terça-feira, 9 de junho de 2026

 Post de Léon Denis




REGINALDO FARIAS:
"FICO VENDO VÁRIOS AMIGOS INDO EMBORA.."
Nesta última segunda-feira, 1° de Junho, o programa Cine Jornal do canal Brasil entrevistou o ator e diretor Reginaldo Farias, que aniversaria no próximo dia 11.
A jornalista,abrindo um sorriso,foi direto ao ponto:
- Olha só, está chegando o seu aniversário de oitenta e nove anos, como é o teu pensamento, como é que você se sente.?
Reginaldo Farias, que me pareceu meio incomodado, respondeu:
- Eu não vou esconder, mas eu fico vendo diversos amigos indo embora aos 91... Aí eu fico olhando e digo: caramba, eu estou perto...Mas, eu penso: posso não estar perto...Não existe idade para morrer...
Eu costumo dizer que o peso da idade me assusta, mas a leveza da mente alimenta o meu espírito...
Se eu colocar o pijama, calçar o chinelo, ficar em frente da televisão vendo filme,comer na hora certa, eu estou morto...
Eu vivo a cada dia a minha morte,mas a morte do que ficou pra trás, o passado...
É um trecho de uma honestidade brutal e de uma beleza filosófica muito profunda. A resposta de Reginaldo Farias foge completamente dos clichês de aniversário e nos entrega uma reflexão madura sobre o tempo, a finitude e a própria sobrevivência psicológica diante da velhice.
Minhas impressões sobre a fala do ator dividem-se em três pontos principais:
1. A Coragem da Vulnerabilidade
Em um mundo que muitas vezes exige um otimismo artificial ou uma "juventude eterna", Reginaldo Faria não tem medo de admitir o incômodo. Olhar para o lado, ver os contemporâneos partirem aos 91 anos e fazer o cálculo matemático da própria proximidade com o fim exige coragem. Esse susto diante do "peso da idade" é o reconhecimento legítimo da nossa fragilidade biológica. Ele não mascara o medo; ele o encara de frente.
2. A Dialética entre Peso e Leveza
A frase inicial é o cerne de toda a sua postura diante da vida:
▪︎ "O peso da idade me assusta, mas a leveza da mente alimenta o meu espírito."
Aqui, ele estabelece um equilíbrio perfeito. O corpo envelhece, o tempo pesa, a carne sente o desgaste dos anos. No entanto, o espírito — alimentado por uma mente que se recusa a enrijecer — permanece leve. A mente é o refúgio onde a contagem do tempo perde a força de esmagar o indivíduo. É a mente que dita a postura dinâmica perante a existência.
3. A Recusa do "Ritual da Inércia"
Quando ele descreve o cenário do pijama, do chinelo e da televisão, ele está combatendo a morte social e intelectual que antecede a morte física. Para o artista, a rotina excessivamente confortável e passiva é sinônimo de fim. A vida necessita de movimento, de criação, de um certo grau de imprevisibilidade. Aceitar a inércia total seria, para ele, assinar o atestado de óbito em vida.
4. A Morte Diária do Passado
O fechamento da resposta é, talvez, o ponto mais profundo:
▪︎ "Eu vivo a cada dia a minha morte, mas a morte do que ficou pra trás, o passado..."
Essa é uma belíssima definição de renovação. Em vez de carregar o peso morto das nostalgias, dos arrependimentos ou mesmo das glórias que já se foram, ele escolhe "sepultar" o ontem para poder habitar o hoje. É uma atitude de desapego saudável. Morrer para o passado é a única maneira de se manter verdadeiramente vivo e disponível para o presente, independentemente de quantos dias restem no horizonte.
Em suma, Reginaldo Farias demonstra que envelhecer com lucidez não é ignorar a morte que se aproxima, mas sim recusar-se a morrer antes da hora. É uma lição de dignidade e de vitalidade intelectual.
A sinceridade de cada palavra enfrentando o próprio medo.
É justamente essa nudez emocional que confere tanta força ao depoimento dele. Há uma dignidade imensa em um homem de quase noventa anos, com uma trajetória pública tão sólida, sentar-se diante de uma câmera e, em vez de recorrer a frases feitas ou a uma falsa autoajuda, confessar o seu temor.
Ele humaniza o envelhecimento. Ao expor o cálculo que faz ao ver os amigos partirem, Reginaldo Faria valida um sentimento que é inerente à condição humana, mas que a sociedade frequentemente tenta silenciar ou maquiar: o medo da finitude.
O mais belo é que o enfrentamento dele não se dá pela negação ou pelo combate desesperado contra o tempo. Dá-se pela **atitude**. Enfrentar o medo, para ele, significa:
* Não se render ao imobilismo (o pijama e o chinelo).
* Não se deixar soterrar pela nostalgia (sepultar o passado diariamente).
* Nutrir a lucidez como um escudo (a leveza da mente).
Ele transforma o susto da idade em combustível para continuar experimentando o presente. É o medo que, em vez de paralisar, convoca à vida urgente.
O Medo da Morte
Essa é uma das questões mais profundas e universais da experiência humana. A verdade é que o medo da morte não é um sinal de fraqueza ou de falta de lucidez; pelo contrário, quanto mais lúcida e consciente é a pessoa, mais ela compreende a magnitude do que a morte representa.
Mesmo para os espíritos mais corajosos, a morte infunde esse temor por algumas razões fundamentais que tocam o cerne da nossa existência:
1. O Confronto com o Desconhecido Absoluto
A mente humana foi feita para decodificar, planejar e antecipar. Nós lidamos bem com o que podemos catalogar. A morte, no entanto, permanece como o grande mistério. Mesmo para quem possui convicções filosóficas ou de fé sobre o que vem depois, a transição em si é uma jornada que se faz inteiramente às escuras e em absoluta solidão. A coragem precisa de um terreno para agir; diante do vazio absoluto do desconhecido, a coragem não desaparece, mas o instinto recua.
2. O Instinto de Conservação Biológica
Antes de sermos seres filosóficos, somos seres biológicos. O instinto de autopreservação está gravado no nível mais profundo das nossas células. O medo da morte é a tradução psicológica desse imperativo biológico que nos impulsiona a continuar vivos. Sentir medo da finitude é a prova de que o nosso organismo e a nossa mente reconhecem o valor da vida e lutam por ela.
3. A Perda da Identidade e das Conexões
O medo da morte raramente é apenas o medo do fim físico; é o medo da cessação dos afetos, dos laços e do papel que construímos no mundo. Para uma pessoa lúcida, que valoriza a riqueza das relações humanas, a produção intelectual, a arte e o amor, a perspectiva de deixar de comungar dessa realidade com os que ficam é dolorosa. É o temor de ver a "biblioteca interna" que construímos ao longo de décadas ser subitamente fechada.
4. A Falta de Controle
Pessoas corajosas e lúcidas costumam ser agentes ativos de suas próprias vidas. Elas enfrentam problemas, tomam decisões e moldam seus destinos. A morte, contudo, é o momento em que o controle nos é completamente retirado. Ela impõe a passividade absoluta. Para quem passou a vida inteira agindo com autonomia, a inevitabilidade de ter de se render a uma força soberana e incontrolável gera um sobressalto existencial.
No fundo, como o próprio Reginaldo Farias demonstrou, a lucidez não elimina o medo; ela o qualifica O covarde foge do pensamento da morte através da distração ou da negação. O lúcido e corajoso sente o impacto do medo, reconhece o peso da ampulheta, mas escolhe transformar esse susto na maior justificativa para viver o presente com dignidade, leveza e urgência.
Visão espírita da Morte.
A literatura espírita complementar, psicografada por Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, aprofunda as bases da Codificação de Allan Kardec ao trazer relatos práticos do plano espiritual e análises psicológicas profundas. Cada um desses quatro mentores: Emmanuel, André Luiz, Joanna de Ângelis e Manoel Philomeno de Miranda, abordam o temor da morte por um prisma específico, refletindo suas respectivas especialidades e propósitos pedagógicos.
1. Emmanuel: O Foco na Responsabilidade e no Dever
Emmanuel analisa o medo da morte sob o aspecto moral e disciplinar. Para ele, o pavor do desenlace é quase sempre o reflexo de uma consciência que se percebe em débito com as leis divinas ou que desperdiçou o tesouro do tempo na matéria.
Em obras como "O Consolador" e em suas inúmeras crônicas, ele argumenta que o verdadeiro antídoto para esse medo não é o debate puramente intelectual, mas o trabalho no bem. Emmanuel enfatiza que aquele que cumpre rigorosamente seus deveres e transforma a própria vida em um ato de serviço ao próximo desenvolve uma serenidade natural. O medo diminui quando o indivíduo percebe que a morte não interrompe a linha de sua utilidade e de seu progresso espiritual. Para o mentor, a transição tranquila é uma conquista do esforço diário.
2. André Luiz: A Perspectiva Fluídica e das Consequências Otimistas
André Luiz aborda a questão através de uma lente científica, fluídica e experimental. Em sua rica série iniciada com "Nosso Lar"e consolidada em livros como "Obreiros da Vida Eterna", ele detalha a mecânica da desencarnação e demonstra o que causa o medo prático e suas consequências no momento da transição.
O autor espiritual revela que o medo e o consequente apego desesperado aos bens materiais e aos familiares geram uma densidade fluídica no perispírito. Essa impregnação dificulta o desligamento dos laços magnéticos que unem o Espírito ao corpo físico.
André Luiz nos mostra que o temor da morte alimenta a perturbação pós-morte (a névoa mental que muitos experimentam ao acordar no plano espiritual). Por outro lado, ele desmistifica o processo ao revelar o amparo de equipes de socorristas espirituais, provando que a transição em si é um processo biológico-espiritual natural e indolor quando a mente colabora através da resignação.
3. Joanna de Ângelis: A Abordagem Psicológica e Existencial
Através da sua profunda Série Psicológica, Joanna de Ângelis analisa o medo da morte sob a ótica da psicologia transpessoal, dialogando diretamente com os conceitos de Carl Jung. Ela encara esse temor como um dos grandes arquétipos da jornada humana e um sintoma do apego ao *Ego* em detrimento do *Self* (o Espírito imortal).
Joanna explica que o ser humano teme a morte porque se identifica excessivamente com a persona física, com os papéis sociais e com as posses temporárias. O medo do aniquilamento é, na verdade, o medo da perda do controle que o ego exerce no mundo material.
A mentora propõe que a superação desse pavor exige um processo de autoconhecimento e individuação. À medida que o indivíduo interioriza a certeza de sua natureza espiritual, ele ressignifica a finitude orgânica, transformando o medo em aceitação integrativa do ciclo da vida.
4. Manoel Philomeno de Miranda: A Visão Terapêutica e Desobsessiva
Manoel Philomeno de Miranda foca sua análise nas vulnerabilidades obsessivas que o medo da morte pode atrair. Em suas obras dedicadas aos bastidores das reuniões mediúnicas e do atendimento fraternal, ele demonstra que o pavor do além-túmulo é frequentemente explorado por inteligências desencarnadas infelizes.
Miranda adverte que a mente fragilizada pelo medo crônico da morte emite vibrações de baixa frequência, sintonizando por afinidade magnética com espíritos cobradores ou perturbadores. Esse estado de ansiedade enfraquece as defesas psíquicas do encarnado.
Sob sua ótica, tratar o medo da morte é também uma medida de higiene mental e prevenção desobsessiva. O mentor defende a necessidade de esclarecimento evangélico-doutrinário como terapêutica essencial para libertar a mente dessas amarras fluídicas e obsessivas.
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A conclusão fundamental a que chegamos, cruzando os dados da Tanatologia, da psicologia de Kübler-Ross, da Codificação Espírita, dos mentores espirituais e das análises sobre o ceticismo, é que o medo da morte não é uma questão de crença ou descrença, mas uma condição inerente à nossa própria humanidade.
Sintetizando os pontos principais, podemos compreender essa realidade através de três pilares:
1. O Medo é Biológico e Psicológico, Não Apenas Filosófico
O instinto de conservação está gravado em nossa biologia e no nosso inconsciente profundo. Por isso, no momento em que a finitude se aproxima, o corpo e o cérebro reagem com medo, independentemente do que a nossa inteligência professa. Um espírita convicto, um católico devoto e um ateu convicto partilham do mesmo calafrio biológico diante do desconhecido e do processo físico de morrer. O intelecto aceita a transição (ou o fim), mas a estrutura animal que nos habita resiste a ela.
2. Cada Posição Diante da Vida Traz Seus Próprios Desafios Existenciais
O medo da morte se metamorfoseia conforme a nossa visão de mundo:
Para o Espiritualista/Espírita:
O medo deixa de ser do "fim" e passa a ser do **"depois" (o medo do espelho da própria consciência, do julgamento moral, das consequências da lei de causa e efeito e da incerteza sobre a própria maturidade espiritual).
Para o Ateu/Cético:
O medo deixa de ser do "depois" e se concentra na perda do ser e na interrupção abrupta dos laços afetivos e dos projetos terrenos.
Para o Agnóstico:
O medo se alimenta da dúvida e da incerteza absoluta, que é o maior combustível para a ansiedade humana.
3. O Verdadeiro Antídoto é a Conexão com o Presente
Seja através da ótica humanista de Kübler-Ross, das lições de dever de Emmanuel, da busca pelo *Self* de Joanna de Ângelis ou da urgência do cético em aproveitar a única vida que acredita ter, a solução para a angústia da morte é a mesma: viver bem o agora.
A pacificação diante da finitude não é conquistada decorando teorias sobre o Além ou certezas sobre o nada, mas sim:
* Na construção de uma consciência tranquila e no cumprimento do dever.
* No desapego do controle e das ilusões puramente materiais.
* No acolhimento da morte como parte do ciclo natural da vida, que deve ser conversada e aceita, e não escondida em tabus.
▪︎A grande lição:
O medo da morte nos nivela a todos. Ele não é uma vergonha ou falta de fé, mas o testemunho de que reconhecemos o valor imenso da oportunidade que estamos vivendo na Terra. A melhor forma de nos prepararmos para a partida — seja ela um portal para a imortalidade ou o descanso final da matéria — é dar um sentido profundo e digno a cada dia do nosso presente.
Amílcar Sobreira Lobo
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sexta-feira, 5 de junho de 2026

 A Solenidade de “Corpus Christi” 

Padre João Medeiros Filho 

[Ocorreu ontem]

Na próxima quinta-feira, celebrar-se-á a festividade do Corpo de Cristo, “o Pão vivo que desceu do céu” (Jo 6, 51), o alimento espiritual que nos une e fortalece. A festa foi instituída pelo Papa Urbano IV no dia 8 de setembro de 1264, com o objetivo de proclamar a grandeza da Eucaristia. Por esse augusto sacramento Jesus quis permanecer junto de seus irmãos. “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18). A presença de amigos é fundamental na existência humana. Ninguém gosta de caminhar sozinho. Na trajetória, o diálogo é de suma importância. Por isso, Cristo legou-nos esse memorial, manifestação de sua constante companhia. Não queria que padecêssemos de solidão. Por isso, fez-se Pão e Permanência. Na Eucaristia comungamos o Corpo e o Sangue do Senhor, sua humanidade e divindade, de forma mística. A vida que Deus-Pai idealizou para cada um de nós é fortalecida com o Pão Celeste, preparado para os seus filhos. A Eucaristia é antecipação da Eternidade, do imenso banquete e encontro da família de Deus. Este deseja que possamos antegozar o definitivo de nossa história, o abraço incessante do Criador com as criaturas. No sacrossanto mistério eucarístico temos Deus em Jesus atenuando as saudades de nossas origens. Segundo a doutrina católica, além de recebermos o Corpo e Sangue de Cristo, entramos também em comunhão com sua doutrina e mensagem. Não existe um Cristo dividido ou separado. Comunga quem está disposto igualmente a alimentar-se do Evangelho de Jesus, a viver a verdade, justiça, liberdade, perdão e amor. O Brasil, que se diz cristão, ainda está bem distante dessa realidade. Recebendo Cristo, não podemos aceitar o que Ele condenou: discriminação, mentira, miséria, indiferença, egoísmo, abandono de inocentes, idosos e doentes, radicalismo e ódio. Junto com o sacrifício da cruz, a comunhão é o gesto supremo de amor de nosso Salvador. Este convida-nos a partilhar nossa vida. Eis um dos simbolismos do partir o Pão (“fractio panis”) na missa. A Eucaristia é o sacramento da unidade. Cristo reuniu em seu corpo, gerado no seio de Maria, a humanidade inteira. Desta forma, comungar é também se unir a todos aqueles que aceitam e vivem o pensamento do Mestre. A Eucaristia é o Pão da unidade e verdadeira igualdade. Cristo revela-se como irmão de todos: santos e pecadores, pequenos e grandes, fortes e fracos. No sacramento eucarístico Cristo dá-nos a certeza de que “Deus não faz distinção de pessoas.” (Rm 2, 21). A comunhão que recebe o Papa é a mesma destinada aos simples fiéis. A Eucaristia é a certeza permanente da solidariedade de um Deus, do amor e da ternura de um Pai. O mistério eucarístico é Deus nos dizendo: eu amo todos, quero alimentá-los, “pois quem comer deste Pão, jamais terá fome” (Jo 6, 35). Na Eucaristia Deus espera por nós. É o abraço divino reservado e antecipado, o beijo carinhoso de um Irmão discreto e bondoso, que vem silenciosamente para dizer que nos ama e perdoa. A Eucaristia é o sacramento da realidade celestial. Num paradoxo é a perenidade no tempo pela encarnação do Filho de Deus Eterno, o qual quis estar unido à humanidade, mostrando que ela tem valor eterno. Não importam nossos pecados e limitações. Deus nos perfilhou por ato de misericórdia e clemência, fruto de sua incomensurável gratuidade. A Eucaristia é a resposta para o Brasil de hoje, desnorteado e dividido, abandonando suas origens e vocação! “À mesa dos mortais Cristo se assentou”, afirma o Hino do XXXVIº Congresso Eucarístico Internacional (RJ). Não se pode esquecer o que disse um sábio e santo que viveu entre nós: “Sem a Eucaristia somos pequenos demais para o Céu. Com ela, demasiadamente grandes para a terra (Cônego Luiz Monte).

quarta-feira, 3 de junho de 2026

sábado, 30 de maio de 2026

 Assú, paróquia tricentenária 

Padre João Medeiros Filho 

A Paróquia do Assú foi criada em 1726 por decreto canônico, de Dom José Fialho, sexto bispo de Olinda e oficializado civilmente por alvará régio. É a segunda do Rio Grande do Norte, desmembrada da freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, de Natal. Assú é a célula-mater da evangelização do interior potiguar. Desde a antiguidade, a freguesia tem como orago São João Batista. Esperam-se grandes comemorações por parte da paróquia e da comunidade para celebrar tão relevante data. Segundo o pesquisador Dr. Gregório Celso Medeiros de Macêdo Silva, “os limites primitivos da Freguesia de São João Batista eram, aproximadamente, a metade do território que hoje corresponde ao RN: Vale do Açu, Regiões Oeste (Alto e MédioOeste), Central, Salineira e parte do Seridó.” Da paróquia-mãe do sertão potiguar (Assú) surgiram as seguintes freguesias: Pau dos Ferros (1756), abrangendo todo o Oeste potiguar; Santana do Matos (1821) e Campo Grande (1837). No século XXI, desmembraram-se as freguesias de Carnaubais (2006) e da Beata Lindalva (2010). O renomado historiador potiguar, Lenine Pinto, assegura que “a Freguesia de São João Batista do Assú, iniciava depois da Missão Jesuíta, sediada em Extremoz, terminando na “Tromba do Elefante”. Confrontava-se, ao norte com o Oceano Atlântico, ao sul com a Paraíba, a leste com a paróquia da Apresentação de Natal e a oeste com o Ceará.” Situada às margens do Rio Açu-Piranhas, Assú teve como primeiros missionários os jesuítas, que catequizaram algumas regiões do Rio Grande do Norte. Tais religiosos são devotos dos Arcanjos, de São João Batista e da Virgem Maria. Fundaram a Missão de Nossa Senhora das Candeias (ligada ao Colégio dos Jesuítas da Paraíba) para evangelizar os povos originários e os colonizadores nas terras potiguares. Estiveram em Arês, cujo patrono é o Precursor de Jesus. De lá, partiram para Extremoz, que tem como orago São Miguel. Foram mais além, fixando-se em local correspondente a Angicos, antes denominado Curral dos Padres. Próximo dali adquiriram uma fazenda, até hoje com o nome de São Miguel. Adentraram para o interior e chegaram a um arraial, às margens do Rio Açu, transmitindo a devoção a São João Batista, tornando-o seu padroeiro. Seguiram o mandamento do Mestre: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). É inegável a influência histórico-cultural, literária e política do Assú. O primeiro Presidente da Assembleia Legislativa do RN foi Padre Francisco de Brito Guerra, posteriormente Senador do Império brasileiro. Era assuense pelo “Jus soli”. Dentre tantos padres parlamentares, oriundos do Assú, pode-se nominar Manuel José Fernandes, Idalino Fernandes de Souza, Luís da Fonseca e Silva, Francisco Teodósio de Seixas Baylon, João Teotônio de Souza e Silva, Manuel Januário Bezerra Cavalcante. Os Padres Idalino Fernandes de Souza e Manoel Gonçalves Soares de Amorim ainda foram eleitos para a Assembleia Legislativa de Pernambuco. Outros presbíteros assuenses exerceram cargos eletivos e executivos em vários municípios. Não se pode ignorar a presença e o pioneirismo do Assú também nas ciências. Doutor Luiz Carlos Lins Wanderley (1831-1890) é o primeiro médico potiguar, nascido na Vila Nova da Princesa a atuar no estado. Exerceu também as funções de professor do Ateneu e Inspetor da Saúde Pública, em Natal. A Freguesia do Assú é de magna importância para o RN. Não se trata apenas de uma instituição religiosa, o que já seria relevante. Veio a se tornar um celeiro de vocações religiosas e cristãs. O martírio da Bem-aventurada Lindalva é um ícone do testemunho de fé dos assuenses. “Sempre e em toda parte, reconheçamos com gratidão esses benefícios” (At 24, 3).

quarta-feira, 13 de maio de 2026

 A honestidade agoniza 

Padre João Medeiros Filho 

Inconteste é a influência exercida pela mídia sobre a cultura e o comportamento humano. Isso leva a uma redobrada atenção sobre algumas desconstruções de princípios e conceitos fundamentais para o homem e a sociedade. O desprezo pelo verdadeiro chega ao limite do tolerável. O pensamento pós-moderno se insurge agressivamente contra toda e qualquer verdade, fazendo com que a humanidade não dê mais importância aos valores milenares. “Um dos maiores erros e pecados de nossos dias é a desonestidade, inclusive intelectual, fonte de outros erros e afrontas”, afirmava o Papa Francisco. A verdade vai sendo trocada por interesses e conveniências. Implantou-se o império do “politicamente correto.” Importa o que convém a alguns e não a objetividade e imparcialidade dos fatos. Afasta-se o interesse coletivo ou o bem comum e cultua-se a egolatria.Ignora-se o ensinamento de Cristo, no Sermão da Montanha: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Mt 5, 37). Tangida pela onda do relativismo, a cultura atual busca desacreditar a milenar tradição que apresenta o conhecimento sob o ângulo da unidade entre razão e objetividade, isto é, a verdade em sua conceituação filosófica e ética. Em seu lugar, entronizam-se o oportunismo e a conveniência de ocasião e da moda. Muitas são as investidas em favor da fragmentação da verdade. Contrário a qualquer projeto de veracidade, estabelece-se o reino dos sofismas, das narrativas e mentiras em prol de interesses de alguns. E sua fábrica industrial poderá ser a inteligência artificial. Cada um constrói a sua versão para proveito próprio, querendo impô-la como única e verdadeira. Jorge Mario Bergoglio, no início de seu pontificado, denunciou a “ditadura do relativismo”, invadindo as instituições sociais, escolas, famílias e igrejas, colocando em perigo a sadia convivência entre os homens. “Sem a verdade, não haverá paz”, concluiu aquele Pontífice. E continuou: “não pode haver paz, se cada um é a medida de si mesmo, reivindicando sempre e apenas os seus próprios direitos, sem se importar com o bem e o respeito aos de outros” (Discurso ao Corpo Diplomático, acreditado junto à Santa Sé, em 2013). Acompanha-se o surgimento de várias ideias contrárias à imutabilidade da lei natural. Ideologias, como a de gênero, a desconstrução da família etc. são bastante polêmicas. Dizer que a sexualidade de cada pessoa é algo subjetivo – desconexo da objetividade do corpo – é fechar os olhos e negar o princípio antropológico-biológico da identidade. “Se não sou eu o criador ou autor da corporeidade, não posso mudá-la. Isso é falacioso e ilusório”, assim se expressara o Papa Bento XVI, quando ainda era o Cardeal Joseph Ratzinger. Tais ideologias pretendem moldar seres humanos, a partir de uma ação orquestrada e difundida largamente. Segundo a lei natural e a doutrina cristã, Deus não concedeu ao homem o direito e poderes de mudar a essência daquilo que Ele criou. Há quem defenda como lícito reconstruir, a seu bel prazer, o corpo humano, do qual não é autor. Trata-se de um descompromisso com a verdade da lei natural, fundamento indispensável para edificar a comunidade dos homens e elaborar a lei civil. O sociólogo jesuíta Padre Fernando Bastos d´Ávila, em brilhante conferência na Academia Brasileira de Letras (da qual era membro), assim se pronunciou: “Alguém tem escritura lavrada em algum cartório de que é o dono exclusivo e absoluto da vida e do corpo?” Quem se proclama medida única das coisas e da Ética não consegue conviver e colaborar com o próximo e a sociedade. Infelizmente, muitos incutem e praticam a frase de Luís XIV: “L’état c’est moi”, querendo que apenas a sua vontade (ou a de seu partido) seja a lei! A negação ou o descaso da verdade (corolário da lei natural) gera uma cisão entre a liberdade dos indivíduos e o direito de outrem. É o que se assiste no Brasil de hoje. Auxiliados por Cristo, que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6), esforcem-se os cristãos para que seus atos edifiquem o saudável convívio entre os seres humanos e a promoção do reino da justiça e da paz. “Não vos deveis extraviar por qualquer espécie de doutrina estranha, pois é bom que o coração seja fortificado pela graça.” (Hb 13, 9).

quinta-feira, 7 de maio de 2026

 

Maria Santíssima, maio e mitologia

Padre João Medeiros Filho

  Durante o mês de maio, os católicos homenageiam Maria Santíssima, Mãe de Cristo e dos homens. Na primavera europeia, especialmente em maio, mês em que as rosas desabrocham e florescem, quis a Igreja comemorar a beleza da Rosa Mística”, como se recita em uma das invocações da Ladainha de Nossa Senhora, conhecida igualmente por “Ladainha Lauretana”. É justo e merecido esse preito de gratidão à Virgem, a perfeita discípula do Evangelho, modelo dos fiéis e de todas as mães da terra.

Desde a Antiguidade, antes mesmo do nascimento de Cristo, ligava-se maio a uma personagem feminina. Sua denominação deriva de uma homenagem a “Maia”, diva da mitologia greco-romana. Segundo estudiosos, trata-se da mais jovem das sete Plêiades, filhas do titã Atlas e da ninfa Pleione (Vênus). Era mãe de Hermes, mensageiro dos deuses, deidade do renascimento, portanto, associada à primavera, que, no hemisfério norte, atinge o seu esplendor no quinto mês do ano. Mas, antes de existir no calendário organizado por Rômulo, quando da fundação da cidade de Roma (753 A.C), um mês com tal nome, já havia uma ligação desse período anual com um arquétipo feminino. De acordo com astrônomos, a constelação que mais se destaca nas noites desse mês é justamente a de Virgem, com sua brilhante estrela Spica. Esta era invocada como protetora das atividades de jardinagem. Assim, durante tal período, o céu passou a ser associado à figura de uma mulher. Vale salientar que a constelação de Virgem já foi conhecida como “Anna”, a deusa do céu e esposa da divindade suméria Anu. Outrora esteve ligada a Deméter, nume romana da agricultura e a Eva, esposa de Adão, mãe dos viventes, segundo o relato do Gênesis.

Com o advento do cristianismo, uma nova e grandiosa figura feminina destacou-se: Maria Santíssima, a Genitora de Cristo. E assim, a veneração à Mãe do Salvador veio preencher uma lacuna existente no catolicismo, religião até então exclusivamente patriarcal. De acordo com a tradição católica, o fato de Nossa Senhora ser filha de Ana – cujo nome era ligado à constelação de Virgem – contribuiu ainda mais para que houvesse tal associação. Cabe ressaltar que, segundo a teologia católica, Maria é chamada de nova Eva, o que veio reforçar tal analogia. Diga-se, de passagem, que, no Evangelho de Lucas (Lc 1, 28), o anjo Gabriel saúda Maria de Nazaré com a palavra Ave, que é o inverso de Eva.

O calendário romano, atribuído a Rômulo, foi modificado por Júlio César (45 A.C) e reformado pela Bula Papal “Inter gravíssimas”, promulgada em  24 de fevereiro de 1582 pelo Papa Gregório XIII, daí o nome de “calendário gregoriano”. Desde o início, verifica-se no calendário influência da cultura grega, o que se pode inferir dos nomes de alguns meses e dias da semana. Antes das mudanças, o quinto mês do ano era dedicado ao deus Apolo (irmão gêmeo de Ártemis), que recebeu de Hipérion o sol, a lua e a aurora. A lenda conta ainda que Apolo matou uma grande serpente, chamada Píton, que atemorizava o povo. A iconografia católica representa a Virgem Maria (sob o orago de Imaculada Conceição) pisando a cabeça de uma serpente.

Nossa Senhora, ao longo da história, recebeu incontáveis e merecidos títulos de seus devotos, oriundos de diversos países. Alguns exemplos: Nossa Senhora de Fátima, Lourdes, Guadalupe etc. É venerada como a “Rainha dos Céus.” Canta a prece “Ave, Regina Coelorum” (Salve, Rainha dos céus), uma das antífonas rezadas ou cantadas, durante o ano litúrgico, concluindo a oração de Completas na Liturgia das Horas. Na Ladainha de Nossa Senhora há uma invocação, denominando-a “Porta do Céu” (“Janua Coeli”). É justo reverenciar a Genitora de Jesus como: “Face feminina do Divino, “Expressão terrena do Eterno”, nas palavras do saudoso escritor Luiz Paulo Horta. Nossa Senhora é homenageada como “Mulher, espelho de Deus”, no dizer poético de São Boaventura, lembrando que Ela exaltou os pobres e gerou Jesus Cristo. Lembremo-nos de Nossa Senhora como “A Compadecida”, da dramaturgia de Ariano Suassuna; “O mais belo sorriso de Deus”, nas preces de Oswaldo Lamartine; a “Onipotência Suplicante”, na poesia de São Bernardo de Claraval. “Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.”

terça-feira, 28 de abril de 2026

 O GRAVE INSTITUTO DAS INCUMBÊNCIAS ESPECÍFICAS


Valério Mesquita(*)

Mesquita.valerio@gmail.com

 

 

Meu pensamento nunca foi punhal. Jamais produziu uma ferida. Fácil do que penso - ingenuidades encantadoras. A arte não é só fruto do amor nem do ódio. Contudo, jamais me encandeei por um lírio virginal. Não me julguem dono da paisagem e do tempo. Cumpro com o que escrevo em solene ato de contrição. Ou melhor, escrevo em missão de condolências. Só incovo a ironia quando corro o risco de emocionar-me. Porisso, tenho com a eternidade um pacto secreto. E não há melhor maneira de contemplá-la, que da janelinha aberta sobre a imensidão dos campos. Ela brota altiva do fundo do horizonte.

No senso trágico da brevidade humana gravo os sinais de minha mensagem. Lembro-lhes: o melhor homem é o homem morto. A força telúrica da convivência tem firmado tal jurisprudência. Existem, hoje, homens acima do bem e do mal: o feito de cifrões e listras de câmbio e o felino de trescalante feminilidade. Suportá-los é um ponto de interseção entre duas eternidades. Neste ponto um coro no âmbito de minhas incumbências específicas. Sou e todos os sabem, um misto de filósofo e pistoleiro.

Compreendo que as ideias não são metais que se fundem. Para trocar idéias, no entanto, é necessário, initio-litis, ter ideias. Acredito, que tal incumbência não tem caído no âmbito do entendimento humano. Concretizo, tenho certeza, o ideal beatífico de resolver dentro da noite, os desencontros do mundo. Pois, escuto no mais alto da montanha, na confidência das nuvens, a palavra que envolve a unidade do gênero humano.

A miúdos, sou um errante fabricante de tendas. Uma personificação grandiloquente do cristão trucidado. Em todo caso, tenho levado uma existência agradável a despeito do quinhão usual de tristezas.

Gozo a satisfação própria de uma atividade livre. De minhas ideias, aceitem-nas ou não. Na verdade, pouco se me dá. Advirto-os, que continuo a ouvir os golpes trocados entre o passado e o futuro. No mais, desejo ser calmo e desconhecido. Desconhecido como o indigente do hospital. O resto é laxante. É infecção sentimental.


(*) Escritor



(**) Do Livro “O Tempo e Sua Dimensão” – 2ª. Edição – 2024 – Editora Terra de Auta.



 Brasil, um país católico? 

Padre João Medeiros Filho 

“Le Figaro Magazine”, na edição de outubro de 2025 (da qual um exemplar me foi presenteado pelos amigos Rejane e Vicente), lançou a seguinte pergunta: “A França ainda é um país cristão?” Numa longa entrevista, dois pesquisadores analisam a situação atual do cristianismo na França. Ali consta uma assertiva importante: “Identifica-se um país cristão não apenas pela fé do povo que busca viver o Evangelho, mas também pela identidade cultural de suas instituições e estruturas.” A partir deste ponto, é importante avaliar o Brasil, enquanto “grande país católico”. Na citada matéria, Jerôme Fourquet afirmou: “A filha primogênita da Igreja é hoje a nação mais descristianizada do mundo.” E acrescenta o outro entrevistado, Éric Zemmour: “Sem o cristianismo a França não é mais a França. Gostaria de permanecer cristão. E como sê-lo numa civilização tomada por outras religiões, dentre elas, o islamismo?” Este já se faz presente no Brasil. Hoje, na França 50% das crianças nasceram de não-cristãos e não-europeus. Segundo a opinião do pensador francês, há que considerar dois indicadores: a fé (algo íntimo, pessoal com manifestações públicas) e a identidade cultural. Conforme dados censitários das últimas décadas, o catolicismo brasileiro vem perdendo tal característica, que marcou escolas, asilos, creches, hospitais etc. Muitos deles estão sendo fechados em nome do estado laico, dos programas sociais e políticas públicas de governos, mostrando-se inoperantes e ineficazes. Aqui no RN, nestas últimas duas décadas, cinco instituições católicas de ensino superior foram fechadas ou vendidas. Perdeu a Igreja um espaço privilegiado de debates e reflexão à luz do Evangelho. Dezenas de escolas de educação básica, pertencentes a paróquias e congregações religiosas, que floresceram durante décadas, sendo consideradas referências educacionais, cerraram suas portas. Foram estatizadas ou alienadas. Hoje, são públicas ou pertencem a conglomerados educacionais, de cunho mercantilista. Até pouco tempo, renomadas casas de saúde do RN eram orientadas pela Igreja, por meio de congregações religiosas. “A fé que não se traduz em ações, por si está morta” (Tg 2, 17). Como esquecer inúmeras entidades de saúde ligadas à Igreja? O pioneirismo do Hospital Padre João Maria, junto com a Maternidade Ananília Regina (Currais Novos) ainda é lembrado por muitos. Foi uma obra erguida pela vivência da caridade de Monsenhor Paulo Herôncio e Dr. Mariano Coelho. É inegável a importância do HospitalMaternidade Belarmina Monte (São Gonçalo do Amarante), fruto do zelo apostólico de Dom Nivaldo Monte e paroquianos daquele município. Várias maternidades, edificadas por Dom Eliseu Simões Mendes, nos vales do Assú e Apodi, com recursos das paróquias e da Missão Rural, foram a expressão da caridade social da Igreja, no século passado. Dom Eugênio de Araújo Sales fundou, na Arquidiocese de Natal, vários Centros Sociais, de múltiplas atividades: assistenciais, educacionais, profissionais etc. animados e mantidos sobretudo pela generosidade dos fiéis. Não se pode omitir o edificante trabalho socioeducacional do Comendador Ulysses de Góes, por intermédio da Congregação Mariana de Natal. O Movimento de Educação de Base, criado e gerido inicialmente sob a égide das dioceses potiguares, foi uma das obras relevantes da Igreja. É sua mão estendida, oferecendo a muitos o pão do saber. “O que fizestes a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes.” (Mt 25, 40). Tais iniciativas revelam a face da Igreja “Mãe e Mestra”. Infelizmente, as comunidades católicas deixaram-se levar pela onda de laicização e pelo modismo da ideologia, desfigurando seu rosto caridoso e humanista, sublime herança do Evangelho. Em muitos momentos, pegaram carona no debate ideológico, menosprezando os ricos princípios e valores evangélicos. A narrativa das famosas políticas públicas e de programas sociais de governos embriagou muitos católicos que declinaram de sua vocação de “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14). O fervor e o amor ao Evangelho de muitos conterrâneos nossos brotaram nos educandários católicos e em instituições de ensino superior, inclusive laicas, que contavam com sacerdotes, em seu quadro docente. Há quem sinta saudades das preleções de Dom Nivaldo, Dom Alair, Dom Heitor, Padres Agnelo, Assis, Barbosa etc. Foram verdadeiro “fermento na massa” (Mt 13,33). Cristo afirmara: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém... até os confins do mundo” (At 1,8).

quinta-feira, 23 de abril de 2026

 Golpe, significado e abrangência 

Padre João Medeiros Filho 

O tema deste artigo foi pautado por Monsenhor Lucas, um pastor sequioso de mensagens éticas e teológicas para levar os fiéis a refletir. 

O termo golpe é amplo e não apenas ideológico-político. Envolve todo o comportamento humano. Não se pretende aludir a momentos da história brasileira. 

A intenção é mostrar a dimensão e os contornos dessa realidade que atinge o ser humano e a sociedade. 

Alguns exegetas afirmam que a desobediência de Adão e Eva (Gn 3, 1ss) – ícone da ruptura do homem com os planos de Deus – é o primeiro golpe da História. Constitui-se em rejeição do projeto divino para as criaturas. Os hagiógrafos já conheciam posturas golpistas e fraudulentas: “Parece gostoso o pão ganho com fraude, mas a boca depois ficará cheia de areia” (Pv 20, 17). A palavra golpe – tão empregada por políticos e juristas – tem origem no vocábulo latino “colpus”, por sua vez derivado do grego “kolaphos” (originando colapso). 

O termo denota primitivamente bofetada, soco, tabefe, tapa e corte. Segundo o gramático Adriano da Gama Kury, arrimado nos filólogos Antenor Nascentes e Augusto Magne, a evolução semântica do étimo parte do latim “colpus” para o português arcaico colpe, ancorando na atual grafia golpe. 

Este mantém a ideia de movimento brusco com uso de força ou violência. Apesar de suas diferentes modalidades, configura-se sempre como um ato agressivo, inesperado e desrespeitoso. Apresenta-se de forma física ou intelectual. Aprática desses atos remonta a milênios. 

O profeta Isaíasinsurge-se contra injustiças, mentiras, narrativas e dolos que motivam atitudes golpistas. Assim se expressa diante delas: “O direito voltou-se para trás; a justiça permanece longe; a verdade desmaiou em praça pública, a retidão não pode entrar. A verdade, então, foi esquecida e quem se desvia do mal é despejado” (Is 59, 14). 

É rotina abordar o golpe do ponto de vista meramente ideológicopolítico, “concebido como ruptura de um estado constituído legitimamente, com emprego de violência, perpetrado por militares e civis.” Trata-se de ato consumado por vezes sem espeque legal,subvertendo instituições legitimamente constituídas. Em geral, ao se falar em golpe, pensa-se logo nesse tipo de ruptura. 

É provavelmente o que mais chama a atenção. Entretanto, não é a única forma. Para o teólogo Tomás de Aquino “ele está presente em qualquer rompimento e acinte à verdade, ação agressiva, nefasta e destruidora.” 

Partindo-se dessa concepção ética e filosófica, ludibriar, mentir, praticar embustes, trapacear e tantos outros atos que incluem essa postura individual e social, são atentados à verdade e às pessoas. Portanto, atos imorais e deletérios enquadram-se como golpe, sendo este individual ou coletivo. 

Trair alguém, descuidar conscientemente das tarefas familiares e responsabilidades sociais, prevaricar no serviço público, corromper e ser corrompido, anunciar promessas e não as cumprir (tão comuns e habituais entre os políticos em campanhas eleitorais), julgar injusta e levianamente, tudo se constitui em atos golpistas. 

É afronta e aviltamento à verdade, justiça e dignidade humana. Não aplicar corretamente os impostos nas administrações públicas, deixar as pessoas sem o que lhe é de direito – saúde, segurança, educação, estabilidade econômica e financeira – tudo isso é, do ponto de vista filosófico e ético, um golpe. 

Quantas bofetadas a população recebe de seus dirigentes! E muitos desses atos continuados e crônicos podem ter consequências tão perversas quanto a cisão de sistemas governamentais. Em ambos os casos atentam contra a liberdade e a vida. Pregar e anunciar certas mudanças cientificamente improváveis é golpear. 

Tudo isto fere os fundamentos do ser humano e da sociedade. Muitos acusam os outros de golpistas, quando, não raro, seus pensamentos e ações são mais graves. O senador e jurista Afonso Arinos de Melo Franco afirmava peremptoriamente: “Cuidado com aqueles que taxam seus adversários de golpistas! Suas intenções por vezes estão plenas de ruptura contra os outros e o Estado.” O salmista já bradava: “Os males atingirão o violento em sua queda. O Senhor garantirá o direito do indigente e dos pobres. Sim, os justos darão graças a teu nome e os retos habitarão na tua presença” (Sl 140/139, 14). Há que se refletir: “O golpista [ímpio] gera dolo e traição. Quem semeia a justiça terá recompensa condigna” (Pv 11, 18).

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Dom Sílvio, nosso bispo auxiliar 

Padre João Medeiros Filho 

No primeiro dia de maio (mês mariano), às nove horas, na Catedral Metropolitana de Natal, sob a égide de São José, que inspirou o seu prenome, Dom José Sílvio de Brito será ordenado bispo, sucessor dos apóstolos. Nasceu, cresceu e continua protegido pela Mãe de Deus. Recebeu o batismo em Cruzeta (RN), seu torrão, cuja padroeira é Nossa Senhora dos Remédios, comunidade católica profundamente devota da Mãe de Cristo. Tal veneração especial é fruto das pregações de Dom José Delgado, criador da paróquia e do testemunho cristão de Dr. Nemésio Palmeira, líder mariano, cheio de amor à Mãe do Senhor. Dom Sílvio une-se a Dom João na proclamação da ternura divina, da face misericordiosa de Cristo e do rosto materno de Maria. Aos oito anos, Sílvio veio para Natal, conheceu o padre belga Tiago Theisen (seu grande orientador espiritual), apóstolo da Zona Norte, pároco de Santa Maria Mãe. Nesta comunidade, despertou sua vocação sacerdotal. Em 1993, entrou para o Seminário de São Pedro para iniciar a formação eclesiástica. Nossa Senhora acompanha sua vida. Das seis paróquias onde exerceu o sacerdócio, cinco são dedicadas à Virgem Maria. Será bispo da Igreja de Cristo, auxiliando Dom João a apascentar a grei do Senhor neste arcebispado, cuja padroeira é Nossa Senhora da Apresentação, primeira paróquia no Brasil detentora desse orago. É o vigésimo segundo antístite nascido em solo potiguar e o sexto seridoense. O que é um bispo, indagam os fiéis. Trata-se de um presbítero, ungido na plenitude do sacerdócio como sucessor dos apóstolos. Tem como missão colocar-se a serviço de determinada porção do Povo de Deus. Na colegialidade com o Papa e irmãos do episcopado, deverá manifestar “a solicitude por todas as Igrejas” (2Cor 11,28). Para expressar essa colegialidade, os arcebispos e bispos auxiliares recebem a titularidade de uma diocese inativa, lembrando que são pastores. No presente caso, Dom Sílvio detém o título da diocese de Menefessi, na Tunísia. “Deus não o ungirá para privilégios, mas para o serviço”, afirma Santo Inácio de Antioquia. É deste a frase: “Onde está o bispo, aí está a comunidade. Onde está Cristo, aí está a Igreja católica.” Tem também por missão anunciar a Palavra. Por isso, na sé episcopal há a cátedra, cadeira daquele que ensina e orienta. São Leão Magno aconselhava um ordenando: “Seja santo para rezar, prudente para governar e sábio para ensinar.” Como deve ser um bispo? A literatura eclesiástica é rica sobre o assunto. Antológica é a frase de Santo Agostinho: “Para vós sou bispo; convosco, sou cristão. Aquele é nome de ofício; o outro, da graça.” Infere-se a necessidade da comunhão e fraternidade. Sua virtude indispensável deve ser a humildade. Na primeira audiência com o Cardeal-Prefeito da Congregação para os Bispos, João Paulo II, perguntado sobre os critérios para a eleição ao episcopado, responde-lhe: “O primeiro é a humildade. Aqueles que querem o poder, nós não os queremos!” O Papa Francisco advertia contra a “burguesia espiritual, a tentação de ser meros executivos do sagrado e clientes ‘vips’ de companhias aéreas.” Os eleitos devem ser homens de oração, anunciadores do Evangelho, semeadores da fé, esperança e alegria. Dom Sílvio sempre foi um padre humilde. Nunca se ouviu falar que aspirava o poder e a ostentação. Discreto, fraterno, acessível, é um homem da liturgia. Nela encontra a figura de Cristo, “Caminho, Verdade e Vida.” Escolheu por lema episcopal as palavras do Ressuscitado aos apóstolos: “Ite et nuntiate” (“Ide e anunciai.” Mc 16,15). Análoga mensagem foi confiada a Madalena, recomendando-lhe comunicar a Ressurreição aos discípulos. Dom Sílvio se propõe ser um arauto da alegria pascal, ao lado de nosso arcebispo, partilhando deste o carisma de fraternidade, diálogo, caridade e acolhimento. Exímio mestre de cerimônias, Dom Sílvio contribuía para torná-las um encontro vivo com Cristo. Seus acólitos da Zona Norte de Natal perguntavam-lhe carinhosa e inocentemente (em razão das vestes litúrgicas de cerimoniário): “Na Catedral, o senhor vai celebrar ou ser coroinha?” Não imaginavam que a batina violeta que usava seria o prenúncio do episcopado. Senhor bispo, abençoe-nos. Faça sempre como o salmista: “Proclamarei o teu nome a meus irmãos” (Sl 22/21, 22).

sexta-feira, 10 de abril de 2026

 A responsabilidade de quem prega 

Padre João Medeiros Filho 

Há dias, alguns amigos comentavam o estilo, a duração e qualidade das pregações. Isto levou-me a pensar e escrever sobre o assunto. Diziam que a tendência ao uso coloquial ou informal em público tem levado à vulgaridade. Expressões e cacoetes são ouvidos em homilias. Até gírias se escutam nos altares: “Tou na parada de Jesus, Ele é massa, Cristo tá na área, vamos surfar na onda do Evangelho etc.” Deus entende as diversas modalidades e os tipos de linguagem de seus filhos. “Mas, para se falar das coisas divinas e sagradas, há necessidade de vulgarizar os termos?” Questionavam os amigos. Isso faz-me recordar meustempos de Seminário de Caicó e Mossoró, devia-se falar e escrever corretamente o vernáculo, assim como estudar com afinco latim, grego e outras línguas. O rigor do estudo do idioma pátrio é algo que sempre agradeço. Nossos docentes corrigiam-nos paternalmente, ao nos ouvir falar errado, perguntando se não amávamos a nossa língua. Não era permitido usar galicismos e barbarismos. Nossos formadores eram padres lazaristas, alguns deles doutores pelas Universidades de Utrecht e Sorbonne. Assim foi Padre Francisco Janssen, saído de Mossoró para se tornar bispo de Gimma, na Etiópia. Dessa época, brotou em mim uma resistência ao uso de termos estrangeiros. Atualmente muitas palavras já estão dicionarizadas e usadas frequentemente. Um exemplo é o vocábulo constatar, cujo correspondente em nosso idioma é verificar ou comprovar. No meu curso ginasial, a língua portuguesa era ensinada por sacerdotes holandeses, os quais conheciam melhor o vernáculo do que muitos brasileiros. Outro deslize gramatical que não se perdoava: a colocação errada dos pronomes oblíquos. Devia-se usar corretamente próclise, ênclise e mesóclise (tmese). Por conta dessa formação, confesso que sinto certo desconforto, quando escuto pronunciamentos oficiais e homilias que ferem a norma culta da língua. Não estou defendendo uma linguagem gongórica, rebuscada, totalmente insólita, à moda dos professores Praxedes e Astromar das telenovelas. Seria oportuno lembrar aos pregadores que a palavra, além de correta, deve ser clara e agradável, densa e portadora de mensagem. “É a Palavra de Deus, por isso deve ser apresentada com elegância, respeito, pureza e jamais banalizada”, acrescentaram os citados amigos, leigos zelosos que nos escutam e seguem. Poder-se-ia citar vários exemplos de beleza literária e profundidade teológica. Entre tantos escritores e pregadores da antiguidade, cabe destacar Santo Ambrósio, bispo de Milão, sob cujo verbo a graça de Deus tocou o coração do jovemAgostinho. No torrão potiguar, muitos tiveram ocasião de ouvir oradores brilhantes, que os arrebatavam com sua eloquência, sem abusar da paciência dos ouvintes e se tornarem inacessíveis. Memoráveis são os belíssimos sermões e palestras de Dom Portocarrero Costa, segundo bispo de Mossoró. Emocionante era o panegírico da “Procissão do Encontro”, proferido pelo então Cônego Nivaldo Monte. Contrito e com profundidade aquecia as almas, quando o sol da Ribeira queimava a pele. São inesquecíveis as pregações – verdadeiras peças literárias – dos Padres Luiz Wanderley, Ulysses Maranhão e Bianor Aranha, ecoando nas naves da antiga catedral. “A riqueza de Deus necessita ser revestida da beleza da palavra”, dizia o eminente orador sacro Bossuet. Deixou marcas e saudades a retórica de Dom José Delgado, Monsenhor Walfredo, Padre Monteiro e tantos renomados presbíteros, que pisaram o solo norte-rio-grandense. Dom José Pereira Alves, terceiro bispo de Natal, arrancava palmas dos fiéis, após pregar, quando não se costumava aplaudir nas missas ou cerimônias litúrgicas. Hoje, durante as homilias, veem-se muitos manuseando smartphones. Não para gravar o que se diz, mas para sentir o tempo passar mais rápido. As homilias devem se revestir de linguagem correta, clara, objetiva e sucinta. Dom Alberto Houssiau, bispo emérito de Liège (Bélgica), quando nosso professor de homilética, recomendava: “Se falardes de dez a quinze minutos, muitos ouvirão; mais de quinze, tereis os bancos como auditório. Se pregardes além de vinte minutos, só o demônio escutará, insuflando os fiéis à maledicência.” A pregação é instrumento da Palavra Divina, caminho para acender luzes e iluminar a escuridão com o Verbo de Deus. Não se pode esquecer o ensinamento do Salmista: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para as minhas veredas” (Sl 119/118, 105).

domingo, 5 de abril de 2026

 


JESUS

Após a entrada triunfal em Jerusalém, passa pela traição e dor do Calvário e ressuscita ao terceiro dia como SALVADOR DO MUNDO.

FELIZ PÁSCOA

quinta-feira, 2 de abril de 2026

 

 

RACHELE ROSSO NELSON

100 ANOS

        Essa extraordinária criatura nasceu no dia 02 de abril de 1926, na cidade denominada Casalleto Spartano, Província de Salerno, no sul da Itália - cidade plantada a 400 metros do nível do mar, localizada sobre pequeno planalto, imerso num bosque que se estende até a encosta do Monte de Vallicorvo, sendo filha de Rocco Rosso e Rosina Lovisi Rosso.

            Por circunstâncias imprevisíveis, seu pai deixou a terra mãe em 1926 vindo para o Brasil em decorrência da crise econômica gerada após a Primeira Guerra Mundial, na qual tornou-se herói.  Aqui, após certa estabilidade, mandou buscar a família em 1935, vindo Rachelle, com sua mãe ao encontro do seu genitor, já então residindo em Natal, viajando em um dos famosos navios de imigrantes, este chamado Oceania, que aportou no Recife.

            Esta história está narrada no livro que escrevi “O Velho Imigrante”, com todos os detalhes. Em Natal Rachele casou-se com Arnaldo Jones Nelson e teve os filhos Hilma, Oscar, Rocco, Osman e Paulo e conviveu com Therezinha Rosso Gomes, minha inesquecível esposa, que partiu em 2019. Dos filhos é falecido Oscar, mas a família cresceu dando-lhe a alegria de genro, noras, netos e bisnetos, sobrinhos, sobrinhas que preenchem a sua vida.

            Todos estarão lá para louvar a DEUS.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

 Por uma História da Igreja Potiguar

Padre João Medeiros Filho

O registro de nossa história eclesiástica contém poucos dados disponíveis. Em “História do Rio Grande do Norte”, Câmara Cascudo narrou os primórdios do catolicismo em solo potiguar, indicando elementos sobre as paróquias (oragos e datas de criação), até a década de 1950. Em 1937, Monsenhor Paulo Herôncio de Melo legou-nos o primeiro relato sobre o martírio de Cunhaú e Uruaçu. Dom Eliseu Simões Mendes contribuiu com anotações para a história da diocese mossoroense. Sua visão desenvolvimentista subjacente no projeto da “Missão Rural” merece estudos acurados. Dignos de encômios são os apontamentos de Monsenhor Francisco Sales Cavalcante: “A Paróquia de Santa Luzia” e o “Colégio Diocesano de Mossoró”. Em 1985 e 1987, Monsenhor Severino Bezerra lançou “Levitas do Senhor” (2vol), pequenas biografias de sacerdotes que aqui nasceram ou exerceram seu ministério, nos séculos XVIII a XX. Padre Normando Pignataro Delgado, em sua obra “Paróquias potiguares: uma história”, discorreu sobre 98 paróquias norte-rio-grandenses até os idos de 1980. Padre Francisco de Assis Costa, Diretor do Colégio Diocesano Seridoense, coligiu algumas memórias do referido educandário, no ensejo dos 80 de sua fundação, festejados em 2022. Aconselha-nos o profeta Isaías “Lembrem-se de coisas passadas e fatos antigos” (Is 46, 9). 

Se porventura alguém perguntar pelos renomados oradores sacros potiguares, faltam-nos fontes de pesquisa, exceto parcas anotações em alguns livros de tombo paroquiais. Caso o questionamento verse sobre abnegados educadores eclesiásticos, haverá lacunas significativas na documentação. Monsenhor Amâncio Ramalho é pouco lembrado. O eminente sacerdote dirigiu oito colégios em cinco estados brasileiros (RN, PB, PE, BA e PI). Foi o primeiro titular do Departamento de Educação, que precedeu a Secretaria Estadual de Educação (RN). É profícuo o itinerário de escolas católicas, dentre elas: Marista, Salesiano, Salesianas, Coração de Maria, Santa Teresinha, N.S. das Vitórias, Jesus Menino. Carecem de relato escrito sobre suas trajetórias. Infelizmente, são olvidadas as admiráveis realizações educacionais de Dom Delgado no Seridó. No entanto, é importante assinalar o papel da Igreja na educação no RN, inclusive no ensino superior. Luís Eduardo Suassuna, no Conselho Estadual de Educação do RN, preocupa-se em colher dados sobre os patronos das escolas de educação básica, destacando os vultos religiosos.

Figuras notáveis de nosso clero são desconhecidas. É o caso do Padre Sebastião Constantino de Medeiros, governador do bispado de Olinda, durante a prisão de Dom Vital. Tornando-se jesuíta, foi o primeiro brasileiro a lecionar na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Graças aos esforços do acadêmico Jurandir Navarro, dispõe-se de parte substancial da produção literária de Cônego Monte. Monsenhor Huberto Bruening (pároco da Catedral de Mossoró) deixou ricas anotações sobre a apicultura brasileira. É falha grave ignorar tantos padres escritores, como Dom Nivaldo Monte. 

O Movimento de Natal foi objeto da tese doutoral de Alceu Ferrari, intitulada “Igreja e Desenvolvimento”.  Cônego Eugène Collard, em “A Igreja na encruzilhada dos caminhos”, narra para os europeus essa rica experiência pastoral. O trabalho das escolas radiofônicas tampouco merece ficar marginalizado. Precedeu Paulo Freire, contribuindo para a alfabetização e educação integral de inúmeros norte-rio-grandenses. Quanto aos meios de comunicação (rádios e periódicos), a Igreja potiguar desempenhou papel relevante. O jornal “A Ordem” foi destaque nas décadas passadas, respeitado por intelectuais. Ali, brilharam líderes católicos, que orgulham a nossa terra. As primeiras instituições de assistência à saúde e aos idosos do RN foram iniciativas da Igreja. Como esquecer o Hospital Padre João Maria (Currais Novos)? A Igreja tem deixado uma marca notável de serviço e presença junto ao Povo de Deus.

A Academia Norte-rio-grandense de Letras, por intermédio de Cônego Monte, recebeu também influência de Dom José Pereira Alves, terceiro bispo natalense, membro e presidente da Academia Pernambucana de Letras. “Ele foi um de nossos maiores oradores sacros, arrebatando palmas nas naves da antiga Catedral da Apresentação”, relata Padre José Freitas Campos, em “O Mestre da Palavra”. Além desta obra, o ilustre sacerdote legou-nos a biografia de Frei Miguelinho, História dos Primeiros Mártires do Brasil e Conexões de Memorias da Igreja do RN. Cônego José Mário de Medeiros brindou-nos com as biografias de Dom Marcolino e Dom Tavares. A Igreja potiguar deve cuidar de sua história. “Muitas vezes e de modos diversos, Deus falou outrora a nossos pais” (Hb 1, 1). 


 Para viver o Mistério da Semana Santa

Padre João Medeiros Filho

Desde o século II, além de continuar celebrando o primeiro dia da semana, como Dia do Senhor, os cristãos procuraram solenizar o Domingo da Ressurreição. Nasce assim liturgicamente a Semana Santa. No século IV, Santo Agostinho recomendava aos fiéis de Hipona a vivência do Tríduo Pascal. Durante a Semana Santa, a Igreja celebra o mistério da reconciliação, realizado por Jesus, começando pela entrada messiânica em Jerusalém, passando pela Ceia e Cruz, culminando com sua Ressurreição. A Semana Santa convida-nos também a descobrir nos sofrimentos da humanidade a atualização da Paixão de Cristo. Segundo Pascal, “Jesus continua em agonia, misticamente, até o fim dos tempos.” Assumindo nossa condição humana, Ele revestiu-se de um corpo sujeito à dor e ao sofrimento, mas seu espírito imortal destruiu a morte.   

A Semana Santa é a celebração do Amor de Deus. E ninguém pode duvidar desse Amor pelo ser humano. Ele transcende a compreensão dos homens. Misericórdia do Pai, que se plenifica na entrega de seu Filho para nossa salvação, a fim de que ninguém se perca. Morte e Ressurreição de Cristo são a prova maior de sua doação por nós. Traduzem os sentimentos do Pai. Jesus aceitou padecer e aniquilar-se na Cruz para demonstrar nossa pobreza. Mas, Ele ressurgiu dos mortos para revelar a grandeza divina que, por gratuidade do Onipotente, existe em nós. Para os cristãos, a Cruz tornou-se símbolo de mudança de vida e redenção. 

Deus ama todos indistintamente. “Deus amou tanto o mundo, que nos deu seu Filho único” (Jo 3, 16). Às vezes, somos incapazes de compreender incomensurável gesto. Quem dentre nós, está disposto a sacrificar seu filho único (ou filha) para salvar ou trazer a paz aos outros? É essa oferta gratuita de Cristo, que vivemos e celebramos na Semana Santa. Dádiva suprema de Deus, que atinge o ser humano, manifestando sua capacidade de amar. Cristo valoriza-nos, independente de nosso amor, não porque sejamos bons e justos, mas porque Ele assim o quis para nos dar “a vida em plenitude” (Jo 10,10). Nossa salvação depende de acreditar em sua bondade para conosco e aceitá-lo. “Quem n’Ele crê, não é condenado” (Jo 3, 18). Não é vontade de Deus que as pessoas se percam, tampouco sente satisfação em condenar alguém. A alegria de Cristo é salvar cada um dos irmãos, é desarmar todos com o seu perdão. “Assim haverá maior alegria nos céus por um só pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento” (Lc 15, 7).

A liturgia da Semana Santa é um convite a descobrir Cristo, nosso Salvador, que é Luz. “Eu sou a Luz do mundo. Quem me segue, não caminha na escuridão, mas terá a luz da vida” (Jo 8, 12). Durante o Tríduo Pascal, Ele deixa entrever um vislumbre do brilho divino e abre uma fresta de esperança para cada um de nós. Foi erguido no alto da Cruz, para que todos sentissem o clarão de Deus, que tem o poder de salvar, pois é benignidade e misericórdia. Eis o sentido da celebração da Semana Santa.

Cristo vence o duelo da morte. Diante dela somos impotentes. Mas, para Ele não é obstáculo, pois para isso veio ao mundo. Nasceu a fim de trazer a Vida àqueles que n’Ele creem. Ele aceitou a realidade humana para nos dar a Vida sem ocaso. A morte é ausência de Deus. Mas, Cristo tem o poder de fazer reviver, porque é o Senhor da Vida. Ele deseja nos ressuscitar com a sua Palavra. “A quem iremos, Senhor, só Tu tens palavras de vida?” (Jo 6, 68). Que não haja dúvida, medo e desespero. Jesus veio nos libertar de tudo aquilo que nos deixa adormecidos e mortos. Sua Palavra transformará em dia as trevas, em alegria nosso pranto, em certeza nossa dúvida, em paz nossa angústia! É o que vivemos na Semana Santa, mistério insondável do Amor de Deus! Feliz e Santa Páscoa para todos. Jesus vive e reina. Como Madalena e os apóstolos sejamos arautos da Ressurreição do Filho de Deus. “Ele não está aqui, ressuscitou como havia dito” (Mt 28, 6).


terça-feira, 31 de março de 2026

 

THEREZINHA ROSSO GOMES

7º ano da PÁSCOA

            Hoje registro o sétimo ano da partida da inesquecível THEREZINHA, criatura que enriqueceu a nossa vida e deixou marcas eternas de bravura, amor, compreensão e humanismo.

            É impossível esquecê-la, apesar de tanto tempo da sua ausência física, porque a presença espiritual continua cada vez mais forte, quebrando os dizeres comuns do mundo social – de que o tempo apaga tudo.

Nossa família e seus amigos e amigas têm você presente em todos os momentos – de problemas, de comemorações e de lembranças.

Vamos louvá-la por ter existido, logo mais às 18 horas, na nossa Paróquia de São Pedro e rogo aos parentes e amigos que não puderem comparecer, façam uma oração ou um pensamento de saudade e amor para quem, em vida, só nos deu alegria.

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

 DAS DEDUÇÕES PRETERDOLOSAS

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Quando penso – Sou. Tenho receio de que alguém após o ponto diga idiota. São as chamadas observações à margem. O leitor, como já disse um fronteiriço - é um monstro na minha literatura.

Nessa vida sou pacífico, no entanto, é o mais perigoso dos oceanos.

No ruído reside toda a filosofia do mundo. Bem-aventurados os ruidosos deste mundo porque deles é o reino do caos.

Realizo em minha vida uma viagem de circunavegação. Cada mulher é um Porto Seguro. Minha plataforma não é continental, é mundana. A vida é para mim, um caso liquidado. Se ela não existisse não seria necessário inventá-la.

Vivo debruçado na vigésima quinta hora do tempo. Não sou pretensioso. Sou preterintencional. Jamais acreditei na grandeza dos antílopes feridos. São demasiadamente falsos. Entre agir e ser imbecil neste mundo, prefiro a regra três. Para o mundo tenho o silêncio. O pensamento é o único bem digno de inveja. Sua grandeza está no silêncio. Eis as duas colunas do tempo.

Não sei quem falou em ablução na água benta da aurora, mas foi um poeta. Todo o poeta traz a fronte iluminada e o pescoço na medida da guilhotina. A guilhotina dos homens é para eles a água benta da aurora. Existem, ainda, outras formas de viver: jardim, céu, estrela, mar, horizonte e, frequentemente cantar a fome. Mas, isto, direis, é sociologia. A sociologia é o folclore da miséria. O resto é foquilore.

Tenho especial carinho pelo homem sem liberdade. A liberdade não é um produto do nosso tempo. É um estado de espírito. Bem-aventurado os que têm fome e sede de liberdade porque eles serão fartos.

Se quiseres me encontrar, estou debaixo do teus pés. Cresço nas ervas de Whitman. Sou e serei sempre protegido pelos fantasmas das tardes enubladas.

Lá estão as nuvens. Os homens não as vêem. Elas em silêncio conduzem pensamentos. Mais tarde verterão a água benta da aurora. É bom banhar-se.

 

 

(*) Do Livro “O Tempo e Sua Dimensão” – 2ª. Edição – 2024 – Editora Terra de Auta.