quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

 


    

Minhas Cartas de Cotovelo – verão de 2021-4

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

Uma das coisas mais proveitosas dos veraneios é usar bem o tempo, longe das preocupações e obrigações do cotidiano. Livre do barulho da cidade grande e aproveitando os momentos de silêncio para leituras espiritualistas, de filosofia, de história e literatura tradicional.

Também fazemos a leitura atenciosa das mensagens e comentários dos amigos e dos grupos de intelectuais que mostram as suas sapiências sem nenhum constrangimento e espalham os seus egos sem nenhuma simplicidade.

Programas de televisão com debates profundos sobre religiosidade, ateísmo, misticismo e transcendentalidade do homem, a maioria trocando os ensinamentos dos livros sagrados pelos acontecimentos do cosmo e coisas da natureza, não aceitando qualquer possibilidade da existência do espírito. Nessa discussão estava Fernanda Montenegro, respeitável atriz brasileira, com uma posição estranha.

Confesso que fiquei chocado com tudo isso, porque não posso admitir a negação da mão divina na criação da terra, da existência dos profetas, como Jesus – seu sofrimento e sacrifício em favor da humanidade. Não consigo separar as práticas da caridade, simplicidade, bondade, como virtudes que elevam a criatura às alturas da eternidade. Não dispenso a existência da fé como força para a existência.

Se me fosse concedida a condição de homem erudito, trocaria todos os conhecimentos da filosofia por um fio de esperança da força de Deus.

Vamos redescobrir as coisas boas da vida, como falar com as pessoas modestas da feirinha do Pium, ajudar alguém que está precisando, colaborando com as ações desenvolvidas para a melhoria da qualidade de vida. É por aí.

A propósito, contrariando aqueles que se distanciam da religiosidade, hoje é o Dia dos Santos Reis, que testemunharam a chegada do nosso Salvador. Coincidentemente foi o dia escolhido do meu noivado com Therezinha, em 1962 e foi o dia do casamento do meu filho Carlos Rosso com Valéria.

Parabéns à vida, ao amor, à saudade, à amizade e a tudo aquilo que o Criador nos oferece nesta existência. OBRIGADO SENHOR POR TUDO O QUE ME DESTES E TIRASTES NO MOMENTO QUE ENTENDESTES DEVIDO.

 

 

 

A estupidez da polarização política

Tomislav R. Femenick – Historiador e jornalista

 

Há pensadores que, pela relevância de suas ideias, tornam-se universais e atemporais. Suas formulações abstratas da representação do concreto extravasam lugares e épocas. Esse seria o caso do filósofo alemão Immanuel Kant. Seu livro mais conhecido – muito citado e pouco lido e entendido –  é “Crítica da Razão Pura” (São Paulo: Publicações Brasil, 1958). Muito referenciados nos meios acadêmicos, o autor e o livro, no entanto, têm quase tantas interpretações quanto são as citações. O limite da diversidade numérica está na repetição dos entendimentos que encontramos nos trabalhos de conclusão de bacharelado, nas dissertações de mestrados e nas teses de doutorado. No mais é “passeio na maionese”, como se dizia no meu tempo de estudante. Não que não haja trabalhos sérios. Mas somente servem para confirmar a regra: Kant é um incompreendido. 

Confesso que não sou um “insider”, um especialista no assunto. Quem me chamou a atenção para o fato foi o doutor Geraldo Müller, meu professor de Metodologia Científica, no curso de Mestrado da PUC-SP. Segundo ele, por aqui, basta alguém produzir alguns “papers”, publicá-los em qualquer lugar e, pronto, é um entendido no tema. E isso seria recorrente em relação a Immanuel Kant. Um amigo nosso chegou a elencar oito interpretações conflitantes entre si, sobre o seu pensamento.      

Foi a atual situação do nosso país que me levou ao assunto. A polarização política, a estupidez com que são tratados os que discordam das posições de cada grupo, o desprezo pela opinião dos outros e a pobreza dos argumentos em defesa das próprias opiniões, tudo isso indica um estado crítico de embrutecimento mental.

A oposição petista diz que Lula, José Dirceu, José Genoíno e todos os outros são inocentes de tudo, mas não apresenta elementos que embasem sua argumentação de inocência. Os “bolsonaristas inveterados” dizem que o Flávio Bolsonaro é inocente, como o são Queiroz, os irmãos daquele e toda a família, mas não apresentam fatos concretos que confirmem a inocência de suas excelências. 

  Voltemos a Kant. Sinteticamente, podemos dizer que a base do pensamento do filósofo alemão está na dualidade que ele chamou de “juízos sintéticos” e “juízos analíticos”. No primeiro caso, no juízo sintético, devem-se juntar informações diferentes para se chegar a um novo patamar de conhecimento. Construamos um exemplo: se um político, ou qualquer cidadão que seja, não dispõe de fonte de renda que lhe permita possuir um grande patrimônio, mas o tem, deve-se concluir que houve algo de desonesto. No segundo caso, no juízo analítico, é mister que se divida um fato, uma informação, em tantas partes quando ele tenha, visando a entende-las separadamente, para comprovar o todo. Vamos novamente tomar um exemplo: se alguém diz que seu patrimônio é formado por heranças e ganhos pessoais, deve-se confirmar a origem e mensurar em valores o montante das heranças e dos ganhos.

A argamassa que solidifica essas duas proposições teóricas é a não aceitação de conceitos estabelecidos “a priori”. Assim, não é por ser político ou parente de político, milionário ou parente de milionário, celebridade ou parente de celebridade, que sua inocência ou culpa deva ser aceita como coisa certa e estabelecida (os exemplos dados o foram por se mostrarem mais fáceis de serem entendidos). Cabe um alerta: não estou falando de procedimentos jurídicos, portanto não cabe aqui o princípio de “in dubio pro reo”.

  Agora voltemos à realidade brasileira. Enquanto a política for conduzida por grupos radicais e acéfalos, enquanto as discussões tiverem por motivo apenas a imposição das ideias dos contendores, estaremos mais para gladiadores romanos que para filósofos gregos. Quando se discute, deve-se buscar a verdade, pois “nem sempre a minha ideia é a mais correta”.  

Mesmo quando se discute futebol, não se deve ser radical. Isso não leva a nenhuma verdade. A única exceção aceita é quando o Flamengo está envolvido. Se ganha, é porque sempre foi o melhor; se empata, é somente o resultado de um erro tático de jogo; se perde, a culpa é do juiz.

 

Tribuna do Norte. Natal, 06 jan. 2021.