaguez contemplativa da sua própria criação. Nesse ponto tornou-se grave e contundente – não usava a alma como guia. Até concedia que ele “sentia” com a alma, pois era poeta e imaginoso. Mas não via através desse filtro.
O artista, que “via” com a alma, lembrou Van Gogh quando disse que tudo estava na natureza, o artista apenas emprestava a sua alma. Ainda assegurou ao anjo que no futuro, os que amassem aquele mar, aquela nesga de céu, da praia, do sol luxuriantemente, delirantemente amarelo, iriam perceber essa diferença. A perspectiva do tempo das memórias faria a diferença.
Sem se dar por convencido, o fundador da cidade concedeu, no entanto, o benefício da dúvida, pelas credenciais do pintor. Despediram-se sem atritos.
No dia seguinte, avaliou a criação. Ainda insatisfeito, mas no geral pacificado, pensou no passo seguinte.
Se não poderia criar o ser humano, já concebido por Deus, o recriaria. De resto, todas as coisas já tinham sido criadas, ele apenas as escolheu, dando o jeito pedido por Nossa Senhora.
Mas havia algo que ele podia esbanjar-se na invenção. O perfil dos habitantes daquela cidade.
À “sua” matriz humana deu de beber água do Diamante e Jericó e a batizou com a água salobra do Olheiro, juntando água e sal na mesma cerimônia. Mimou-a com garapa, água de coco, suco de manga e de caju. Deu-lhe de pouca a média estatura, tez variando do negro ao branco, passando pelo mameluco e o mulato. Pernas firmes de bom andador de subidas e descidas, alavanca para os atoleiros dos alagadiços, boas para o ofício recadeiro e aviador e sustentação para o dia inteiro no corte de cana.
Alma leve, de passarinho cantador e madrugador. Formiga e cigarra. De missa e canjerê. Esperançoso. Todo dono da chã da alegria, mas sem exageros pois a sua natureza era meio reservosa.
Deu-lhe um chapéu de palha meio sobre o atrevido, um pito feito de imburana, um banho de rio com direito a cangapé, uma rede na varanda, comida no bucho e saúde que dê pro gasto - taí um ser humano feliz! Melhora se tiver um passarinho cativo, uma criaçãozinha no quintal, um burrinho de carga e um galo madrugador. ´Magine se tiver um roçado numa terrinha pouca cedida pelo patrão – vixe Maria!
Fez barateado, quase a preço de liquidação, o ser que vai habitar essa terra. E de pouquinhos teréns. Muitos são os seus sonhares, que ficam guardadinhos debaixo da moleira, e somente o tempo pra se interter entre uma e outra baforada do cachimbo, no terreiro, depois da janta.
Deu-lhes uns olhos de ver o vale, o céu azul de dia e o cobertor negro bordado de estrelas à noite, para agasalhá-lo na falta de fé, na frieza do desanimoso. Vez em quando deixou que pintasse uma lua muito soberba, pra alumiar os namoros, as serestas e as prosas; o rio d´água azul, a praia de Muriú. Uma que outra dança, coisa pouca, mas mui alegre, animada pelo baticum dos atabaques e a cadência dos pés no chão.
Á noite, os corpos nus se esfregando em cima das esteiras de palha, no chão de barro batido, suor com suor, dois num só, cavaleiro e montaria, promessa de cria que o leito da miséria é fecundo.
Os ouvidos de escutar o apito do trem, a tirada da Asa Branca na buzina de Chico Horácio, o saxofone de Zé Gago, o violão de Misael, os sinos “...com timbre de enxada velha que se põe a dizer o amém das ave-marias”, o badalar do relógio do campanário, os pregões dos vendedores ambulantes, as arengas dos botadores d´água com os “roxinhos”, o latido e o miado dos animais sem dono ou vigias das casas e as vozes das beatas nas procissões.
Zé Lemos que restauraria com o pai, seu Justo, as estampas sacras do teto da igreja matriz, cantaria com voz Vicentina Celestiniana, a canção “Porta Aberta”. E Minhém pensaria que era “cover” de Bob Nelson: “Eu pego meu cavalo e jogo o laço...”, os olhos de chinês com terçol, o bigode maior que o de Bienvenido Granda, uma tragédia de desafinos e de troca-letras.
As ventas sempre acesas para o cheiro da bagaceira e do mel; o aroma acre provocado pela umidade da chuva engravidando a terra, em pleno parto das ervas e das flores baldias; a água de cheiro escapulida da carapinha das beiradeiras; o cheiro profuso e confuso do “quadro” do mercado e do pátio da feira – uma mistura de tudo, até de mijo e cocô de gente e de animais.
O visgo açucarado no céu da boca dos cortadores de cana, cambiteiros e operários dos engenhos, o colorau da galinha caipira, o leite de coco e o propriamente dito ralado, presente nas mesas de café, almoço e jantar, o gosto do pãozinho quente, saído da fornalha da padaria de João Neto, a manteiga derretida espirrando nos cantos da boca e nos dedos, as piabas fritas com farinha na banha de porco, o torresmo chiando na panela.
É nesse ponto que me vem Bartolomeu e se lembra da fala, do modo como essa criatura vai-se comunicar uns com os outros. E quer mais, que ela fale até em pensamento, dela pra ela mesmo, e como fosse telepatia, com os pareceiros.
Descartou a fala dos doutores, dos padres e dos políticos – até mesmo dos escritores, que mais fosse a que é aprendida nas escolas. Queria um falar deles, inventado na precisão e na distração. Uma que fosse usada nas conversas e nos escritos, uma coisa só, sem o atrapalho de dois modos diferentes de se comunicar na nossa linguagem brasileira. Que besteira: falar de um jeito e escrever de outro. Quem já viu presepada igual?
Apurou as oiças e consultou o vento, os animais, as aves, os barulhos das feiras, dos partidos de cana, dos engenhos, dos canjerês, dos rios, do mar, o falatório dos meninos e dos velhos, a língua afiada da raiva e do despeito e a melosidade dos ditos de amor. Cascavilhou as frases cuspidas e mal empregadas, os chorares e os sorrisos, os mandos, os desmandos, os suspiros e as cavilações. Tornou-se o pé-de-ouvido cativo de cada um dos nativos.
Deu no que deu.

OS LIVROS DAS DECIFRAÇÕES

Botou tudo que ouviu em dois livros que dedicou à cidade: “Lugar de Estórias” e “Tempo de Estórias”(*). Como um breviário completo, ou um almanaque, dá conta de tudim´ - dos ofícios, bem quereres, malquerenças, febres suspirosas, mal assombros, amores queridos e rejeitados...causos que se não forem acontecidos, bem que poderiam.
Uma espécie de Cábala, de livrinho de cordel em prosa, de Roteiro Místico da cidade, de desnudamento da alma dos seus habitantes, uma declaração de amor à sua própria obra profana, todavia, reconhecida por Nossa Senhora, que deu mostras de ter-se encantado com toda a recriação e com as invencionices do seu mestre de obras.
O que tem de humano nas criaturas de Deus está lá, devidamente registrado e tombado. Sacramentado. Só não está lá o que não interessa e não recomenda um criador de boa fé e honestas intenções. Se não há barões, nem baronetes, nem senhores de barato e cutelo e os seus escravos, é porque o autor resolveu passar flanela com vinagre nesse azinhavrado e borracha nos mal amanhados.
O que está lá é o povo de Deus, na média possível, na medida do possível. Está lá, a infância perdida no passado, sobrevivente no presente e resgatável no futuro. O imutável sentimento de amor às raízes sentimentais e ancestrais.
Está lá, também, o socorro ao náufrago, coitado sem identidade, perdido no oceano da globalização, macaqueando os outros sem saber porquê, ou sabendo, mas envergonhado de ser o que é. O farol que alumia o caminho para o porto seguro (Ninguém se perde no caminho da volta). A razão de sermos o que somos e porque somos. O orgulho de sermos únicos, individualidades distintas, a partir da nossa origem, hábitos, língua, caráter.
Um amigo observador da cena humana, disse certa vez que há uma ciência que ninguém nos supera em conhecimento e vivência: a nossa terra. A aldeia que nos pariu e nos projetou para o mundo. Desde que tenhamos dividido com ela a nossa própria vida, que pelo menos um pedacinho de nós haja-se incorporado à história e ao cenário da nossa vivência: naquela rua, naquela árvore, naquela igreja, naquele colégio, sob aquele céu, no fundo da paisagem, num causo perdido, há uma marca indelével da nossa passagem que podemos testemunhar com as nossas estórias.
Nesse espaço somos protagonistas, não apenas testemunhas ou circunstanciados dos fados. Fizemos, nós mesmos, a nossa própria história, mesmo que tenha sido uma “ponta” do enredo, que tenhamos sido coadjuvantes, nossa marca está lá, num talho de canivete, numa velha foto encardida, no livro de batismo, no registro do cartório, na tradição oral. Na sementeira dos filhos e netos. Na memória dos mais velhos e mais acreditados. Na retina sempre-verde dos companheiros da infância.
No inconsciente coletivo, que guardou o vagido da criança, o arrastado dos primeiros passos, os primeiros aprendizados, os primeiros gemidos do amor. E muito depois, o difícil, mas prazeroso retorno aos primeiros momentos, só reencontrados no lugar de origem. O caminho da volta.
Bartola, como ficou conhecido o anjo-trovador, poeta e cantador, na vulgarização sem cerimônia dos cearamirinenses, que apelidariam até o Papa, é uma instituição da cidade. Talvez o seu mais importante habitante, porque a recriou. Não que tenha pedido por isso, porque o enfada a notoriedade, prefere a alforria das obrigações que o conserva irreverente e maroto. Um sonso, isso sim! Daquela sonsice de quem foi predestinado à liberdade, e é forçado à prisão na saia avoenga.
E também, porque guardou a sua ciência até os mais de cinqüenta anos de idade, para só então torná-la pública, sovinando aos seus amigos, aos conterrâneos e no geral aos que tem sede e fome de saber, a chave para decifrar conhecimento tão hermético e ao mesmo tempo tão singelo.
Mas resistir quem há de. O que esperava o criador de uma freguesia, mestre de obras de Nossa Senhora da Conceição, autor de uma obra comparável à Pedra de Roseta, decifradora da cultura singular de uma cidade, que, sendo igual a tantas outras, não é igual a nenhuma delas.
Rejeito as generalizações. Todas são simplificadoras e embusteiras, porque têm sempre um propósito de apoucamento ou de igualação, ou cortam o que lhes sobra em tamanho ou nivelam por baixo, no mesmo tope, mesmo que maiores.
Como querer estabelecer um parâmetro entre Bartola e o Rosa das Gerais. Não há como compará-los ou medir a importância segundo este ou aquele referencial. Em favor de Rosa, a criação. Em benefício de Bartola, a apropriação do dialeto popular e a sua conversão em linguagem corrente literária, às vezes decodificadora da emoção, do caráter, da cultura.
De fato, a partir do molde originalíssimo, criou-se a verdadeira escola literária do Ceará-Mirim.
Porque é isso o que o anjo-trovador faz: transporta-se, pela linguagem comum, ao seres humanos desfavorecidos de teres e haveres, mas ricos em aventura, alegria e esperança. Sonham. E por isso revivem, tranfiguram-se, transmutam-se, renascem meninos. Beiradeiros.
Viva Bartola!
Que viva sempre em nós, a nossa aldeia, que é o nosso mundo, a nossa referência e a nossa fiança, a teta-mãe que nos aleitou, qual Rômulo e Remo, pelos úberes dos guaxinins do canavial.

(*) Edições Bagaço, 2003 e 2009, respectivamente.


Pedro Simões – Professor de direito aposentado. Escritor e Advogado.

terça-feira, 22 de junho de 2010

AS CAUDAS DA DEMOCRACIA
Carlos Roberto de Miranda Gomes – Professor e Advogado

Dizem os enciclopedistas que DEMOCRACIA, no sentido que lhe confere a sociologia política, é o regime político, ou forma de governo, em que a soberania reside no povo que, por sua maioria, mas sempre indiretamente, representado por uma elite reduzida de seus delegados, exerce o poder, sob o princípio da absoluta igualdade de direitos entre os cidadãos.
Numa linguagem mais popular, diz-se do governo do povo, pelo povo e para o povo.
Em curta distância, os renomados tratadistas, a teor de Norberto Bobbio, definem DEMAGOGIA como o que, não sendo propriamente uma forma de governo e não constituindo regime político, constitui uma praxe política que se apóia na base das massas, secundando e estimulando suas aspirações irracionais e elementares, desviando-a da sua real e consciente participação ativa na vida política.
Do comparativo das suas concepções, tiramos ilações de que a Democracia, da forma como exercida nos dias presentes e, pelo menos no Brasil, possui caudas ou prolongamentos num local um tanto distante do órgão encarregado do raciocínio.
A vontade do povo não vem sendo respeitada no momento em que fica obrigado a engolir uma propaganda partidária extemporânea na realidade, embora legal pela edição de regras positivas saídas do interesse das elites governantes com o beneplácito dos outros Poderes que deveriam zelar pelo bem do povo.
As mentiras ou as proposições ofertadas nas peças promocionais irritam, nivelando por baixo todos os demagogos governistas ou de oposição, que aparecem para dizer o que não fizeram e oferecendo novas ilusões para conseguir o voto popular.
Este espaço no rádio e televisão poderia ser bem melhor aproveitado, o que não acontece, nunca, para adotar uma palavra grosseira e desanimadora.
Outra cauda é a que decorre de que por ser Democracia, cabe tolerar tudo, venha de onde vier, até mesmo das promoções de Seminários Eleitorais trazendo como estrela um conhecido indiciado em improbidade em dimensão nacional, sendo possível perceber o que ele deverá ter ensinado no acumulado de sua vida aventureira; outra quando qualquer jornal fica obrigado, em nome da Democracia, de publicar opiniões de qualquer ‘simplório’ como aconteceu com o nosso DN de 20 de junho passado, onde um tal de Carlos P.C. Ferrão (deve ser nome de fantasia, próprio de quem não tem transparência para tratar seriamente as questões da cidade), oferece um artigo digno de ganhar o prêmio do ‘besteirol’ cujo título é “Adeus Machadão”, no qual ofende a dignidade dos arquitetos (saudosos segundo ele), conclama a parar com a demagogia, critica um estádio velho, desconfortável e mal feito, concluindo com uma exclamação: “Já vai tarde Machadão”.
Aliás, esse pensar destorcido não é diferente de pessoas intelectualizadas, como assisti em uma livraria, onde na minha presença foi afirmado que o Machadão foi construído sem resguardar nenhuma dimensão ou regramento oficial, sendo obsoleto e fora da medida.
Para quem vive há 70 anos numa cidade que possui menos de 50% de saneamento básico; as vias urbanas congestionadas; ausência de estacionamentos reclamados; hospitais sem médicos, sem leitos e sem medicamentos; escolas funcionamento precariamente em seu aspecto físico e com professores em número inferior à demanda; estabelecimentos prisionais que são meros depósitos, impossíveis de incrementarem a ressocialização do preso; uma segurança completamente sem corresponder às necessidades da cidade; um aeroporto internacional emperrado, tanto quanto a famosa história de ampliação do Porto de Natal, que ouvi contar desde a minha infância. Enfim, nos faltam as estruturas básicas, fundamentais, elementares para melhorar a qualidade de vida do povo e se trabalha para demolir o que já existe, quando melhor seria uma nova construção e em local mais apropriado.
A esse custo social, devemos renunciar ao prazer de sediar alguns jogos, carreando os recursos para obras estruturantes e, por isso ousamos aproveitar a exclamação do articulista comentado: “Já vai tarde Copa de 2014!”.

sexta-feira, 18 de junho de 2010


PAULO LOPO SARAIVA
AS REVELAÇÕES, A LOUVAÇÃO E A TESSITURA DO HOMEM




Talvez eu saiba muito pouco sobre Paulo Lopo Saraiva, mas o que sei é suficiente para incluí-lo numa galeria de tipos marcantes pela sua história, o seu modo de se conduzir na vida de relações e, sobretudo, pela obra que edificou.
Ocorre-me estar munido de um aparelho muito antigo que lembrava um binóculo, com uma haste que finalizava num suporte onde as fotografias eram postas e vistas através das lentes ganhando tridimensionalidade.
Sem nenhum esforço, rememoro as cenas que fixei do meu itinerário em demanda do meu amigo Paulo. Antes, porém, um depoimento que já o qualifica.

Primeira revelação

Soube, através da minha irmã, sua contemporânea na Faculdade de Direito, que nos anos de chumbo, pós-64, Paulo freqüentava as aulas fardado – era sargento do exército – e, embora não professasse a ideologia golpista, encarava desafiadoramente os remanescentes “esquerdistas”, que o hostilizavam pelo simples fato de ser militar.
Disse-me ainda a sua colega que ele era temido pelos anti-golpistas não pelo fato de ser militar pois o sabiam correto, incapaz de denunciar os colegas, mas pela sua ousadia e coragem pessoal.
Segunda revelação

Muito e muitos anos depois, testemunhei pela televisão, a cobertura de um júri no interior em que ele era defensor de um assassino que escapara do linchamento popular. A cena exibia a saída de Paulo do Tribunal do Júri, acompanhando o seu cliente acossado pela multidão. A guarnição policial acorreu para a proteção dos dois e Paulo, com um gesto, os dispensou e cruzou a praça pública em passo moderado, abrindo uma picada na multidão.
A cena lembrou-me de outro episódio.
O Brigadeiro Eduardo Gomes, um dos líderes da oposição ao Governo Vargas, dirigia-se à sua casa quando o seu veículo foi interceptado por uma manifestação popular em desagravo ao suicídio do Presidente. Forçado a descer do carro para completar o trajeto até a residência, teria, então, dito ao motorista: “Vamos andar numa marcha moderada, não tão lenta que pareça provocação, nem tão rápida que pareça medo”. E assim, foi abrindo clareira na multidão furiosa.

Terceira revelação
A primeira cena que me recordo é a de um jovem com aparência dinâmica, festejado por seus companheiros pela posse na Secretaria Municipal de Finanças. Um amigo comum me disse tratar-se de Paulo Lopo Saraiva, brilhante bacharel em direito. De fato fez uma gestão extraordinária que revelou vantagem para o erário municipal e para os contribuintes em geral: a receita tributária decuplicou e impôs-se a justiça fiscal.
Sempre tive referências da sua ascensão profissional e do sucesso como advogado, na defesa de questões polêmicas.
Depois, nos encontramos nos espaços acadêmicos da UFRN e UnP, ambos professores do Curso de Direito.

Mas, conheci-o mais intensamente quando fui candidato a Reitor da UFRN.

Quarta revelação
Ungido como primeiro colocado na lista sêxtupla a ser encaminhada à então Ministra da Educação, Professora Esther de Figueiredo Ferraz, a opinião pública formara a convicção de que eu não teria chances porque um dos candidatos ao cargo, o Professor Genibaldo Barros, contava com o apoio do grupo político dominante no estado, os Maia.
No entanto, apesar das evidências indicarem essa tendência, eu me irresignava. Procurei então, apoios alternativos que pudessem influir na decisão. Ex-reitores, Diretores de Centros da UFRN (lembro particularmente de Therezinha Almeida e Emanuel Lago), Dirigentes de instituições de ensino e entidades culturais...
Certo dia o Professor Francisco das Chagas Pereira me conduziu ao então Deputado João Faustino, acompanhado de um grupo de professores ligados ao parlamentar e este se comprometeu a nos ajudar. Era um reforço precioso, considerando-se a sua condição de Presidente da Comissão de Educação da Câmara Federal.
Fui, então, procurado por Paulo Lopo, que já se havia declarado partidário da minha campanha, e ele me informou que iria postular o apoio do senador Caros Alberto, á época vice-líder do governo, para a minha candidatura.
Dito e feito.
Noite alta rumamos no próprio carro de Paulo para um sítio onde Carlos Alberto repousava.
O senador recebeu meu amigo efusivamente, e, quando me distinguiu, formalizou-se. Paulo fez as apresentações devidas e Carlos Alberto observou, sem nenhuma cerimônia:
“É verdade que o senhor participou de um comício em Passa e Fica, de apoio à candidatura de Ulisses Potiguar?”
De fato, a pedido de Diógenes, irmão de Arian Cunha Lima, prefeito de Passa e Fica, em franca campanha pela eleição de Ulisses Potiguar, pedi votos para o adversário de Carlos Alberto, num palanque de que participaram diversos professores de UFRN.
Respondi afirmativamente.
Antes que o senador fizesse qualquer comentário, o meu amigo antecipou-se:
“Senador, Pedro Simões não conta. Sou eu, seu amigo e colaborador que vim lhe pedir apoio para o seu pleito de conquistar a reitoria da UFRN.”
Fez-se um silêncio embaraçoso. O político afagou inúmeras vezes a cabeleira, um tanto contrafeito, mas Paulo não arredou pé – olhava-o desafiadoramente, como o faz em certas ocasiões.
Carlos tentou ponderar, dar-se tempo: “Vamos analisar”. Paulo não se contentou. “Não tem o que analisar, é um pedido meu, pessoal, ou você atende ou não atende, não há meio termo”.
O recém-eleito senador sentia-se pouco à vontade. Depois soube que não gostava de ser pressionado.
“Tudo bem! Mas voltaremos a conversar – dirigia-se a mim – para o estabelecimento de certas condições”. Tentava equilibrar a sua posição ante a firmeza do seu colaborador.
Justiça se faça, o combativo senador lutou denodadamente, jogando todo o seu prestígio como vice-líder do governo no Congresso, para obter a nomeação, que chegou a ser cogitada, mas essa é outra história. Aproveito o espaço para registrar a minha gratidão a esse injustiçado político norte-rio-grandense, correto nos seus compromissos e aos laços de amizade.

Quinta revelação

Nesse ínterim, o meu amigo foi convocado a dar explicações ao então governador, de quem era Secretário de Governo, porque não se perfilhava com o candidato das forças governistas à Reitoria. Disse ao seu chefe que tinha um compromisso comigo, inamovível. Mas que o governador poderia dispor do seu cargo, que aliás era de provimento em comissão, e a sua exoneração talvez pudesse corrigir a suposta contradição.
Ficou tudo como estava.
Sexta revelação
De outra feita, fui procurado por uma série de amigos, quase todos colegas professores do curso de direito da UFRN, para formar uma chapa de oposição que concorreria às eleições para a diretoria da OAB. Lá estavam, entre outros, Jales Costa, Adilson Gurgel, Carlos Gomes, José de Ribamar Aguiar, José Correia de Azevedo, Honório de Medeiros (que dividiu comigo as diretrizes táticas) e Armando Holanda. Pretendiam que eu assumisse a coordenação do planejamento estratégico da campanha.
Sabendo da minha amizade com Paulo, pediram-me para que o persuadisse a se alinhar com a chapa em formação, pois sabiam-no ideologicamente comprometido com a diretoria situacionista. Disse-lhes que era uma empreitada difícil, considerando as posições irredutíveis do nosso amigo.
Exatamente como dissera, Paulo justificou-se alegando alinhamento automático com os nossos adversários.
Durante o processo de preparação da estratégia, elegemos alguns princípios que se prestavam a reforçar o merchandising eleitoral: a alternância de poder, já que o grupo que controlava a OAB permanecia no controle da instituição há mais de vinte anos; a consideração do voto direto também no pleito corporativo – advogando que a presidência seria ocupada pelo mais votado e, assim, sucessivamente, toda a diretoria.
Afinal, vivíamos o período de efeverscência pós-Ai-5, com a campanha pelas diretas sensibilizando a opinião publica.
Os situacionistas rejeitaram a proposta, que era coerente e politicamente correta, considerando-se o “Movimento pelas Diretas Já” que galvanizava o país. Vai daí que Paulo me procurou para apoiar a chapa de oposição, por questões de consciência, uma vez que o empolgava a coerência do nosso grupo, e a incoerência dos situacionistas em rejeitar essa possibilidade.
Ganhamos o pleito.
Depois, reativamos o Instituto dos Advogados do Brasil, capítulo do Rio Grande do Norte e fui escolhido como seu Presidente. Só reivindiquei uma posição – que Paulo Lopo fosse o meu vice.

A louvação
Portanto, se eu pudesse destacar os traços marcantes de Paulo, esses seriam a lealdade, a coerência, a combatividade e o arroubo, à parte os seus notórios méritos intelectuais, sobretudo a dedicação ao ensino jurídico e os lauréis acadêmicos.
Ele excede nessas virtudes, como eu posso atestar de ciência própria.
Não vou-me alongar no que já é de conhecimento público: a sua brilhante titulação acadêmica, Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Direito, Professor de Direito Constitucional de algumas das mais importantes instituições de ensino superior do Estado, tendo já lecionado na Universidade de Brasilia, que reúne alguns dos melhores docentes do país.
Elevado por opiniões respeitáveis como as de Michel Temmer, Paulo Bonavides e Ives Gandra, para citar os mais recorrentes, e tendo como parceiros de estudos e de teses alguns dos mais renomados juristas internacionais a exemplo dos portugueses Gomes Canotilho, de Coimbra, e Jorge Miranda, de Lisboa e Friedrich Muller, da Alemanha, é, por tais méritos, titular de algumas das mais altas honrarias acadêmicas e profanas do nosso país.

A tessitura
Mas, quero tecer o Paulo idolatrado pelos alunos, por sua metodologia e pela amizade que estabelece com os discípulos, comparável ao professor interpretado por Robin Williams em “Sociedade dos Poetas Mortos”; o patrono disputado pelas lideranças da sociedade civil, socorro dos desvalidos sob ameaça do poder e dos poderosos, o amigo leal, o tribuno arroubado e, porque não, o homem fascinado por suas próprias conquistas.
É a capacidade de superação, a obstinação e a fidelidade às metas traçadas que dizem de Paulo e que inflam o seu orgulho. Com justeza. Afinal, quantos poderiam construir com as próprias mãos uma trajetória tão brilhante e tão inesperada como ele o fez?
Há quem atribua a Paulo um excessivo apego e incenso à própria imagem, um entoador de loas a si mesmo. Esses julgam as aparências. Não conhecem o Paulo original, louvam-se nas imagens refletidas nos diversos espelhos, sem compreendê-las, quais os mesmos fabricantes da silícia que conduziram Alice ao controvertido “país das maravilhas”.
Paulo foi mais um rebento de uma família numerosa e pobre, na distante Serra Branca, interior da Paraíba que tomou o caminho de outros tantos filhos pobres que decidiram ser alguém, contra todas as adversidades - o seminário, onde passou cinco anos, e depois, bafejado pelo excelente curso de humanidades, fez o curso de sargento no terceiro batalhão ferroviário, em Campina Grande permanecendo no exército longo tempo.
Nessa condição, fez o vestibular de direito e foi aprovado.
A estória de sua ascensão, curta assim, parece ter sido unção do destino. Ninguém é capaz de avaliar os sacrifícios que o nosso perfilado teve de fazer, as renúncias, as transigências e, sobretudo, a obstinação, que é outra de suas características, para chegar até onde chegou.
Tenho para mim que até hoje Paulo ainda tem dúvidas das suas conquistas, por isso, ao invés de beliscar-se, tal como o incrédulo, as relata, para ouvir o eco das contraditas ou das concordâncias. Só assim ele se sente confortável, porque sabe que não se trata de um sonho.
E é difícil alguém acostumar-se às culminâncias, saindo de planícies tão estéreis e longínquas como desestimulantes.
Ocorre-me uma fantasia: o nascimento de um corpo, emergente de um buraco negro ou de um quasar, que de repente se descobrisse intensamente brilhante, reluzente e poderoso - uma estrela. Se tivesse consciência e pudesse refletir sobre a sua inesperada metamorfose, a que conclusões chegaria? Com certeza o alumbramento, a que se seguiria o envaidecimento e afinal, a onipotência.
Não refuto os vaidosos, sobretudo os de linhagem intelectual. Eu os compreendo e os justifico. A síndrome de Narciso entre os que operam com a mente, não é a mesma dos cultores do físico. Não valorizam a própria concepção material, mas a gênese de um novo ser, sutil, fluídico, poderoso porque é animista, parto laborioso de hermafrodita, o próprio responsável pela energia vital: “Penso, logo existo”.
Ninguém enxerga o Paulo-Paulo, sem o Lopo nem o Saraiva. O que está subjacente aos cabelos ralos, por trás dos óculos, no peito infante do menino que debulhava o caminho nas sandálias rotas no rumo da escola, triunfante, a tabuada na ponta da língua, o ABC das cartilhas decodificado, a salvo portanto da palmatória. O menino da bola de meia no pátio da escola, orgulho da Professora Teresa de Souza, do Grupo Escolar de Serra Branca, vivo, inteligente, já com inclinação para a liderança.
O menino-adolescente seminarista, encantado com os mistérios da Santissima Trindade, da divina concepção, um tanto confuso com os dogmas religiosos, mas satisfeito com Agostinho e Tomás de Aquino. Depois, a disciplina e a hierarquia aprendidas no regime militar. Afinal, a descoberta do direito, quando os horizontes deixaram de ser apenas geográficos para conquistar foros de infinito.
Não foi curta, nem fácil, a trajetória do Paulo-Paulo, antes do Lopo e do Saraiva. Aliás, ninguém lhe disse que seria. Ao contrário, todos duvidavam que chegasse ao topo, não que duvidassem da sua capacidade de luta, mas porque se acostumaram à fatalidade da pobreza como predestinação invencível.
O que ninguém sabia, nem desconfiava, era que Paulo nunca aceitou a fatalidade nem a predestinação como o norte da sua vida. Acreditava no esforço, na obstinação, e na formulação que recebera do pai quando tratava da forja do futuro: trabalho e disciplina. Ajuntou a esse binômio, timidamente, e depois com exaltação, a fé. Aprendeu a utilizar as duas forças primárias como alavanca e a terceira como motivação.
Como sempre faço nos perfis que traço, procuro semelhança com personagens da literatura. Encontro em Ariosto (século XVI) um protótipo: Orlando, o furioso. Não exatamente o desvario do herói, depois de perder a sua amada Angélica, mas o “em torno” do épico, a sua motivação, o mito do cavaleiro errante, a cultura da contradição a qual também caracterizou alguns trabalhos de Erasmo e Rabelais justificada pela sede de mudanças que caracterizou o período compreendido entre o medievalismo e o renascimento. Embora Orlando tenha sido apenas um dos muitos personagens do monumental poema, foi o mais marcante. Sem ele, Ariosto perderia o título e o herói de todas as batalhas.
É tão importante a obra, que cerca de três séculos mais tarde, Hegel considerou que as suas muitas alegorias e metáforas não serviam meramente para refutar o mito da cavalaria, mas também para demonstrar a falácia dos sentidos e julgamento humanos.
Misto de Cosme de Farias e Sobral Pinto, condimentados, não é por acaso que Paulo se destaca pela originalidade e pela coerência com as suas origens. Por isso abraçou as razões doutrinárias do Direito das Ruas, do Direito Alternativo, com a sua tese “Participação Popular”.

Pedro Simões – Professor de Direito aposentado. Escritor e Advogado.