terça-feira, 9 de janeiro de 2024

 

A endogamia no Seridó

Padre João Medeiros Filho

No Seridó potiguar, ouve-se frequentemente a expressão: “Aqui, quem não é parente, mora em frente.” Originalmente, a frase remetia à endogamia, ou seja, ao casamento de aparentados, consanguíneos geneticamente semelhantes. Em artigos anteriores, referi-me a determinados traços culturais flamengo-batavos nas tradições seridoenses. Por exemplo, o matrimônio entre parentes próximos, que ainda perdura. Tal tipo de união é um costume milenar, característico da civilização hebraica. Existia na península ibérica, disseminando-se com a colonização neerlandesa (predominantemente judaica) em alguns estados nordestinos. Assim, arraigou-se nos sertões do Seridó. Na Bíblia há recomendações para se contrair matrimônio no interior do clã. Dever-se-ia procurar um cônjuge entre os parentes da mesma linhagem. No Antigo Testamento, verifica-se a situação típica de Abraão, ao desposar Sara (Gn 20, 12).

A endogamia visa a preservar a identidade antropológica-cultural e impedir a dispersão dos bens familiares. O povo hebreu procurava também garantir a pureza de sua crença e o culto a Javé, rejeitando núpcias com pessoas praticantes de religiões politeístas. Aliado a esses motivos está o aspecto econômico-financeiro. Nessa direção caminha a Lei do Levirato, no Antigo Testamento. Ela determinava ao Povo da Antiga Aliança que a viúva sem filhos deveria se casar novamente com um cunhado. A este caberia dar um herdeiro masculino ao irmão falecido. Desse modo, o seu nome não desapareceria e conservaria a fortuna do casal. A importância e o objetivo desta lei (cf. Dt 25, 5-10; Gn 38, 8) residem não só na manutenção da linhagem familiar, mas também do patrimônio material.

O Seridó potiguar, tendo recebido forte influência dos Países Baixos, ficou marcado pela endogamia. Prevalecia a firme intenção de proteger o sangue, a índole, a religião, as tradições do grupo e os bens da família. Esse dado de cunho semita vige até os dias atuais. Após o fim do domínio holandês, houve certo cuidado, por parte dos tradicionais troncos seridoenses, de evitar que o sangue indígena, afro, judaico e o protestantismo pudessem atingir o DNA da aristocracia rural católica, de ascendência e cultura lusitana. Assim, evitar-se-ia a divisão das posses, mantendo-se a integridade patrimonial da família, incluindo sua religião. “Não podemos permitir que forasteiros levem nossas filhas e terras, maculando nossa religiosidade e crença”, dissera o patriarca Tomás de Araújo Pereira a seu neto sacerdote, pároco do Acari. Esta assertiva é uma apologia típica do vínculo endogâmico. Dom José Adelino Dantas, segundo bispo de Caicó, trouxe com seus escritos um substancial contributo a esse tema.

Como secretário do bispado caicoense e chanceler da cúria, acompanhei durante mais de uma década os processos matrimoniais, enviados à autoridade diocesana para obtenção da dispensa do impedimento de consanguinidade. Este ainda está previsto no cânon 1091 § 1 do Código de Direito Canônico em vigor. Nesse período de observação, verifiquei que as uniões entre consanguíneos se mantiveram num patamar de um terço dos casamentos religiosos católicos. As dispensas de impedimento matrimonial por consanguinidade ultrapassavam trezentas solicitações anuais. Monsenhor Walfredo Gurgel, doutor em Direito Eclesiástico, vigário geral do bispado, de 1941 a 1971, procurou sistematizar os argumentos para a solicitação da licença canônica ao bispado. Entretanto, na justificativa dos requerimentos apresentados, permaneciam de forma persistente as razões que expressam a marca da endogamia.

Na ciência médica, a temática suscita questionamentos no tocante a eventuais problemas de saúde, oriundos de tais matrimônios. A outros fatores genéticos, junta-se uma doença rara, presente no Seridó potiguar, denominada Síndrome de Berardinelli-Seip – LCG. Naquela região norte-rio-grandense, constata-se uma incidência dessa morbidade, quatorze vezes maior que a média mundial registrada. Os municípios mais afetados são Timbaúba dos Batistas, Carnaúba dos Dantas e Parelhas. Pesquisadores da UFRN, em alentado estudo, verificaram a existência da referida doença em dezenove municípios potiguares, inclusive na região metropolitana de Natal. Conforme achados de estudiosos, poderia concorrer para isso a endogamia de seus ancestrais. Atualmente, a Igreja dispensa o impedimento de consanguinidade com maior cautela. No entanto, conserva a tradição bíblica de abençoar casamentos endogâmicos, lembrando as palavras do apóstolo Paulo: “Que o vosso amor cresça também em discernimento” (Ef 5, 32).

sábado, 6 de janeiro de 2024

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 202402

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

DIA DOS SANTOS REIS

Da tradição religiosa natalense, a data de 6 de janeiro é consagrada aos Santos Reis Magos – as testemunhas do nascimento do Redentor, em homenagem aos quais foi erguido o Forte dos Reis Magos, conservado até os dias presentes.

Foi nessa data, do ano de 1962, que vim da praia da Redinha, onde veraneava, para pedir em casamento a mão da minha amada THEREZINHA, com a promessa de núpcias para igual data do ano de 1963, não se concretizando pelo fato de ter sido o dia escolhido para o Plebiscito e eu, então, trabalhava no Tribunal Regional Eleitoral, ficando remarcado para 16 de março daquele ano, na cidade de Belém, capital do Estado do Pará, para onde foi transferida a família Rosso/Jones Nelson à qual ela pertencia. Após o casamento, pouco tempo depois, retorna para Natal, retomando a estrada profissional e familiar.

Assim sendo, 6 de janeiro sempre ficou marcado em minha vida, quando solidifiquei a minha história amorosa com a amada, iniciada em 1948, ao chegar em Natal, vindo de Macaíba, para morar na casa da rua Meira e Sá, 120, vizinho ao número 118 onde ela já residia.

Esse fato compõe um caminhar duradouro – 1948 – 2019, ou seja, quando cheguei e de pronto olhei em seus olhos, dando início a uma amizade, depois namoro, noivado, casamento até o chamamento do Criador, no dia 31 de março de 2019. Portanto, 71 anos de convivência afetiva, fiel e de cumplicidade.

No correr desse tempo aponto os episódios marcantes: em 1948: começava uma carreira artística precoce, que durou até 1954, sempre acompanhada por ela, com desvelo e coleção de recortes de jornais e preocupação de algum possível desvio de rota. Depois disso a prestação da vida militar no 16º Regimento de Infantaria, concluído nos pruridos de 1960, quando viajei para Recife a fim de estudar e me preparar para o vestibular.

No mesmo ano retornei e continuei a minha vida em busca do futuro, sempre com o seu apoio sem compromisso até 1962, como acima relatei. Nesse ano ingressei nos quadros do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte, onde permaneci até 1971, após aprovação nos concursos de Auditor do Tribunal de Contas, que assumi em maio deste último referido e no de Promotor Público auxiliar, que declinei de aceitar.

O casamento em 1963 nos trouxe no início de 1964 várias vitórias – aprovação no vestibular de Direito e o nascimento de Rosa Ligia, os quais ampliaram a minha responsabilidade, obrigando-me a estudar exemplarmente, tanto que logrei, ao concluir, o recebimento da Medalha de Mérito Universitário (UFRN), iniciando uma travessia pela vida profissional, bem sucedida, até a aposentadoria gradual de cada atividade, dedicando-me daí em diante ao labor cultural e acadêmicos, onde ainda me encontro, guardando momentos inesquecíveis da companhia da minha eterna namorada.

Aqui mais um registro da minha passagem por esta dimensão da existência e das alegrias vividas com a companheira inseparável, até que Deus a chamou para outra missão em sua Casa.





sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

 O CELULAR 


Valério Mesquita

Não há faca de dois gumes mais cortante e afiada que o aparelho celular. As estatísticas aí estão para comprovar o que afirmo. Favorece a escuta, acidentes quando utilizado na direção de veículos e em penitenciárias nas mãos dos marginais, sem esquecer outros usos e abusos tão conhecidos de todos. Sei perfeitamente de sua serventia em outras tantas situações. Mas, desejo chegar a dois episódios, até certo ponto cômicos, onde o aparelho, respectivamente, vale mais do que o doente no hospital e do que o homem comum diante da autoridade. 

O primeiro se refere ao uso rotineiro do celular por alguns médicos na sala de cirurgia dos hospitais. Enquanto os procedimentos operatórios são executados, com as vísceras do paciente expostas, o fone do cirurgião ou anestesista fica ali, sobre a mesa, ora recebendo, ora emitindo ligações e recados do whatsapp. O doente parece assumir um segundo plano e fica à mercê, automaticamente, por conta das manipulações contínuas, da temida infecção hospitalar. Hoje, ela é o fantasma oculto dos nossos hospitais. Por outro lado, a preocupação com o aparelho induz a distração, a leniência e a dispersão da equipe, com a prevalência da máquina mortífera sobre a vida do enfermo.

Tais reflexões me fazem lembrar um episódio, que ainda não contei, ocorrido comigo e um secretário de Estado, José Maria Melo, durante o governo de Garibaldi Alves Filho. Àquela época, eu exercia o mandato de deputado estadual e pedira-lhe, via celular, uma audiência, ao lado de dois inefáveis vereadores macaibenses. Após os cumprimentos de praxe, iniciei a narrativa dos assuntos, sendo interrompido três vezes pelo celular colocado sobre o birô. Sem que pudesse concluir a conversa administrativa na íntegra, apelei para um procedimento insólito. Lembrando-me que o seu número ainda estava gravado na memória do telefone, liguei-lhe no instante em que pedia água e café: “Alô, é o doutor Zé Maria?”. “É, sim. Quem fala?”. “É Valério, Zé Maria. Vamos concluir a nossa audiência pelo celular mesmo, ok?”. Não desligamos e fomos até o fim da conversa sem sermos perturbados. Conclusão: O celular é bicho incômodo e desatencioso. Desculpas à parte, juntos aprendemos a lição. Principalmente ele, sob os olhares atônitos dos dois edis conterrâneos: Ismar Fernandes Duarte e Francisco Pereira dos Santos.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

 


Cartas de Cotovelo – Verão de 202401

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

V O L T E I

Após longo período afastado desta minha Passargada, corrigidos alguns rumos da minha saúde, posso desfrutar das águas límpidas de Cotovelo e conviver com a população pacata de caiçaras, moradores e veranistas.

Estive, realmente, afastado dos movimentos da PROMOVEC para evitar emoções, porquanto a ela tenho dedicados a minha atuação, pelo menos, nos últimos 20 anos.

As transições administrativas sempre trazem mudanças de objetivos e, em decorrência, desencontros de propósitos, mas sem o poder de aplacar o ideal uníssono da Comunidade Cotovelo/Pium – a melhoria dos serviços, mantença da pacificidade dos habitantes, a beleza da praia e a qualidade de vida dos seus frequentadores e moradores.

De novidade em meu regresso, a construção do novo local da nossa feirinha livre, que foi a primeira batalha da Promovec através do seu Presidente José Augusto, deixando livre o espaço da antiga para serventia da população e da Igreja, que saberão dar o que melhor convier para a alegria de todos.

Quanto à praia, pude percorrer um trecho, de acordo com a minha possibilidade física e constatei que continua linda, agora mais iluminada, permitindo o seu uso à noite e as cautelas dos perigos das falésias, fenômeno que tem preocupado toda a orla marítima do Rio Grande do Norte e de outros estados com resultados danosos.

Algumas mazelas ainda persistem, como o descumprimento da Lei do Silêncio, tema de maior relevância que deverá ser tratado com eficiência junto à Prefeitura do Município de Parnamirim.

Uma coisa efetiva que temos que aceitar, é que a moradia em Cotovelo está consagrada, com a construção de novos condomínios, obrigando ao Poder Público dotar um olhar mais severo e eficiente para que não haja perda de qualidade habitacional dos seus moradores, como é exemplo a conclusão do sistema de esgoto, até agora direcionado discriminadamente para algumas categorias de pessoas.

Neste ano de 2024 teremos eleições municipais e devemos adotar critérios rígidos no momento da escolha dos nossos futuros mandatários e representantes.

No mais, as lembranças da minha THEREZINHA, seus gestos, falas, exemplos e na religiosidade que sempre foram seus pontos fortes. O Santuário organizado em sua homenagem está íntegro, com novos habitantes colocados, de quando em vez, aumentando o rol dos espíritos de luz, juntos ao seu retrato cativo e venerado, ao do Santo Padre Pio e do nosso Salvador.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

 A Epifania do Senhor 

Padre João Medeiros Filho 

 A Epifania é a festa da manifestação de Cristo a todos os povos. A busca dos Magos – segundo estudiosos, sábios do Oriente – representa a afirmação desse clarão divino em Jesus. Dá-se o encontro do Filho de Deus com personagens que não pertenciam ao povo eleito. Eis uma das grandes lições do Menino. Seu nascimento não veio confirmar privilégios. Nasceu para anunciar a Vida àqueles que desejam a salvação, não importando posição socioeconômica, cultural, étnica etc. Deus é de todos e não apenas de alguns. O Cristo da manjedoura ensina-nos que Ele não quer o poder temporal. Veio pobre e indefeso como uma criança para não amedrontar. Em torno dele, unem-se os povos, vindos de longe, enquanto os que estavam por perto o ignoraram. Muitos buscam Cristo, de modo diferente. Os Magos procuraram-no para reverenciá-lo, enquanto Herodes desejava encontrá-lo para o matar. Assim caminha a humanidade. Enquanto há os que proclamam Cristo “Luz que ilumina todo homem que vem a este mundo” (Jo 8, 12), outros desejam aniquilá-lo. A luz revela a maldade, o erro, a injustiça, o pecado, desmascara pessoas, sendo por isso ameaçada. Os Magos são metáfora da realidade humana. Simbolizam os sedentos da Palavra divina, enquanto Herodes o Mal sobre a face da terra. Para encontrar Cristo, às vezes, temos de caminhar nas trevas, por desertos e terras desconhecidas. Entretanto, havia para eles uma estrela que os conduziu até Belém. Assim, existe para nós a chama de nossa fé que nos guia aonde poderemos encontrar o Salvador da humanidade. Infelizmente, existem os que ficam cegos com sua minúscula luz. Estes têm medo de encontrar Jesus, de ouvi-lo ou vê-lo e o procuram destruir. É uma tentação antiga, porém sempre atual do ser humano: quer exterminar quem incomoda. Cristo sequer começara a sua pregação, mas sua presença já importunava. Como os Magos, para proclamar o nascimento do Salvador, devemos fazer o caminho inverso dos poderosos e nos desviar da rota do orgulho. Só Deus enche de paz o nosso coração. Nem mesmo a riqueza, o poder e a realeza nos aquietam. Belchior, Baltazar e Gaspar fazem-nos compreender que os considerados excluídos do amor de Deus são os primeiros a senti-lo. Cristo nasceu para todos e mostra-nos que o Amor do Pai pelos homens não faz discriminação. “Deus enviou seu filho..., e todos recebemos a dignidade de filhos” (Gl 4, 5). As realidades divinas tornam-se acessíveis. Jesus não veio apenas ao mundo, mas se encarnou para que sentíssemos sua infinita misericórdia. Vivemos numa sociedade egoísta. Cada vez mais as pessoas se fecham, revestindo-se de insensibilidade e indiferença. Cristo, apesar de sua grandeza, fez-se pequeno e humilde para não atemorizar. Mesmo os desconhecidos foram recebidos com ternura e respeito. Hoje, Jesus se manifesta a nós, não como aos pastores e aos Magos, mas no pobre dormindo ao relento, no idoso abandonado pela família, no doente num leito de hospital, sem atendimento adequado, nos injustiçados, perseguidos, rejeitados... Agora, Ele ensina-nos a amá-lo, sentindo-o no próximo. Não bastam apenas ações sociais ou assistenciais, é necessário Amor. Sentir a presença de Cristo é fruto de busca e caminhada. Ele deseja se revelar a cada um. Porém, precisamos perseverar e procurá-lo inclusive nas trevas. Cristo é Irmão de todos. Nasceu tanto para os pastores como para os estrangeiros do Oriente, cuja religião era diferente da de seu povo. É relevante o relato de Mateus a respeito da indagação sobre o lugar do nascimento do Menino. O evangelista mostra a ignorância de Herodes, ícone dos prepotentes da época. “Onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer?” (Mt 2, 2). Por vezes, nossa alienação é idêntica. Cristo está próximo de nós e não o percebemos. Falta-nos sentimento de busca sincera e da descoberta do sagrado e divino. Os Magos não mediram esforços. Viajaram por terras estranhas, enfrentando adversidades e finalmente foram confortados pela alegria do encontro com o Menino Deus. Em sinal de admiração e reconhecimento, ofertaram-lhe o que tinham de melhor, de acordo com sua cultura e tradições. “Ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra” (Mt 2, 11).

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

 SALDO DE RETALHOS


Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com

Fotos, recortes amarelecidos de jornais, álbuns perdidos,
lembranças mortas, tudo se resume no que ficou de mim no caixote que mandei
buscar em Macaíba. Quase cinquenta anos estavam ali amontoados sem me
passar a certeza de que fui feliz. Viagens, lugares, reuniões, festas, política e
políticos, o lar, as pessoas, o trabalho, os entes queridos, a entrevistas, os fatos,
os enganos e os engodos, as ações e as traições, as frustrações, tudo, enfim, um
baú de vida tecida e vertida em momentos fugazes mas com profundidade.
Mesmo assim, era o meu inventário de aparências. O revelado e o relevante.
Sim, porque as verdadeiras ações ficaram no pensamento, no que quis realizar e
não consegui: porque o melhor de todos nós se encontra no irrevelado.

Sobre a mesa, o pacote empoeirado desafiava-me a memória. De
plano, lembrei-me que muitos desses documentos foram náufragos há quase
quarenta anos, aproximadamente, de uma enchente que inundou a rua Francisco
da Cruz nº 39, de minha mãe. Com a permissão do destino os papéis não foram
afetados menos outros, levados pela correnteza. Naqueles ali apenas constatei o
pó e a pigmentação do tempo. Estava diante de mim mesmo resumida a maior
parte de minha vida? Perguntei-me. Vejam mesmo, meus caros leitores, o
quanto é fuleira a vida quando a colecionamos ou a resumimos em vaidades. Era
feliz e não sabia? Frase babaca essa e desnecessária ao texto. O fato é que
enfrentei a memória contextual, os meus pedaços de vida, soltos, saídos do útero
da casa mater, como único e suficiente tesouro do eterno aprendiz.

Um pacotaço maior e robusto havia me surpreendido à esquerda,
naquela tarde de redescobertas. Tratava-se da coleção de diplomas,
condecorações, títulos, troféus, placas, medalhas, etc. Era a coleção “vanitas,
vanitatis”, que pendurara, ao longo do tempo, nas paredes da sala da frente.

Testemunhas documentais de homenagens passageiras. Do mérito bajulatório
umas e de fiéis reconhecimentos, outras. Enfim, passatempos. De que me servirá
hoje tudo isso porquanto só a mim interessa? Penso assim, porque sempre o
mundo dá e ele mesmo tira. O que importa é que agora sem a casa de Macaíba
não tenho onde colocar meus inúmeros penduricalhos. Resido em casa menor,
despojada de arquitetura senhorial que abrigava com pompa e circunstância
meus escombros de guerra.

Mas, há algo que lá deixei, além das sementes e da vida dos meus
pais, em cada parede, sala e jardins. Uma iniciada biblioteca constituída de bons
livros de autores nacionais e principalmente do Rio Grande do Norte. Nas boas
mãos de uma bibliotecária pode representar um bom começo para os futuros
habitantes. Doei a Fundação José Augusto e a Casa da Cultura de Macaíba
“Nair de Andrade Mesquita” na expectativa maior de que os jovens conheçam
mais os autores potiguares. Em suma, eis o meu inventário. Modesto, raquítico,
dietético, extraído daquele casarão onde habitou tanto amor, enxugou muitas
lágrimas e perfumou sorrisos. Mas, ali tudo era assim mesmo: modesto, pobre,
sem ostentação. Era verdadeiramente a casa do povo e que se tornou da cultura
municipal, sem deixar de ser do povo. Não sei, mas sinto que há desígnio
superior em tudo isso.

(*) Escritor

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

 


PEQUENA ELEGIA RURAL 


nada como estar a sós com o passado
sobretudo à noite
entre árvores imersas em sonhos e reminiscências
cujas raízes procuram nas profundezas
a revelação do mesmo segredo
que acima busco nas estrelas


-  Horácio Paiva

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

 No Natal, Deus se faz criança 

Padre João Medeiros Filho 

Santo Antão, um anacoreta do século III, inspirado no Livro da Sabedoria (Sb 18, 14-15) escreveu: “Quando a noite estava no meio de seu curso, tudo parou e silenciou, porque nasceu um Menino, o Salvador da humanidade.” A retórica do presépio pretende mostrar que Deus não é severo, ameaçando nossas vidas. Ele surge no meio de nós como uma criança. E esta não julga nem condena. Deseja tão somente revelar a clemência e o afeto divino. A manjedoura de Belém sussurra-nos uma profunda mensagem de paz. Hoje, vive-se na civilização da incerteza e do medo, até mesmo de Deus. Talvez, nós ministros religiosos, tenhamos uma parcela de culpa. Por vezes, anunciamos mais o castigo divino do que o perdão, a benignidade e a ternura. Jesus se fez pequeno. É o Emanuel, Deus conosco. Não se pode esquecer as palavras dos anjos aos pastores: “Não temais, anuncio-vos uma grande alegria: nasceu para vós o Salvador” (Lc 2, 10). O termo empregado pelos arautos celestiais foi salvador e não juiz. O Natal cala-nos diante da simplicidade, bem como da benevolência infinita e celestial. Resta-nos dar lugar ao coração que sente, se compadece e ama. Não se poderia fazer outra coisa diante de um menino, sabendo que Ele é o Verbo humanado. Vale lembrar Fernando Pessoa: “Ele é a eterna criança, o Deus que faltava. Ele é o divino que sorri e que brinca. É a criança tão humana que é divina.” O Natal traz-nos uma permanente mensagem: importa muito o espírito de bondade, doçura que encanta, pureza enchendo a alma humana da inefável e enriquecedora graça sobrenatural. Na festa do Natal de Cristo, somos todos convidados a ver com os olhos da alma, do afeto e do coração. Não raro, somos frios e indiferentes. O Pequeno Príncipe já dizia: “Só se vê bem com o coração.” Santa Dulce dos Pobres mostrou-nos que o cristianismo é feito muito mais com o coração do que com sermões. Neste Natal, vamos resgatar nossa afetividade, deixar-nos comover com nossas crianças interiores, permitir que elas sonhem e nos encham de encanto diante do Menino Jesus. Este sentiu prazer e alegria, querendo ser um de nós. “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Tendo passado pela experiência de ter sido criança, Ele lançou aos discípulos o convite à infância espiritual: “Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3). Natal é isso também. Na liturgia natalina e do cotidiano da vida, o Eterno vem a nós para nos transformar em irmãos, mudar nossa noite em dia, proteger-nos dos perigos, iluminar nossa cegueira e fortalecer nossa fraqueza. Deus assumiu o homem, não obstante a sua infidelidade, a rejeição do Amor na aurora da humanidade. Um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado. Cristo se fez um como nós, porque quis ser para todos misericórdia e perdão. Portanto, “alegremo-nos todos no Senhor, pois nasceu para nós o Salvador” (Lc 2, 11). Desceu do céu para nós a verdadeira paz! O Natal é a resposta à utopia humana, à sua sede e procura inquietas. Em Cristo, Deus materializou todo o nosso sonho: tornar-se imortal, pleno de bondade, rico de benevolência, templo da justiça, fonte da verdade, berço do perdão e da paz. Jesus veio restaurar pela graça a humanidade, em sua beleza original e grandeza primeira da criatura, antes da triste realidade do pecado. O Natal é a convivência celestial nos caminhos da terra, a partilha da Vida divina com a existência terrena, o encontro do Eterno com o tempo, a Presença duradoura no efêmero dos homens. É o Criador decidindo habitar a terra. Destes sentimentos devem se revestir as festas natalinas. A todos desejamos um Natal cheio de graças e de Luz. Precisamos dela neste mundo – em especial no Brasil – rumo a um futuro incerto. Tenhamos fé, Deus indicar-nos-á também uma estrela, como a de Belém, a mostrar o caminho que nos leva ao Salvador. A todos um Natal pródigo de graça, alegria, saúde e paz! “E a gloria do Senhor nos envolva de luz” (Lc 2,9).

 EQUÍVOCO HOMÉRICO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

Nos anos noventa, o deputado Leonardo Arruda encabeçou um oportuno movimento na Assembleia Legislativa com o objetivo de tornar sem efeito o título de cidadão honorário norte-rio-grandense concedido a José Carlos Fragoso Pires. Léo, como advogado e regimentalista, procurou amparo legal para convalidar a iniciativa que teve o apoio da grande maioria dos parlamentares. Mas, o título foi entregue solenemente no plenário da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, com reservas. O então deputado e depois governador Robinson Faria, proferiu o discurso de praxe repleto de esperança e de visões desenvolvimentistas. De Macau, por terra e mar, desembarcaram delegações oficiais e privadas, todos entoando o hino da barrilha. No seu discurso, para justificar a honraria, falou que retomaria imediatamente o projeto de reabertura da Alcanorte. Todavia, notícias sinistras pairavam sobre o projeto. Comentou-se que o grupo empresarial estava dividido. Ou concentrava somente seus investimentos no Rio de Janeiro e não na Alcanorte, em Macau. A dúvida penalizou o Rio Grande do Norte. Não foi isso que ouvimos quando votamos o título honorífico. E a Alcanorte foi para o beleleu.

Para quem não se lembra, Fragoso Pires foi o empresário carioca/paulista que implodiu o projeto da Alcanorte. Dizem que lá em Macau o vigário ministrou até a extrema unção da polêmica iniciativa. Relembro os primeiros trovadores que cantaram a adolescente Alcanorte em verso e prosa: Antonio Florêncio, Tarcísio Maia para não citar outros. A Alcanorte foi mulher de muitos homens. Explorada em muitas cartas e discursos circunstanciais, ocasionais, para depois de seduzida ser logo abandonada. Hoje, virou carcaça na periferia de Macau, igual a tantas mulheres que ganhavam a vida com o suor de suas nádegas. O seu último caso foi com o industrial Fragoso Pires que a pediu em “casamento” e levou o seu dote de quinze anos de isenção de ICMS. Logo deixou de ser pública para ser privada. Mas o casamento não deu certo. O volúvel Fragoso, era homem de muitos casamentos e só no Rio de Janeiro tornou-se sócio de quinze empreendimentos diferentes. Enciumada, alquebrada, esquelética, a Alcanorte é tristemente lembrada na comiseração pública, através das frases carpideiras e lamuriosas dos seus amantes. Depois, falou-se no Pólo-Gás-Sal. Sim, o gás é nosso! Disseram que não poderia nascer morto no ventre como nasceu a refinaria de petróleo. Mas, ainda restava uma esperança. Ai entrou em cena o Pólo-Gás-Sal que se transformou num “bufa-gás”, aquele orfeônico equipamento inventado pelos cientistas de plantão lá do Planejamento do Estado.

Sentido-se enganada na sua boa fé e ultrajada, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte buscou uma sanção moral, um ressarcimento ou uma punição que fizesse delir da galeria honorífica dos grandes cidadãos do Rio Grande do Norte essa figura despicienda e de tão mau agouro. A intenção não logrou resultado.

E aí? Tudo virou naufrágio! Uma aventura na qual só um grupo levou vantagem. Nem Alcanorte, nem barrilha, nem porra nenhuma! Tá lembrado? É a mesma história da ZPE, da Algimar do conde de Sternberg ou senhor Carlos Raposo, Cerâmica Beatriz de Bernard Benayon e falam que vai aparecer agora um novo projeto: O “CAVACO CHINÊS”.

Rio Grande do Norte sem sorte onde o maior investidor é a Previdência Social. A paranóia do lucro fácil continua presidindo as ações. Não existe criatividade. Apenas, a infusão do medo, do ódio, do pesadelo. Não existe um líder que dê de si, sem trair a si, eis toda questão do senso político. Sem paranóia, sem passionalismo. O tempo só respeita o que constrói e não o que persegue.

(*) Escritor.



segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

 Estado brasileiro laico e religiosidade 

Padre João Medeiros Filho 

Talvez por desconhecimento jurídico, histórico e cultural, pessoas, grupos e instituições voltam-se contra manifestações e símbolos religiosos – mormente cristãos – presentes em órgãos ou espaços públicos. São objeto de contestação, críticas, ataques e polêmicas. O assunto é recorrente em discussões acadêmicas, legislativas e jurídicas. O advento da República trouxe a ruptura da Concordata entre a Santa Sé e o Brasil (vigente desde os tempos coloniais), ocasionando o fim do padroado e do catolicismo como religião oficial. Proclamou-se o estado laico, ou seja, separado institucionalmente da Igreja. O uso do termo laicidade, de forma inexata semântica, canônica e juridicamente, tem sido um dos argumentos contumazes em discussões e debates. Absurdo é considerar laicidade como oposição a tudo o que diz respeito à religião. Por princípio constitucional, o Estado brasileiro é laico e não laicista. São realidades distintas. A laicidade é a neutralidade ou independência do ente estatal no tocante à religião, jamais aversão ou exclusão da fé do seu povo. Isto chama-se laicismo, postura radical que nega o sentimento religioso. Laicismo inexiste em nosso texto constitucional. Assim, inaceitável é a visão excludente da religiosidade. Esta não se configura como antagônica ao Estado. Ao contrário, ela poderá contribuir para avaliar a concepção e os projetos de sociedade. Ontológica e culturalmente, a religiosidade cristã é inerente à nossa formação antropológica como nação. Integra os elementos formadores de nossa identidade nacional, ao lado de tradições e raízes indígenas ou africanas. Por mais que queira, ninguém conseguirá apagar ou modificar o passado. É indelével. Hoje, órgãos de Estado empenham-se em preservar traços e aspectos transmitidos por nossos ancestrais. Há leis específicas de proteção a elementos oriundos da afro-descendência e ameríndia. Paradoxalmente, tenta-se negar ou soterrar a presença cristã na genética de nosso povo. Ignorar esse fato é uma postura preconceituosa histórica e culturalmente. Há uma marca religiosa nas entranhas do Brasil. Incontestável é a religiosidade de sua gente. Esta precede o ente estatal, o qual tem por dever edificar e manter uma sociedade equânime, justa e solidária. O povo é a razão de ser da instituição sócio-política, na qual está inserido. O Estado tem por objetivo o bem comum da nação, preservar seus legados culturais e respeitar os princípios de justiça, verdade, harmonia e paz. Portanto, não é correto – filosófica, jurídica e ideologicamente – considerar como opostos e inconciliáveis: Estado e Religião. A distinção é necessária e benéfica para não incorrer em ambiguidades indevidas, injustiças ou concessão de privilégios a determinado credo. Nos parlamentos, se os membros representam legalmente a população, detêm igualmente a obrigação de defender a religiosidade de quem os escolheu. O ônus abrange proteger a legitimidade e competência da religião, bem como momentos e contextos, locais e modos de expressar suas convicções. “Est modus in rebus”, escreveu o poeta latino Horácio em suas “Sátiras”, ou seja, há medida certa para cada coisa. De um lado, seria contraditório pensar o Estado como instância prestadora de serviço para o bem-estar da nação; de outro, discriminando a religiosidade, dimensão intrínseca e ontológica da brasilidade. Nenhuma entidade social ou partidária pode arrogar-se o direito de ser dona do Estado, a ponto de querer impor sua própria concepção ideológica ou religiosa. Tampouco, religião alguma deverá fazer o mesmo. São seres diferentes, apesar de vinculados à vida nacional. Deste modo, não se pode extirpar de nossa pátria elementos constituintes e intrínsecos, dentre eles, a religiosidade. Negam-se nossas origens, quando se parte de uma noção inexata e equivocada de laicidade. O Estado não deve ser confessional. Porém, não é ético, justo e intelectualmente honesto, excluir culturalmente o cristianismo do DNA do país. Se assim pretendem defensores dessa teoria, deverão repensar e abolir outros componentes que também constituem a identidade brasileira, protegidos por diplomas legais. É uma questão de dignidade, coerência e lógica. A religiosidade do ser humano não é maléfica. Dizia o teólogo Angelus de Silesius: “Como viver sem Ti, ó Senhor? Pouco importa teu nome: Clemência, Pai, Ternura ou Amor. És nossa luz, alegria, esperança, refúgio e paz!” Importa citar o salmista: “Feliz a nação, cujo Deus é o Senhor” (Sl 33/32, 12).

 

ORIGENS E SÍMBOLOS DO NATAL

Padre João Medeiros Filho

I HISTÓRIA

Segundo a maioria dos historiadores, a celebração do Natal de Cristo remonta ao ano 440, quando o Papa Leão I (São Leão Magno) instituiu a missa In Nativitate Domini. Não há registro cronológico da data exata do nascimento de Jesus. O dia 25 de dezembro é a sacralização ou cristianização de algumas festas pagãs que aconteciam junto aos povos ocidentais e orientais, especialmente romanos, gregos e egípcios, mormente nos países banhados pelo mar Mediterrâneo. Dentre elas destacaremos as seguintes:

1 Saturnaliae

Em Roma, eram famosas as Saturnaliae (ou Saturnais) em homenagem ao deus Saturno – versão romana do deus Cronos. De acordo com as lendas e a mitologia, Saturno era uma divindade romana. Uma vez destronado por Júpiter, fugiu para a Ausônia (Itália). Segundo a crença pagã, reinou durante a Idade de Ouro do Império Romano. E em memória desse reinado benéfico, realizavam-se no início do inverno as festividades Saturnais. Nessa oportunidade, ficavam suspensos os serviços públicos, declarações de guerra e execuções de criminosos. Os amigos trocavam presentes e os escravos adquiriam liberdade momentânea. As árvores eram enfeitadas para que brilhassem durante a noite. Tocava-se e cantava-se em agradecimento a Saturno, o deus da simetria, fartura e vida. No seu reinado, havia paz e harmonia, concórdia e fraternidade. Assim expressa-se o poeta latino Virgílio: Iam redit et Virgo, redeunt Saturna regna: (Eis que a Justiça está de volta, retorna o reino de Saturno). As Saturnais eram uma forma de lembrar o estado paradisíaco e obter graças e proteção de Saturno sobre os campos e a vida.

Por ocasião das Saturnais, acontecia um banquete onde todos se sentavam à mesa, servidos pelos senhores. A ceia tinha por intenção mostrar que, perante a natureza, todos os homens são iguais e que no reinado de Saturno os bens da terra pertencem a todos.

Podemos verificar que nas Saturnais havia vários aspectos que inspiraram a realidade da festa do Natal cristão. A Igreja nos ensina e a fé nos confirma que Cristo, o novo Adão de que fala São Paulo, veio instaurar um reino de amor, justiça e paz. O Filho de Deus se encarnou e nasceu para proclamar a nossa fraternidade e fazer com que todos se sentem à mesma mesa (Eucaristia) para um banquete servido pelo próprio Deus. Para os cristãos Cristo é o maior dom de Deus, presente divino para o mundo e em memória dessa doação celestial, somos animados a trocar presentes. Recebestes de graça, dai de graça (Mt 10, 8). Eis a sacralização ou cristianização de uma tradicional festa pagã. Com a vinda de Cristo, os romanos foram convidados a se reunirem não mais para celebrar um deus frágil, mas o Deus Eterno, do Amor e da Vida.

2 Hélios

De acordo com a mitologia grega, Hélios (O Sol) era filho de uma Virgem chamada Téia (do grego:  divina). É o deus da luz, conhecedor profundo de todas as mazelas do mundo, capaz de criar e secar, de apontar e cegar. Segundo a lenda, Hélios ganhou de Posídon ou Possêidon (Netuno) a cidade de Corinto, onde era adorado pelos seus habitantes, que propagaram para toda a Grécia a festa do deus Sol. No solstício do inverno (entre 22 e 25 de dezembro no hemisfério norte), os coríntios costumavam celebrar a festa do deus Hélios, onde se cantava e pedia que ele não se afastasse da terra e não reinassem as trevas que encobriam as cidades. Em geral, tais festividades tinham o seu clímax no segundo ou terceiro dia, ou seja, na data ou véspera de 25 de dezembro.

A Igreja, partindo da tradição e realidade pagã, deseja comemorar Aquele que é a Luz do Mundo, o Sol da Justiça e da Paz preconizado pelo profeta Isaías. Segundo a crença helênica, o frio e os rigores do inverno deveriam ser amenizados com a proteção de Hélios. Deste modo, o gelo da insensibilidade ou indiferença, do ódio e da violência deveriam, segundo a concepção cristã, ser destruídos ou amenizados por Aquele que aquece as nossas vidas e corações. Reza-se na sequência da missa de Pentecostes: Sol divino, aquecei as nossas almas. Segundo a mitologia grega, Hélios era considerado o “olho do mundo”, ou seja, aquele que tudo vê. Para os teólogos pelo mistério da Encarnação, Cristo é o olho de Deus no mundo dos homens. É muito mais do que um simples olho. É a presença divina no tempo. Entende-se melhor a representação iconográfica do “olho de Deus” no triângulo encontrado nos santuários de Schoenstatt. Não é sem sentido e simbolismo a lenda que afirma: quando o sol se põe, ele viaja para as entranhas da sagrada noite escura. Na verdade, quando o Cristo se ausenta da face da terra e do coração dos homens, temos trevas. Dizem-nos os relatos da paixão e morte do Filho de Deus que quando Ele expirou a terra se cobriu de trevas (Mt 27, 45). Cristo apresenta-se como sendo a Luz. Assim se expressou com bastante precisão: Quem me segue, não anda nas trevas (Jo 8, 12). Jung procurou descrever a trajetória de Hélios e o seu simbolismo: o herói se identifica com o sol, que nasce cada dia, isto é, imortal. Cristo é o Imortal, o Deus vivo e verdadeiro. Para o psicanalista suíço, a representação mítica é importante, pois Hélios retrata a força suprema do espírito e da alma, a verdade e o amor. Cristo é nossa fortaleza (Tudo posso naquele que me fortalece – Fl 4, 13), é a verdade (Eu sou o caminho, a verdade e a vida – Jo 14, 6) e o Amor (Deus é amor – 1Jo 4, 8).

3 Shesepuankh

Os egípcios cultuavam uma esfinge com este nome, que era a primeira a receber os raios de Ra-Herakheti, ou seja, o Sol vivo. Essa esfinge passou a ser cultuada por várias comunidades helênicas e da antiga Palestina como a Hieracoesfinge, que é a presença do deus Sol. Menos conhecida que as duas outras divindades e suas festas, o “rito do sol” é de grande importância para os egípcios, pois é o deus da fecundidade, da vida e do renascimento. Esse rito era celebrado no solstício do inverno, como súplica ao deus Sol para que não abandonasse a terra e não permitisse que os homens permanecessem nas trevas. Posteriormente, chamou-se de “festa da luz” como despedida da claridade, pois os dias hibernais são mais curtos do que as noites. A Igreja inspira-se nesses simbolismos incorporando à liturgia católica ideias e imagens, cristianizando a data, a festa e a tradição. Cristo é a luz do mundo (Jo 8, 12), como Ele mesmo se definiu e já profetizava Isaías: Brilhará para vós uma luz (Is 9, 2).

II SÍMBOLOS CLÁSSICOS DO NATAL

Da celebração de tais festas pagãs nascem o sentido do Natal e vários símbolos natalinos presentes na liturgia da Igreja, conhecidos e propagados até o dia de hoje.

a) A árvore de Natal

Nas Saturnais coloriam-se as árvores quase mortas por conta do gelo e do inverno inclemente. A Igreja ensina-nos que Cristo é a verdadeira árvore, símbolo da vida e da fecundidade, manifestando e comunicando a vida em qualquer situação. Assim é Jesus, que afirmou: Vim para que todos tenham Vida (Jo 10, 10).

Nos países tropicais, colocam-se árvores murchas com arranjos secos a nos sugerir uma reflexão indireta. O que está seco, não tem vida. Lembremo-nos da parábola da videira: Eu sou a videira, vós sois os ramos (Jo 15, 5). Portanto, sempre que estivermos longe de Jesus estaremos secos, pois só Ele é a Vida. Olhando os arranjos ressecados, peçamos a vida e condições para viver dignamente como filhos de Deus.

b) A ceia de Natal

A ceia natalina é também inspirada nas Saturnais, que lembravam a fraternidade. É o momento em que a família se reúne com alegria e amor renovados. Na hora da refeição todos estão unidos para dialogar. A ceia de Natal deve nos lembrar que nosso verdadeiro alimento é Jesus, Filho de Deus que estamos festejando. Em Cristo nós nos fortalecemos e temos a vida. A ceia natalina lembra-nos também uma outra, a última ceia de Jesus, onde Ele próprio se deu a nós como alimento para ficar conosco na Eucaristia.

Na ceia do Natal, costumamos colocar no centro da mesa uma vela acesa, para simbolizar Cristo que nos une em volta de si, que é a nossa luz.

c) A estrela

Nas festas pagãs procurava-se também reproduzir nas árvores e nas casas o brilho das estrelas e do sol. Sabe-se que no nascimento de Jesus, de acordo com o relato dos evangelistas, especialmente Lucas, apareceu no céu uma grande estrela. Os magos que vieram do Oriente à procura do Menino foram guiados por esta estrela até Belém. Tinha quatro pontas (lembrando a forma da cruz) e uma calda luminosa. As pontas representam as quatro direções da terra, norte, sul, leste e oeste, para as quais Cristo deve ser luz e de onde devem vir todos homens para adorar a grande Luz, o Filho de Deus. Jesus Cristo é nossa estrela, que aponta o caminho de nossa vida e quanto mais nos aproximamos da sua luz, também seremos luz e estrela, guiando outros ao encontro de Deus. Vós sois a luz do mundo (Mt 5, 14).

d) O presépio

Os historiadores da Igreja relatam que a representação do nascimento de Jesus – seguindo-se os relatos bíblicos – começou por volta dos séculos VII e VIII. Entretanto, a mais famosa delas foi de autoria de São Francisco de Assis, que se celebrizou no mundo inteiro como idealizador do presépio. O Santo dos pobres encontrava-se na cidadezinha de Greccio, na Itália central, no ano de 1223. Estando em uma ermida próxima a um bosque, teve a inspiração de encenar, na noite de Natal, o momento do nascimento de Cristo, que, segundo o Evangelho, é Deus que se fez homem para habitar entre nós e salvar a humanidade.

Assim, os amigos de Francisco levaram animais ao bosque e algumas pessoas interpretaram Nossa Senhora, São José, os pastores e os Reis Magos.

Até hoje, Greccio é conhecida como a “Belém italiana” por ter sido palco do primeiro presépio. Desde então, a representação visual do nascimento de Cristo se tornou, cada vez mais, símbolo do Natal.

Pode-se dizer que o presépio, apesar de sua origem e inspiração bíblica, lembra igualmente a tradição romana onde se realizavam encenações em homenagem ao deus Saturno.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

 O PERIGO ESTÁ NO TOM

 

Valério Mesquita

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Diante da vida comum em Natal, ninguém pode fugir ao hábito da ironia, da tendência do sarcasmo e da aversão a tudo que é medíocre, vulgar e chato. A primeira futilidade pública é o escandaloso delírio das torcidas do paupérrimo futebol potiguar, todas endiabradas e ensandecidas pelas ruas, fazendo vítimas inocentes e depredando patrimônios. Antigamente, as paixões populares assumiam o encanto e o canto da luta social, política, cívica, com formas e cores mais puras e emocionais. Agora, não. São meras caricaturas e badernagens para os boletins de ocorrência das delegacias de plantão.

É um tempo trágico e cômico, mais parecido com um castigo divino, recheado de assaltos, insegurança, onde a paz do coração foi substituída pela paz dos túmulos. Sobre todos esses vândalos caberia dizer que “o diabo não os desampare e Deus que nos ajude”.

Sabem que tudo na vida é relativo e passageiro. No futebol, na política, no comércio, na indústria, nas profissões liberais, “tudo o que sobe, cai”, já dizia Sandoval Quaresma olhando pra braguilha. O que vai bem, afinal? O trânsito em Natal? No Rio Grande do Norte já ultrapassa a casa de um milhão e meio de veículos. Semana passada, desabafei que a maioridade penal deveria descer para os 14 anos. Depois, li que alguns juristas são contrários até a queda para o patamar de 16 anos. Acham que tudo deve ficar como está. O problema é a educação dos jovens. No momento da entrevista esqueceram que essa prenda pedagógica se encontra falida há décadas. Na rede pública escolar aluno enxota professor da sala de aula, quando não depreda, agride ou mata.

O problema é que nesse tempo apocalíptico a humanidade se esqueceu do mais humilde e simples ensinamento: “amai-vos uns aos outros”. Tudo foi desviado para outro tipo de amor, estimulado pelo mais poderoso cartel de perdição e transtorno de conduta: as novelas, os filmes, a internet, enfim, só para apagar as letras de um livro chamado Bíblia. Porque o que Deus ensinou, a legislação mundana contrariou, profanou, modificou para gáudio de suas ambições, vaidades, corrupção e degenerescência. Droga, impunidade, violência, polícia prende e justiça solta, são coisas do homem que avacalham a cidadania e o gosto pela vida.

Não acredito que o mundo melhore. Certa vez, Barack Obama falando da tribuna da Casa Branca elogiou um jogador de basquetebol do seu país porque teve a coragem de assumir o seu homossexualismo. Será que os presidentes da Rússia, Alemanha, Brasil, China, ou os primeiros ministros da Inglaterra, Espanha, Portugal, etc., prestariam tal informação sobre qualquer pessoa, notável ou não, do respectivo país, como apologia ou um exemplo a ser seguido ou compreendido? Com tantos enfrentamentos da pandemia, péssimos políticos, terroristas, crise econômica, que hora a sua nação atravessa, não precisava, à guisa de colher simpatias, propagar a decisão emblemática do jovem atleta como modelo a ser inserido na rede de ensino infanto-juvenil estadunidense e para todo o planeta. O mundo vai mal. Estão melando tudo. O Brasil, dizem não ser um país sério. Que o diabo não ampare governantes assim e que Deus nos ajude.

Mas, o perigo está também no clima, na elevação das temperaturas, nas erupções repentinas dos vulcões, nas chuvas exageradas e contínuas, no abrasamento do solo, na sequidão dos rios amazônicos, tsunamis e até no ingresso de político, senador, deputado no templário maior da justiça no país!

(*) Escritor.