quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

 


Augusto Severo, macaibense ilustre

 

 

Padre João Medeiros Filho (*)

pe.medeiros@hotmail.com

 

Os seus restos mortais encontram-se custodiados pelo Instituto Histórico e Geográfico do RN, aguardando o mausoléu definitivo. Reconhecemos e agradecemos os esforços daqueles que se engajaram, ontem e hoje, na luta para que o traslado acontecesse. Todavia, há um dado que parece esquecido e necessita de registro histórico. Trata-se do gesto de Valério Alfredo Mesquita e Odiléia Mércia da Costa, há quarenta anos. Eis o que ela afirmou em carta publicada no Diário de Natal, aos 29 de setembro de 1983: “A ideia da remoção dos restos mortais do aeronauta Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, do Rio de Janeiro para a sua cidade Macaíba, não é minha e nem de agora. Ela é antiga e até Mestre Luís da Câmara Cascudo e outros se pronunciaram favoravelmente.” Há um brocardo jurídico, inspirado em Santo Agostinho: “Unicuique suum tribuere” (A cada um o que lhe cabe e merece).

Em 1983, Dr. Valério presidia a Fundação José Augusto e a Senhora Odiléia era a Prefeita de Macaíba. À época, representávamos aquela Fundação junto aos órgãos culturais, sediados no Rio de Janeiro. Ali, exercemos, dentre nossas atividades eclesiásticas, as funções de vigário da Igreja de São João Batista (em Botafogo), em cujo cemitério jaziam os restos mortais de Augusto Severo. Igualmente naquela Cidade, no Colégio e Convento Santa Doroteia (situado à Rua do Bispo nº 191, Rio Comprido), residia a veneranda Madre Maranhão (Berta Augusta de Albuquerque Maranhão), filha do grande vulto macaibense.

Naquele bairro carioca (onde viemos habitar posteriormente com nossos familiares), morava uma grande amiga, Theresinha de Souza Machado, ex-aluna de Madre Maranhão. Ela agendou um contato nosso com a antiga mestra. Em junho de 1983, hora e dia aprazados, acompanhamos o Presidente da Fundação e a Prefeita ao convento. Ambos expuseram à freira o desejo dos conterrâneos de trazer os restos mortais de Augusto Severo para sua terra natal. Na ocasião, foi entregue à religiosa um documento da municipalidade, assegurando a construção de um jazigo condizente com o ilustre potiguar. Tranquilamente, a Madre expressou seu assentimento sobre o assunto. O Presidente da Fundação e a Prefeita de Macaíba prontificaram-se em providenciar as passagens aéreas para a religiosa acompanhar o traslado. No dia seguinte, após o encontro, fomos à referida necrópole para saber das futuras tratativas. Como vigário daquele bairro, íamos frequentemente ali presidir cerimônias litúrgicas. Recebeu-nos o administrador, o qual nos inteirou sobre os procedimentos necessários.

De retorno a Natal, o Presidente da Fundação e a Prefeita procuraram iniciar os passos para concretizar o projeto. Entretanto, alguns descendentes de Augusto Severo, manifestaram discordância, inclusive pela imprensa. É o que se infere de longa matéria publicada no Diário de Natal, datada de 26/09/83. O Senhor Augusto Severo Neto, representando a família, em correspondência endereçada à então Prefeita de Macaíba, publicada no Diário de Natal, nessa mesma data, assim se expressou: “Nossa tia, de já noventa e dois anos de idade, telefonou-nos, aflita, dizendo-nos ter sido procurada pela Senhora Prefeita, acompanhada de seu marido e um padre (grifos nossos) para solicitar permissão para o translado, mas que era absolutamente contra.” Entretanto, não foi isso o que ouvimos da veneranda religiosa, muito lúcida ainda. A aquiescência formal da religiosa consta na carta enviada à Prefeita Odiléia, publicada integralmente no Diário de Natal, edição de 29/09/83. Ali, pode-se ler frases lapidares: “O amor filial e a sensibilidade feminina dariam preferência a conservar, onde, até o momento, estão os restos mortais de meu inesquecível Pai... Mas, o coração deve ceder aos motivos da Razão e ao Amor à Pátria que se expressarão na homenagem que pretendem lhe prestar” [em sua terra].

Diante da desaprovação de alguns familiares de Augusto Severo, Dr. Valério e a Sra. Odiléia desistiram das tratativas, “ad bonum pacis” (para o bem da paz). Sempre desejamos conhecer a história daquele que deu nome, por algumas décadas, à cidade de Campo Grande, berço de nossos pais. A Providência Divina quisera que, em 2011, fôssemos acolhidos para ocupar a cadeira 18 da Academia Norte-rio-grandense de Letras, da qual Augusto Severo é patrono. Dissera Cristo aos seus concidadãos: “Dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21).

 

(*) Da Academia Norte-Riograndense de Letras


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

 

Altíssima ficção
​Vou seguir tratando da controversa divisão entre “alta” e “baixa” literatura. E, desta feita, vou focar na ficção científica, um dos mais importantes e populares gêneros de literatura. Seus fãs, seus clubes, seus prêmios (sendo o Nebula e o Hugo os mais prestigiados) são muitíssimos. Suas estórias vendem aos tubos. Invariavelmente, essas estórias vão bater nas telas grande e pequena. Sucesso para além das fronteiras da nossa imaginação. E eu a acho uma literatura estelar.
​Embora já existisse alguma produção do tipo desde o Iluminismo – afinal, com as “luzes” focamos na ciência –, convencionalmente, tem-se nas aventuras e na “littérature d’anticipation” de Jules Verne e na “science fiction” de H. G. Wells os precursores do gênero ficção científica. Como anota Miklós Szabolcsi (em “Literatura universal do século XX: principais correntes”, Editora Universidade de Brasília, 1990), “essa nova corrente inicia-se com Jules Verne, cuja obra ainda mantém em equilíbrio harmônico os elementos históricos, a descrição humana e futurologia técnica, caraterísticas que, com certeza, encerram o segredo de sua influência e de seu sucesso junto aos leitores; Herbert George Wells, por sua vez, apresenta utopias técnicas mais amargas e agourentas, que mostram um futuro distante forrado de pessimismo com relação ao ser humano”.
Sem demérito algum ao autor de “A máquina do tempo” (“The Time Machine”, 1895) e “A Guerra dos Mundos” (“The War of the Worlds”, 1898), devo aqui anotar que sou um fã de Verne, de suas “Viagem ao centro da terra” (“Voyage au centre de la terre”, 1864), “Vinte Mil Léguas Submarinas” (“Vingt mille lieues sous les mers”, 1870), “A volta ao mundo em 80 dias” (“Le tour du monde en quatre-vingts jours”, 1873) e, ao final, do seu conjunto “Viagens Extraordinárias” (“Voyages Extraordinaries”). Como aduz Bruno Blasselle, em “Histoire du livre: le triomphe de l’édition” (Gallimard, 2006, vol. 2), “se existe um autor no qual o progresso científico há inflamado a imaginação das pessoas, este é Jules Verne”, alegadamente o escritor mais traduzido da história.
É necessário registrar que o gênero ficção científica tem fronteiras muito mais amplas do que costumamos imaginar (afinal, onde estão as fronteiras da imaginação?). Aqui quero dizer que nesse gênero estão muito mais do que um “2001: Uma odisseia no espaço” (“2001: A Space Odyssey”, 1968), de Arthur C. Clark, para didaticamente darmos um exemplo marcadamente específico dessa literatura (e do cinema dela decorrente). Por exemplo, no gênero ficção científica entram distopias como “Admirável mundo novo” (“Brave New World”, 1932), de Aldous Huxley, “Fahrenheit 451” (1953), de Ray Bradbury, “1984” (“Nineteen Eighty-Four”, 1949), de George Orwell e “O Homem do Castelo Alto” (“The Man in the High Castle”, 1962), de Philip K. Dick. Temores do presente projetados num futuro até “próximo”. E, claro, distopias interplanetárias mais que ousadas, baseadas nas descobertas científicas de hoje e suas possibilidades de realização futuras quase infinitas. Este é o caso de Isaac Asimov e sua série, obra-prima da literatura, “Fundação” (“Foundation”, iniciada em 1942). Alguém pode querer literaturas de nível mais elevado do que as proporcionadas pelos autores e livros acima citados?
Doutra banda, é crucial aqui afastar o preconceito, vinculado à confusão entre o gênero ficção científica e um certo tipo de cinema/TV baseado nele, que alguns enxergam como superficial ou mesmo “mentiroso demais”. Pode até existir. Mas é fato já constatado a realização de muitas das “ficções” previstas por aqueles grandes autores “mentirosos”, digo “visionários”.
Para encerrar, ouso vaticinar que a ficção científica é o mais filosófico/profundo dos gêneros literários (e cinematográficos), na esteira do que defende Daniel Shaw, em seu “Film and Philosofy: taking movies seriously” (Wallflower Press, 2008), cujo título parece uma derivação do clássico “Taking Rights Seriously”, de Ronald Dworkin. De fato, cuidadosamente observando, a ficção científica trata de questões eminentemente filosóficas, como as diferenças entre o ser humano e as máquinas, a própria identificação do indivíduo em si, as implicações do presente no futuro da humanidade, o conceito de tempo, os perigos da sacralização da tecnologia e de certos mecanismos de controle social, a possibilidade e os impactos de um contato com seres alienígenas, entre muitos outros. Isso – que reafirmo aqui – não é mentirinha. É fato.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

0 comentários

 

A solidão povoada

Padre João Medeiros Filho

Um dos grandes desafios de nossos dias consiste em superar a insensibilidade social. É verdade que as tecnologias modernas favorecem a aproximação. Entretanto, apresentam um efeito adverso. Por exemplo: em casa, nos restaurantes, ônibus, consultórios etc. contam-se nos dedos aqueles que conversam com quem está ao lado. O contato é cada vez mais digitalizado ou por mensagem de voz. Há sinais evidentes de contradição. Verifica-se grande solidariedade pelas vítimas de catástrofes nacionais ou internacionais, mas ignora-se o pobre de mão estendida, que bate na janela do carro, suplicando uma ajuda. Há uma comoção pelos atingidos em desastres e acidentes, divulgados pela mídia. Porém, o mesmo não acontece diante do sofrimento daqueles que povoam os corredores e filas dos hospitais públicos de nossas cidades. Por vezes, fica-se anestesiado diante da dor tão próxima, mas sensível e solidário com o infortúnio distante. Apresentam-se várias justificativas para a indiferença ou ausência.

Nos dias de hoje, morar na mesma cidade, bairro, rua ou prédio não garante infelizmente uma convivência atenciosa entre as pessoas. É comum os vizinhos do mesmo edifício ou condomínio serem desconhecidos. Muitos experimentam o que se denomina solidão povoada. Vive-se sozinho, apesar de cercado de pessoas por todos os lados. As novas possibilidades suscitadas com o avião, telefone, internet e as redes sociais não conseguiram destruir as lógicas e dinâmicas que criam desencontros, exclusões, indiferença e até violência. 

Não se pode negar que uma convivência tranquila entre os seres humanos é salutar. Cristo pressentiu essa terrível solidão e prometeu a sua companhia: “Não vos deixarei órfãos [sozinhos]... estarei convosco todos os dias” (Jo 14, 18). Vive-se paradoxalmente a civilização da distância, insensibilidade e solidão. A indiferença pode gerar antipatia, desrespeito e até agressividade. Isto mostra que o mundo não compreendeu ainda a mensagem de fraternidade e amor de Deus feito homem. É um direito de todos serem acolhidos com atenção, respeito e reconhecidos em sua dignidade. As criaturas sentem necessidade de ser bem tratadas, ouvidas, amparadas em suas necessidades, abraçadas e amadas. É preciso descobrir no Evangelho a ternura e a compaixão de Cristo pelos desvalidos, carentes, excluídos e enfermos. Infelizmente, não é isso o que predomina atualmente nas relações humanas e sociais. Constatam-se cada vez mais práticas e posturas individualistas, excludentes e uma tendência à globalização da indiferença social. Dom Helder Câmara exclamou em um de seus programas, na Rádio Olinda: “Somos ainda pagãos. Fomos batizados apenas no corpo, mas não na mente. É preciso batizar as regiões pagãs de nossa alma.”

Compartilhar o amor é a energia mais poderosa no processo de humanização. Por isso, Jesus ensinou: “Amai-vos uns aos outros... Nisto conhecereis que sois meus discípulos” (Jo 13, 34-35). Santa Dulce dos Pobres também afirmou: “O mundo necessita mais de amor e atenção do que de pão.” Deus concedeu ao homem a liberdade. Mas, é preciso lembrar que ela não elimina nossa ambivalência. Assim, ter-se-á sempre a possibilidade de amar ou odiar, ajudar ou dificultar, repartir ou reter, ser generoso ou egoísta. Esta condição pede vigilância e discernimento nas escolhas.

O ser humano paulatinamente passou a ser coisificado e reduzido a mero consumidor. E como consumir exige ter dinheiro, este passou a ser cobiçado, tornando-se a pérola preciosa a ser buscada e disputada por todos. É lamentável, mas na sociedade hodierna, quem não tem dinheiro vale pouco. A vida passou a ser regida por ganhar e acumular, e não respeitar e amar. Aí reside uma parte significativa da cultura da insensibilidade social. Poucos se indignam e reagem ainda diante da injustiça e exclusão. Nem mesmo os governantes, escolhidos e pagos para lutar contra essa realidade. É preciso pensar no poder do amor e na força da solidariedade, que suscitam entusiasmo e transformações culturais e sociais. Nisto está a grandeza da obra de Francisco de Assis, Tereza de Calcutá, Padre João Maria, Padre Ibiapina e tantos outros que concretizaram mudanças sociais em seu tempo e contexto. Eis o conselho do apóstolo Paulo: “Vesti-vos com os sentimentos de compaixão, bondade, mansidão, humildade e paciência. Ajudai-vos uns aos outros” (Col 13, 3).

domingo, 29 de janeiro de 2023

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 2023 – 5

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

MANHÃ DE VERANEIO

Mais um dia que surge, sob um sol maravilhoso como dádiva do Criador. Os pássaros foram os primeiros e os seus gorjeios me despertaram do sono de um outro dia dadivoso. Quiçá a paz de criança dormindo!

Mesmo com este cenário maravilhoso que a Praia de Cotovelo nos oferece, não consigo apagar um pouco de nostalgia e saudade, quando falta a presença de THEREZA, mentora de todos os programas dos dias de veraneio, principalmente do domingo, quando passeávamos na orla e tirávamos fotografias que registraram durante 71 anos de convivência, uma amizade e um amor, daqueles que podemos dizer, sonhado e realizado.

Claro está que estou agora em imensa regressão no tempo e isso não pode causar espanto, eis que já caminho para os 84 anos de uma vida que somente deixou saudades de vitórias, de alegria, de convivência, embora também estivessem presentes instantes de perdas e dor, porque é a sina de todo cristão vivente ou, apenas de todo vivente.

Me perdoem, mas todos nós temos, de vez em quando, momentos de depressão, doença que nos impõe sofrimento.

Nesses instantes volto-me para Deus e sua grandeza e dos ensinamentos do Cristo Nosso Senhor, da Santa Mãe Maria e do operoso e exemplar José, ou mesmo, uma boa e salutar leitura, como “De uma longa Caminhada”, do meu amigo Honório de Medeiros, de onde colhi essa preciosidade:

Quero me sentar nas calçadas nos finais de tarde, xícara de café na mão, o chiste, o juízo-temerário, a anedota, a estória e a história na ponta da língua e na raiz do ouvido, o pensar leve, o dizer ameno, o lamento – se houver – sentido, enquanto a vida passa como em um sonho, suave e derruidora, o tempo se esgota evanescente até que não haja mais o momento seguinte e eu, sábio posto que velho – assim espero -possa ter a certeza de que tudo pelo qual se ensanguenta o homem, a não ser quando em defesa de si e dos seus, não vale a pena, e que acertei quando despi meu espírito, até o nada, do supérfluo, e compreendi o tamanho de minha ignorância.

Nada a reclamar e tudo a agradecer – esta natureza exuberante que não estamos sabendo cuidar; desse clima de humanidade, que não estamos conduzindo de forma competente; alimento que recebemos todos os dias; das companhias dos familiares e dos amigos, sempre gentis e prestativos.

Particularmente, adoro esta Comunidade ordeira de Pium e Cotovelo, a simplicidade do seu povo e solidariedade dos visitantes, bem presentes nas missas dominicais do Padre Sidnei, cativante porque singela.

sábado, 28 de janeiro de 2023

 NA MIRA DA VERDADE


Aprendi a me contentar com o que sou e com o que tenho, como

falava o apóstolo Paulo. Até me compraz abordar esse tema que 

representa, apenas, uma despretensiosa opinião entre milhares. 

Falo para lembrar que o mundo precisa é de um bom retorno à 

moral, aos bons costumes e às boas maneiras. 

O Brasil está grandemente desacreditado no exterior, tanto do 

ponto de vista político e esportivo, bem assim com relação a 

segurança e a moralidade pública. Hoje, se a polícia agir para 

manter a ordem social é logo acusada de repressora. Se ela 

prender o criminoso ou o viciado, a legislação penal 

permissiva e retrógada coloca nas ruas para repetirem tudo 

outra vez. 

O país parece que não está mais acreditando em si mesmo.

 

Os princípios basilares da constituição de uma família, obra de

Deus, estão sendo confundidos e modificados pela opção 

individual de vida com pessoas do mesmo sexo, em nome de 

falsa modernidade. Modernidade para mim é o progresso da 

ciência médica, da informática, da engenharia, das

comunicações, etc. Mas, em desagrado com o que é sagrado 

e consagrado é degradação, degenerescência. 

O direito individual de escolher a condição sexual, é assunto 

exclusivo de cada um que deve ser respeitado. No entanto, 

tratar a união de parceiros iguais tal e qual uma família 

constituída, significa destruir uma geração que já está 

contaminada e descompensada pela perda da guerra

contra a droga. Aonde a sociedade brasileira quer chegar? 

Depois, recebe com ceticismo o clamor popular para 

endurecer a legislação penal contra os menores infratores 

que comandam hoje as estatísticas criminais! 

E ai? O governo está criminalizando a pobreza porque falhou 

na educação dos jovens. Ou vamos nos transformar numa imensa

 população carcerária ou tudo virar mesmo um caos.

As facções criminosas fazem “gato e sapato”. Invadem e

depredam tudo! Aliás, já ocorreu a invasão aos órgão públicos. 

Três de uma só vez. Os índios já deram o bom exemplo 

intimidando a Câmara Federal. 

legislação brasileira sobre esses assuntos corporativos é 

frouxa e mixuruca. 

excesso de tolerância pode causar mortes por imprudência 

ou falta de autoridade.

A grande burrice da escolha nacional de gastar bilhões para 

salvar o falido futebol - em vez do próprio brasileiro, ser 

humano, pobre, sem saúde e segurança, é um absurdo. 

Viva o circo! Abaixo o pão! Um dia – o que não

desejo – mas prevejo, quando acontecer uma tragédia que 

atinja congressistas, ministros da área jurídica ou suas 

famílias, aí sim! Será dada a largada. Os jovens ocupam 

as ruas do Brasil com protestos, lutando e depredando 

mais para tirar centavos de uma passagem de ônibus do 

que pela vida, pela punibilidade das gangues dos crimes 

hediondos.

Nas antiguidades grega, romana e principalmente a judia,

revelada no Antigo Testamento, todas acreditavam em um 

Deus irado que punia todos que ameaçavam os respectivos 

povos com catástrofes e sinistros. Na Bíblia Sagrada, Moisés, 

Josué, Samuel, Ezequiel, Jeremias, Daniel, Isaías, além dos

profetas menores, todos escolhidos e inspirados por Deus, 

descrevem intervenções divinas em defesa e preservação do 

povo judeu. Nos dias de hoje, ante a derrocada moral do 

mundo, só temos a recorrer mesmo ao Altíssimo.

Esperar o retorno de Jesus Cristo, no final do milênio 

(se lá chegar), conforme rezam as Escrituras, parece ser a 

única salvação para depurar, higienizar e moralizar o 

planeta. Se não ocorrer uma medida preventiva do Céu, 

tudo o mais vai piorar igual a cantiga da perua. 

Quem viver, verá: o diabo favorecendo os

maus e a gente pedindo a Deus que nos acuda.

 

(*) Escritor

 





quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 2023 – 4

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

LEITURAS DE VERANEIO

Neste veraneio fragmentado os livros povoam as cercanias da minha rede e vou lendo até o sono, até ser forçado pela brisa da varanda me derrubando de corpo inteiro.

         Após o voo transcendental do sono, desperto com o volume caído sobre mim, convidando-me a continuar a leitura até outro surto de sonolência, o que me faz repetir a mesma página um punhado de vezes.

         Obras sobre genealogia potiguar é sempre do meu agrado, mas os preferidos são os aleatórios – prosa, poesia, ficções, reflexões e por assim continuar.

         Destaco alguns trabalhos que ficam empilhados na cabeceira para eventuais consultas rápidas, tais como Reflexões de um Provinciano (Caio Flávio Fernandes); 100 frases & Pensamentos (Juarez Chagas); Epigramas de Nino (Vicente Serejo); e Novos Poemas Dedicados (Francisco Ivan) - um dos quais, com justiça, em homenagem a Abimael Silva.

         No mais, os enigmas de Francisco Sobreira (Uma noite linda – Mas para quem?), tive de fazer uma segunda leitura para destrinchar a trama da morte de Romeu Aldigheri, a presença do forasteiro Douglas e o mistério da viúva Louise com a jovem Susana; as pequenas histórias de Honório de Medeiros (De uma longa e áspera caminhada); A bela narrativa do Sapo de Pedra e a Magia do Feiticeiro (Raimundo Inácio) e, por fim, temporariamente, Da Caverna à luz, de André Paganelli.

         Desse punhado de livros, atrevo-me a fazer deduções lúdicas, telúricas ou realistas? Nem sei o que! Mas sempre me encontro com A República de Platão, em sua parte sobre o Mistério da Caverna.

         A Caverna de Platão sempre está presente em variadas coisas do cotidiano – seja nas questões ideológicas políticas, na literatura, na própria existência. Explico:

I – Quando nos fechamos na interpretação das ideologias, de maneira hermética, temos a impressão apenas do que se encontra fechada naquele conteúdo teórico, fazendo juízo de valor destorcido das coisas do mundo, até que elas recebam a luz da realidade fática, daí saírem os seus intérpretes fundamentalistas ou existencialistas.

II – Na literatura, alguns se enclausuram nas suas leituras individualistas, sem o clareamento da luz e transmitem seus conhecimentos, muitas vezes abundantes, em escritos ininteligíveis porque numa linguagem que não chega aos demais viventes, tornando-se, assim, o homem, ou melhor, a criatura da caverna, conhecedor de uma realidade sem luz, sem alcance fora das sombras das paredes iluminadas pela fogueira;

III – A existência carece de conhecimento, eruditos ou populares, mas integralmente compreensíveis no cotidiano, sem a vaidade (que é uma caverna) de apenas enaltecer a si próprio, empurrando de goela abaixo publicações que, de tão pesadas, não permitem acesso à plebe rude.

         Graças ao Criador, nunca passei pela Caverna, pois tenho a certeza de que, sem erudição, consigo penetrar o coração dos meus poucos leitores, trazendo-lhes lembranças, saudades e experiência.

         Fico gratificado quando alguém informa que gostou da minha prosa. E espero que não seja só por gentileza. (O elogio gratuito é outra caverna). O silêncio tem luz própria.

Esse é o motivo da minha possível imortalidade e não a pompa de vestes acadêmicas, a pose de intelectual ou a empáfia da sabedoria – que não tenho. Tomando por empréstimo dito do Professor Mário Porto – o que interessa é o amor do meu semelhante e a salvação da minha alma.

         Como faz bem o mar, a luz e a brisa – eles nos indicam a nossa finitude, a nossa mortalidade, a humanidade de ser e até a falta de lucidez ao escrever esses mal traçado textos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

 

Padre Sátiro Cavalcanti Dantas

Nenhum lugar comum, nenhuma palavra de efeitos, contendo exaltação, louvor e cântico evolutivo de benemerência e projeções iluminativas, personalizando um ser humano, verdadeiro monumento de grandeza material e espiritual, na mais legítima expressão do termo, seriam qualificativos excessivos em se tratando de Padre Sátiro Cavalcanti Dantas.

Por isso, a Academia Mossoroense de Letras – AMOL, através do seu presidente, com  aquiescência de todos os seus integrantes, torna público, a admiração, o respeito, os louvores e os mais elevados encômios, através  desta proclamação, ao acadêmico Sátiro Cavalcanti Dantas, titular da cadeira Nº11, que tem como Patrono, Luiz Ferreira Cunha da Mota, nesta magnifica data, que se torna mais significativa e mais importante, por representar o dia do seu nascimento; e por honrar e dignificar com a sua presença iluminada, por sua grandeza e nobreza, não só a nossa entidade, AMOL, bem como a todas aquelas a que pertence, dando o valor da sua inteligência, da sua cultura, e da reconhecida elevação de  espírito como sacerdote, pondo nas alturas o seu sagrado ministério.

Mossoró, (RN) 22 de janeiro de 2023

 

Elder Heronildes da Silva

Presidente da AMOL

 A paz e a humanidade

Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

Paz, palavra diminuta, exprime pensamento prolixo, profundo e crucial para o homem. Comum em textos religiosos, documentos oficiais, plataformas políticas, discursos e mensagens individuais, é muito mais escrita e pronunciada do que vivida. Esteja onde estiver, preso a qualquer circunstância, o vocábulo paz tem significado profuso, extraordinário, tanto no âmbito pessoal, quanto nas inter-relações humanas, das mais íntimas e particulares às mais amplas possíveis. O significado é maior quando implica paz de espírito, paz na consciência, ou sentimento de harmonia com Deus, com a vida e com o mundo. O oposto dá lugar ao desespero, à angústia e à crise de culpa, que podem levar a gestos extremos, tal qual o exemplar e histórico episódio do suicídio de Judas. Isto remete a São Francisco de Assis: “Para pregar a Paz, primeiro você deve ter a Paz dentro de você”.
Justiça, liberdade e paz no mundo constituem os fundamentos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU, em 1948. A paz está em todas as constituições, é defendida em prosa e cantada em verso, mas, a cada dia, parece se tornar mais expressão de retórica, distante da realidade. Seriam o egoísmo, a ambição e a agressividade inerentes aos seres humanos e, portanto, causadores de violência tão dispersa? Acreditamos nas virtudes superando os pecados, nos bons vencendo os maus, no amor acima do ódio. Em meio a tantas miséria e injustiças, a tantas mortes violentas e tantas guerras, parece-nos que o homem nunca esteve tão carente de Deus. Jesus proclamou: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz, para que a minha alegria esteja em vós e seja perfeita a vossa alegria”. Por que a humanidade não O escuta?
A paz predomina quando não somente se apregoa mas também se pratica a igualdade de direitos. Pode-se obter a paz social somente combatendo a violência urbana e o crime organizado, aumentando o efetivo policial e dando-lhe mais treinamento e armas? O correto é identificar as causas e corrigi-las. Por que não levar todas as crianças e adolescentes para a escola, atendendo-os nas suas diversas fases de desenvolvimento por projeto pedagógico de qualidade? Seria plantar hoje a semente da frondosa árvore de paz do amanhã. Nelson Mandela (1918-2013), um dos maiores líderes políticos do mundo no século XX, venceu o Apartheid da África do Sul, movimento que segregava a maioria negra do seu país. Em 1993, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, e, no ano seguinte, sagrou-se vitorioso na primeira eleição democrática para Presidente da África do Sul. É de sua autoria uma das mais expressivas frases sobre o valor da educação: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.
O Professor Paulo Bonavides (1925-2020), talvez o maior constitucionalista brasileiro contemporâneo, reconhecido no Brasil e no exterior, em artigo publicado na Folha, há cerca de 15 anos, sob o título O Direito à paz, assim se expressou: “O Direito à paz é o direito natural dos povos. Direito que esteve em estado de natureza no contratualismo social de Rousseau e que ficou implícito como um dogma na paz perpétua de Kant. (...) Paz, portanto, em seu sentido mais profundo, perpassado de valores domiciliados na alma da humanidade”.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023


Marcelo Alves

O nível do policial

​Vou tratar hoje de dois assuntos controversos nas letras. A questão do gênero ou da tipologia da literatura, que é bastante controversa. Grandes obras normalmente não se conformam às regras do gênero; e muitos críticos literários sequer reconhecem a existência desse conceito (de gênero da literatura). Eu já acho que essa classificação é possível. Reconheço que uma das minhas literaturas preferidas, a literatura policial ou detetivesca, como literatura de massa, é um gênero bem definido. E aqui eu chego à segunda controvérsia, na qual me deterei amiúde: a literatura de massa, popular, como a dos romances policiais, pode ser uma “alta” literatura?

​Houve um tempo em que a divisão entre “alta” e “baixa” literatura era visível ou ao menos reconhecida/propagada pelos entendidos do assunto. Como registra Miklós Szabolcsi (em “Literatura universal do século XX: principais correntes”, Editora Universidade de Brasília, 1990), é “possível traçar uma linha divisória entre as duas espécies de literatura, com base em diversos pontos de vista, sejam os da sociologia da literatura ou da estética, sejam os referentes às diferenças de função. O comum mesmo é citar, a título de fundamentação, as narrativas reiterativas, de produção fácil e compostas por módulos já prontos, que têm o poder de emocionar e horrorizar com facilidade e são caracterizadas pela trivialidade do texto. Pode acrescentar-se, no entanto, a possibilidade de recepção rápida, a compreensão sem dificuldades e, finalmente, determinados procedimentos ligados à difusão e à produção. Mas são critérios incertos e discutíveis. (...) O fato é que as pegadas das obras arroladas nesse gênero podem ser acompanhadas a partir do século XVIII. A evidente divisão da literatura ‘alta’ e ‘baixa’ ou ‘trivial’ consolida-se no final do século XIX, simultaneamente com o fato que é sua causa: a ‘alta’ literatura vai se tornando excludente, em face das dificuldades que oferece para a compreensão”.

​Todavia, sobretudo a partir do começo do século XX, os territórios da “alta” e da “baixa” literatura se expandiram causando uma mistura entre os seus conjuntos. Como explica Szabolcsi, “de um lado, porque a vanguarda destrói os limites estabelecidos entre a arte ‘elevada’ (de elite) e a ‘inferior’ (popular), de outro, porque, em função de causas técnicas e comerciais, cresce o número de obras culturais modernas que, empregando as conquistas da literatura ‘superior’ e assimilando-lhe a cosmovisão e as técnicas, passam a prometer leitura rápida e leve, diversão e esquecimento. O best seller, o êxito de livraria, não é simplesmente uma leitura soporífera e dissuasiva. Frequentemente, representa correntes formativas e excitantes, que conquistam grande parcela de leitores-consumidores”. Já tratei até desse tema e citei Graham Greene, Morris West e John Le Carré, escrevendo aventuras, thrillers, policiais ou romances de espionagem, como perfeitos casos de best-sellers que realmente escreviam bem.

​O que dizer da qualidade dos precursores do romance policial? De Edgar Allan Poe, por exemplo, “com sua reconstrução intelectual dos crimes”? Na verdade, depois de outros precursores do século XIX, como Émile Gaboriau e Maurice Leblanc, a leitura do policial assiste “ao surgimento de clássicos como Conan Doyle e Edgar Wallace e, a partir dos anos 30, com Agatha Christie e Georges Simenon. Tornam-se parte integrante da literatura, em face das exigências de um amplo círculo de leitores, que deseja a sobrevivência do romantismo dos bandidos e mostra-se ávido da investigação e das emoções da adivinhação dos enigmas. Tanto é verdade que, a seguir, instalam-se profundamente na estrutura literária, a ponto de obras ‘elevadas’ passarem a fazer uso dos recursos e das máscaras do romance policial. Primeiro, com G.K. Chesterton; depois, com Grahan Greene, Friedrich Dürrenmatt, Max Frisch e o nouveau roman francês, a ponto de diluir, aqui também, as fronteiras entre os dois estilos”. E podemos citar outras referências do século XX, como Dashiel Hammett e Raymand Chandler, suprassumos do policial noir, ou Erle Stanley Gardner, que nos dá o tipo jurídico do advogado-detetive, com o seu Perry Mason. E por aí vai.

Na verdade, para mim, não existe uma barreira intransponível à literatura de massas, em especial à literatura policial/detetivesca, ao país da “alta” literatura. Desconfio de Tzvetan Todorov quando afirma (em “Poética da Prosa”, Martins Fontes, 2003): “quem quiser ‘embelezar’ o romance policial, faz ‘literatura’ e não romance policial”. Acredito que faz os dois. E dou como exemplo definitivo Umberto Eco. Alguém vai me dizer que “O nome da rosa” (1980) não é altíssima literatura detetivesca?

Marcelo Alves Dias de Souza

Procurador Regional da República

Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL