sábado, 17 de fevereiro de 2024

 HOMENAGEM AO AMIGO LAURO BEZERRA




Faleceu, na madrugada desta sexta-feira (16), no Hospital São Lucas, em Natal, o professor universitário aposentado, médico e ex-deputado estadual Lauro Bezerra, aos 90 anos.
Vim conhecer melhor Lauro Gonçalves Bezerra, filho do ex-deputado João Bianor Bezerra, colega do meu pai, na antiga Assembleia Legislativa, a partir dos anos noventa quando juntos servíamos a mesma instituição, por outorga popular. Lauro combatente, atento, ágil e altivo, honrou o Poder Legislativo do Estado através do seu comportamento íntegro e irrepreensível. Presidiu como vice-presidente, inúmeras vezes, as sessões plenárias e a própria Casa. Como debatedor dos problemas da saúde demonstrou a experiência adquirida como secretário de saúde estadual, pró-reitor da UFRN, além de larga visão administrativa quando passou por postos diversos da vida pública. Na família Bezerra, da qual foi um dos expoentes, pontificaram ainda os saudosos “majó” Theodorico Bezerra (tio) e Aluízio Bezerra (irmão), Fernando Bezerra (irmão), Kleber Bezerra (primo), entre outros memoráveis nomes que se destacaram desde Santa Cruz, a Escola de Sagres, e se estenderam por todo o sertão do Trairí.
O ex-deputado Lauro Bezerra deixa viúva, Dona Luzi, com quem teve três filhos: Bianor, Solange e Suzana.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

 “Vá se queixar ao bispo” 

Padre João Medeiros Filho 

Eis uma expressão, ainda ouvida ou lida, aqui e acolá. É anterior à fundação do Reino de Portugal. Historiadores, especialmente aqueles da área do Direito, relatam que a máxima já foi ordenamento jurídico na Península Ibérica, entre 480-711. Constava do Código Visigótico (Livro II, Título II, Item XXVIII). Permitia às pessoas, inconformadas com o veredicto de tribunais e magistrados, dirigir-se ao bispo em grau recursal. O pleito era possível, quando os interessados consideravam a sentença proferida, em discordância com o regramento em vigor. Infere-se, portanto, que o bispo representava justiça,sentimento humanitário para a população. Segundo certos autores, o jargão surgiu, entre nós, no século XVII, na cidade do Rio de Janeiro. À época, os comerciários fizeram campanha, exigindo que as lojas fechassem aos domingos e dias festivos para o cumprimento do mandamento religioso. Naquele tempo, por força da Concordata entre a Santa Sé, Portugal e posteriormente o Brasil Império, o catolicismo era religião de Estado. Daí todos deveriam guardar o Dia do Senhor. Os lojistas promoveram manifestações públicas e passeatas, ameaçando fazer greve. Os patrões mantiveram-se intransigentes. Como última tentativa levaram um abaixoassinado a Dom José de Barros Alarcão, prelado do Rio de Janeiro (1680), solicitando intercessão junto ao Rei de Portugal, Dom Afonso VI. Desejavam que editasse uma lei específica, mediante a qual os fiéis trabalhadores pudessem cumprir os preceitos dominicais e nos dias santificados. Pode-se deduzir a presença da Igreja, enquanto última instância de resposta contra a violação dos direitos humanos. Para Dom Jaime Luiz Coelho, primeiro metropolita de Maringá (PR), o adágio remonta ao Brasil colonial. Na época, vigorava o regime do Padroado. Consequentemente, a Igreja Católica, por meio das dioceses, detinha certas atribuições e prerrogativas no foro civil. “Va queixar-se ao bispo” tornou-se popular no Brasil seiscentista e setecentista. A autoridade diocesana chegava a gozar de competência legal até para mandar prender rapazes que “ofendiam às donzelas” e recusavam as núpcias. Até bem pouco, era costume algo semelhante no Seridó. Quando alguma moça era “desonrada”, conduziam-na imediatamente à presença do dignitário eclesiástico para que se providenciasse urgentemente o casamento. Isso era motivo de força maior para a dispensa dos proclamas canônicos. Enquanto chanceler da cúria diocesana de Caicó, fui testemunha de vários acontecimentos dessa ordem. Convém lembrar que no Brasil concordatário, os prelados eram investidos de alguns poderes administrativos e jurídicos. Assim, era natural as pessoas verem no pastor a porta para a solução dos seus problemas pessoais mais prementes. A figura episcopal era respeitada por todos, sobretudo porque acreditavam ser ela a legítima representante de Deus entre os homens, capaz de oferecer luzes e apontar caminhos para seus sofrimentos. “Eu vi a humilhação de meu povo e ouvi o seu clamor” (Ex 3, 7). Poder-se-ia pôr tais palavras nos lábios dos antístites daqueles tempos. Nessa mesma direção, o jornalista e professor Jairo Faria Mendes apresenta sua versão para o axioma. Menciona que em Portugal – e nos seus territórios ultramarinos – em razão do Padroado, a autoridade diocesana exercia também a função de Ouvidor da Coroa, responsável por receber as queixas dos cidadãos. Assim, no Brasil colonial, os pontífices tinham ainda o encargo de ouvir as lamúrias e o relato de problemas materiais dos fiéis. Isto deu azo à difusão do aforismo “Vá se queixar ao bispo”. Hoje, os dignitários episcopais não estão mais revestidos de jurisdição civil. É importante frisar que, à época, a história registra a figura do bispo humanitária, paternal,solidária e clemente. Atualmente, a quem a população sofrida, injustiçada e desesperançada irá desabafar? Quem ouvirá seus rogos contra desmandos públicos, injustiça, fome, desemprego, violência, assistência precária de saúde, insegurança, falta de habitação, água e vergonha? Quem haverá de interceder, quando se adoecer de arboviroses e epidemias? Outrora, o bispo cuidava de tudo aquilo que o Estado negligenciava ou era incapaz de resolver. Por sua compreensão, senso de justiça e caridade, ele tinha condiçõesreais de solucionar impasses. Nos dias atuais, necessita-se de alguém – máxime entre executivos e legisladores – sobre quem se possa afirmar: “Teve compaixão da multidão [sofrida e sem esperança], pois era como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36).

 

CANGAÇO: PORQUE SÓ LAMPIÃO FICOU NO IMAGINÁRIO POPULAR.
O cangaço, uma das páginas mais cruentas, vivida nos ermos mais distantes da pancada do mar, onde o sol se faz rosa, para se pôr. Tem sua grota de viço nas amarguras da vingança, no refúgio de quem cometera um crime, e por último, na sua fase mais ignóbil, desprezível que é o cangaço meio, fim, quando ações de rapina, com plenitude de prática, no período Lampiônico, com mais intensidade, nos tempos que medeiam os anos de l926 a 1938. quando ocorreu o epílogo do cangaço na gruta de Angicos, em Sergipe.
Mas, o meu paleio de copiar*hoje, não é esmerar o cangaço nem como conduta criminosa, hedionda, nem tão pouco, adjetivando seus praticantes como “heróis extraviados”, como dissera um dos meus gurus, Ariano Suassuna.
A selvageria lampiônica, em muito supera o suplício nas ordenações manuelinas e afonsinas, que no brasil fez-se prática nos episódios de Felipe dos Santos e do próprio Tiradentes, com cênico de esquartejamento e exposição na Cruz de Malta, uma cristianização à similaridade do que aconteceu com Jesus, na era de Tibério César.
Porém, rabiscar na historicidade dos fatos e contextos, o que levou os habitantes dessas terras de trópicos e de anos de magrém, amealhar no seu imaginário, não um juízo de reproche aos hunos cangaceiros, porém, mitigar uma leitura, que transformou o Estado disciplinado em réu e o desvario da violência do cangaço, numa possibilidade de ser, o que nosso Mestre Cascudo vislumbrou, serem bandidos diferenciados dos criminosos comuns, portanto, uma saga que nascia de uma vertente dotada de escudo ético. Aquele que sofrera uma injustiça, um constrangimento, não reparados pelo Estado.
Saliente-se que esse juízo não é desnudado de motivações. Por necessário trazer o exemplo de como Lampião se portava, no trato com o pequeno sitiante criador. Sempre vislumbrava na escolha de uma rês de gado vacum, por uma cabeça escoteira, sem prenhez ou amojo, ou na fase lactente. Escolhia um toureco, uma garrote, para fazer a carne de sol. E nessas circunstâncias, sempre ordenava que o seu estado maior, procedesse no pagamento.
De bem noticiar, que quando a polícia se arranchava na casa de um criador do Sertão, proprietário de apenas uma semente da espécie, ordenava o abatimento do “boi de campinadeira”, a força motriz da roça, daquele desvalido sertanejo, saindo sem o devido pagamento.
Por ressaltar também, que no espetáculo cênico de CHUVA DE BALA NO PAÍS DE MOSSORÓ, os heróis não são os defensores da urbe potiguar, mas, a saga lampiônica, começando pelo próprio rei do cangaço e seus lugares tenentes, Sabino de Gore*, Jararaca. Embora tal episódio, seja um dos malogros da epopeia do cangaço sob a égide de Virgulino Ferreira da Silva, que há alguns meses antes, no dia 26 de novembro de 1926, na batalha de Serra Grande, PE, houvera derrotado as forças de quatro estados nordestinos, um contingente de trezentos homens, entre macacos* e cachimbos*, com a apenas um grupo de 68 cangaceiros.
*Sabino de Gore: Sabino era filho de uma negra cozinheira com o Cel. Marçal Diniz, meio irmão de Marcolino Diniz, coiteiro de lampião, e cunhado de José Pereira de Princesa, pois, casado com Xanduzinha, aquele da melodia de Luiz rei do baião.
*Paleio de copiar: Os antigos dos sertões do Seridó, ante a falta de entretenimento como nesses tempos de hoje, se aboletavam na sala subsequente ao alpendre, o copiar, sala grande, de recepção, e nesta, no período que medeia a hora do Ângelo e a última ceia, permeava a estação da oralidade: Uma discorrência sobre as façanhas dos homens de destaque, histórias do pavão misterioso, Doze pares de França e assim por diante. Era a estação da oralidade.
* Macacos: adjetivo para nominar as tropas da polícia, volantes, que combatiam o cangaço.
*Cachimbos: civis com soldo, ou salário pagos pelo governo, viviam na "tubiba" de Lampião. Os cabras de Nazaré (Vila Bela) depois Serra Talhada, era civis que tinham rixas de Lampião. Quase todos fora engajados na corporação militar foram pra reserva como oficiais.
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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

ENCONTRO COM A POESIA: GONÇALVES DIAS. Horácio Paiva * O encontro me remete a um tempo pessoal já antigo: 1965, quando eu tinha 19 anos, na casa de meu irmão Daltro, em Macau, no calor da tarde, antes do vento Nordeste soprar. Ali encontrei o romântico Gonçalves Dias, emocionado e inspirado (algo, aliás, próprio dos românticos), no torvelinho estético da dor e da poesia em que se envolvera, ao relembrar a paixão amorosa de sua juventude, podada pelo destino, e com maestria exposta em seu notável poema “Ainda uma vez - adeus!”, o qual Daltro declamava, com ávido entusiasmo. Trata-se de poema dos mais belos e também dos mais vivos do romantismo latino-americano. Algo prosaico, confessional, e sobretudo humano, confere-lhe ares de modernidade. Claro, não foi o primeiro Gonçalves Dias que vi, pois já conhecera o da “Canção do Tamoio” (quase uma oração de otimismo e força) e o da “Canção do Exílio” (quase um hino - e estando, de fato, algumas de suas expressões no Hino Nacional), e vários outros, desde remotíssimos tempos escolares. Já se chegou a dizer que a “Canção do Exílio” é o maior fenômeno de intertextualidade da cultura brasileira, tal o número de produções sequenciais que gerou. Estes - aos quais acrescento “I – Juca-Pirama” (“o que será morto”, considerado a expressão máxima da poesia indianista) e “O Canto do Piaga” -, todos belos poemas, tratando de povo e terra pátria, têm a natureza do romantismo social, segmento da escola romântica tão ao gosto dos italianos e também explorado por outro grande poeta nacional, o baiano Castro Alves - com as cores da política e do protesto. Com efeito, duas vertentes jorram da sensibilidade estética de Gonçalves Dias. Ambas de águas límpidas, mas torrenciais: uma, épica, social, nacional, indianista e naturalista, que exalta e defende o povo originário - os Índios - e a natureza exuberante do Brasil tropical, da qual os mencionados poemas são exemplos; outra, amorosa, íntima, sentimental, individualista. Pérolas desse romantismo intimista, lírico, autobiográfico e emocional (cujo subjetivismo constitui a sua característica emblemática, por vezes chegando a definir o cerne da própria escola) são, sem dúvidas, os seus poemas “Olhos verdes”, “Não me deixes” e “Ainda uma vez - adeus!”. Este último, especialmente, que traduz episódio dos mais intensos de sua vida - quando o poeta sentiu a mão pesada e dura do áspero destino, como diria José Albano -, chega a resultado lírico dos mais sublimes. Ao final desta resenha, transcrevo nota do poeta e tradutor Onestaldo de Penafort, redigida sobre o assunto, a pedido de Manuel Bandeira. Nasceu Antônio Gonçalves Dias em 10 de agosto de 1823, no sítio Boa Vista, Município de Caxias, Maranhão, e faleceu em 3 de novembro de 1864 (aos 41 anos), tragicamente, quando retornava da Europa, no naufrágio do navio Ville de Boulogne, na costa daquele Estado (mais precisamente no baixio dos Atins, em frente à Ponta da Boa Vista, perto de Tutóia). Foi, aliás, o único a morrer: esquecido em seu leito, agonizante, com a tuberculose em fase avançada, afogou-se. Era filho de pai branco e mãe índia ou cafusa (mestiça de africano, negro, com índio). Seu pai, o comerciante português João Manuel Gonçalves Dias, se refugiara com a amante, Vicência Ferreira, no sítio onde nasceu o poeta, para escapar a perseguições políticas de nacionalistas radicais. Nunca legalizou essa união conjugal, encerrada por ele, que se casou com outra mulher, mas mantendo a guarda do filho, afastado assim da mãe com apenas 6 anos de idade. Anos depois, havendo-lhe morrido o pai, o poeta contou com o apoio da madrasta, que o mandou estudar em Portugal. Ali, na histórica Universidade de Coimbra, concluiu seu curso de Direito, retornando ao Brasil em 1845. O período passado em Portugal foi muito importante na formação de Gonçalves Dias. Além de seu curso universitário, estudou língua e literatura de vários países: França, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália. E teve contato com vários escritores do romantismo português, entre eles Alexandre Herculano, Almeida Garret, Feliciano de Castilho. Também em Coimbra escreveu os “Primeiros Cantos”, parte dos “Segundos Cantos” e, em 1843, aquele que viria a ser o seu poema mais famoso e mais reproduzido e conhecido em nosso País: a “Canção do Exílio”. De volta ao Brasil, exerceu diversos cargos públicos, desde professor de Latim e História do Brasil no renomado Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, oficial da Secretaria de Negócios Estrangeiros (o que lhe deu novas oportunidades de viagens ao exterior) a membro da Comissão Científica de Exploração. Mesmo nesta apertada síntese biográfica, não pode faltar a citação desses episódios escritos pela mão do destino e que marcaram o poeta: seu encontro e paixão imediata por Ana Amélia Ferreira do Vale, em 1851, no Maranhão, e, no ano seguinte, 1852, a rejeição, pelos pais dela, do pedido de casamento, motivada pela origem bastarda e mestiça do poeta. Voltando ao Rio, nesse mesmo ano de 1852, casou com Olímpia Carolina da Costa, mas não foi feliz. Dela separou-se em 1856. Tiveram uma filha, que morreu ainda na primeira infância. Produziu extensa obra literária. Além de poeta, teatrólogo, romancista, etnógrafo, historiador, advogado, professor, exerceu o jornalismo. Estudioso do idioma Tupi, escreveu um “Dicionário da Língua Tupi”, impresso em Leipzig, Alemanha, pela editora Brockhaus, em 1858. Como poeta, publicou: “Primeiros Cantos” (1846), “Segundos Cantos” (1848), “Últimos Cantos” (1851), “Os Timbiras” (1857), “Cantos” (1857). Após sua morte, são publicados os poemas então inéditos de “Lira Vária”, em 1869. À exceção de “Os Timbiras” e “Cantos”, editadas em Leipzig, as demais o foram no Rio de Janeiro. GONÇALVES DIAS (n. 10/08/1823, Caxias; m. 03/11/1864, costa do Maranhão): AINDA MAIS UMA VEZ - ADEUS I Enfim te vejo! — enfim posso, Curvado a teus pés, dizer-te, Que não cessei de querer-te, Pesar de quanto sofri. Muito penei! Cruas ânsias, Dos teus olhos afastado, Houveram-me acabrunhado A não lembrar-me de ti! II Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos Nas surdas asas dos ventos, Do mar na crespa cerviz! Baldão, ludíbrio da sorte Em terra estranha, entre gente, Que alheios males não sente, Nem se condói do infeliz! III Louco, aflito, a saciar-me D'agravar minha ferida, Tomou-me tédio da vida, Passos da morte senti; Mas quase no passo extremo, No último arcar da esp'rança, Tu me vieste à lembrança: Quis viver mais e vivi! IV Vivi; pois Deus me guardava Para este lugar e hora! Depois de tanto, senhora, Ver-te e falar-te outra vez; Rever-me em teu rosto amigo, Pensar em quanto hei perdido, E este pranto dolorido Deixar correr a teus pés. V Mas que tens? Não me conheces? De mim afastas teu rosto? Pois tanto pôde o desgosto Transformar o rosto meu? aflição quanto pode, Sei quanto ela desfigura, E eu não vivi na ventura... Olha-me bem, que sou eu! VI Nenhuma voz me diriges!... Julgas-te acaso ofendida? Deste-me amor, e a vida Que me darias — bem sei; Mas lembrem-te aqueles feros Corações, que se meteram Entre nós; e se venceram, Mal sabes quanto lutei! VII Oh! se lutei! . . . mas devera
Expor-te em pública praça, Como um alvo à populaça, Um alvo aos dictérios seus! Devera, podia acaso Tal sacrifício aceitar-te Para no cabo pagar-te, Meus dias unindo aos teus? VIII Devera, sim; mas pensava, Que de mim t'esquecerias, Que, sem mim, alegres dias T'esperavam; e em favor De minhas preces, contava Que o bom Deus me aceitaria O meu quinhão de alegria Pelo teu, quinhão de dor! IX Que me enganei, ora o vejo; Nadam-te os olhos em pranto, Arfa-te o peito, e no entanto Nem me podes encarar; Erro foi, mas não foi crime; Não te esqueci, eu to juro: Sacrifiquei meu futuro, Vida e glória por te amar! X Tudo, tudo; e na miséria Dum martírio prolongado, Lento, cruel, disfarçado, Que eu nem a ti confiei: "Ela é feliz (me dizia), "Seu descanso é obra minha." Negou-me a sorte mesquinha. . . Perdoa, que me enganei! XI Tantos encantos me tinham, Tanta ilusão me afagava De noite, quando acordava, De dia em sonhos talvez! Tudo isso agora onde pára? Onde a ilusão dos meus sonhos? Tantos projetos risonhos, Tudo esse engano desfez! XII Enganei-me!... — Horrendo caos Nessas palavras se encerra, Quando do engano, quem erra. Não pode voltar atrás! Amarga irrisão! reflete: Quando eu gozar-te pudera, Mártir quis ser, cuidei qu'era... E um louco fui, nada mais! XIII Louco, julguei adornar-me Com palmas d'alta virtude! Que tinha eu bronco e rude Co’o que se chama ideal? O meu eras tu, não outro; Stava em deixar minha vida Correr por ti conduzida, Pura, na ausência do mal." XIV Pensar eu que o teu destino Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura Deus eterno a fizera, No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!

XV

És d’outro agora, e pr'a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!

XVI

Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

XVII


Adeus qu'eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo, Ter sepultura entre os meus; Negou-me nesta hora extrema, Por extrema despedida, Ouvir-te a voz comovida Soluçar um breve Adeus! XVIII Lerás porém algum dia Meus versos d'alma arrancados, D'amargo pranto banhados, Com sangue escritos; — e então, Confio que te comovas, Que a minha dor te apiede, Que chores, não de saudade, Nem de amor, — de compaixão. “A poesia “Ainda uma vez - adeus!”, bem como as poesias “Palinódia” e “Retratação”, foram inspiradas por Ana Amélia Ferreira do Vale, cunhada do Dr. Teófilo Leal, ex-condiscípulo do poeta em Portugal e seu grande amigo. Gonçalves Dias viu-a pela primeira vez em 1846 no Maranhão. Era uma menina quase, e o poeta, fascinado pela sua beleza e graça juvenil, escreveu para ela as poesias “Seus olhos” e “Leviana”. Vindo para o Rio, é possível que essa primeira impressão tenha desaparecido do seu espírito. Mais tarde, porém, em 1851, voltando a S. Luís, viu-a de novo, e já então a menina e moça de 46 se fizera mulher, no pleno esplendor de sua beleza desabrochada. O encantamento de outrora se transformou em paixão ardente, e, correspondido com a mesma intensidade de sentimento, o poeta, vencendo a timidez, pediu-a em casamento à família. A família da linda Don’Ana - como lhe chamavam - tinha o poeta em grande estima e consideração. Mais forte, porém, do que tudo, era naquele tempo no Maranhão o preconceito de raça e casta. E foi em nome desse preconceito que a família recusou o seu consentimento. Por seu lado, o poeta, colocado diante das duas alternativas: renunciar ao amor ou à amizade, preferiu sacrificar aquela a esta, levado por um excessivo escrúpulo de honradez e lealdade, que revela nos mínimos atos de sua vida. Partiu para Portugal. Renúncia tanto mais dolorosa e difícil por que a moça que estava resolvida a abandonar a casa paterna para fugir com ele, o exprobou em carta, dura e amargamente, por não ter tido a coragem de passar por cima de tudo e de romper com todos para desposá-la! E foi em Portugal, tempos depois, que recebeu outro rude golpe: Don’Ana, por capricho e acinte à família, casara-se com um comerciante, homem também de cor como o poeta e nas mesmas condições inferiores de nascimento. A família se opusera tenazmente ao casamento, mas desta vez o pretendente, sem medir considerações para com os parentes da noiva, recorreu à justiça, que lhe deu ganho de causa, por ser maior a moça. Um mês depois falia, partindo com a esposa para Lisboa, onde o casal chegou a passar até privações. Foi aí, em Lisboa, num jardim público, que certa vez se defrontaram o poeta e a sua amada, ambos abatidos pela dor e pela desilusão de suas vidas, ele cruelmente arrependido de não ter ousado tudo, de ter renunciado àquela que com uma só palavra sua se lhe entregaria para sempre. Desvairado pelo encontro, que lhe reabrira as feridas e agora de modo irreparável, compôs de um jato as estrofes de “Ainda uma vez - adeus!”, as quais, uma vez conhecidas da sua inspiradora, foram por esta copiadas com o seu próprio sangue.” (2) A estas alturas sou tentado à exploração dialética, intertextual, de outro poema de Gonçalves Dias, também inspirado pela musa Ana Amélia, mas escrito antes dos sucessos dramáticos que os envolveram. Trata-se de “Olhos verdes”, e o associo a dois outros de temática igual: o primeiro, de Camões (1524-1580) - e portanto anterior ao de Gonçalves Dias; o segundo, posterior a este, é de outro brasileiro ilustre: o parnasiano Vicente de Carvalho (1866-1924). Vejam os três - e percam-se nesses sonhos: OLHOS VERDES São uns olhos verdes, verdes, Uns olhos de verde-mar, Quando o tempo vai bonança; Uns olhos cor de esperança, Uns olhos por que morri; Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Como duas esmeraldas, Iguais na forma e na cor, Têm luz mais branda e mais forte. Diz uma - vida, outra - morte; Uma - loucura, outra - amor. Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! São verdes da cor do prado, Exprimem qualquer paixão, Tão facilmente se inflamam, Tão meigamente derramam Fogo e luz do coração; Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendoDepois que os vi! Como se lê num espelho, Pude ler nos olhos seus! Os olhos mostram a alma, Que as ondas postas em calma Também refletem os céus; Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Dizei vós, ó meus amigos, Se vos perguntam por mi, Que eu vivo só da lembrança De uns olhos da cor da esperança, De uns olhos verdes que vi! Que ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Dizei vós:” Triste do bardo! Deixou-se de amor finar! Viu uns olhos verdes, verdes, Uns olhos da cor do mar; Eram verdes sem esp’rança, Davam amor sem amar!” Dizei-o vós, meus amigos, Que ai de mi! Não pertenço mais à vida Depois que os vi!De Camões MOTE ALHEIO Menina dos olhos verdes, Por que me não vedes? VOLTAS Eles verdes são, E têm por usança Na cor esperança E nas obras não. Vossa condição Não é de olhos verdes, Porque me não vedes. Que eles dizem terdes, Não são de olhos verdes, Nem de verdes olhos. Sirvo de geolhos, E vós não me credes, Porque me não vedes. Havia de ser,

Por que possa vê-los, Que uns olhos tão belos Não se hão de esconder. Mas fazeis-me crer Porque me não vedes. Verdes não o são No que alcanço deles; Verdes são aqueles Que esperança dão. Se na condição< Está serem verdes, Por que me não vedes? De Vicente de Carvalho OLHOS VERDES Olhos encantados, olhos cor do mar, Olhos pensativos que fazeis sonhar! Que formosas cousas, quantas maravilhas Em vos vendo, sonho, em vos fitando vejo; Cortes pitorescos de afastadas ilhas Abanando no ar seus coqueirais em flor, Solidões tranquilas feitas para o beijo, Ninhos verdejantes feitos para o amor... Olhos pensativos que falais de amor!... Vem caindo a noute, vai subindo a lua... O horizonte, como para recebê-las, De uma fímbria de ouro todo se debrua; Afla a brisa, cheia de ternura ousada, Esfrolando as ondas, provocando nelas" Bruscos arrepios de mulher beijada... Olhos tentadores da mulher amada! Uma vela branca, toda alvor, se afasta Balançando na onda, palpitando ao vento; Ei-la que mergulha pela noite vasta, Pela vasta noute feita de luar; Olhos cismadores que fazeis cismar! Branca vela errante, branca vela errante, Como a noute é clara! Como o céu é lindo! Leva-me contigo pelo mar... Adiante! Leva-me contigo até mais longe, a essa Fímbria do horizonte onde te vais sumindo E onde acaba o mar e de onde o céu começa... abençoados cheios de promessa! Olhos pensativos que fazeis sonhar, (*) Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.

domingo, 28 de janeiro de 2024

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 2024 – 04

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes


SIMPLICIDADE E DOÇURA

Meu retorno a Cotovelo foi providencial. A brisa, ainda que lutando contra um calor incomum, deu-me coragem a voltar a ler e escrever.

Selecionei textos mais suaves que aquela linguagem pesada dos clássicos e, dentre os livros dei logo preferência para o recente, de crônicas simples e doces da minha amigas Maria Emília Wanderley.

Programei que minhas leituras seriam pausadas para não espantar a preguiça natural das redes na varanda, como aconselha Cascudo: "O leito obriga-nos a tomar seu costume, ajeitando-nos nele, procurando o repouso numa sucessão de posições. A rede toma o nosso feitio, contamina-se com os nossos hábitos, repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo".(Redes de dormir).

E dei-me ao prazer da leitura do livro “Lugares em que ancorei minhas lembranças”. Contudo, logo esqueci a programação, pois a obra não permite parar no tempo face o sabor de cada capítulo – alguns até reli para melhor absorver o seu sabor.

De imediato revela uma verdade, uma relembrança de lugares, pessoas e vida, as boas ou as desagradáveis, o que permite a afirmativa: Eu não tenho idade, o meu tempo é hoje.

Seguindo esse mesmo passo, a minha idade vetusta não me impede sonhar, até mesmo voar por lugares onde vivi e conquistei com a minha inesquecível THEREZINHA. Claro que o voo de agora é tentando descobrir o exato local onde ela se encontra. Porém sempre acordo nos momentos mais importantes, deixando-me a molhar o rosto com as lágrimas de saudade.

A escritora cultua a família construída, em número igual à minha e agradece a Deus os diamantes recebidos, que alimentam a coragem de continuar convivendo com a idade.

No capítulo dos “Elogios” comparo com alguns comigo ocorridos, a exemplo de: “Carlos é tão bonitinho, mas muito baixinho!”.

Lembrei-me de vários acontecimentos, como a Redinha sem luz elétrica e o fogo fátuo, o lobisomem assumidos por muitos, mas parece que era mesmo um conhecido escritor das calçadas do São Luiz, ou não!

A casa dos meus avós tinha semelhança com a dela, a assertiva de que só se aprende amando, a janela que servia de sentinela ao cotidiano, como aconteceu ao tempo em que morei na rua Pedro Velho, em Macaíba, o jardim, o pomar, as fases – música, cineasta e jardineiro, que ainda persistem – gosto de cantar como na adolescência, sonho em transformar meu romance “Amor de Verão” em um curta-metragem e substituo a minha amada na conservação do jardim que me deixou de herança, com os gatos e tudo o mais.

Bons momentos. M.E. escreva mais!

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

 A 5ª DIMENSÃO DO ESTRESSE

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Tudo incomoda o vivente. O sobrevivente. Provar a sensação amarga da guerra perdida. Contemplar do alto do edifício urbano as maiorias fúteis impondo iniquidades sobre Natal. O ter que se habituar com a visão torta e vesga dos poderosos de plantão que impõem suas regras pela mídia. Natal sem becos, sem esquinas boêmias, sem praças, sem preces, povoadas de vultos inexpressivos que não serão falados amanhã. Extraviaram a noção de história. Os anos inaugurais do século XXI, não têm o glamour dos fatos e das figuras do século passado. O homem coisificou-se. Perdeu a densidade, a identidade, a musculatura dos gestos e dos passos que fazem história.

Na política, não temos mais líderes como antigamente: os neófitos já saúdam os poucos náufragos que irão morrer amanhã. A paisagem é deserta. As instituições se burocratizaram em blocos de ferro e cimento armado. Não têm mais lume nem leme. “Igrejinhas” tão somente. Não sei se há esperança. Não sei se há salvação. As únicas ameaças à ordem constituída continua a ser o Covid, a droga, a dengue, a chikungunya e a zica. Muitos acreditam que é o maior desafio ainda não enfrentado pelo Ministério Público. Por outro lado, Natal a cada dia, fica mais insuportável com a quantidade de veículos. De motos. Principalmente aquelas que cortam o seu carro pela direita. Mas, assim caminham as capitais, as metrópoles para o futuro enganoso oferecido pelas imobiliárias. O ensino público e privado mercadejou-se tanto quanto o turismo sexual. Perdeu a qualidade. E viva a quantidade.

Fortunas repentinas arremetem-se para o alto iguais ao crescimento vertical da cidade. Não há explicação. Não há investigação. Tudo é volátil e volante. Expresso em arcos voltaicos celebrados na crônica social. É aí que se deduz que toda celebridade quando não é célere, é celerada. Ou fazem de cômicas todas as autoridades.

Saio de mim para penetrar na imponderabilidade do oceano que assiste, lá fora, a decomposição humana. A visão misteriosa do oceano pacífica e beatifica o pecador solerte, já dizia o décimo terceiro apóstolo de Cristo, perdido no tempo e no espaço, ainda acreditando na grandeza do último milagre.

Mas, estresse é coisa séria. Pode ser trágico, para não dizer cômico. Não há como escapar de suas ilações, reações adversas e efeitos colaterais. Mas, que Natal está chata e irreconhecível, infelizmente é verdade. Tenho ultimamente pensado muito em Lucrécia. As duas. A Bórgia e a do Oeste. São pontos de fuga. Estações de tratamento para os dias. Os mesmos dias.

Hoje em dia, é raríssima a autoridade pública ou privada que dá retorno de telefonemas. Deixar recado é esforço pífio e inútil. Não existe mais apreço, atenção, respeito, civilidade, sociabilidade, humanidade. O político, via de regra, só retorna ligação se houver vantagem de voto gratuito ou financiamento de campanha. O empresário pergunta logo quem está na ponta da linha e quanto vai lucrar. Já alguns secretários de governo, nomeados para atender a sociedade, sempre estão em reunião com “aspones” para evitar interrupções que não atendam seus interesses imediatos. Devolver um telefonema que não foi atendido de imediato por ocupação instantânea ou outro motivo relevante, ou não receber um cidadão que pediu audiência, é ato de cavalheirismo, de educação, de nobreza que pouca gente cultiva.

Sei que muitos leitores estão incluídos na estatística dos sofredores. E gostariam de dizer o que afirmo agora. Os cultores da prática mafiosa alegam que é preciso racionalizar o tempo, eleger prioridades, formatizar custos e ganhos de produtividade, e, o lado humano/cidadão vai para o beleléu, descartado por não representar modernidade, segundo os fariseus dos templos públicos. Cheguei a imaginar, de início, que a minha tese é inconsistente. Seria antiquado portar-me assim, mandando a secretária anotar quem telefonou para retornar, em seguida, uma a uma, as ligações recebidas? Acho que não. Tudo é uma questão de estilo, de ética, de personalidade e de berço.

(*) Escritor.



quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

 

Madalena, “apóstola dos apóstolos”

Padre João Medeiros Filho

Assim é designada Maria de Mágdala em textos bíblicos apócrifos e na tradição de várias igrejas cristãs. Eça de Queiroz, um anticlerical confesso, escreveu em A Relíquia: “Madalena mudou o curso da história, ao gritar pelas ruas de Jerusalém: Ele ressuscitou!” As palavras do escritor lusitano caminham na direção do relato do Quarto Evangelho (Jo 20, 11-23). A admiração de Maria pelo Nazareno e seu encontro com o Ressuscitado marcaram os primórdios da Igreja.

A desolação reinava entre os seguidores de Cristo. Este fora crucificado, morto e sepultado, deixando uma lacuna impossível de preencher e um clima de tristeza, abandono e desesperança. Eis que surge uma discípula do Mestre transmitindo a boa nova, ouvida de um anjo: “Por que procurais entre os mortos quem está vivo?” (Lc 24, 5). Ou ainda: “Eu vi o Senhor” (Jo 28, 18). Inicialmente, os apóstolos não acreditaram naquelas palavras. Resolveram ir até o sepulcro. E lá chegando, não encontraram o corpo de Jesus. Verifica-se uma ausência daquele que deveria ser reconhecido, a partir de então, de outra forma. A melancolia foi dissipada pela esperança renascida com as manifestações do Ressurgido. Este confirma o testemunho da “mulher pecadora”, extasiada pela graça sobrenatural (cf. Jo 20, 15).

Antes da experiência que transformaria sua vida e a de muitos, a mulher de Mágdala experimentou um profundo desalento. De manhã cedo, dirigiu-se ao túmulo do Senhor, apressada e com o coração batendo disparado. Desejava homenagear quem perdoou seus pecados e ungir com aromas o corpo de Jesus. Porém, dentro do jazigo no qual O colocaram, não havia nada, a não ser o silêncio. A sepultura vazia atordoava e doía mais que a visão do cadáver que poderia encontrar. E Maria chorou desconsoladamente. Ao “jardineiro” que lhe perguntou a razão do pranto, explicou que haviam tirado o seu Mestre e não sabia onde O puseram (cf. 20, 14). E suplicou-lhe: “Se foste tu que o levaste, diz-me onde está que irei buscá-lo” (Jo 20, 15). Nestas palavras transborda a força do reconhecimento e da gratidão de quem foi perdoada. Não há coisas insuperáveis para quem crê. Aquele que acredita transporta Deus e para Ele nada é impossível (cf. Lc 1, 37).

Ao longo da vida, veem-se mães curando filhos desenganados por médicos. Existem esposas trazendo de volta à vida os companheiros mergulhados em vícios. Há mulheres capazes de atravessar mares, estepes nevadas, desertos escaldantes à procura de quem seu coração deseja. Não havia obstáculos para Maria. Ela iria até os confins do mundo para encontrar o Salvador. Bateria em todas as portas, enfrentaria qualquer autoridade, civil ou religiosa. Nenhuma intempérie seria empecilho para seu coração, sequioso do Mestre. Nele descobriu o afeto e a misericórdia de Deus. O Ressuscitado veio a seu encontro e pronunciou seu nome: “Maria”. Ela respondeu: “Mestre!” (Jo 20, 16). Como não gritar pelas ruas de Jerusalém e não proclamar aos quatro ventos que Ele ressurgiu? Como não anunciar que a esperança renasceu e a alegria voltou a reinar? Não se deve buscar entre os mortos aquele que vive. Assim é a trajetória da “apóstola dos apóstolos.” Segundo o relato dos evangelistas, foi a primeira testemunha da Ressurreição. Inaugura assim um novo tempo na caminhada da Igreja primitiva. Talvez isto explique o interesse da longa pesquisa de Augusto Carlos Viveiros por esse personagem do Evangelho.

Numa sociedade patriarcal em que as mulheres não podiam testemunhar, pois seu depoimento era nulo, Maria de Mágdala falou sobre o que viu e ouviu. Convenceu os seguidores de Cristo a respeito da Ressurreição. Difundiram o anúncio de Madalena, transformando-se em arautos do Ressuscitado. Nestes tempos tão tenebrosos, em que tudo parece sombrio e quando os horizontes se atrofiam sobre nossas cabeças, não se pode ignorar o poder da fé e do amor. Estes guardam um potencial transformador e terapêutico. Na fé de Pedro, Cristo fundou a Igreja. No amor de Madalena, a Igreja sente a Vida. A morte não tem sobre ela a última palavra. A vitória definitiva é a da Vida, outro nome de Deus. “Onde está, ó morte, a tua vitória?” (1Cor 15, 55).

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 2024 – 03

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes



MUDANÇAS QUE EMOCIONAM

Retornando ao território, outrora sagrado, da Praia de Cotovelo, deparei-me com situações que lhe retiraram o encanto, mercê da modernidade e do crescimento dos maus costumes daqueles que procuram suas areias limpas, deixando lixo, atentando contra os animais marinhos que, de quando e vez são trazidos pelas ondas enlaçados em objetos deixados ao léu.

Fazendo coro com tais adversidades, o calor reconfortado pela brisa marinha, agora tomou emprestado outro paradigma, irritante – a temperatura incompatível com o deleite que as praias ofertam no período de verão.

Passei toda a minha existência desfrutando dos veraneios – Barra do Cunhaú, Ponta Negra, Redinha e Cotovelo, este último há mais de 30 anos. Fui moleque correndo em suas entranhas, pescando, fazendo amizades, enfim, vivendo momentos lúdicos inesquecíveis.

Redinha, praia linda sem igual, poema lírico e imortal, onde nasceu nosso amor” (poema do saudoso mano Fernando de Miranda Gomes), ou do grande Dozinho: “Ponta Negra , praia linda e bem tristonha. Quem dorme contigo sonha vendo os encantos que tem. Tuas ondas portadoras de saudade, saudade de quem tem amizade a um alguém muito além. Os teus coqueiros que crescem bastante, querendo o céu alcançar, mas os seus frutos que descem constantes, querendo ficar com o mar…). E o que dizer de Cotovelo – apesar dos pesares continua linda.

Não posso esquecer as caminhadas que fazia com a minha sempre amada THEREZINHA desde nossa escadaria rústica até os contornos das falésias, construindo sonhos e lembrando as estórias e lendas então ouvidas dos caiçaras, como a Casa de Pedra de Pium e o possível primeiro fundeamento dos barcos que trouxeram os holandeses para a tomada do Forte dos Reis Magos, cujo segundo aconteceu nas cercanias de Ponta Negra e daí o percurso final a pé.

Tive energia para publicar muitos informativos da PROMOVEC dando conta da sua história, atividade que já não mais mantendo, por falta de motivação.

Tudo isso inunda sentimentos de amor, lembranças e saudades – até o desfecho final com o cair das lágrimas – essas que inaugura esta modesta crônica, cuja autoria desconheço, mas afianço que o mesmo que sinto ao reproduzi-la.



terça-feira, 16 de janeiro de 2024

 

Abandono e solidão

Padre João Medeiros Filho

Pode-se ler no primeiro livro da Sagrada Escritura a seguinte recomendação: “Não é bom para o homem viver só” (Gn 2, 18). A solidão é dolorosa, leva à depressão e até ao suicídio. Cresce como um dos grandes males da sociedade hodierna. Em muitos condomínios, os moradores são conhecidos pelo número da unidade habitacional e não pelo nome. Por vezes, não se dão conta do que acontece a seu redor. Isso tudo resulta numa solidão povoada. O ser humano é ontologicamente relacional, necessitando de interação. A vida solitária poderá ser um atalho para a morte. O governo britânico criou o Ministério da Solidão. Considerou necessário existir um órgão para cuidar desse problema e dos efeitos desse mal oculto e silencioso. As maiores vítimas são os idosos, marginalizados pela cadeia produtiva e cuja beleza murchou. São indivíduos com atividades físicas e energias cada vez mais limitadas. Muitos não têm a quem pedir socorro, quando sentem o abismo da depressão se abrir sob seus pés. Este segmento se avoluma nas sociedades consideradas modernas e desenvolvidas.

Os idosos de hoje são órfãos de filhos vivos, esquecidos pelos familiares. Por vezes, seus descendentes moram longe com dificuldades para visitá-los. Em certos casos, os pais podem atrapalhar seus sonhos ou planos de lazer e consumo. Muitos não desejam velhos, dificultando seus fins de semana, férias, passeios, festas etc. E o idoso fica em casa, não raro, pequena e de poucos recursos. Onde estão os amigos do ancião? Doentes ou mortos, em boa parte.

As aposentadorias são exíguas, mal dão para as necessidades básicas. Com a idade verifica-se a progressão das limitações e mazelas. O aumento das despesas: plano de saúde, internações, medicamentos, cuidadores e outros profissionais consome suas fontes de renda. A alimentação torna-se mais onerosa, em razão de restrições alimentares. Os filhos ajudam? Alguns, provavelmente. Todavia, nem sempre com a generosidade almejada. Têm outras prioridades: trocar de carro, investir na decoração do lar, viagens nacionais e internacionais (como levar as crianças a Disney ou alhures), participar de eventos sociais etc. E assim, o declínio da vida de inúmeros idosos é marcado por isolamento, demência, em companhia de um cuidador desconhecido. A solidão aumenta com a diminuição das forças, a dependência, o desaparecimento dos círculos mais próximos de amizade. Atualmente, há também o agravante da violência e insegurança urbana, impedindo que haja um maior contato, deixando os idosos praticamente numa prisão domiciliar. A sociedade moderna tem esquecido o ensinamento bíblico: “Diante de uma cabeça branca te levantarás. Honrarás a presença do ancião” (Lv 19, 32).

Alguns se apegam a animais. Quando morre o companheiro de plumas ou patas, a dor é semelhante à perda de um parente. O confinamento vai aumentando. O solitário não tem com quem partilhar experiências, sentimentos, ideias e recordações de momentos agradáveis que trazem alegrias. Sente-se descartado por uma sociedade, em que predominam o utilitarismo e o egoísmo. Há famílias que progressivamente abandonam seus idosos, não lhes preparando um lugar digno. Leva uma vida em meio a pessoas que ignoram a sua existência. Um amigo nordestino, que vivia no Rio de Janeiro e amava a cidade, comunicou-me que estava voltando para a terra natal. Chegou à conclusão de que se morresse lá, só iriam perceber seu falecimento, vários dias depois, devido ao odor.

No Brasil contemporâneo, onde há uma pletora de ministérios, carece a existência de um órgão especial, voltado para os idosos e solitários. Fala-se tanto em políticas públicas, mas inexistem linhas de ação para cuidar deles com dignidade. É preciso encontrar meios para que uma faixa significativa da população não se sinta à margem da existência, empurrada inexoravelmente para a desmotivação do viver e consequentemente para a morte. Na medida em que se aprende a anular o exílio do próximo, a vida tornar-se-á mais humana. Solidária – e não solitária – deve ser a pessoa. Isso significa ter empatia pela dor e tristeza de outrem. Vale lembrar o salmista: “Mesmo na velhice, no declinar da vida, não me abandones, ó Deus” (Sl 71/70, 18).

domingo, 14 de janeiro de 2024

 NO LIMIAR DA PAIXÃO E RESSURREIÇÃO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Tudo parte de um questionamento do amigo jornalista Paulo Tarcísio Cavalcanti, certa vez, que reflete, com exatidão a dúvida inquietante de milhões de pessoas no mundo, quer sejam religiosas ou agnósticas. Suas reflexões constituem um verdadeiro questionário ao qual me proponho responder como posso, nesse limiar do ano novo.

A primeira é se o Filho de Deus voltará, como asseguram as Escrituras. O próprio Jesus foi categórico: “Não vos deixarei órfãos. Eu voltarei para vós” (João 14,18). Não definiu a forma nem o tempo de sua volta. Está presente cada dia no testemunho e na fé de cristãos convictos, na energia cósmica de sua palavra. Há uma forma espiritual, mística e amorosa de sua presença naquele que crer. Jesus retornando ao mundo continuará afirmando os mesmos valores eternos e imperecíveis: justiça, paz, misericórdia, caridade, o perdão e o amor.

Indaga, refletidamente, se Jesus escolherá local para residir como se a sua vinda fosse biológica ou fisiológica, fato que já se cumpriu no Segundo Testamento por permissão do Pai, segundo inúmeras profecias. “Eis que estarei convosco até a consumação dos séculos”, disse o próprio Messias. Essa forma de renascer diuturnamente no coração dos mortais já resume um pressuposto de sua mensagem aos seres humanos do século 21, porque Ele é Espírito e não carne como o foi para expiar os pecados da humanidade através da morte na cruz. Se o mundo da informática fala com veemência na presença virtual, nós temos em Cristo a presença espiritual e mística, ambas poderosas e fortes.

“Quem Jesus escolherá para segui-lo ou em que condições procederão os convidados?”. Da primeira vez Ele escolheu doze homens simples e iletrados, e com essa dúzia construiu o arcabouço de sua doutrina, unificada pela crença inabalável no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Milhares morreram pela fé, ao longo do tempo. Se os potentados não o levaram a sério naquele tempo, posso afirmar que já são bilhões no mundo que pensam de forma diversa. Ora, o Filho de Deus conclamará todos que tiverem as mãos vazias e o coração pobre mas rico do Espírito Santo que inclina o homem para o Bem. Ninguém precisa ter diploma como se alude. Diploma é uma formalidade do mundo. E na atualidade, além de pessoas simples, humildes, pobres e de diferentes camadas, há também doutores em teologia, padres, pastores, obreiros de diversas matizes. A mensagem do Senhor não é meramente social mas de palavra e de vida. “Vim para que todos tenham a vida e vida em abundância” – João 10.10. Sobre os castigos a Ele impostos, devo dizer que a lógica de Deus não é a lógica dos homens. Cristo aceitou e enfrentou todos as felonias e dores humanas para cumprir o que já estava escrito desde os profetas Jeremias e Isaías. Ele próprio pregou o padecimento, a morte e a ressurreição. Seria enfadonho e não caberia citar as referências dos quatros evangelhos.

Jesus não anunciou a sua volta nas mesmas condições que veio ao mundo da primeira vez. Imolou-se em sacrifício, como forma emblemática, marcante, demarcadora perante a história da humanidade. Não regressará a terra para se submeter mais a nenhuma paixão. O que aconteceu com Ele foi um evento divino e não profano. Filme e novela sim, têm reprises. Aquele sacrifício foi único, indivisível, histórico e individual. Jesus Cristo nunca sentou no trono de Davi, nem de Salomão, portanto, denominá-lo Rei dos Judeus constituiu-se mais num deboche do império romano, depois, destruído pelos bárbaros. Sabemos que na modernidade a violência, a corrupção, a desobediência, a falta de solidariedade e o desamor ao próximo são as práticas que ainda o crucificam na cruz, diariamente. Lembre-se que o sacrifício daquele corpo, do Homem-Deus, foi fazer a vontade de Deus. Ele que era Deus, era vida. “Derramou um sangue espiritual, divino, dando de si Deus em si”, na maravilhosa síntese de Chiara Lubich no seu livro “O grito”.

 

(*) Escritor.