sexta-feira, 2 de maio de 2025

 O CALVÁRIO DAS LETRAS

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

“Help! De tanto esperar já nem sei mais pedir socorro em português”. Assim falou um conhecido intelectual da paróquia que habitamos. Viu ao derredor, tudo abandonado, sucateado. Disse um amigo que pedira um catálogo do patrimônio cultural da cidade para um grupo catarinense que visitava Natal. Em João Pessoa, Recife e Fortaleza, a agenda dos turistas fora inteiramente cumprida. A expectativa era de que na cidade dos Reis Magos não seria diferente. Alguém do Rio Grande do Norte, numa das capitais antes visitadas, forneceu informações sobre alguns pontos culturais a serem visitados. Deve ter sido um guia turístico desinformado da realidade em que se encontram os bens culturais móveis e imóveis do Estado.

Apesar dos esforços dos órgãos de promoção cultural no enfrentamento dos problemas, tudo esbarra na falta de classe e de vontade política. Como explicar à sociedade e aos turistas por que o Memorial Câmara Cascudo ainda está interditado? O museu do Guaporé em Ceará-Mirim está semidestruído. O cadáver do escritor Nilo Pereira está se contorcendo no túmulo. O prédio centenário do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte urge por uma restauração, pois lá está guardada toda a história do Estado desde o período colonial. O Empório dos Guarapes, em Macaíba, patrimônio imóvel do Estado, continua desprezado e invadido. A praça Augusto Severo na Ribeira é outro exemplo de isolamento que chega a atingir o teatro Alberto Maranhão, por osmose.

A cultura potiguar está a merecer o surgimento de vozes que despertem e unifiquem o pensamento e a ação, das entidades públicas e privadas, em defesa do patrimônio histórico, artístico, bibliográfico. Aliás, tudo isso pertence com mais legitimidade ao povo do que às próprias instituições.

Lembrei-me de Guimarães Rosa quando disse que “as pessoas não morrem, ficam encantadas”. No passo rápido e mágico das emendas parlamentares as restaurações poderão surgir. No debate legislativo, a Casa de José Augusto Bezerra de Medeiros, justamente com o Palácio Felipe Camarão, alí, pertinho, poderão ser a maternidade dos projetos, lua nova de ações e discussões, ouvidas, igualmente, as instituições da cultura, do comércio, da indústria e dos serviços. Não construo alegorias. Busco claridades. Visibilidades.

A decadência do bairro da Ribeira é uma fratura exposta do empobrecimento de Natal. Certa noite, vindo da Rampa, cruzei as ruas Frei Miguelinho, Tavares de Lyra e Doutor Barata. Um calafrio se apossou do corpo. Me assustei, e confesso: tive medo. Veio-me à mente uma ressurreição de imagens dos anos cinquenta, com vultos de almas taladas a ferro e a fogo. Nostalgia, silêncio, tudo deserto. A Ribeira, à noite, é um cemitério de poucos vivos e muitos mortos.

É a assombração que já está subindo a ladeira da Junqueira Ayres (Câmara Cascudo) para chegar a Cidade Alta. Se a Assembleia Legislativa e a Prefeitura saírem dali, o bairro fecha pra balanço. Não existe projeto, à olho nú, de revitalização económica, social, cultural para nenhum desses logradouros. Ninguém constrói nada!

No Nordeste, Natal ocupa a lanterna, atrás de Fortaleza, Recife, João Pessoa e Maceió. E o Rio Grande do Norte também. O mal é que as emendas parlamentares continuarão sendo fatores de erro de cálculo no serviço público brasileiro. A Ribeira e a Cidade Alta permanecem dignas de compadecimento pelos seus mistérios circundantes. Precisam ser revisitadas, restituídas e que as transformações do tempo não sejam pelo silêncio nem pelo abandono.

 

(*) Escritor.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

 


Adeus, Papa Francisco

Padre João Medeiros Filho

Segundo vaticanólogos, Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa contrariando previsões de dignitários eclesiásticos. Isso mostra, apesar das fragilidades humanas, o sopro divino dentro da Igreja Católica. Francisco era uma figura carismática, cuja missão consistia em reconquistar a credibilidade eclesial junto à sociedade hodierna, em parte materializada e alheia ao Evangelho. Não há dúvidas de que seus gestos e palavras contribuíram para tanto. Pastor misericordioso, despojado, voltado para os problemas e causas importantes, urgentes e justas. Usava paramentos, relógio e sapatos simples, sem a marca de notáveis fabricantes, tendo apenas aquela do seu despojamento. Sofreu inúmeros ataques por parte de seus opositores, inclusive autoridades do clero. A falta de escrúpulo e o desespero de alguns manifestavam-se acintosamente. Uma corrente insistia em denegri-lo e desestabilizá-lo. 

A eleição de Francisco tornou a Igreja mais exposta, como entidade milenar, enclausurada em suas estruturas e tradições. Reiterou a importância de uma Igreja livre e ágil para cumprir sua missão. Isto incomoda, pois tal liberdade pressupõe riscos no caminho que leva aos sofridos. O Abbé Pierre, apóstolo dos excluídos franceses, referindo-se aos a seus oponentes, dizia: “Eles têm as mãos limpas, pois não costumam tirá-las das luvas ou dos bolsos.” Para quem se apega à segurança institucional, uma Igreja mais despojada é uma proposta arriscada, sobretudo no mundo de hoje, fluido e fragmentado. As reações contrárias a Francisco revelaram o medo de que a instituição se perca. A oposição ao papa argentino tecia críticas a uma concepção de Igreja que assusta, pois relativiza o poder. Dir-se-ia, mais exatamente, a ilusão do poder, posto que se presencia o desempoderamento clerical. Este não ocupará mais no mundo secularizado o mesmo espaço de outrora.

Os adversários de Francisco não queriam discutir ideias teológicas sobre aquilo que a Igreja poderia ser ou não. Demonstravam abertamente sua rejeição à mudança estrutural externa pela qual ela eventualmente poderia passar. Temiam pelo desaparecimento de seus privilégios, pelo fim de seu prestígio e que sua riqueza fosse somente o amor ao próximo (desmistificando a pompa, “a pastoral do pano”, a ostentação e a glória) e suas mordomias se transformassem em pão na mesa dos famintos. Mostravam um receio de que a Igreja olhasse para todos de igual forma, enchendo-se de pecadores, pois não estavam preparados para isso.  “Ide, pois, aprender o que significa: misericórdia eu quero, e não sacrifícios”, afirmava Jesus (Mt 9, 13). O Papa Francisco manifestou-se líder inaudito e insólito. Este surpreendia, ao buscar a transformação das estruturas eclesiásticas e do mundo. Muito se escreveu a respeito de suas atitudes. São icônicas, despertando para uma Igreja em transformação, apesar de lenta. Por isso, o papa latino-americano foi amiúde vítima de invectivas implacáveis, desrespeitosas e injustas, advindas, mormente, dos irmãos eclesiásticos.

Os opositores de Bergoglio não se quedavam tranquilos. É compreensível, ainda que inaceitável. Os paladinos do “status quo” defendem a “segurança” e, nesse sentido, toda perspectiva de mudança soa como ameaça. Foi também assim com Jesus. A nova proposta da imagem de Deus trazida pelo Mestre punha em questão elementos da religião de seu povo. Nesse sentido, explicam-se as palavras de Caifás: “É melhor um só morrer do que perecer todo o povo” (Jo 11, 50). A morte de Cristo significou para as autoridades da época “a defesa da religião”. O mesmo se pode dizer da oposição orquestrada a Francisco. Tal reação, tanto a dos seus adversários, como aquela dos êmulos de Jesus, revela falta de percepção e apego à instituição temporal. Cristo veio anunciar a Boa-Nova, de Paz, Justiça e Salvação. Sobre isto o Santo Padre chamou a atenção. E com humildade procurou abrir as portas da Igreja para que os cristãos respirassem o ar puro do perdão e da graça divina. É certo que uma Igreja dirigida por seres humanos seja passível de cometer pecados e erros, mas deverá reconhecê-los e corrigi-los para continuar a ser o sacramento de Cristo. Alguns clérigos esquecem ainda hoje as palavras do Mestre: “Entre vós, não seja assim, quem quiser ser o maior, seja aquele que vos serve” (Mt 20, 25). Cristo terá dito à chegada de Francisco no Céu: “Vem bendito de meu Pai. Recebe em herança o Reino que Ele te preparou” (Mt 25, 34).

 Mensagem de Páscoa (2025) Padre João Medeiros Filho Vivemos num mundo confuso em relação aos valores da vida. Estamos inseridos numa sociedade atordoada, insensível ao Transcendente. Participamos de uma civilização descrente de um futuro melhor. Cabe-nos perguntar: o que falta, hoje, à Páscoa de Cristo? O que é preciso para que a Ressurreição de Jesus possa transformar e renovar o mundo e os homens? Primeiramente, é fundamental acreditar na Vida que é Cristo. Ele venceu a morte! Sim, em meio a tantas notícias desalentadoras de violência, fome, corrupção, impunidade, violação à justiça, nós cristãos temos o dever de anunciar que Jesus veio trazer a paz. “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz” (Jo 14, 27). Para celebrar a Ressurreição de Cristo, mister se faz sentir a presença de Deus, que veio morar conosco, descendo ao nível mais ínfimo da humanidade. Ele pregou a dimensão da fraternidade. Neste tempo de tanto ódio, desconstrução e insana polarização ideológica, fartamente disseminada pela mídia, somos chamados a proclamar que a renovação, o perdão e o amor são possíveis. Entretanto, é necessário crer nas palavras de Cristo: “Confiança, eu venci o Mundo” (Jo 16, 33). O Brasil não merece viver de mentiras, narrativas, desonestidade e violência, e sim do verdadeiro Amor que vem de Deus. Aos que creem em Cristo, desejamos enfatizar o compromisso de construir um mundo novo, a civilização da vida e do diálogo, visando à harmonia. Como gostaríamos que a Boa Notícia fosse largamente difundida, levando todos a viver tempos novos! Que Cristo Ressuscitado traga alívio e esperança, suscitando um renovado dinamismo nos governantes, para que sejam melhoradas as condições de vida de milhões de cidadãos, eliminando a nefasta praga da corrupção e a deletéria farsa eleitoreira. Feliz Páscoa para todos. Passagem da violência e do ódio para a paz. Passagem da tristeza e do desespero para a alegria e esperança, das trevas para a luz. Passagem do desânimo e descrédito para a fé, inefável dom divino. Que haja Páscoa para o Brasil, passagem das inimizades para a concórdia, das contendas e conflitos partidários para a pacificação do país. O Povo precisa viver em clima de união e fraternidade. Para tanto, é preciso vislumbrar o brilho da Luz de Cristo, presente no símbolo do Círio Pascal. “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12), disse o Mestre. Emaús, em Parnamirim, aos 20 de abril de 2025

quinta-feira, 17 de abril de 2025

 





Celebrar a Semana Santa, em 2025 

Padre João Medeiros Filho 

A Semana Santa nos faz relembrar o sofrimento de Cristo em tantos irmãos nossos, vítimas de injustiça, desprezo, abandono e engodo político. Em cada Tríduo Pascal, renovam-se o mistério da dor e a alegria da vitória. O Filho de Deus assumiu a nossa existência em tudo o que ela contém de esperança e desespero. Sua Morte é a manifestação da fragilidade de nosso ser e sua Ressurreição, o sinal da dimensão infinita do homem. Nossa história torna-se presente. Não celebramos apenas fatos do passado, e sim tudo o que somos. O Verbo Divino encarnou-se, quando se “fez homem e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Sofrendo, Ele desmascara a estrutura injusta da humanidade. Ressurgindo, proclama a vitória sobre o pecado, simbolizado na destruição e na angústia humana. A Semana Santa – memorial da misericórdia divina – revive a resposta suprema de Cristo à tentação e ao desafio cotidiano do mal. Jesus provou sua solidariedade incondicional pelo ser humano. Por isso, deixounos o sacramento da Eucaristia: sinal inefável e permanente da Bondade divina. Jesus não tem somente palavras de conforto. Mas, entrega sua vida para selar a união do Pai com a humanidade. “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18). A presença diária de Cristo em nossa vida está assegurada pelo Pão Eucarístico, que se torna nossa força. Ele caminhará ao nosso lado, como outrora fizera com os discípulos de Emaús. Ao se entregar como nosso alimento, Ele quis mostrar que tomar a refeição juntos representa partilha e comunhão. Convida-se à mesa quem se ama e considera. Eis o sentido da atitude do Redentor, que expressa sua plena doação, vivenciada na Quinta-feira Santa. Quem ama, serve e se doa. Esta é uma das lições do Senhor, antes de dar a sua vida pela salvação de todos. Ele revoluciona o conceito de importância e grandeza. Nobre, grande, importante é quem serve, não quem é servido. Devemo-nos lembrar constantemente das palavras de Jesus: “Estou no meio de vós, como quem serve” (Lc 22, 27). Eis o significado maior do Lava-Pés. Para os cristãos, amar é servir. Na Última Ceia, o Salvador recomenda: quem ocupa o lugar de honra, deve descer ao nível do ser humano para mostrar-lhe a sua dignidade. O Senhor ensina através de exemplos. Isto consiste também em ser Mestre. “Vós me chamais de Mestre e Senhor” (Jo 13,13). O Filho de Deus inaugura uma nova mentalidade pelo gesto insólito do Lava-Pés. A Semana Santa é a celebração da total doação divina. Esta, diante da lógica dos homens, chega a beirar à insanidade. E ninguém pode duvidar: é a “loucura de Deus” (1Cor 1, 25), traduzida e plenificada na entrega de seu Filho Único à morte, a fim de que ninguém se perca. A Paixão e a Ressurreição de Cristo são a prova maior de seu amor por nós. Jesus aceitou padecer e aniquilar-se na cruz para demonstrar nossa condição, o nada de nosso ser humano. Mas, Ele ressurgiu para revelar nosso destino e nossa vocação, sobretudo a magnitude divina que existe em nós. Para os cristãos, a cruz tornou-se símbolo de conversão e lugar de salvação. A Ressurreição significa os anseios de uma vida nova e busca da dimensão verdadeira de nossa existência. É fruto da clemência de Deus, que tudo recria. Assim é a Páscoa, também esperança e não apenas memorial. Dá-nos a certeza: Ele ressuscitou e não morre mais! Ensinou-nos que o amor, nascido do perdão, é mais forte que a própria morte, pois é Vida. Quem ama, fala muito do amado. É o testemunho. Por isso somos chamados a proclamar o Ressuscitado. Cabe-nos, pois, levar o Cristo à humanidade marcada por sinais de opressão e aniquilamento. No primeiro dia da semana (Jo 20, 1), Maria Madalena foi à procura do corpo do Salvador. Inicia-se assim a nova criação, nascida da alegria e da vitória. Somos vencedores e não derrotados, eis a mensagem central da Semana Santa! Feliz Páscoa, marcada pelo desejo de um Brasil melhor e um mundo sem guerras! “Por que buscais entre os mortos Aquele que está vivo?” (Lc 24,5)

 PRELÚDIO E FUGA DO TARIFAÇO

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Determinismo histórico dizem que existe. Há dezenas de casos tanto na política brasileira como mundial. Nunca foi tão fácil adivinhar a destruição do nosso planeta, num futuro não muito distante, vítima da poluição da atmosfera, dos mares e da natureza. Prever a paz na África, na Ucrânia e no Oriente Médio, por exemplo, é mero exercício de retórica. A gênese da questão palestina não é territorial, apenas, mas religiosa; desde o tempo do sultão Saladino e as Cruzadas do Vaticano. Óbvio ululante. Profecia é coisa séria. O dom de profetizar só ocorre com o apoio do Espírito Santo. Assim falou Malaquias. E antes dele, Zacarias, Ageu, Sofonias, Habacuque, Naum, Daniel, Oséias, etc., sem falar em Isaías, o maior deles. Não foram adivinhos mas profetas de verdade.

Após essa viagem de circunavegação polar em torno do assunto, chego a Natal, a “cidade” dos Reis Magos, adventícios, visionários, adivinhos e proficientes. Não se torna necessário recorrer a eles para distinguir ou antever recessão de Natal (Ribeira e Cidade Alta). Se assim fosse, eles teriam se estabelecido nas Rocas e deixado uma banca invejável de cartomantes e curadores. Baltazar, Gaspar e Belchior ficaram mesmo perdidos no deserto das arábias em vez das dunas da Redinha.

Não precisa ser profeta para chegar a conclusão que não emplacará 2030, sem que as avenidas de Natal se tornem intransitáveis. O número de veículos que circula já é maior, hoje, que a capacidade de sua malha viária. Estão financiando carros para pagar em sete anos (84 meses). Qualquer pessoa, com apenas um salário, sai de uma loja ou concessionária, sem avalista, lenço ou documento, dirigindo por aí. Quando acontecer uma crise econômica no país, quem vai para o beleléu: a financeira ou a seguradora? Já prevejo filas de carros abandonados nas vias públicas por inadimplentes enlouquecidos. Não desejo que isso ocorra, mas o calote vai ser geral.

Outro tema para o qual não se exige douta profecia está nas religiões. Algumas modificam o cristianismo ao seu bel prazer e conveniência. A boa nova para arrebanhar seguidores reside no apelo musical. A conversão está no tom. Jesus Cristo é fulanizado em forró, axé, lambada, brega, carimbó, swing e pagode. Em breve, em vez de MPB, surgirá a MPR (Música Popular Religiosa). Segundo os ruidosos desse mundo nada mais espiritual, após a palavra, que dançar um relabucho em alguns templos. Dizem eles que a unção é contagiante. Não precisa ser profeta para antever que essas religiões tendem a fazer desaparecer o Cristianismo. Não é por aí o caminho. Estão profanando o nome de Deus.

Não quero ouvir falar no desmonte da “Lava a Jato”, peça por peça. O velho Proudhon, o rabugento e radical filósofo francês doutrinava naquele tempo que a “propriedade privada é um roubo”. Mas, roubo mesmo meu caro “Proudha”, é o “tarifaço” compulsório e compulsivo dos juros dos cartões de crédito e emendas parlamentares. Pensei falar com o Procon, uma entidade fundada por Robin Hood para defender os fracos e oprimidos. Mas não há para quem apelar. Todos estão comprometidos. Até lá no S.T.F. Gilmar Mendes e Toffoli estão inocentando Antonio Palocci, confesso réu da Operação Lava à Jato.

Por isso, vou embora para Baraúnas. Lá eu tenho o SUS. Me alistarei no Bolsa Família e, quem sabe, no MST quando me sentir entediado. Quando volto? Não sei! Também não vou sofrer tarifaço! Quero, apenas, uma casa pequena de uma porta e uma janela. Lá vou ser eleitor dos Rosados. Desejo contemplar da janelinha aberta o vendedor de cuscuz e de munguzá. A simplicidade das coisas, da chuva caindo – quando o milagre acontecer – com goteiras pingando na sala sem móveis. Para trás, as notícias de pacientes que morrem nos corredores das UPA’s e hospitais. Nem PIS, nem whatsapp.

(*) Escritor.

terça-feira, 8 de abril de 2025

 Chatos e chatices em ascensão Padre João Medeiros Filho A maioria das pessoas passa por situações incômodas, inoportunas e inconvenientes. Outrora, o telefone fixo era o campeão de aborrecimentos. Os tempos mudaram. Hoje, há muitas vítimas das redes sociais. O toque do celular é constrangedor, fora de hora e lugar. É aborrecido, quando alguém interrompe uma conversa importante para atender o telemóvel, como dizem os lusitanos. Com o advento desse aparelho o encontro presencial passou a ser secundário, o interlocutor fica em segundo plano e compasso de espera. Não se respeitam os avisos para desligar os celulares em igrejas, teatros, auditórios, hospitais, clínicas, salas de aulas etc. Existem sempre os “esquecidos”, transgredindo essa regrinha básica de convivência social. Faz-nos lembrar o livro de Guilherme Figueiredo “Tratado Geral dos Chatos”, publicado em 1962 pela Editora Civilização Brasileira. O autor descreve a chatice como falta de educação, inconveniência, grosseria etc. Cita vários tipos de chatos: o etílico, o donjuanesco, o confidencial (que fala ao pé do ouvido e cospe na cara do interlocutor), o chato-de-galocha e outros tipos: o pseudoerudito, puritano-virtuoso, professoral, orador de ocasiões, o verborrágico ou diarreico de palavras, o que padece com prisão de ventre de ideias, em suma, uma pletora de chatonildos. Poder-se-ia acrescentar outras categorias desses personagens. Entretanto, é impossível fazer um levantamento completo, pois eles se multiplicam numa velocidade estonteante, acompanhando o avanço tecnológico. Recentemente, apareceram com força o e-chato, o politicamente correto, o academicamente exato, o fundamentalista religioso etc. Há os que pregam mudanças (imposições), através de um determinado partido, considerado por eles o escolhido de Deus. Molestam demasiadamente, quando pretendem convencer que seu discurso é o científico e ético, o único capaz de mudar e salvar. Segundo alguns psicólogos, a proliferação dos chatos decorre do crescimento da intolerância entre as pessoas. Relacionam entre tantas causas: o declínio do sentido de civilidade e o surgimento de novas conquistas técnicas sem a contrapartida de regras sociais específicas para o seu uso. Uma análise acurada da vida cotidiana, da organização familiar e social poderia trazer maior clareza sobre as fontes e causas do aumento do número de chatos e chateados no mundo. Existe algo que deixa uma pessoa preocupada: a possibilidade de ser igualmente um chato, mesmo inconsciente ou involuntariamente. Ninguém está imune a tal defeito, que afeta milhares de seres humanos, contagiando outros tantos. Assegura-nos o apóstolo Paulo: “Aquele que vos perturba, seja quem for, terá o merecido castigo” (Gl 5, 10). Muitos são vítimas de ligações desagradáveis, aborrecedoras e chatas. São aqueles que insistem em telefonemas, oferecendo empreendimentos de diversos tipos. Recebemse chamadas de instituições filantrópicas, operadoras de telefonia ou televisão a cabo, internet etc., com planos mirabolantes. Existem os que oferecem túmulos e planos funerais. Essa é uma realidade inexorável, mas não deverá ser abordada em horas impróprias. Há quem ofereça, mediante pagamento, o repasse de cadastros de telefones, endereços, e-mails para mala direta, ao arrepio da Lei nº 13.709/18. Como se não bastassem, há outros tipos de chatices no whatsApp. Exemplo: as famosas correntes supersticiosas, deixando os indivíduos constrangidos, caso pensem em quebrá-las. Os anos eleitorais são pródigos dessas atividades, marcados por uma enxurrada de cartas, panfletos e telefonemas, gravados por algum artista ou pelo próprio candidato. Deverá haver alguma medida jurídica para diminuir tanta coisa que nos apoquenta. Um amigo encontrou uma maneira de diminuir telefonemas impertinentes e tediosos. Ao verificar que se trata de chamadas de “telemarketing” ou “spam”, oferecendo isso e aquilo ou pedindo contribuição para entidades (cuja idoneidade é duvidosa ou desconhecida), ele emprega os métodos dos importunadores. Atende à ligação e diz: “Um momentinho, por favor!” Coloca uma música e deixa o interlocutor esperando. Interrompe duas vezes e diz: “Não desligue, converso já.” Isso faz com que a chamada tenha uma duração longa, atrasando a meta prevista de contatos. Não se deve esquecer que chatear alguém é falta de educação e caridade. O Livro dos Provérbios faz uma recomendação prática: “Afasta o pé do teu vizinho, para que saturado de ti, não venha a te detestar” (Pr 25, 17).

quinta-feira, 3 de abril de 2025

 ENQUANTO NÃO CHEGA 2026


Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com
O Rio Grande do Norte é conhecido e estigmatizado por
gastar o tempo com discussões marginais, supérfluas e estéreis. Soou a
trombeta eleitoral do início da campanha do ano 2026. E com ela fica
decretado que os homens públicos estão livres do jugo da ação da mentira.
Não mais será preciso usar a carcaça da desfaçatez para denegrir o seu
semelhante. A praça pública não pode transformar-se em rinha real,
escarlate, com suas armadilhas e surpresas. Que a baba e a saliva dos
profissionais da política não estilhacem vidraças. E que os ácidos
laboratoriais com seu chiado contínuo e enfadonho não prevaleçam sobre
os lares honrados.

É preciso exorcizar as teorias esquisitas do pântano
enganoso das bocas detratoras. Pelos caminhos do litoral e do oeste não
vamos esquecer o andarilho alísio caminheiro portador de boas novas de
milho e feijão verde. Do Mato Grande o vento carpidor e viajante vai
modelar no dorso a canção triste de antigas estiagens. No palanque do dono
da eleição nenhum vento plangedor romperá a brida do cavalo aboiador.
Nessa eleição é preciso que a verdade seja servida antes
da sobremesa. Lembrem-se que candidato e eleitor são lobo e cordeiro e
que jantarão juntos . O pasto do político é qualificado, mas ele sabe que a
fome é certa. Determinados candidatos possuem uma malandra e esperta
fome de guaxinim. E o eleitor sempre foi um ser privatizável, inconsciente
e circunstancial. Vamos cultivar as boas ações. Tudo vai passar. Aquelas de
melhores dividendos serão leiloadas pelo Banco da Providência.
Imprivatizável. Indevassável. Anti-Proer. Inassaltável. Lugar onde o
dinheiro jamais poderá comprar o sol das manhãs vindouras. Local onde os

moedeiros falsos do papel podre das emendas parlamentares jamais
entrarão. Mesmo diante do difícil e corruptível instituto da reeleição, que os
eleitos saiam das urnas limpos e acreditados. O processo eleitoral não pode
se cobrir de manchas e distorções irreparáveis. O político é um ser que ama
somente a si mesmo. É tempo de divórcio. É obrigatório flertar com o povo
porque no baile da eleição é proibido o uso de máscaras. Passou a
pandemia.

Nesse país, grande templo dos desafortunados e famintos,
todos os ídolos têm pés de barro. Principalmente os ídolos oficiais de certos
políticos, que entram e saem de cena como bufões.

A ninguém não podem mais enganar. O processo de
empobrecimento do Nordeste, em curso, em nome de uma falsa
modernidade, não se restringe só aos bancos, às empresas estatais, mas,
principalmente, ao Poder Público, aos Estados e Municípios, visando
enfraquecê-los e deixá-los inferiores, de pires à mão, genuflexos. Até
parece que, em nome do real, se preconiza o nascimento de um Estado
Unitário, Monetário, Autoritário, Confederado, mas libertino porque
subjuga e corrompe governadores e parlamentares. Ultrajante é a violência
institucionalizada no país. Obsceno é o patamar dos juros bancários.
Hediondo é o estado falimentar do agropecuarista brasileiro.

(*) Escritor.

 

Sobre coelhos, colombas e ovos de páscoa

Padre João Medeiros Filho

Durante anos, elaborei projetos de cursos de teologia a fim de obter autorização de funcionamento do Ministério da Educação. Ali, incluía no perfil do teólogo a assessoria teológico-cultural a órgãos públicos e privados. Se houvesse tais graduados nas fábricas de chocolates Nestlé, Garoto, Kopenhagen, Cacau Show, Cacau Brasil etc., talvez os empresários mudassem de direcionamento e não produzissem coelhos, colombas e ovos pascais. Não se sabe exatamente quem fez a ligação de chocolate com a Ressurreição de Cristo. É corrente citar o coelho como símbolo de fertilidade e os ovos, o princípio da vida. Para muitos trata-se de uma metáfora um tanto forçada. Na Páscoa comemora-se a vitória de Cristo sobre a morte. Por isso, sua força renovadora requer algo mais simbólico, como a Luz do Círio, elemento litúrgico da Vigília Pascal. Cristo dissera: “Eu sou a Luz do mundo” (Jo 8, 12).

Há tempos, Luiz Fernando Veríssimo escreveu uma crônica sobre o tema. Reproduziu parte do diálogo entre um menino e seus pais sobre essa festa. A narração termina com a observação da criança: “Acho que se deveria substituir o coelho por uma galinha. Esta põe ovos, aquele não.” Não convêm histórias que podem confundir ou deformar a mente das crianças e pessoas incautas. Os textos bíblicos e litúrgicos não fazem referência a coelhinhos, colombas e ovos, elementos atuais da comemoração pascal.

Historiadores narram que antes do cristianismo, celebrava-se entre os povos anglo-germânicos a deusa Eostre (conhecida como “deusa da aurora”), da primavera e da fertilidade. Ainda hoje, ela é celebrada na tradição celta. Na Europa o período pascal ocorre sempre na primavera. Considerando a fecundidade dos coelhos, fizeram uma ligação com a Páscoa e o aumento de cristãos nos primeiros séculos. Entretanto, nela vivencia-se a renovação da vida espiritual e não a procriação ou fertilidade. Nas igrejas de ritos orientais (bizantino, ucraniano etc.) há o costume de pintar ovos e presenteá-los aos vizinhos na oitava pascal. Para eles, os ovos lembram o princípio da vida. Todavia, teólogos cristãos consideram elementos pouco significativos da plenitude da Vida em Cristo. O apóstolo Paulo já advertia: “Que ninguém vos faça prisioneiros de filosofias e conversas sem fundamento” (Col 2, 8).

Ultimamente, para simbolizar a Páscoa, optou-se pela pomba. Para alguns é mais icônica. A passagem do Gênesis sobre o dilúvio e a Arca de Noé (Gn 6, 11-20) narra que a pomba voou, apanhou um ramo verde de oliveira e o trouxe até Noé. Ela passou então a ser símbolo de vida. Uma das telas comoventes de Picasso é uma menina com uma pombinha em suas mãos. Os Evangelhos ressaltam que o Espírito Santo no momento do batismo de Jesus, “desceu sobre Ele em forma de pomba” (Lc 3, 22). Talvez, esses dados tenham influenciado a fabricação de colombas pascais, um tanto desfiguradas, segundo vários artistas sacros. Nenhum desses símbolos expressa com profundidade a Vida nova, trazida pela Ressurreição de Cristo.

Muitos desconhecem o significado da Páscoa. Continuam associando aos coelhos, ovos, colombas e outras guloseimas de chocolate. Desconhecem o seu sentido e não a celebram com uma mentalidade bíblico-religiosa. No período que antecede a Semana Santa, há toneladas de ovos de chocolate e outros produtos similares, em supermercados e lojas. Não há uma palavra sequer sobre o que representa a Páscoa. Fabricantes cristãos de tais produtos poderiam pôr ao menos nas embalagens um folheto explicativo sobre essa importante festa do cristianismo. Como faz falta um conhecedor da cultura religiosa. Quando estudava na Bélgica, ouvi de um sacerdote da Igreja Ortodoxa Russa que nela a Ressurreição é a solenidade máxima dos católicos. O comunismo, com todas as suas narrativas e imposições, não foi capaz de destruir a alma do povo, tocada pela fé cristã. No alvorecer do Domingo de Páscoa – retratado pelo clarão do Círio – as pessoas saem pelas ruas e se cumprimentam: “Cristo ressuscitou!” Responde-se com um largo sorriso: “Sim, Ele está vivo!” Na minha primeira noite pascal em Louvain, um jovem presenteou-me um Círio e dissera: “Cristo ilumine a tua vida e o teu Brasil.” Recomenda o apóstolo Paulo: “Faz-se necessário renovar-vos pela transformação espiritual de vossa mente” (Ef 4, 22-23).

segunda-feira, 24 de março de 2025

 

Centenário de Irmã Lúcia Vieira

Padre João Medeiros Filho

No dia 14 deste mês de março de 2025, celebra-se o centenário de Irmã Lúcia, hoje habitando o Céu. Os Atos dos Apóstolos e as Epístolas relatam que Cristo era seguido e servido por santas mulheres, durante sua permanência neste mundo. Não há como esquecer Maria de Mágdala, Marta e Maria e outras tantas colaboradoras de Jesus e dos apóstolos. Esse fato não é apenas exclusivo dos primeiros séculos do cristianismo. Em Caicó, no alto sertão seridoense potiguar, outra mulher, pequena de estatura, mas gigante pelo amor e caridade, conhecida por Irmã Lúcia Vieira foi exemplo de discípula do Mestre da Galileia. Conheci e privei da amizade da referida religiosa, desde os tempos em que fui residir em Caicó como seminarista, e anos depois, na década de sessenta, como sacerdote e pároco de São José.

Ao longo de décadas, tive contato com a referida religiosa, ícone do amor aos pobres e deserdados, cujo interesse era apenas viver o Evangelho de Cristo. Catequista, professora, superiora da comunidade das irmãs, ministra da eucaristia, Irmã Lúcia era o rosto visível de Cristo, no bairro da Paraíba, em Caicó. Sou testemunha do seu zelo pastoral. Prestava assistência religiosa total aos pobres do bairro onde residiu, no Abrigo Professor Pedro Gurgel. Batizava, levava a comunhão aos doentes, preparava noivos e padrinhos para os sacramentos do matrimônio e do batismo, catequisava os crismandos e as crianças que deveriam fazer a primeira comunhão. Encomendava os corpos dos irmãos que partiam para a Casa do Pai. Só não confessava, porque não era sacerdote, mas ouvia os lamentos e gemidos dos sofridos e pecadores. Chegava aonde os padres de Caicó não assistiam, cheia de ânimo, compreensão e ternura. Costumava eu dizer a Dom Manuel Tavares de Araújo que no Abrigo Prof. Pedro Gurgel havia duas Senhoras das Graças: a Mãe do Céu e Irmã Lúcia, sempre disposta a levar a graça divina, o carinho de Deus e o mimo celestial ao próximo.

Burocracia e insensibilidade juntaram-se para retirar as irmãs da direção do Abrigo. Mas, Irmã Lúcia transcendia os muros daquele asilo de idosos. Seu campo pastoral não tinha limites para o seu amor e caridade. Transferiram a freirinha de Caicó. Arrancaram-na como se retira uma mãe do meio de seus filhos. O lamento e o choro destes não foram ouvidos. Muitos queriam que ela fosse sepultada em Caicó, onde morou por décadas. Foi negado ao povo o seu desejo. A santa religiosa tentou justificar para os seus filhos da alma, (“los hijos del alma”, segundo Miguel de Unamuno) a atitude dos superiores. Na sua profundidade espiritual, exclamou: “Não me pertenço. Sou de Deus e da Igreja.” Sim, Irmã Lúcia, nós também somos Igreja e filhos de Deus. Tínhamos o direito de exigir. Mas, a senhora nos ensinou a virtude da obediência, como expressão da humildade e mansidão. Irmã Lúcia, sua vida era marcada de candura, compreensão e alegria. Lamentavelmente, uma parcela da Igreja instituição não soube reconhecer, tampouco vislumbrar a sua grandeza. O seu galardão foi recebido no Céu. Irmãzinha, a Senhora deve ter ouvido de Cristo, quando adentrou os umbrais da Eternidade: “Vem bendita de meu Pai, recebe a herança que o Senhor te preparou, desde a criação do mundo” (Mt 25, 34).

 


ESSAS FLORES

Essas flores que nascem às margens do rio
Nada ficam a dever às flores de meu jardim.
Essas poesias que surgem do nada
E se vão levadas pelo vento do imaginário
Também não são menores que aquelas
Nascidas do clássico ofício de escrever...
Esses amores...
Ah!, esses amores...
São lindos esses amores que não precisamos guardar
E sobrevivem à margem de tudo
Pela graça da vida
Na liberdade que transcende o nosso querer...


-  Horácio Paiva

 ROSADOS - ROTAS DE COLISÃO E PAZ

 

Valério Mesquita

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Dix-Huit, o velho alcaide, como gostava de ser chamado, pertenceu ao PDT e pediu passagem para ingressar no PPR. Ele integrava a saga dos Rosados que edificou o país de Mossoró ao lado de outros obreiros, irmãos na argila e no sangue. De longe, sempre admirei a união da família Rosado, emblemática, carismática, atávica, mágica. Era o mistério da unidade. O tempo implacável, com as suas angústias, dividiu a família plantando-lhe as sementes da discórdia. Sofridos, abatidos por tragédias, sucumbiram ao peso medonho das amarguras cotidianas do insensato jogo do poder e da política perversa - amor de perdição.

Mossoró, hoje é um país confederado. Fragilizou-se igualmente a Roma, quando dividiu o império para ser destruída depois pelos bárbaros. Desde Dix-Sept, Mossoró teve tempos idos e vividos, consumados com tanta generosidade e autenticidade de espírito, com tanta sensação de se perfazer a aventura da vida com grandeza interior, que hoje não tenho como deixar de proclamar que os Rosados eram felizes e não sabiam.

Com Vingt, perdemos a figura do líder político típico, tópico e até utópico, como foram Dinarte, José Augusto, Georgino e Juvenal Lamartine. Vingt foi o coquetel humano de todos eles. Dix-Huit é o perfil do burgomestre com raízes telúricas e emocionais, daqueles que tem a cara do seu município e de sua gente. Dispunha de ineludível capacidade de reinventar o fluxo virtual da sua atividade, assumindo os contornos de um lirismo político inaugural que contrasta com a presente politicagem dominante na cidade.

Evidentemente, que outros fatores também contribuíram para a queda desse mundo político semidesaparecido. É preciso que se devolva a Mossoró o sentido e o rumor do humano, da civilidade, da paisagem e do tempo. A recomposição dos gestos e os exemplos do passado, voltando-se a resgatar a Mossoró libertária, lutando, resistindo sempre, com paz e amor, portanto, ao som das mesmas canções eternas. Naquele tempo eu dizia ainda sobre o velho mestre: “A vinda de Dix-Huit para o PPR não desagrega. Congrega, conflui. Não consagra nem desconsagra ninguém. Não é uma atitude contra ninguém. Vem para o PPR e não para o PSDB ou PMDB, por isso não cabe veto. Vem se aliar àqueles que já estão na Unidade Popular. Sob o mesmo manto, a mesma égide, pode ressurgir, quem sabe, a paz. A paz fraterna, cósmica, que tanto a família mossoroense deseja”. Tal previsão não ocorreu. E o rompimento da família foi o começo da derrocada.


                                                                      (*) Escritor