quinta-feira, 15 de agosto de 2024
Ilusão e poder
Padre João Medeiros Filho
Encontra-se no Livro do Eclesiastes a seguinte frase: “Vaidade das vaidades, tudo é
vaidade” (Ecl 1, 2). Uma análise dessa assertiva revela que a tradução portuguesa não elucida
exatamente o significado que o hagiógrafo quis imprimir no início de sua obra. Segundo
vários exegetas, dentre eles Joseph Coppens, Lucien Cerfaux, Jean Giblet etc. o sentido mais
próximo seria: ilusão das ilusões, tudo é ilusório; efemeridade das efemeridades, tudo é
efêmero. A palavra, traduzida do hebraico “ḥebel” para o nosso idioma significa fugaz,
passageiro. Daí o nome bíblico de Abel, aquele que teve vida curta.
Tudo passa! Eis a mensagem de sabedoria do Livro Sagrado, aprofundada pela tradição
cristã, partindo do ensinamento de Jesus. Vale a pena juntar tesouros que a traça corrói, ou o
fogo devora? Cristo ensinou: “Que adianta ao ser humano ganhar o mundo inteiro, se vier a
arruinar sua vida?” (Mc 8, 36). A história comprova tal realidade. Quantos dignitários e
potentados são destroçados, ao longo do tempo! Líderes importantes caem no esquecimento e
escárnio, mais cedo do que se imagina. Esta é uma profecia contida no Magnificat: “Depôs os
poderosos de seus tronos e exaltou os de condição humilde” (Lc 1, 52). Ao defender Graciliano
Ramos, o jurista Sobral Pinto asseverou: “Nenhum ditador é infalível e eterno.” Sem Deus, tudo
não passa de um sopro. Na antiga cerimônia de coroação do papa, o cardeal camerlengo
proclamava: “Sancte Pater, sic transit gloria mundi” (Santo Padre, assim passa a glória do
mundo). Vivem-se tempos em que o lucro, o prestígio e o mandar são imperativos que movem
aspirações de muitos. Há séculos, a humanidade exalta o ter e o poder, desprezando o ser, “obra
prima de Deus que não se repete”, na expressão do poeta Tagore.
Incutiu-se a ideia de que com habilidade, poder-se-ia alcançar riqueza e status.
Entretanto, verifica-se, como resultado, uma geração de pessoas desesperançadas e
deprimidas. Diante de uma situação análoga, Jesus expressou: “Tenho pena dessa gente,
cansada e abatida, como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). Infelizmente, a sede de poder faz
calar as ações que visam ao bem comum e à dignidade humana. A sofrida realidade de alguns
povos, outrora prósperos, agrava-se atualmente. Pelas ideologias inocula-se o vírus da
dominação. A busca desenfreada para manter-se empoderado foi o primeiro pecado da
humanidade. É o que se pode inferir da metáfora bíblica no Livro do Gênesis (3, 1-24). Adão
e Eva queriam ser iguais a Deus. Mais adiante, lê-se que Caim matou Abel (Gn 4, 8-16) para
permanecer senhor absoluto e único detentor dos bens paternos.
É lamentável perceber que nessa guerra de interesses, quem sofre as consequências
são os indefesos, cada vez mais privados das condições mínimas de vida e dignidade. A
sedução do poder cega diante das necessidades do próximo. Impede ações iluminadas por
amor e solidariedade. O povo fica relegado, a ponto de se tornar apenas peça no tabuleiro
do jogo das conveniências políticas e ideológicas. Sociedade da manipulação! Tais atitudes
opõem-se à vontade de Deus e colocam diante da absolutização de comportamentos
humanos. Triste constatar que a sociedade brasileira polarizada, com atenuantes aqui ou
acolá, vive uma guerra pelo poder. Isto tem causado incontáveis vítimas. A belicosidade
dos sequiosos de hegemonia não admite limites e desrespeita o homem. Não importa se
pessoas passam fome, ficam amontoadas nos corredores dos hospitais públicos, se a escola
é de baixo nível, a população vive insegura e infeliz. O ensinamento do Mestre da Galileia:
“Vim, não para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 28) é descartado.
Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, outrora pároco de São Paulo do Potengi
(RN), repetia: “Governantes e legisladores necessitam defender os pobres, e não se defender
deles e usá-los.” Na certeza de que as alegrias, esperanças, tristezas e angústias dos homens
de hoje são também de Cristo, somos impelidos a tomar consciência de nossa responsabilidade
na construção de uma sociedade justa e digna. “O poder só é válido, quando se converte em
serviço”, dizia Santa Dulce dos Pobres! Rezemos como o salmista: “Desvia, Senhor, os meus
olhos, para que não vejam a vaidade, e faze-me viver no teu caminho” (Sl 119/118,37).
segunda-feira, 12 de agosto de 2024
“A história se repete”: novos bispados
Padre João Medeiros Filho
Há muito de verdade no supracitado axioma popular. Dom Marcolino Esmeraldo de
Sousa Dantas, baiano de Inhambupe, quando bispo de Natal, desvelou-se para dotar o RN de
mais duas circunscrições eclesiásticas. Foram quase dez anos de árduo trabalho, entre 1929-
1939, coroado de pleno êxito. Sentiu a alegria de ver as origens das dioceses de Mossoró e
Caicó, das quais foi administrador apostólico até a posse de seus primeiros bispos. Pelas bulas
papais “Pro eclesiarum omnium” (datada de 28/07/1934) e “E dioecesibus” (promulgada em
25/11/1939), Pio XI e Pio XII erigiram os bispados, respectivamente, de Mossoró e Caicó.
Dom Marcolino foi além. Durante mais de oito anos, empenhou-se juntamente com Dom
Moysés Sizenando Coelho, arcebispo de João Pessoa, em prol da elevação de Campina
Grande à categoria de sé episcopal. Teve mais um sonho realizado. Em 14 de maio de 1949,
pelo documento pontifício “Supremum Universi”, Pio XII constituiu diocese aquela cidade
paraibana, desmembrando-a dos bispados de João Pessoa e Cajazeiras.
Dom Marcolino foi um prelado diligente e de grande atuação pastoral. A elevação
daquela cidade paraibana à condição de bispado possibilitaria Natal em se tornar sé
metropolitana, separando o RN da Província Eclesiástica da Paraíba. Isto ocorreu, em 16
de fevereiro de 1952, pela bula “Arduum onus”, de Pio XII, menos de três anos após
Campina Grande ser constituída sé diocesana. Há de se reconhecer que para as condições
da época, o bispo de Natal foi célere em suas decisões e gestões, em favor do Povo de Deus.
Decorridas mais de oito décadas, Dom João dos Santos Cardoso (também baiano,
de Dário Meira), arcebispo de Natal, em seu dinamismo, zelo pastoral e ampla visão
eclesial, dá prosseguimento à tarefa de tornar a Igreja mais próxima dos fiéis. Em apenas
sete meses de pontificado em solo potiguar, propôs a criação de duas dioceses no RN: uma
na Região Trairi (sediada em Santa Cruz); a outra no Vale do Assú (com sede nessa cidade),
incluindo a Região Salineira pertencente ao arcebispado natalense. A iniciativa conta com
o total apoio do metropolita, as bênçãos do bispo mossoroense, Dom Francisco de Sales
Alencar Batista e a colaboração do clero e fiéis católicos. Gesto nobre do arcebispo, que,
além de ceder parcela significativa do território de sua jurisdição, sugeriu que a sede fosse
em Assú, freguesia pertencente a outro bispado. A comissão interdiocesana, responsável
pela elaboração do projeto, é presidida pelo eminente canonista Monsenhor José Valquimar
Nogueira do Nascimento. Cumpre o seu cronograma, estando na fase de formação das
subcomissões e escolha de assessores para o desempenho de sua missão.
Em 25 de julho passado, recebi um primoroso estudo do advogado assuense e
militante católico, Dr. Gregório Celso Medeiros de Macêdo Silva, sobre o futuro bispado.
A obra resulta de pesquisas, iniciadas em 2022, sobre a região do Vale do Assú e seu
entorno. Será de grande valia para ajudar a comissão a atingir os objetivos propostos. O
ilustre autor de “Uma nova diocese no Rio Grande do Norte”, não poderia inicialmente
vislumbrar a perspectiva pastoral do metropolita natalense, quando integrou a Região
Salineira no projeto da sede diocesana a ser criada.
Dr. Gregório aborda aspectos e dados geográfico-históricos, patrimoniais,
socioeconômicos, pastorais e antropológico-culturais da futura diocese. A partir de
elementos hauridos das paróquias que integrarão o novo bispado, a equipe responsável pela
elaboração do texto final delineará o perfil da tão desejada sé episcopal. “Ad maiorem Dei
gloriam”, tudo para a maior glória de Deus, afirmava Santo Inácio de Loyola, cujos
discípulos evangelizaram os habitantes da primitiva paróquia do Assú na época colonial.
Os católicos vinculados ao território da sonhada circunscrição eclesial não poderão ficar
indiferentes a este projeto de Igreja, devendo cooperar com recursos humanos, financeiros e
orações. Ele é obra do Reino de Cristo e uma necessidade do Povo de Deus. “Somos servidores
inúteis” (Lc 17, 9), afirmara Cristo. É salutar que os fiéis leiam atentamente o trabalho de Dr.
Gregório, com a participação do Professor Nestor Vieira de Melo Neto. Nosso reconhecimento
aos que abraçaram essa causa. Convém lembrar as palavras do apóstolo Pedro: “Do mesmo
modo, também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual” (1Pd 2, 5).
domingo, 11 de agosto de 2024
Carta para o Dia dos Pais
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
Hoje, um domingo de inverno, amanheceu como dia de radiante verão, coisas do Criador para permitir as mais legítimas comemorações, principalmente o Dia dos Pais, onde se oportuniza o transbordamento do amor filial, com o congraçamento da família no sentido da eternização do respeito e da união.
Acordei pelas 6 horas e vi que Clara dormia como criança, logo desci do meu quarto-ateliê para a primeira refeição do dia preparada com o auxílio dos meus filhos Rocco, Thereza Raquel e Rosa. Ao terminar o café matinal sentei-me na modesta sala da minha casa, entre as fotos da minha amada THEREZINHA, vivendo no reino de Deus, com os mesmos móveis que deixou, mas agora ornada com suas fotografias, santuário e a presença de um novo membro apanhado nas ruas – Thor, companheiro diário.
Dei-me a ouvir músicas do meu tempo, tocadas num aparelho que recebi de presente e com comando de voz – coisa de outro tempo. Os cantores todos eram meus conhecidos e as músicas daquelas que minha companheira sabia de cor. As lágrimas foram inevitáveis. Cada música lembrava um momento e assim passei mais de uma hora em lágrimas, incomodando os filhos e netos que vinham me abraçar. Então dei o comando “Alexa pare” e vim ao meu retiro para guardar o silêncio e a saudade.
Carlinho chega com o seu presente – um molde para fazer vitrais, o que vai ser um barato; recebi um comovente telefonema do meu amigo e filho do coração Eduardo Jorge.
Meditações, orações e propósitos de não deixar que meus sentimentos estraguem um dia que prenuncia tão feliz, pois o rio continua a passar, embora a vala da saudade, e o amor não se apaguem, posso garantir – eles ampliam seus espaços em meu coração de uma forma linda.
Troquei o choro físico pelas lágrimas espirituais, já iniciadas quando assisti, pelo celular, a missa das 6 horas.
Não tenho dúvidas – o tempo não apaga o amor, quando verdadeiro. FELIZ DIA DOS PAIS PARA TODOS DA FAMÍLIA E DO ROL DE AMIGOS.
E TUDO O MAIS VIRÁ POR ACRÉSCIMO.
DIA DO ADVOGADO
Por: CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES, ex-Presidente
Coincidiu outra vez num domingo, 11 de agosto de 2024, a efeméride do - Dia do Advogado, comemoração nascida do fato de no ano de 1827, na época do recém-instituído Império Brasileiro, o então imperador Dom Pedro I haver autorizado a criação das duas primeiras faculdades do Brasil - Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco, e a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, em São Paulo.
Com o passar dos anos tornou-se necessário alforriar, além da independência política que fora conquistada, também a liberdade intelectual, através dos fatos antes referidos, representando uma verdadeira Carta Magna da Advocacia, que nos legou o esforço dos Bacharéis Teixeira de Freitas, José de Alencar, Castro Alves, Tobias Barreto, Ruy Barbosa, o Barão do Rio Branco, Joaquim Nabuco, Fagundes Varella, dentre tantos, sob a influência da Revolução de 1930, criando a Ordem dos Advogados do Brasil, que teve como primeiro presidente o advogado Levi Carneiro, o qual a comandou por muito tempo, tendo por instrumento primeiro o Decreto nº 19.408, de 18 de novembro de 1930, que assim proclamava:
Art. 17. Fica criada a Ordem dos Advogados Brasileiros, órgão de disciplina e seleção da classe dos advogados, que se regerá pelos estatutos que forem votados pelo Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros, com a colaboração dos Institutos dos Estados, e aprovados pelo Governo.
O Rio Grande do Norte foi um dos primeiros Estados a criar a sua Seccional, partindo da ideia do consagrado jurista Hemetério Fernandes Raposo de Mello, então Presidente do Instituto dos Advogados do RN, em reunião preparatória realizada no longínquo 05 de março de 1932, no prédio do Instituto Histórico e Geográfico, presentes os causídicos Francisco Ivo Cavalcanti, o Primeiro Presidente, Paulo Pinheiro de Viveiros, Manoel Varela de Albuquerque, Bruno Pereira e Manuel Xavier da Cunha Montenegro e oficialmente reconhecida em 22 de outubro do mesmo ano.
No tempo do pioneirismo somente glórias e amor profissional, o que durou muitas décadas, cuja bandeira altaneira só procurou engrandecer a corporação e efetivar a defesa dos direitos humanos. Contudo, o tempo foi passando, a tecnologia aflorando com velocidade maior do que a necessidade e o espírito de corpo perdendo um tanto da sua essência inicial.
Hoje, as disputas pelo seu comando tornam-se turvas em decorrência de interesses políticos, ideológicos e pessoais daqueles que pretendem usar o prestígio do mandato para alcançar alguma vaga de tribunal ou comissão de relevo.
Nem por isso vou silenciar sobre a importância dos ADVOGADOS, guardiães da liberdade, da igualdade e dos direitos humanos, aos quais envio o meu fraterno abraço e a confiança de que continuarão mantendo as bandeiras gloriosas de uma classe cada vez mais forte com a adesão de número abundante de novos membros.
sexta-feira, 9 de agosto de 2024
BATE FORTE O TAMBOR
Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com
Espero que esteja vivendo um tempo de desarmar os presságios.
Não desejo acreditar que na política existam só amigos, mas, conspiradores
que se unem. Aos olhos alheios, unidade partidária, coligação, ambas
desapareceram para dar lugar a um consórcio, onde o partido menor nunca é
sorteado. No meu entendimento virou tribo, facção e não tem quem junte os
pedaços depois. Prefeitos, vereadores, líderes municipais, votam pacotes de
candidatos díspares, de governador a senador, de deputado federal e estadual,
como se fossem salada de frutas, ou coquetel exótico de bruxaria. A continuar
assim, vamos chegar ao tempo de desarmar os frutos e até mesmo ao de
querer desviver o tempo, ominoso e fatal para a coletividade.
A reforma eleitoral neste país, é tema mais batido do que
caminho de cemitério. Com o “fundão eleitoral”, o processo virou uma ação
orquestrada que caracteriza as relações íntimas entre os lobos ideológicos
contra pseudos pastores teólogicos. Presume-se, com o andar da carruagem,
que estamos sob o fascínio do desconhecido, do buraco negro. A caixa preta
do segundo turno está rondando a ressaca eleitoral dos candidatos. A
hegemonia política de muitos líderes está morrendo. É o processo depurativo
das figuras messiânicas, de megafone em punho, entoando chavões pela
recuperação financeira do país e do Rio Grande do Norte. Esse caldeamento
político dos nossos dias, é igual a despacho de encruzilhada. Lembrei-me
daquele acordo de paz pública, no passado. Não há como acomodar numa
mesa apetites tão difusos, confusos e obtusos. É por isso que bate forte o
tambor da imprevisibilidade.
Garimpando o pensamento do saudoso natalense João Sena, li
essa jóia: “O ser humano não só morre quando desencarna, mas também,
quando se desencanta”. E casados no desencanto continuam vivendo o povo e
os políticos. Chegaram à exaustão. A praça pública virou banco de tormento.
O povo aplaude mais os músicos do que os oradores. Todo orador, é um
chato, cansativo e tedioso. Quando o candidato fala, o povo se afasta. Mas, o
liseu não está no meio do mundo, pois o importante é não cair a Bastilha. Isso
conforta os candidatos que se exporão tanto ao sereno, quanto ao sol, à chuva
e ao mormaço das penosas aglomerações. São as fases da vida pública. Outro
filósofo, já dizia “que a vida é feita de fases e de fezes”. As fases são as
estações, as metamorfoses, e as fezes, o consumismo humano do Fundão.
Outro fato relevante, que não dá para entender, são as pesquisas
açodadas. Lembrei-me de Chesterton quando disse que “os vícios são as
virtudes enlouquecidas”. Será que o povo brasileiro é tão volúvel assim? Essa
eleição, face os perigos redibitórios, é uma esfinge? Antigamente, o silêncio
antecedia o pleito, sem emitir sinais de mistérios, como a eleição presidencial
deste ano. A sinfonia outonal vai deixar para trás, em outubro, muito
candidato que empreende voo cego, impensado, sem bússola e sem bossa.
Eu me recordo de Assis Besouro, experiente marqueteiro
potiguar, explicando a situação daquele tempo (1998), das divergências do
PMDB, PT, PSDB e etc., - com aquela fisionomia de permanente mormaço,
proveniente das andanças políticas pelo Rio Grande do Norte - “que tudo
numa eleição é estratégico”. Daí, ter surgido hoje, o orçamento secreto. E é
fato que nas estações da política, as notas caem. E o outono chega. Pois
eleição que não se ganha, se toma, dizem.
Napoleão Bonaparte admitiu apenas duas potências no mundo: “a
espada e o espírito. A longo prazo a espada sempre é vencida pelo espírito”. A
espada é o poder e o espírito a palavra. É comum os dois não falarem o
mesmo sotaque, o mesmo idioma. Mas, a canção do voto é tudo, pois tem
sangue eterno e coração ritmado. Todo país já atravessou as noites escuras do
tempo. É pobre o país que tem necessidade de mitos.
(*) Escritor
terça-feira, 6 de agosto de 2024
“A história se repete”: novos bispados
Padre João Medeiros Filho
Há muito de verdade no supracitado axioma popular. Dom Marcolino Esmeraldo de
Sousa Dantas, baiano de Inhambupe, quando bispo de Natal, desvelou-se para dotar o RN de
mais duas circunscrições eclesiásticas. Foram quase dez anos de árduo trabalho, entre 1929-
1939, coroado de pleno êxito. Sentiu a alegria de ver as origens das dioceses de Mossoró e
Caicó, das quais foi administrador apostólico até a posse de seus primeiros bispos. Pelas bulas
papais “Pro eclesiarum omnium” (datada de 28/07/1934) e “E dioecesibus” (promulgada em
25/11/1939), Pio XI e Pio XII erigiram os bispados, respectivamente, de Mossoró e Caicó.
Dom Marcolino foi além. Durante mais de oito anos, empenhou-se juntamente com Dom
Moysés Sizenando Coelho, arcebispo de João Pessoa, em prol da elevação de Campina
Grande à categoria de sé episcopal. Teve mais um sonho realizado. Em 14 de maio de 1949,
pelo documento pontifício “Supremum Universi”, Pio XII constituiu diocese aquela cidade
paraibana, desmembrando-a dos bispados de João Pessoa e Cajazeiras.
Dom Marcolino foi um prelado diligente e de grande atuação pastoral. A elevação
daquela cidade paraibana à condição de bispado possibilitaria Natal em se tornar sé
metropolitana, separando o RN da Província Eclesiástica da Paraíba. Isto ocorreu, em 16
de fevereiro de 1952, pela bula “Arduum onus”, de Pio XII, menos de três anos após
Campina Grande ser constituída sé diocesana. Há de se reconhecer que para as condições
da época, o bispo de Natal foi célere em suas decisões e gestões, em favor do Povo de Deus.
Decorridas mais de oito décadas, Dom João dos Santos Cardoso (também baiano,
de Dário Meira), arcebispo de Natal, em seu dinamismo, zelo pastoral e ampla visão
eclesial, dá prosseguimento à tarefa de tornar a Igreja mais próxima dos fiéis. Em apenas
sete meses de pontificado em solo potiguar, propôs a criação de duas dioceses no RN: uma
na Região Trairi (sediada em Santa Cruz); a outra no Vale do Assú (com sede nessa cidade),
incluindo a Região Salineira pertencente ao arcebispado natalense. A iniciativa conta com
o total apoio do metropolita, as bênçãos do bispo mossoroense, Dom Francisco de Sales
Alencar Batista e a colaboração do clero e fiéis católicos. Gesto nobre do arcebispo, que,
além de ceder parcela significativa do território de sua jurisdição, sugeriu que a sede fosse
em Assú, freguesia pertencente a outro bispado. A comissão interdiocesana, responsável
pela elaboração do projeto, é presidida pelo eminente canonista Monsenhor José Valquimar
Nogueira do Nascimento. Cumpre o seu cronograma, estando na fase de formação das
subcomissões e escolha de assessores para o desempenho de sua missão.
Em 25 de julho passado, recebi um primoroso estudo do advogado assuense e
militante católico, Dr. Gregório Celso Medeiros de Macêdo Silva, sobre o futuro bispado.
A obra resulta de pesquisas, iniciadas em 2022, sobre a região do Vale do Assú e seu
entorno. Será de grande valia para ajudar a comissão a atingir os objetivos propostos. O
ilustre autor de “Uma nova diocese no Rio Grande do Norte”, não poderia inicialmente
vislumbrar a perspectiva pastoral do metropolita natalense, quando integrou a Região
Salineira no projeto da sede diocesana a ser criada.
Dr. Gregório aborda aspectos e dados geográfico-históricos, patrimoniais,
socioeconômicos, pastorais e antropológico-culturais da futura diocese. A partir de
elementos hauridos das paróquias que integrarão o novo bispado, a equipe responsável pela
elaboração do texto final delineará o perfil da tão desejada sé episcopal. “Ad maiorem Dei
gloriam”, tudo para a maior glória de Deus, afirmava Santo Inácio de Loyola, cujos
discípulos evangelizaram os habitantes da primitiva paróquia do Assú na época colonial.
Os católicos vinculados ao território da sonhada circunscrição eclesial não poderão ficar
indiferentes a este projeto de Igreja, devendo cooperar com recursos humanos, financeiros e
orações. Ele é obra do Reino de Cristo e uma necessidade do Povo de Deus. “Somos servidores
inúteis” (Lc 17, 9), afirmara Cristo. É salutar que os fiéis leiam atentamente o trabalho de Dr.
Gregório, com a participação do Professor Nestor Vieira de Melo Neto. Nosso reconhecimento
aos que abraçaram essa causa. Convém lembrar as palavras do apóstolo Pedro: “Do mesmo
modo, também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual” (1Pd 2, 5).
quarta-feira, 31 de julho de 2024
Refletindo sobre as eleições
Padre João Medeiros Filho
Acontecem as convenções partidárias, antecedendo às campanhas em função das
próximas eleições. Em breve, o período de comícios e embates. Os pleitos são cada vez
mais onerosos, financeira e moralmente, sem considerar os logros e patranhas, já
tradicionais e atávicos na política brasileira. O Tribunal Superior Eleitoral – TSE divulgou
alguns dados, dentre eles, o orçamento do Fundo Partidário, definido em R$ 4,9 bilhões,
dinheiro oriundo dos impostos obrigatórios, pesando sobre a população trabalhadora e
desprezando suas necessidades mais prementes. Segundo cientistas políticos, trata-se de um
dos embustes mais caros do mundo. Nessa bilionária dotação não estão incluídas ingentes
despesas com a realização de votações em dois turnos. Tempestivamente, os marqueteiros
entram em cena. Versão estilizada do publicitário, eles ganharam um nome aportuguesado,
do inglês “marketing”. Trata-se do profissional encarregado de maquiar o perfil e a
biografia dos candidatos, transfigurando a imagem dos pretendentes a funções públicas. No
caso deles, buscam adorná-los com uma roupagem atraente. Após “o banho de simpatia e
popularidade” (segundo os jargões da área), o “produto” está pronto para ser apresentado e
consumido por um eleitorado incauto e alienado. Apresenta-se o candidato, como se fosse
o melhor dos seres humanos. Procura-se moldar até o seu caráter a ser apresentado nas
imagens televisivas ou em fotos fugazes e ilusórias.
Existem verdadeiros “experts”, capazes de grandes transformações. Conseguem
exibir na vitrine política um personagem rejeitado por muitos, como sendo o legislador
ou executivo do sonho de eleitores exigentes. Empulhação que, muitas vezes, traz bons
resultados. O comunicador habilitado em “marketing” tenta encontrar um meio de
vender a imagem do político, cuidando de suas aparições, discursos e ideias. Amiúde,
reina o axioma visceralmente antiético: “Os fins justificam os meios.” Tanto no
presente, quanto no passado, verificam-se bons exemplos de criação publicitária.
É clássica a história do anúncio da venda de um sítio atribuído a Olavo Bilac, após
solicitação de um de seus amigos. Interessados poderão pesquisar o assunto. O autor do
texto demonstra originalidade e preconiza técnicas modernas de “merchandising”,
causando inveja aos marqueteiros atuais. O amigo de Bilac dissera-lhe que ele possuía
muita imaginação, escrevia divinamente bem, capaz de produzir algo atraente. Foi
redigido de forma poética. Não há certeza se o comunicado do vate carioca correspondia
à realidade ou era mera ficção. Tempos depois, o poeta parnasiano teria perguntado ao
amigo, se conseguira alienar a propriedade. Respondeu-lhe que havia desistido da venda,
pois ao ler os classificados dos jornais, convencera-se da maravilha que possuía. Este
texto é considerado por muitos publicitários uma página antológica da profissão. Não
basta fazer. É preciso também saber como dizer ou escrever.
Hoje, trava-se uma discussão sobre a ética publicitária. É justo e lícito, em campanhas
eleitorais, realizar tipos de propaganda enganosa, quando está em jogo o bem-estar e o futuro
do povo? O objetivo é eleger um candidato. Por isso, tenta-se a qualquer custo influenciar ou
convencer, embora o postulante seja inapto ou despreparado. Já lamentava o profeta Jeremias:
“Engana-se o próximo. Não se fala a verdade. Treina-se a língua para a mentira” (Jr 9, 4).
Não se definiu ainda se tais manifestações poderão ser consideradas enganosas. Segundo os
estudiosos, a rigor, não se trata de oferta de serviços ou bens de consumo, previstos na Lei
8078/90 (Defesa do consumidor). Entretanto, é uma situação diante da qual se requer
honestidade intelectual, não se admitindo falsidade ideológica.
O apóstolo Paulo já advertia: “Portanto, deixando a mentira, cada um diga a verdade a
seu próximo, pois somos membros uns dos outros” (Ef 4, 25). William Ugeux, docente da
Universidade de Louvain, outrora Ministro da Informação do Reino da Bélgica, colocava a
propaganda política no mesmo patamar da publicidade de medicamentos. Os efeitos podem vir
a ser altamente deletérios. Não é correto brincar com a vida de outrem, mormente de uma
população. O eleitor, por vezes, tem a ingenuidade de uma criança e não se deve abusar de seus
sentimentos. É preciso ser sincero e honesto. É o que pregava o Apóstolo dos Gentios: “Nossa
palavra não contém erros, engodos, tampouco acompanhada de astúcia” (1Ts 2, 3).
quinta-feira, 25 de julho de 2024
Sant’Ana, tradição e culto
Padre João Medeiros Filho
A devoção a Sant’Ana está entre as mais antigas tradições católicas. Detém grande popularidade entre os fiéis cristãos. Por ser a genitora da Mãe de Cristo, lhe são atribuídos vários privilégios, como obter rapidamente favores celestiais. Ela intercede na condição de avó “Daquele que faz maravilhas” (Sl 136/135, 4). No Brasil, a devoção se espalhou durante o período colonial, graças à veneração da corte portuguesa. O garbo e esplendor do barroco proporcionaram belas esculturas de Sant’Ana que hoje adornam imponentes altares de nosso país.
No Oriente, o culto à mãe da Virgem Santíssima é antigo, consolidando-se no século VI. No Ocidente, introduziu-se anos depois. Em 1584, o Papa Gregório XIII fixou a data de 26 de julho para sua festa litúrgica. A devoção à esposa de Joaquim era tão forte entre os fiéis, a ponto de lhe concederem o título de “Senhora”, outorgado pela tradição à Virgem Mãe de Deus. Muitos católicos passaram a chamá-la de “Nossa Senhora Sant’Ana”. Assim é cultuada, especialmente, no Seridó potiguar. Em 710, as relíquias da avó de Jesus foram levadas de Israel para Constantinopla e posteriormente distribuídas para várias igrejas. A maior delas ficou num santuário que lhe fora dedicado, em Düren (Alemanha). Há poucos dados históricos comprovados a respeito dos pais de Maria de Nazaré. As referências sobre eles chegaram até nós por meio do Protoevangelho de Tiago, um livro que data provavelmente do primeiro século do cristianismo. Apesar de não integrar os evangelhos reconhecidos como oficiais pela Igreja, trata-se de importante obra histórica. É citado em diversos escritos da Patrística Oriental, como os bispos Epifânio de Salamina e Gregório de Nissa.
O nome Ana deriva de “Hanna” (hebraico), cuja etimologia é graça divina, Deus tem misericórdia. Era descendente da família de Aarão e seu esposo Joaquim, da estirpe real de Davi, cujo nome bíblico significa: “confirmado por Deus”. Nesse casal encontra-se parte da nobreza da genealogia de Cristo. Ana casou-se jovem como toda moça de seu tempo. A tradição diz que seu marido era um homem de posses e bem situado na sociedade, relacionando-se com pessoas de todo Israel. Frequentavam as cerimônias e festas do Templo de Jerusalém. Ali, ao lado da Piscina de Betesda, está situada uma basílica, em honra à mãe da Virgem Imaculada.
Há relatos de que Sant’Ana era estéril. Não conseguia engravidar, decorridos anos de casamento. Os conhecimentos científicos de então imputavam a esterilidade somente às mulheres. À época, eram consideradas não abençoadas por Deus. Consequentemente, o casal sofreu humilhações, sendo censurado pelos sacerdotes por não gerar filhos. Isto fazia com que ambos padecessem muito. Entretanto, eram pessoas de profunda fé e confiavam em Deus, apesar de todo o sofrimento. Joaquim resolveu retirar-se para o deserto a fim de rezar e fazer penitência. Nessa ocasião, um anjo lhe apareceu e disse que suas orações foram ouvidas. Igualmente, o mensageiro celestial visitou sua esposa, confirmando que as preces do casal haviam sido atendidas. “Ana, teu choro foi ouvido. Conceberás e darás à luz e por toda a terra tua descendência será lembrada”, disse-lhe o arauto divino. Assim, pouco tempo depois, Ana engravidou. Através das provações, Deus estava preparando o lar para o nascimento de Maria, a Virgem pura, isenta de pecado.
Segundo algumas fontes, no dia 8 de setembro entre os anos 20-16 A. C., nasceu uma linda menina, à qual deram o nome de “Miriam”, que em hebraico significa Senhora da Luz. A Mãe do Salvador foi concebida por aquela que todos diziam ser infértil. Os pais de Nossa Senhora são de fundamental importância na história da salvação, não apenas pelo nascimento da Corredentora, sobretudo pelas virtudes e educação da futura Mãe do Redentor do Mundo. Os genitores de Maria Santíssima são um exemplo de fé profunda, acreditando que “para Deus nada é impossível” (Lc 1, 37). Sua vida e exemplo mostram-nos o poder e a força da oração. A prece não é nenhum monólogo. “Pedi e vos será dado, procurai e achareis, batei e a porta vos será aberta” (Mt 7, 7), recomenda-nos o Mestre.
segunda-feira, 22 de julho de 2024
ALUMBRAMENTOS
Valério Mesquita*
mesquita.valerio@gmail.com
Mantenho reações conservadoras diante dos fatores imanentes e
iminentes da vida. Sou devoto dos hábitos e da retórica provinciana do interior.
O costume secularizado da cadeira na calçada, da brisa sedutora do fim de
tarde, do grito heróico do vendedor de cuscuz e mugunzá ainda me
apascentam. São crenças básicas na simplicidade da vida como perpétuo e
inalienável direito de existir, misturado ao povo miúdo, posto ser melhor do
que o absolutismo dos donos do palanque e da burguesia consumista e
desfigurada pelo cinismo materialista. Mas fui tomado pelo fascínio de mesclar
o real e o imaginário. Não exercito artificial adesão ao modismo.
Nenhum vestígio que se possa recolher da minha travessia terrena
não passará da impressão de algo plástico, aéreo, estelar, humano e sobre-
humano, difuso mas cintilante, místico e mítico. No meu bairro sou donatário
da capitania não hereditária. Ou seu capataz dos mistérios circundantes como
Cláudio Emerenciano e Vicente Serejo, hoje em Morro Branco. Não renegam a
horizontabilidade urbana de onde extraem a alma e o sumo das verdadeiras
descobertas. A minha rua em Lagoa Nova é modesta. A iluminação pública
espalha no calçamento parnasiano a luz mortiça amarela, qual um abajour lilás.
No céu estrelado passeio a nostalgia que vem da herança telúrica de um tempo
que a memória ainda não desfez. O rio, a casa, a lua, a calçada, as aparições
noturnas.
Minha angustia factual e meu desespero tipicamente social estão
inseridos no contexto das doenças que as seguradoras de saúde não cobrem.
Componho o universo sensível, ferido, por vezes amargo e infeliz, que
abomina a marginalização dos pobres, dos velhos, das crianças, vítimas do
perverso sistema econômico-social. Por isso procuro a terra habitada pelo
silêncio e pela distância das coisas, porque o meu grito é cárcere concreto e
real e já não se faz mais ouvido. Conforta-me que as palavras não são fugazes
nem constituem perdas instantâneas. Meu canto é harmônico sem divagações
nem desvios, embora as tensões e os influxos se cruzem, se choquem mas não
se anulam.
Volto a minha ruazinha comum. Nela não residem poderosos.
Afinal, sozinho perscruto a tolice dos seus mistérios visíveis e invisíveis. Não
há muito que sonhar. Como mergulhador penetro nas ruínas da alegria de sua
pobreza, sem jardins, às vezes, sem chananas, refletores ou praças. Rua opaca,
empírica, apenas onomatopaica. Mas, é o território dos meus vãos e desvãos.
Nem fantasmas líricos e bufões aparecem. Somente vislumbro minhas relíquias
imemoriais da infância e da adolescência. Restos sagrados nos olhos de quem é
intimo da ilusão, eterno aprendiz de um mundo de contradições, mas também
repleto de lembranças antigas e serenas. Tudo torna minha rua como a quero
ver.
Mas, há quem não goste da época chuvosa e fria dos últimos dias.
Só não podem negar que o vento e o frio, elementos naturais de Deus, exercem
poderosa força proustiana em busca do tempo perdido em cada um de nós. São
como se fossem energias cósmicas renováveis provindas de antiquíssimas
mutações planetárias. Até porque elas são geradas na atmosfera terrestre.
Não quis ir tão alto. Prefiro a humanidade comum das coisas
simples de explicar. E, às vezes, o pior é que elas não são tão simples como
parecem. Por isso, volto à solidão do meu quarto, onde permaneço em
comunhão com a frialdade da madrugada incomum, mas hospitaleira. Sei que
mais tarde terei outra sinfonia. A dos pardais, logo nas primeiras horas da
matina, como se vaiassem o sol emergente. Diante de tudo, e apesar de tudo, a
quem foi concedido o direito de desconhecer tais coisas: o vento, o frio e a
chuva? Termino dizendo que elas estão, não somente fora de nós, mas,
principalmente, dentro de nós.
(*) Escritor.
domingo, 21 de julho de 2024
Carta de Amor - TEMPO DE LEMBRAR
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
No longínquo ano de 1936, o dia 21 de julho amanhecia mais rico com o nascimento de THEREZINHA ROSSO GOMES, filha dos italianos Rocco Rosso e Rosina Lovisi, tendo os seus primeiros dias na casa de Dona Georgina, defronte à Igreja do Rosário dos Pretos, no bairro da Cidade Alta.
No passar do tempo foi encontrando outros pousos até a casa da Rua Meira e Sá, 118, no Barro Vermelho, vizinha à casa 120, da família do Doutor José Gomes da Costa e Dona Lígia onde, em 1948 conheceu este articulista, molequinho vindo de Macaíba, cheio de sonhos.
Desse tempo em diante passamos a sonhar juntos até 31 de março de 2019, quando celebrou a sua Páscoa final, deixando um rastro de 71 anos de convivência, sempre no mesmo bairro, onde concebeu quatro filhos – Rosa Ligia, Thereza Raquel, Carlos Roberto e Rocco José, ampliando o casal com os netos Lucas Antônio, Carlos Victor, Raphael, Gabriela, Maria Clara, Guilherme e Carlos Neto.
Em que pese a ausência física, nunca deixamos de comemorar os encontros, natalícios e outros momentos, com a lembrança de sua pessoa, pois foi o que ensinou para todos nós – a despeito de ausências – a vida deve ser comemorada.
Assim aconteceu no dia imediato à sua vigem final, quando no dia primeiro de abril fizemos, todos com lágrimas contidas, o aniversário de Maria Clara.
Tais gestos não representam coisas mórbidas, mas acontecimentos sublimes da verdadeira imortalidade, através da sua foto à frente da mesa posta.
Hoje não poderia ser diferente – está programada a comemoração dos seus 88 anos de nascimento, eternizando a pessoa da mais bela flor do nosso jardim, com a sua presença espiritual ampliando o amor que plantou na vida física.
Desnecessário dizer que a saudade está plantada em todos nós, mas igualmente as belas lembranças dos instantes lúdicos, sábios, conciliadores que nos brindou numa existência de luz permanente.
Parabéns, minha beija-flor, e obrigado pelo que nos ensinou por tantos e tantos anos.
terça-feira, 16 de julho de 2024
Conviver, arte delicada
Padre João Medeiros Filho
Atualmente, o desrespeito e a agressividade nas relações entre as pessoassão frequentes.
Aumenta a dificuldade ou inabilidade em saber conviver. Muitos sequer se apercebem disso. Um
olhar pelas ruas de nossas cidades é o suficiente para presenciar flagrantes, que evidenciam a
impressionante incapacidade de se desfrutar de uma vida social saudável. Parece que se abriu
mão de muitos avanços positivos da civilização. E no tocante ao relacionamento humano, temse, não raro, a impressão do retorno à idade da pedra. A deterioração do tecido e relacionamento
social chegou ao nível em que uma pessoa polida e urbana se torna uma joia rara, suscitando por
vezes desconfiança ou escárnio. Noções básicas de polidez e civilidade parecem ter sido
esquecidas e abolidas. A gentileza assume ares de fraqueza, exibicionismo ou esnobação.
O Papa Francisco afirmou em uma de suas alocuções: “As coisas estão se
invertendo cada vez mais. O feminismo saudável está se transformando num machismo
de saia, relegando a um segundo plano a grandeza da mulher e sindicalizando a
dignidade feminina.” Para muitos, ser gentil e solidário denuncia insegurança ou
carência de aceitação comunitária. A noção de coletividade e pertença a um grupo – em
que os direitos de outrem devem ser observados – virou uma metáfora pejorativa. A
Ética tornou-se algo ultrapassado e sem espaço no mundo hodierno. As pessoas ignoram
o seu significado e importância. Egoísmo, impaciência, intolerância, grosseria,
radicalismo e arrogância passaram a dar o tom no dia-a-dia. “Honrai a todos. Aos irmãos
amai; a Deus temei” (1Pd 2,17), aconselhava o apóstolo Pedro.
Tudo isso tem suas causas. As condições educacionais, o desprezo e abandono da
axiologia, a repulsa dos valores morais, como o escárnio pelo respeito, a ausência de prática
religiosa (seja qual for), no parâmetro de vida, estão destruindo nossas tradições e
hospitalidade. A educação tradicional foi substituída por uma lamentável permissividade.
O que se constata hoje é a consequência dessa mudança imbuída da insanidade pela qual o
mundo enveredou. Como pode se comportar um jovem criado sem limites e carente de
preparo emocional e psíquico? Chegando à vida adulta, enfrentará uma sociedade altamente
competitiva, escravizada pelo consumismo desenfreado, pela incontida fome de lucro,
injustiça, corrupção, violência e por um culto mórbido à aparência física e social. Vive-se
no mundo do descarte ao respeito, do culto ao ter, poder, prazer e aparecer. Isto é facilmente
verificável em vários segmentos da vida pública. Noções e modos comezinhos do conviver
são ignorados. O uso hipócrita das formas oficiais de tratamento, mesuras e rapapés não
ofuscam essa degradação. Não se deve confundir autenticidade, convicção ideológica ou
discordância de ideias com insultos, impropérios, baixarias e agressões. Projetos e
conveniências pessoais ou partidárias nem sempre visam ao bem-estar coletivo.
Muitos concordam que a educação permissiva fracassou e o antigo modelo também
se revelou inadequado. Na verdade, o atual sistema educacional tem se mostrado aquém do
almejado. A ênfase dada por algumas instituições de ensino é centrada no Exame Nacional
do Ensino Médio (ou o equivalente), como se o futuro do ser humano se restringisse apenas
ao mercado de trabalho ou à profissão. A escola prioriza a transmissão de muitas
informações e subestima relevantes postulados humanos, desencadeando a fácil tentação
da ideologização. O ensino superior propõe-se a preparar profissionais, esquecendo o
cidadão e a família. Faltam líderes com exemplos e testemunhos de vida.
“É preciso humanizar o homem” insistia Jacques Maritain, em sua obra “O
humanismo integral”. E Charles Chaplin reiterava: “Sois homens e não máquinas.” É
preciso incentivar noções claras de uma cordial convivência em sociedade. Isto pode
soar aos ouvidos de vários como algo inútil e obsoleto. No entanto, é uma
reivindicação imprescindível. Não lograram grande êxito os métodos rígidos, excessos
de lições de moral. Tampouco cabe o laxismo. É fundamental que reine o respeito
entre todos. O cristianismo tem a missão de aprimorar o ser humano. Assim nos ensina
a Sagrada Escritura: “Ninguém agrida, desrespeite, desconsidere e oprima o seu
próximo. Somente Eu estou acima de vós e sou o vosso Deus” (Lv 25, 17).
quarta-feira, 3 de julho de 2024
Oração e silêncio
Padre João Medeiros Filho
Quem pensar em seguir Jesus Cristo não deverá esquecer que a oração integra a essência da espiritualidade. Entretanto, poucos rezam e, muitas vezes, quando o fazem, têm dificuldade de se expressar diante de Deus. Embora possa parecer que a prece seja uma manifestação da fé, por vezes, torna-se difícil ou talvez ineficaz. Os discípulos do Senhor observavam os hábitos de oração do seu Mestre. Viram-No frequentemente retirando-se a lugares desertos a fim de falar com o Pai. Numa dessas ocasiões, pediram-Lhe ajuda. Desejavam comunicar-se com Deus, como Seu Filho o fazia. E assim suplicaram: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11, 1). Jesus fez o que Lhe pediram. Ensinou-lhes com palavras e exemplos.
Teriam eles aprendido? Dois episódios narrados nos Atos dos Apóstolos mostram que compreenderam a importância da oração. Perseguidos e presos por causa de sua pregação, Pedro e João uniram-se a outros fiéis e, com confiança, suplicaram coragem para continuar a obra apostólica (At 4, 23-31). Ao citar o Salmo 2 mostraram haver entendido que o poder da prece se encontra Naquele que a escuta, pois Ele “está nos céus” (Sl 2, 4). Quando confrontados com as necessidades materiais das viúvas na comunidade de Jerusalém, os apóstolos constituíram diáconos para atendê-las. E no texto bíblico, encontra-se o motivo de sua decisão: “E, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da Palavra” (At 6, 4). A caridade com as viúvas e necessitados não era para ser negligenciada, mas os discípulos do Senhor deveriam também reservar tempo suficiente para algo muito importante: conversar com Deus. Haviam aprendido a lição e os hábitos de Jesus.
“Mas para aprender a rezar, é preciso pôr-se de joelhos e escutar o silêncio”, dizia a mística Santa Teresa d´Ávila. A importância de calar-se para orar encontra-se em todos os textos teológicos, bíblicos e litúrgicos. “No silêncio alguma coisa irradia”, escreveu Exupéry. Na missa da Oitava do Natal, lemos as palavras do Livro da Sabedoria: “Enquanto um profundo silêncio envolvia todas as coisas e a noite ia, no meio do seu curso, desceu do céu, ó Deus, a vossa Palavra onipotente” (Sb 18, 14-15). Na quietude das pessoas e do universo, Deus manifestou-se ao homem. E Sua Palavra onipotente se encarnou. Todo o universo se aquieta, quando Deus vem a nosso encontro. A atitude silente da criatura diante do Criador deve ser de adoração de um discípulo, que escuta o Mestre e dele aprende Palavras de Vida. A mesma mensagem pode-se encontrar no Profeta Habacuc: “O Senhor está em seu santuário sagrado. Cale-se diante de sua presença, ó terra inteira” (Hab 2, 20).
Segundo os evangelistas, na quietude da noite, Cristo retirava-se para as montanhas a fim de encontrar-se com o Pai. No recolhimento interior, longe da azáfama do cotidiano, Jesus escutava-O para depois proclamar o grande mistério, gerado desde toda a eternidade. Assim escreveu Paulo aos Romanos: “Um mistério latente, desde os séculos eternos, agora foi manifestado” (Rm 16, 25-26). Além desse elemento fundamental à prece, é necessário também tempo. Nós, filhos da modernidade e tecnologia, somos escravos da cronologia. Trazemos nos pulsos nossas algemas interiores e exteriores (os relógios). Não sabemos dedicar tempo a Deus. Cada vez mais, oramos menos e não percebemos a dimensão de gratuidade e beleza do amor divino.
A oração é a expressão de nossa intimidade com Deus e nosso amor por Ele. É um falar constante com Aquele que amamos. Quem ama sente necessidade de estar perto, conversar e ter momentos a sós com a pessoa amada. Da mesma forma, a oração é ato e expressão de amor pelo nosso Pai Celestial. E quando se ama, o tempo é um obstáculo. Nós, escravos da cronometria, não sabemos dispor da temporalidade para desfrutar da experiência amorosa de Deus. Falamos sobre Ele, suplicamos ao Onipotente, mas esquecemos de deixá-Lo falar dentro de nós. A oração acalma, consola e anima. Lembrava Santo Agostinho: “Ela é a fortaleza do homem e a fraqueza de Deus.” É preciso crer naquilo que assegura o Mestre: “Pedi e vos será dado, procurai e achareis, batei e a porta vos será aberta” (Mt 7, 7).
quinta-feira, 27 de junho de 2024
O pálio arquiepiscopal
Padre João Medeiros Filho
No dia 7 de julho próximo, Natal presenciará um rito milenar, remontando ao ano 336 da era cristã. Trata-se da imposição do pálio arquiepiscopal a sua Excelência Reverendíssima Dom João dos Santos Cardoso, nosso Arcebispo Metropolitano, pelo Excelentíssimo Senhor Núncio Apostólico no Brasil, Dom Giambattista Diquattro. É um ritual rico de significado e tradição católica. Tal cerimônia acontece pela primeira vez em solo potiguar. Os arcebispos anteriores receberam o distintivo da dignidade de metropolita, no Vaticano. O evento é mais um marco nas mudanças dos rumos da Igreja norte-rio-grandense. Dom João tem se revelado um líder e pastor, conquistando paulatinamente o rebanho com sua simplicidade, firmeza dialogada, escuta atenciosa, responsabilidade partilhada, abertura interior, espírito fraterno e paternal, marcado por amor ao Povo de Deus. Desde os primeiros dias de seu ministério episcopal em nossa terra, tem surpreendido com gestos discretos, porém icônicos. “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21, 9).
Pálio provém da palavra latina “pallium”, antigo manto romano que cobria os ombros, protegendo-os do frio europeu. Isso explica sua confecção em lã. Atualmente, é uma espécie de colar com dois apêndices, em forma de “Y”, com seis cruzes ali bordadas e três alfinetes fixados, lembrando os cravos do Senhor. Originalmente, era privativo dos papas. Depois, estendeu-se aos metropolitas e primazes, expressando a jurisdição delegada pelo Sumo Pontífice. Destina-se aos prelados que assumem um arcebispado. Simboliza a colegialidade episcopal, comunhão com a Igreja e a missão de coordenar uma província eclesiástica.
Conforme historiadores, começou a ser usado na primeira metade do século IV, pelo Papa Marcos. Este estendeu o uso ao bispo de Óstia (Itália), que na qualidade de decano no episcopado presidiu a investidura do Sumo Pontífice. Após o século VI, é concedido aos metropolitas, tornando-se obrigatório, desde o século IX. O ritual inclui a profissão de fé do metropolita e seu juramento de fidelidade ao sucessor de Pedro. O objetivo é recordar publicamente aos investidos com aquela insígnia seu vínculo com a Cátedra Romana, fonte de todas as prerrogativas, fortalecendo assim a comunhão com o Papa. Buscava neutralizar aspirações de alguns eclesiásticos, ansiosos de uma autonomia incompatível com a unidade eclesial.
O pálio detém grande simbolismo teológico e forte dimensão metafórica. Sua feitura com lã de ovelha alude à figura do Bom Pastor, que coloca em seus ombros a ovelha perdida. Deseja relembrar o primeiro ícone da arte cristã, uma imagem de Cristo, Bom Pastor, atribuída ao evangelista João. O arcebispo, como na iconografia religiosa, deverá pôr em seus ombros as ovelhas que lhe são confiadas por Cristo. O pálio é preparado com a lã de cordeiros brancos, criados pelos monges trapistas e posteriormente costurado pelas freiras beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília, em Roma. A lã ovina é ofertada ao Papa no dia 21 de janeiro (festa de Santa Inês) e por ele abençoada numa missa solene na basílica, erguida em homenagem à Virgem Mártir, nos arredores de Roma. Uma vez preparados, os pálios são colocados, em 29 de junho, sobre o túmulo de São Pedro para exprimir a tradição apostólica e posterior imposição aos prelados. Inês, em latim, Agnes, significa cordeiro. O arcebispo deverá empenhar-se para que suas ovelhas sejam dóceis e santas. Eis um dos simbolismos do belíssimo ritual que nossa arquidiocese vivenciará brevemente. Será um evento memorável para a história eclesiástica norte-rio-grandense.
A parábola da ovelha desgarrada que o pastor procura no deserto – evocada na insígnia – é para os Padres da Igreja uma imagem do mistério de Cristo Salvador. Sendo veste litúrgica, o pálio deverá ser usado em cerimônias religiosas em sua arquidiocese, mormente nas celebrações eucarísticas. Este é um momento em que o celebrante se assemelha a Cristo, desejoso de que haja um “só rebanho e um só pastor” (cf. Jo 10, 16). A referida vestimenta litúrgica sempre representou a unidade com a Sé Apostólica, simbolizando também as virtudes que adornam a vida daquele que dela se reveste. A cerimônia em Natal expressará nossa comunhão com o Vigário de Cristo. Cabe lembrar a profética frase do Quarto Evangelho: “Houve um homem enviado por Deus, cujo nome é João” (Jo 1, 6).
terça-feira, 25 de junho de 2024
O ATHENEU
LEMBRANÇA QUE O TEMPO NÃO DESFEZ
Valério Mesquita
mesquita.valerio@gmail.com
Naquele tempo, o nosso mundo começava no Atheneu, um nome bonito, sonoro, poético. Era o tempo da felicidade na sua forma mais simples; dos primeiros alumbramentos; dos gestos inaugurais dos amores clandestinos. Falar sobre o Atheneu dos idos 50 e 60, é caminhar numa procissão de relembranças. "Seu Babau, quantas declinações existem no Latim". "Sei não, professor". "Sente, zero. Nominativo, genitivo, dativo, acusativo, vocativo e ablativo." Era o Cônego Luiz Wanderley arguindo o saudoso Raimundo Torquato, apelidado de Babu, mas o padre já declinava no acusativo: "Babau". Vascaíno fanático, só havia um jeito da turma se livrar da terrível chamada oral de latim da segunda-feira: elogiar o Vasco e comentar a sua vitória. No caso de derrota: delenda est Babau! Sem nenhum demérito aos atuais mestres do Atheneu norte-rio-grandense de hoje, mas será que o tempo poderia restituir essa seleção de ouro? Floriano Cavalcante (que ensinava história proferindo discurso); Protásio Melo (que nos influenciou o interesse pelos autores ingleses e americanos); Esmeraldo Siqueira professor de francês (com o seu indefectível charuto, cuja fumaça desenhava no ar os perfis de Hugo, de Daudet, de Vigny, de Balzac, de Gide, etc); Álvaro Tavares (modesto, simples, erudito); Cônego Luiz Wanderley (grande orador sacro e latinista), só para citar aqueles que nos ensinavam diretamente. Nesse universo perdido havia outras figuras inesquecíveis que não travaram contato conosco mas povoaram a mesma amorável galáxia que vai ficar na memória e na moldura do século.
Mensurar o quanto a intelectualidade do Rio Grande do Norte deve ao Atheneu é uma tarefa impossível. Desde o tempo do inexcedível professor Celestino Pimentel, de Alvamar Furtado (o Clark Gable dessa Hollywood Potiguar), Câmara Cascudo (o mais sedutor dos mestres), e toda uma plêiade de professores quase todos absorvidos mais tarde pela Universidade Federal, nos faz deduzir que o Atheneu não foi, apenas, uma usina preparatória e
educadora de gerações mas também de mestres que ajudaram a erigir o edifício de um novo tempo: uma instituição de ensino superior.
O Atheneu de Petrópolis tem o dom da dimensão entre o efêmero e o eterno. Nele há algo mais para se sentir do que para se dizer. O Atheneu é a história de uma fé que se fez realidade. Concebido pelo arrojo arquitetônico extra época, insignes diretores deram vida e estabilidade definitivas ao idealismo renovador do ex-governador Sylvio Piza Pedroza. "Ver bem não é ver tudo, é ver os que os outros não vêem". Nessa frase perfeita de José Américo, Sylvio Pedroza, quem sabe não estaria enxergando longe o embrião
da futura Universidade? Só sei que o tempo respeitou o que nele construiu para depois os próprios mestres, ao longo do tempo, se encarregarem da materialização do seu sonho. Isso porque, é na própria criação que o homem faz descobertas. O mestre Protásio Melo que teve uma vida inteira consagrada ao ensino de gerações, hoje nada "tendo nas mãos que foram pródigas", não viu a hora do silêncio e nem se calou. Abriu as asas de sua pesquisa sobre a História do Atheneu, a história de todos nós. E já entardecia para que se pudesse resgatar esse acervo rico de humanismo e tradição. Só Protásio mesmo, que cresceu nas ervas de Walt Whytm para ainda hoje, nos respingar da água benta de uma aurora, onde foi um dos protagonistas dos mistérios circundantes.
(*) Escritor
sexta-feira, 21 de junho de 2024
EDGAR BARBOSA, HUMANISTA DE TRATO CORDIAL
Valério Mesquita
mesquita.valerio@gmail.com
Ao lado de Alvamar Furtado, Múcio Ribeiro Dantas e Floriano Cavalcanti, Edgar Barbosa formava um quarteto de invejável saber jurídico na velha Faculdade de Direito da Ribeira, na década de 1960, comentado e sussurrado com reverência por nós, seus alunos, pelos corredores e salas da saudosa instituição.
Mas o professor não cabia num figurino único – embora confortável, do ponto de vista intelectual –, de grande e admirável jurista. Sua formação filosófica fizera dele um humanista no sentido lato, ou seja, na medida em que nada do que fosse humano lhe era indiferente. Compará-lo ao seu mestre Luís da Câmara Cascudo seria fazer justiça ao primeiro, e elevar a estatura intelectual do segundo.
Por trás desse duplo verniz jurídico e humanista, Edgar Barbosa encobria um homem cordial que só a pouco e a vagar deixava transparecer no convívio com seus alunos. Já alertados por colegas mais antigos, nós também não demoramos a descobrir outros traços salientes da personalidade complexa de nosso mestre em Direito Constitucional. Isso acontecia até com certa regularidade, na medida em que fui também me habituando a integrar uma espécie de círculo de ouvintes do velho professor
para as conversas que se sucediam à aula, mas que acontecia ali mesmo, juntamente com Carlos Gomes, Claudio Emerenciano, Hilda Fagundes e outros colegas.
Visava transmitir sabedoria, conhecimento, humanismo. Com essa preocupação sempre alerta, o grande estilista fazia incursões pela Antiguidade Clássica à cata de exemplos, de modelos, de parâmetros comparativos com os problemas de nosso tempo, ilustrando-os e esclarecendo-os, como costumava fazer nos seus ensaios e artigos jornalísticos escritos para o jornal "A República" a partir da década de 1920, como revela o volume de textos e crônicas organizado pelo saudoso jornalista Nelson Patriota e lançado pela editora da UFRN. Ali se podem detectar alguns temas que serão amadurecidos pelo futuro jurista, como o direito do voto feminino, os problemas enfrentados pelo ensino público, a importância da liberdade de expressão para a vida política brasileira, entre outros.
A esses temas, acrescentou o mestre considerações líricas, evocações nostálgicas, quadros recortados cuidadosamente de sua memória afetiva sobre a sua telúrica Ceará-Mirim, com seus vales férteis como se fora recortada por um Nilo transplantado para lá por um sortilégio de Deus. Cenas de infância, tipos populares que chamaram sua atenção de menino imaginoso, acontecimentos únicos que ficaram nos porões da memória, tudo isso constituiu matéria literária em suas mãos.
Às vezes me flagro entrando, pela via franca da memória, na sala de aula da antiga Faculdade de Direito, na velha Ribeira que, como o beco recantado pelo poeta Manuel Bandeira, está “intacta, suspensa no ar”. Nesses momentos, sinto que é hora de reler algum tópico do livro "Imagens do Tempo", onde recolheu crônicas dispersas nos jornais locais, porque sabia que deveria preservá-las em livro. Ao ler o perfil de um Henrique Castriciano, de um Juvenal Lamartine, de um José Gonçalves ou de um Padre Monte, ou ainda uma crônica dedicada ao jasmineiro de Auta de Souza, um retrato de Vila Flor, a descrição de um velho engenho, tudo isso me confirma que o escritor memorialista soube entender como poucos a alma patrícia do homem potiguar, seus valores essenciais, que outro mestre, Luís da Câmara Cascudo, resumiu à perfeição.
Recordar Edgar Barbosa termina por ser também um exercício de saudade sem saudosismo, porque se faz em contato com sua obra, a qual, pelas lições que continua a nos dar, permanece aberta e receptiva às questões da nossa época. Como ex-aluno, evoco-o com emoção.
terça-feira, 18 de junho de 2024
Feminismo. Linguagem neutra
Padre João Medeiros Filho
Segundo estudiosos, o ex-presidente José Sarney deu sua parcela de contribuição para o
desenvolvimento do feminismo no Brasil. Inovou no programa radiofônico “Conversa ao pé do
rádio” com a saudação “brasileiros e brasileiras”. Os termos divergem do padrão oficial, em que o
plural masculino é a forma literária consagrada. Nem os discursos populistas de Getúlio Vargas
afastaram-se da regra clássica. Aquele dignitário dirigia-se aos ouvintes com estas palavras:
“Trabalhadores do Brasil”. Sarney incluiu o feminino plural, optando pela separação. Distancia-se
da norma culta do idioma pátrio, pela qual o plural masculino engloba as variantes. Até a liturgia foi
atingida pelo redundante emprego de termos femininos, dispensáveis semântica e estilisticamente.
Acrescentaram à tradução vernacular do “Orate frates” (Orai, irmãos) o substantivo “irmãs”.
Tangidos pelos ventos do modismo e outras influências, pregadores começaram a saudar os fiéis
desta forma: “Caríssimos irmãos e irmãs” ou vocativos equivalentes, inclusive em documentos.
Oradores sacros de outrora primavam pelo conteúdo bíblico-teológico e forma literária. Os sermões
de Padre Vieira, Frei Mont’Alverne e posteriormente Dom José Pereira Alves, Cônego Luiz e Dom
Nivaldo Monte, Dom Mário Villas Boas, Dom João Portocarrero Costa etc. são ricos em sabedoria.
Decisões favoráveis ou contrárias à linguagem neutra dão azo a polêmicas, inclusive nos meios
acadêmicos e literários. O recente pronunciamento do Supremo Tribunal Federal, em 10/06/24, na
ação movida contra os municípios de Águas Lindas (GO) e Ibirité (MG), reproduz fundamentalmente
a sentença prolatada na ADIN 7019, aos 10/02/23, declarando a inconstitucionalidade da Lei
5123/2021, oriunda do Estado de Rondônia. Questionava-se a proibição do uso da linguagem neutra
em instituições escolares, vinculadas ao sistema estadual de educação. Consideram-se equivocamente
língua e linguagem como realidades idênticas. Entretanto, duas novidades são verificadas no último
julgamento. Um dos ministros afirma que “a linguagem neutra destoa das normas do português.” No
voto, o relator alude à “competência da União para estabelecer currículos escolares.” Convém lembrar
determinados dados históricos, linguísticos e jurídicos, inerentes ao tema.
A linguagem neutra rejeita o que pode remeter ao masculino ou feminino. “Adapta o
português ao uso de expressões em que pessoas não binárias são representadas.” Terminações e
artigos masculinos e femininos são grafados na maioria dos casos com “x”, “e” ou “@”. Tal grafia
ignora a origem, história e formação das palavras na língua portuguesa. O neutro do Latim foi
convertido no idioma luso-brasileiro pelo masculino. Desconsidera-se um dado relevante: o
vigente Acordo Ortográfico adotado pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa, ao qual o
Brasil – após ouvir o Parlamento Nacional – se obriga a respeitá-lo, como signatário. Consiste num
tratado internacional, assinado pelas dez nações que adotam oficialmente a lusofonia.
Para psicopedagogos, a linguagem neutra poderá acarretar dificuldades de aprendizagem
aos portadores de dislexia e deficiência auditiva. Os defensores da linguagem neutra aludem à
necessidade de mostrar nas palavras a inclusão dos diferentes. Vocábulos ou leis nem sempre
realizam efetivamente a inclusão de pessoas. Importa a formação das personalidades. No Brasil,
apesar da pletora de instrumentos legais, persistem exclusão e desigualdades. A norma é bemvinda,
quando consagra a consciência sociocultural autêntica. “A letra é morta. É o espírito que
vivifica” (2Cor 1, 3). O evangelista João adverte: “Evitar o que pode causar divisão” (Jo 10, 19).
As decisões do STF consideram a proibição da linguagem neutra uma violação da liberdade de
expressão. Reiteraram que é privativo da União legislar sobre modificações no uso do idioma e
currículos acadêmicos. Para maior clareza, os textos decisórios poderiam ter deixado explícito o
inverso, bem como conceituado os termos língua e linguagem. Se não é permitido proibir – em nome
da liberdade de expressão – o uso da linguagem neutra, tampouco, pela mesma regra, se poderá impor
o emprego dessa linguagem nas instituições de ensino. Daí, surge a questão: se os entes públicos
municipais e estaduais são incompetentes para legislar sobre conteúdos curriculares e idioma nacional,
grupos poderão fazê-lo? Percebe-se coercibilidade em certos movimentos. É cristalino o princípio
constitucional da legalidade: “Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, senão
em virtude de lei” (CF. Art. 5º, Inciso II). Ensina-nos o apóstolo Paulo: “Estejais todos de acordo com
o que falam e não haja discórdia entre vós por causa de palavras” (1Cor 1, 10)
segunda-feira, 17 de junho de 2024
LIBERALISMOS
Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com
Do ponto de vista econômico, cultural, jurídico, político, social, religioso, consuetudinário, todos, enfim, que neguem os valores da Bíblia irão destruir a própria humanidade, ao longo do tempo. É uma questão lógica e não pessoal. Ou profética. Afirmam que é a evolução, a modernidade. De retrógrado e conservador serão acoimados quem apontar os perigos do “liberou geral”. Não falo somente sob o aspecto espiritual, pois não sou teólogo, padre ou pastor. “Trata-se de um determinismo histórico”, dirão outros interessados em coonestar o excesso comportamental do mundo profano de hoje. Até na filosofia vão pescar fundamentos para alimentarem a subversão e o negativismo dos valores humanos como ultrapassados.
Na Europa o ensino religioso para preservação dos princípios da moralidade, da família, da ordem pública, da fé cristã, estão sendo derrubados, e, discriminados quem os defender. As igrejas, tantos as católicas quantos as evangélicas estão sendo vendidas ou substituídas por templos muçulmanos (Inglaterra, principalmente), ou transformadas em boates. Nos Estados Unidos, pátria do protestantismo, elas já exibem nos frontispícios a expressão “dead church” ou templo morto, ou ainda melhor: fechadas. A identidade divina de Jesus Cristo começou a ser substituída pelo personalismo de “apóstolos”, “bispos”, “missionários”, portadores e medianeiros de graças e bênçãos sobrenaturais. O curandeirismo exagerado oculta o verdadeiro ensinamento do Novo Testamento.
O liberalismo da legislação penal brasileira é outra aberração. A marginalidade fixada no patamar dos dezoito anos é incompatível com a realidade. Na Câmara Federal um deputado evangélico é linchado moralmente todos os dias somente porque é contrário ao casamento homossexual mas, no entanto, outros parlamentares condenados pelo STF por corrupção são tolerados. Apupa-se a liberdade de pensamento mas aplaude-se o ladrão do erário. País controvertido esse nosso. E por que os congressistas não votam imediatamente a redução da penalidade do menor logo para os quatorze anos! Para os dezesseis anos ainda é pouco. Com essa idade ele já vota pra presidente, governador, senador e o escambau. E o menor ainda quer exercer o privilégio de matar impunemente com a complacência dos políticos e muitos juristas de plantão.
O liberalismo no Brasil – pátria amada das permissividades – objetiva agora, através de um obscuro deputado federal, acabar com o poder de investigação contra os crimes de corrupção no país (PEC 37), por parte do Ministério Público. Retirar do MP esse atributo é um desserviço à nação e um desrespeito ao povo que deseja ver na cadeia aqueles que furtam diariamente o seu dinheiro. Por fim, a desconfiança em Deus, a fuga das igrejas, levam muita gente a aceitar toda espécie de desatino, sem reagir - omitindo-se. Por exemplo, a união homossexual é um problema das partes envolvidas. Sexo é prática privada.
Agora, não precisa é ser motivo de apologia midiática, prodigalismo, sensacionalismo, modelo a ser seguido ou integrar o currículo nas escolas de primeiro grau. Todo excesso é censurável. Não precisa ser “o galo das trevas” como diria Pedro Narva que restringia com um zelo cada vez maior a convivência com os humanos. Todo liberalismo é babilônico e perdulário com o dinheiro público. Em alguns lugares dizem, as facções criminosas estão financiando a campanha eleitoral de alguns intrépidos candidatos, apesar de já existir um escandaloso fundo eleitoral. Pra frente Brasil!!
(*) Escritor
sexta-feira, 14 de junho de 2024
Nélio Silveira Dias Júnior
8 de junho às 06:47 ·
Berilo Wanderley: um jornalista potiguar inesquecível
Talvez muitos não tenham conhecido Berilo Wanderley, por ter partido, em 1979, ainda jovem, aos 45 anos. Mas, com certeza, dele já ouviram falar.
Os formados em jornalismo, principalmente, sabem quem foi Berilo Wanderley, pois o Centro Acadêmico de Comunicação da UFRN leva o seu nome. Mesmo aqueles menos familiarizados com a história local, de alguma forma, já se depararam com Berilo, já que seu nome batiza, em Natal, uma rua em Lagoa Nova, uma Escola Estadual em Neópolis e uma Escola Municipal nas Quintas.
Apesar de ter falecido jovem, Berilo Wanderley marcou positivamente a comunidade natalense. Sua memória continua viva.
Francisco Berilo Pinheiro Wanderley (1934-1979) formou-se na primeira turma da Faculdade de Direito de Natal e fez pós-graduação em Madrid. Foi promotor de justiça, professor universitário, jornalista, escritor e crítico literário e de cinema.
No direito, teve uma passagem pela Promotoria de Justiça. Mas, logo se desencantou, a função de acusar alguém era, para ele, árdua demais, “incompatível com o seu temperamento” (João Batista Machado). “Era poeta demais para pedir a condenação de alguém” (Nei Leandro de Castro).
Berilo não temia o risco, o imponderável, principalmente, quando se tratava de buscar algo que achava que valia a pena. Em Clarice Lispector, encontrou a definição da sua jornada, ao citá-la, em uma entrevista: “terei que correr o sagrado risco do acaso”, e um dia, “substituirei o destino pela probabilidade” (Ícone Fashion - FJA).
Deixou a carreira jurídica de lado e foi em busca do que gostava. Foi no magistério/jornalismo que se encontrou e exerceu o seu ofício. A sua missão, realmente, era escrever e informar. O jornal impresso foi seu veículo de comunicação. Trabalhou na “A República”, “Diário de Natal” e na “Tribuna do Norte”.
Berilo Wanderley fazia quase de tudo dentro de um jornal: copydesk, chefe de reportagem, redator, editor, cronista e crítico de cinema, desempenhando essas funções com competência. Excelente titulista, capaz de fazer vários títulos, com rapidez incrível (João Batista Machado).
Na Tribuna do Norte, se destacou na qualidade de cronista, "sabia esgrimar a arte da palavra, como fenômeno estético, preocupado não somente na empatia do leitor, mas, também, em lhe oferecer o registro dos fatos reais". "Foi um satírico incansável de tipos e costumes" (Woden Madruga).
Isso tudo pude perceber na leitura das suas crônicas, não na época da publicação, que talvez não tivesse ainda nascido, mas, agora, registradas em seu livro: "O Menino e Seu Pai Caçador", constatando a qualidade da linguagem utilizada. Sua obra é marcada pela habilidade de envolver o leitor e transportá-lo para aqueles universos, vividos ou imaginados pelo autor.
"A crônica leve, descontraída, o estilo simples, enxuto, a ironia fina, a farpa bem colocada, estava no gosto do leitor. Mexia com os assuntos do cotidiano, descobrindo tipos que ele encontrava pelos becos e bares da Cidade, contando histórias, registrando acontecimentos, ocorrências literárias da província" (Woden Madruga).
As crônicas de Berilo Wanderley são capazes de dar vida a personagens simples, tornando-os relevantes e importantes dentro da narrativa, o que retrata, pelo que parece, a sua humanidade e solidariedade com seu semelhante. É uma característica admirável de sua escrita.
Berilo Wanderley pertenceu a uma geração de grandes valores, grandes figuras, como Newton Navarro e Luís Carlos Guimarães, mortos antes do tempo que mereciam para escrever, sonhar e amar (Nei Leandro de Castro).
Na verdade, foi um mestre da linguagem, utilizando-a de forma precisa e elegante em suas crônicas. Cada palavra parece ser cuidadosamente escolhida, com significado e emoção, para transmitir o seu pensamento.
Hoje, conhecendo um pouco da história de Berilo Wanderley e, principalmente, lendo seus livros: "O Menino e Seu Pai Caçador", “Cine Lembrança”, “Telhado do Sonho”, “Revista da Cidade”, tenho a saudade de quem não convivi, sequer conheci.
Os livros podem nos conectar com pessoas, que nunca se tem a oportunidade de conhecê-las pessoalmente; despertar empatia; nos transportar para outros mundos, tempos e experiências.
Essa, talvez, seja uma das magias do livro.
Cada página que leio, cada história que absorvo, faz com que eu sinta como se estivesse conversando com a pessoa, compartilhando ideias, pensamentos e experiências.
Depois de ter lido os livros de Berilo Wanderley bate o desejo de ler mais as suas crônicas, outras crônicas, o que não é mais possível, pois ele partiu, partiu para nunca mais escrever. Aí vem o sentimento de saudade, decorrente de admiração, respeito e gratidão por tudo que essa pessoa desconhecida me proporcionou através da leitura, levando-me para tempos idos e não vividos.
“Esse tipo de pessoa, quando se encanta, deixa atrás de si um rastro tão luminoso de atos, uma senda tão vigorosa de passos, que por isso mesmo torna-se imortal”.
Fontes:
Woden Madruga (Prefácio do Livro: O menino e seu pai caçador)
Ney Leandro de Castro (Tribuna de Norte, 18/11/2011)
Brechando.com
Fundação José Augusto - Figuras de Destaque
João Batista Machado (Cine Lembrança)
terça-feira, 11 de junho de 2024
Reconstruir o Brasil
Padre João Medeiros Filho
A reconstrução pessoal ou social é inerente à história humana. O Brasil, em diferentes
momentos, viveu etapas reconstrutivas. Atualmente, há interpelação da consciência cidadã e
cristã sobre a necessidade de ressignificar a Pátria. A pandemia marcou a urgência de se
repensar os serviços públicos. Muitos não querem admitir que o tempo pandêmico abalou vários
setores da sociedade, notadamente a saúde e a educação. No mínimo, comprovou-se a sua
precariedade ou ineficiência crônica. “Saúde e educação de um povo não se improvisam”,
afirmou Dr. Marcolino Candau, primeiro brasileiro a dirigir a Organização Mundial da
Saúde. Os problemas socioeconômicos, políticos, educacionais, a carência de segurança
alimentar para tantos, gerando desigualdade social, clamam pela reconstrução do País.
Enquanto isso, o tempo precioso é ocupado com diatribes ideológicas, inócuas e deletérias,
tornando o radicalismo além de agudo, crônico. Tem razão o salmista: “Se o Senhor não
construir a casa, debalde trabalham os que a edificam” (Sl 127/126, 1).
Análises científicas vêm mostrando, em muitos aspectos da conjuntura sociopolítica, um
processo de deterioração do tecido social. Considerações técnicas explicitam desmontes que
atingem a estrutura da sociedade, cujos alicerces foram abalados: improbidades, privilégios,
mentira social, demagogia, narrativas, ensaios ideológicos despropositados, descaso educacional
etc. Tudo isso requer lucidez e serenidade dos cidadãos. Um velho líder potiguar comparou nossa
política a “uma moça despudorada, apresentada por membros da família como uma jovem
honrada e virtuosa.” Há unanimidade sobre a necessidade de intervenções urgentes para evitar
que se constitua, entre nós, a verdadeira “abominação da desolação” (Dn 19, 27). Essa foi a
expressão bíblica que definiu o caos reinante no povo prevaricador do Antigo Testamento. A
história da Terra de Santa Cruz, não obstante percalços e vicissitudes, carece de apreço. O País
detém um relevante potencial humanístico e material para se reerguer. Não pode estar em mãos
equivocadas nem ser refém de inescrupulosos e oportunistas, cujo objetivo é seu projeto de poder
e não de uma nação humana e justa. Não se deve apostar no “déjà vu”.
Preocupa sobremaneira o diagnóstico de nossas feridas políticas. Nossa Terra vive a
carência de uma visão moderna de gestão, capaz de oferecer respostas rápidas, adequadas e
atualizadas. Há de se corrigir degradações gravíssimas na educação, infraestrutura, segurança
e saúde, no sistema eleitoral, na política ambiental e administração pública. É imprescindível
um novo movimento civilizatório. Muitas coisas precisam ser pautadas urgentemente para
retirar o País dos atrasos e marasmo. É característico no Brasil viver intensa e
antecipadamente os períodos eleitorais. Nem bem acabam as eleições federais e estaduais, já
se entabulam os conchavos para os pleitos municipais, ou vice-versa. Respiram-se campanhas
eleitorais o tempo todo. O pior é o clima contaminado por vícios interesseiros, os quais
reduzem a discussão política a nomes e pessoas, que traduzem esquemas obsoletos e
perpetuadores de privilégios e erros. O que se espera dos líderes e dignitários não é uma briga
medíocre e improdutiva, mas uma ampla pauta de diálogo civilizatório, incluindo especial
atenção ao linguajar corrente, uso ético e produtivo das tecnologias contemporâneas.
Infelizmente, o Brasil vai se tornando um solo de narrativas em todos os segmentos e matizes
ideológicos. Sepultam-se a verdade, o realismo e a honestidade intelectual. Há cada vez mais falácias,
relatosdesonestos edesconexos, impedindo avanços e agravando a polarização. Convive-se com falas fora
dos trilhos, incompatíveis com os cargos ocupados, comprometendo a seriedade dos poderes e instituições.
Não raro, discursos e pronunciamentos geram desentendimentos, acarretando intransigências, reforçando
radicalizações, alimentando medos, minando a paz social. Na tarefa de reconstruir a Nação, misterse faz
investir em palavras que iluminem e apaziguem pela verdade que transmitem. É preciso respeitar
autoridades e direitos, salvaguardar a Pátria com políticas sensatas, varrer os cenários da vergonhosa
desigualdade social, garantir a vigência de valores e princípios inegociáveis. Assim é possível reconstruir
verdadeiramente nosso torrão natal. Nisto consiste a recomendação bíblica, interpretada apenas do ponto
de vista demográfico: “Crescei e multiplicai-vos” (Gn 9, 7). Crescer em dignidade e grandeza humana.
Multiplicaro bem-estar social dos filhos de Deus! “Feliz é a nação, cujo Deus é o Senhor” (Sl 33/32, 12).
“Tão sublime Sacramento”
Padre João Medeiros Filho
Este cântico litúrgico é a parte final do hino eucarístico “Pange Lingua”, composto, em 1264, por Santo Tomás de Aquino para a festa de “Corpus Christi, a pedido do Papa Urbano IV. Esta música sacra, apresentada em canto gregoriano ou polifonia, marcou a vida espiritual de muitos. O compositor brasileiro Toquinho, parceiro de Vinicius de Moraes, ainda hoje se encanta e se emociona, ao recordar a melodia tocada por Padre Romano, organista do Liceu Salesiano do Coração de Jesus (São Paulo), onde estudou. No Seridó, a interpretação musical do Maestro Felinto Lúcio comove, de modo especial, os fiéis na Bênção do Santíssimo Sacramento. A partitura do eminente seridoense é executada na Basílica de São Pedro (Vaticano), graças a nosso conterrâneo Monsenhor Flávio José de Medeiros Filho.
Plantão permanente da eterna solidariedade de Deus é o Pão Eucarístico, meiguice de um Pai, que nos envia um Irmão para dialogar conosco. Ele assegurou-nos: “Quem comer deste Pão, jamais terá fome” (Jo 6, 35). A Eucaristia é a espera de Deus por nós, abraço divino que nos é reservado. Beijo carinhoso de um Pai cheio de bondade, que no silêncio da Hóstia nos mostra seu amor misericordioso. Eis o gesto augusto da presença celestial, temporalizada no mistério da Encarnação. Cristo quis se unir à humanidade e revelar que ela tem um valor infinito, não obstante as suas limitações. Um dia, Deus em sua inefável benignidade nos perfilhou.
A Encarnação é uma incomensurável prova de amor de Deus. Mas, Ele quis ir além. Complementou misteriosamente sua prodigalidade no Sacramento do Altar. Ele se dá ainda mais, transformando elementos materiais em símbolos de sua pessoa. Consagra o universo, através dos três elementos que o representam: pão, vinho e água. A matéria inanimada torna-se suporte da divindade de Cristo ali presente, porém latente. Graças à fé, pode-se sentir essa teofania de Jesus, concedida por Deus aos filhos adotados. Por isso, exclamou Tomás de Aquino: “Ainda que o sentido falhe, a fé basta para confirmar o coração sincero.”
A profecia de Isaías, retomada pelo Mestre, no Evangelho de João, afirma: “Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite” (cf. Is 55,1 e Jo 7,37). Alude ao alimento espiritual que Jesus oferece com seu Corpo e Sangue. É verdade que temos sede de justiça e do próprio Deus, às vezes, aparentemente, tão distante de nossos sentimentos e vidas. A Eucaristia sacia a nossa fome de valores maiores. Quem tem saudades de Cristo, vai buscá-Lo na beleza dessa presença silenciosa. E, embora sem falar, Ele deixa sua graça penetrar no íntimo de cada um que se achega a Ele para mitigar todo tipo de fome e sede. A Eucaristia é o pão dos viandantes, o viático na dimensão semântica do termo. Não apenas para os enfermos, mas, sobretudo para os caminhantes. Vale citar as palavras dirigidas ao profeta Elias, cansado, deprimido, como muitos de nós, em certos momentos da vida: “Levanta-te e come, porque ainda tens um caminho longo a percorrer” (1Rs 19, 7).
“Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18), largados à própria sorte, garantiu-nos o Senhor. A Eucaristia é Cristo em nós. A caminhada solitária é difícil. Por esse motivo, Cristo quis conviver conosco. A dimensão do diálogo é importante. Assim sendo, Jesus legou-nos esse memorial, sinal de sua companhia. Não querendo que padecêssemos de solidão ou abandono, fez-se Pão e permanência. O “Sublime Sacramento” é antecipação do banquete da eternidade, no qual gozaremos o definitivo de nossa história. Deus, por Cristo, abranda em nós as saudades do Eterno. Extasia-nos um mistério tão admirável! Apesar de suas interrogações, os fiéis encontrarão paz na intimidade eucarística. Sustentados pela fé, que ilumina os nossos passos na noite da dúvida e das dificuldades, pode-se proclamar, como fizera o saudoso Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, quando pároco de Currais Novos: “Rei eterno, ó Deus humanado, suplicamos aos céus com fervor. Glória a Ti, ó Jesus escondido, ó mistério querido, ó milagre sublime de amor!” (Hino do Congresso Eucarístico Paroquial, outubro de 1937).
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