quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

 

Madalena, “apóstola dos apóstolos”

Padre João Medeiros Filho

Assim é designada Maria de Mágdala em textos bíblicos apócrifos e na tradição de várias igrejas cristãs. Eça de Queiroz, um anticlerical confesso, escreveu em A Relíquia: “Madalena mudou o curso da história, ao gritar pelas ruas de Jerusalém: Ele ressuscitou!” As palavras do escritor lusitano caminham na direção do relato do Quarto Evangelho (Jo 20, 11-23). A admiração de Maria pelo Nazareno e seu encontro com o Ressuscitado marcaram os primórdios da Igreja.

A desolação reinava entre os seguidores de Cristo. Este fora crucificado, morto e sepultado, deixando uma lacuna impossível de preencher e um clima de tristeza, abandono e desesperança. Eis que surge uma discípula do Mestre transmitindo a boa nova, ouvida de um anjo: “Por que procurais entre os mortos quem está vivo?” (Lc 24, 5). Ou ainda: “Eu vi o Senhor” (Jo 28, 18). Inicialmente, os apóstolos não acreditaram naquelas palavras. Resolveram ir até o sepulcro. E lá chegando, não encontraram o corpo de Jesus. Verifica-se uma ausência daquele que deveria ser reconhecido, a partir de então, de outra forma. A melancolia foi dissipada pela esperança renascida com as manifestações do Ressurgido. Este confirma o testemunho da “mulher pecadora”, extasiada pela graça sobrenatural (cf. Jo 20, 15).

Antes da experiência que transformaria sua vida e a de muitos, a mulher de Mágdala experimentou um profundo desalento. De manhã cedo, dirigiu-se ao túmulo do Senhor, apressada e com o coração batendo disparado. Desejava homenagear quem perdoou seus pecados e ungir com aromas o corpo de Jesus. Porém, dentro do jazigo no qual O colocaram, não havia nada, a não ser o silêncio. A sepultura vazia atordoava e doía mais que a visão do cadáver que poderia encontrar. E Maria chorou desconsoladamente. Ao “jardineiro” que lhe perguntou a razão do pranto, explicou que haviam tirado o seu Mestre e não sabia onde O puseram (cf. 20, 14). E suplicou-lhe: “Se foste tu que o levaste, diz-me onde está que irei buscá-lo” (Jo 20, 15). Nestas palavras transborda a força do reconhecimento e da gratidão de quem foi perdoada. Não há coisas insuperáveis para quem crê. Aquele que acredita transporta Deus e para Ele nada é impossível (cf. Lc 1, 37).

Ao longo da vida, veem-se mães curando filhos desenganados por médicos. Existem esposas trazendo de volta à vida os companheiros mergulhados em vícios. Há mulheres capazes de atravessar mares, estepes nevadas, desertos escaldantes à procura de quem seu coração deseja. Não havia obstáculos para Maria. Ela iria até os confins do mundo para encontrar o Salvador. Bateria em todas as portas, enfrentaria qualquer autoridade, civil ou religiosa. Nenhuma intempérie seria empecilho para seu coração, sequioso do Mestre. Nele descobriu o afeto e a misericórdia de Deus. O Ressuscitado veio a seu encontro e pronunciou seu nome: “Maria”. Ela respondeu: “Mestre!” (Jo 20, 16). Como não gritar pelas ruas de Jerusalém e não proclamar aos quatro ventos que Ele ressurgiu? Como não anunciar que a esperança renasceu e a alegria voltou a reinar? Não se deve buscar entre os mortos aquele que vive. Assim é a trajetória da “apóstola dos apóstolos.” Segundo o relato dos evangelistas, foi a primeira testemunha da Ressurreição. Inaugura assim um novo tempo na caminhada da Igreja primitiva. Talvez isto explique o interesse da longa pesquisa de Augusto Carlos Viveiros por esse personagem do Evangelho.

Numa sociedade patriarcal em que as mulheres não podiam testemunhar, pois seu depoimento era nulo, Maria de Mágdala falou sobre o que viu e ouviu. Convenceu os seguidores de Cristo a respeito da Ressurreição. Difundiram o anúncio de Madalena, transformando-se em arautos do Ressuscitado. Nestes tempos tão tenebrosos, em que tudo parece sombrio e quando os horizontes se atrofiam sobre nossas cabeças, não se pode ignorar o poder da fé e do amor. Estes guardam um potencial transformador e terapêutico. Na fé de Pedro, Cristo fundou a Igreja. No amor de Madalena, a Igreja sente a Vida. A morte não tem sobre ela a última palavra. A vitória definitiva é a da Vida, outro nome de Deus. “Onde está, ó morte, a tua vitória?” (1Cor 15, 55).

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 2024 – 03

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes



MUDANÇAS QUE EMOCIONAM

Retornando ao território, outrora sagrado, da Praia de Cotovelo, deparei-me com situações que lhe retiraram o encanto, mercê da modernidade e do crescimento dos maus costumes daqueles que procuram suas areias limpas, deixando lixo, atentando contra os animais marinhos que, de quando e vez são trazidos pelas ondas enlaçados em objetos deixados ao léu.

Fazendo coro com tais adversidades, o calor reconfortado pela brisa marinha, agora tomou emprestado outro paradigma, irritante – a temperatura incompatível com o deleite que as praias ofertam no período de verão.

Passei toda a minha existência desfrutando dos veraneios – Barra do Cunhaú, Ponta Negra, Redinha e Cotovelo, este último há mais de 30 anos. Fui moleque correndo em suas entranhas, pescando, fazendo amizades, enfim, vivendo momentos lúdicos inesquecíveis.

Redinha, praia linda sem igual, poema lírico e imortal, onde nasceu nosso amor” (poema do saudoso mano Fernando de Miranda Gomes), ou do grande Dozinho: “Ponta Negra , praia linda e bem tristonha. Quem dorme contigo sonha vendo os encantos que tem. Tuas ondas portadoras de saudade, saudade de quem tem amizade a um alguém muito além. Os teus coqueiros que crescem bastante, querendo o céu alcançar, mas os seus frutos que descem constantes, querendo ficar com o mar…). E o que dizer de Cotovelo – apesar dos pesares continua linda.

Não posso esquecer as caminhadas que fazia com a minha sempre amada THEREZINHA desde nossa escadaria rústica até os contornos das falésias, construindo sonhos e lembrando as estórias e lendas então ouvidas dos caiçaras, como a Casa de Pedra de Pium e o possível primeiro fundeamento dos barcos que trouxeram os holandeses para a tomada do Forte dos Reis Magos, cujo segundo aconteceu nas cercanias de Ponta Negra e daí o percurso final a pé.

Tive energia para publicar muitos informativos da PROMOVEC dando conta da sua história, atividade que já não mais mantendo, por falta de motivação.

Tudo isso inunda sentimentos de amor, lembranças e saudades – até o desfecho final com o cair das lágrimas – essas que inaugura esta modesta crônica, cuja autoria desconheço, mas afianço que o mesmo que sinto ao reproduzi-la.



terça-feira, 16 de janeiro de 2024

 

Abandono e solidão

Padre João Medeiros Filho

Pode-se ler no primeiro livro da Sagrada Escritura a seguinte recomendação: “Não é bom para o homem viver só” (Gn 2, 18). A solidão é dolorosa, leva à depressão e até ao suicídio. Cresce como um dos grandes males da sociedade hodierna. Em muitos condomínios, os moradores são conhecidos pelo número da unidade habitacional e não pelo nome. Por vezes, não se dão conta do que acontece a seu redor. Isso tudo resulta numa solidão povoada. O ser humano é ontologicamente relacional, necessitando de interação. A vida solitária poderá ser um atalho para a morte. O governo britânico criou o Ministério da Solidão. Considerou necessário existir um órgão para cuidar desse problema e dos efeitos desse mal oculto e silencioso. As maiores vítimas são os idosos, marginalizados pela cadeia produtiva e cuja beleza murchou. São indivíduos com atividades físicas e energias cada vez mais limitadas. Muitos não têm a quem pedir socorro, quando sentem o abismo da depressão se abrir sob seus pés. Este segmento se avoluma nas sociedades consideradas modernas e desenvolvidas.

Os idosos de hoje são órfãos de filhos vivos, esquecidos pelos familiares. Por vezes, seus descendentes moram longe com dificuldades para visitá-los. Em certos casos, os pais podem atrapalhar seus sonhos ou planos de lazer e consumo. Muitos não desejam velhos, dificultando seus fins de semana, férias, passeios, festas etc. E o idoso fica em casa, não raro, pequena e de poucos recursos. Onde estão os amigos do ancião? Doentes ou mortos, em boa parte.

As aposentadorias são exíguas, mal dão para as necessidades básicas. Com a idade verifica-se a progressão das limitações e mazelas. O aumento das despesas: plano de saúde, internações, medicamentos, cuidadores e outros profissionais consome suas fontes de renda. A alimentação torna-se mais onerosa, em razão de restrições alimentares. Os filhos ajudam? Alguns, provavelmente. Todavia, nem sempre com a generosidade almejada. Têm outras prioridades: trocar de carro, investir na decoração do lar, viagens nacionais e internacionais (como levar as crianças a Disney ou alhures), participar de eventos sociais etc. E assim, o declínio da vida de inúmeros idosos é marcado por isolamento, demência, em companhia de um cuidador desconhecido. A solidão aumenta com a diminuição das forças, a dependência, o desaparecimento dos círculos mais próximos de amizade. Atualmente, há também o agravante da violência e insegurança urbana, impedindo que haja um maior contato, deixando os idosos praticamente numa prisão domiciliar. A sociedade moderna tem esquecido o ensinamento bíblico: “Diante de uma cabeça branca te levantarás. Honrarás a presença do ancião” (Lv 19, 32).

Alguns se apegam a animais. Quando morre o companheiro de plumas ou patas, a dor é semelhante à perda de um parente. O confinamento vai aumentando. O solitário não tem com quem partilhar experiências, sentimentos, ideias e recordações de momentos agradáveis que trazem alegrias. Sente-se descartado por uma sociedade, em que predominam o utilitarismo e o egoísmo. Há famílias que progressivamente abandonam seus idosos, não lhes preparando um lugar digno. Leva uma vida em meio a pessoas que ignoram a sua existência. Um amigo nordestino, que vivia no Rio de Janeiro e amava a cidade, comunicou-me que estava voltando para a terra natal. Chegou à conclusão de que se morresse lá, só iriam perceber seu falecimento, vários dias depois, devido ao odor.

No Brasil contemporâneo, onde há uma pletora de ministérios, carece a existência de um órgão especial, voltado para os idosos e solitários. Fala-se tanto em políticas públicas, mas inexistem linhas de ação para cuidar deles com dignidade. É preciso encontrar meios para que uma faixa significativa da população não se sinta à margem da existência, empurrada inexoravelmente para a desmotivação do viver e consequentemente para a morte. Na medida em que se aprende a anular o exílio do próximo, a vida tornar-se-á mais humana. Solidária – e não solitária – deve ser a pessoa. Isso significa ter empatia pela dor e tristeza de outrem. Vale lembrar o salmista: “Mesmo na velhice, no declinar da vida, não me abandones, ó Deus” (Sl 71/70, 18).

domingo, 14 de janeiro de 2024

 NO LIMIAR DA PAIXÃO E RESSURREIÇÃO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Tudo parte de um questionamento do amigo jornalista Paulo Tarcísio Cavalcanti, certa vez, que reflete, com exatidão a dúvida inquietante de milhões de pessoas no mundo, quer sejam religiosas ou agnósticas. Suas reflexões constituem um verdadeiro questionário ao qual me proponho responder como posso, nesse limiar do ano novo.

A primeira é se o Filho de Deus voltará, como asseguram as Escrituras. O próprio Jesus foi categórico: “Não vos deixarei órfãos. Eu voltarei para vós” (João 14,18). Não definiu a forma nem o tempo de sua volta. Está presente cada dia no testemunho e na fé de cristãos convictos, na energia cósmica de sua palavra. Há uma forma espiritual, mística e amorosa de sua presença naquele que crer. Jesus retornando ao mundo continuará afirmando os mesmos valores eternos e imperecíveis: justiça, paz, misericórdia, caridade, o perdão e o amor.

Indaga, refletidamente, se Jesus escolherá local para residir como se a sua vinda fosse biológica ou fisiológica, fato que já se cumpriu no Segundo Testamento por permissão do Pai, segundo inúmeras profecias. “Eis que estarei convosco até a consumação dos séculos”, disse o próprio Messias. Essa forma de renascer diuturnamente no coração dos mortais já resume um pressuposto de sua mensagem aos seres humanos do século 21, porque Ele é Espírito e não carne como o foi para expiar os pecados da humanidade através da morte na cruz. Se o mundo da informática fala com veemência na presença virtual, nós temos em Cristo a presença espiritual e mística, ambas poderosas e fortes.

“Quem Jesus escolherá para segui-lo ou em que condições procederão os convidados?”. Da primeira vez Ele escolheu doze homens simples e iletrados, e com essa dúzia construiu o arcabouço de sua doutrina, unificada pela crença inabalável no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Milhares morreram pela fé, ao longo do tempo. Se os potentados não o levaram a sério naquele tempo, posso afirmar que já são bilhões no mundo que pensam de forma diversa. Ora, o Filho de Deus conclamará todos que tiverem as mãos vazias e o coração pobre mas rico do Espírito Santo que inclina o homem para o Bem. Ninguém precisa ter diploma como se alude. Diploma é uma formalidade do mundo. E na atualidade, além de pessoas simples, humildes, pobres e de diferentes camadas, há também doutores em teologia, padres, pastores, obreiros de diversas matizes. A mensagem do Senhor não é meramente social mas de palavra e de vida. “Vim para que todos tenham a vida e vida em abundância” – João 10.10. Sobre os castigos a Ele impostos, devo dizer que a lógica de Deus não é a lógica dos homens. Cristo aceitou e enfrentou todos as felonias e dores humanas para cumprir o que já estava escrito desde os profetas Jeremias e Isaías. Ele próprio pregou o padecimento, a morte e a ressurreição. Seria enfadonho e não caberia citar as referências dos quatros evangelhos.

Jesus não anunciou a sua volta nas mesmas condições que veio ao mundo da primeira vez. Imolou-se em sacrifício, como forma emblemática, marcante, demarcadora perante a história da humanidade. Não regressará a terra para se submeter mais a nenhuma paixão. O que aconteceu com Ele foi um evento divino e não profano. Filme e novela sim, têm reprises. Aquele sacrifício foi único, indivisível, histórico e individual. Jesus Cristo nunca sentou no trono de Davi, nem de Salomão, portanto, denominá-lo Rei dos Judeus constituiu-se mais num deboche do império romano, depois, destruído pelos bárbaros. Sabemos que na modernidade a violência, a corrupção, a desobediência, a falta de solidariedade e o desamor ao próximo são as práticas que ainda o crucificam na cruz, diariamente. Lembre-se que o sacrifício daquele corpo, do Homem-Deus, foi fazer a vontade de Deus. Ele que era Deus, era vida. “Derramou um sangue espiritual, divino, dando de si Deus em si”, na maravilhosa síntese de Chiara Lubich no seu livro “O grito”.

 

(*) Escritor.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

 

A endogamia no Seridó

Padre João Medeiros Filho

No Seridó potiguar, ouve-se frequentemente a expressão: “Aqui, quem não é parente, mora em frente.” Originalmente, a frase remetia à endogamia, ou seja, ao casamento de aparentados, consanguíneos geneticamente semelhantes. Em artigos anteriores, referi-me a determinados traços culturais flamengo-batavos nas tradições seridoenses. Por exemplo, o matrimônio entre parentes próximos, que ainda perdura. Tal tipo de união é um costume milenar, característico da civilização hebraica. Existia na península ibérica, disseminando-se com a colonização neerlandesa (predominantemente judaica) em alguns estados nordestinos. Assim, arraigou-se nos sertões do Seridó. Na Bíblia há recomendações para se contrair matrimônio no interior do clã. Dever-se-ia procurar um cônjuge entre os parentes da mesma linhagem. No Antigo Testamento, verifica-se a situação típica de Abraão, ao desposar Sara (Gn 20, 12).

A endogamia visa a preservar a identidade antropológica-cultural e impedir a dispersão dos bens familiares. O povo hebreu procurava também garantir a pureza de sua crença e o culto a Javé, rejeitando núpcias com pessoas praticantes de religiões politeístas. Aliado a esses motivos está o aspecto econômico-financeiro. Nessa direção caminha a Lei do Levirato, no Antigo Testamento. Ela determinava ao Povo da Antiga Aliança que a viúva sem filhos deveria se casar novamente com um cunhado. A este caberia dar um herdeiro masculino ao irmão falecido. Desse modo, o seu nome não desapareceria e conservaria a fortuna do casal. A importância e o objetivo desta lei (cf. Dt 25, 5-10; Gn 38, 8) residem não só na manutenção da linhagem familiar, mas também do patrimônio material.

O Seridó potiguar, tendo recebido forte influência dos Países Baixos, ficou marcado pela endogamia. Prevalecia a firme intenção de proteger o sangue, a índole, a religião, as tradições do grupo e os bens da família. Esse dado de cunho semita vige até os dias atuais. Após o fim do domínio holandês, houve certo cuidado, por parte dos tradicionais troncos seridoenses, de evitar que o sangue indígena, afro, judaico e o protestantismo pudessem atingir o DNA da aristocracia rural católica, de ascendência e cultura lusitana. Assim, evitar-se-ia a divisão das posses, mantendo-se a integridade patrimonial da família, incluindo sua religião. “Não podemos permitir que forasteiros levem nossas filhas e terras, maculando nossa religiosidade e crença”, dissera o patriarca Tomás de Araújo Pereira a seu neto sacerdote, pároco do Acari. Esta assertiva é uma apologia típica do vínculo endogâmico. Dom José Adelino Dantas, segundo bispo de Caicó, trouxe com seus escritos um substancial contributo a esse tema.

Como secretário do bispado caicoense e chanceler da cúria, acompanhei durante mais de uma década os processos matrimoniais, enviados à autoridade diocesana para obtenção da dispensa do impedimento de consanguinidade. Este ainda está previsto no cânon 1091 § 1 do Código de Direito Canônico em vigor. Nesse período de observação, verifiquei que as uniões entre consanguíneos se mantiveram num patamar de um terço dos casamentos religiosos católicos. As dispensas de impedimento matrimonial por consanguinidade ultrapassavam trezentas solicitações anuais. Monsenhor Walfredo Gurgel, doutor em Direito Eclesiástico, vigário geral do bispado, de 1941 a 1971, procurou sistematizar os argumentos para a solicitação da licença canônica ao bispado. Entretanto, na justificativa dos requerimentos apresentados, permaneciam de forma persistente as razões que expressam a marca da endogamia.

Na ciência médica, a temática suscita questionamentos no tocante a eventuais problemas de saúde, oriundos de tais matrimônios. A outros fatores genéticos, junta-se uma doença rara, presente no Seridó potiguar, denominada Síndrome de Berardinelli-Seip – LCG. Naquela região norte-rio-grandense, constata-se uma incidência dessa morbidade, quatorze vezes maior que a média mundial registrada. Os municípios mais afetados são Timbaúba dos Batistas, Carnaúba dos Dantas e Parelhas. Pesquisadores da UFRN, em alentado estudo, verificaram a existência da referida doença em dezenove municípios potiguares, inclusive na região metropolitana de Natal. Conforme achados de estudiosos, poderia concorrer para isso a endogamia de seus ancestrais. Atualmente, a Igreja dispensa o impedimento de consanguinidade com maior cautela. No entanto, conserva a tradição bíblica de abençoar casamentos endogâmicos, lembrando as palavras do apóstolo Paulo: “Que o vosso amor cresça também em discernimento” (Ef 5, 32).

sábado, 6 de janeiro de 2024

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 202402

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

DIA DOS SANTOS REIS

Da tradição religiosa natalense, a data de 6 de janeiro é consagrada aos Santos Reis Magos – as testemunhas do nascimento do Redentor, em homenagem aos quais foi erguido o Forte dos Reis Magos, conservado até os dias presentes.

Foi nessa data, do ano de 1962, que vim da praia da Redinha, onde veraneava, para pedir em casamento a mão da minha amada THEREZINHA, com a promessa de núpcias para igual data do ano de 1963, não se concretizando pelo fato de ter sido o dia escolhido para o Plebiscito e eu, então, trabalhava no Tribunal Regional Eleitoral, ficando remarcado para 16 de março daquele ano, na cidade de Belém, capital do Estado do Pará, para onde foi transferida a família Rosso/Jones Nelson à qual ela pertencia. Após o casamento, pouco tempo depois, retorna para Natal, retomando a estrada profissional e familiar.

Assim sendo, 6 de janeiro sempre ficou marcado em minha vida, quando solidifiquei a minha história amorosa com a amada, iniciada em 1948, ao chegar em Natal, vindo de Macaíba, para morar na casa da rua Meira e Sá, 120, vizinho ao número 118 onde ela já residia.

Esse fato compõe um caminhar duradouro – 1948 – 2019, ou seja, quando cheguei e de pronto olhei em seus olhos, dando início a uma amizade, depois namoro, noivado, casamento até o chamamento do Criador, no dia 31 de março de 2019. Portanto, 71 anos de convivência afetiva, fiel e de cumplicidade.

No correr desse tempo aponto os episódios marcantes: em 1948: começava uma carreira artística precoce, que durou até 1954, sempre acompanhada por ela, com desvelo e coleção de recortes de jornais e preocupação de algum possível desvio de rota. Depois disso a prestação da vida militar no 16º Regimento de Infantaria, concluído nos pruridos de 1960, quando viajei para Recife a fim de estudar e me preparar para o vestibular.

No mesmo ano retornei e continuei a minha vida em busca do futuro, sempre com o seu apoio sem compromisso até 1962, como acima relatei. Nesse ano ingressei nos quadros do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte, onde permaneci até 1971, após aprovação nos concursos de Auditor do Tribunal de Contas, que assumi em maio deste último referido e no de Promotor Público auxiliar, que declinei de aceitar.

O casamento em 1963 nos trouxe no início de 1964 várias vitórias – aprovação no vestibular de Direito e o nascimento de Rosa Ligia, os quais ampliaram a minha responsabilidade, obrigando-me a estudar exemplarmente, tanto que logrei, ao concluir, o recebimento da Medalha de Mérito Universitário (UFRN), iniciando uma travessia pela vida profissional, bem sucedida, até a aposentadoria gradual de cada atividade, dedicando-me daí em diante ao labor cultural e acadêmicos, onde ainda me encontro, guardando momentos inesquecíveis da companhia da minha eterna namorada.

Aqui mais um registro da minha passagem por esta dimensão da existência e das alegrias vividas com a companheira inseparável, até que Deus a chamou para outra missão em sua Casa.





sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

 O CELULAR 


Valério Mesquita

Não há faca de dois gumes mais cortante e afiada que o aparelho celular. As estatísticas aí estão para comprovar o que afirmo. Favorece a escuta, acidentes quando utilizado na direção de veículos e em penitenciárias nas mãos dos marginais, sem esquecer outros usos e abusos tão conhecidos de todos. Sei perfeitamente de sua serventia em outras tantas situações. Mas, desejo chegar a dois episódios, até certo ponto cômicos, onde o aparelho, respectivamente, vale mais do que o doente no hospital e do que o homem comum diante da autoridade. 

O primeiro se refere ao uso rotineiro do celular por alguns médicos na sala de cirurgia dos hospitais. Enquanto os procedimentos operatórios são executados, com as vísceras do paciente expostas, o fone do cirurgião ou anestesista fica ali, sobre a mesa, ora recebendo, ora emitindo ligações e recados do whatsapp. O doente parece assumir um segundo plano e fica à mercê, automaticamente, por conta das manipulações contínuas, da temida infecção hospitalar. Hoje, ela é o fantasma oculto dos nossos hospitais. Por outro lado, a preocupação com o aparelho induz a distração, a leniência e a dispersão da equipe, com a prevalência da máquina mortífera sobre a vida do enfermo.

Tais reflexões me fazem lembrar um episódio, que ainda não contei, ocorrido comigo e um secretário de Estado, José Maria Melo, durante o governo de Garibaldi Alves Filho. Àquela época, eu exercia o mandato de deputado estadual e pedira-lhe, via celular, uma audiência, ao lado de dois inefáveis vereadores macaibenses. Após os cumprimentos de praxe, iniciei a narrativa dos assuntos, sendo interrompido três vezes pelo celular colocado sobre o birô. Sem que pudesse concluir a conversa administrativa na íntegra, apelei para um procedimento insólito. Lembrando-me que o seu número ainda estava gravado na memória do telefone, liguei-lhe no instante em que pedia água e café: “Alô, é o doutor Zé Maria?”. “É, sim. Quem fala?”. “É Valério, Zé Maria. Vamos concluir a nossa audiência pelo celular mesmo, ok?”. Não desligamos e fomos até o fim da conversa sem sermos perturbados. Conclusão: O celular é bicho incômodo e desatencioso. Desculpas à parte, juntos aprendemos a lição. Principalmente ele, sob os olhares atônitos dos dois edis conterrâneos: Ismar Fernandes Duarte e Francisco Pereira dos Santos.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

 


Cartas de Cotovelo – Verão de 202401

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

V O L T E I

Após longo período afastado desta minha Passargada, corrigidos alguns rumos da minha saúde, posso desfrutar das águas límpidas de Cotovelo e conviver com a população pacata de caiçaras, moradores e veranistas.

Estive, realmente, afastado dos movimentos da PROMOVEC para evitar emoções, porquanto a ela tenho dedicados a minha atuação, pelo menos, nos últimos 20 anos.

As transições administrativas sempre trazem mudanças de objetivos e, em decorrência, desencontros de propósitos, mas sem o poder de aplacar o ideal uníssono da Comunidade Cotovelo/Pium – a melhoria dos serviços, mantença da pacificidade dos habitantes, a beleza da praia e a qualidade de vida dos seus frequentadores e moradores.

De novidade em meu regresso, a construção do novo local da nossa feirinha livre, que foi a primeira batalha da Promovec através do seu Presidente José Augusto, deixando livre o espaço da antiga para serventia da população e da Igreja, que saberão dar o que melhor convier para a alegria de todos.

Quanto à praia, pude percorrer um trecho, de acordo com a minha possibilidade física e constatei que continua linda, agora mais iluminada, permitindo o seu uso à noite e as cautelas dos perigos das falésias, fenômeno que tem preocupado toda a orla marítima do Rio Grande do Norte e de outros estados com resultados danosos.

Algumas mazelas ainda persistem, como o descumprimento da Lei do Silêncio, tema de maior relevância que deverá ser tratado com eficiência junto à Prefeitura do Município de Parnamirim.

Uma coisa efetiva que temos que aceitar, é que a moradia em Cotovelo está consagrada, com a construção de novos condomínios, obrigando ao Poder Público dotar um olhar mais severo e eficiente para que não haja perda de qualidade habitacional dos seus moradores, como é exemplo a conclusão do sistema de esgoto, até agora direcionado discriminadamente para algumas categorias de pessoas.

Neste ano de 2024 teremos eleições municipais e devemos adotar critérios rígidos no momento da escolha dos nossos futuros mandatários e representantes.

No mais, as lembranças da minha THEREZINHA, seus gestos, falas, exemplos e na religiosidade que sempre foram seus pontos fortes. O Santuário organizado em sua homenagem está íntegro, com novos habitantes colocados, de quando em vez, aumentando o rol dos espíritos de luz, juntos ao seu retrato cativo e venerado, ao do Santo Padre Pio e do nosso Salvador.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

 A Epifania do Senhor 

Padre João Medeiros Filho 

 A Epifania é a festa da manifestação de Cristo a todos os povos. A busca dos Magos – segundo estudiosos, sábios do Oriente – representa a afirmação desse clarão divino em Jesus. Dá-se o encontro do Filho de Deus com personagens que não pertenciam ao povo eleito. Eis uma das grandes lições do Menino. Seu nascimento não veio confirmar privilégios. Nasceu para anunciar a Vida àqueles que desejam a salvação, não importando posição socioeconômica, cultural, étnica etc. Deus é de todos e não apenas de alguns. O Cristo da manjedoura ensina-nos que Ele não quer o poder temporal. Veio pobre e indefeso como uma criança para não amedrontar. Em torno dele, unem-se os povos, vindos de longe, enquanto os que estavam por perto o ignoraram. Muitos buscam Cristo, de modo diferente. Os Magos procuraram-no para reverenciá-lo, enquanto Herodes desejava encontrá-lo para o matar. Assim caminha a humanidade. Enquanto há os que proclamam Cristo “Luz que ilumina todo homem que vem a este mundo” (Jo 8, 12), outros desejam aniquilá-lo. A luz revela a maldade, o erro, a injustiça, o pecado, desmascara pessoas, sendo por isso ameaçada. Os Magos são metáfora da realidade humana. Simbolizam os sedentos da Palavra divina, enquanto Herodes o Mal sobre a face da terra. Para encontrar Cristo, às vezes, temos de caminhar nas trevas, por desertos e terras desconhecidas. Entretanto, havia para eles uma estrela que os conduziu até Belém. Assim, existe para nós a chama de nossa fé que nos guia aonde poderemos encontrar o Salvador da humanidade. Infelizmente, existem os que ficam cegos com sua minúscula luz. Estes têm medo de encontrar Jesus, de ouvi-lo ou vê-lo e o procuram destruir. É uma tentação antiga, porém sempre atual do ser humano: quer exterminar quem incomoda. Cristo sequer começara a sua pregação, mas sua presença já importunava. Como os Magos, para proclamar o nascimento do Salvador, devemos fazer o caminho inverso dos poderosos e nos desviar da rota do orgulho. Só Deus enche de paz o nosso coração. Nem mesmo a riqueza, o poder e a realeza nos aquietam. Belchior, Baltazar e Gaspar fazem-nos compreender que os considerados excluídos do amor de Deus são os primeiros a senti-lo. Cristo nasceu para todos e mostra-nos que o Amor do Pai pelos homens não faz discriminação. “Deus enviou seu filho..., e todos recebemos a dignidade de filhos” (Gl 4, 5). As realidades divinas tornam-se acessíveis. Jesus não veio apenas ao mundo, mas se encarnou para que sentíssemos sua infinita misericórdia. Vivemos numa sociedade egoísta. Cada vez mais as pessoas se fecham, revestindo-se de insensibilidade e indiferença. Cristo, apesar de sua grandeza, fez-se pequeno e humilde para não atemorizar. Mesmo os desconhecidos foram recebidos com ternura e respeito. Hoje, Jesus se manifesta a nós, não como aos pastores e aos Magos, mas no pobre dormindo ao relento, no idoso abandonado pela família, no doente num leito de hospital, sem atendimento adequado, nos injustiçados, perseguidos, rejeitados... Agora, Ele ensina-nos a amá-lo, sentindo-o no próximo. Não bastam apenas ações sociais ou assistenciais, é necessário Amor. Sentir a presença de Cristo é fruto de busca e caminhada. Ele deseja se revelar a cada um. Porém, precisamos perseverar e procurá-lo inclusive nas trevas. Cristo é Irmão de todos. Nasceu tanto para os pastores como para os estrangeiros do Oriente, cuja religião era diferente da de seu povo. É relevante o relato de Mateus a respeito da indagação sobre o lugar do nascimento do Menino. O evangelista mostra a ignorância de Herodes, ícone dos prepotentes da época. “Onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer?” (Mt 2, 2). Por vezes, nossa alienação é idêntica. Cristo está próximo de nós e não o percebemos. Falta-nos sentimento de busca sincera e da descoberta do sagrado e divino. Os Magos não mediram esforços. Viajaram por terras estranhas, enfrentando adversidades e finalmente foram confortados pela alegria do encontro com o Menino Deus. Em sinal de admiração e reconhecimento, ofertaram-lhe o que tinham de melhor, de acordo com sua cultura e tradições. “Ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra” (Mt 2, 11).

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

 SALDO DE RETALHOS


Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com

Fotos, recortes amarelecidos de jornais, álbuns perdidos,
lembranças mortas, tudo se resume no que ficou de mim no caixote que mandei
buscar em Macaíba. Quase cinquenta anos estavam ali amontoados sem me
passar a certeza de que fui feliz. Viagens, lugares, reuniões, festas, política e
políticos, o lar, as pessoas, o trabalho, os entes queridos, a entrevistas, os fatos,
os enganos e os engodos, as ações e as traições, as frustrações, tudo, enfim, um
baú de vida tecida e vertida em momentos fugazes mas com profundidade.
Mesmo assim, era o meu inventário de aparências. O revelado e o relevante.
Sim, porque as verdadeiras ações ficaram no pensamento, no que quis realizar e
não consegui: porque o melhor de todos nós se encontra no irrevelado.

Sobre a mesa, o pacote empoeirado desafiava-me a memória. De
plano, lembrei-me que muitos desses documentos foram náufragos há quase
quarenta anos, aproximadamente, de uma enchente que inundou a rua Francisco
da Cruz nº 39, de minha mãe. Com a permissão do destino os papéis não foram
afetados menos outros, levados pela correnteza. Naqueles ali apenas constatei o
pó e a pigmentação do tempo. Estava diante de mim mesmo resumida a maior
parte de minha vida? Perguntei-me. Vejam mesmo, meus caros leitores, o
quanto é fuleira a vida quando a colecionamos ou a resumimos em vaidades. Era
feliz e não sabia? Frase babaca essa e desnecessária ao texto. O fato é que
enfrentei a memória contextual, os meus pedaços de vida, soltos, saídos do útero
da casa mater, como único e suficiente tesouro do eterno aprendiz.

Um pacotaço maior e robusto havia me surpreendido à esquerda,
naquela tarde de redescobertas. Tratava-se da coleção de diplomas,
condecorações, títulos, troféus, placas, medalhas, etc. Era a coleção “vanitas,
vanitatis”, que pendurara, ao longo do tempo, nas paredes da sala da frente.

Testemunhas documentais de homenagens passageiras. Do mérito bajulatório
umas e de fiéis reconhecimentos, outras. Enfim, passatempos. De que me servirá
hoje tudo isso porquanto só a mim interessa? Penso assim, porque sempre o
mundo dá e ele mesmo tira. O que importa é que agora sem a casa de Macaíba
não tenho onde colocar meus inúmeros penduricalhos. Resido em casa menor,
despojada de arquitetura senhorial que abrigava com pompa e circunstância
meus escombros de guerra.

Mas, há algo que lá deixei, além das sementes e da vida dos meus
pais, em cada parede, sala e jardins. Uma iniciada biblioteca constituída de bons
livros de autores nacionais e principalmente do Rio Grande do Norte. Nas boas
mãos de uma bibliotecária pode representar um bom começo para os futuros
habitantes. Doei a Fundação José Augusto e a Casa da Cultura de Macaíba
“Nair de Andrade Mesquita” na expectativa maior de que os jovens conheçam
mais os autores potiguares. Em suma, eis o meu inventário. Modesto, raquítico,
dietético, extraído daquele casarão onde habitou tanto amor, enxugou muitas
lágrimas e perfumou sorrisos. Mas, ali tudo era assim mesmo: modesto, pobre,
sem ostentação. Era verdadeiramente a casa do povo e que se tornou da cultura
municipal, sem deixar de ser do povo. Não sei, mas sinto que há desígnio
superior em tudo isso.

(*) Escritor

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

 


PEQUENA ELEGIA RURAL 


nada como estar a sós com o passado
sobretudo à noite
entre árvores imersas em sonhos e reminiscências
cujas raízes procuram nas profundezas
a revelação do mesmo segredo
que acima busco nas estrelas


-  Horácio Paiva

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

 No Natal, Deus se faz criança 

Padre João Medeiros Filho 

Santo Antão, um anacoreta do século III, inspirado no Livro da Sabedoria (Sb 18, 14-15) escreveu: “Quando a noite estava no meio de seu curso, tudo parou e silenciou, porque nasceu um Menino, o Salvador da humanidade.” A retórica do presépio pretende mostrar que Deus não é severo, ameaçando nossas vidas. Ele surge no meio de nós como uma criança. E esta não julga nem condena. Deseja tão somente revelar a clemência e o afeto divino. A manjedoura de Belém sussurra-nos uma profunda mensagem de paz. Hoje, vive-se na civilização da incerteza e do medo, até mesmo de Deus. Talvez, nós ministros religiosos, tenhamos uma parcela de culpa. Por vezes, anunciamos mais o castigo divino do que o perdão, a benignidade e a ternura. Jesus se fez pequeno. É o Emanuel, Deus conosco. Não se pode esquecer as palavras dos anjos aos pastores: “Não temais, anuncio-vos uma grande alegria: nasceu para vós o Salvador” (Lc 2, 10). O termo empregado pelos arautos celestiais foi salvador e não juiz. O Natal cala-nos diante da simplicidade, bem como da benevolência infinita e celestial. Resta-nos dar lugar ao coração que sente, se compadece e ama. Não se poderia fazer outra coisa diante de um menino, sabendo que Ele é o Verbo humanado. Vale lembrar Fernando Pessoa: “Ele é a eterna criança, o Deus que faltava. Ele é o divino que sorri e que brinca. É a criança tão humana que é divina.” O Natal traz-nos uma permanente mensagem: importa muito o espírito de bondade, doçura que encanta, pureza enchendo a alma humana da inefável e enriquecedora graça sobrenatural. Na festa do Natal de Cristo, somos todos convidados a ver com os olhos da alma, do afeto e do coração. Não raro, somos frios e indiferentes. O Pequeno Príncipe já dizia: “Só se vê bem com o coração.” Santa Dulce dos Pobres mostrou-nos que o cristianismo é feito muito mais com o coração do que com sermões. Neste Natal, vamos resgatar nossa afetividade, deixar-nos comover com nossas crianças interiores, permitir que elas sonhem e nos encham de encanto diante do Menino Jesus. Este sentiu prazer e alegria, querendo ser um de nós. “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Tendo passado pela experiência de ter sido criança, Ele lançou aos discípulos o convite à infância espiritual: “Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3). Natal é isso também. Na liturgia natalina e do cotidiano da vida, o Eterno vem a nós para nos transformar em irmãos, mudar nossa noite em dia, proteger-nos dos perigos, iluminar nossa cegueira e fortalecer nossa fraqueza. Deus assumiu o homem, não obstante a sua infidelidade, a rejeição do Amor na aurora da humanidade. Um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado. Cristo se fez um como nós, porque quis ser para todos misericórdia e perdão. Portanto, “alegremo-nos todos no Senhor, pois nasceu para nós o Salvador” (Lc 2, 11). Desceu do céu para nós a verdadeira paz! O Natal é a resposta à utopia humana, à sua sede e procura inquietas. Em Cristo, Deus materializou todo o nosso sonho: tornar-se imortal, pleno de bondade, rico de benevolência, templo da justiça, fonte da verdade, berço do perdão e da paz. Jesus veio restaurar pela graça a humanidade, em sua beleza original e grandeza primeira da criatura, antes da triste realidade do pecado. O Natal é a convivência celestial nos caminhos da terra, a partilha da Vida divina com a existência terrena, o encontro do Eterno com o tempo, a Presença duradoura no efêmero dos homens. É o Criador decidindo habitar a terra. Destes sentimentos devem se revestir as festas natalinas. A todos desejamos um Natal cheio de graças e de Luz. Precisamos dela neste mundo – em especial no Brasil – rumo a um futuro incerto. Tenhamos fé, Deus indicar-nos-á também uma estrela, como a de Belém, a mostrar o caminho que nos leva ao Salvador. A todos um Natal pródigo de graça, alegria, saúde e paz! “E a gloria do Senhor nos envolva de luz” (Lc 2,9).

 EQUÍVOCO HOMÉRICO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

Nos anos noventa, o deputado Leonardo Arruda encabeçou um oportuno movimento na Assembleia Legislativa com o objetivo de tornar sem efeito o título de cidadão honorário norte-rio-grandense concedido a José Carlos Fragoso Pires. Léo, como advogado e regimentalista, procurou amparo legal para convalidar a iniciativa que teve o apoio da grande maioria dos parlamentares. Mas, o título foi entregue solenemente no plenário da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, com reservas. O então deputado e depois governador Robinson Faria, proferiu o discurso de praxe repleto de esperança e de visões desenvolvimentistas. De Macau, por terra e mar, desembarcaram delegações oficiais e privadas, todos entoando o hino da barrilha. No seu discurso, para justificar a honraria, falou que retomaria imediatamente o projeto de reabertura da Alcanorte. Todavia, notícias sinistras pairavam sobre o projeto. Comentou-se que o grupo empresarial estava dividido. Ou concentrava somente seus investimentos no Rio de Janeiro e não na Alcanorte, em Macau. A dúvida penalizou o Rio Grande do Norte. Não foi isso que ouvimos quando votamos o título honorífico. E a Alcanorte foi para o beleleu.

Para quem não se lembra, Fragoso Pires foi o empresário carioca/paulista que implodiu o projeto da Alcanorte. Dizem que lá em Macau o vigário ministrou até a extrema unção da polêmica iniciativa. Relembro os primeiros trovadores que cantaram a adolescente Alcanorte em verso e prosa: Antonio Florêncio, Tarcísio Maia para não citar outros. A Alcanorte foi mulher de muitos homens. Explorada em muitas cartas e discursos circunstanciais, ocasionais, para depois de seduzida ser logo abandonada. Hoje, virou carcaça na periferia de Macau, igual a tantas mulheres que ganhavam a vida com o suor de suas nádegas. O seu último caso foi com o industrial Fragoso Pires que a pediu em “casamento” e levou o seu dote de quinze anos de isenção de ICMS. Logo deixou de ser pública para ser privada. Mas o casamento não deu certo. O volúvel Fragoso, era homem de muitos casamentos e só no Rio de Janeiro tornou-se sócio de quinze empreendimentos diferentes. Enciumada, alquebrada, esquelética, a Alcanorte é tristemente lembrada na comiseração pública, através das frases carpideiras e lamuriosas dos seus amantes. Depois, falou-se no Pólo-Gás-Sal. Sim, o gás é nosso! Disseram que não poderia nascer morto no ventre como nasceu a refinaria de petróleo. Mas, ainda restava uma esperança. Ai entrou em cena o Pólo-Gás-Sal que se transformou num “bufa-gás”, aquele orfeônico equipamento inventado pelos cientistas de plantão lá do Planejamento do Estado.

Sentido-se enganada na sua boa fé e ultrajada, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte buscou uma sanção moral, um ressarcimento ou uma punição que fizesse delir da galeria honorífica dos grandes cidadãos do Rio Grande do Norte essa figura despicienda e de tão mau agouro. A intenção não logrou resultado.

E aí? Tudo virou naufrágio! Uma aventura na qual só um grupo levou vantagem. Nem Alcanorte, nem barrilha, nem porra nenhuma! Tá lembrado? É a mesma história da ZPE, da Algimar do conde de Sternberg ou senhor Carlos Raposo, Cerâmica Beatriz de Bernard Benayon e falam que vai aparecer agora um novo projeto: O “CAVACO CHINÊS”.

Rio Grande do Norte sem sorte onde o maior investidor é a Previdência Social. A paranóia do lucro fácil continua presidindo as ações. Não existe criatividade. Apenas, a infusão do medo, do ódio, do pesadelo. Não existe um líder que dê de si, sem trair a si, eis toda questão do senso político. Sem paranóia, sem passionalismo. O tempo só respeita o que constrói e não o que persegue.

(*) Escritor.



segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

 Estado brasileiro laico e religiosidade 

Padre João Medeiros Filho 

Talvez por desconhecimento jurídico, histórico e cultural, pessoas, grupos e instituições voltam-se contra manifestações e símbolos religiosos – mormente cristãos – presentes em órgãos ou espaços públicos. São objeto de contestação, críticas, ataques e polêmicas. O assunto é recorrente em discussões acadêmicas, legislativas e jurídicas. O advento da República trouxe a ruptura da Concordata entre a Santa Sé e o Brasil (vigente desde os tempos coloniais), ocasionando o fim do padroado e do catolicismo como religião oficial. Proclamou-se o estado laico, ou seja, separado institucionalmente da Igreja. O uso do termo laicidade, de forma inexata semântica, canônica e juridicamente, tem sido um dos argumentos contumazes em discussões e debates. Absurdo é considerar laicidade como oposição a tudo o que diz respeito à religião. Por princípio constitucional, o Estado brasileiro é laico e não laicista. São realidades distintas. A laicidade é a neutralidade ou independência do ente estatal no tocante à religião, jamais aversão ou exclusão da fé do seu povo. Isto chama-se laicismo, postura radical que nega o sentimento religioso. Laicismo inexiste em nosso texto constitucional. Assim, inaceitável é a visão excludente da religiosidade. Esta não se configura como antagônica ao Estado. Ao contrário, ela poderá contribuir para avaliar a concepção e os projetos de sociedade. Ontológica e culturalmente, a religiosidade cristã é inerente à nossa formação antropológica como nação. Integra os elementos formadores de nossa identidade nacional, ao lado de tradições e raízes indígenas ou africanas. Por mais que queira, ninguém conseguirá apagar ou modificar o passado. É indelével. Hoje, órgãos de Estado empenham-se em preservar traços e aspectos transmitidos por nossos ancestrais. Há leis específicas de proteção a elementos oriundos da afro-descendência e ameríndia. Paradoxalmente, tenta-se negar ou soterrar a presença cristã na genética de nosso povo. Ignorar esse fato é uma postura preconceituosa histórica e culturalmente. Há uma marca religiosa nas entranhas do Brasil. Incontestável é a religiosidade de sua gente. Esta precede o ente estatal, o qual tem por dever edificar e manter uma sociedade equânime, justa e solidária. O povo é a razão de ser da instituição sócio-política, na qual está inserido. O Estado tem por objetivo o bem comum da nação, preservar seus legados culturais e respeitar os princípios de justiça, verdade, harmonia e paz. Portanto, não é correto – filosófica, jurídica e ideologicamente – considerar como opostos e inconciliáveis: Estado e Religião. A distinção é necessária e benéfica para não incorrer em ambiguidades indevidas, injustiças ou concessão de privilégios a determinado credo. Nos parlamentos, se os membros representam legalmente a população, detêm igualmente a obrigação de defender a religiosidade de quem os escolheu. O ônus abrange proteger a legitimidade e competência da religião, bem como momentos e contextos, locais e modos de expressar suas convicções. “Est modus in rebus”, escreveu o poeta latino Horácio em suas “Sátiras”, ou seja, há medida certa para cada coisa. De um lado, seria contraditório pensar o Estado como instância prestadora de serviço para o bem-estar da nação; de outro, discriminando a religiosidade, dimensão intrínseca e ontológica da brasilidade. Nenhuma entidade social ou partidária pode arrogar-se o direito de ser dona do Estado, a ponto de querer impor sua própria concepção ideológica ou religiosa. Tampouco, religião alguma deverá fazer o mesmo. São seres diferentes, apesar de vinculados à vida nacional. Deste modo, não se pode extirpar de nossa pátria elementos constituintes e intrínsecos, dentre eles, a religiosidade. Negam-se nossas origens, quando se parte de uma noção inexata e equivocada de laicidade. O Estado não deve ser confessional. Porém, não é ético, justo e intelectualmente honesto, excluir culturalmente o cristianismo do DNA do país. Se assim pretendem defensores dessa teoria, deverão repensar e abolir outros componentes que também constituem a identidade brasileira, protegidos por diplomas legais. É uma questão de dignidade, coerência e lógica. A religiosidade do ser humano não é maléfica. Dizia o teólogo Angelus de Silesius: “Como viver sem Ti, ó Senhor? Pouco importa teu nome: Clemência, Pai, Ternura ou Amor. És nossa luz, alegria, esperança, refúgio e paz!” Importa citar o salmista: “Feliz a nação, cujo Deus é o Senhor” (Sl 33/32, 12).