quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

 

Shakespeare nas estrelas
​Na mesma trilha das últimas semanas, vamos novamente de ficção científica. Como fã desse gênero literário/cinematográfico/televisivo, faço hoje um paralelo entre uma das suas mais badaladas franquias – “Star Trek” ou “Jornada nas Estrelas” – e o grande William Shakespeare (1564-1616).
Shakespeare, todo mundo – pelo menos o mundo interessado em literatura, arte dramática e coisas que tais – conhece ou dele já ouviu falar. É o criador de uma obra que transcende época e lugar e não pertence a qualquer religião, filosofia ou profissão. Um gênio que representa o que há de mais sublime na literatura universal ou mesmo na natureza humana. “Romeu e Julieta” (1592), “Júlio César” (1599), “Hamlet” (1599), “Otelo” (1604), “Rei Lear” (1605), “Macbeth” (1606), “Antônio e Cleópatra” (1607), apenas para citar algumas de suas tragédias, já que de uma de suas comédias eu tratarei adiante, são tudo e algo mais. Poucos – na literatura ninguém mais do que ele – conheceram a alma humana como o bardo inglês.
Já “Star Trek”, entre nós chamada “Jornada nas Estrelas”, é uma franquia estadunidense do tipo “viagem espacial”, originalmente criada por Gene Roddenberry (1921-1991), mas composta por várias séries que se sucedem no tempo. A primeira série foi ao ar em 1966. Desde então vieram “Star Trek: the Next Generation”, “Star Trek: Deep Space Nine”, “Star Trek: Voyager”, para ficar nas minhas sequências preferidas, e por aí vai. Da série original, William Shatner como o Capitão Kirk, Leonard Nimoy como o Sr. Spock e DeForest Kelley como o Dr. McCoy são rostos inesquecíveis. Da nova geração, o capitão Jean-Luc Picard (papel de Patrick Stewart) está entre meus heróis. A nave espacial Enterprise, a tão discutida viagem em dobra espacial e o inusitado teletransporte nos fazem sonhar com novos mundos. As aventuras viraram livros, quadrinhos, jogos e, claro, foram bater no cinema: os primeiros filmes, com os atores da série original, estão entre os meus queridinhos. São décadas de estelar encantamento. Não acredito haver franquia mais longeva. E são inúmeros prêmios: Hugo, Saturno, Emmy, Oscar, por anos e anos. O impacto cultural de “Star Trek”, dos seus fãs à NASA e ao espaço sideral, é cósmico.
O paralelo que faço entre o cânone shakespeariano e as estórias de “Star Trek” tem por inspiração uma observação que li em um livro perfeito para os “juristas trekianos” (traduzo: juristas fãs de “Jornada nas Estrelas”): “Star Trek Visions of Law & Justice” (editado por Robert Chairs e Bradley Chilton e publicado pela Adios Press, 2003). Dele consta: “Especialistas em estudos transdisciplinares shakespearianos nas ciências humanas gostam de enfatizar que, se alguém lê Shakespeare, essa pessoa irá encontrar na obra do bardo todos os tipos de seres humanos. Similarmente, se alguém assiste à Star Trek, essa pessoa irá achar todos os questionamentos conhecidos da condição humana – e alguns desconhecidos até que vislumbrados em Star Trek. Este é o problema acadêmico de Start Trek; ela não se encaixa perfeitamente em qualquer das ciências. Ela é uma extrapolação das ciências puras, como a física, a biologia ou a química. Ela é uma análise crítica tanto das ciências sociais em geral como da nossa história. Ela é uma literatura visual da filosofia, da ética e da arte. Start Trek, no seu melhor, pode inspirar pessoas a buscarem ser melhores sendo seres humanos; ela pode ser tanto um púlpito ameaçador quanto inspiradora poesia. Ela pode também ser, e frequentemente o é, apenas uma série/novela divertida”.
A observação transcrita confirma o que venho defendendo: a ficção científica, sublinhada aqui a ficção “Star Trek”, é o mais filosófico dos gêneros literários/cinematográficos/televisivos. E entre as “filosofias” objeto da franquia “Star Trek” está a filosofia política e a subespécie filosofia do direito. De fato, relendo “Star Trek Visions of Law & Justice”, reafirmo: “Star Trek” trata, de forma profunda, de aspectos fundamentais da filosofia do direito. Em vários dos seus episódios se discute, com grande implicação para o enredo, temas como: o conceito de soberania, federação e constituição; o direito internacional (e interstelar, como o livro chama), seus tratados e o direito interno; a jurisdição extraterritorial, a extradição e o asilo; o direito de guerra; o combate ao terrorismo; a pena de morte e as outras formas de punição; o direito e a questão do gênero; e conceitos mais abstratos, como os de Justiça e Moral e as ideias de direito e de equidade.
Bom, para os mais céticos – no duplo sentido, seja porque não gostam de ficção cientifica, seja porque só acreditam vendo ou lendo –, vou dar um exemplo típico, misturando com a obra shakespeariana, da filosofia do direito de “Star Trek”. Rogo apenas um tico de paciência.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

 A AUSÊNCIA

(HOMENAGEM A TICIANO DUARTE)

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Com a partida de Ticiano Duarte, encerrou-se um ciclo da boemia social, do humanismo e da confraria de papos e histórias da  vida natalense. Tudo começou no Grande Ponto, chão de reminiscências, de teluricidade, de mexericos da política de leva e trás, pulmão e coração da cidade dos Reis Magos dos anos cinquenta. Antes, era a Ribeira, no Cova da Onça, ruas Dr. Barata/Tavares de Lyra. A história oral do cotidiano subira para a Cidade Alta. Alguma novidade? Era a pergunta indefectível para início de qualquer assunto. Tardes e noites, o meu personagem ali era Ticiano Duarte, que à distância, na minha adolescência, o observava, como primo e hóspede estudantil dos seus pais Temístocles, Sofia, minha tia e Sililde, prima.

Ticiano, bacharel em Direito, depois com Djalma Maranhão, com Aluízio – na alegria e na dor, – com Walfredo Gurgel, cargos na gestão pública, professor universitário, jornalista, memorialista, diretor da TN, membro da Academia de Letras do RN, palestrante, líder maçônico de expressão nacional – enfim, uma vida em linha reta, com probidade e honradez. “Tício”, como o tratávamos na intimidade, não tem paradigma. Estamos órfãos. Ninguém narra um causo, um fato, um evento, com tanto sabor e tempero. Na performance, as feições acesas assumiam expressões teatrais de acordo com a tonalidade do dito. Ao derredor, onde estivesse, os ouvintes atentos e silentes, escutavam até a gargalhada final do desfecho.

Era um ator, na arte de conversar, convencer e presidir naturalmente o rumo e o prumo de qualquer reunião de amigos no “senadinho” do Natal Shopping, onde tornou-se a suave patativa vespertina da palavra facultada pelo saudoso e severo Meroveu Dantas, presidente da “instituição”. Outro foco impressionante do seu desempenho era a lucidez, a memória plantonista sobre os acontecimentos da nossa vida republicana, citando nomes, lugares e repondo verdades nos capítulos e entrelinhas das versões.

Natal perdeu, na sua figura humana, a contemporaneidade herdada dos últimos sessenta anos. Não apenas pelo seu perfil de escritor, articulista, intelectual, mas como vitrine de uma época, referência de um ser humano, marca registrada de si mesmo: pelo visual do vestir, andar, falar, agir, além de ser excelente pai, avô e amigo. Personalíssimo. Poderia falar mais sobre Ticiano Duarte principalmente pelo bom caráter de ter sido homem público e seguidor de um só líder e leal aos princípios e ideias que sempre defendeu. Porisso, eu não o comparo. Eu o separo, porque “naquela mesa está faltando ele”. Em vida, provou que os sonhos não envelhecem.

Inúmeros foram os fatos que ele me narrou e registrou. Como se o ouvisse, para concluir,  leia a história que narrei no meu livro “Causos 2010”: “Conversar com Ticiano Duarte é redescobrir o tempo e reviver figuras inesquecíveis. Num começo de noite, na calçada da Academia de Letras, vários colegas se reuniram em torno dele. Falava sobre o irrequieto poeta pernambucano Tomás Seixas, que marcou a boemia dos bares recifenses. Em pleno regime revolucionário, impressionado com o relato jornalístico do número de detidos pelos militares, decidiu procurar o quartel para prestar sua contribuição cívica, indigitando subversivos. “Quero falar com a Unidade de Informação Secreta, tenho algo importante a revelar”, disse Bebé, como era bastante conhecido, ao oficial de dia do Comando do 4º Exército. Imediatamente foi conduzido à presença do coronel responsável. Ao adentrar no gabinete, em pé, dedo em riste, o poeta logo desembucha: “Vocês estão esquecendo de prender o mais temível e perigoso comunista do Recife!!”. Sentado, o chefe militar de imediato despertou, curioso com a delação espontânea. “Quem é o sujeito?”, perguntou já reunindo à mão alguns papéis sobre o birô. “O poeta Tomás Seixas!”, exclamou o denunciante. Reflexivo por alguns segundos, o coronel informou desconhecer completamente o nome mencionado. Aí, o beletrista boêmio foi mais explícito: “Falo do poeta Bebé!”. “Ah, desse já ouvi falar. É um pobre coitado”, retrucou o militar desconversando sem dar a mínima atenção. Achado desimportante, o poeta pegou um jipão do Exército direto para o bar mais próximo.”

(*) Escritor.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

 Valério Mesquita 


NA MIRA DA VERDADE

Valério Mesquita
Mesquita.valerio@gmail.com
Aprendi a me contentar com o que sou e com o que tenho, como
falava o apóstolo Paulo. Até me compraz abordar esse tema que representa,
apenas, uma despretensiosa opinião entre milhares. Falo para lembrar que o
mundo precisa é de um bom retorno à moral, aos bons costumes e às boas
maneiras. O Brasil está grandemente desacreditado no exterior, tanto do ponto
de vista político e esportivo, bem assim com relação a segurança e a moralidade
pública. Hoje, se a polícia agir para manter a ordem social é logo acusada de
repressora. Se ela prender o criminoso ou o viciado, a legislação penal
permissiva e retrógada coloca nas ruas para repetirem tudo outra vez. O país
parece que não está mais acreditando em si mesmo.

Os princípios basilares da constituição de uma família, obra de
Deus, estão sendo confundidos e modificados pela opção individual de vida com
pessoas do mesmo sexo, em nome de falsa modernidade. Modernidade para mim
é o progresso da ciência médica, da informática, da engenharia, das
comunicações, etc. Mas, em desagrado com o que é sagrado e consagrado é
degradação, degenerescência. O direito individual de escolher a condição sexual,
é assunto exclusivo de cada um que deve ser respeitado. No entanto, tratar a
união de parceiros iguais tal e qual uma família constituída, significa destruir
uma geração que já está contaminada e descompensada pela perda da guerra
contra a droga. Aonde a sociedade brasileira quer chegar? Depois, recebe com
ceticismo o clamor popular para endurecer a legislação penal contra os menores
infratores que comandam hoje as estatísticas criminais! E ai? O governo está
criminalizando a pobreza porque falhou na educação dos jovens. Ou vamos nos
transformar numa imensa população carcerária ou tudo virar mesmo um caos.

As facções criminosas fazem “gato e sapato”. Invadem e
depredam tudo! Aliás, já ocorreu a invasão aos órgão públicos. Três de uma só
vez. Os índios já deram o bom exemplo intimidando a Câmara Federal. A
legislação brasileira sobre esses assuntos corporativos é frouxa e mixuruca. O
excesso de tolerância pode causar mortes por imprudência ou falta de autoridade.
A grande burrice da escolha nacional de gastar bilhões para salvar o falido
futebol - em vez do próprio brasileiro, ser humano, pobre, sem saúde e
segurança, é um absurdo. Viva o circo! Abaixo o pão! Um dia – o que não
desejo – mas prevejo, quando acontecer uma tragédia que atinja congressistas,
ministros da área jurídica ou suas famílias, aí sim! Será dada a largada. Os
jovens ocupam as ruas do Brasil com protestos, lutando e depredando mais para
tirar centavos de uma passagem de ônibus do que pela vida, pela punibilidade
das gangues dos crimes hediondos.

Nas antiguidades grega, romana e principalmente a judia,
revelada no Antigo Testamento, todas acreditavam em um Deus irado que punia
todos que ameaçavam os respectivos povos com catástrofes e sinistros. Na Bíblia
Sagrada, Moisés, Josué, Samuel, Ezequiel, Jeremias, Daniel, Isaías, além dos
profetas menores, todos escolhidos e inspirados por Deus, descrevem
intervenções divinas em defesa e preservação do povo judeu. Nos dias de hoje,
ante a derrocada moral do mundo, só temos a recorrer mesmo ao Altíssimo.
Esperar o retorno de Jesus Cristo, no final do milênio (se lá chegar), conforme
rezam as Escrituras, parece ser a única salvação para depurar, higienizar e
moralizar o planeta. Se não ocorrer uma medida preventiva do Céu, tudo o mais
vai piorar igual a cantiga da perua. Quem viver, verá: o diabo favorecendo os
maus e a gente pedindo a Deus que nos acuda.

(*) Escritor

 Valério Mesquita

mesquita.valerio@gmail.com
Ela ainda guardava uma beleza aflita que não morre.
De tudo quanto se esquece não pude esquecer o amor adolescente que havíamos vivido. Os seus braços ainda faziam lembrar meus cansaços e desatinos. Aquela mulher na fila comum do supermercado parecia que estava no estaleiro do tempo, estacionada nos 50 anos como se tivesse dissolvido a amargura das coisas. Os óculos escuros escondiam profundezas abissais de prazeres irrevelados e naufrágios conjugais. Ali estava plantada como uma árvore morta com raízes na minha alma. Ela que se tornara ausência em mim desde algum tempo, numa tarde morta de setembro. Não pude conter o ciúme retrospectivo. Apossou-se de mim, não mais que de repente, a fria solidão dos despossuídos. A poeira do tempo começara a lacrimejaros olhos de perdidas lembranças. Onde, aquele corpo juvenil de dançarina de mambo, rosto de Silvana Mangano e quadris de Ninon Servilha? O bongô oculto da orquestra invisível de Perez Prado cometia o milagre de resplandecer ali, as suas formas em movimento, à luz do ocaso. Ah! Tanta imaginação fugidia e ela nem olhava prá mim! Não. Ela não me vira. Com certeza. Não seria tão fingida. Outra surpresa me estava reservada.
Como se tivesse saído da multidão dos seus personagens, um jovem alto, louro, enlaçou-a num abraço afetuoso e mágico, fazendo descer pelo declive sonhos e ilusões de tudo o que já fomos. Valeria a pena dizer o nome de quem amei? Ou repetir a estrofe “de quem eu gosto, nunca falo”?
Conhecia-a na noite perdida da memória do Pax Clube de minha terra. Era a garota do baile. Isso é tudo como identidade e currículo.
Sai quando ela cruzou a porta e se enfiou no carro com o jovem marido. Um riso antigo ainda pude colher, de soslaio, da boca sensual e conhecida. O sol e o ruído, lá fora, despertavam-me para a realidade. Tudo acontecia rápido e me impelia prosseguir na sobrevida da lembrança que o tempo não desfez. Procurei o meu carro no estacionamento solfejando o samba “Recado” que junto cantávamos procurando inventar o nosso mundo. “Você errou quando olhou pra mim. Uma esperança fez nascer em mim. Depois levou pra tão longe de nós, o seu olhar no meu, a sua voz”... Brumas, nada mais.
(*) Crônica publicada no livro “Inquietudes”

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

 

Matrix filosófica
​Eu já afirmei e agora reitero: a ficção científica é o mais profundo dos gêneros literários (e cinematográficos, até por derivação). Cuida de questões eminentemente filosóficas, como as diferenças entre o ser humano e as máquinas, a própria identificação do indivíduo em si, as implicações do presente no futuro da humanidade, o conceito de tempo, os perigos da sacralização da tecnologia e de certos mecanismos de controle social, a possibilidade e os impactos de um contato com seres alienígenas etc. E dou como exemplos “Admirável mundo novo” (1932), de Aldous Huxley, “Fahrenheit 451” (1953), de Ray Bradbury, “1984” (de 1949), de George Orwell, “O Homem do Castelo Alto” (1962), de Philip K. Dick, “2001: Uma odisseia no espaço” (1968), de Arthur C. Clark e a série “Fundação” (iniciada em 1942), de Isaac Asimov. Coisas de craques.
Mas alguém pode objetar que eu fui buscar, para fundamentar minha tese, a crème de la crème da ficção científica e, de resto, obras e autores hoje pouco lidos pela população em geral. Pois, em resposta, vou tratar de uma obra cinematográfica que é sucesso de crítica e público. Assistida por milhões. A série/franquia “Matrix”, criada pelas irmãs Lana e Lilly Wachowski.
Além de outras coisitas (TV, quadrinhos, jogos etc.), são quatro filmes: “Matrix” (1999), o primeiro e o melhor da série, “Matrix Reloaded” (2003), “Matrix Revolutions” (2003) e “Matrix Resurrections” (2021). Com algumas variações, as estórias são protagonizadas por Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss e Hugo Weaving. Maravilha de divertimento.
Vocês devem conhecer a trama, que gira em torno da realidade virtual, criada por máquinas/computadores sencientes de altíssima inteligência artificial, em que vivem aprisionados os humanos. E o fato é que esse mundo ciber distópico de “Matrix” está povoado de complexos temas filosóficos e religiosos. Qualquer pesquisa na Internet vai mostrar relações da Matrix com o “Mito da Caverna” de Platão, com as peripécias de “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll, com os “Simulacros e Simulação” de Jean Baudrillard, com o Budismo e por aí vai.
Vamos aprofundar um pouco a coisa com o apoio de Daniel Shaw e do seu “Film and Philosofy: taking movies seriously” (Wallflower Press, 2008). Segundo Shaw (que, por sua vez, pede ajuda a Carolyn Korsmeyer), “Matrix” invoca “aleatoriamente uma série de problemas clássicos de percepção, para os quais a mais óbvia referência é a Primeira Meditação/Filosofia de Descartes. Os dois principais argumentos céticos de Descartes (a inabilidade de se distinguir sonhos e experiências em vigília e a hipótese do gênio maligno) encontram os seus equivalentes cinemáticos em Matrix, que induz estados de sonho que são indistinguíveis de estados normais de consciência, e assim levando à ilusão da imensa maioria da humanidade sobre tudo o que eles pensam estar experimentando. As máquinas (que tomaram o controle da Terra e usam os seres humanos como suas fontes de energia) são o equivalente do gênio maligno [de Descartes], dirigidas que são pelo plano original do Arquiteto que as criou (como nós ficamos sabendo no fim de Matrix Reloaded, de 2003). O motivo para essa ilusão coletiva era tornar mais fácil subjugar os seres humanos. Estes são levados a acreditar que ainda estão vivendo o ápice da civilização humana (e antes da descoberta da Inteligência Artificial – IA)”. Esse é apenas um exemplo, entre outros tantos, da “filosofia” que podemos encontrar na série. A filosofia e a profundidade das temáticas de “Matrix” são de tal monta que livros são escritos para se tentar entender a coisa, a exemplo de “The Matrix and Philosophy” (2002), organizado por William Irwin.
Por fim, devo registrar que há também várias questões jurídico-filosóficas a serem exploradas em “Matrix”. Por exemplo, a importância da liberdade individual, a escolha individual ou coletiva sobre o tipo/concepção de “humanidade” em que se quer “viver” (ou “sonhar” ou “viver em sonho”) ou mesmo questões de moral/ética como trair/vender seus amigos para voltar a viver na desejada Matrix, algumas delas lembradas pelo já citado Daniel Shaw.
Dito isso, indago: quem se habilita a escrever um livro “A Matrix e o Direito”?
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

 


Cartas de Cotovelo – Verão de 2023 – 6

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

GLORIOSA MARIA

Esta minha Carta de hoje não representa nenhuma súplica ou oração a Maria nossa mãe Gloriosa, mas uma singela homenagem a uma vivente que partiu, deixando exemplo e saudade – GLORIA MARIA DA SILVA, carioca de Vila Isabel, da cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, onde nasceu e viveu (15 de agosto de 1949 – 02 de fevereiro de 2023). 73 anos de vida intensa e marcante.

A imortalidade, não necessariamente, decorre daqueles ou daquelas que ingressaram em alguma Academia, mas os que deixaram frutos perenes escritos ou exemplos ofertados no correr da vida, que impõem servir de exemplo para o todo e sempre.

GLÓRIA MARIA era uma dessas criaturas. Jornalista que se notabilizou pela competência, destemor, inovação, humanidade e companheirismo.

Não tive a felicidade de conhecê-la pessoalmente, mas desde o começo de seu ingresso na Televisão cativou a atenção dos telespectadores e logo ocupou um lugar de destaque dentre os integrantes da comunicação televisiva.

Com finesse incomum, soube escolher a temática dos seus múltiplos trabalhos, realizados com criatividade e coragem.

Lembro da atenção que passei a dar às suas reportagens e comentá-las no sofá de casa com a minha Therezinha, que também a admirava.

O caminho de Glória Maria no jornalismo teve início quando ainda estudante universitária. Com muito esforço, sacrifício até, conciliava a sua profissão com empregos que lhe garantiam a sobrevivência.

Depois foi funcionária da Globo (1970), onde ofertou a sua fidelidade até a viagem final, fazendo o registro de sua presença nos acontecimentos mais importantes da história do Brasil e, também de países estrangeiros de então, entrevistando, desde as pessoas mais simples até a imponência dos advindos de família real, de astros, esportistas e heróis que se destacaram nesse mundo de meu DEUS.

Na Globo, participou dos programas mais icônicos, incluindo a apresentação, por 10 anos, de O Fantástico.

No correr da vida resolveu adotar Maria e Laura, às quais ofertou uma educação exemplar, sem exposição ao público.

Foi pioneira na altivez de defesa da raça negra, mostrando a sua extraordinária competência com coragem e determinação.

Aqui, apresento o meu profundo sentimento pela partida de tão estimada pessoa, a quem, enquanto vida tiver, não deixarei de lembrar.

Deus a receba em sua Casa Celestial.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

 


Augusto Severo, macaibense ilustre

 

 

Padre João Medeiros Filho (*)

pe.medeiros@hotmail.com

 

Os seus restos mortais encontram-se custodiados pelo Instituto Histórico e Geográfico do RN, aguardando o mausoléu definitivo. Reconhecemos e agradecemos os esforços daqueles que se engajaram, ontem e hoje, na luta para que o traslado acontecesse. Todavia, há um dado que parece esquecido e necessita de registro histórico. Trata-se do gesto de Valério Alfredo Mesquita e Odiléia Mércia da Costa, há quarenta anos. Eis o que ela afirmou em carta publicada no Diário de Natal, aos 29 de setembro de 1983: “A ideia da remoção dos restos mortais do aeronauta Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, do Rio de Janeiro para a sua cidade Macaíba, não é minha e nem de agora. Ela é antiga e até Mestre Luís da Câmara Cascudo e outros se pronunciaram favoravelmente.” Há um brocardo jurídico, inspirado em Santo Agostinho: “Unicuique suum tribuere” (A cada um o que lhe cabe e merece).

Em 1983, Dr. Valério presidia a Fundação José Augusto e a Senhora Odiléia era a Prefeita de Macaíba. À época, representávamos aquela Fundação junto aos órgãos culturais, sediados no Rio de Janeiro. Ali, exercemos, dentre nossas atividades eclesiásticas, as funções de vigário da Igreja de São João Batista (em Botafogo), em cujo cemitério jaziam os restos mortais de Augusto Severo. Igualmente naquela Cidade, no Colégio e Convento Santa Doroteia (situado à Rua do Bispo nº 191, Rio Comprido), residia a veneranda Madre Maranhão (Berta Augusta de Albuquerque Maranhão), filha do grande vulto macaibense.

Naquele bairro carioca (onde viemos habitar posteriormente com nossos familiares), morava uma grande amiga, Theresinha de Souza Machado, ex-aluna de Madre Maranhão. Ela agendou um contato nosso com a antiga mestra. Em junho de 1983, hora e dia aprazados, acompanhamos o Presidente da Fundação e a Prefeita ao convento. Ambos expuseram à freira o desejo dos conterrâneos de trazer os restos mortais de Augusto Severo para sua terra natal. Na ocasião, foi entregue à religiosa um documento da municipalidade, assegurando a construção de um jazigo condizente com o ilustre potiguar. Tranquilamente, a Madre expressou seu assentimento sobre o assunto. O Presidente da Fundação e a Prefeita de Macaíba prontificaram-se em providenciar as passagens aéreas para a religiosa acompanhar o traslado. No dia seguinte, após o encontro, fomos à referida necrópole para saber das futuras tratativas. Como vigário daquele bairro, íamos frequentemente ali presidir cerimônias litúrgicas. Recebeu-nos o administrador, o qual nos inteirou sobre os procedimentos necessários.

De retorno a Natal, o Presidente da Fundação e a Prefeita procuraram iniciar os passos para concretizar o projeto. Entretanto, alguns descendentes de Augusto Severo, manifestaram discordância, inclusive pela imprensa. É o que se infere de longa matéria publicada no Diário de Natal, datada de 26/09/83. O Senhor Augusto Severo Neto, representando a família, em correspondência endereçada à então Prefeita de Macaíba, publicada no Diário de Natal, nessa mesma data, assim se expressou: “Nossa tia, de já noventa e dois anos de idade, telefonou-nos, aflita, dizendo-nos ter sido procurada pela Senhora Prefeita, acompanhada de seu marido e um padre (grifos nossos) para solicitar permissão para o translado, mas que era absolutamente contra.” Entretanto, não foi isso o que ouvimos da veneranda religiosa, muito lúcida ainda. A aquiescência formal da religiosa consta na carta enviada à Prefeita Odiléia, publicada integralmente no Diário de Natal, edição de 29/09/83. Ali, pode-se ler frases lapidares: “O amor filial e a sensibilidade feminina dariam preferência a conservar, onde, até o momento, estão os restos mortais de meu inesquecível Pai... Mas, o coração deve ceder aos motivos da Razão e ao Amor à Pátria que se expressarão na homenagem que pretendem lhe prestar” [em sua terra].

Diante da desaprovação de alguns familiares de Augusto Severo, Dr. Valério e a Sra. Odiléia desistiram das tratativas, “ad bonum pacis” (para o bem da paz). Sempre desejamos conhecer a história daquele que deu nome, por algumas décadas, à cidade de Campo Grande, berço de nossos pais. A Providência Divina quisera que, em 2011, fôssemos acolhidos para ocupar a cadeira 18 da Academia Norte-rio-grandense de Letras, da qual Augusto Severo é patrono. Dissera Cristo aos seus concidadãos: “Dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21).

 

(*) Da Academia Norte-Riograndense de Letras


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

 

Altíssima ficção
​Vou seguir tratando da controversa divisão entre “alta” e “baixa” literatura. E, desta feita, vou focar na ficção científica, um dos mais importantes e populares gêneros de literatura. Seus fãs, seus clubes, seus prêmios (sendo o Nebula e o Hugo os mais prestigiados) são muitíssimos. Suas estórias vendem aos tubos. Invariavelmente, essas estórias vão bater nas telas grande e pequena. Sucesso para além das fronteiras da nossa imaginação. E eu a acho uma literatura estelar.
​Embora já existisse alguma produção do tipo desde o Iluminismo – afinal, com as “luzes” focamos na ciência –, convencionalmente, tem-se nas aventuras e na “littérature d’anticipation” de Jules Verne e na “science fiction” de H. G. Wells os precursores do gênero ficção científica. Como anota Miklós Szabolcsi (em “Literatura universal do século XX: principais correntes”, Editora Universidade de Brasília, 1990), “essa nova corrente inicia-se com Jules Verne, cuja obra ainda mantém em equilíbrio harmônico os elementos históricos, a descrição humana e futurologia técnica, caraterísticas que, com certeza, encerram o segredo de sua influência e de seu sucesso junto aos leitores; Herbert George Wells, por sua vez, apresenta utopias técnicas mais amargas e agourentas, que mostram um futuro distante forrado de pessimismo com relação ao ser humano”.
Sem demérito algum ao autor de “A máquina do tempo” (“The Time Machine”, 1895) e “A Guerra dos Mundos” (“The War of the Worlds”, 1898), devo aqui anotar que sou um fã de Verne, de suas “Viagem ao centro da terra” (“Voyage au centre de la terre”, 1864), “Vinte Mil Léguas Submarinas” (“Vingt mille lieues sous les mers”, 1870), “A volta ao mundo em 80 dias” (“Le tour du monde en quatre-vingts jours”, 1873) e, ao final, do seu conjunto “Viagens Extraordinárias” (“Voyages Extraordinaries”). Como aduz Bruno Blasselle, em “Histoire du livre: le triomphe de l’édition” (Gallimard, 2006, vol. 2), “se existe um autor no qual o progresso científico há inflamado a imaginação das pessoas, este é Jules Verne”, alegadamente o escritor mais traduzido da história.
É necessário registrar que o gênero ficção científica tem fronteiras muito mais amplas do que costumamos imaginar (afinal, onde estão as fronteiras da imaginação?). Aqui quero dizer que nesse gênero estão muito mais do que um “2001: Uma odisseia no espaço” (“2001: A Space Odyssey”, 1968), de Arthur C. Clark, para didaticamente darmos um exemplo marcadamente específico dessa literatura (e do cinema dela decorrente). Por exemplo, no gênero ficção científica entram distopias como “Admirável mundo novo” (“Brave New World”, 1932), de Aldous Huxley, “Fahrenheit 451” (1953), de Ray Bradbury, “1984” (“Nineteen Eighty-Four”, 1949), de George Orwell e “O Homem do Castelo Alto” (“The Man in the High Castle”, 1962), de Philip K. Dick. Temores do presente projetados num futuro até “próximo”. E, claro, distopias interplanetárias mais que ousadas, baseadas nas descobertas científicas de hoje e suas possibilidades de realização futuras quase infinitas. Este é o caso de Isaac Asimov e sua série, obra-prima da literatura, “Fundação” (“Foundation”, iniciada em 1942). Alguém pode querer literaturas de nível mais elevado do que as proporcionadas pelos autores e livros acima citados?
Doutra banda, é crucial aqui afastar o preconceito, vinculado à confusão entre o gênero ficção científica e um certo tipo de cinema/TV baseado nele, que alguns enxergam como superficial ou mesmo “mentiroso demais”. Pode até existir. Mas é fato já constatado a realização de muitas das “ficções” previstas por aqueles grandes autores “mentirosos”, digo “visionários”.
Para encerrar, ouso vaticinar que a ficção científica é o mais filosófico/profundo dos gêneros literários (e cinematográficos), na esteira do que defende Daniel Shaw, em seu “Film and Philosofy: taking movies seriously” (Wallflower Press, 2008), cujo título parece uma derivação do clássico “Taking Rights Seriously”, de Ronald Dworkin. De fato, cuidadosamente observando, a ficção científica trata de questões eminentemente filosóficas, como as diferenças entre o ser humano e as máquinas, a própria identificação do indivíduo em si, as implicações do presente no futuro da humanidade, o conceito de tempo, os perigos da sacralização da tecnologia e de certos mecanismos de controle social, a possibilidade e os impactos de um contato com seres alienígenas, entre muitos outros. Isso – que reafirmo aqui – não é mentirinha. É fato.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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A solidão povoada

Padre João Medeiros Filho

Um dos grandes desafios de nossos dias consiste em superar a insensibilidade social. É verdade que as tecnologias modernas favorecem a aproximação. Entretanto, apresentam um efeito adverso. Por exemplo: em casa, nos restaurantes, ônibus, consultórios etc. contam-se nos dedos aqueles que conversam com quem está ao lado. O contato é cada vez mais digitalizado ou por mensagem de voz. Há sinais evidentes de contradição. Verifica-se grande solidariedade pelas vítimas de catástrofes nacionais ou internacionais, mas ignora-se o pobre de mão estendida, que bate na janela do carro, suplicando uma ajuda. Há uma comoção pelos atingidos em desastres e acidentes, divulgados pela mídia. Porém, o mesmo não acontece diante do sofrimento daqueles que povoam os corredores e filas dos hospitais públicos de nossas cidades. Por vezes, fica-se anestesiado diante da dor tão próxima, mas sensível e solidário com o infortúnio distante. Apresentam-se várias justificativas para a indiferença ou ausência.

Nos dias de hoje, morar na mesma cidade, bairro, rua ou prédio não garante infelizmente uma convivência atenciosa entre as pessoas. É comum os vizinhos do mesmo edifício ou condomínio serem desconhecidos. Muitos experimentam o que se denomina solidão povoada. Vive-se sozinho, apesar de cercado de pessoas por todos os lados. As novas possibilidades suscitadas com o avião, telefone, internet e as redes sociais não conseguiram destruir as lógicas e dinâmicas que criam desencontros, exclusões, indiferença e até violência. 

Não se pode negar que uma convivência tranquila entre os seres humanos é salutar. Cristo pressentiu essa terrível solidão e prometeu a sua companhia: “Não vos deixarei órfãos [sozinhos]... estarei convosco todos os dias” (Jo 14, 18). Vive-se paradoxalmente a civilização da distância, insensibilidade e solidão. A indiferença pode gerar antipatia, desrespeito e até agressividade. Isto mostra que o mundo não compreendeu ainda a mensagem de fraternidade e amor de Deus feito homem. É um direito de todos serem acolhidos com atenção, respeito e reconhecidos em sua dignidade. As criaturas sentem necessidade de ser bem tratadas, ouvidas, amparadas em suas necessidades, abraçadas e amadas. É preciso descobrir no Evangelho a ternura e a compaixão de Cristo pelos desvalidos, carentes, excluídos e enfermos. Infelizmente, não é isso o que predomina atualmente nas relações humanas e sociais. Constatam-se cada vez mais práticas e posturas individualistas, excludentes e uma tendência à globalização da indiferença social. Dom Helder Câmara exclamou em um de seus programas, na Rádio Olinda: “Somos ainda pagãos. Fomos batizados apenas no corpo, mas não na mente. É preciso batizar as regiões pagãs de nossa alma.”

Compartilhar o amor é a energia mais poderosa no processo de humanização. Por isso, Jesus ensinou: “Amai-vos uns aos outros... Nisto conhecereis que sois meus discípulos” (Jo 13, 34-35). Santa Dulce dos Pobres também afirmou: “O mundo necessita mais de amor e atenção do que de pão.” Deus concedeu ao homem a liberdade. Mas, é preciso lembrar que ela não elimina nossa ambivalência. Assim, ter-se-á sempre a possibilidade de amar ou odiar, ajudar ou dificultar, repartir ou reter, ser generoso ou egoísta. Esta condição pede vigilância e discernimento nas escolhas.

O ser humano paulatinamente passou a ser coisificado e reduzido a mero consumidor. E como consumir exige ter dinheiro, este passou a ser cobiçado, tornando-se a pérola preciosa a ser buscada e disputada por todos. É lamentável, mas na sociedade hodierna, quem não tem dinheiro vale pouco. A vida passou a ser regida por ganhar e acumular, e não respeitar e amar. Aí reside uma parte significativa da cultura da insensibilidade social. Poucos se indignam e reagem ainda diante da injustiça e exclusão. Nem mesmo os governantes, escolhidos e pagos para lutar contra essa realidade. É preciso pensar no poder do amor e na força da solidariedade, que suscitam entusiasmo e transformações culturais e sociais. Nisto está a grandeza da obra de Francisco de Assis, Tereza de Calcutá, Padre João Maria, Padre Ibiapina e tantos outros que concretizaram mudanças sociais em seu tempo e contexto. Eis o conselho do apóstolo Paulo: “Vesti-vos com os sentimentos de compaixão, bondade, mansidão, humildade e paciência. Ajudai-vos uns aos outros” (Col 13, 3).

domingo, 29 de janeiro de 2023

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 2023 – 5

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

MANHÃ DE VERANEIO

Mais um dia que surge, sob um sol maravilhoso como dádiva do Criador. Os pássaros foram os primeiros e os seus gorjeios me despertaram do sono de um outro dia dadivoso. Quiçá a paz de criança dormindo!

Mesmo com este cenário maravilhoso que a Praia de Cotovelo nos oferece, não consigo apagar um pouco de nostalgia e saudade, quando falta a presença de THEREZA, mentora de todos os programas dos dias de veraneio, principalmente do domingo, quando passeávamos na orla e tirávamos fotografias que registraram durante 71 anos de convivência, uma amizade e um amor, daqueles que podemos dizer, sonhado e realizado.

Claro está que estou agora em imensa regressão no tempo e isso não pode causar espanto, eis que já caminho para os 84 anos de uma vida que somente deixou saudades de vitórias, de alegria, de convivência, embora também estivessem presentes instantes de perdas e dor, porque é a sina de todo cristão vivente ou, apenas de todo vivente.

Me perdoem, mas todos nós temos, de vez em quando, momentos de depressão, doença que nos impõe sofrimento.

Nesses instantes volto-me para Deus e sua grandeza e dos ensinamentos do Cristo Nosso Senhor, da Santa Mãe Maria e do operoso e exemplar José, ou mesmo, uma boa e salutar leitura, como “De uma longa Caminhada”, do meu amigo Honório de Medeiros, de onde colhi essa preciosidade:

Quero me sentar nas calçadas nos finais de tarde, xícara de café na mão, o chiste, o juízo-temerário, a anedota, a estória e a história na ponta da língua e na raiz do ouvido, o pensar leve, o dizer ameno, o lamento – se houver – sentido, enquanto a vida passa como em um sonho, suave e derruidora, o tempo se esgota evanescente até que não haja mais o momento seguinte e eu, sábio posto que velho – assim espero -possa ter a certeza de que tudo pelo qual se ensanguenta o homem, a não ser quando em defesa de si e dos seus, não vale a pena, e que acertei quando despi meu espírito, até o nada, do supérfluo, e compreendi o tamanho de minha ignorância.

Nada a reclamar e tudo a agradecer – esta natureza exuberante que não estamos sabendo cuidar; desse clima de humanidade, que não estamos conduzindo de forma competente; alimento que recebemos todos os dias; das companhias dos familiares e dos amigos, sempre gentis e prestativos.

Particularmente, adoro esta Comunidade ordeira de Pium e Cotovelo, a simplicidade do seu povo e solidariedade dos visitantes, bem presentes nas missas dominicais do Padre Sidnei, cativante porque singela.