quarta-feira, 9 de agosto de 2023

 VEIO DO SERTÃO, LÁ DO CABUGI

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

A memória do ex-governador, deputado federal, ministro e jornalista Aluízio Alves jamais deixará de despertar em todos nós, novas reflexões sobre a sua vida e obra. É o mesmo que afirmar que sempre se dirá dele a penúltima palavra mas nunca a última. Assim foi e continuará sendo com relação a vultos da estirpe de homens públicos como Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas e Carlos Lacerda. Isso tudo porque efetivamente, Aluízio foi um líder porque inovou, recriou, reinventou e redimensionou a máquina, os métodos e as práticas político-administrativas que imperavam desde a Velha República. Assim ocorreu nas lutas que abraçou como deputado federal e governador do Rio Grande do Norte quando desafiou e derrubou as estruturas arcaicas da administração pública por um novo modelo na educação (método Paulo Freire); na industrialização, o progresso social através da energia de Paulo Afonso, além de inúmeras obras estruturais sob o timbre da modernidade. Foi líder porque despertou os acomodados. Apaixonou o povo pelas suas causas. Dividiu opiniões sem medo do julgamento dos apressados.

Como jornalista revelou-se o criador de empresas de comunicação. Como político sensível e hábil criou o seu próprio marketing, o seu estilo e a sua logomarca. Das sombras do eclipse da democracia brasileira optou pela cambiante concretude do processo da industrialização do novo nordeste, apesar da mordaça política. Por isso, como líder nato, permanente, eu não o comparo. Eu o separo. Ele tinha o selo e a marca da exclusividade. Ninguém foi como ele. Como empresário, no curso dos dez anos da cassação, trouxe para o Rio Grande do Norte inúmeros investimentos, os quais geraram empregos, e se não tivessem sido implantados naquele tempo, não seriam hoje continuados por outros empresários.

Como Ministro da Integração deixou o legado maior: o projeto de transposição do Rio São Francisco. Dir-se-á que Aluízio Alves conquistou o futuro. Ao lado de suas ideias e sentimento, ele possuía a convencedora energia da palavra, eloquente e ágil. Ninguém na vida pública do Rio Grande do Norte, a não ser ele, sabia fazer de forma tão mágica e carismática. Era um vocacionado desde adolescente em 1934, quando discípulo de José Augusto Bezerra de Medeiros. Em 1946, com 25 anos, já era constituinte da República, convivendo com os luminares da redemocratização do país. Aluízio foi um predestinado que empreendeu uma cruzada digna e necessária em prol do desenvolvimento do Rio Grande do Norte, tanto como deputado federal, governador, líder popular, ser humano, desprendido, abdicando de ser senador para acolher companheiros de partido (PMDB).

Tudo o mais já foi dito sobre ele e reproduzido em todos os jornais. Falar mais é repetir-se. O que importa, é que nenhuma instituição pública, nem as gerações futuras deixem de reconhecer e proclamar os seus méritos que estão gravados no bronze da história político-administrativa do nosso Estado. Político nos seus defeitos comuns e humano nas suas contradições naturais. Aluízio Alves foi o ícone de todas as lideranças políticas do Rio Grande do Norte, de todos os tempos.

Permita-me narrar um fato que elucida a sua visão superior de homem público. Em 1951, o município de Macaíba foi assolado por rigoroso inverno que derrubou a ponte da cidade, dividindo-a ao meio. O então deputado estadual Alfredo Mesquita procurou a bancada federal do seu partido (PSD) a fim de obter os recursos necessários, visto que, o governo do Estado (José Varela) não dispunha de verbas. O Ministério de Obras e Viação, ante a demora burocrática, recebeu o apoio integral do udenista Aluízio Alves que conseguiu alocar e liberar os recursos necessários. Neste 2023, são decorridos 72 anos e a ponte permanece intacta.

Ninguém possuirá em mais alto grau, a força de vontade, tenaz e formidável, a magia política, a capacidade de trabalho e a extraordinária flexibilidade do seu talento. Foi jornalista, escritor e orador, tanto no palco iluminado do Congresso Nacional daquele tempo, como em qualquer ruazinha modesta do Rio Grande do Norte no lampejo das antigas passeatas vindas lá do sertão do Cabugi.

Neste dia 11 de agosto de 2023, fará 102 anos e como dói a sua ausência. Não há mais líder como tal no Rio Grande do Norte. Hoje, ele é uma lembrança que o tempo não desfez.

 

 

(*) Escritor

domingo, 6 de agosto de 2023

 

CANTOS DO MEU SERTÃO
Velejava noite a dentro, nada de chuvas das festas de fim de ano. Concentrando as oiças quando a brisante se fazia silente, o "papa lagarta"* gorgeia lento, sinistro, mas, dá sinal que retornara às terras do Sertão. Viera pra mais uma estação chuvosa, é dela que precisa pra "criar carne", não só isso...engordar mesmo, na seca está sempre no exílio, onde convive com a fome.
Sibila o vento solto da Serra do Cuité fugido, escaramuçando as palhas dos cocos catolés, onde, na mansidão de suas cachopas, dormem aninhados os sanhaçus na sua terna mudez.
Ganem os viralatas caninos, na esperteza de esconderem o medo, ante às presenças de curiosas raposas, ou dos lobos ribeirinhos, os guaxinins, que são especialistas em esfolarem cururus desavisados nas cacimbas dessa freguesia da baixa do arroz.
Fazem ronda com seu canto chocalhado, os bacuraus pirilampos, que dormem durante o dia nas sombras dos lajedos, e à noite com seus olhos munidos de raios infra-vermelhos, captam minúsculos viventes, como as suicidas mariposas sazonais.
O urutau, a festejada mãe-da-lua, nessas terras de Campinas friorentas, dão o seu concerto de lastimacões melancólicas, com gorgeios chorosos à similaridade de crianças inconsoláveis ante a perda de simples brinquedo ou ainda, chorosa como criança pagã* a pedir rezação de missa pra poder entrar no céu.
É...essas estórias, povoavam o mundo encantado de quando criança, nos ermos do "Sertão de meu deus".
Noticia sua existência a "coã", noite já sendo ensopada pela cruviana madrugadenha, canto sutil, compassado, como a conversar com uma mudez decretada pelos deuses dos "descampados do tempo". Sim, no Sertão, os bichos de pelos e penas, conversam com os seus deuses. Todos se abrigam na abadia da mãe natureza.
No quebrar da barra, o eco seco, estridente, do carão ribeirinho degustando os suculentos aruás.
Esse pernalta transmite sua alegria quando está
se alimentando nas aguadas do açude da Chã da Graúna.
*Papa-lagarta: ave da família cuculidae. Ave migratória. Só aparece no Sertão durante a quadra invernosa. Não se vê essa ave durante a estiagem. Tem costume de acordo com o nome.
J.E.S.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

 DILACERAÇÃO E ILUSÃO

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Num momento em que se questiona as coerências e incoerências do posicionamento político dos partidos com vistas ao pleito eleitoral do ano que vem, convém lembrar uma história antológica, clássica, e, por isso mesmo inesquecível, envolvendo o mestre do jornalismo potiguar o quase macaibense, irmão de Auta e Henrique, Eloy Castriciano de Souza. Ressalve-se na conduta do grande escritor, a sua inteligência singular, a sua memória incomum, as quais, mesmo quando postas a serviço da política partidária, elas não se apequenavam nem se contaminavam dos vícios redibitórios da desfaçatez, da indignidade ou do mau caratismo. Os fatos políticos de ontem se repetem hoje, só que, com outra roupagem, porquanto, naquele tempo, havia homens verdadeiros e eleições falsas, e agora, homens falsos mas eleições verdadeiras, muito embora - algumas, nem tanto.

Lá pelas décadas de trinta, quarenta, o jornalista Eloy de Souza pontificava na lide política do Estado. Certa vez, comandou a editoria do jornal da Oposição onde fazia de tudo. A sua marca registrada, ou faceta inimitável, consistia em ditar três artigos ao mesmo tempo, sem perder o raciocínio e a inteireza do tema de cada um. Foi em meio a essa faina redacional que ocorreu um fato inusitado. Quando discorria sobre a personalidade de um adversário político, acoimando-o de todos os diatribes imaginários, revelou-se de repente nele, uma luz, uma escapatória tão fremente que só os gênios são assim dotados. “Escreva”, ordenava: “Fulano de Tal é um político sanguinário, perseguidor que usa a farsa além da infâmia, a estupidez além do crime. Homem superado, liliputiano, de gestos grosseiros e destituído de nobreza de caráter”. Aí, de repente, um auxiliar adentra a redação e interrompe: “Dr. Eloy, Dr. Eloy, chega-nos notícia urgente do partido de que Fulano de Tal aderiu a nossa causa”. De pé, ar circunspecto sem esboçar qualquer reação, Dr. Eloy - após um instante de reflexão – retoma a dissertação: “Todavia, isso tudo é o que afirmam os seus adversários, injuriosos, despeitados e invejosos. Para nós, trata-se de um homem de bem, honesto, cumpridor de suas obrigações, bom pai e esposo exemplar”. Ao recordar esse episódio da Velha República no Rio Grande do Norte concluo que, qualquer semelhança com fato político da atualidade é mera coincidência. A diferença pontual, é a de que hoje a política perdeu a autenticidade e o talento de antigamente, vítima da amnésia eleitoral. O jogo de interesses imediatos assume proporções tão devastadoras no caráter e na conduta das pessoas ao ponto de nos causar asco e dó ao mesmo tempo.

Mas, essa história também é interessante. Aconteceu no primeiro turno de uma eleição municipal, quando o odontólogo Luís Carlos, esposo de Graça, então candidata a prefeito de Monte Alegre, garimpava votos de conterrâneos residentes em Natal. Um desses eleitores foi Paizinho, seu velho conhecido, radicado na Zona Norte. Ao vê-lo, Luís pediu-lhe o apoio e que não faltasse a nova luta. “Seu Luís eu não posso”, respondeu Paizinho, em tom pesaroso. “Por que?”, retrucou o dentista. “Porque eu transferi o domicílio pra cá e vou votar em Miguel Mossoró”. “Em Miguel Mossoró?”. Indaga Luís Carlos, curioso e perplexo. “O seguinte é o seguinte”, (maneiroso jargão popular). “É que seu Miguel me prometeu nessa ponte aí que ele vai fazer para Fernando de Noronha, conseguir só pra mim uma borracharia bem no meio da danada...”.


(*) Escritor

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

 As relíquias de Sant’Ana 

Padre João Medeiros Filho 

Segundo documentos eclesiásticos e uma tradição carolíngia, os restos mortais de Sant’Ana foram trazidos para a Gália por discípulos de Jesus. Nos albores do cristianismo, seguidores do Nazareno foram expulsos da antiga Palestina por causa de sua fé. Levaram o corpo de Ana para Apta Julia (Apt), no sul da França. Urgia igualmente proteger as relíquias dos santos, quando da perseguição aos cristãos, no Ocidente. Por isso, os restos mortais da avó do Salvador foram inumados na cripta de uma igreja. É o que atesta “O Martirológio de Apt”. Trata-se da fonte mais antiga, mencionando o fato. Outra versão narra que os cruzados trasladaram da Terra Santa os restos mortais da genitora de Maria Santíssima, evitando que fossem violados pelos pagãos. Santo Auspicius, bispo de Apta Julia, teve o cuidado de salvaguardar esse tesouro sagrado, colocando-o em segurança no jazigo subterrâneo de uma igreja. Os ataques bélicos e o desgaste dos anos arruinaram as paredes do templo. Com isso, o lugar do túmulo foi ficando esquecido. Após a vitória de Carlos Magno sobre os sarracenos, no final do século VIII, a paz voltou a reinar na Gália. Construiu-se uma nova igreja sobre os escombros da primitiva, em Apt. As escavações depararam-se com estruturas fortalecidas. Conta-se que no domingo de Páscoa de 792, na cerimônia de dedicação do novo templo, as relíquias da Mãe da Virgem de Nazaré foram descobertas, graças a um menino surdo, mudo e cego. Durante a solenidade, a criança apontava insistentemente para o lugar da tumba na cripta, como se estivesse vendo algo. Tal relato consta dos documentos atribuídos ao Papa Leão III, aos quais se anexou um relatório eventualmente escrito pelo próprio Imperador, o qual fora coroado por aquele Pontífice. Conserva-se ainda cópia dessa documentação. Terminada a missa, Carlos Magno ordenou a escavação no local indicado pela criança. Removeram-se as escadarias atrás do altar, aparecendo uma porta lacrada com enormes pedras. Era a entrada da cripta, onde Auspicius costumava celebrar a Eucaristia. “O corpo de Sant’Ana, a mãe de Maria, está descansando ali”, palavras do menino que começou a falar, quando avistaram a sepultura. Diante desse acontecimento considerado miraculoso, a multidão presente na Igreja prostrou-se de joelhos. No ataúde havia uma inscrição: “Aqui jaz o corpo de Ana, a mãe da Virgem Maria.” As autoridades das principais cidades gaulesas e de outras nações apressaram-se em pedir à Igreja partes do corpo santificado. Fragmentos foram destinados a várias localidades (como Düren, na Alemanha), sendo doados por soberanos e prelados. Consoante informações, grande parte do corpo sagrado de Sant’Ana repousa em Apt, numa capelatúmulo construída por Ana da Áustria, Rainha da França. Clemente VII concedia indulgências aos peregrinos que ali acorriam. Os dignitários eclesiásticos atuais têm sido cautelosos em partilhar as relíquias, alegando necessidade de depurar os fatos, separando os verídicos dos lendários, para se comprovar ainda mais a autenticidade histórica. Partículas dos ossos espalhadas por vários países contribuíram para disseminar a devoção à mãe de Nossa Senhora. Hanna é muito estimada pelos judeus. Descendia do sacerdote Aarão, desposada por Joaquim, oriundo da família real de Davi. Dessa nobreza nasceu a Mãe do Salvador. As famílias real portuguesa e imperial brasileira dedicavam devoção especial à genitora de Nossa Senhora, a ponto de ser designada protetora da Casa da Moeda do Brasil. Sant’Ana é co-patrona do Rio de Janeiro e São Paulo, padroeira de Goiás, centenas de paróquias e do Seridó potiguar (onde viveram flamengos judeus e católicos lusitanos), bem como titular da sé episcopal de Caicó. Há tempos, uma fervorosa devota caicoense, tendo visitado algumas vezes Apt, tenta adquirir uma relíquia da “Senhora doce e clemente” para a catedral de sua terra. Diante do túmulo exclamou: “Creio que aqui está parte do corpo da avó de Cristo. Acredito que ela irá partilhar um pouco de si mesma para a veneração dos seridoenses.” Finalmente, rezemos à “Mãe da graça e do perdão” por nosso arcebispo emérito, Dom Heitor de Araújo Sales, no ensejo de seu 97º aniversário, em 29/07 próximo. Que ela o abençoe e proteja sempre. Em mais de setenta anos dedicados à Igreja, durante quinze, Dom Heitor cuidou do Povo de Deus no Seridó. “Salve, Sant’Ana gloriosa!"

 “Aproveita, enquanto Brás é tesoureiro” 

Padre João Medeiros Filho 

Segundo vários pesquisadores, a expressão é antiga e oriunda de Portugal. No Brasil, ganhou ressonância com a música carnavalesca de Efson e Nei Lopes, intitulada “Firme e Forte”, interpretada por Beth Carvalho. Diz a letra: “Aproveita hoje, porque a vida é uma só. Deixa correr frouxo, esquentar não é legal. Se o Brás é tesoureiro, a gente acerta no final. 

Deus é brasileiro e a vida, um grande carnaval.” O ditado denota complacência com o descontrole financeiro, ético e político. Emprega-se em contexto de malversação de dinheiro ou bens, mormente públicos e aplica-se a muitos campos e assuntos da vida nacional. 

 Apregoa estímulo à desobediência de normas vigentes ou sua lassidão. Qual a origem? Destacam-se duas versões. A mais difundida remonta aos tempos de Portugal concordatário, “ex-vi” do padroado. 

Em razão da união entre Estado e Igreja, vigente outrora na Coroa – bem como no Brasil colonial e imperial – o catolicismo gozava do status de religião oficial. Em decorrência desse acordo, os eclesiásticos eram funcionários de Estado, percebendo côngruas e espórtulas. 

O poder público financiava os templos e irmandades. Com o advento da República, o Brasil tornou-se constitucionalmente um ente laico. 

No passado, os párocos e capelães eram concursados e detinham vitaliciedade no cargo. Até alguns anos, usava-se o termo vigário colado, em razão da colação do título de efetividade. No regime concordatário luso-brasileiro, após a aprovação em concurso, além da estabilidade como servidor público, o clérigo adquiria inamovibilidade. Bispos, párocos e capelães eram nomeados pelo rei, imperador ou quem suas vezes fizesse. 

É singular e merece aprofundamento a Questão Religiosa brasileira, em virtude da qual os prelados de Olinda e Belém do Pará foram presos por desobedecerem a ordens do Imperador, seu superior hierárquico, no campo administrativo. 

Durante o padroado, nas paróquias ou capelanias lusitanas e brasileiras, havia a figura do fabriqueiro, termo usado para designar o tesoureiro. Em Póvoa de Varzim, os sobrinhos e afilhados do pároco da freguesia eram inescrupulosos e pródigos. Levavam o tio ou padrinho a aceitar o esbanjamento e despesas desnecessárias. 

O velho cura (ou prior, como se dizia por lá) devia convencer o tesoureiro Antônio Brás a pagar os gastos. Este usava de uma química contábil na prestação de contas aos órgãos estatais. Os parentes do eclesiástico insistiam junto ao tio: “Aproveita, enquanto Brás é tesoureiro.” 

 A semelhança com personagens da atualidade é mera coincidência. Eça de Queiroz, nascido naquele município português, conhecia e usava a expressão aqui analisada, a qual sublinhava o seu anticlericalismo. Assim corrobora o renomado pesquisador alagoano Théo Brandão, situando o ditado na primeira metade do século XVIII. 

Um parlamentar gaúcho, diante de situações análogas, chegou a exclamar: “Ou se aproveita a ocasião e se desvendam os esquemas pelos quais tanto dinheiro desaparece, de forma inaceitável, ou então se fará um pacto com a impunidade, nomeando-se um Brás como tesoureiro oficial.” Muitos esquecem o ensinamento do apóstolo Paulo: “Por se entregarem com volúpia ao dinheiro, alguns se desviaram da fé” (1Tm 6, 10). 

Uma variante do ditado, de menor repercussão, identifica Brás com o fundador do bairro que leva esse nome na capital paulista. Há historiadores que afirmam ser as origens do dito popular ligadas à figura do português José Brás. Este era proprietário de uma chácara na região, tendo construído a Igreja do Bom Jesus de Matosinhos. 

Tal senhor foi designado o responsável pela arrecadação e guarda dos impostos e taxas devidos ao erário. Familiares seus eram perdulários e ambiciosos, repetindo entre eles: “Aproveita, enquanto Brás é tesoureiro.” 

Consoante certas fontes, o bairro se desenvolveu bastante, graças ao desvio dos recursos, tornando-se hoje um dos influentes polos da moda.

Acredita-se que a versão anterior seja digna de mais credibilidade, posto que a fundação do bairro paulistano data da segunda metade do século XIX. Deve-se acrescentar ainda que Brás nada tem a ver com o personagem do romance de Machado de Assis. O profeta Isaías já se insurgia contra o esbanjamento: “Por que gastais o dinheiro naquilo que não traz pão e vida?” (Is 55, 2).

domingo, 23 de julho de 2023

 


ESSAS FLORES

Essas flores que nascem às margens do rio
Nada ficam a dever às flores de meu jardim.
Essas poesias que surgem do nada
E se vão levadas pelo vento do imaginário
Também não são menores que aquelas
Nascidas do clássico ofício de escrever...
Esses amores...
Ah!, esses amores...
São lindos esses amores que não precisamos guardar
E sobrevivem à margem de tudo
Pela graça da vida
Na liberdade que transcende o nosso querer...


-  Horácio Paiva

sábado, 22 de julho de 2023



 CÉU INVISÍVEL


                        (Aos abandonados pelas lembranças)


um céu se esconde
atrás da janela
que não ouso abrir

um céu que desconheço
e onde não mais terei em servidão
minhas lembranças

as lembranças são pássaros presos
às margens do rio do esquecimento
e uma vez transposto o rio
não há mais repouso
vão-se as amarras
os dias cálidos
e a vida segue à deriva
enquanto um novo livro é escrito pelas parcas

sem mapas ou radar
-  além da imaginação
e da vertigem  -
espero porém que o amor lance âncoras
esteja à porta
e jamais me abandone


-  Horácio Paiva

sexta-feira, 21 de julho de 2023

 




THEREZINHA ROSSO GOMES


Hoje é um dia especial para a nossa família, pois se viva estivesse, a nossa pranteada THEREZINHA, estaria comemorando 87 anos de existência.

Nascida em Natal no dia 21 de julho de 1936, filha do casal Casaletano Rocco Rosso e Rosina Louvisi, morou a maior parte de sua vida no bairro do Barro Vermelho.

Quando para Natal em 1948, coincidentemente, fui morar à casa 118 da Rua Meira e Sá, número 120 e fui recepcionado com o olhar cativante da italianinha da rua, o que permitiu logo uma amizade de vizinho, depois colega, namorico, namoro, noivado e casamento, um lapso temporal de 71 anos, que foi interrompido no dia 31 de março de 2019.

Já contei várias vezes a doçura dessa criatura e a fidelidade que nos manteve fiéis tantos anos.

A velhice nunca foi empecilho para nossa vida social, o que hoje mantenho em todos os encantos por onde passo, nas festas das academias, nos lugares lúdicos onde vivemos tantos anos, fazendo-me um cativo de boas lembranças e de uma saudade imorredoura.

Nesta data seria um desses encontros, pois a Academia Norte-riograndense de Letras está em festas, oportunidade em que lá estarão muitas das suas amigas de sempre.

Sempre rogo a Deus que guarde o seu espírito em lugar especial, pois mais do que isso essa mulher notável fortaleceu a sua vida com atos humanitários e correção irrepreensível.

Um beijo para minha querida companheira. Logo estaremos juntos.


 

  • GALERIA DE EXCÊNTRICOS
    vida deve ser vivida em todas as suas variedades. Esse pensamento do alagoano Calixtrato Barroso me fez refletir sobre alguns tipos que conheci ao longo de minha vida. Pessoas de comportamentos díspares, personalismos, individualistas e esquisitos. Pelópidas Lourenço, por exemplo, é um burocrata
    pragmático e fiel ao trabalho. Tem pavor a inércia, ao feriado, ao ponto facultativo. Pragueja contra os agentes públicos que enforcam as sexta-feiras. Feriar dia santificado, segundo ele, é encher as praias de parasitas do dinheiro oficial. “É uma irresponsabilidade digna de uma denúncia do Ministério Público ou de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Mas, o pior é que todos gostam dessa lambança, e aí não acontece nada”, comenta. Houve uma época em que ele estava atacadíssimo. Parava em frente a supermercado, farmácia, armazém, mercearia para aplaudir de pé o estabelecimento comercial aberto e proferir palavras de ordem contra o governo.
    Outro personagem interessante é o mossoroense Porfírio Louzada, leitor assíduo de jornais, principalmente da crônica social. Gosta de fazer recortes após pontuar o número de vezes que socialites são citados ou fotografados. “As suas estatísticas”, conforme Flodoaldo Aires, seu amigo do antigo Café São Luís, “são alarmantes”. Acha que “o espaço estipendiado é mais para biografar a vaidade dos pífios inquilinos do que para noticiar fatos ou pessoas do interesse geral”.
    Ubenildo Trajano, católico fervoroso, pregava contra aspectos das reformas do governo Lula. Rezava todos os dias para a queda dos juros bancários e a morte do agiota mais próximo. Aposentado pela rede ferroviária federal sabe que o trem da taxação vai passar por cima dele. Confessava-se decepcionado com os deputados e senadores com os quais votou. Na missa de domingo passado, afirmou na calçada da igreja antes de comungar que “o Congresso que se diz fera vai ser domado como sempre pelo Planalto. Deputado nunca resistiu ao gesto obsceno e aos afrodisíacos do governo. Não acreditem nos governos messiânicos”, ainda soprou dentro da sacristia.
    Revolvendo uns papéis antigos, deparei-me com um bilhete de Eleutério Pacheco, de quando residia no bairro do Tirol. Fotógrafo amador passava o tempo retratando fatos da rotina cotidiana através de sua velha máquina Rolly Flex. Mudou-se para Macau e nunca mais o vi. Tem um considerável acervo fotográfico de homens e mulheres conduzindo seus cachorrinhos pelas ruas de Tirol e Petrópolis. Todos os seus instantâneos flagram o cidadão ou cidadã de pé, esperando o seu animalzinho concluir o seu matinal ato defecatório. “É pungente”, dizia no bilhete, “o ridículo dessa granfinagem”. Gostava de associar as imagens do homem ao cãozinho. Temporalmente achava que a “vida consumista é feita mesmo de fases e de fezes”.
    O mais excêntrico e amargo membro dessa galeria é Benedito Fragoso Teles, vulgo Fedegoso pelo seu espírito ressentido e depressivo. Repete sempre o escritor Graham Greene: “A vida é um caso liquidado”. “O ser humano”, prega Fedegoso, “é sujo. Todos os seus órgãos são putrefatos: o intestino, o ânus, a boca, o escarro, os ouvidos, os olhos, o nariz, as genitálias, o chulé , a sovaqueira, tudo expele nojenteza, mau cheiro. Quando morre apodrece. Ou quando vivo, do ponto de vista caracterológico, a grande maioria é pérfida, solerte, ingrata, criminosa, falsa, pecadora, traidora, predadora, invejosa, etc., etc.”. Não convidem Fedegoso para um papo. É uma figura negativa. Ou não?


quarta-feira, 19 de julho de 2023

 A chaga do preconceito 

Padre João Medeiros Filho 

Segundo Albert Einstein, “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” Este consiste na opinião formada sobre algo ou alguém, antes de conhecer o objeto do juízo, sem fundamento lógico. Cristo testemunhou diversos tipos de posturas preconceituosas. Os Evangelhos e Atos dos Apóstolos relatam a diferença de tratamento dispensado aos seguidores do Mestre por parte de seus contemporâneos, pertencentes a movimentos religiosos. Antes de Jesus, já existia uma animosidade entre judeus e samaritanos (cf.João 4, 9). Os fariseus, escribas e hipócritas menosprezavam os discípulos do Senhor (cf. Mt 12, 3- 6). Ele mesmo era desdenhado. “Ora, não é Ele o filho do carpinteiro?” (Mt 13, 55). Contra essa forma de relacionamento se insurgiu o apóstolo Paulo: “Não há maisjudeu nem grego..., escravo nem livre, todos são iguais em Jesus Cristo (Gl 3, 28). O preconceito fica abscôndito nos porões da política e ciência, das etnias, culturas religiões etc. Em suas diferentes manifestações, leva ao desconhecimento da riqueza latente no outro. Ninguém é capaz de se renovar e aperfeiçoar sem diálogo e escuta serena do próximo. Não raro, a mídia denuncia condutas e situações, acentuadamente desiguais. Entretanto, tais iniciativas costumam ser seletivas, revestidas de carga ideológica e despidas do verdadeiro sentimento humanista. Providências legais e de cidadania acabam sendo diluídas, ignoradas e esquecidas. Urge construir uma base sólida de humanismo, capaz de promover a adequada compreensão e o respeito ao semelhante. Assim, pode-se tocar no coração de cada indivíduo, a partir de um amplo processo educativo. Não se muda uma mentalidade apenas por leis e decretos. É preciso atingir o âmago da alma, convencendo de que somos feitos do mesmo barro. O Livro dos Provérbios já lembrava: “O rico e o pobre têm algo em comum: o Senhor é o criador de ambos” (Pv 22, 2). O cristianismo poderá oferecer fundamentos essenciais de humanidade. O Sermão da Montanha contém uma interpelação sempre atual, conclamando contra as ofensas ao semelhante. Jesus orienta a não faltar com o respeito devido à dignidade da pessoa. Mas, por fragilidade emocional,soberba e apego às próprias convicções, o ser humano despreza as lições do Evangelho. Esquece o que ali se ensina: “Tudo, pois, quanto quereis que os outros vos façam, fazei, vós também a eles” (Mt 7, 12). O ser humano deve revestir-se de uma espiritualidade marcada de solidariedade e busca interior. “Só se vê bem com o coração”, afirmava Exupéry. O preconceito nasce da visão negativa e presunçosa sobre pessoas, situações e instituições. O cristianismo é luz, podendo contribuir para debelar atitudes intolerantes. Traz um conjunto de indicações que, se devidamente acolhidas, poderão mudarsentimentos perversos. É salutar a recomendação do apóstolo Paulo: “Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem” (Rm 12, 21). Trata-se de um princípio basilar para neutralizar palavras e gestos discriminatórios. A orientação paulina abre um fecundo itinerário para enfrentar concepções e visões distorcidas. Assim, ao invés de excluir e marginalizar, priorizam-se o bem-estar e a paz do semelhante, mormente daqueles que carregam o peso da rejeição. Os postulados cristãos têm força para romper o círculo vicioso que aprisiona a sociedade em uma convivência ilusória, injusta e com dinâmicas excludentes. Na visão do cristianismo, o preconceito é diabólico teologicamente. Segundo os exegetas, o diabo é tudo aquilo que divide e exclui. Os gestos de aversão serão vencidos com o amor fraterno, como antídoto para discriminações de diferentes matizes. A lógica cristã não pode ser emaranhada e engolida por relativizações. Assim, a mensagem de Cristo cumprirá seu papel profético, capaz de levar a sociedade a mudanças. É fundamental assimilar os ensinamentos éticos e bíblicos, capazes de inspirar a renovação do tecido sociopolítico do Brasil, permitindo ao país livrar-se de uma convivência eivada de divisões e radicalismo. O preconceito é fruto da arrogância, já presente em Eva e Adão, sequiosos de superioridade. O apóstolo Pedro definiu a visão cristã: “Deus não faz distinção de pessoas. Ao contrário, aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10, 34).

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ARTÊRA EDITORA (PR) convida

LANÇAMENTOS de DOIS LIVROS de DIOGENES da CUNHA LIMA


PABLO NERUDA – UMA ENTREVISTA IMAGINADA

prefácio de Nouraide Queiroz

posfácio de Antonio Nahud


Ler Neruda é ouvir o universo em seus segredos. Compreendê-lo, a ponto de fazer ecoar o seu canto, é privilégio dos poetas que trazem n´alma a amplitude e o saber de todos os sons. Diogenes da Cunha Lima, um poeta de sensível e rica originalidade, depois de responder perguntas de Neruda em “O Livro das Respostas”, surge com uma entrevista imaginária inesperada e desconcertante, resultando em um encontro lírico. A poesia hermética e complexa de Neruda dialoga, humana, com a poesia sensível de “Os Pássaros da Memória” (1994). Chile e Brasil merecem um encontro desses, um poema-livro, cósmico como um verso de Neruda, musical como um de Diogenes.


O LIVRO das RESPOSTAS

(em face do “Libro de las Preguntas”, de Pablo Neruda)” (3ª edição)

prefácio de Edson Nery da Fonseca


De grande criatividade poética, Diogenes da Cunha Lima, instigado pelo escritor Veríssimo de Melo, aceitou o desafio de responder perguntas feitas pelo poeta chileno Pablo Neruda em sua obra “O Libro de las Preguntas”. Para estar mais perto do poeta e mais rico de aventura, antes foi ao Chile. Mais perto das raízes do vento, do canto geral, das doces palavras como ameixas na boca da amada. Sentindo o pulsar da ilha negra, a poesia de Diogenes não só responde à significação da poesia de Neruda, como avança igual seta de luz, no tempo e no espaço, dignificando a palavra e contribuindo para a permanência do mito.



Data: 20 de julho de 2023 (quinta-feira), às 17h

Local: Baobá do Poeta

Endereço: Rua São José – Lagoa Nova

Natal, Rio Grande do Norte

 Santos e festas do mês de junho 

Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor do UNI-RN 

Retorno a uma crônica afim, e com o mesmo título, que publiquei em 2010. As festas juninas remetem-nos para velhos tempos, acalentam lembranças da infância, fazem recordar fatos e encantos do passado. Evocam-se santos alegres, festeiros, ligados a crendices e superstições, com forte apelo popular e que vão além da convicção religiosa. Quem fica indiferente a uma rua embandeirada, ao colorido das roupas das quadrilhas, ao ritmo do baião e do forró, à visão ou ao cheiro das canjicas, das pamonhas, dos bolos e do milho assado? Menino do interior, tive a sorte de passar várias festas juninas nas fazendas Riacho e Favela, terras do meu avô materno, seu Chiquinho, em São José de Campestre. Noites alegres, inesquecíveis, rojões, busca-pés, traques, e estrelinhas; muita comida de milho, sanfona e pandeiro, tudo e todos ao redor de enorme fogueira. A família reunida e meu avô no comando, pois era o mais animado do grupo. Com requinte, sabia puxar quadrilha, quando não faltavam palavras de ordem com timbre francês: balancê, anavantur, anarriê, travessê, e por aí seguia. Lembro que um jovem vaqueiro da fazenda Riacho convidou- me para ser seu compadre de fogueira. Sobre dois tições em brasas, feito uma cruz, o aperto de mãos selava o compromisso, ao se repetir quatro vezes, mudando de lugar: “São João disse, São Pedro confirmou, que nós fôssemos compadres, que Jesus Cristo mandou.” O vaqueiro Chico Borges, que depois se transformou em dono de parte da fazenda, levou a sério aquele contrato e, ao longo do tempo, fomos compadres de verdade, nas saudações e na amizade. Chico Borges morreu ainda moço, por doença cruel e rápida. Seu compadre de fogueira, mesmo já formado médico, tentou ajudar, mas nada pôde fazer. A devoção popular atribui a Santo Antonio a graça de operar milagres, para atender suspiros e preces de moças à procura de um noivo. Tenho uma amiga, já com muitos natais, que ainda não perdeu a esperança, pois o seu Santo querido “tarda mas não falta”. Muitas dessas crenças e crendices vieram com os portugueses para o Brasil, conforme estudos de Câmara Cascudo e de outros folcloristas. Antônio nasceu em Lisboa e, em vários lugares, é mais conhecido como Santo Antônio de Lisboa. O Santo morreu aos 36 anos, na Itália, perto da cidade de Pádua, e, assim, é também conhecido como Santo Antônio de Pádua. É representado por um monge franciscano, levando um menino no braço esquerdo e um lírio, símbolo da pureza, na mão direta. Em virtude de tantos milagres em vida, sua canonização ocorreu menos de um ano depois da morte. Uma curiosidade: o Padre Antônio Vieira era devoto de Santo Antônio. São João é o mais festeiro dos três. Não é à toa que a fogueira vincula-se ao seu dia, 24 de junho, quando Isabel fez queimar a lenha para avisar à prima Maria o nascimento de João Batista. E São Pedro, pescador da Galileia e protetor das viúvas? Não precisa dizer nada, basta relembrar que ele tem nas mãos as chaves do céu.