quarta-feira, 25 de outubro de 2023

 ALZIRA SORIANO E A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DA MULHER BRASILEIRA

A lei propiciou a eleição da prefeita Alzira Soriano e também, das primeiras intendentes que desempenhavam funções similares a um conselho de vereadores.

17/10/2023 às 10h11
Por: Adrovando Claro
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ALZIRA SORIANO E A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DA MULHER BRASILEIRA

Ana Amélia Fernandes de Lucena (*)

 

 

No início do século XX, a concepção da mulher como cidadã, politicamente emancipada, era tema de reivindicação e de conquistas em países como Suécia, Dinamarca, Noruega, Estados Unidos e Inglaterra. No Brasil, coube ao Estado do Rio Grande do Norte, em caráter pioneiro, conquistar para a mulher o direito legal de votar e também de ser votada. A reivindicação das feministas lideradas por Bertha Lutz, teve, no deputado e candidato ao governo do Estado do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine, um apoio inusitado, contrariando o que já tinha se tornado consenso de grande parte de legisladores e de administradores no país.

José Augusto Bezerra de Medeiros, Governador do Rio Grande do Norte na época em que foi sancionada a Lei, relatou o seguinte o seguinte argumento com o então Deputado Federal Juvenal Lamartine diante da sua incredulidade -É perfeitamente constitucional. A Constituição fala apenas em cidadãos, não distinguindo se homem ou mulher; de modo que a mulher tem tanto direito quanto o homem. Então por que o homem vota e a mulher não vota? Diante deste argumento processou-se e ele como Governador, sancionou a Lei.

Estava admitido o voto feminino através do trabalho do Deputado Federal Juvenal Lamartine e da apresentação realizada pelo Deputado Estadual Adauto Câmara. E do governador José Augusto consagrou-se o seguinte depoimento: Foram as mulheres do Rio Grande do Norte as primeiras a votar no Brasil. E ainda posso acrescentar o seguinte: fui a primeira pessoa votada por mulher no Brasil, graças a essa iniciativa de Lamartine.

De fato, em plena campanha política para ser eleito Presidente do Estado do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine já questionava a possibilidade da mulher brasileira ser eleitora com base na Constituição então vigente (1891), e, respaldando-se  no argumento de que competiria, também,  ao Estado-membro legislar sobre direito eleitoral, conseguiu que constasse no artigo 77 da  Lei  660 de 25 de outubro de 1927 que:  No Rio Grande do Norte, poderão votar e ser votados, sem distinção de sexos, todos os cidadãos que reunirem as condições exigidas por esta lei.

Foi assim que a demanda para as inscrições do eleitorado feminino não se fez esperar e, desta forma, ainda em 1927, Celina Guimarães Viana, em Mossoró, RN e Júlia Barbosa em Natal, RN, entraram para a História como as primeiras eleitoras do Brasil. As eleições se processaram em setembro de 1928. A lei propiciou a eleição da prefeita Alzira Soriano e  também, das primeiras intendentes que desempenhavam funções similares a um conselho de vereadores, como foi o caso da professora Joana Cacilda de Besser, que fez o seu  alistamento eleitoral no município de Pau dos Ferros,  em 28 de dezembro de 1927, vindo a ocupar neste mesmo município, esse cargo. Em 1935, Maria do Céu Fernandes foi eleita Deputada Estadual, dando ao Rio Grande do Norte, o título de primeiro Estado a eleger uma mulher para a Assembleia Legislativa.

A onda de adesão teve o apoio dos cidadãos norte-rio-grandenses de uma forma geral, demonstrando a seriedade da proposta e a confiança que já se fazia sentir pelo desempenho da mulher na administração pública. Prova deste consenso está no fato irrefutável de terem sido eleitas. Porém, como não seria de se estranhar, em termos nacionais, a conquista da mulher, com apoio dos políticos e legisladores no Estado do Rio Grande do Norte, foi também motivo de galhofa. Era comum se encontrar em pasquins da época, de circulação     nacional, charges ironizando o voto feminino (deixaria de ser secreto?...) e também sobre o forte poder de atração exercido pelo governador Juvenal Lamartine sobre o sexo feminino.  O jornal O Malho do Rio de Janeiro, pródigo em charges humorísticas sobre a adesão de Lamartine à causa feminista ironizava o poder que as mulheres passariam a usufruir, invertendo valores relacionados com os que eram até então consignados apenas ao sexo oposto.

Edgar Barbosa ao se referir ao voto feminino em todo o território brasileiro observa o seguinte:  As Constituições que se seguiram à Revolução de 30 legitimaram a participação da mulher na concorrência política e segue relacionando exemplos tais como a de 1934 (o art. 109 inclui a mulher como obrigada a se alistar e a votar, no caso de esta exercer função pública) e as subsequentes, que consagraram o direito do voto feminino. É também de Edgar o  elogio do feito norte-rio-grandense.

Alzira Soriano, mulher decidida, de temperamento forte e com uma inteligência privilegiada, ao chegar no cargo de Prefeita era investida também da primazia de se tornar a primeira mulher a exercer um cargo na administração pública municipal, no Brasil. O mais importante do seu feito é o fato de também ter demonstrado que a oportunidade que lhe foi   repassada se fundamentava na sua capacidade e na sua idoneidade. Seu discurso de posse e a entrevista que deu ao jornal O Globo são testemunhos de sua percepção sob a responsabilidade que passava a receber diante de si mesma, diante da luta internacional pelos direitos da mulher e diante do seu povo:

 

Não me prevalecerei do cargo para fazer favores a amigos e ainda menos para negar justiça a adversários. Não abusarei dele para obter proventos seja qual for a natureza destes. O infortúnio do meu estado civil ensinou-me a trabalhar e a viver modestamente com honra, e não trocarei jamais a calma da consciência e altivez da mediania por vantagens mais ou menos suspeitas que pudesse auferir da função pública.

 

A sua administração foi marcada também por aspectos inovadores como a convocação de intelectuais do Estado para um quadro de Secretários que a ajudassem a intervir em áreas tais como estradas, educação, urbanização e saúde. Quando se considera que no ensino formal teve apenas o básico,  depreende-se que na sua formação o grande papel adveio da sua experiência de vida, como, por exemplo, no aprendizado político com o seu pai;  com  o seu marido, o Promotor Soriano, na curta  convivência devido o seu falecimento em 9 de janeiro de 1919, após o quarto ano de casamento, vítima, aos 29 anos, da gripe espanhola, deixando-a grávida; com o seu sogro, em Recife, após a viuvez,  e com  a leitura e os contatos com  pessoas ligadas à movimentos políticos  e minoritários. Sua vida é uma demonstração de que a sua inteligência, aliada à sua experiência, acumularam sabedoria e determinação.

Nasceu em 29 de abril de 1896 em Jardim Angicos, RN, sendo seus pais Miguel Teixeira de Vasconcelos e Margarida Teixeira de Vasconcelos. Morreu em 28 de maio de 1963 aos 67 anos de idade, vítima de um câncer. Sua terra natal, Jardim de Angicos perdeu a emancipação em 1914 e passou a ser distrito de Lajes em razão do crescimento deste município por causa da passagem da via férrea. O desmembramento só se processou em 1962, pela Lei número 2.755 de 8 de maio de 1962 no Governo de Aluísio Alves.

O nome Soriano, veio do seu casamento em 29 de abril de 1914, data em que completava 18 anos, com o  Promotor, Dr. Thomaz Soriano de Souza Filho que a deixou viúva aos 22 anos. Do seu casamento teve as filhas Sônia (1915), Ismênia (1917) Maria do Céu (1918 - faleceu com um mês) e Ivonilde (março de 1919) que nasceu meses após a morte do pai. Esta última reside em Jardim de Angicos preservando a história e a casa onde residiu com sua mãe e que nos deu esta entrevista e acesso ao seu acervo iconográfico. Atualmente, vem mantendo contatos para dar início ao processo de tombamento e de organização de um Memorial.

Alzira foi Prefeita aos 31 anos. Seu pai foi um homem considerado como grande político da região central do Rio Grande do Norte. A participação de Alzira chamou a atenção da advogada feminista Bertha Lutz quando, em companhia do então governador Juvenal Lamartine, visitou Lajes, influenciando-o na indicação de uma mulher para governar o município.

O caderno Cidades do jornal “Diário de Natal”, no artigo “Memória: Alzira Soriano, o centenário da primeira prefeita do Brasil” (DN: 28.04.1996) faz referência à grande repercussão desta eleição: “O fato de ser a primeira mulher prefeita do Brasil e da América Latina, fez com que os jornais do  mundo inteiro noticiassem o acontecimento, tornando Alzira Soriano bastante conhecida e festejada (...)  Importante também é o destaque que se dá à sua gestão, como tendo sido  de grande  competência e integridade:

 

          Com o fim das comemorações pela vitória, a prefeita Alzira Soriano partiu para fazer uma administração que chamava a atenção pela organização, tratando logo de nomear secretários e solicitou do governador a ajuda de escriturários do Estado para os trabalhos administrativos. Com uma receita de 60 contos de réis, marcou seu mandato com a construção de novas estradas, mercados públicos distritais, escolas e iluminação (DN, 28.04.1996).

 

 Esta norte-rio-grandense tornou-se um exemplo para o movimento feminista do país, pela sua inteligência e pela sua determinação. Sobre a participação da mulher e em especial sobre Alzira Soriano, a bióloga e líder feminista Bertha Lutz, declarou no Jornal A República de 2 de dezembro de 1928:

 

... O acontecimento mais notável foi a eleição da Sra. Alzira Teixeira Soriano, para prefeita de Lages. É uma mulher inteligente, enérgica, com larga capacidade administrativa e prática, jovem independente e digna. Considero a eleição de elemento como este uma abundante recompensa de todo o trabalho despendido por mim, em dez longos anos em prol da causa feminina, pois constituem uma garantia sólida da continuidade da campanha sociológica que tive a honra de iniciar. 12

 

No mesmo depoimento Bertha Lutz faz alusão à primeira organização eleitoral feminina, a Associação de Eleitoras Norte-rio-grandenses criada com o objetivo de “propiciar a educação cívica do eleitorado feminino, o preparo da mulher para a participação na vida pública e a colaboração prática e administrativa nas medidas de alcance social.”

Com a revolução de 30 e a consequente deposição de todos os governantes, Alzira Soriano destacou-se ao recusar, do Governo que se instalava, a oferta para se transformar em “Interventora Municipal”. Tornou-se, portanto, “a primeira mulher a ser defenestrada do Poder, com a perda do mandato ganho nas urnas...” (DN, 28.04.1996).

Anos mais tarde, em 1945, Alzira Soriano volta à vida pública, candidatando-se à   vereadora, tendo sido reeleita mais duas vezes consecutivas. Liderando a bancada da UDN, chegou à presidência da Câmara por mais de uma vez. A sua coerência passava também por gestos destemidos: conta-se que após a sua deposição, ao escutar de adversários insinuações depreciativas sobre o uso da força e do açoite, na sua gestão e, consequentemente na do governador Lamartine “o tempo da virola acabou!... Alzira Soriano esbofeteia o oponente e responde que “braço de mulher não tinha se acabado não”. E complementaríamos, que o seu exemplo também não. Alzira Teixeira Soriano motivou e encorajou mulheres, foi tema de estudo em escolas de outros países – sua filha Ivonilde conta que ela se correspondia até com estudantes franceses que ficaram impressionados com a sua  experiência – quebrou preconceito e, acima de qualquer diferença de gênero, deixou o exemplo de capacidade administrativa e  probidade na conduta política.

 

(*) Socióloga e pesquisadora

Síntese de um texto original publicado no Jornal O GALO, Ano XII, No.3- março, 2000- Natal, RN

 

terça-feira, 17 de outubro de 2023

 Padre João Maria, o “Anjo de Natal” 

Padre João Medeiros Filho 

No dia 16 de outubro, o Rio Grande do Norte comemora a vida em plenitude de um de seus ícones religiosos: Padre João Maria Cavalcanti de Brito. Nasceu aos 23/06/1848 na Fazenda Logradouro, outrora no município de Caicó, hoje pertencente a Jardim de Piranhas. Concluiu o curso teológico no Seminário da Prainha (Fortaleza), onde foi colega de turma dos padres Cícero do Juazeiro e Sebastião Constantino de Medeiros (o qual governou o bispado de Olinda, quando da prisão de Dom Frei Vital Gonçalves de Oliveira). Posteriormente, Padre Sebastião tornou-se jesuíta, sendo o primeiro professor brasileiro da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. No Seminário de São Pedro em Natal, havia uma pintura de Moura Rabelo, retratando Padre João Maria. O quadro exibia o sacerdote em frente a um casebre, socorrendo os carentes da paróquia. Era realmente uma figura carismática, que nos remete à Primeira Carta aos Coríntios no capítulo 13, parafraseado por Dom Helder num belo texto: “Se eu possuísse a melhor casa de minha rua, a melhor roupa, sapatos da moda, e não me lembrasse de que sou responsável pelos que passam fome na minha cidade, andam de pés descalços e se cobrem de trapos, seria apenas um manequim colorido. Se eu passar os fins de semana em festas sem lembrar das doenças e miséria, sem escutar o grito abafado do povo que se arrasta à margem da vida, não sirvo para nada.” O cristão não deve fugir dos desafios de seu tempo nem se desesperar diante das dificuldades. “Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro sempre encontrado nos perigos” (Sl 46/45, 1). Padre João Maria continua a encantar os fiéis. Seu exemplo de vida é um convite a uma postura despojada, voltada para valores éticos e evangélicos, distante de interesses mesquinhos e desprovidos de solidariedade. O “Anjo de Natal” ensinou-nos que a caridade afasta o medo e abraça os infelizes e sofridos. Há mais de um século, o “Amigo dos pobres” viveu profundamente o mandamento maior do Amor. Sua imagem mantémse viva na memória de muitos. Apesar de não ter sido ainda canonizado, foi elevado pela fé e devoção popular à honra dos altares de nossos corações e reconhecimento do povo. Suas virtudes e santidade – marca da presença de Deus em sua vida – suplantam os meandros burocráticos. Ninguém conseguirá aprisionar a graça divina e a força da fé. Durante a pandemia da Covid-19, seguindo as orientações pastorais (como profilaxia), os fiéis se abstinham de dar as mãos na oração do Pai Nosso e nos cumprimentos da paz. Distribuía-se a comunhão na mão dos comungantes. Contudo, a fé do “Apóstolo da Cidade” e a dedicação aos seus semelhantes foram mais fortes do que o temor da peste. Socorreu irmãos contaminados pela varíola, cólera e outras doenças infectocontagiosas, que grassavam pela Natal do final do século XIX e início do século XX. Seguiu Cristo, que se apiedou dos cegos, coxos, paralíticos e acometidos de tantas enfermidades. Viveu o exemplo de São Francisco de Assis e São Damião de Molokai, que cuidaram dos leprosos e marginalizados. Padre João Maria enfrentou as epidemias, imbuído das palavras de Cristo: “Prova de amor maior não há que doar a vida pelos irmãos” (Jo 15, 13). O sacerdote, pai dos desvalidos e enfermos, chegava a cortar a batina que vestia, transformando os pedaços da veste clerical em ataduras para as feridas de seus irmãos. Certa feita, encontraram-no caído no chão, extenuado, após preparar mingau e sopa para os empesteados. Um dos cânticos da Campanha da Fraternidade de 1974 lembra-nos a sua caridade: “Onde sofre o teu irmão, eu estou sofrendo nele.” O “Apóstolo dos pobres” viveu o ensinamento do Mestre: “Estava doente, e cuidaste de mim” (Mt 25, 35). Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, outro apóstolo da caridade, definiu Padre João Maria como o “Colo de Deus para os esquecidos e sofridos.” Que lá do Céu, ele ilumine também o nosso novo arcebispo, que nos albores de seu ministério episcopal depositou flores no busto do “Anjo de Bondade”, sempre glorificado no templo da gratidão de seus devotos. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão a misericórdia de Deus” (Mt 5,7).

 

VOCÊ É AQUILO QUE APROVA

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

As minhas sensações se revezam depressa. Por mais que me esforce, não consigo me fixar em coisa alguma. Se penso ou sinto algum tema, deduzo que tudo será esquecido e me calculo inútil. Esse prelúdio indefectível talvez chegue a algum lugar. Gostaria de denunciar, por exemplo, aquilo que muitos já fizeram: a deterioração institucional do país que teve quebrados todos os padrões éticos e estéticos. A fragilidade e a inoperância dos poderes se tornaram tão patentes que já se comentam medidas autoritárias. Continuo pensando que é preciso urgentemente humanizar o político brasileiro. Ele mesmo animalizou os seus traços.

Quando me apetece voltar a suplicar às autoridades públicas e privadas a restauração do empório dos Guarapes, onde o pioneiro e gigante desbravador Fabrício Gomes Pedroza ambientou um dos maiores domínios comerciais de que se tem notícia no estado, recebe-se em troca repetidamente a leniência e a indiferença. Ai eu indago: pra que escrever mais? Pergunto-me se não estou me transformando em esteta contemplativo com uma tendência zen. Mas, continuarei lutando porque não é apenas um impulso da mente nem do corpo. Os “Guarapes” representam para aqueles que o ignoram, o equilíbrio entre a beleza e o passado.

Falar, por exemplo, das poças profundas de sangue que fluidificam a área metropolitana da grande Natal. Nela a juventude continua sendo executada nas ruas pelo cartel das drogas. Sinto que falecem os dons que me ligam a Macaíba, hoje, tão irreconhecível a ponto de não me rever mais em suas paredes e praças. A fuga é dormir à distância, debaixo de qualquer céu, como diria o poeta. Minha terra padece de uma enfermidade física, orgânica, urbana, suburbana, sensível, visível, palpável chamada “comércio de droga” que tem escravizado e mutilado suas melhores tradições.

Poderia até discorrer sobre as opiniões e posturas dos políticos potiguares repletas de privilégios para si contra os servidores públicos, todos num beco sem saída. Os efeitos especiais empregados são improvisados. E parece que não há pressa em definir situações. Tudo deve ser queimado sub-repticiamente a fogo lento. Tem gente gastando anos luz para compor o arquipélago da obra de chegar ao poder queimando incenso no velório da própria falência do poder público. Na política, sabemos que acidentes e incidentes nunca surpreenderam ninguém. Todos têm rostos e máscaras. Trata-se de uma peça de teatro onde o fascínio é exibido em prosa e gestos fesceninos. Que importa tudo isso, se depois da tempestade todos se unirão novamente para começar tudo de novo? O palco será o mesmo. Só muda a idade.

E o pugilo da saúde pública nos hospitais da capital? Esse merece veemente repulsa. É um libelo à competência dos administradores. A situação deplorável me infunde a convicção de que ninguém mais se comove com a dor humana. O melhor homem é o homem morto. Vivo é desprezível. Doente e pobre, ele fede. Onde deveriam remunerar melhor, paga-se pior e se gasta menos. Hospital público é a antessala da morte iminente porque está desprovido das condições de higiene e serviços. Denunciar o estado de calamidade financeira não constitui falar apenas em atraso dos vencimentos mas assistir privilégios vergonhosos das elites. Lembro ao leitor que o ser humano coisificou-se. Deixou de ser carne inteligente. Hospital “lugar de repouso e cura”, virou empório do estado, verdadeiro guardador de rebanho, onde o pobre, sem nenhum plano de saúde, tem defeito de circulação do sangue no corpo à alma.

(*) Escritor.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

 

CONTANDO HISTÓRIAS DO MEU SERTÃO.
O crepúsculo já começara o seu flerte com a Dama da noite. O velho Góis, de forma pontual estava em festa natalícia de um de seus aldeões. Guinés nativos, moqueados em óleo queimado e torrados em panela de barro. Completava era, o velho Chico de Basta, correndo o decênio dos oitenta anos, curtindo o banzo de uma viuvez que já dista mais de dois anos, quando se fora para o além, Márcia de Chiquinha de Domingo dos Pedro Raimundo, sua esposa.
Chico de Basta, é neto do Velho Ramilo e Dina do Maracujá. Gente de sangue e linhagem dos Gonçalves, que aqui aportaram no início do Sec. XIX, nas terras do Riachão de baixo, Amparo pelo favo genético dos Batistas x Araújo, com a alcunha de Pedão, Carabodé, Eloi, e no Maracujá com a expressão da Matriarca Dina.
Mas, voltemos a festa natalícia de Chico de Basta. Que volta e meia falava de sua esposa Márcia de Chiquinha de Domingo. Uma história bonita e de muita cumplicidade. Chico de Basta, nos seus primeiros dezoito anos de vida, foram quase todos vividos na Fazenda Três Riachos, pertencente ao Velho Manoel Ambrósio e a matriarca Generosa. Disse Chico de Basta o aniversariante, que logo na idade tenra, tinha função naquele feudo dos Ambrósios: Toda hora de rancho: Almoço às 9:00 horas da manhã, janta às 15:00 horas e ceia às 19:00 horas. Dava cabo de velho, grande e pesado búzio, produzindo a sonoridade chamativa dos homens braçais, que acorriam à Casa Grande, como formigas velozes para forrarem suas barrigas.
Grassava a década de cinquenta, já com 22 anos de idade, deixa os Ambrósios, e vem morar no Góis, Casa de taipa. A dona da gleba, vez por outra, convocava o Chico de Basta, para pilar arroz em casca. O Dueto era completado com a jovem Márcia, mulher bonita, nova, disposta, a herdeira daquelas terras. As tarefas ocorriam de três em três dias, sobre uma porção de meia cuia de arroz. A sicronia das batidas, e os olhares frontais e harmoniosos não tardaram produzir, aquilo que os literatos chamam de “cio em cupido”. Paixão voraz, platônica, arrasadora. Mas, tinha um problema grande. Márcia era bonita, dona de semente de gado, filha da patroa dos pais de Chico. Chico, enamorado, com uma roupa feita de “arranca touco”, batendo e vestindo, sem teréns para sobreviver, quanto mais para pagar o dote. Descoberto o romance, que entrava de noite à dentro, porém, sem as carnes tremerem. A futura sogra dar as contas do enamorado.
Mas, que depressa, Chico de Basta, corre até o atelier de um artesão da arte de vestir, Luiz Eloi de Souza, o velho troxote, e entrega seis metros e meio de fazenda, para a confecção da roupa de casamento. Na data do casamento, teve direito a ir de carro de passeio preto, do velho marinheiro Saldanha, com chofer de nome Padre Eterno.
Falecida há dois anos, Dona Márcia deixara seu retrato com um perfil de uma das moças mais bonitas dessa ribeira e muito roer do Velho Chico de Basta. Parabéns, Parente velho, pelo natalício, e por continuar sendo o eterno namorada de Márcia. Se você pilou duzentas cuias de arroz olhando para ela, tenho certeza que hoje, se ela voltasse, bateria mil.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

 A NUDEZ DA SOLIDÃO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Existe uma doutrina defendida pelos monges trapistas do Tibet – até hoje não superada –  de que ninguém administra sozinho. E uma corrente mais ortodoxa complementa: não se ganha eleição sozinho. No Brasil, desde 1947, os pleitos majoritários e democráticos que elegeram Getúlio, Juscelino, Jânio, Fernando Henrique, Collor de Melo, Lula da Silva, Dilma Rousseff e Bolsonaro, resultaram de uma miscelânea de partidos. Todos governaram (?) com as facções que davam suporte político, não apenas no Congresso mas também nos aluguéis dos ministérios. Os novos tempos da Lava a Jato e seus registros criminais sepultaram as disputas ideológicas além das político-partidárias. Abriu-se uma fenda abissal na cabeça do povo que sepultou imenso contingente de seletos malfeitores. Posturas de governos de cama e mesa morrem todo dia vítimas da inexorabilidade do tempo e do fastio do povo.

Levantando-se voo do aerofágico campo de aviação de Brasília, aterrisso no aeroporto Aluízio Alves. Logo na pista de pouso pergunta-se: pode um governante administrar o Rio Grande do Norte sem o apoio popular e com o silêncio do poder legislativo? Nesse quadro de incertezas costura-se o longo caminho de alianças partidárias, políticas, lotéricas, familiares, sindéticas, assindéticas, históricas e histéricas. Fica evidenciado que governo não pode ser de um homem só. E que a política nesse verão é um mar de naufrágios fatais. Para o povo, o político continua sendo aquele indivíduo fraco e defeituoso. E não somente ele, mas todos os poderes institucionais. A máquina estatal tem que diminuir de tamanho e extirpar os privilégios. Vai ter que poupar mais ou tanto quanto a mulher de Patufas que era tão econômica em todas as coisas, que, mesmo fazendo amor, poupava o gemido.

A preocupação hoje é com a voz rouca das ruas para que não se torne amanhã uma bronquite pneumônica. É quando o verbo votar passar a ser intransitivo e irrefletido. Dir-se-á que os políticos abominam mudança eleitoral. O sufocamento da verdade e da transparência nessas transações eleitoreiras, eles consideram um charme e não uma feiura, uma paranóia, tal o corporativismo. No Rio Grande do Norte há um cheiro de pólvora no ar. As aparências não enganam. Vultos furtivos, à espreita, preparam escaramuças. Mãos anônimas tecem fios de discórdia. Há muita vaidade em jogo. A praça 07 de Setembro lança labaredas mais altas que as torres da telefonia celular lá nas dunas que serpenteiam Natal. A meu ver, a aliança da governabilidade está trincando. O compadrio do poder deixa escapar surdos gemidos e não nega, sequer, as flatulências. A temporada gastronômica que precede os abalos sísmicos da política estadual já começou. Querem almoçar bacurau ao molho pardo. E numa churrascaria um grupo de partisans pediram tucanos ao vinagrete.

O fato é que os observadores da cena política, mesmo sendo dezembro um período natalino, estão se surpreendendo sem razão. O ano da graça de 2024 está às portas. Aqui, hoje, sorrisos punhais escondem. Nessas incertezas, se outra for a leitura é porque tá todo mundo enrolando. E a sucessão governamental? Li numa coluna de estudos científicos que a seca no Rio Grande do Norte possui um estranho desígnio de engravidar os partidos políticos. As alianças repentinas sem uso de preservativo podem produzir efeitos deformadores. Estudiosos no assunto já classificam a promiscuidade política como transtorno de conduta. E se ocorrer inverno no início de 2024, a sua fúria pode romper adutoras e até velhos compromissos que não são eternos. Por enquanto, disse-me um prefeito, que “é melhor sofrer no poder do que longe dele”. Lembre-se o gestor público que o verdadeiro dono do mapa da mina é o povo.

(*) Escritor.



segunda-feira, 2 de outubro de 2023

 


Os 103 Anos De Nascimento De Vingt-Un Rosado Maia

Se vivo fosse, hoje, o professor Vingt-un Rosado Maia, estaria completando 103 anos de nascimento. Mas há dezoito anos ele partiu para outro plano. E apesar de todos esse tempo, sua presença continua viva na memória de todos aqueles que tiveram o privilégio de sua convivência. Eu fui um desses privilegiados. Por cinco anos fiz parte do seu círculo de amizade e me tornei seu discípulo. Eu, que vim de outra cidade, passei a amar essa terra por ele denominada de “Pais de Mossoró”, e a divulgar a sua história e a saga do seu povo. Em 25 de setembro de 1920, num dia de sábado, nascia em Mossoró, num velho casarão da Rua 30 de Setembro, Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, sendo filho do patriarca Jerônimo Rosado e dona Isaura Rosado Maia. Era o vigésimo primeiro filho de uma família numerosa e numerada, como ele mesmo gostava de dizer, já que seu nome vem exatamente da sequência à ordem numérica francesa dos nomes que Jerônimo Rosado dava aos filhos. Teve uma infância normal, de brincadeiras telúricas, embora dando a impressão de ser um pouco contemplativo. Desde cedo se dedicou aos empreendimentos intelectuais, preferindo acompanhar a atividade do irmão mais velho, Tércio, filho do primeiro matrimônio do seu pai, que era um homem culto, poeta, amante dos livros e pioneiro do cooperativismo no Estado. E foi ainda na juventude que começou a cultivar o gosto pelos livros e pela pesquisa histórica. Na adolescência atuou como bibliotecário no Colégio Santa Luzia. E esse gosto pelos livros o acompanharia durante toda a sua vida. Em 1940 partiu para Lavras/MG para estudar agronomia. Lá chegando, o seu envolvimento com os livros, as letras e a pesquisa tornaram-se mais intensa. Nesse mesmo ano, com apenas 20 anos, publicou o seu primeiro livro, que recebeu o título de “Mossoró”. Concluindo o curso em novembro de 1944, voltou para Mossoró para desenvolver atividades junto à empresa familiar que atuava na área de exploração de gesso e paralelamente começou a desenvolver um trabalho no campo cultural, que culminou com a criação da Coleção Mossoroense. Apesar de pertencer à tradicional família de políticos que comanda Mossoró por gerações, preferiu enveredar mesmo pelo caminho da cultura. Na verdade, chegou mesmo a disputar dois cargos eletivos. A primeira vez candidatou-se a Prefeito de Mossoró, perdendo por uma margem de 0,4% em 1968. Em 1972 elegeu-se vereador com a maior votação proporcional da história de Mossoró, até aquela data. Mas foi mesmo na área cultural que se destacou, tornando-se ícone da cultura local. Mesmo não se dizendo escritor, mas “copiador de papéis”, deixou um legado de mais de 200 livros, que foram de antropologia ao estudo das secas. Como convocado de guerra em 1945, sofreu uma punição por transgressão disciplinar, ficando detido na cadeia da Companhia Escola de Engenharia de Ouro Fino/MG, por 15 dias. O motivo da pena foi ter fugido para encontra-se com sua namorada, América Fernandes Rosado, que seria sua companheira por toda a vida. Segundo um depoimento do próprio Vingt-un, ao terminar a carreira militar, o seu comportamento foi considerado insuficiente. Vingt-un esteve sempre presente em várias frentes de atividade cultural, tanto no município como no Estado. Foi professor fundador de três faculdades e idealizador da Universidade Regional do Rio Grande do Norte, hoje Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Foi fundador e duas vezes diretor da Escola Superior de Agronomia de Mossoró, hoje Universidade Federal Rural do Semiárido e professor Honoris Causa da UERN. Integrou o Conselho Estadual de Cultura, foi membro de quatro Academias em dois Estados da Federação, tendo sido criador e ex-presidente de duas delas, a Academia Norte-rio-grandense de Ciências e a Academia Cearense de Farmácia. E aqui eu abro um parágrafo para lembrar um fato importante na minha vida.  Dizem que o primeiro livro a gente nunca esquece. E isso é verdade. Em junho de 2002, num dia de domingo, por volta das 14h, toca a campainha em minha casa e quando atendi tive uma surpresa. Era o professor Vingt-un Rosado e dona América, que estavam voltando da praia de Tibau. Depois dos cumprimentos, ele olhou pra mim e falou: “- Junte umas 150 páginas desses textos que você já publicou nos jornais que eu quero publicar um livro seu. Consegui um dinheirinho com o Governo do Estado e vai dá pra publicar mais esse.” Com uma sentença dessas, não demorei a preparar o material e enviar para ele. Em novembro do mesmo ano, num dia de semana, eu estava no escritório da Petrobras aqui em Mossoró, onde trabalhava, quando me avisaram da portaria que o Professor Vint-un Rosado queria falar comigo. Autorizei a sua entrada na empresa e fui espera-lo na entrada do prédio. O motorista parou o carro aonde eu estava, e ele sem descer do carro foi logo dizendo: “- O seu livro está pronto”. E de repente o motorista abriu a mala do carro e começou a despejar pacotes de livros na calçada. Foram seis pacotes com cinquenta volumes cada um. Ele olhou pra mim e disse: “- Tá entregue.” E partiu no carro me deixando atônito com a situação. O tempo e o espaço dele era diferente dos demais.  Qualquer lugar e qualquer hora era bom para se produzir cultura. E assim nasceu o meu primeiro livro. Jerônimo Vingt-un Rosado morreu no dia 21 de dezembro de 2005, aos 85 anos de idade. Morreu não; encantou-se. Continua vivo na memória do povo da terra que tanto amou, ao ponto de idealizar nela um país, o País de Mossoró. Nos últimos anos de vida, como se adivinhasse a morte próxima, passou a escrever uma série de livros que denominou “minhas memórias”, certamente temendo levar para a eternidade informações necessárias aos que aqui ficavam. E assim surgiram “Minhas Memórias da Batalha da Água”, “Minhas Memórias da Batalha da Cultura”, em 7 volumes, “Minhas Memórias da Paleontologia Mossoroense”, “Minhas Memórias do Instituto Brasileiro do Sal”, “Minhas Memórias do Petróleo Mossoroense”, em todos esses trabalhos anexando documentos que achava importantes, como carta, memorandos, decretos, fotografias, nada esquecendo. Deixou uma obra imensa sobre o seu chão amado. Amava tanto o chão de Mossoró que deixou recomendações expressas sobre o seu sepultamento. Disse ele: “O meu sepultamento será no Cemitério Novo e não haverá túmulo. Serei coberto pela terra do solo sagrado de Mossoró. Neste solo serão plantadas cactáceas e bromeliáceas, tal como o fiz quando da fundação da ESAM na antiga fazenda de Fuão Pinto.” Assim foi feito. Conto essa história com mais detalhes num livro que denominei de “O Criador do País de Mossoró”, uma biografia de Vingt-un Rosado, publicado pela Fundação José Augusto. É na obra que deixou como legado que Vingt-un vive, pois esse é o segredo da imortalidade: ressurgir sempre que um livro seu é aberto, que uma frase sua é repetida e que um gesto seu é lembrado. Vive nesse momento, quando lembramos do seu aniversário de nascimento. Lembrando Celso Carvalho, “é triste passar pela vida como a sombra pela estrada. Quando passa é percebida... passou não resta mais nada”. Por isso Vingt-un fez-se luz. E assim criou o País de Mossoró.

sábado, 30 de setembro de 2023

 


Evocação a alguns amigos pets

Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

Em um dos seus exponenciais livros, Civilização e Cultura, Câmara Cascudo, no capítulo dedicado à Domesticação de animais, afirma: “O cão foi o primeiro animal que ingressou no convívio humano. É o mais universal dos mamíferos. Exceto os relativamente recentes de cães para almofadas e regaço, é auxiliar imediato e pronto para o serviço humano, em qualquer parte do mundo.  Era o único a carregar fardos no Novo Continente, superior à lhana fracalhona.  Sua popularidade torna-se fabulosa (...).  O latido é característico da domesticação. O cão selvagem não ladra.  Esculpido aos pés das estátuas tumulares como símbolo de fidelidade (...).  Curioso é que no Brasil seja cachorro, mais popular do que cão.  Cachorro era tradicional na Península Ibérica, uns 1.500 anos a.C..”
A seguir, um breve e saudoso relato dos cães aos quais dediquei e recebi afeição por grande parte da minha vida.
Quando criança, em Nova Cruz-RN, criei um lindo cachorro de nome Lassie, presente de meus pais que o trouxeram do Recife.  Ele veio em viagem de trem, pois, no passado, Nova Cruz se ligava por via férrea a Natal, a João Pessoa e a Recife.  Foram muitos avanços que o trem proporcionou à maioria das cidades do Nordeste, um progresso que, por descaso ou inépcia, deixaram definhar.  Para mim, em particular, e para meus irmãos, o trem era uma festa, não somente pelo burburinho alegre da estação de Nova Cruz, mas também pelas viagens para João Pessoa, cidade dos meus avós paternos.  Ainda hoje, ressoam na minha mente o apito da máquina Maria Fumaça, a voz dos vendedores de rolete de cana e o badalar dos sinos das estações.  Mas há uma outra benesse:  o trem tornou viável a vinda do Recife do meu cãozinho Lassie, talvez uma mistura de vira-lata com collie. Tinha pelos amarelo-ouro, era dócil, brincalhão e encheu de alegrias nossa casa de Nova Cruz, no meu tempo de menino.
Pouco depois de casar e de ter minha casa, tratei logo de criar um cachorro pequinês, todo pretinho, de nome Bug. Ele iniciou uma sequência de 12 cães, machos e fêmeas, que adotei e criei, sob constantes cuidados e carinhos de toda a família.  Devo dizer que sempre optei por cachorros que fossem nascidos de cruzamento de raças, melhor dizendo, que mostrassem algum sinal de origem vira-lata, pois muito me prendem a atenção esses cãezinhos tão espertos, leais e resistentes.  Ah!  Houve uma exceção, uma cadela de raça pura, a mais inteligente e a mais bonita que já passou pela minha casa, onde viveu por 18 anos.  De fato, ela era de raça pura, vira-lata pura, magrinha, esbelta, rápida, atenta, cor amarelo-mel, de porte médio-pequeno.  Veio da praia de Pirangi do Norte, e sua mãe chamava-se Catita, uma cadela de rua muito conhecida naquela praia, ainda no tempo em que o local era calmo e sem barulho. Para relembrar o nome da mãe, talvez, ela pegava qualquer catita errante que tentasse entrar em casa.  Ganhava dos gatos.
Nos dias atuais, tenho em casa um belo exemplar de cão, talvez uma mistura de vira-lata com pastor.  É robusto, tamanho médio, e atende pelo nome de Forte.  O dono dele mesmo é meu neto Gabriel, na casa de quem Forte viveu os primeiros meses de vida.  O cachorro cresceu tanto que logo tornou-se inviável tê-lo em um apartamento de convivência muito intensa.  Isto levou Gabriel a me dar a sugestão de criar Forte, e usou essa expressão:  “Vô, é guarda compartilhada”.  Aceitei de pronto e, desde então, só tenho alegrias pela guarda constante deste amigo sincero.  Em dias recentes, vi a notícia de que a guarda compartilhada de pets ganhou jurisprudência, com decisões judiciais que determinam animais de estimação viverem dias da semana alternados em casas diferentes dos ex-cônjuges.  Até nos Estados Unidos, a partir de 2017, a guarda compartilhada de pets já chegou aos Tribunais. 

sexta-feira, 29 de setembro de 2023


UM TEATRO PARA MACAÍBA

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Raríssimos são os municípios do Rio Grande do Norte com tradição de arte cênica. Macaíba é um deles. Desde o tempo dos Albuquerque Maranhão, apaixonados pela música e pelo teatro, na casa do velho Amaro Barreto que encomendava ao jovem Henrique Castriciano de Souza (1874-1947) peças para serem apresentadas em sua casa. É de Henrique a peça “A Promessa” que inaugurou o teatro “Carlos Gomes”, hoje “Alberto Maranhão”. Nas décadas de 1910 a 1930, a teatralização resumiam-se aos dramas (como eram inicialmente denominadas as peças). Foram de autoria de Isabel Freire da Cruz (Dona Beleza) e da professora Arcelina Fernandes. Os dramas eram encenados no palco do cinema ou em palanque armado improvisadamente no salão do grupo escolar “Auta de Souza” com a participação dos alunos.

No começo dos anos quarenta, seu Joca Leiros (1882-1958) fundou com familiares e amigos, um grupo de teatro amador denominado “Grêmio Dramático Auta de Souza”, considerado, à época, um dos melhores do Estado, cuja programação e desempenho artístico dos atores eram citados habitualmente no jornal “A República”. O grêmio do mestre Joca apresentou-se no Teatro Carlos Gomes em 03 de setembro de 1944, com a peça “A Cigana me Enganou”, comédia em três atos e cinco quadros. O espetáculo foi promovido em benefício da construção do teatro de amadores de Macaíba. A direção de Hiran Pereira com cenografia de José Muniz. Em fevereiro de 1945, ocorreu a segunda apresentação em Natal com a comédia “Feitiço” sob a direção de Joca Leiros. A peça patrocinada pela “Comissão do Esforço de Guerra”, da Liga de Defesa Nacional visava auxiliar a construção do hospital da “Sociedade Médico-Hospitalar de Macaíba”.

Após tantos anos de luta ficou patenteada a tradição cultural de Macaíba - até então notável no domínio da música e das letras  com Auta de Souza, Henrique Castriciano, Tavares de Lira, Augusto Severo, Alberto Maranhão (na política), Otacílio Alecrim, entre outros -  a sua notabilidade também na arte cênica, exercitada com amor, talento e inquestionável sentimento telúrico. Posso destacar excelentes artistas desse universo desaparecido, a começar pelo grande líder do movimento teatral João Viterbino de Leiros (autor e diretor), Luis Marinho de Carvalho (autor e contra-regra), Wilson Leiros, Antonio Coelho, Aguinaldo Ferreira da Silva, Edson Alecrim e Silva, Joanete Ribeiro, Mary Leiros, Ivete Leiros de Almeida, Nitinha Leiros de Almeida, Célia Pereira, Haydée Marinho de Carvalho, Branilze Costa, Alice de Lima e Melo, Luzinete Silva, José Muniz de Melo, Walter Leiros, João Leiros Filho, Luzanira Lima, Geny Maciel, Valda Dantas e Doralice Xavier.

Hoje, Macaíba não tem teatro. Existe uma plêiade de jovens vocacionados mas sem apoio nem esperanças das autoridades competentes. Macaíba precisa de uma casa de espetáculos que faça jus a tradição do passado luminoso. João Marcelino consagrado autor e ator teatral, filho de Macaíba, garanto que não se negaria na formação e seleção de grupos de atores. Sei que há outras necessidades prementes em favor do Município. Mas, o “Teatro Joca Leiros” reacenderia as luzes culturais de Macaíba de há muito apagadas.

Sem sair de Macaíba, lembro do saudoso Joca de Zé Ludovico que ainda hoje é lembrado pelos desportistas como o melhor volante de apoio do futebol macaibense. O seu futebol era inteligente e possuía uma notável visão de jogo. Vi-o atuar várias vezes defendendo a camisa azul do Cruzeiro FC. Nos anos 60, o Cruzeiro havia formado um excelente time que além de disputar o campeonato interiorano sagrara-se várias vezes campeão local. Mas, foi no clássico Cruzeiro x Arsenal de São José do Mipibu que ocorreu uma tragédia com o nosso Joca. O massagista cruzeirense era o famoso Poeta que aplicava uma massagem ritualística nas pernas do atleta com o bálsamo de sua criação chamado "Poetex" (marca patenteada). Nessa tarde o escolhido foi Joca. Os clubes já estavam em campo pousando para as fotos quando o público notou a ausência de Joca, que recebia potentes massagens com o produto "poetex". Joca, Joca, Joca, gritava a galera pelo seu ídolo. Após vinte minutos de extenuante massagem, Joca é liberado. As equipes já estavam formadas para o inicio do jogo e o juiz já impaciente apitava histérico. Nisso, ouve-se um alarido. Joca entra em campo. Após seis passos começa a ficar trôpego. Manca, cai, se levanta e, afinal, prosta-se aos pés do juiz totalmente combalido. O maqueteiro entra em campo debaixo dos impropérios da torcida. O efeito poetex nocauteou  Joca que ficou três dias sem andar.

(*) Escritor.





quarta-feira, 27 de setembro de 2023

 

A indispensável arte de escutar

Padre João Medeiros Filho

Ela exige dedicação e contínuo aprendizado. Talvez poucos se disponham a esse mister. Cristo, além de tantos carismas e virtudes, foi mestre também nesse assunto. Até orientadores de alma estão paulatinamente renunciando a esta nobre missão. Atualmente, muitos pagam a profissionais especializados para escutá-los. O mundo apressado de hoje não reserva espaço para tal postura basilar na vida social. O teólogo e pedagogo Rubem Alves escreveu: “Não é bastante ter ouvidos para compreender o que se diz. É preciso haver silêncio dentro da alma.” Já não se tem mais paciência ou tempo de acompanhar o que alguém tem a dizer. É frequente o impulso de interromper a fala do outro, dando palpites ou nela incluindo a sua opinião. Tem-se a ideia de que as palavras do interlocutor não são dignas de consideração e necessitam ser complementadas. Por vezes, muitos julgam suas opiniões melhores e mais importantes que as do próximo. Os quatro evangelhos narram a incansável atenção, paciência e solicitude de Cristo em escutar e dialogar. A incapacidade para tanto denota manifestação sutil de arrogância e vaidade. No fundo, acredita-se que se é mais justo, honesto, sábio ou capaz.

Proliferam escolas de oratória, retórica ou de falar em público. Faltam cursos de “escutatória”. Uma professora de língua e literatura espanhola costumava lembrar a seus alunos a diferença entre ver e olhar, ouvir e escutar: “Hagan el favor de mirar y escuchar, porque para oír y ver bastan los ojos y las orejas.” Nas empresas criam-se ouvidorias, que fogem de seus títulos e objetivos. Muitas reproduzem a filosofia e rotina de seus administradores. Os descontentamentos e reclamações adiantam pouco, sendo não raro registrados por mera formalidade. São contraditórias muitas audiências públicas. Alguns discursam e a maioria emudece. Em geral, terminam com a confirmação dos propósitos e ideias de poucos em detrimento da multidão. O salmista já observava esse desrespeito ao ser humano: “Têm ouvidos, mas não escutam” (Sl 115/114, 6). Aos atuais e futuros mentores espirituais dever-se-á insistir sobre a disponibilidade para a orientação interior.

A vida e o mundo estão cheios de sons e vozes. Percebê-los é um dom característico dos artistas. É clássico o exemplo dos pianistas. Entram no palco, encaminham-se para o instrumento, sentam-se e concentram-se. Parecem extasiados diante da melodia que irão executar. Após algum tempo de silêncio, a música ecoa. É necessário silenciar para se enriquecer com os delicados sons do universo. Há alguns que são raros, mas presentes na memória de cada um. Por exemplo, o rangido dos carros de bois, o apito das fábricas e locomotivas, o despertar dos galos, o repicar dos sinos, o crepitar do fogo nos fogões a lenha, o chilrear e trinado dos passarinhos etc. É preciso, por vezes, quietude para que eles surjam e nos conduzam ao passado. A sua beleza e musicalidade ficaram guardadas no âmago de cada um. Nas cidades há ainda os gritos dos vendedores, o vozerio das feiras, a algazarra das crianças ao sair das escolas, o ruído dos rádios dos trabalhadores, o latido dos cães na entrada das casas… E há a sonoridade da natureza: o assobio do vento, o barulho da chuva e o murmúrio das cachoeiras.

Há uma pergunta pertinente e atual. Quem nos ensinará novamente a mística do silêncio e a fundamental arte da escuta? O exemplo da vida monacal tem sua importância para o reaprendizado. Os monges trabalham, alimentam-se, oram silenciosamente e falam com moderação. Seus momentos contemplativos e preces dão a impressão de que percebem ou recebem algo de sobrenatural. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia: “O silêncio nos capacita a encontrar Deus. É a voz divina que abafa as vozes humanas.” Santo Ambrósio, quando bispo de Milão, falava que “é importante desobstruir os tímpanos da alma.” Não consta que tal postura seja abordada nas escolas, igrejas ou mesmo em família. Há disciplina para tudo, mas inexiste quem oriente a ser tácito para saber escutar o outro. Convém ter sempre em mente o que diz a Sagrada Escritura: “Tudo tem seu tempo... Tempo de calar e tempo de falar (Ecl 3,1; 6).

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

 Bíblia – mística, literatura, arte, beleza 

Padre João Medeiros Filho 

Em 1947, após a promulgação da Encíclica “Mediator Dei”, surgiram movimentos de valorização da Bíblia. Em 1971, homenageando São Jerônimo – cuja festa litúrgica se celebra em 30 de setembro – a Igreja Católica dedicou esse mês à Sagrada Escritura. Ele foi o primeiro tradutor dos textos originais para o latim, cuja tradução é conhecida como Vulgata. A Bíblia é revelação divina, mas também prece e literatura. No tratado “Doctrina Christiana”, Santo Agostinho equiparou os escritos bíblicos à excelência literária dos textos clássicos. Ali, assevera que a mensagem espiritual é enunciada numa beleza estética. Para o Bispo de Hipona, “a Escritura é fonte de experiência religiosa e escola de oratória e escrita.” Na sua época, quem desejava conhecer a elegância dos estilos e gêneros literários, deveria beber na tradição retórica, descritiva e poética, presente nos Textos Sagrados. A verdade bíblica é transcendental. Todavia, é indissociável de um belo suporte linguístico, pois fé e linguagem esmerada se completam. A condição teológica da Bíblia é inseparável da natureza literária. Desde os tempos mais remotos, há uma nítida consciência da perenidade da Palavra Divina. Assim se expressa o profeta Isaías: “As folhas secam e as flores murcham, mas a Palavra do Senhor permanece para sempre” (Is 40, 8). Muitos autores, não teólogos ou exegetas, têm contribuído para aprofundar o conhecimento e o amor à Sagrada Escritura. Em seus estudos literários, descobrem a sublime qualidade dos relatos bíblicos. Dentre eles, destaca-se Erich Auerbach com a obra “Mímesis”. Nela, reconhece os dois paradigmas fundamentais da literatura mundial: a Odisseia e a Bíblia. Afirma que as narrações bíblicas contêm uma profunda intencionalidade artística e acentuada concepção harmônica do humano e sobrenatural. Estudiosos das formas literárias (Formgeschichte) vêm elaborando excelentes trabalhos, incentivando a leitura e proporcionando uma melhor compreensão do Livro Sagrado. Descrevem como Jesus levou seus compatriotas a ter mais consciência da vida interior e preocupar-se menos com a aparência exterior. Em “De profundis”, Oscar Wilde relata a seguinte experiência: “No Natal, consegui um exemplar do Novo Testamento e todas as manhãs, depois de limpar a cela da prisão e lavar os pratos, lia vários versículos dos Evangelhos. Era uma deliciosa maneira de começar o dia, enchendo-me de luz e paz.” Com o decorrer do tempo, foram se perdendo a beleza e o encanto dos Evangelhos, proclamados de forma inadequada ou apressada. Debruçar-se sobre eles é como entrar num jardim de orquídeas e rosas perfumadas, depois de sair de uma casa estreita e escura. Ali, o leitor poderá encontrar as principais realidades da vida: mistério, tristeza, amor, súplica, solidariedade, perdão, ternura, êxtase etc. A sua leitura desperta um sentimento no qual se percebem a poesia e a sublimidade da Palavra de Deus. Os textos bíblicos inspiraram renomadas obras artísticas, em suas variadas formas, criadas ao longo dos séculos: as catedrais, como a de Chartres, pinturas como as de Giotto, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, esculturas de Michelangelo, músicas sacras e clássicas etc. Dentre os autores brasileiros mais recentes, influenciados pela Sagrada Escritura, poder-se-ia elencarJorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Adélia Prado, Rubem Alves etc.Basta folhear a Bíblia com um pouco mais de interesse para verificar o que escreveu William Blake: “Ela é o grande código da arte ocidental.” Por sua vez, o poeta Claudel a considera “o imenso vocabulário, pois nela, e às vezes só nela, apreende-se a misteriosa, difícil e interminável arte de narrar e escrever.” O pintor Chagall denomina a Escritura de “atlas iconográfico”, pois tantas imagens ali contidas se fixam em nossa mente e mergulham em nossos sonhos. A Bíblia é também tesouro e patrimônio cultural da humanidade. Uma literatura construída por místicos, poetas religiosos, cronistas, hagiógrafos, cantada ou recitada durante séculos, antes de ser escrita. Ela é tecida de vocábulos que envolvem o mistério e registram os rastros do sopro divino, uma presença silenciosa, atingindo o nosso âmago. Por isso compreende-se o arrebatamento do profeta Jeremias: “Mal encontrei as Tuas palavras, e já as devorava. Elas se tornaram para mim prazer e alegria do coração” (Jr 15,16).