sábado, 15 de julho de 2023

 

Tortura

BERILO DE CASTRO
Leio no nosso matutino diário, que o nosso Estado está incluído entre os cinco maiores do país, em se tratando de tonturas nas prisões.
O assunto faz lembrar o meu pai, o Coronel PM Antônio de Castro.
Quando foi para a reserva remunerada, com uma grande família para sustentar e, um ganho miserável, suas contas não fechavam e não conseguia sair do sufoco
Foi então, lembrado pela minha mãe, para procurar o seu compadre, o então, governador Dinarte Mariz.
Foi ao Palácio Potengy, sendo muito bem recebido pelo seu compadre, a autoridade máxima do Estado.
A conversa foi mais um pedido. Externou sua difícil situação financeira. O dinheiro era curto, a família grande e as contas não fechavam, nem a pau.
Ao ouvi-lo, atenciosamente, o compadre, chamou o seu secretário e pediu que providenciasse uma colocação, um emprego, para melhorar as finanças do velho amigo e compadre.
Voltou para casa e, ficou aguardando o chamado para assumir o seu novo emprego.
Dias depois foi comunicado pelo secretário do Governador para receber a”boa” notícia do novo emprego.
Alegria total, felicidade na família. Minha mãe o arrumou todo, o perfumou com uma cheirosa lavanda. Era só alegria!
Ao chegar no gabinete, o secretário do Governador deu a notícia: o senhor vai assumir a delegacia da Ribeira. Papai, tomou um susto, por se tratar de uma delegacia mais movimentada, cheia, entupida de problemas.
Conhecida como a Delegacia dos cabarés. Só bronca! Quentíssima !
Ao chegar em casa deu a notícia a minha mãe, que nada gostou. Mas a escassez de dinheiro, a necessidade do momento falaram mais alto.
Assumiu, e começou a botar a casa em ordem. Na equipe de investigadores, tinha um famoso, muito famoso e bem conhecido na cidade, pelo o uso e abuso de suas torturas. Despertava os presos pela madrugada para as sessões de torturas, com a sua famoso e pesada palmatória.
Na arrumação da sua nova ocupação, foi informado do tal expediente do famoso e malvado investigador civil.
Mandou chamar o investigador e fez ver ao policial civil a sua forma, a sua maneira de trabalhar. Que não admitia de forma e espécie alguma tonturas em sua delegacia. Nem pensar! Longe daqui!
O investigador permaneceu calado durante a conversa, demonstrando uma certa insatisfação por não mais poder continuar com sua farra desumana de torturas.
Hoje, fico triste em saber que o meu Estado, encontra-se entre os cinco que mais torturam em prisões no país.
Inconcebível! Torturas, jamais!!!!


Enviado do meu iPhone

quarta-feira, 12 de julho de 2023

 (Recebido de Ivan Maciel)

  • SOBRE A FELICIDADE

    Quando se fala sobre felicidade, me lembro logo do que dizia um pensador que viveu no século XVIII e que foi um dos grandes ideólogos da revolução francesa de 1789 (a revolução que conduziu a burguesia ao poder e estabeleceu os princípios democráticos e liberais consagrados pelo capitalismo): Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Ele raciocinava como se tivesse existido um “estado de natureza”, anterior à constituição da sociedade, em que todos eram livres e viviam felizes (o “bom selvagem”). Depois se tornou necessária a celebração de um contrato social e a partir daí começou a infelicidade humana (sobretudo quando alguém cercou uma determinada área e disse: “isso me pertence”). Outro filósofo, Voltaire (1694-1778), escreveu uma carta a Rousseau em que dizia, a certa altura: “A gente tem vontade de andar de quatro (“marcher à quatre pattes”), quando lê sua obra”. Essas ideias serviram de base à luta contra o regime monárquico, pois o contrato social seria a fonte de todos os direitos. Hoje podem ser contrapostos às ameaças ditatoriais.

    Mas em que consiste mesmo a felicidade? O nirvana de Buda (Siddhartha Gautama, 563 a.C.-483 a.C.) importa na superação dos sentidos e de tudo o que é material, ausência do desejo, da dor e da emoção, o “ápice da meditação”: “o espírito se liberta do corpo temporariamente”. Bem diferente do hedonismo, que via na busca do prazer (com serenidade e equilíbrio) o único caminho para a felicidade. Mas Santa Teresa de Ávila (1515-1582) encontrava a felicidade na clausura, no silêncio, na pobreza e nas atividades intelectuais. Em 1970, Paulo VI concedeu-lhe o título de “Doutora da Igreja, Mestra da espiritualidade”. Foi grande escritora e poeta. Muitos veem em seus poemas um arrebatado transbordamento misticossensual. Exemplo: “Eu estou com Aquele que me habita”.

    Jorge Luis Borges se sentia feliz na companhia dos livros, para lê-los amorosamente. Tanto que imaginava o paraíso como uma enorme biblioteca em que se podia ler qualquer livro nas línguas mais diferentes. No entanto, ficou cego. E se satisfazia em acariciar os livros. Contratava intelectuais iniciantes para ler em voz alta os livros que ele não podia mais ler. Porém, reconhecia que essa experiência era frustrante: nada é comparável à leitura feita por nós mesmos. Meu pai, que lia em francês, italiano e inglês e tinha uma excelente biblioteca passou por idêntica provação: perdeu a visão por completo. Eu lia para ele jornais e revistas. Livros, tentei ler, mas ele achava que não valia a pena. Não conseguia concentrar-se na leitura feita por outra pessoa. Dizia que sua percepção era visual e não auditiva. Eu, então, percebia o quanto a doença o infelicitara: foi quando mais senti a absurda e abissal fragilidade da condição humana.

    Valter Hugo Mãe simplifica dizendo que não existe propriamente a felicidade -- EXISTEM MOMENTOS DE FELICIDADE.

 A virtude da tolerância 

Padre João Medeiros Filho 

Segundo Platão, “a tolerância é o mais alto nível de educação.” Consiste na capacidade de reconhecer e aceitar o diferente. Não confundir com o divergente, que prima pela discordância e oposição. A intolerância está em não suportar a pluralidade de ideias, crenças e posições, como se a verdade pertencesse a um só indivíduo ou grupo e ali todos devessem buscar a luz. Uma lenda milenar narra que um pregador reuniu centenas de pessoas para discorrer sobre a verdade. Ao final da fala, em vez de aplausos, houve um silêncio sepulcral. Passados alguns instantes, uma voz se levantou: “O que o senhor acaba de afirmar não é a verdade.” O palestrante indignou-se: “Como, não é? Anunciei o que me foi revelado pelos céus!” Quem contestou, retruca: “Existem três tipos de verdades: a do senhor, a minha (ambas subjetivas) e a objetiva. Juntos devemos buscar a veracidade dos fatos reais.” De acordo com a filosofia aristotélica, “a verdade é a identificação do pensamento com a realidade” (“Identificatio intelectus et rei”). Os tiranos e arrogantes sentem-se senhores absolutos da verdade. Por esse motivo, mantêm-se intransigentes, não admitindo os direitos dos outros. Há quem defenda a força das armas e da violência como prioridade sobre as ideias. Faz algumas semanas, a mídia noticiou o brado de alguns extremistas, pregando a morte para os que não seguem sua ideologia. Os intransigentes usam a agressão física como argumento válido para convencer o mundo e mostrar quem está certo ou o que é correto. Esquecem a máxima oriental, ao ensinar: “Melhore a argumentação e baixe o tom de voz.” O intolerante é facilmente levado à beligerância, por ele denominada contraponto. É um inseguro. Por isso, agarra-se a seus caprichos, concepções e narrativas, como um náufrago à tábua que o mantém à tona. É unicista, indo na contramão dos ensinamentos filosóficos e éticos. Vê o que discorda como inimigo ou “o inferno”, consoante Sartre. Para ele, todos devem acatar docilmente suas opiniões. O tolerante não coloniza a consciência alheia. Admite que da verdade se depreende fragmentos. Tem consciência de que ela só é alcançável com um esforço comunitário. Reconhece a alteridade singular, que jamais deve ser negada. Apenas Deus vê a plenitude da verdade. O poeta Rumi aconselha: “Veja através dos olhos da compaixão. Fale com a linguagem do amor e sobretudo ouça com os ouvidos da tolerância.” Esta necessita ser a regra de ouro do comportamento humano. Pode-se inferir que se todos não pensam da mesma forma, tem-se apenas parte da verdade, sob ângulos diversos. Tolerar não significa abandonar o compromisso com a veracidade, e sim reconhecer que o outro tem o direito de decidir o rumo da sua vida e história. Pode-se aplicar ao tolerante o perfil descrito pelo apóstolo Paulo na Primeira Carta aos Coríntios: “É paciente e prestativo, não se irrita nem guarda rancor. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13, 4-7). Tolerância não é sinônimo de ingenuidade, tampouco parvoíce. Não faz tempestade em copo d’água. Jamais cede quando se trata de defender a justiça, a dignidade e a honra. Reconhece o direito de cada um ter princípios e agir conforme a sua consciência, desde que não redunde em opressão ou exclusão, humilhação ou morte. O cristianismo convida a ter sempre uma atitude de respeito e compreensão com o próximo. Assim recomenda o citado apóstolo Paulo: “Aceita o outro, mesmo mais frágil e não discuta sobre suas opiniões” (Rm 14, 1). Das intolerâncias, a mais inaceitável é a religiosa, pois divide o que Deus uniu. A religião não é uma imposição, ela está na essência do ser humano. Quem somos nós para, em nome do Pai celestial, decretar se uns são os eleitos e, outros, os condenados? Só o amor poderá nos tornar realmente tolerantes, pois quem ama compreende as reações de outrem e demonstra sempre gestos de compreensão, acolhimento e partilha. Proclama o salmista: “O Senhor é clemente e tolerante [compassivo], lento para a ira, rico em misericórdia e fidelidade” (Sl 86/85, 15).

 A PASSAGEM DA NOITE


Valério Mesquita*
mesquita.valerio@gmail.com


“Siga o rio. O rio conhece o caminho”. É o estribilho de uma antiga
canção do faroeste americano. O leito caudaloso da memória me conduz às vozes
que vêm de longe. Na dor acumulada e na fadiga rotineira, ensaio os meus passos
no caminho das minhas perdas. Revejo os meus personagens. Escuto o vento nas
folhas e o piano da chuva no telhado como se não tivesse ainda baixado a cortina
da minha infância em Macaíba. Os passos enérgicos do meu pai e a fragrância
suave de minha mãe me parecem tão nítidos, no corredor da memória, como se
permanecesse ainda aberta a última porta daquele tempo. Diante do que possa
sugerir esquisitice essa ressurreição de ambiente, impetro uma medida cautelar
possessória, uma manutenção de posse do espaço perdido tal qual um
desesperado náufrago da complexa realidade de hoje.

Nada disso significa nostalgia piegas. Apenas, me interessa o
imponderável e o mistério dos desencontros humanos. Enquanto houver silêncio,
solidão, tragédia, medos secretos, jamais deixarei de perseguir os significados.
Além da visão, da memória, dos sonhos, tenho os meus pressentimentos. Às
vezes, no recolhimento, surgem-me os sons longínquos da antiga amplificadora
municipal, “a voz de Macaíba e o seu musical variado” dentro da noite calma e
estrelada daquele cenário mítico. A mente se povoa de mortos e de vivos que
vagam e que passam. O velho campo de futebol, entre as ruas 30 de Março e
Campo Santo, me restitui os ídolos desaparecidos. Craques comuns da vida pobre
da cidade, mas que se igualavam para mim aos astros do Maracanã dos idos de
Zizinho, Danilo e Ademir.

As águas do rio da reminiscência atingem novas margens e
aprofundam o porão da memória. O Cine Teatro Independência dos filmes do
Gordo e o Magro, dos Três Patetas, de Chaplin, de Abbott e Costello além dos

faroestes que não se repetem mais; a praça Antônio de Melo Siqueira dos
primeiros alumbramentos, dos passeios, do banco do namoro, do coreto, tudo
como qualquer lembrança de homem comum do interior; a rua do Vintém, do
Cajueiro, as Cinco Bocas, a praça da Matriz, o cais de pedra do rio Jundiaí, as
jabuticabeiras da Lagoa das Pedras, o Pernambuquinho; o Gango (o baixo
meretrício), de todas proibições à hora do crepúsculo, os antigos ônibus da linha
Macaíba/Natal que me consumiam diariamente a farda estudantil, enfim, o
universo humano das figuras populares, coração e alma de Macaíba que não pára
nunca. Na noite de minha vida ainda assisto, com nitidez, à passagem do meu rio
porque eu continuo a ter os meus personagens.

Mas, o patrimônio existencial da terceira idade, onde a memória
olfativa, a auditiva e, principalmente, a visual, procuram restituir-me o universo
perdido das fases inaugurais da vida. Aquela lua cheia, por exemplo, vista do cais
do rio Jundiaí em Macaíba, como se estivesse pendurada por fios invisíveis, atrás
dos coqueiros e eucaliptos, infundia-me na adolescência negro mistério do tempo
da colonização dos escravos, índios e colonos, de escuridão e medo, como se as
fases da lua chegassem naquele tempo por édito imperial. Como me perco na
contemplação do Solar do Ferreiro Torto e os seus sortilégios de poder, carne,
cobiça e paixão. E a descortinação surpreendente do Solar dos Guarapes.

Quantas perguntas insaciadas não existem sobre o que ocorreu ali?
Os seus fantasmas que subiam e desciam a colina sob a batuta do senhor de
engenho numa cosmovisão ora polêmica, ora lírica, dentro do abismo da
memória?

(*) Escritor.

sábado, 1 de julho de 2023

 



A REVOLTA DOS GUARAPES

 

Vicente Serejo*

 

Outro dia perguntei ao meu amigo Valério Mesquita, legítimo senhor do velho principado de Macaíba, como se faria para o governo estadual iniciar as obras de restauração do casarão dos Guarapes. Valério contraiu o cenho como um velho personagem de romance, e me respondeu: "Não sei. Só soube que Fabrício Pedroza, inconformado com esse abandono sem fim, arregimenta os fantasmas guerreiros e vai descer do alto dos Guarapes numa revolta armada e sem fronteiras".

Ora, essa mania de gostar de literatura tem esse defeito medonho: não fazemos diferença entre o real e o irreal. A narrativa para nós, leitores como eu, ou escritores como ele, é um toque mágico que faz viver com a força da palavra o que parece ser apenas um quadro na parede, para usar o verso belíssimo do poeta Drummond de Andrade. Pois assim aconteceu. Foi Valério descrevendo a cena épica e o medo cavalgando sobre a alma melancólica deste pobre homem da Rua da Frente. Já imagino o mui austero Fabrício Pedroza, senhor de terras e de gados, de sonhos e de riquezas, na sua ira santa. Duas vezes querem vê-lo vencido pelos reveses da vida. Na saúde que perdeu tão moço e, agora, no seu casarão colonial que deixam cair em ruínas, numa agonia de mais de um século. Resta um frontão já consumindo suas últimas forças, mantendo a aristocracia de seu olhar sobre o rio e os tabuleiros, ali onde seus olhos ficaram pregados na paisagem íntima.

Numa ira santa e tão desafiado na sua coragem dura e antiga como as pedras do seu chão, ninguém duvide mesmo se numa madrugada dessas Fabrício Pedroza, feito um Dom Quixote no seu delírio sonhador, descer do alto do Paço dos Guarapes arrastando seus alabardeiros com as suas alabardas em riste como a guarda suíça do Vaticano. Quanto desse rio e desse mar não foram tesouros seus no comércio das riquezas e das palavras perdidas? Enfrentá-lo, quem há de?

Velho de mais de um século e meio, o casarão de Fabrício é um símbolo pela voragem dos anos, nem o tempo pode apagar sua história. A agitação dos seus dias na exposição de sal, peles, algodão, açúcar e especiarias, conta a história viva de um tempo de fulgor, aqui e d’além mar. Quem sepultará o sonho de Fabrício Pedroza, morto em 1871, se suas mãos e seus feitos não repousam em paz nas paredes históricas da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição?

A ninguém o rigor histórico perdoará pela rendição. Não é só um casarão decaído, suspirando entre ruínas. Mas seus anos de fama, riqueza e poder. Por isso, talvez pela mania de acreditar no milagre da transcendência, tive medo quando Valério Mesquita disse que corre na feira de Macaíba a notícia de que o pequeno e heróico exército de Fabrício Pedroza, sem glória e sem sossego, nesses dias desce do alto dos Guarapes. Numa revolta feita de mágoa e solidão.

(*) Jornalista e Escritor

 

PS.: Sugestão às autoridades municipais e estaduais: que coloquem emendas parlamentares no orçamento da União e Estado, também  os senhores deputados e senadores, para restaurar os Guarapes. 

quinta-feira, 22 de junho de 2023

 Cartas avulsas de Natal

O inverno chegou

Carlos Roberto de Miranda Gomes


    Vencemos o outono com chuvas e trovoadas, até mais da conta para a estação da colheita, da transição entre o verão e o inverno. Ao invés da esperada queda das folhas e dos frutos, tivemos a queda de muita água.

    Sem entender bem os fenômenos da natureza, avalio os bons e necessários momentos de recomposição das reservas hídricas, mas estranho o excesso de chuvas com feição de enchentes, deslizamentos de barreiras e até de um ciclone devastador no Rio Grande do Sul, fenômenos não comum nas plagas gaúchas.

    No plano internacional herdamos dois episódios constrangedores – o desaparecimento de um submergível em viagem de lazer precipitado para ver a carcaça do Titanic, por si só uma história trágica e que até o momento sem se saber o paradeiro, deixando-nos numa expectativa constrangedora e impondo a invocação do Criador para indicar um caminho de volta; o outro é a continuidade da destruição deixada pelas batalhas na guerra Rússia x Ucrânia, com o desafio de encontrar um caminho capaz de estancar o derramamento de sangue de inocentes e destruição de equipamentos urbanos que foram construídos com tanto sacrifício.

    Até quando o homem continuará a ser o lobo do homem nessa luta inconsequente pelo poder?

    A diplomacia mundial parece não ter evoluído após os dois conflitos mundiais, senão alimentando os protagonistas com promessas ideológicas e artefatos de guerra, sem atentar para as milhares de vidas sacrificadas, distanciando-se, cada vez mais, do ansiado armistício.

    É lamentável, em pleno Século XXI, o poder e o interesse econômico sejam motivos de um conflito bélico, sem se atentar para as milhares de vítimas, numa repetição nefasta dos anos 1914-1918 e 1939-1945.

    Deus, não os perdoe – eles sabem o que estão fazendo!



 



OBITUÁRIO DE OMISSÕES

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

É no que Macaíba está se transformando. Sinto-me como prisioneiro de mãos atadas, apenas conduzindo lembranças. A linguagem que eu falo é somente de epílogos. Estive lá semana passada e não vi mais as esquinas, as ruas estreitas do centro repletas de segredos, sentimentos, vultos amigos, antigos, furtivos, que as curvas do tempo encobriram. Ninguém vê mais a lâmina d’água do rio Jundiaí no qual navegou Severo, Auta, Alberto e os Castriciano na lancha de mestre Antônio quando residiam em Macaíba. Uma espessa floresta cobre o leito – e de luto morrem as recordações dos antepassados. A ponte antiga nunca mais viu uma embarcação, cansada de ser todo dia atropelada. Ali, no antigo cais do porto, nunca mais surgiu enorme, carregada de mistérios, a lua cheia que nascia e planava em cima do Solar do Ferreiro Torto.

A cidade de Macaíba hoje é uma fotografia ampliada dez vezes, cuja memória social, política, cultural, virou destroço. Um profundo baú de ossos. Somente a retina e o amor telúrico, sensitivo, de alguns macaibenses conseguem reconstruir, aqui e acolá, a passarela da sua história. Vista do alto, comprova-se que a chaminé das constantes migrações aumentou a população, os veículos, o barulho, a droga, o homicídio, acabou a paz pastoral dos verdadeiros habitantes. Macaíba se abre fácil para os que chegam de perto e da distância. Até motivo de pesquisa e estatística de uma televisão ela e Parnamirim foram notícias. O fato serve de alerta para que a juventude nativa não deixe que apaguem as luzes. As luzes e as vozes dos que construíram, no passado, o seu futuro e o seu espírito. Que não deixe que padeça nem desapareça o sentimento de macaibanidade. Evitem o obituário de esquecimentos!!

É preciso plantar esperanças onde seja possível colher. A geração nova de macaibenses deve exigir oportunidades de trabalho, educação, saúde e segurança, sem olvidar o patrimônio cultural de sua terra que já integra a história do Rio Grande do Norte. Que os migrantes e neomacaibenses no exercício constante de ir e vir não recusem o gesto de amor à cidade. Que venham e que cheguem como quem ama uma flor recém-descoberta. Que não entendam Macaíba como prolongamento de Natal devorada pelo capitalismo econômico. Imponham os limites: dunas brancas, o rio, mesmo sem a lâmina límpida de suas águas, a própria história de Macaíba, única e indivisível. A geografia dos limites entre as cidades não pode ser indecisa. Cada uma tem a sua dor e a sua canção.

O esquecimento deliberado do poder público estadual em restaurar o Empório dos Guarapes é o maior crime perpetrado contra a história do comércio do Rio Grande do Norte. Nas décadas de 1860 a 1880, em termos de comércio de importação e exportação, Macaíba foi o maior do Estado. Essa época de apogeu está sendo apagada da história porque o projeto de restauração dorme em algum birô do Centro Administrativo. A área foi desapropriada pelo governo, paga, tombada por decreto oficial, o projeto técnico concluído, prometida a execução, mas o recurso permanece no obituário da omissão. Na matriz de Nossa Senhora da Conceição, foi celebrada missa de 30 anos de esquecimento. Fabrício Gomes Pedroza estava presente. Se Lampião tivesse subido o monte dos Guarapes, numa chuva de balas, talvez o Guarapes já tivesse sido restaurado.

“Vem, vem nos ajudar”, grito dentro de mim esperando. Senador, governador, deputado, prefeito, vereador, o escambau... Saibam que os moradores dos Guarapes, com a restauração, às suas residências terão valor imobiliário triplicado. O museu histórico do comércio do Rio Grande do Norte atrairá oportunidades diretas e indiretas de emprego. O calçamento já está chegando beneficiando o acesso. Por Lei Municipal Mangabeira e os Guarapes hoje, constituem uma área urbana ou um bairro de Macaíba. E para essa região promissora que a cidade vem crescendo, pois não existe outro com mais razão telúrica e força histórica, a começar com o Ferreiro Torto sempre margeando o rio Jundiaí!!

quarta-feira, 21 de junho de 2023

 



Oitenta anos de Monsenhor Lucas

Padre João Medeiros Filho

No dia 23 de junho, celebra-se o natalício de Padre João Maria Cavalcanti de Brito e Monsenhor Lucas Batista Neto. Inegavelmente, este passará também para a história, como um dos grandes apóstolos do RN. Seguiu o exemplo de seu conterrâneo Padre João Maria, igualmente seridoense, nascido no município de Caicó (RN). Lucas também exerceu o ministério sacerdotal na Matriz da Apresentação, onde o “Santo de Natal” revelara a ternura divina.

Há coincidências na vida de nosso estimado monsenhor. Foi ordenado cem anos após a unção presbiteral dos padres Sebastião Constantino de Medeiros (caicoense) e Cícero Romão Batista (Padre Cícero do Juazeiro), ambos colegas de seminário de Padre João Maria, cuja ordenação fora adiada, pois ele não tinha ainda a idade canônica para o presbiterato. Tudo isto é motivo de agradecimento. Agradecer faz parte da nobreza da alma. A poetisa Violeta Parra proclamou sua gratidão ao Deus da Vida: “Graças à vida que me tem dado tanto.” A inefável bondade do Pai Celestial culminou de bênçãos e graças o pastor querido de muitos. Lucas é a expressão terrena do afeto e carinho de Deus por nós. Sacerdote de muitas virtudes e dinamismo, é também um místico. No âmago de seu ser dialoga com o Infinito de Deus. Apaixonado pela Sagrada Escritura, pediu a Dom Nivaldo Monte para ser ordenado no Domingo da Bíblia. Sempre tocado pela beleza do Saltério, balbucia no silêncio de seu coração preces de louvor e agradecimento. Como Exupéry, sabe que “no silêncio alguma coisa irradia.”

Exemplo de humildade, paciência e perseverança alimenta-se de sua fé: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará” (Sl 23/22, 1). Desafios e lutas acompanham a sua trajetória humana. Sensível e solidário, ainda jovem procurou ajudar os pais a educar uma família de onze irmãos. Para tanto, chegou a ser frentista de posto de gasolina e sorveteiro. “Combati o bom combate, guardei a minha fé” (2Tm 4, 7). Em todos os momentos de sua vida, Lucas conserva a alegria em sua face e a bondade no coração.

Muito lhe deve o Povo de Deus, especialmente o Arcebispado de Natal, onde desempenhou importantes funções como: pároco, vigário episcopal, professor, coordenador estadual do ensino religioso, membro dos conselhos presbiteral, episcopal e de consultores da arquidiocese, diretor de faculdade, criador de várias pastorais católicas. Trabalhou arduamente para preparar a vinda de São João Paulo II a Natal, quando do Congresso Eucarístico Nacional. Dentre muitas virtudes que possui, distingue-se pela simplicidade e lhaneza, disposição para servir, obediência e espírito de fraternidade.

Agradecemos-lhe por buscar romper em nós, seus amigos e irmãos na fé, o pretensioso parêntese da suficiência e nos convencer que só Deus nos basta. Somos gratos pelas belas lições inspiradas no Evangelho. Sempre foi profeta. Pregou firme, ao ver fraqueza. Ensinou ternura, ao sentir aspereza. Mostrou diálogo, quando pressentiu intransigência. Enfim, irradiou amor, quando presenciou frieza e indiferença em tantos. Foi peregrino e viandante no seu profícuo apostolado em Pendências, Macau, Natal (paróquias de Nossa Senhora da Apresentação, Santa Teresinha, Santo Afonso e na Casa da Criança). Demonstrou às pessoas de Igreja que ela não tem fronteiras. “Não se pode prender a Palavra de Deus” (2Tm 2, 9). Estamos unidos, pronunciando a palavra de gratidão de todos aqueles que gozam do privilégio de sua amizade. Digo apenas que o amamos muito. O amor não tem palavras suficientes para se expressar e o reconhecimento é maior que o discurso.

Que Deus o conserve são, lúcido, alegre, generoso e forte. Continue dizendo que é importante o balbuciar da prece. Esta carrega a marca de Deus, inscrição da nossa proveniência, fornalha que arde secretamente em nosso coração. O Espírito Santo o ilumine sempre, fortaleça a sua alma, console-o nas tribulações e aumente a sua fé na graça divina, que transforma o homem e o mundo. Sinta sempre a força do Alto e possa dizer como a Mística de Ávila: “Ó Pai, por tanto tempo o teu poder me abençoou. Conduziste-me pelas estradas do amor e da misericórdia.” Como Nossa Senhora exalte: “O Senhor fez em mim maravilhas, santo é o seu nome” (Lc 1, 49).

sábado, 17 de junho de 2023

 

Recordando a minha vida de rapaz (Paulo Lira)
(texto de PAULO LIRA, Transcrito do jornal “A República”, edição de 17 de setembro de 1974.)
Numa noite de insônia e cansaço (não cansaço por trabalho, porque esse negócio é relativamente pequeno para mim aqui no Rio [...]) eu passei a rememorar dias da minha juventude de rapaz em Natal. Recordei amigos ótimos, namoros, passeios e farras inúmeras. Que noites maravilhosas.
Companheiros de brincadeiras no centro Náutico Potengi, de passeios extravagantes de bicicletas, do circo de “seu” Stringhini, onde Noel Miranda fez um discurso oferecendo um ramalhete de rosas de mungubeiras, tinhorões e outras flores “raras” ao dono do circo e cujo discurso tinha por tema principal recitar um soneto que começava assim: “Sei que sou um sapo, sinto que crio rabo [...]” e “seu” Stringhini protestava “não apoiado!”.
Noutro circo que fomos na Rua do Cajueiro, entramos também no Picadeiro para desafiar o palhaço e criticar os acrobatas.
O final foi meio ruim: fomos cercados pelos artistas armados de pau e ia se dando uma confusão danada [...] felizmente saímos sãos e salvos.
Sobre passeio na Rua Tamarineira onde João Sizenando encontrou uma senhora debaixo da pitombeira e assombrou-se pensando que era uma alma [...]
De outra feita, saímos a bater nas portas alheias. Um sujeito na Rua da Conceição saiu de revólver em punho para amedrontar a turma. Corremos em louca disparada. Numa construção na mesma rua, Alberto Nesi ficou com o paletó encalhado nos andaimes e gritou “me solta! não fui eu!”.
Daquele grupo fazia parte (denuncio agora): João Sizenando Filho, Ângelo Pessoa, Alberto Nesi, Olavo Gluck, Eider Gomes Ribeiro, Carlos Bahia, João Bahia, Arthur Veiga, Luiz Lira, Arnaldo Lira e eu. Talvez uns dois mais cujos nomes não recordo. Essa era a turma que todas as noites tinha um extravagante programa de canalhismo a realizar. Hoje seria a juventude transviada [...]
Todos nós trajávamos impecavelmente calça de flanela bege ou branca, paletó de casimira azul, camisa de palha seda, sapato branco ou de duas cores, muitas vezes encomendado sob medida no Recife. O João Sizenando Filho caprichava nesse particular. Éramos os amigos mais unidos de todos os tempos.
Ah! Os bailes e festas na casa de Jerônimo Moura! Os bailes de seu Ananias, onde ele obrigava as suas filhas a dançar com a gente. Os furtos de cordões da bandeira da Maçonaria “21 de Março”, para nas noites de escuro (sempre faltava luz em Natal), amarrarmos na altura de uns 30 centímetros ligando um muro à parede da venda de Zé da Luz, a fim de que o vendedor de coalhada tropeçasse ao passar com o tabuleiro cheio de copos.
E os jogos de futebol às 4 horas da manhã pelas ruas de Natal, a caminho do Centro Náutico, todos nós em disparada louca atrás da bola [...]
As missas aos domingos na igreja do Bom Jesus com legião de namoradas acompanhando de longe as meninas da Escola Doméstica. O cinema de seu Leal (Royal) com as cadeiras mais duras do mundo onde eu era pianista. Ali o canalhismo era o maior do mundo, sendo comandado por Zé Herôncio, jogando bombas “tranavalianas” na tela!
Assim foi a minha vida de rapaz, tocando piano e me divertindo em inocentes farras!
Mas, tudo passou, hoje todos estão casados, com filhos e netos (eu só tenho nove até aqui) o resto anda por aí ainda vivo, relembrando como eu, nas noites de insônia e as delícias da nossa vida maravilhosa de rapaz.
Todas as reações:
Berg Costa, Geovanira Galvão de Lima e outras 174 pessoas

 Santo Antônio, de Lisboa e de Pádua

Padre João Medeiros Filho 

Celebra-se sua festa litúrgica em 13 de junho. Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo era seu nome civil. Nasceu aos 15/08/1195, em Lisboa. Faleceu com apenas 35 anos, aos 13 de junho de 1231 em Pádua (Itália), onde vivera alguns anos. Por essa razão, passou a ser chamado de Santo Antônio de Pádua, não obstante sua origem lusitana. Inicialmente, ingressou na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, tendo sido ordenado sacerdote no Mosteiro da Santa Cruz, de Coimbra, em 1220. Posteriormente, após uma tentativa frustrada de fixar-se no Marrocos – onde pretendia ser missionário entre os muçulmanos – partiu para a Itália. Durante a viagem, foi acometido de grave doença. O navio em que embarcara acabou desviado por uma tempestade para a Ilha da Sicília. Ali chegando, resolveu ir até Assis para conhecer São Francisco. Este o impressionou e marcou tanto sua vida, que resolveu deixar os agostinianos e ingressar na ordem franciscana. Sua lucidez e equilíbrio eram relevantes. Em carta, São Francisco o chama: “Meu bispo”. Grande pregador e conselheiro, Antônio orientou nobres e ricos de seu tempo. Intermediou vários casamentos entre membros da aristocracia europeia. Conta-se que ajudou muitas noivas a comprar o enxoval e pagar o dote esponsal. Daí, nascem a fama de promotor de matrimônios e o epíteto de “casamenteiro”, surgindo também a devoção das moças casadoiras. Combateu os erros doutrinários de sua época com tanta convicção e sabedoria que São Francisco o designou superior provincial dos franciscanos. Sediado no Convento de Arcella (Pádua), viajou pela Europa com tanta rapidez e frequência, a ponto de a tradição atribuir-lhe o dom de ubiquação, pelo qual podia estar em vários lugares ao mesmo tempo. Dotado de grande eloquência, inteligência privilegiada e exímio conhecimento teológico, reiterou que a virtude maior do cristianismo é a caridade. O convento onde morava era rodeado por pobres e famintos, que lhe suplicavam o pão material e o alimento espiritual. A tradição conserva até hoje o símbolo de sua atenção e amor pelos pobres: o pão de Santo Antônio, distribuído à porta dos conventos franciscanos às terças-feiras (dia da semana em que ocorreu o seu sepultamento). Compreendeu desde cedo a lição de Cristo: “O que fizerdes ao menor dos meus irmãos, é a Mim que o fazeis” (Mt 25, 40). Para pregar unicamente a Palavra de Deus, renunciou à cátedra da Universidade de Bolonha. Sabia da existência dos mais sedentos da Água que nos sacia e famintos do Pão da Vida. O ministério da pregação foi a prioridade de seu apostolado. Na verdade, transmitia “palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Na sociedade contemporânea, inundada de falas e informações pelas redes sociais e mídia, sua mensagem convida-nos a buscar os ensinamentos que nos salvam. Num mundo contaminado por falsos valores, que nos deixam perdidos e atônitos, ele nos leva a encontrar Deus, “tesouro que a traça não corrompe” (Mt 6, 19). Fez muitos descobrir Jesus Cristo. Impressionou tanto os cristãos e as autoridades eclesiásticas pela sua santidade e sabedoria que o Papa Gregório IX o elevou às honras dos altares, canonizando-o em apenas onze meses após a sua morte, declarando-o Doutor da Igreja. Dada à influência portuguesa e à catequese dos franciscanos, primeiros missionários a aportarem no Brasil, bem como à devoção por parte do povo mais simples, Santo Antônio foi integrado aos festejos juninos, ao lado de São João e São Pedro. Muitos conhecem o folguedo: “Matrimônio, matrimônio, isso é lá com Santo Antônio.” Sua influência contribuiu, à época, no registro batismal de muitos portugueses. Havia incidência significativa do prenome Fernando, oriundo das dinastias espanhola e lusitana. O ilustre frade mudou essa rotina. Muitos passaram adotar o nome do santo como prenome ou acrescentá-lo ao já existente. Exemplo relevante é o do poeta Fernando Pessoa. Essa tradição foi trazida para o Brasil. Podem ser encontrados vários registros de Fernando Antônio nos livros paroquiais de batismo e nos cartórios. Rezamos em nossas igrejas: “Bendito seja Deus nos seus anjos e nos seus santos.”

sexta-feira, 9 de junho de 2023

 RELEMBRANDO LAURO DA ESCÓSSIA

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Em 1981, o plano editorial da Fundação José Augusto, a qual presidia, contemplava a publicação do livro “Memórias de um Jornalista de Província”, do mossoroense Lauro da Escóssia, profissional da imprensa e então diretor do Museu Municipal de Mossoró. A obra foi composta e impressa na Gráfica Manibu da Fundação José Augusto e lançada em Natal, na livraria Universitária sob a bandeira desfraldada de Walter Pereira com a presença do mundo cultural de Natal e de Mossoró. Raimundo Augusto da Escóssia, seu filho, meu colega do Tribunal de Contas, trouxe-me a foto do evento para a minha curiosidade e alegria no ensejo da data do centenário do seu pai. Prometi-lhe que faria o registro público para resgate do relato autobiográfico daquele que foi não somente um marco na imprensa mossoroense mas que deixou o legado primoroso de discípulos como Dorian Jorge Freire e Jaime Hipólito Dantas que enobrecem a intelectualidade da terra de Vingt-Un Rosado.

O livro tomou o número CLVI da Coleção Mossoroense e a capa confeccionada pelo competente artista plástico Vicente Vitoriano. O prefácio de Dorian Jorge Freire foi inexcedível no estilo e na forma emocional que só ele sabia fazer, dizer e sentir quando o assunto era Mossoró e seus ídolos. A orelha foi de Raimundo Soares de Brito, monstro sagrado do tabernáculo da cultura daquele “país”. Senti-me, partícipe desse banquete de reminiscências do mestre Lauro da Escóssia porque decidi, à época, imprimir as estórias vindas de sua infância à maturidade, entre 1905 até aqueles dias do ano da graça 1981. A narrativa do autor se confunde com a própria história de Mossoró na diversidade dos temas focalizados.

Relembro-o quando o conheci pessoalmente, do alto dos seus 76 anos, aqui em Natal, na manhã luminosa dos autógrafos. O corpo, pouco curvado, pareceu-me advinda da forma da postura repetida, à máquina de escrever. Os olhos expressivos procuravam detalhes nas coisas que enxergavam como todo bom escriba provinciano. A cabeleira leonina revelava as lutas vencidas e outras adiadas porque ninguém vence todas. Exalava por todos os poros o jeito de ser, o jeito inconfundível do ser mossoroense. Ninguém melhor do que Dorian traçou o seu perfil, como amigo, colega, compadre e aluno no seu memorável prefácio. Superar o brilhante colega e imortal quem há de? A impressão que Lauro me deixou é só minha, exceptuando-se a alegria singular de haver contribuído para a impressão do seu primeiro livro.

Nasceu, como bem afirma, na madrugada friorenta de uma quinta-feira 14 de março de 1905, no número 16 da rua Almeida Castro, centro de Mossoró. A sua marca registrada, em meio a tantos fatos notáveis ligados a sua vida, está fincada na trincheira jornalística de “O Mossoroense”, verdadeira universidade onde se formou e educou gerações na arte e na lide de informar, servir e defender sua urbe, como diria o velho e saudoso alcaide Dix-Huit Rosado. 

Nas comemorações dos 100 anos, “Memória de um Jornalista de Província” mereceu a 2ª edição de parceria com outras pertinentes homenagens ao velho repórter. Ao redigir a ata dos meus sentimentos pela primeira edição, eu o faço com o orgulho de haver também modestamente contribuído para que se revelasse a força evocativa de um baluarte do bravo povo de Mossoró.

Como jornalista, Lauro tinha rara luz singular que provinha de dentro de si mesmo, sem reflexo político de ninguém. Cresceu e se firmou entre as raízes de sua terra, com a tez queimada no cristal do sol de Mossoró. Na lide jornalística, Lauro honrou e dignificou o jornalismo de sua terra.

 

 

(*) Escritor