quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

OLAVO LACERDA MONTENEGRO, O MÚLTIPLO DESBRAVADOR  
A pessoa é para o que nasce. O dito cabe à perfeição na trajetória de vida do agropecuarista, empreendedor e político potiguar, Olavo Lacerda Montenegro. Nascido na cidade de Macau (RN), a 25 de dezembro de 1920, filho do pecuarista e salineiro, Manoel Pessoa Montenegro (Manezinho), também natural de Macau, e de Maria Lacerda Montenegro, a qual empresta o nome a uma das principais avenidas de Nova Parnamirim (avenida Maria Lacerda Montenegro), localizada na zona Sul de Natal.   Olavo foi o varão da família. Nasceu, a bem dizer, em berço de ouro. A infância foi na fazenda do pai, onde aprendeu as primeiras letras, vez que existia na propriedade um grupo escolar. Os estudos avançaram no Colégio Diocesano de Mossoró, onde tomou lições, inclusive de vida, por três anos. De Mossoró, veio para Natal estudar no Colégio Marista. Concluídos os estudos na capital, o jovem Olavo parte para o Recife com o intuito de cursar agronomia. Na Veneza brasileira, decepcionou-se com a faculdade que queria ensinar a ele o que já sabia na vida rural. Durante um São João, no Assú, comunica ao pai que não voltará mais para o Recife. Resolve fixar residência no Vale e assumir as duas fazendas doadas por Manezinho no nascimento.   Mas o destino quis que o adolescente fosse convocado para a Segunda Guerra. Retorna para a capital para servir na Base Aérea de Natal. Na torre de comando da Base, assistia toda manhã os aviões decolarem para Dakar, no Senegal, e da África para a Europa, com o escopo de combater o nazifascismo. No período da tarde, o pracinha presenciava a chegada das aeronaves vindas de Miami, via Belém do Pará, onde abasteciam para prosseguir voo até Natal. Eram cerca de dois mil aviões diariamente na Base, entre chegadas e partidas. O certo é que Olavo não precisou voar para combater o Eixo do Mal. Nos dias de folga da caserna, costumava flanar pela Ribeira, com os amigos do Assu, pilotando um automóvel conversível presenteado por dona Maria Lacerda. Gostava de frequentar a Rampa, o cais da avenida Tavares de Lira e a Confeitaria Vesúvio.   Em um sábado na Base, quando se preparava para partir para a Ribeira, o oficial do dia cortou suas asas e escalou Olavo para lavar os banheiros, mesmo de folga. O episódio mudou a vida do jovem, porque após cumprir com a obrigação, deu carona a uma pessoa em Ponte Velha, e no domingo conheceu a fazenda Boa Esperança, que elegeria como a sua Pasárgada. A propriedade abrangia mil hectares na região que hoje é conhecida por Nova Parnamirim. A partir daí ele idealizou o crescimento da cidade de Natal, no rumo sul. Relata o seu filho, o agropecuarista, advogado e ex-deputado estadual e federal, Manoel Montenegro Neto, o Manuca, que o pai comprou terras da BR-101, entre o Atacadão e a Cidade Satélite, até o rio Potengi.   Não satisfeito, adquiriu também terras, onde hoje está instalado o Carrefour, até a concessionária Natal Veículos. Visionário, convenceu o pai a comprar o Pium, incluindo a praia de Cotovelo, em uma área de 3,5 mil hectares. De posse da fazenda Boa Esperança, Olavo arregaçou as mangas e começou a plantar milho, mandioca, banana e coco verde, entre outras culturas. Um episódio que poucos sabem e muitos desconhecem é que o rio Pitimbu não existia. Foi Olavo quem criou o Pitimbu a enxadadas. Contratou uma equipe de técnicos e de trabalhadores para dar vida ao rio. Ainda na Boa Esperança, abriu uma vacaria com cerca de 400 cabeças de vaca. Tirava mil litros de leite por dia. Para a época, como também para os dias de hoje, um feito.   Com o seu espírito desbravador e empreendedor, foi de Olavo Montenegro o planejamento da avenida Maria Lacerda, em homenagem à mãe, além das avenidas Ayrton Senna e Abel Cabral, no extremo Sul de Natal. Ainda em vida, assistiu ao surgimento da rodovia estadual Olavo Lacerda Montenegro, que liga Nova Parnamirim a locais movimentados como a Coophab, Parque das Árvores, Liberdade, Parque das Nações e Cajupiranga. Para regozijo da família, Nova Parnamirim tem hoje 93 mil habitantes e a maior renda per capita de Natal, desbancando, por exemplo, os bairros de Tirol e Petrópolis, além de ter um papel decisivo no crescimento do vizinho município de Parnamirim. O político  Muito da paixão de Olavo Montenegro pela política deve ser tributada ao pai Manoel Montenegro. Quando assumiu pela primeira vez a Prefeitura do Assu em 1930, Manezinho se mudou da fazenda para a cidade para exercer sucessivos mandatos de chefe do executivo municipal por 13 anos. Importante ressaltar que Manoel Montenegro foi prefeito antes da Intentona Comunista de 1935, levante surgido para derrubar o governo do então presidente Getúlio Vargas; também no período do Estado Novo, e foi, ainda, eleito depois da ditadura de Vargas. Seu sucessor Edgar Montenegro foi eleito prefeito por Pedro Amorim para comandar os destinos do Assú. Manezinho se formou em Farmácia, no Rio de Janeiro, com dois irmãos que se formaram em Medicina. Eram amigos de Miguel Couto e montaram a primeira clínica médica em Copacabana.  Líder inconteste da região do Vale do Assu, atestam os íntimos que Olavo Montenegro foi um político correto, honesto, sincero e leal aos seus correligionários e eleitores. Talhado para a política, exerceu o mandato de deputado estadual em cinco legislaturas consecutivas: 1958, 1962, 1966, 1970 e 1974, sendo eleito nas primeiras legislaturas pelo Partido Social Democrata (PSD). O visionário Olavo Montenegro disputou, ainda, em 1982, o mandato de senador da República, pelo antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), sem obter êxito.   Quem o conheceu o cita como um orador primoroso. Reconhecidamente um político combativo (ele foi um dos responsáveis pela formação da Cruzada da Esperança que levou Aluizio Alves ao Governo do Rio Grande do Norte, em 1960), defendia especialmente os interesses do Vale do Assu, importante região da terra potiguar, que amava obstinadamente.  Montenegro foi também sócio-fundador da Associação Norte-Riograndense de Criadores (Anorc) chegando a ser presidente daquela instituição, contribuindo consequentemente para a agropecuária do Estado, bem como um dos sócios-fundadores da Rádio Princesa do Vale, uma instituição do seu Assu.   Um fato político importante que marcou a carreira de Olavo Montenegro foi a emancipação política de Carnaubais. O parlamentar foi o autor da Lei nº 2.927, aprovada pela Assembleia Legislativa e sancionada pelo governador Aluizio Alves, que emancipou Carnaubais política e administrativamente. Corriam as eleições municipais de 1963. Carnaubais pertencia a Assú. Olavo apoiava para o executivo assuense Maria Olímpia Neves de Oliveira (Maroquinha). Abertas as urnas, Maria Olímpia vence a disputa. Mas não demorou muito para o rompimento político entre os correligionários. Olavo entendia que a emancipação de Carnaubais seria melhor para o Assu, porém Maroquinha percebia o contrário, uma vez que a prefeita eleita não queria perder a receita gerada pela extração do sal pela firma Matarazzo nas salinas de Logradouro, hoje distrito de Porto do Mangue. Sacramentado o rompimento, Olavo usou o prestígio que tinha junto a Aluizio Alves e encaminhou o projeto de lei à Assembleia Legislativa a fim de emancipar Carnaubais.O projeto foi aprovado no dia 18 de setembro de 1963, marcando uma nova etapa na história carnaubaense.  O cidadão  Quem conviveu com Olavo Montenegro assegura que era um homem dedicado à família e aos amigos, sempre com gestos largos de solidariedade. Servir aos pares era um predicado. Inclua-se aí a assistência ao trabalhador da pecuária e da agricultura. Cidadão de hábitos simples, tratava a todos com cortesia. Conta o filho Fernando Montenegro que o pai não tinha vícios. Não bebia e não fumava. As paixões eram três: pecuária (vaca de leite), política e o Vale do Assu.   Olavo tinha o hábito de ler jornais, especialmente o noticiário político. Era adepto da culinária sertaneja. Apreciava leite, inhame, macaxeira, sopa e outros acepipes. Casou em 1947, com dona Neide Galiza Montenegro, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, antiga Catedral Metropolitana. Celebrou o casamento o então bispo de Natal, Dom Eugênio Sales. Do matrimônio, nasceram as filhas Iolanda Galiza Montenegro e Mary Montenegro Erthal e os filhos Fernando Antônio Galiza Montenegro, Manoel Montenegro Neto e Olavo Lacerda Montenegro Filho.  Olavo Montenegro faleceu de insuficiência cardíaca, no dia 31 de outubro de 1999, um domingo à tarde. Ao pressentir a morte, pediu ao filho Fernando para ser enterrado em uma cova rasa na terra abençoada e fértil do Assu, que tanto amava. Com o passar do tempo, a família providenciou um jazigo. Múltiplo e plural, deixou sua marca indelével na política e no empreendedorismo potiguar. Partiu para o plano superior com a alma tranquila dos sábios.  Carlos Frederico Lucas é articulista, poeta e contista.  Fonte  Fotografia: Olavo Lacerda Montenegro, acervo de família.  Texto: Depoimentos da família. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Mossoró volta às origens religiosas? Padre João Medeiros Filho A indicação de Dom Francisco de Sales Alencar Batista, um frade carmelita, para bispo de Santa Luzia de Mossoró, reacende os questionamentos a respeito dos primórdios do povoamento e evangelização mossoroense. Padre Sátiro Cavalcanti Dantas incentivava os pesquisadores a aprofundar o tema. Destaca-se o artigo do professor Davi de Medeiros Leite – membro da Academia Mossoroense de Letras e da Academia de Ciências Jurídicas e Sociais de Mossoró – publicado no Jornal De Fato, em sua edição de 17 de fevereiro corrente. Há anos, conheci no Rio de Janeiro Frei Tito (Bartolomeu) Figueiroa de Medeiros, da Ordem do Carmo. Fora-me apresentado por um amigo comum: o procurador federal Carlos Davis, hoje sacerdote do clero da arquidiocese carioca. Frei Tito estava concluindo o doutorado em Antropologia no Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Não raro, o erudito frade discorria sobre assuntos ligados à sua Ordem religiosa, dos quais era exímio conhecedor. Lamentava o desconhecimento de fontes eclesiásticas sobre a caminhada de seus confrades no Nordeste brasileiro. Assim se expressou: “Não se pode ignorar os arquivos da Arquidiocese de Olinda, da Província Carmelitana em Recife e da Casa Geral em Roma.” Porém, são ainda escassas as informações disponíveis sobre a presença dos frades no RN. Um desafio para clérigos e historiadores. É incontestável a importância dos filhos de Nossa Senhora do Carmo, no que tange à evangelização do Nordeste. Foram assumindo a catequese em diversas localidades, após a expulsão dos jesuítas do Brasil. É relevante a sua influência em algumas regiões potiguares. Padre Miguelinho, um dos líderes da Revolução de 1817, no início de sua vida clerical foi um frade carmelita, depois sacerdote secular, pertencendo ao clero de Olinda. Se o renomado norte-rio-grandense e líder político-religioso optou primeiramente por ingressar na vida carmelitana, trata-se de um indicativo de que os conventos eram atuantes em terras potiguares. Atualmente, há quatros prelados carmelitas, integrantes do Regional Nordeste II da CNBB, compreendendo Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Segundo Câmara Cascudo, os filhos da Virgem do Carmo aportaram no RN por volta dos anos de 1701-1702.  Foram enviados para cá, a fim de “pregar o Reino de Deus” (Lc 9, 2). À época, era bispo de Olinda Dom Francisco Lima (ou Lemos), membro da Ordem do Carmo, exercendo o ministério naquele bispado, de 1695 a 1704. Este dado relevante não é citado pelos estudiosos. Em 1692, o aludido dignitário foi ordenado bispo para a diocese de São Luís do Maranhão, entretanto não chegou a tomar posse canônica. Durante o seu pontificado na Sé de Olinda, os carmelitas floresceram bastante. Afirma-se ser ele o responsável pela vinda dos confrades para o rincão norte-rio-grandense. Em 1704, dá-se a restauração da Igreja do Carmo, em Olinda, danificada durante o período da ocupação holandesa no Nordeste. O convento de João Pessoa – cujo prédio serve hoje de sede do arcebispado da Paraíba – foi concluído no início do século XVIII, no pontificado de Dom Francisco Lima. Esteve à frente das obras Frei Manuel de Santa Teresa. A interiorização dos carmelitanos no Brasil acontece paulatinamente. As anotações cascudianas sobre a presença da Ordem no RN constituem um marco para as pesquisas. Narra aquele historiador natalense: “Frei Antônio da Conceição residiu muitos anos na fazenda Carmo. Sua sepultura foi na capela do lugarejo, dedicada à Virgem de Siracusa.” Em geral, eram anexadas aos conventos fazendas doadas ou adquiridas para a manutenção dos religiosos e de suas missões. Receberam da Coroa portuguesa sesmarias, cuja renda ajudaria na catequização indígena. A vinda dos frades do Carmo para o RN ocorreu após a expulsão dos holandeses no final do século XVII e início do século XVIII. Fixaram-se na aldeia de Gramació (Vila Flor) e perto do Rio Upanema, no território da paróquia de Apodi. A opção por essa localidade deve-se às condições favoráveis para o plantio e criação de gado, fundamentais para a manutenção da vida conventual e a catequese indígena. Os frades provinham dos conventos de Goiana e Recife (PE). Viveram a recomendação de Cristo: “Ide pelo mundo inteiro e proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15).

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

ORIANO: ÚLTIMA ESTROFE Valério Mesquita mesquita.valerio@gmail.com Direi pouco sobre Oriano de Almeida. Outros falarão melhor porque conviveram de perto com o seu talento e a sua vida. Cláudio Galvão, Diógenes da Cunha Lima, por exemplo, Maria Luiza Dantas, Sanderson Negreiros, Enélio Lima Petrovich (que inaugurou o Memorial Oriano Almeida no anexo do IHGRN em 2001), se já não dissertaram, o farão, com certeza, com brilho e propriedade. Resolvi pronunciar-me porque gosto de pontuar atitudes e assumir gestos quando vejo algo que me desagrada. Fui à Academia de Letras me despedir do seu corpo, na sua tarde derradeira e melancólica. Não apenas movido pelo dever de colega acadêmico ou por solidariedade cristã, mas porque efetivamente ele foi um compositor e intérprete maravilhoso para a honra e orgulho do Rio Grande do Norte, cujo povo não “está nem aí”. No recinto, durante os discursos de despedida, pouquíssimos presentes. Aí começou a nascer em mim a necessidade de protestar, de me indignar, de não me calar. Comentei com Genibaldo Barros, Armando Negreiros e Ernani Rosado que ali estavam: é o menor público da vida de Oriano, quando deveria ser o maior. Ele que havia conquistado as platéias milionárias, exigentes e refinadas do mundo inteiro não conseguia reunir para o último adeus a intelectualidade de sua terra. Quanta ironia, quanto paradoxo a vida nos ensina. O maior intérprete do mundo da obra de Chopin, que encantou os palcos da arte musical, gênio da música, compositor, ocupante da cadeira nº 13 que pertenceu a Câmara Cascudo, estava finalmente esquecido. Havia atingido a “verdadeira imortalidade”. Já escrevi que Natal sofre de ataraxia, indiferença. É pobre de sentimentos. Chegou um momento, no velório, que Diógenes preocupou-se com os circunstantes para conduzir o esquife do salão ao veículo funerário. A maioria era mulheres entre reduzido grupo de sexagenários em débito com o teste ergométrico. Afirmo, sem qualquer preconceito, que talvez tenha faltado a Oriano a passagem por uma banda de forró. Resta a esperança de que o nome, a importância do que fez como musicista, intérprete, compositor e escritor não desapareça. Não tenho dúvidas de que Oriano Almeida é maior do que os ausentes. A sua obra tem abrangência nacional e internacional. Simples, não buscava os refletores da fama. Ela vinha até ele. Nem o elogio fácil. Já disse que na vida quando se passa dos 60 ou 70 anos, torna-se estatística. Diferente dos países mais civilizados. E Oriano se foi com 83. Fica para os pesquisadores, memorialistas e estudiosos da música e da obra que ele nos lega, a tarefa permanente de afirmar que Oriano Almeida vive. Na frase, que não é minha e nem sei de quem, mas que eu gosto de lembrar: “Não se acaba o homem. Constrói-se a cada dia sua performance”. (*) Escritor.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

A cultura do jeitinho Padre João Medeiros Filho Quando estudei na Bélgica, em várias ocasiões, ouvi de colegas europeus insinuações de que não há leis no Brasil. De forma irônica e generalizada, afirmavam: “Tudo não passa de uma brincadeira.” Falavam que, em nossa pátria, vigora apenas a “cultura do jeitinho”. E, com uma dose de crítica e empáfia, ousavam afirmar que nossa legislação lembra os adornos natalinos: reluzem, embelezam e encantam, mas apenas enfeitam. Aquilo que, à época, me soava como um acinte, hoje parece aproximar-se da realidade. Atribui-se a Charles De Gaulle a seguinte frase: “O Brasil não é um país sério.” Segundo alguns historiadores, a expressão é de autoria do diplomata Carlos Alves de Souza Filho. Pronunciadas ou não pelo ex-presidente francês, as palavras tentam rotular a nossa identidade cultural e nacional. Na Europa, apesar de traumatismos pós-guerras, do pseudo-espírito de superioridade, dos problemas linguístico-culturais, político-sociais, migratório-populacionais etc., as instituições talvez funcionem melhor. Os cidadãos são formados no patriotismo, na obediência e disciplina. Não se joga lixo nas ruas; cumpre-se horário; observam-se filas, espaços para idosos, regras de trânsito. Estacionam no lugar indicado, sem invadir a vaga ao lado. São pequenos gestos que revelam a formação e índole de um povo. O meio ambiente e o próximo são altamente respeitados e valorizados. É bem conhecido o ditado inglês: “The way you drive, the way you live” (O modo como você dirige diz como você vive). Na verdade, ao dirigir, mostra-se um pouco de si mesmo. Mas, bem longe dos semáforos, estradas, estacionamentos ou garagens, reside a origem de vários problemas brasileiros, dentre eles a incapacidade de conviver com o não. Às claras ou à sorrelfa, invadem-se espaços e tolhem-se direitos alheios. Esquece-se aquela lição de nossos pais: “Isso não pode, meu filho.” Estudiosos do comportamento humano dizem que nosso caso envolve uma negação sistemática (infantil?) de autoridade e limites. Na verdade, dizer ou ouvir uma negativa é desagradável ou constrangedor, seja para quem dá ou recebe, mesmo que necessário. Apesar da decantada cordialidade e gentileza do brasileiro, muitos têm o hábito de escutar músicas com o som bem alto; abrem-se as janelas dos apartamentos ou carros, aumenta-se o volume. Isso porque acreditam que os vizinhos também vão curtir suas preferências musicais. Os veranistas que o digam! De forma irreverente e deseducada, colecionam-se pequenas transgressões até atingir o nível elevado, no qual se esbalda um número de pessoas, ignorando a ética, dilapidando o erário, sem o menor constrangimento. E talvez será pior no futuro, dizem alguns entendidos. Não se pode mais dizer “Isso não é permitido!”, para não traumatizar, tolher a liberdade e criatividade das crianças; tampouco se podem aplicar punições para não deixar marcas profundas. Há uma dificuldade grande para se ouvir e aceitar uma negativa, pois ninguém deseja ser contrariado. Cristo pregava: “Seja o vosso sim, sim; o vosso não, não” (cf. Mt 5,37). Esse ensinamento ainda não foi bem assimilado até agora por muitos. Há alguns meses, bandidos aterrorizaram e quase pararam o Rio Grande do Norte, alegando “indevidas” proibições ou interdições. Certa vez, presenciei uma cena vexatória. Numa livraria-papelaria, uma senhora, aparentemente fina e elegante, pediu para xerocar um livro inteiro. Com bons modos, a funcionária da loja informou, discreta e cortesmente, que cópias de livros não são permitidas, ferem a lei dos direitos autorais. Ouviram-se desaforos pronunciados pela “gentil e chique senhora”. Essa saiu indignada, sacudindo sua vistosa bolsa Louis Vuitton (seria original, réplica ou genérica?). O valor do livro era um pouquinho mais alto do que o preço das cópias. Como falar então de justiça, honestidade, cidadania e transparência, neste país, no qual sequer se consegue obedecer a regras e convenções, as mais comezinhas? Cristo afirmou para seus apóstolos: “Quem não é fiel no pouco, não será no muito” (cf. Mt 25,23). O que dirão atualmente alguns professores e diretores de escolas sobre impropérios de pais, cujos filhos são punidos por transgressão disciplinar ou rendimento acadêmico inexpressivo? Não se pode nem se deve confundir nunca cordialidade e informalidade com indisciplina e permissividade. A Bíblia diz: “Ensina ao jovem qual o caminho a seguir e ele não se desviará” (Pv 22,6).

sábado, 17 de fevereiro de 2024

 Refletindo sobre a Quaresma Padre João Medeiros Filho Em português, a palavra Quaresma é uma forma sincopada do termo latino “quadragesima”. Este, por sua vez, é o número ordinal de “quadraginta”, significando quarenta. A liturgia católica costuma recorrer a símbolos. Estes são abertos e ricos em interpretações, enquanto as palavras são, por vezes, limitadas. Na Quaresma, partindo da simbologia numérica, usual na cultura hebraica, a Igreja recorda-nos os quarenta anos de caminhada do Povo de Deus em busca de Canaã, os dias e noites esperados por Moisés para receber o Decálogo. Lembra ainda idêntico período vivido por Cristo, antes de ser tentado. Ela convida-nos a uma maior consciência da nossa condição de filhos de Deus e nosso compromisso com o Evangelho. Proporciona um retiro aos cristãos a fim de realizar uma revisão de vida. Não se trata apenas de tempo litúrgico. Representa igualmente momentos importantes de nossas existências, nos quais devemos aprofundar, com o auxílio da graça divina, nossa vivência cristã. E para isso, é indispensável defrontarmonos com nossos erros e virtudes. Conclama ao despojamento interior para o renascimento pela escuta atenta de Deus. Sua Palavra ilumina nossa vida e transforma nosso íntimo. O tempo quaresmal exorta os fiéis ao jejum e à conversão. Atualmente, na administração pública e linguagem biomédica fala-se muito em cortar gorduras. No jejum, deseja a Igreja que sejamos capazes de eliminar os excessos do desamor e egoísmo, da vaidade e injustiça. Nos dias de hoje, enfatiza-se o culto do corpo. Várias modalidades de exercícios físicos são praticadas. Jejuar é como malhar a alma, banir o que lhe é supérfluo ou nocivo para dar lugar à fome de Deus. No primeiro domingo do período quaresmal, lê-se o episódio da tentação de Jesus. Somos instados a refletir sobre o sentido do deserto. Este reveste-se de significado especial na Sagrada Escritura e na espiritualidade cristã. À primeira vista, não é habitual se deparar ali com seres vivos. Sua imensidão e silêncio levam-nos a algo mais profundo: a descoberta de Deus. Este é a única vida que se pode sentir na vastidão despovoada. Os fiéis veterotestamentários, antes de chegar à Terra Prometida, passaram também pelo deserto. Este precede qualquer experiência mística, sendo, antes de tudo, um estado de espírito. Cristo veio estabelecer o Novo Testamento para a humanidade. Teve de enfrentar o deserto: ícone de nossa fragilidade, impotência e solidão. Sentimo-nos, não raro, abandonados, tristes e sozinhos em nossos sofrimentos, angústia, perplexidade, instabilidade e tribulações. Isto representa a figura de Cristo, ao ser provado pelo demônio. O texto de Marcos tem uma peculiaridade. Não cita a quantidade de tentações, como os de Mateus e Lucas. O autor do segundo evangelho restringe-se a afirmar que Cristo foi conduzido ao deserto e “aí tentado por Satanás” (Mc 1, 13). As provocações e provações, sofridas por Ele, representam a realidade humana. O materialismo, o consumismo, gerando miséria e dependência, a exploração dos mais fracos permanecem fazendo vítimas. A manipulação religiosa aproveitando-se da fé ingênua do povo simples, em benefício de pseudo líderes e grupos inescrupulosos, constitui-se numa tentação que fala bem alto na sociedade hodierna. A idolatria do poder, passível de proporcionar corrupção, marginalizando ou excluindo indefesos e necessitados, continua sendo a expressão do ideal demoníaco. Há uma série de novas e falaciosas atrações, procurando iludir o ser humano e estabelecer o reino de Satanás, e não o Reino de Deus e do Amor. Diante disso, entende-se o apelo do Mestre: “O Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15). Há outro detalhe no relato de Marcos: “[Jesus] Vivia entre animais selvagens e os anjos O serviam” (Mc 1, 13). Ele veio mostrar a harmonia da criação, revelando a verdadeira ecologia. Da narração de Marcos, infere-se uma metáfora: ao ceder às tentações do demônio, o homem mostra-se bestializado. O poder, o ter e o prazer poderão nos tornar alienados e presunçosos. Mas, Cristo vencendo o demônio, assegura-nos que Ele veio aniquilar a indiferença, a injustiça e a violência. Cada um conhece o seu deserto e as suas seduções. O Mestre ensina-nos como superar tudo. “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33), assevera-nos o Salvador.

 O significado bíblico-espiritual das cinzas Padre João Medeiros Filho A imposição de cinzas remonta ao Antigo Testamento. Delas se cobriu Mardoqueu e se vestiu com panos de saco, ao saber do decreto do Rei Assuero, condenando à morte os judeus residentes na Pérsia (Est 4,1). E Jó declara a sua contrição assim: “Arrependo-me no pó e nas cinzas” (Jó 42, 6). Daniel, ao profetizar a tomada de Jerusalém pelos babilônios, escreveu: “Voltei o olhar para Deus, procurando fazer preces e súplicas com jejuns, vestido de tecido rústico e coberto de cinzas” (Dn 9, 3). Após a pregação de Jonas, “o povo de Nínive se vestiu de roupas grosseiras, impondo-se cinzas. O rei levantou-se do trono e sentou-se sobre elas” (Jn 3, 5-6). Tais exemplos demonstram essa prática religiosa, como símbolo de dor, compunção, penitência e conversão. Cristo aludiu a esse costume, dirigindo-se aos habitantes de Corazim e Betsaida. Eles não se arrependeram de seus pecados, apesar de terem presenciado milagres e ouvido a Boa Nova. “Se em Tiro e Sidônia tivessem sido realizados os milagres feitos no meio de vós, há muito tempo teriam demonstrado arrependimento, vestindo-se de cilício e cobrindo-se de cinzas” (Mt 11, 21), advertiu Jesus. A Igreja, desde seus primórdios, celebrou este ritual com um simbolismo análogo. O teólogo Tertuliano aconselhava o pecador a “vestir-se com tecido de estopa e cobrir-se de borralho.” O historiador descreve o bispo Natálio apresentando-se com esses trajes ao Papa Zeferino para suplicar-lhe o perdão. No cristianismo medieval, quando o penitente saía do confessionário, o sacerdote impunha-lhe cinzas para lembrar-lhe que o “velho homem” tinha sido destruído, dando lugar ao “novo homem”, segundo a expressão do apóstolo Paulo (Ef 4, 24). Por volta do século VIII, as pessoas que estavam prestes a morrer, eram deitadas no chão sobre um tecido rude e nelas se jogava pó. O sacerdote, aspergindo-as com água benta, dizia: “Lembra-te, ó criatura, que és pó e a ele hás de voltar” (cf. Gn 3, 19). Este rito foi tomando uma nova dimensão espiritual e passou a significar morte ao pecado em seus diversos aspectos: mentira, orgulho, injustiça, inveja, ódio, violência etc. Com o passar dos anos, tal hábito foi associado ao tempo quaresmal. Neste, somos convidados a sepultar o velho homem existente em cada um de nós para ressuscitar com Cristo, na Páscoa. As cinzas utilizadas na quarta-feira são obtidas com a queima das sobras de palmas bentas no Domingo de Ramos do ano anterior. O sacerdote as abençoa e impõe sobre os fiéis, dizendo: “Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3, 19), ou então: “Converte-te e crê no Evangelho” (cf. Mc 1, 15). Essa cerimônia é um convite à preparação para a Páscoa pela vivência da Quaresma, tempo privilegiado para uma revisão de tudo o que impede nossa caminhada de fé e amor. A participação no ritual do início quaresmal expressa duas realidades fundamentais: a consciência de nossa efemeridade e a fé em nossa ressurreição. Cristo ressurgiu dos mortos, prometendo-nos também que ressurgiremos. É conhecida na mitologia grega a força de Fênix, que renasce das cinzas. Estas simbolizam mudança radical, na medida em que representam destruição. Lembra-nos que delas poderemos brotar, como criaturas renovadas pela graça inefável de Deus. Por essa razão, somos chamados a nos converter ao Evangelho de Cristo, libertando-nos da arrogância, do egoísmo, da vaidade; enfim, de tudo o que nos afasta do Divino. A palavra marcante com que se abre a celebração quaresmal – iniciada na quartafeira, após o carnaval – é conversão. Este termo de origem hebraica, indica mudança interior, dir-se-ia, transformação espiritual. Isto Cristo veio trazer com sua mensagem. Ele indicou ao ser humano um novo caminho e modo de ser e viver. O apóstolo Paulo, de forma inspirada, chama-O de “novo Adão”, uma nova humanidade (cf. Rm 5, 12-21). Com a Quaresma iniciase a Campanha da Fraternidade. Neste ano, versa sobre a “Fraternidade e amizade social”. Que as cinzas impostas sobre nossas cabeças marquem o fim de nossos preconceitos, egoísmo, violência, indiferença e tudo o que atenta contra a amizade e os laços de Deus nos corações dos homens. Afirmou o Mestre: “Todos vós sois irmãos” (Mt 23, 8).

 HOMENAGEM AO AMIGO LAURO BEZERRA




Faleceu, na madrugada desta sexta-feira (16), no Hospital São Lucas, em Natal, o professor universitário aposentado, médico e ex-deputado estadual Lauro Bezerra, aos 90 anos.
Vim conhecer melhor Lauro Gonçalves Bezerra, filho do ex-deputado João Bianor Bezerra, colega do meu pai, na antiga Assembleia Legislativa, a partir dos anos noventa quando juntos servíamos a mesma instituição, por outorga popular. Lauro combatente, atento, ágil e altivo, honrou o Poder Legislativo do Estado através do seu comportamento íntegro e irrepreensível. Presidiu como vice-presidente, inúmeras vezes, as sessões plenárias e a própria Casa. Como debatedor dos problemas da saúde demonstrou a experiência adquirida como secretário de saúde estadual, pró-reitor da UFRN, além de larga visão administrativa quando passou por postos diversos da vida pública. Na família Bezerra, da qual foi um dos expoentes, pontificaram ainda os saudosos “majó” Theodorico Bezerra (tio) e Aluízio Bezerra (irmão), Fernando Bezerra (irmão), Kleber Bezerra (primo), entre outros memoráveis nomes que se destacaram desde Santa Cruz, a Escola de Sagres, e se estenderam por todo o sertão do Trairí.
O ex-deputado Lauro Bezerra deixa viúva, Dona Luzi, com quem teve três filhos: Bianor, Solange e Suzana.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

 “Vá se queixar ao bispo” 

Padre João Medeiros Filho 

Eis uma expressão, ainda ouvida ou lida, aqui e acolá. É anterior à fundação do Reino de Portugal. Historiadores, especialmente aqueles da área do Direito, relatam que a máxima já foi ordenamento jurídico na Península Ibérica, entre 480-711. Constava do Código Visigótico (Livro II, Título II, Item XXVIII). Permitia às pessoas, inconformadas com o veredicto de tribunais e magistrados, dirigir-se ao bispo em grau recursal. O pleito era possível, quando os interessados consideravam a sentença proferida, em discordância com o regramento em vigor. Infere-se, portanto, que o bispo representava justiça,sentimento humanitário para a população. Segundo certos autores, o jargão surgiu, entre nós, no século XVII, na cidade do Rio de Janeiro. À época, os comerciários fizeram campanha, exigindo que as lojas fechassem aos domingos e dias festivos para o cumprimento do mandamento religioso. Naquele tempo, por força da Concordata entre a Santa Sé, Portugal e posteriormente o Brasil Império, o catolicismo era religião de Estado. Daí todos deveriam guardar o Dia do Senhor. Os lojistas promoveram manifestações públicas e passeatas, ameaçando fazer greve. Os patrões mantiveram-se intransigentes. Como última tentativa levaram um abaixoassinado a Dom José de Barros Alarcão, prelado do Rio de Janeiro (1680), solicitando intercessão junto ao Rei de Portugal, Dom Afonso VI. Desejavam que editasse uma lei específica, mediante a qual os fiéis trabalhadores pudessem cumprir os preceitos dominicais e nos dias santificados. Pode-se deduzir a presença da Igreja, enquanto última instância de resposta contra a violação dos direitos humanos. Para Dom Jaime Luiz Coelho, primeiro metropolita de Maringá (PR), o adágio remonta ao Brasil colonial. Na época, vigorava o regime do Padroado. Consequentemente, a Igreja Católica, por meio das dioceses, detinha certas atribuições e prerrogativas no foro civil. “Va queixar-se ao bispo” tornou-se popular no Brasil seiscentista e setecentista. A autoridade diocesana chegava a gozar de competência legal até para mandar prender rapazes que “ofendiam às donzelas” e recusavam as núpcias. Até bem pouco, era costume algo semelhante no Seridó. Quando alguma moça era “desonrada”, conduziam-na imediatamente à presença do dignitário eclesiástico para que se providenciasse urgentemente o casamento. Isso era motivo de força maior para a dispensa dos proclamas canônicos. Enquanto chanceler da cúria diocesana de Caicó, fui testemunha de vários acontecimentos dessa ordem. Convém lembrar que no Brasil concordatário, os prelados eram investidos de alguns poderes administrativos e jurídicos. Assim, era natural as pessoas verem no pastor a porta para a solução dos seus problemas pessoais mais prementes. A figura episcopal era respeitada por todos, sobretudo porque acreditavam ser ela a legítima representante de Deus entre os homens, capaz de oferecer luzes e apontar caminhos para seus sofrimentos. “Eu vi a humilhação de meu povo e ouvi o seu clamor” (Ex 3, 7). Poder-se-ia pôr tais palavras nos lábios dos antístites daqueles tempos. Nessa mesma direção, o jornalista e professor Jairo Faria Mendes apresenta sua versão para o axioma. Menciona que em Portugal – e nos seus territórios ultramarinos – em razão do Padroado, a autoridade diocesana exercia também a função de Ouvidor da Coroa, responsável por receber as queixas dos cidadãos. Assim, no Brasil colonial, os pontífices tinham ainda o encargo de ouvir as lamúrias e o relato de problemas materiais dos fiéis. Isto deu azo à difusão do aforismo “Vá se queixar ao bispo”. Hoje, os dignitários episcopais não estão mais revestidos de jurisdição civil. É importante frisar que, à época, a história registra a figura do bispo humanitária, paternal,solidária e clemente. Atualmente, a quem a população sofrida, injustiçada e desesperançada irá desabafar? Quem ouvirá seus rogos contra desmandos públicos, injustiça, fome, desemprego, violência, assistência precária de saúde, insegurança, falta de habitação, água e vergonha? Quem haverá de interceder, quando se adoecer de arboviroses e epidemias? Outrora, o bispo cuidava de tudo aquilo que o Estado negligenciava ou era incapaz de resolver. Por sua compreensão, senso de justiça e caridade, ele tinha condiçõesreais de solucionar impasses. Nos dias atuais, necessita-se de alguém – máxime entre executivos e legisladores – sobre quem se possa afirmar: “Teve compaixão da multidão [sofrida e sem esperança], pois era como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36).

 

CANGAÇO: PORQUE SÓ LAMPIÃO FICOU NO IMAGINÁRIO POPULAR.
O cangaço, uma das páginas mais cruentas, vivida nos ermos mais distantes da pancada do mar, onde o sol se faz rosa, para se pôr. Tem sua grota de viço nas amarguras da vingança, no refúgio de quem cometera um crime, e por último, na sua fase mais ignóbil, desprezível que é o cangaço meio, fim, quando ações de rapina, com plenitude de prática, no período Lampiônico, com mais intensidade, nos tempos que medeiam os anos de l926 a 1938. quando ocorreu o epílogo do cangaço na gruta de Angicos, em Sergipe.
Mas, o meu paleio de copiar*hoje, não é esmerar o cangaço nem como conduta criminosa, hedionda, nem tão pouco, adjetivando seus praticantes como “heróis extraviados”, como dissera um dos meus gurus, Ariano Suassuna.
A selvageria lampiônica, em muito supera o suplício nas ordenações manuelinas e afonsinas, que no brasil fez-se prática nos episódios de Felipe dos Santos e do próprio Tiradentes, com cênico de esquartejamento e exposição na Cruz de Malta, uma cristianização à similaridade do que aconteceu com Jesus, na era de Tibério César.
Porém, rabiscar na historicidade dos fatos e contextos, o que levou os habitantes dessas terras de trópicos e de anos de magrém, amealhar no seu imaginário, não um juízo de reproche aos hunos cangaceiros, porém, mitigar uma leitura, que transformou o Estado disciplinado em réu e o desvario da violência do cangaço, numa possibilidade de ser, o que nosso Mestre Cascudo vislumbrou, serem bandidos diferenciados dos criminosos comuns, portanto, uma saga que nascia de uma vertente dotada de escudo ético. Aquele que sofrera uma injustiça, um constrangimento, não reparados pelo Estado.
Saliente-se que esse juízo não é desnudado de motivações. Por necessário trazer o exemplo de como Lampião se portava, no trato com o pequeno sitiante criador. Sempre vislumbrava na escolha de uma rês de gado vacum, por uma cabeça escoteira, sem prenhez ou amojo, ou na fase lactente. Escolhia um toureco, uma garrote, para fazer a carne de sol. E nessas circunstâncias, sempre ordenava que o seu estado maior, procedesse no pagamento.
De bem noticiar, que quando a polícia se arranchava na casa de um criador do Sertão, proprietário de apenas uma semente da espécie, ordenava o abatimento do “boi de campinadeira”, a força motriz da roça, daquele desvalido sertanejo, saindo sem o devido pagamento.
Por ressaltar também, que no espetáculo cênico de CHUVA DE BALA NO PAÍS DE MOSSORÓ, os heróis não são os defensores da urbe potiguar, mas, a saga lampiônica, começando pelo próprio rei do cangaço e seus lugares tenentes, Sabino de Gore*, Jararaca. Embora tal episódio, seja um dos malogros da epopeia do cangaço sob a égide de Virgulino Ferreira da Silva, que há alguns meses antes, no dia 26 de novembro de 1926, na batalha de Serra Grande, PE, houvera derrotado as forças de quatro estados nordestinos, um contingente de trezentos homens, entre macacos* e cachimbos*, com a apenas um grupo de 68 cangaceiros.
*Sabino de Gore: Sabino era filho de uma negra cozinheira com o Cel. Marçal Diniz, meio irmão de Marcolino Diniz, coiteiro de lampião, e cunhado de José Pereira de Princesa, pois, casado com Xanduzinha, aquele da melodia de Luiz rei do baião.
*Paleio de copiar: Os antigos dos sertões do Seridó, ante a falta de entretenimento como nesses tempos de hoje, se aboletavam na sala subsequente ao alpendre, o copiar, sala grande, de recepção, e nesta, no período que medeia a hora do Ângelo e a última ceia, permeava a estação da oralidade: Uma discorrência sobre as façanhas dos homens de destaque, histórias do pavão misterioso, Doze pares de França e assim por diante. Era a estação da oralidade.
* Macacos: adjetivo para nominar as tropas da polícia, volantes, que combatiam o cangaço.
*Cachimbos: civis com soldo, ou salário pagos pelo governo, viviam na "tubiba" de Lampião. Os cabras de Nazaré (Vila Bela) depois Serra Talhada, era civis que tinham rixas de Lampião. Quase todos fora engajados na corporação militar foram pra reserva como oficiais.
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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

ENCONTRO COM A POESIA: GONÇALVES DIAS. Horácio Paiva * O encontro me remete a um tempo pessoal já antigo: 1965, quando eu tinha 19 anos, na casa de meu irmão Daltro, em Macau, no calor da tarde, antes do vento Nordeste soprar. Ali encontrei o romântico Gonçalves Dias, emocionado e inspirado (algo, aliás, próprio dos românticos), no torvelinho estético da dor e da poesia em que se envolvera, ao relembrar a paixão amorosa de sua juventude, podada pelo destino, e com maestria exposta em seu notável poema “Ainda uma vez - adeus!”, o qual Daltro declamava, com ávido entusiasmo. Trata-se de poema dos mais belos e também dos mais vivos do romantismo latino-americano. Algo prosaico, confessional, e sobretudo humano, confere-lhe ares de modernidade. Claro, não foi o primeiro Gonçalves Dias que vi, pois já conhecera o da “Canção do Tamoio” (quase uma oração de otimismo e força) e o da “Canção do Exílio” (quase um hino - e estando, de fato, algumas de suas expressões no Hino Nacional), e vários outros, desde remotíssimos tempos escolares. Já se chegou a dizer que a “Canção do Exílio” é o maior fenômeno de intertextualidade da cultura brasileira, tal o número de produções sequenciais que gerou. Estes - aos quais acrescento “I – Juca-Pirama” (“o que será morto”, considerado a expressão máxima da poesia indianista) e “O Canto do Piaga” -, todos belos poemas, tratando de povo e terra pátria, têm a natureza do romantismo social, segmento da escola romântica tão ao gosto dos italianos e também explorado por outro grande poeta nacional, o baiano Castro Alves - com as cores da política e do protesto. Com efeito, duas vertentes jorram da sensibilidade estética de Gonçalves Dias. Ambas de águas límpidas, mas torrenciais: uma, épica, social, nacional, indianista e naturalista, que exalta e defende o povo originário - os Índios - e a natureza exuberante do Brasil tropical, da qual os mencionados poemas são exemplos; outra, amorosa, íntima, sentimental, individualista. Pérolas desse romantismo intimista, lírico, autobiográfico e emocional (cujo subjetivismo constitui a sua característica emblemática, por vezes chegando a definir o cerne da própria escola) são, sem dúvidas, os seus poemas “Olhos verdes”, “Não me deixes” e “Ainda uma vez - adeus!”. Este último, especialmente, que traduz episódio dos mais intensos de sua vida - quando o poeta sentiu a mão pesada e dura do áspero destino, como diria José Albano -, chega a resultado lírico dos mais sublimes. Ao final desta resenha, transcrevo nota do poeta e tradutor Onestaldo de Penafort, redigida sobre o assunto, a pedido de Manuel Bandeira. Nasceu Antônio Gonçalves Dias em 10 de agosto de 1823, no sítio Boa Vista, Município de Caxias, Maranhão, e faleceu em 3 de novembro de 1864 (aos 41 anos), tragicamente, quando retornava da Europa, no naufrágio do navio Ville de Boulogne, na costa daquele Estado (mais precisamente no baixio dos Atins, em frente à Ponta da Boa Vista, perto de Tutóia). Foi, aliás, o único a morrer: esquecido em seu leito, agonizante, com a tuberculose em fase avançada, afogou-se. Era filho de pai branco e mãe índia ou cafusa (mestiça de africano, negro, com índio). Seu pai, o comerciante português João Manuel Gonçalves Dias, se refugiara com a amante, Vicência Ferreira, no sítio onde nasceu o poeta, para escapar a perseguições políticas de nacionalistas radicais. Nunca legalizou essa união conjugal, encerrada por ele, que se casou com outra mulher, mas mantendo a guarda do filho, afastado assim da mãe com apenas 6 anos de idade. Anos depois, havendo-lhe morrido o pai, o poeta contou com o apoio da madrasta, que o mandou estudar em Portugal. Ali, na histórica Universidade de Coimbra, concluiu seu curso de Direito, retornando ao Brasil em 1845. O período passado em Portugal foi muito importante na formação de Gonçalves Dias. Além de seu curso universitário, estudou língua e literatura de vários países: França, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália. E teve contato com vários escritores do romantismo português, entre eles Alexandre Herculano, Almeida Garret, Feliciano de Castilho. Também em Coimbra escreveu os “Primeiros Cantos”, parte dos “Segundos Cantos” e, em 1843, aquele que viria a ser o seu poema mais famoso e mais reproduzido e conhecido em nosso País: a “Canção do Exílio”. De volta ao Brasil, exerceu diversos cargos públicos, desde professor de Latim e História do Brasil no renomado Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, oficial da Secretaria de Negócios Estrangeiros (o que lhe deu novas oportunidades de viagens ao exterior) a membro da Comissão Científica de Exploração. Mesmo nesta apertada síntese biográfica, não pode faltar a citação desses episódios escritos pela mão do destino e que marcaram o poeta: seu encontro e paixão imediata por Ana Amélia Ferreira do Vale, em 1851, no Maranhão, e, no ano seguinte, 1852, a rejeição, pelos pais dela, do pedido de casamento, motivada pela origem bastarda e mestiça do poeta. Voltando ao Rio, nesse mesmo ano de 1852, casou com Olímpia Carolina da Costa, mas não foi feliz. Dela separou-se em 1856. Tiveram uma filha, que morreu ainda na primeira infância. Produziu extensa obra literária. Além de poeta, teatrólogo, romancista, etnógrafo, historiador, advogado, professor, exerceu o jornalismo. Estudioso do idioma Tupi, escreveu um “Dicionário da Língua Tupi”, impresso em Leipzig, Alemanha, pela editora Brockhaus, em 1858. Como poeta, publicou: “Primeiros Cantos” (1846), “Segundos Cantos” (1848), “Últimos Cantos” (1851), “Os Timbiras” (1857), “Cantos” (1857). Após sua morte, são publicados os poemas então inéditos de “Lira Vária”, em 1869. À exceção de “Os Timbiras” e “Cantos”, editadas em Leipzig, as demais o foram no Rio de Janeiro. GONÇALVES DIAS (n. 10/08/1823, Caxias; m. 03/11/1864, costa do Maranhão): AINDA MAIS UMA VEZ - ADEUS I Enfim te vejo! — enfim posso, Curvado a teus pés, dizer-te, Que não cessei de querer-te, Pesar de quanto sofri. Muito penei! Cruas ânsias, Dos teus olhos afastado, Houveram-me acabrunhado A não lembrar-me de ti! II Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos Nas surdas asas dos ventos, Do mar na crespa cerviz! Baldão, ludíbrio da sorte Em terra estranha, entre gente, Que alheios males não sente, Nem se condói do infeliz! III Louco, aflito, a saciar-me D'agravar minha ferida, Tomou-me tédio da vida, Passos da morte senti; Mas quase no passo extremo, No último arcar da esp'rança, Tu me vieste à lembrança: Quis viver mais e vivi! IV Vivi; pois Deus me guardava Para este lugar e hora! Depois de tanto, senhora, Ver-te e falar-te outra vez; Rever-me em teu rosto amigo, Pensar em quanto hei perdido, E este pranto dolorido Deixar correr a teus pés. V Mas que tens? Não me conheces? De mim afastas teu rosto? Pois tanto pôde o desgosto Transformar o rosto meu? aflição quanto pode, Sei quanto ela desfigura, E eu não vivi na ventura... Olha-me bem, que sou eu! VI Nenhuma voz me diriges!... Julgas-te acaso ofendida? Deste-me amor, e a vida Que me darias — bem sei; Mas lembrem-te aqueles feros Corações, que se meteram Entre nós; e se venceram, Mal sabes quanto lutei! VII Oh! se lutei! . . . mas devera
Expor-te em pública praça, Como um alvo à populaça, Um alvo aos dictérios seus! Devera, podia acaso Tal sacrifício aceitar-te Para no cabo pagar-te, Meus dias unindo aos teus? VIII Devera, sim; mas pensava, Que de mim t'esquecerias, Que, sem mim, alegres dias T'esperavam; e em favor De minhas preces, contava Que o bom Deus me aceitaria O meu quinhão de alegria Pelo teu, quinhão de dor! IX Que me enganei, ora o vejo; Nadam-te os olhos em pranto, Arfa-te o peito, e no entanto Nem me podes encarar; Erro foi, mas não foi crime; Não te esqueci, eu to juro: Sacrifiquei meu futuro, Vida e glória por te amar! X Tudo, tudo; e na miséria Dum martírio prolongado, Lento, cruel, disfarçado, Que eu nem a ti confiei: "Ela é feliz (me dizia), "Seu descanso é obra minha." Negou-me a sorte mesquinha. . . Perdoa, que me enganei! XI Tantos encantos me tinham, Tanta ilusão me afagava De noite, quando acordava, De dia em sonhos talvez! Tudo isso agora onde pára? Onde a ilusão dos meus sonhos? Tantos projetos risonhos, Tudo esse engano desfez! XII Enganei-me!... — Horrendo caos Nessas palavras se encerra, Quando do engano, quem erra. Não pode voltar atrás! Amarga irrisão! reflete: Quando eu gozar-te pudera, Mártir quis ser, cuidei qu'era... E um louco fui, nada mais! XIII Louco, julguei adornar-me Com palmas d'alta virtude! Que tinha eu bronco e rude Co’o que se chama ideal? O meu eras tu, não outro; Stava em deixar minha vida Correr por ti conduzida, Pura, na ausência do mal." XIV Pensar eu que o teu destino Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura Deus eterno a fizera, No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!

XV

És d’outro agora, e pr'a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!

XVI

Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

XVII


Adeus qu'eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo, Ter sepultura entre os meus; Negou-me nesta hora extrema, Por extrema despedida, Ouvir-te a voz comovida Soluçar um breve Adeus! XVIII Lerás porém algum dia Meus versos d'alma arrancados, D'amargo pranto banhados, Com sangue escritos; — e então, Confio que te comovas, Que a minha dor te apiede, Que chores, não de saudade, Nem de amor, — de compaixão. “A poesia “Ainda uma vez - adeus!”, bem como as poesias “Palinódia” e “Retratação”, foram inspiradas por Ana Amélia Ferreira do Vale, cunhada do Dr. Teófilo Leal, ex-condiscípulo do poeta em Portugal e seu grande amigo. Gonçalves Dias viu-a pela primeira vez em 1846 no Maranhão. Era uma menina quase, e o poeta, fascinado pela sua beleza e graça juvenil, escreveu para ela as poesias “Seus olhos” e “Leviana”. Vindo para o Rio, é possível que essa primeira impressão tenha desaparecido do seu espírito. Mais tarde, porém, em 1851, voltando a S. Luís, viu-a de novo, e já então a menina e moça de 46 se fizera mulher, no pleno esplendor de sua beleza desabrochada. O encantamento de outrora se transformou em paixão ardente, e, correspondido com a mesma intensidade de sentimento, o poeta, vencendo a timidez, pediu-a em casamento à família. A família da linda Don’Ana - como lhe chamavam - tinha o poeta em grande estima e consideração. Mais forte, porém, do que tudo, era naquele tempo no Maranhão o preconceito de raça e casta. E foi em nome desse preconceito que a família recusou o seu consentimento. Por seu lado, o poeta, colocado diante das duas alternativas: renunciar ao amor ou à amizade, preferiu sacrificar aquela a esta, levado por um excessivo escrúpulo de honradez e lealdade, que revela nos mínimos atos de sua vida. Partiu para Portugal. Renúncia tanto mais dolorosa e difícil por que a moça que estava resolvida a abandonar a casa paterna para fugir com ele, o exprobou em carta, dura e amargamente, por não ter tido a coragem de passar por cima de tudo e de romper com todos para desposá-la! E foi em Portugal, tempos depois, que recebeu outro rude golpe: Don’Ana, por capricho e acinte à família, casara-se com um comerciante, homem também de cor como o poeta e nas mesmas condições inferiores de nascimento. A família se opusera tenazmente ao casamento, mas desta vez o pretendente, sem medir considerações para com os parentes da noiva, recorreu à justiça, que lhe deu ganho de causa, por ser maior a moça. Um mês depois falia, partindo com a esposa para Lisboa, onde o casal chegou a passar até privações. Foi aí, em Lisboa, num jardim público, que certa vez se defrontaram o poeta e a sua amada, ambos abatidos pela dor e pela desilusão de suas vidas, ele cruelmente arrependido de não ter ousado tudo, de ter renunciado àquela que com uma só palavra sua se lhe entregaria para sempre. Desvairado pelo encontro, que lhe reabrira as feridas e agora de modo irreparável, compôs de um jato as estrofes de “Ainda uma vez - adeus!”, as quais, uma vez conhecidas da sua inspiradora, foram por esta copiadas com o seu próprio sangue.” (2) A estas alturas sou tentado à exploração dialética, intertextual, de outro poema de Gonçalves Dias, também inspirado pela musa Ana Amélia, mas escrito antes dos sucessos dramáticos que os envolveram. Trata-se de “Olhos verdes”, e o associo a dois outros de temática igual: o primeiro, de Camões (1524-1580) - e portanto anterior ao de Gonçalves Dias; o segundo, posterior a este, é de outro brasileiro ilustre: o parnasiano Vicente de Carvalho (1866-1924). Vejam os três - e percam-se nesses sonhos: OLHOS VERDES São uns olhos verdes, verdes, Uns olhos de verde-mar, Quando o tempo vai bonança; Uns olhos cor de esperança, Uns olhos por que morri; Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Como duas esmeraldas, Iguais na forma e na cor, Têm luz mais branda e mais forte. Diz uma - vida, outra - morte; Uma - loucura, outra - amor. Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! São verdes da cor do prado, Exprimem qualquer paixão, Tão facilmente se inflamam, Tão meigamente derramam Fogo e luz do coração; Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendoDepois que os vi! Como se lê num espelho, Pude ler nos olhos seus! Os olhos mostram a alma, Que as ondas postas em calma Também refletem os céus; Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Dizei vós, ó meus amigos, Se vos perguntam por mi, Que eu vivo só da lembrança De uns olhos da cor da esperança, De uns olhos verdes que vi! Que ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Dizei vós:” Triste do bardo! Deixou-se de amor finar! Viu uns olhos verdes, verdes, Uns olhos da cor do mar; Eram verdes sem esp’rança, Davam amor sem amar!” Dizei-o vós, meus amigos, Que ai de mi! Não pertenço mais à vida Depois que os vi!De Camões MOTE ALHEIO Menina dos olhos verdes, Por que me não vedes? VOLTAS Eles verdes são, E têm por usança Na cor esperança E nas obras não. Vossa condição Não é de olhos verdes, Porque me não vedes. Que eles dizem terdes, Não são de olhos verdes, Nem de verdes olhos. Sirvo de geolhos, E vós não me credes, Porque me não vedes. Havia de ser,

Por que possa vê-los, Que uns olhos tão belos Não se hão de esconder. Mas fazeis-me crer Porque me não vedes. Verdes não o são No que alcanço deles; Verdes são aqueles Que esperança dão. Se na condição< Está serem verdes, Por que me não vedes? De Vicente de Carvalho OLHOS VERDES Olhos encantados, olhos cor do mar, Olhos pensativos que fazeis sonhar! Que formosas cousas, quantas maravilhas Em vos vendo, sonho, em vos fitando vejo; Cortes pitorescos de afastadas ilhas Abanando no ar seus coqueirais em flor, Solidões tranquilas feitas para o beijo, Ninhos verdejantes feitos para o amor... Olhos pensativos que falais de amor!... Vem caindo a noute, vai subindo a lua... O horizonte, como para recebê-las, De uma fímbria de ouro todo se debrua; Afla a brisa, cheia de ternura ousada, Esfrolando as ondas, provocando nelas" Bruscos arrepios de mulher beijada... Olhos tentadores da mulher amada! Uma vela branca, toda alvor, se afasta Balançando na onda, palpitando ao vento; Ei-la que mergulha pela noite vasta, Pela vasta noute feita de luar; Olhos cismadores que fazeis cismar! Branca vela errante, branca vela errante, Como a noute é clara! Como o céu é lindo! Leva-me contigo pelo mar... Adiante! Leva-me contigo até mais longe, a essa Fímbria do horizonte onde te vais sumindo E onde acaba o mar e de onde o céu começa... abençoados cheios de promessa! Olhos pensativos que fazeis sonhar, (*) Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.

domingo, 28 de janeiro de 2024

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 2024 – 04

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes


SIMPLICIDADE E DOÇURA

Meu retorno a Cotovelo foi providencial. A brisa, ainda que lutando contra um calor incomum, deu-me coragem a voltar a ler e escrever.

Selecionei textos mais suaves que aquela linguagem pesada dos clássicos e, dentre os livros dei logo preferência para o recente, de crônicas simples e doces da minha amigas Maria Emília Wanderley.

Programei que minhas leituras seriam pausadas para não espantar a preguiça natural das redes na varanda, como aconselha Cascudo: "O leito obriga-nos a tomar seu costume, ajeitando-nos nele, procurando o repouso numa sucessão de posições. A rede toma o nosso feitio, contamina-se com os nossos hábitos, repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo".(Redes de dormir).

E dei-me ao prazer da leitura do livro “Lugares em que ancorei minhas lembranças”. Contudo, logo esqueci a programação, pois a obra não permite parar no tempo face o sabor de cada capítulo – alguns até reli para melhor absorver o seu sabor.

De imediato revela uma verdade, uma relembrança de lugares, pessoas e vida, as boas ou as desagradáveis, o que permite a afirmativa: Eu não tenho idade, o meu tempo é hoje.

Seguindo esse mesmo passo, a minha idade vetusta não me impede sonhar, até mesmo voar por lugares onde vivi e conquistei com a minha inesquecível THEREZINHA. Claro que o voo de agora é tentando descobrir o exato local onde ela se encontra. Porém sempre acordo nos momentos mais importantes, deixando-me a molhar o rosto com as lágrimas de saudade.

A escritora cultua a família construída, em número igual à minha e agradece a Deus os diamantes recebidos, que alimentam a coragem de continuar convivendo com a idade.

No capítulo dos “Elogios” comparo com alguns comigo ocorridos, a exemplo de: “Carlos é tão bonitinho, mas muito baixinho!”.

Lembrei-me de vários acontecimentos, como a Redinha sem luz elétrica e o fogo fátuo, o lobisomem assumidos por muitos, mas parece que era mesmo um conhecido escritor das calçadas do São Luiz, ou não!

A casa dos meus avós tinha semelhança com a dela, a assertiva de que só se aprende amando, a janela que servia de sentinela ao cotidiano, como aconteceu ao tempo em que morei na rua Pedro Velho, em Macaíba, o jardim, o pomar, as fases – música, cineasta e jardineiro, que ainda persistem – gosto de cantar como na adolescência, sonho em transformar meu romance “Amor de Verão” em um curta-metragem e substituo a minha amada na conservação do jardim que me deixou de herança, com os gatos e tudo o mais.

Bons momentos. M.E. escreva mais!

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

 A 5ª DIMENSÃO DO ESTRESSE

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Tudo incomoda o vivente. O sobrevivente. Provar a sensação amarga da guerra perdida. Contemplar do alto do edifício urbano as maiorias fúteis impondo iniquidades sobre Natal. O ter que se habituar com a visão torta e vesga dos poderosos de plantão que impõem suas regras pela mídia. Natal sem becos, sem esquinas boêmias, sem praças, sem preces, povoadas de vultos inexpressivos que não serão falados amanhã. Extraviaram a noção de história. Os anos inaugurais do século XXI, não têm o glamour dos fatos e das figuras do século passado. O homem coisificou-se. Perdeu a densidade, a identidade, a musculatura dos gestos e dos passos que fazem história.

Na política, não temos mais líderes como antigamente: os neófitos já saúdam os poucos náufragos que irão morrer amanhã. A paisagem é deserta. As instituições se burocratizaram em blocos de ferro e cimento armado. Não têm mais lume nem leme. “Igrejinhas” tão somente. Não sei se há esperança. Não sei se há salvação. As únicas ameaças à ordem constituída continua a ser o Covid, a droga, a dengue, a chikungunya e a zica. Muitos acreditam que é o maior desafio ainda não enfrentado pelo Ministério Público. Por outro lado, Natal a cada dia, fica mais insuportável com a quantidade de veículos. De motos. Principalmente aquelas que cortam o seu carro pela direita. Mas, assim caminham as capitais, as metrópoles para o futuro enganoso oferecido pelas imobiliárias. O ensino público e privado mercadejou-se tanto quanto o turismo sexual. Perdeu a qualidade. E viva a quantidade.

Fortunas repentinas arremetem-se para o alto iguais ao crescimento vertical da cidade. Não há explicação. Não há investigação. Tudo é volátil e volante. Expresso em arcos voltaicos celebrados na crônica social. É aí que se deduz que toda celebridade quando não é célere, é celerada. Ou fazem de cômicas todas as autoridades.

Saio de mim para penetrar na imponderabilidade do oceano que assiste, lá fora, a decomposição humana. A visão misteriosa do oceano pacífica e beatifica o pecador solerte, já dizia o décimo terceiro apóstolo de Cristo, perdido no tempo e no espaço, ainda acreditando na grandeza do último milagre.

Mas, estresse é coisa séria. Pode ser trágico, para não dizer cômico. Não há como escapar de suas ilações, reações adversas e efeitos colaterais. Mas, que Natal está chata e irreconhecível, infelizmente é verdade. Tenho ultimamente pensado muito em Lucrécia. As duas. A Bórgia e a do Oeste. São pontos de fuga. Estações de tratamento para os dias. Os mesmos dias.

Hoje em dia, é raríssima a autoridade pública ou privada que dá retorno de telefonemas. Deixar recado é esforço pífio e inútil. Não existe mais apreço, atenção, respeito, civilidade, sociabilidade, humanidade. O político, via de regra, só retorna ligação se houver vantagem de voto gratuito ou financiamento de campanha. O empresário pergunta logo quem está na ponta da linha e quanto vai lucrar. Já alguns secretários de governo, nomeados para atender a sociedade, sempre estão em reunião com “aspones” para evitar interrupções que não atendam seus interesses imediatos. Devolver um telefonema que não foi atendido de imediato por ocupação instantânea ou outro motivo relevante, ou não receber um cidadão que pediu audiência, é ato de cavalheirismo, de educação, de nobreza que pouca gente cultiva.

Sei que muitos leitores estão incluídos na estatística dos sofredores. E gostariam de dizer o que afirmo agora. Os cultores da prática mafiosa alegam que é preciso racionalizar o tempo, eleger prioridades, formatizar custos e ganhos de produtividade, e, o lado humano/cidadão vai para o beleléu, descartado por não representar modernidade, segundo os fariseus dos templos públicos. Cheguei a imaginar, de início, que a minha tese é inconsistente. Seria antiquado portar-me assim, mandando a secretária anotar quem telefonou para retornar, em seguida, uma a uma, as ligações recebidas? Acho que não. Tudo é uma questão de estilo, de ética, de personalidade e de berço.

(*) Escritor.