terça-feira, 9 de junho de 2026

 Post de Léon Denis




REGINALDO FARIAS:
"FICO VENDO VÁRIOS AMIGOS INDO EMBORA.."
Nesta última segunda-feira, 1° de Junho, o programa Cine Jornal do canal Brasil entrevistou o ator e diretor Reginaldo Farias, que aniversaria no próximo dia 11.
A jornalista,abrindo um sorriso,foi direto ao ponto:
- Olha só, está chegando o seu aniversário de oitenta e nove anos, como é o teu pensamento, como é que você se sente.?
Reginaldo Farias, que me pareceu meio incomodado, respondeu:
- Eu não vou esconder, mas eu fico vendo diversos amigos indo embora aos 91... Aí eu fico olhando e digo: caramba, eu estou perto...Mas, eu penso: posso não estar perto...Não existe idade para morrer...
Eu costumo dizer que o peso da idade me assusta, mas a leveza da mente alimenta o meu espírito...
Se eu colocar o pijama, calçar o chinelo, ficar em frente da televisão vendo filme,comer na hora certa, eu estou morto...
Eu vivo a cada dia a minha morte,mas a morte do que ficou pra trás, o passado...
É um trecho de uma honestidade brutal e de uma beleza filosófica muito profunda. A resposta de Reginaldo Farias foge completamente dos clichês de aniversário e nos entrega uma reflexão madura sobre o tempo, a finitude e a própria sobrevivência psicológica diante da velhice.
Minhas impressões sobre a fala do ator dividem-se em três pontos principais:
1. A Coragem da Vulnerabilidade
Em um mundo que muitas vezes exige um otimismo artificial ou uma "juventude eterna", Reginaldo Faria não tem medo de admitir o incômodo. Olhar para o lado, ver os contemporâneos partirem aos 91 anos e fazer o cálculo matemático da própria proximidade com o fim exige coragem. Esse susto diante do "peso da idade" é o reconhecimento legítimo da nossa fragilidade biológica. Ele não mascara o medo; ele o encara de frente.
2. A Dialética entre Peso e Leveza
A frase inicial é o cerne de toda a sua postura diante da vida:
▪︎ "O peso da idade me assusta, mas a leveza da mente alimenta o meu espírito."
Aqui, ele estabelece um equilíbrio perfeito. O corpo envelhece, o tempo pesa, a carne sente o desgaste dos anos. No entanto, o espírito — alimentado por uma mente que se recusa a enrijecer — permanece leve. A mente é o refúgio onde a contagem do tempo perde a força de esmagar o indivíduo. É a mente que dita a postura dinâmica perante a existência.
3. A Recusa do "Ritual da Inércia"
Quando ele descreve o cenário do pijama, do chinelo e da televisão, ele está combatendo a morte social e intelectual que antecede a morte física. Para o artista, a rotina excessivamente confortável e passiva é sinônimo de fim. A vida necessita de movimento, de criação, de um certo grau de imprevisibilidade. Aceitar a inércia total seria, para ele, assinar o atestado de óbito em vida.
4. A Morte Diária do Passado
O fechamento da resposta é, talvez, o ponto mais profundo:
▪︎ "Eu vivo a cada dia a minha morte, mas a morte do que ficou pra trás, o passado..."
Essa é uma belíssima definição de renovação. Em vez de carregar o peso morto das nostalgias, dos arrependimentos ou mesmo das glórias que já se foram, ele escolhe "sepultar" o ontem para poder habitar o hoje. É uma atitude de desapego saudável. Morrer para o passado é a única maneira de se manter verdadeiramente vivo e disponível para o presente, independentemente de quantos dias restem no horizonte.
Em suma, Reginaldo Farias demonstra que envelhecer com lucidez não é ignorar a morte que se aproxima, mas sim recusar-se a morrer antes da hora. É uma lição de dignidade e de vitalidade intelectual.
A sinceridade de cada palavra enfrentando o próprio medo.
É justamente essa nudez emocional que confere tanta força ao depoimento dele. Há uma dignidade imensa em um homem de quase noventa anos, com uma trajetória pública tão sólida, sentar-se diante de uma câmera e, em vez de recorrer a frases feitas ou a uma falsa autoajuda, confessar o seu temor.
Ele humaniza o envelhecimento. Ao expor o cálculo que faz ao ver os amigos partirem, Reginaldo Faria valida um sentimento que é inerente à condição humana, mas que a sociedade frequentemente tenta silenciar ou maquiar: o medo da finitude.
O mais belo é que o enfrentamento dele não se dá pela negação ou pelo combate desesperado contra o tempo. Dá-se pela **atitude**. Enfrentar o medo, para ele, significa:
* Não se render ao imobilismo (o pijama e o chinelo).
* Não se deixar soterrar pela nostalgia (sepultar o passado diariamente).
* Nutrir a lucidez como um escudo (a leveza da mente).
Ele transforma o susto da idade em combustível para continuar experimentando o presente. É o medo que, em vez de paralisar, convoca à vida urgente.
O Medo da Morte
Essa é uma das questões mais profundas e universais da experiência humana. A verdade é que o medo da morte não é um sinal de fraqueza ou de falta de lucidez; pelo contrário, quanto mais lúcida e consciente é a pessoa, mais ela compreende a magnitude do que a morte representa.
Mesmo para os espíritos mais corajosos, a morte infunde esse temor por algumas razões fundamentais que tocam o cerne da nossa existência:
1. O Confronto com o Desconhecido Absoluto
A mente humana foi feita para decodificar, planejar e antecipar. Nós lidamos bem com o que podemos catalogar. A morte, no entanto, permanece como o grande mistério. Mesmo para quem possui convicções filosóficas ou de fé sobre o que vem depois, a transição em si é uma jornada que se faz inteiramente às escuras e em absoluta solidão. A coragem precisa de um terreno para agir; diante do vazio absoluto do desconhecido, a coragem não desaparece, mas o instinto recua.
2. O Instinto de Conservação Biológica
Antes de sermos seres filosóficos, somos seres biológicos. O instinto de autopreservação está gravado no nível mais profundo das nossas células. O medo da morte é a tradução psicológica desse imperativo biológico que nos impulsiona a continuar vivos. Sentir medo da finitude é a prova de que o nosso organismo e a nossa mente reconhecem o valor da vida e lutam por ela.
3. A Perda da Identidade e das Conexões
O medo da morte raramente é apenas o medo do fim físico; é o medo da cessação dos afetos, dos laços e do papel que construímos no mundo. Para uma pessoa lúcida, que valoriza a riqueza das relações humanas, a produção intelectual, a arte e o amor, a perspectiva de deixar de comungar dessa realidade com os que ficam é dolorosa. É o temor de ver a "biblioteca interna" que construímos ao longo de décadas ser subitamente fechada.
4. A Falta de Controle
Pessoas corajosas e lúcidas costumam ser agentes ativos de suas próprias vidas. Elas enfrentam problemas, tomam decisões e moldam seus destinos. A morte, contudo, é o momento em que o controle nos é completamente retirado. Ela impõe a passividade absoluta. Para quem passou a vida inteira agindo com autonomia, a inevitabilidade de ter de se render a uma força soberana e incontrolável gera um sobressalto existencial.
No fundo, como o próprio Reginaldo Farias demonstrou, a lucidez não elimina o medo; ela o qualifica O covarde foge do pensamento da morte através da distração ou da negação. O lúcido e corajoso sente o impacto do medo, reconhece o peso da ampulheta, mas escolhe transformar esse susto na maior justificativa para viver o presente com dignidade, leveza e urgência.
Visão espírita da Morte.
A literatura espírita complementar, psicografada por Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, aprofunda as bases da Codificação de Allan Kardec ao trazer relatos práticos do plano espiritual e análises psicológicas profundas. Cada um desses quatro mentores: Emmanuel, André Luiz, Joanna de Ângelis e Manoel Philomeno de Miranda, abordam o temor da morte por um prisma específico, refletindo suas respectivas especialidades e propósitos pedagógicos.
1. Emmanuel: O Foco na Responsabilidade e no Dever
Emmanuel analisa o medo da morte sob o aspecto moral e disciplinar. Para ele, o pavor do desenlace é quase sempre o reflexo de uma consciência que se percebe em débito com as leis divinas ou que desperdiçou o tesouro do tempo na matéria.
Em obras como "O Consolador" e em suas inúmeras crônicas, ele argumenta que o verdadeiro antídoto para esse medo não é o debate puramente intelectual, mas o trabalho no bem. Emmanuel enfatiza que aquele que cumpre rigorosamente seus deveres e transforma a própria vida em um ato de serviço ao próximo desenvolve uma serenidade natural. O medo diminui quando o indivíduo percebe que a morte não interrompe a linha de sua utilidade e de seu progresso espiritual. Para o mentor, a transição tranquila é uma conquista do esforço diário.
2. André Luiz: A Perspectiva Fluídica e das Consequências Otimistas
André Luiz aborda a questão através de uma lente científica, fluídica e experimental. Em sua rica série iniciada com "Nosso Lar"e consolidada em livros como "Obreiros da Vida Eterna", ele detalha a mecânica da desencarnação e demonstra o que causa o medo prático e suas consequências no momento da transição.
O autor espiritual revela que o medo e o consequente apego desesperado aos bens materiais e aos familiares geram uma densidade fluídica no perispírito. Essa impregnação dificulta o desligamento dos laços magnéticos que unem o Espírito ao corpo físico.
André Luiz nos mostra que o temor da morte alimenta a perturbação pós-morte (a névoa mental que muitos experimentam ao acordar no plano espiritual). Por outro lado, ele desmistifica o processo ao revelar o amparo de equipes de socorristas espirituais, provando que a transição em si é um processo biológico-espiritual natural e indolor quando a mente colabora através da resignação.
3. Joanna de Ângelis: A Abordagem Psicológica e Existencial
Através da sua profunda Série Psicológica, Joanna de Ângelis analisa o medo da morte sob a ótica da psicologia transpessoal, dialogando diretamente com os conceitos de Carl Jung. Ela encara esse temor como um dos grandes arquétipos da jornada humana e um sintoma do apego ao *Ego* em detrimento do *Self* (o Espírito imortal).
Joanna explica que o ser humano teme a morte porque se identifica excessivamente com a persona física, com os papéis sociais e com as posses temporárias. O medo do aniquilamento é, na verdade, o medo da perda do controle que o ego exerce no mundo material.
A mentora propõe que a superação desse pavor exige um processo de autoconhecimento e individuação. À medida que o indivíduo interioriza a certeza de sua natureza espiritual, ele ressignifica a finitude orgânica, transformando o medo em aceitação integrativa do ciclo da vida.
4. Manoel Philomeno de Miranda: A Visão Terapêutica e Desobsessiva
Manoel Philomeno de Miranda foca sua análise nas vulnerabilidades obsessivas que o medo da morte pode atrair. Em suas obras dedicadas aos bastidores das reuniões mediúnicas e do atendimento fraternal, ele demonstra que o pavor do além-túmulo é frequentemente explorado por inteligências desencarnadas infelizes.
Miranda adverte que a mente fragilizada pelo medo crônico da morte emite vibrações de baixa frequência, sintonizando por afinidade magnética com espíritos cobradores ou perturbadores. Esse estado de ansiedade enfraquece as defesas psíquicas do encarnado.
Sob sua ótica, tratar o medo da morte é também uma medida de higiene mental e prevenção desobsessiva. O mentor defende a necessidade de esclarecimento evangélico-doutrinário como terapêutica essencial para libertar a mente dessas amarras fluídicas e obsessivas.
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A conclusão fundamental a que chegamos, cruzando os dados da Tanatologia, da psicologia de Kübler-Ross, da Codificação Espírita, dos mentores espirituais e das análises sobre o ceticismo, é que o medo da morte não é uma questão de crença ou descrença, mas uma condição inerente à nossa própria humanidade.
Sintetizando os pontos principais, podemos compreender essa realidade através de três pilares:
1. O Medo é Biológico e Psicológico, Não Apenas Filosófico
O instinto de conservação está gravado em nossa biologia e no nosso inconsciente profundo. Por isso, no momento em que a finitude se aproxima, o corpo e o cérebro reagem com medo, independentemente do que a nossa inteligência professa. Um espírita convicto, um católico devoto e um ateu convicto partilham do mesmo calafrio biológico diante do desconhecido e do processo físico de morrer. O intelecto aceita a transição (ou o fim), mas a estrutura animal que nos habita resiste a ela.
2. Cada Posição Diante da Vida Traz Seus Próprios Desafios Existenciais
O medo da morte se metamorfoseia conforme a nossa visão de mundo:
Para o Espiritualista/Espírita:
O medo deixa de ser do "fim" e passa a ser do **"depois" (o medo do espelho da própria consciência, do julgamento moral, das consequências da lei de causa e efeito e da incerteza sobre a própria maturidade espiritual).
Para o Ateu/Cético:
O medo deixa de ser do "depois" e se concentra na perda do ser e na interrupção abrupta dos laços afetivos e dos projetos terrenos.
Para o Agnóstico:
O medo se alimenta da dúvida e da incerteza absoluta, que é o maior combustível para a ansiedade humana.
3. O Verdadeiro Antídoto é a Conexão com o Presente
Seja através da ótica humanista de Kübler-Ross, das lições de dever de Emmanuel, da busca pelo *Self* de Joanna de Ângelis ou da urgência do cético em aproveitar a única vida que acredita ter, a solução para a angústia da morte é a mesma: viver bem o agora.
A pacificação diante da finitude não é conquistada decorando teorias sobre o Além ou certezas sobre o nada, mas sim:
* Na construção de uma consciência tranquila e no cumprimento do dever.
* No desapego do controle e das ilusões puramente materiais.
* No acolhimento da morte como parte do ciclo natural da vida, que deve ser conversada e aceita, e não escondida em tabus.
▪︎A grande lição:
O medo da morte nos nivela a todos. Ele não é uma vergonha ou falta de fé, mas o testemunho de que reconhecemos o valor imenso da oportunidade que estamos vivendo na Terra. A melhor forma de nos prepararmos para a partida — seja ela um portal para a imortalidade ou o descanso final da matéria — é dar um sentido profundo e digno a cada dia do nosso presente.
Amílcar Sobreira Lobo
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sexta-feira, 5 de junho de 2026

 A Solenidade de “Corpus Christi” 

Padre João Medeiros Filho 

[Ocorreu ontem]

Na próxima quinta-feira, celebrar-se-á a festividade do Corpo de Cristo, “o Pão vivo que desceu do céu” (Jo 6, 51), o alimento espiritual que nos une e fortalece. A festa foi instituída pelo Papa Urbano IV no dia 8 de setembro de 1264, com o objetivo de proclamar a grandeza da Eucaristia. Por esse augusto sacramento Jesus quis permanecer junto de seus irmãos. “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18). A presença de amigos é fundamental na existência humana. Ninguém gosta de caminhar sozinho. Na trajetória, o diálogo é de suma importância. Por isso, Cristo legou-nos esse memorial, manifestação de sua constante companhia. Não queria que padecêssemos de solidão. Por isso, fez-se Pão e Permanência. Na Eucaristia comungamos o Corpo e o Sangue do Senhor, sua humanidade e divindade, de forma mística. A vida que Deus-Pai idealizou para cada um de nós é fortalecida com o Pão Celeste, preparado para os seus filhos. A Eucaristia é antecipação da Eternidade, do imenso banquete e encontro da família de Deus. Este deseja que possamos antegozar o definitivo de nossa história, o abraço incessante do Criador com as criaturas. No sacrossanto mistério eucarístico temos Deus em Jesus atenuando as saudades de nossas origens. Segundo a doutrina católica, além de recebermos o Corpo e Sangue de Cristo, entramos também em comunhão com sua doutrina e mensagem. Não existe um Cristo dividido ou separado. Comunga quem está disposto igualmente a alimentar-se do Evangelho de Jesus, a viver a verdade, justiça, liberdade, perdão e amor. O Brasil, que se diz cristão, ainda está bem distante dessa realidade. Recebendo Cristo, não podemos aceitar o que Ele condenou: discriminação, mentira, miséria, indiferença, egoísmo, abandono de inocentes, idosos e doentes, radicalismo e ódio. Junto com o sacrifício da cruz, a comunhão é o gesto supremo de amor de nosso Salvador. Este convida-nos a partilhar nossa vida. Eis um dos simbolismos do partir o Pão (“fractio panis”) na missa. A Eucaristia é o sacramento da unidade. Cristo reuniu em seu corpo, gerado no seio de Maria, a humanidade inteira. Desta forma, comungar é também se unir a todos aqueles que aceitam e vivem o pensamento do Mestre. A Eucaristia é o Pão da unidade e verdadeira igualdade. Cristo revela-se como irmão de todos: santos e pecadores, pequenos e grandes, fortes e fracos. No sacramento eucarístico Cristo dá-nos a certeza de que “Deus não faz distinção de pessoas.” (Rm 2, 21). A comunhão que recebe o Papa é a mesma destinada aos simples fiéis. A Eucaristia é a certeza permanente da solidariedade de um Deus, do amor e da ternura de um Pai. O mistério eucarístico é Deus nos dizendo: eu amo todos, quero alimentá-los, “pois quem comer deste Pão, jamais terá fome” (Jo 6, 35). Na Eucaristia Deus espera por nós. É o abraço divino reservado e antecipado, o beijo carinhoso de um Irmão discreto e bondoso, que vem silenciosamente para dizer que nos ama e perdoa. A Eucaristia é o sacramento da realidade celestial. Num paradoxo é a perenidade no tempo pela encarnação do Filho de Deus Eterno, o qual quis estar unido à humanidade, mostrando que ela tem valor eterno. Não importam nossos pecados e limitações. Deus nos perfilhou por ato de misericórdia e clemência, fruto de sua incomensurável gratuidade. A Eucaristia é a resposta para o Brasil de hoje, desnorteado e dividido, abandonando suas origens e vocação! “À mesa dos mortais Cristo se assentou”, afirma o Hino do XXXVIº Congresso Eucarístico Internacional (RJ). Não se pode esquecer o que disse um sábio e santo que viveu entre nós: “Sem a Eucaristia somos pequenos demais para o Céu. Com ela, demasiadamente grandes para a terra (Cônego Luiz Monte).

quarta-feira, 3 de junho de 2026

sábado, 30 de maio de 2026

 Assú, paróquia tricentenária 

Padre João Medeiros Filho 

A Paróquia do Assú foi criada em 1726 por decreto canônico, de Dom José Fialho, sexto bispo de Olinda e oficializado civilmente por alvará régio. É a segunda do Rio Grande do Norte, desmembrada da freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, de Natal. Assú é a célula-mater da evangelização do interior potiguar. Desde a antiguidade, a freguesia tem como orago São João Batista. Esperam-se grandes comemorações por parte da paróquia e da comunidade para celebrar tão relevante data. Segundo o pesquisador Dr. Gregório Celso Medeiros de Macêdo Silva, “os limites primitivos da Freguesia de São João Batista eram, aproximadamente, a metade do território que hoje corresponde ao RN: Vale do Açu, Regiões Oeste (Alto e MédioOeste), Central, Salineira e parte do Seridó.” Da paróquia-mãe do sertão potiguar (Assú) surgiram as seguintes freguesias: Pau dos Ferros (1756), abrangendo todo o Oeste potiguar; Santana do Matos (1821) e Campo Grande (1837). No século XXI, desmembraram-se as freguesias de Carnaubais (2006) e da Beata Lindalva (2010). O renomado historiador potiguar, Lenine Pinto, assegura que “a Freguesia de São João Batista do Assú, iniciava depois da Missão Jesuíta, sediada em Extremoz, terminando na “Tromba do Elefante”. Confrontava-se, ao norte com o Oceano Atlântico, ao sul com a Paraíba, a leste com a paróquia da Apresentação de Natal e a oeste com o Ceará.” Situada às margens do Rio Açu-Piranhas, Assú teve como primeiros missionários os jesuítas, que catequizaram algumas regiões do Rio Grande do Norte. Tais religiosos são devotos dos Arcanjos, de São João Batista e da Virgem Maria. Fundaram a Missão de Nossa Senhora das Candeias (ligada ao Colégio dos Jesuítas da Paraíba) para evangelizar os povos originários e os colonizadores nas terras potiguares. Estiveram em Arês, cujo patrono é o Precursor de Jesus. De lá, partiram para Extremoz, que tem como orago São Miguel. Foram mais além, fixando-se em local correspondente a Angicos, antes denominado Curral dos Padres. Próximo dali adquiriram uma fazenda, até hoje com o nome de São Miguel. Adentraram para o interior e chegaram a um arraial, às margens do Rio Açu, transmitindo a devoção a São João Batista, tornando-o seu padroeiro. Seguiram o mandamento do Mestre: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). É inegável a influência histórico-cultural, literária e política do Assú. O primeiro Presidente da Assembleia Legislativa do RN foi Padre Francisco de Brito Guerra, posteriormente Senador do Império brasileiro. Era assuense pelo “Jus soli”. Dentre tantos padres parlamentares, oriundos do Assú, pode-se nominar Manuel José Fernandes, Idalino Fernandes de Souza, Luís da Fonseca e Silva, Francisco Teodósio de Seixas Baylon, João Teotônio de Souza e Silva, Manuel Januário Bezerra Cavalcante. Os Padres Idalino Fernandes de Souza e Manoel Gonçalves Soares de Amorim ainda foram eleitos para a Assembleia Legislativa de Pernambuco. Outros presbíteros assuenses exerceram cargos eletivos e executivos em vários municípios. Não se pode ignorar a presença e o pioneirismo do Assú também nas ciências. Doutor Luiz Carlos Lins Wanderley (1831-1890) é o primeiro médico potiguar, nascido na Vila Nova da Princesa a atuar no estado. Exerceu também as funções de professor do Ateneu e Inspetor da Saúde Pública, em Natal. A Freguesia do Assú é de magna importância para o RN. Não se trata apenas de uma instituição religiosa, o que já seria relevante. Veio a se tornar um celeiro de vocações religiosas e cristãs. O martírio da Bem-aventurada Lindalva é um ícone do testemunho de fé dos assuenses. “Sempre e em toda parte, reconheçamos com gratidão esses benefícios” (At 24, 3).

quarta-feira, 13 de maio de 2026

 A honestidade agoniza 

Padre João Medeiros Filho 

Inconteste é a influência exercida pela mídia sobre a cultura e o comportamento humano. Isso leva a uma redobrada atenção sobre algumas desconstruções de princípios e conceitos fundamentais para o homem e a sociedade. O desprezo pelo verdadeiro chega ao limite do tolerável. O pensamento pós-moderno se insurge agressivamente contra toda e qualquer verdade, fazendo com que a humanidade não dê mais importância aos valores milenares. “Um dos maiores erros e pecados de nossos dias é a desonestidade, inclusive intelectual, fonte de outros erros e afrontas”, afirmava o Papa Francisco. A verdade vai sendo trocada por interesses e conveniências. Implantou-se o império do “politicamente correto.” Importa o que convém a alguns e não a objetividade e imparcialidade dos fatos. Afasta-se o interesse coletivo ou o bem comum e cultua-se a egolatria.Ignora-se o ensinamento de Cristo, no Sermão da Montanha: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Mt 5, 37). Tangida pela onda do relativismo, a cultura atual busca desacreditar a milenar tradição que apresenta o conhecimento sob o ângulo da unidade entre razão e objetividade, isto é, a verdade em sua conceituação filosófica e ética. Em seu lugar, entronizam-se o oportunismo e a conveniência de ocasião e da moda. Muitas são as investidas em favor da fragmentação da verdade. Contrário a qualquer projeto de veracidade, estabelece-se o reino dos sofismas, das narrativas e mentiras em prol de interesses de alguns. E sua fábrica industrial poderá ser a inteligência artificial. Cada um constrói a sua versão para proveito próprio, querendo impô-la como única e verdadeira. Jorge Mario Bergoglio, no início de seu pontificado, denunciou a “ditadura do relativismo”, invadindo as instituições sociais, escolas, famílias e igrejas, colocando em perigo a sadia convivência entre os homens. “Sem a verdade, não haverá paz”, concluiu aquele Pontífice. E continuou: “não pode haver paz, se cada um é a medida de si mesmo, reivindicando sempre e apenas os seus próprios direitos, sem se importar com o bem e o respeito aos de outros” (Discurso ao Corpo Diplomático, acreditado junto à Santa Sé, em 2013). Acompanha-se o surgimento de várias ideias contrárias à imutabilidade da lei natural. Ideologias, como a de gênero, a desconstrução da família etc. são bastante polêmicas. Dizer que a sexualidade de cada pessoa é algo subjetivo – desconexo da objetividade do corpo – é fechar os olhos e negar o princípio antropológico-biológico da identidade. “Se não sou eu o criador ou autor da corporeidade, não posso mudá-la. Isso é falacioso e ilusório”, assim se expressara o Papa Bento XVI, quando ainda era o Cardeal Joseph Ratzinger. Tais ideologias pretendem moldar seres humanos, a partir de uma ação orquestrada e difundida largamente. Segundo a lei natural e a doutrina cristã, Deus não concedeu ao homem o direito e poderes de mudar a essência daquilo que Ele criou. Há quem defenda como lícito reconstruir, a seu bel prazer, o corpo humano, do qual não é autor. Trata-se de um descompromisso com a verdade da lei natural, fundamento indispensável para edificar a comunidade dos homens e elaborar a lei civil. O sociólogo jesuíta Padre Fernando Bastos d´Ávila, em brilhante conferência na Academia Brasileira de Letras (da qual era membro), assim se pronunciou: “Alguém tem escritura lavrada em algum cartório de que é o dono exclusivo e absoluto da vida e do corpo?” Quem se proclama medida única das coisas e da Ética não consegue conviver e colaborar com o próximo e a sociedade. Infelizmente, muitos incutem e praticam a frase de Luís XIV: “L’état c’est moi”, querendo que apenas a sua vontade (ou a de seu partido) seja a lei! A negação ou o descaso da verdade (corolário da lei natural) gera uma cisão entre a liberdade dos indivíduos e o direito de outrem. É o que se assiste no Brasil de hoje. Auxiliados por Cristo, que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6), esforcem-se os cristãos para que seus atos edifiquem o saudável convívio entre os seres humanos e a promoção do reino da justiça e da paz. “Não vos deveis extraviar por qualquer espécie de doutrina estranha, pois é bom que o coração seja fortificado pela graça.” (Hb 13, 9).