domingo, 23 de outubro de 2022

A frase do ex-deputado federal pernambucano Thales Ramalho de que “maior que a ilusão política só a ilusão do amor” é de uma verdade tão cristalina que me fez refletir mais ainda sobre os últimos dias de Pompéia. A deterioração dos costumes políticos, as debandadas, as infidelidades à 25ª hora, a substituição das coligações eleitorais pela proliferação de legendas partidárias, as adesões no varejo e no atacado em tom promocional e de liquidação; a troca de legendas antes mesmo de o candidato assumir o mandato, tudo conduz o eleitor ao descrédito da vida pública, estarrecido com a conduta pérfida dos seus protagonistas. Em nome da mudança, do novo, do diferente, alguns agentes políticos estão destruindo a própria biografia no jogo vantajoso das premissas e das facilidades dos governos que estão por vir. Nunca a flauta mágica do fisiologismo tocou tão alto desbotando clichês, ruborizando os céticos e dissolvendo bancadas tal e qual o efeito sonrisal. O que está acontecendo hoje com a chamada classe política? Deu a louca no mundo? É tão grande assim o impacto das dívidas e das dúvidas pendentes da campanha que passou? Dir-se-á que os partidos vencedores quando trocaram a ideologia pela convivência dos contrários, os partidos de direita e de centro perderam o pudor e se misturaram no mais estranho e promíscuo hibridismo partidário da história política do país. Já que não posso entender, após exaustivas reflexões, espero que tanta gente junta dê certo, tanto aqui quanto alhures, como diria o nosso saudoso Paulo Macedo. Talvez isso tudo seja mesmo uma fogueira das vaidades. E ponto final. Tudo é mesmo ilusão. Nada além de uma ilusão, sobre a qual nos falava o saudoso ator e comunista Mário Lago. Refletir sobre os fatos e factóides da vida talvez seja a melhor postura diante do mar de Cotovelo. O dom da observação é importante para aprender a viver e dissipar os contrapontos insurgentes. Ergui-me da rede para repensar o imponderável. Vamos devagar com o andor que o santo é de barro e não faz milagre. Para o conhecimento do crítico de cinema Valério Andrade, o cenário é o mesmo, os figurantes idem. Mudam os atores, os diretores, produtores e roteiristas. A trilha sonora continuará sendo o hino nacional de Fafá de Belém, e por aqui a velha e ilusória marchinha carnavalesca “mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar...”. E o filme? O filme é o mesmo para que muitos, mais tarde, possam repetir novamente: já vi essa fita antes. Está escrito que, na história da humanidade, todos haverão de passar e que o Messias prometido só existiu um. E uma Cleópatra, também. Política, enfim, é mais do que circunstância. É ilusão, mesmo. E muita vaidade. É ilusão gratulatória. (*) Escritor Responder , Responder a todos ou Encaminhar Enviar


  • ACOMODAÇÕES DA 25ª HORA

    Valério Mesquita*

    Mesquita.valerio@gmail.com

    A frase do ex-deputado federal pernambucano Thales Ramalho de que “maior que a ilusão política só a ilusão do amor” é de uma verdade tão cristalina que me fez refletir mais ainda sobre os últimos dias de Pompéia. A deterioração dos costumes políticos, as debandadas, as infidelidades à 25ª hora, a substituição das coligações eleitorais pela proliferação de legendas partidárias, as adesões no varejo e no atacado em tom promocional e de liquidação; a troca de legendas antes mesmo de o candidato assumir o mandato, tudo conduz o eleitor ao descrédito da vida pública, estarrecido com a conduta pérfida dos seus protagonistas. Em nome da mudança, do novo, do diferente, alguns agentes políticos estão destruindo a própria biografia no jogo vantajoso das premissas e das facilidades dos governos que estão por vir. Nunca a flauta mágica do fisiologismo tocou tão alto desbotando clichês, ruborizando os céticos e dissolvendo bancadas tal e qual o efeito sonrisal.

    O que está acontecendo hoje com a chamada classe política? Deu a louca no mundo? É tão grande assim o impacto das dívidas e das dúvidas pendentes da campanha que passou? Dir-se-á que os partidos vencedores quando trocaram a ideologia pela convivência dos contrários, os partidos de direita e de centro perderam o pudor e se misturaram no mais estranho e promíscuo hibridismo partidário da história política do país.

    Já que não posso entender, após exaustivas reflexões, espero que tanta gente junta dê certo, tanto aqui quanto alhures, como diria o nosso saudoso Paulo Macedo. Talvez isso tudo seja mesmo uma fogueira das vaidades. E ponto final. Tudo é mesmo ilusão. Nada além de uma ilusão, sobre a qual nos falava o saudoso ator e comunista Mário Lago.

    Refletir sobre os fatos e factóides da vida talvez seja a melhor postura diante do mar de Cotovelo. O dom da observação é importante para aprender a viver e dissipar os contrapontos insurgentes. Ergui-me da rede para repensar o imponderável. Vamos devagar com o andor que o santo é de barro e não faz milagre.

    Para o conhecimento do crítico de cinema Valério Andrade, o cenário é o mesmo, os figurantes idem. Mudam os atores, os diretores, produtores e roteiristas. A trilha sonora continuará sendo o hino nacional de Fafá de Belém, e por aqui a velha e ilusória marchinha carnavalesca “mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar...”. E o filme? O filme é o mesmo para que muitos, mais tarde, possam repetir novamente: já vi essa fita antes. Está escrito que, na história da humanidade, todos haverão de passar e que o Messias prometido só existiu um. E uma Cleópatra, também. Política, enfim, é mais do que circunstância. É ilusão, mesmo. E muita vaidade. É ilusão gratulatória.

     

    (*) Escritor



 


UMA NOITE DESVAIRADA NA PAULICÉIA

Tomislav R. Femenick – Jornalista e historiador

 

Tempo atrás, um amigo paulista mandou-me, via Internet, uma foto tirada no início dos anos setenta. Lá estavam o cineasta Cacá Diegues, a cantora Nara Leão, o jornalista Samuel Wainer, a jornalista Sheila Leirner, o cartunista Geandré e o jornalista e escritor Jorge da Cunha Lima. Seria apenas um grupo de intelectuais, algo sem importância, não fosse também a presença da famosa Dona Laura, proprietária da boate La Licorne (onde a foto foi tirada) e de outra casa noturna, a Scarabociu.

Para quem não nunca ouviu falar, o La Licorne, principalmente, e o Scarabociu, integravam o famoso circuito da Boca do Luxo, onde estavam os melhores cabarés e boates da capital paulista. Tão famosas quanto essas casas eram suas meninas, geralmente estudantes e algumas já formadas, que optavam por continuar na noite. Mais famosos ainda eram seus frequentadores. Dizem que o charme dessas mulheres encantou o Secretário de Estado americano, Henry Kissinger; o presidente do Chile, Eduardo Frei; o piloto Niki Lauda, o cantor Julio Iglesias e até uma comitiva da primeira-ministra hindu, Indira Gandhi. O La Licorne estava para São Paulo assim como o Moulin Rouge está para Paris.

Mesmo morando em São Paulo, a verdade é que eu nunca tinha ido ao La Licorne. Foi então que, por essa época, o meu primo Carlos (o Dr. Charley do DNER) foi à capital paulista participar de um seminário sobre construção de estradas. Caxias como ele era com o dinheiro público, ficou hospedado na minha casa. No dia do encerramento do encontro ele descolou um convite e me chamou para ir ao jantar no Hotel Hilton. Terminado o banquete, os promotores do evento fizeram uma surpresa: todo mundo estava convidado para tomar uns scotts no Scarabociu e, depois, assistir ao show e tomar outros drinques no La Licorne. Fomos todos, até dois engenheiros que eram evangélicos. No Scarabociu fomos recebidos pelas hostesses da casa e por algumas garrafas de whiskies Buchanan’s, Old Par e President, todos devidamente com maioridade plena, isso é, 21 anos. O ambiente era pequeno, agradável e aconchegante, como devem ser as casas do ramo. Mas lá estávamos apenas fazendo hora. Perto da meia-noite levantamos acampamento e fomos em direção ao La Licorne.

Aqui se deu um fato insólito. Quando estávamos entrando na famosa casa, o show já havia começado e as luzes do salão estavam apagadas. Ao meu lado estavam Charley e um engenheiro do Paraná. Este me perguntou:

– Você conhece bem o ambiente daqui?

– Não porque, como você, está é a primeira vez que entro aqui – respondi.

Como se fora uma deixa de teatro, no mesmo instante uma voz saída da escuridão gritou:

– Tomislav!!!

Eu fiquei sem jeito – ou, como se dizia naqueles anos, perdi o rebolado. Como Tomislav é um nome incomum, ninguém acreditou no que eu havia dito antes.

Fique em pé, esperando as luzes se acenderem. Terminada a apresentação, notei uma mão acenando para mim. Era meu amigo José Laorte, que morava em Brasília, estava visitando São Paulo e, como eu, visitava o La Licorne pela primeira vez. Depois das explicações, acho que tinha convencido que eu não era um habitué daquele cabaré. Eis que aconteceu o mais inesperado. Um outro amigo de Mossoró, que há muito tempo eu não via, aproximou-se de mim, cumprimento-me e disse:

– Hoje você vai conhecer Dona Laura – era outro mossoroense, seu motorista particular.

Depois dessa, ninguém mais acreditou em mim. Acho que nem mesmo eu.

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

 

AVE, PÁSSARO!

 

Diogenes da Cunha Lima

 

         Ninguém teve maior sabedoria do que Jesus Cristo. Um dia ele ensinou: “Olhai os pássaros do céu. Eles não plantam nem colhem, nem guardam alimentos em celeiros, pois seu pai certamente os alimenta.” Na mesma linha, Ele orienta sobre a beleza dos simples: “Olhai para os lírios (xananas) do campo, como eles crescem: não trabalham, nem fiam. Eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles."

         Na sabedoria popular dinamarquesa existe um ditado dizendo que Deus dá comida aos pássaros, mas não dentro do ninho. Ou seja, esta função é dos pais.      

A oração de louvor à Nossa Senhora tem o título de saudação. Ave (que quer dizer salve) Maria. As aves não existiriam para louvar a mãe de Jesus?

         Um menino caçava passarinhos de baladeira. Comia coração de beija-flor para ter mão certeira. Chegou em sua casa com as rolinhas mortas. O pai reclamou: “como você tem coragem de matar os bichinhos que Deus fez para serem bonitos?” Envergonhado, nunca mais caçou. Hoje, adulto, sente-se feliz ao contemplar pássaros e servir alimentos escolhidos para serem ao gosto deles.

         No dilúvio, Noé conseguiu salvar um casal de cada espécie de animais, mas as águas cobriam toda a face da Terra. Ele precisava ter para ele, e todos os bichos, algum sinal de esperança. Soltou uma pomba e depois ela voltou dando esperança de terra firme, uma folha de oliveira no bico.

         Os pássaros se comunicam através do canto e dos gestos. Falam buscando parceria amorosa, advertem do perigo, talvez cantem pela alegria que o som lhe transmite. Galos e bem-te-vis cantam na madrugada para avisar do seu território. Enfim, segundo suas espécies, os pássaros exercitam linguagem própria. Está no Talmude que a sabedoria que Deus concedeu a Sansão incluía o entendimento da língua dos pássaros. Os celtas antigos acreditavam que os pássaros eram profetas vestidos de penas. Seria preciso muita habilidade para que os homens entendessem o sentido das profecias, encobertas no canto.

         Na mitologia grega, a matéria-prima da figura de proa do barco de Jasão era feita da madeira do bosque sagrado. E pelo fato mesmo, poderia falar a língua dos pássaros.

Da mesma maneira que Santo Antônio falava para os peixes, São Francisco, o padroeiro da ecologia, falava com os pássaros, que lhe seguiam os passos.

Na Cabala, a língua dos pássaros, langue verte, era perfeita e secreta. Seria a chave do máximo conhecimento.

Nos hieróglifos egípcios, há muitas representações de aves. Eles falariam a linguagem divina. A escrita seria O Alfabeto dos Pássaros.

De onde se conclui que ouvir o canto dos pássaros é aproximar-se de Deus.

        

 

 

 

Desintoxicar-se e desapaixonar-se

Padre João Medeiros Filho

Após o primeiro turno das eleições, vamos dar uma chance à paz, desarmar os corações e serenar os espíritos. Urge desintoxicar-se e desapaixonar-se. Cristo pregou no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os mansos, pois eles herdarão a terra” (Mt 5, 9). Não esqueçamos que somos todos brasileiros e irmãos (para quem professa o cristianismo). As eleições devem ser concebidas como espaço da democracia. É assim que se precisa entender. Vivemos dias e semanas apreensivos, num clima raivoso, de intimidação, desconstrução de pessoas, radicalismo e agressões. Não é justo nem salutar quebrar os laços familiares e de amizade, dividindo o nosso lar, odiando nosso próprio sangue por conta de política. Podemos ser adversários, mas nunca inimigos. É necessário que assim ajam as pessoas civilizadas e cristãs. O ódio não faz bem, por isso foi condenado pelo Mestre da Galileia. “Fazei o bem aos que vos odeiam. Abençoai os que vos amaldiçoam. Orai pelos que vos caluniam (Lc 6, 27-28). Durante a campanha, sofismas e mentiras confundiram, desorientaram, desvirtuaram fatos e enlamearam pessoas.

Como fazer cessar a aversão e a ira, o desrespeito vil e a agressividade?  Primeiramente, é preciso desarmar os corações. Somos efêmeros, peregrinos na vida, “cidadãos de uma outra pátria” (Fl 3, 20). E para fazer esta experiência é necessário envolver-se e conviver. O que nos une, supera aquilo que nos separa. Somos participantes de uma mesma natureza, temos problemas idênticos ou semelhantes, dificuldades análogas, pertencemos a uma só família. Deus nos dá a chance de nos realizar juntos, apesar de nossas limitações e pecados. Saibamos compreender e perdoar. “Ninguém é perfeito no país dos homens”, afirmava o Pequeno Príncipe. Ou como proclama com mais precisão o Evangelho: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8, 7).

Durante a campanha eleitoral, talvez tenhamos caído na armadilha de alguns, que em vez de unir, nos polarizaram. Em lugar de agregar, nos tornaram inimigos, desejando que eliminássemos com violência e rapidez os rivais. Esqueceram que precisamos de todos para superar e sair das ruínas, juntar os cacos deixados pela pandemia e outras desgraças que possam nos ter atingido. Importa desintoxicar-se de tanta coisa que veicularam as redes sociais e a mídia. Vamos nos voltar para as nossas tradições de povo pacífico, generoso, hospitaleiro e fraterno. As campanhas passam. O poder não é eterno. Lembremo-nos da imagem de Cristo do Corcovado, plantado como símbolo e ícone de nossa hospitalidade e do acolhimento cristão. Ele está de braços abertos para nos receber.

A filosofia ensina que o homem é um ser inacabado. Necessita dos outros para se completar. Por isso, é preciso aprender a dialogar, buscar convergências, transigir, unir e aproximar. É ilusório pensar que o vencedor nas eleições só receberá os louros. Ele terá diante de si antigos, novos e gigantescos desafios.  Quem foi derrotado nas urnas, não pode fazer uma oposição irresponsável e raivosa. Não sejamos egoístas, pensando tão somente em nós, em nossos interesses e partidos. O Brasil vale mais que as ideologias e suas concepções. É preciso ter em mente o futuro. A pátria não pertence apenas aos que vivem agora. Não há nenhuma escritura passada em cartório de que grupos, pessoas ou partidos são proprietários desta rica e querida Terra de Santa Cruz. Vencedores e vencidos precisam estar conscientes de que o Brasil é de todos!

É hora de pensar alto e grande, como fazem os verdadeiros políticos, estadistas e pacifistas da história. Sigamos os ensinamentos de São Francisco de Assis: “Senhor, fazei de mim instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor”. Nossa pátria precisa de serenidade. O Brasil é um país cristão.  Jesus não veio incendiar o mundo com rancor e violência. Pregou e ensinou o amor. “Nisto conhecerão que sois os meus discípulos, se tiverdes amor uns para com os outros” (Jo 13, 35). Que Deus nos conceda alegria, esperança e coragem, para trilharmos juntos um caminho de união, justiça, paz e solidariedade. E que o Senhor esteja sempre no meio de nós. Meditemos as palavras do salmista: “Vede como é bom e agradável os irmãos viverem unidos” (Sl 133/132, 1).

 TEMPO DE OUVIR SINAIS

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Guatama é a personagem histórica que fundou o budismo no século V antes de Cristo. Essa religião, que se opôs ao bramanismo, conta com mais de quinhentos milhões no Extremo Oriente, incluindo-se Índia, China e Japão. Já Maomé, profeta e fundador do islamismo, lá pela era de 632 D.C., domina, hoje, dezenas de países muçulmanos. Pois bem. Não se vê ninguém sistematicamente refutar, distorcer, incriminar, blasfemar através da literatura mundial, sobre a vida pregressa dos fundadores das duas religiões. Apenas, como objetivo deliberado de desmerecer e lambuzar o culto, de desestabilizar a fé, assiste-se, apenas, tal proceder, através de festejados escritores com relação à vida de Jesus Cristo, imputando-lhe comportamento mundano, incompatível com a imagem santa traduzida e ensinada pelo Novo Testamento das Sagradas Escrituras.

Os milhões de cristãos do mundo, entre católicos, evangélicos, ortodoxos, etc., já começam a indagar: por que? Cumprem-se as profecias dos anticristos? A própria Bíblia previu, em várias situações, tanto no Antigo como no Novo Testamento, o aparecimento dos perseguidores do Cristo, que jamais deixou de admitir a influência de Satanás sobre os humanos. Ele próprio sofreu a tentação do maligno e triunfou com o seu poder de Filho de Deus para que se cumprissem as escrituras. Ora, a minha indignação é contras as maledicências de obras ficcionistas de livros e filmes que procuram imprimir comportamentos duvidosos e profanos em Jesus Cristo, tais como: conjunções carnais com Maria Madalena e que foi casado, pai de filhos. Além do mais, desacredita a Bíblia cristã ao afirmar que o imperador de Roma, Constantino, autorizou a elaboração de uma nova, a fim de ocultar informações depreciativas sobre Jesus. Todas essa alegações e outras, integram a trama literariamente bem urdida, porém corrupta, porque falseia, calunia uma verdade histórica que muitos pensadores e gênios da humanidade, através dos tempos, jamais contestaram. Creram.

As minhas despretensiosas assertivas não constituem crítica literária e nem é esse o meu propósito. Agora, difamar a vinda do Cristo subvertendo a vida e a mensagem legadas, sem apresentar qualquer prova documental, histórica, nenhum estudo, pesquisa ou descoberta antropológica,  para exercício de vaidade cultural, literária, com o fito de vender o livro, é ser trapaceiro. É crucificar Jesus de novo.

Minha decepção com o mundo de hoje também se fundamenta no fato de que mais de dez milhões de livros já foram vendidos. Deve ter atingido aquela faixa populacional que só se lembra ou invoca Jesus quando está morrendo no hospital. Ou, quando não, pede para que os serviços religiosos sejam ministrados após a morte, criteriosamente e por via das dúvidas. Só me resta como cristão pedir a Jesus que venha logo desbaratar essa quadrilha de hereges. Fortalecer os seus missionários aqui na terra, sacerdotes, pastores, com a luz do Espírito Santo. Senhor, permitam que aconteçam mais milagres, aparições, porque a incredulidade campeia. O Senhor procedeu assim naquele tempo. E agora, após a população do planeta ter crescido tanto, a ciência, a tecnologia, os anticristos, não seria oportuno ver e ouvir seus sinais?

No Apocalipse 22, versículos 12 e 13, disse Jesus: “E eis que cedo venho e o meu galardão está comigo para dar a cada um segundo a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Derradeiro”. Palavras fortes que para um bom entendedor, bastam. Estariam os cataclismas no mundo inteiro acontecendo sem a permissão do Senhor para testificar a segunda e anunciada vinda de Jesus ao mundo em transe? Por acaso, a primeira vinda não foi tão meticulosamente planejada, desde o Gênesis, o Êxodo, o Deuteromonio, passando pelos profetas da anunciação, até o Novo Testamento com intercorrências de muitas catástrofes?


(*) Escritor.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

 

  • SALDO DE RETALHOS

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Fotos, recortes amarelecidos de jornais, álbuns perdidos, lembranças mortas, tudo se resume no que ficou de mim no caixote que mandei buscar em Macaíba. Quase cinquenta anos estavam ali amontoados sem me passar a certeza de que fui feliz. Viagens, lugares, reuniões, festas, política e políticos, o lar, as pessoas, o trabalho, os entes queridos, a entrevistas, os fatos, os enganos e os engodos, as ações e as traições, as frustrações, tudo, enfim, um baú de vida tecida e vertida em momentos fugazes mas com profundidade. Mesmo assim, era o meu inventário de aparências. O revelado e o relevante. Sim, porque as verdadeiras ações ficaram no pensamento, no que quis realizar e não consegui: porque o melhor de todos nós se encontra no irrevelado.

Sobre a mesa, o pacote empoeirado desafiava-me a memória. De plano, lembrei-me que muitos desses documentos foram náufragos há mais de quarenta anos, aproximadamente, de uma enchente que inundou a rua Francisco da Cruz nº 39, de minha mãe. Com a permissão do destino os papéis não foram afetados menos outros, levados pela correnteza. Naqueles ali apenas constatei o pó e a pigmentação do tempo. Estava diante de mim mesmo resumida a maior parte de minha vida? Perguntei-me. Vejam mesmo, meus caros leitores, o quanto é fuleira a vida quando a colecionamos ou a resumimos em vaidades. Era feliz e não sabia? Frase babaca essa e desnecessária ao texto. O fato é que enfrentei a memória contextual, os meus pedaços de vida, soltos, saídos do útero da casa mater, como único e suficiente tesouro do eterno aprendiz.

Um pacotaço maior e robusto havia me surpreendido à esquerda, naquela tarde de redescobertas. Tratava-se da coleção de diplomas, condecorações, títulos, troféus, placas, medalhas, etc. Era a coleção “vanitas, vanitatis”, que pendurara, ao longo do tempo, nas paredes da sala da frente. Testemunhas documentais de homenagens passageiras. Do mérito bajulatório umas e de fieis reconhecimentos, outras. Enfim, passatempos. De que me servirá hoje tudo isso porquanto só a mim interessa? Penso assim, porque sempre o mundo dá e ele mesmo tira. O que importa é que agora sem a casa de Macaíba não tenho onde colocar meus inúmeros penduricalhos. Resido em casa menor, despojada de arquitetura senhorial que abrigava com pompa e circunstância meus escombros de guerra.

Mas, há algo que lá deixei, além das sementes e da vida dos meus pais, em cada parede, sala e jardins. Uma iniciada biblioteca constituída de bons livros de autores nacionais e principalmente do Rio Grande do Norte. Nas boas mãos de uma bibliotecária pode representar um bom começo para os futuros habitantes. Doei a Fundação José Augusto e a  Casa da Cultura de Macaíba “Nair de Andrade Mesquita” na expectativa maior de que os jovens conheçam mais os autores potiguares. Em suma, eis o meu inventário. Modesto, raquítico, dietético, extraído daquele casarão onde habitou tanto amor, enxugou muitas lágrimas e perfumou sorrisos. Mas, ali tudo era assim mesmo: modesto, pobre, sem ostentação. Era verdadeiramente a casa do povo e que se tornou da cultura municipal, sem deixar de ser do povo. Não sei, mas sinto que há desígnio superior em tudo isso.

 

(*) Escritor

domingo, 16 de outubro de 2022

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

 

 


Missa de 30º dia






INÁCIO MAGALHÃES DE SENA

Os amigos de Inácio convidam para a Missa de 30º dia

que mandarão celebrar em sufrágio da alma do

pranteado confrade e agradecem aos que

comparecerem a esse ato de piedade cristã.

DATA: 18 DE OUTUBRO (terça-feira).

LOCAL: Igreja de SANTA TERESINHA (TIROL)

HORÁRIO: 17,30 horas.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

 SENTIMENTO TELÚRICO 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

 

Conversa recente num encontro social, motivou tema interessante ainda não suficientemente estudado. Quais os estados brasileiros bairristas, dotados de forte sentimento de teluricidade? No nordeste, à primeira vista, a Bahia, o Ceará e Pernambuco assumem e assomam o patamar dos notáveis. Pernambuco, por exemplo, existe o “senso de pernambucanidade”, permanente disposição afetiva e “patriótica” em defesa das coisas da terra, com tal entusiasmo e emoção que até parece religiosidade. Assim também se diz do bahiano e cearense que exageram seus intrínsecos valores de ordem intelectual, espiritual, consuetudinários e econômicos a extremos, ao ponto de menosprezar e hostilizar tudo que se refira as demais unidade federativas.

O médico e articulista Elmano Marques suscitou o assunto com relação as regiões e municípios do Rio Grande do Norte. Existe aqui comportamento bairrista e onde? De antemão, estabeleceu-se a premissa do potiguar não ser um telúrico como o gaúcho. Poderia sê-lo, posto que, motivações religiosas, culturais, históricas, econômicas, além de belezas naturais sem fim, constituírem o seu rico patrimônio universal de orgulho e auto-estima. Mas, quais os “bolsões” de bairrismo acendrado existentes? Natal primeiramente, assume essa identidade de cidadela querida e resguardada pelos seus habitantes? Pouco provável porque as opiniões são díspares. Que causas inibem a maioria dos natalenses em manifestar seu sentimento pela capital como fazem os cearenses, pernambucanos e bahianos? O problema é que quando assim procedem, se mostram tímidos, sob tensão de notório complexo de inferioridade. Bem, o que afirmo é uma impressão. Pode ser que outros não enxerguem assim.

Todavia, a razão de trazer à baila a discussão desse assunto é para suscitar entre os sociólogos, professores e pesquisadores sociais a elaboração de um trabalho ou de uma tese. Por que Mossoró é tida e havida como cidade bairrista? Que sentimentos alimentam o seu povo para assim se conduzirem? Emulação com Natal? Perscrutar a psique social é uma tarefa para os cientistas dessa área. A antropologia cultural, por outro lado, irá apreciar as características inerentes a cada homem no que tange aos costumes e as crenças, de par com outras ciências, a fim de determinar a teluricidade comportamental dos naturais de cada município ou região. Trata-se de apaixonante assunto que acredito interessar a todos os interioranos do Rio Grande do Norte. Macaíba, Parnamirim, Ceará-Mirim, São Gonçalo, que integram a região metropolitana preservam algum bairrismo? Ou a proximidade com a capital é motivo de dispersão ou de falência sentimental? O que dizer do Seridó, região mais hermética e de características sociais atípicas? E como a abordagem é perfunctória e indagativa, que outros ingredientes como o clima e o solo influem na formação do sentimento telúrico? Ficam as indagações para os estudiosos.

 

(*) Escritor



 

COISAS DO TREM DE PRATA

Tomislav R. Femenick – Jornalista

 

O início dos anos 1970, quando fui morar em São Paulo pela segunda vez, fundei a Entreprise Press, uma agência jornalística que fornecia notícias, crônicas e ”conteúdos” para mais de quarenta jornais do país; de Manaus a Porto Alegre. Era uma época diferente da de hoje. O grande problema foi como montar a logística para fazer as matérias chegarem aos jornais. Tudo era difícil, não havia internet e o grande instrumento de comunicação – restrito para somente algumas empresas – era o teletipo; e essa foi a nossa grande arma.

Por indicação do meu amigo Dorian Jorge Freire, fui buscar o jornalista Fausto Cesar Alcazar, que trabalhava como “freelance” nas revistas Veja e Realidade, da editora Abril, para se juntar a nossa equipe. Como se diz, “foi um grande achado”, principalmente no setor de “conteúdo”, algo relativamente inusitado na imprensa brasileira. Tradicionalmente, as agências nacionais distribuíam quase que somente notícias prontas e nenhuma fornecia conteúdos, ou seja, não forneciam os tópicos que compõem as notícias, tais como as fontes, as divergências de intepretações, o significado e mesmo a sua importância em contextos diversos, de tal forma que, em jornais diferentes, o mesmo fato poderia aparecer de forma diferente, conforme a sua interpretação, dando relevância latente às palavras.

   O Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, e a Folha de São Paulo, na capital paulista, eram os nossos maiores clientes de “conteúdos”, e isso exigia reuniões frequentes entre nós e as chefias de redação desses jornais, pois se as notícias são fluidas, os “conteúdos” são mais que isso, são voláteis. Depois das matérias serem divulgadas, elas despertam pouco ou nenhum interesse do público, a não ser que haja fatos novos que lhes deem substância e continuidade.

O Jornal do Brasil era o cliente que mais exigia reuniões para discutir os conteúdos, mesmo que nunca tenha tido êxito nos seus questionamentos. Por conta dessas ocorrências, quase que passamos a morar nos aeroportos de Cumbica e Santos Dumont. Não suportávamos mais o barulho das turbinas da Ponte Aérea São Paulo-Rio de Janeiro-São Paulo, os cafés frios e os pães de queijo amassados e caros, vendidos nas áreas de espera, o ambiente gélido da madrugada nos aeroportos, vez que as reuniões sempre eram marcadas para as primeiras horas do expediente da manhã.

Eis que descobrimos o serviço ferroviário chamado de Trem Santa Cruz (depois de Trem de Prata), que fazia o mesmo percurso Rio-São Paulo-Rio. Mais barato e com lampejos de luxo. Destinados aos passageiros, havia vagões dotados de cabines com dormitórios e um carro-restaurante, tudo servido por cerca de vinte tripulantes. Experimentamos uma vez e logo o adotamos como o nosso meio de ir e vir entre as duas cidades. Logo ficamos conhecendo os outros passageiros habituais. Havia Júlio, um alegre e comunicativo representante comercial, o padre Alberto, Mussum dos trapalhões, Dona Arlete, uma senhora dona de uma confecção e outros mais. Mussum ia dormir logo depois do jantar. Com os outros ficávamos conversando e, vez por outra, jogando um biriba despretensioso, apostando caroços de feijão, pois se convencionou que era proibido jogar a dinheiro. Um dia ficamos sabendo (dito pelo colega que o substituiu) que Júlio tinha ficado doente de meningite, coisa greve mesmo, a ponto de ter recebido a extrema-unção. Só estavam esperando a sua morte.

Meses depois ele reapareceu no trem. Magro, trazendo na face o resultado da doença, mas ainda alegre e conversador. Contou-nos sobre os dias que esteve hospitalizado, as dores horrendas e o medo de morrer. Em seguida perguntou sobre o padre Alberto, pois queria pedir-lhe um favor. Logo em seguida, como se fosse numa deixa de teatro, o padre Alberto entrou no vagão-restaurante, dirigiu-se ao nosso amigo e o abraçou. Júlio, como bom brincalhão que era, disse-lhe.

   – Padre dá para anular a extrema-unção, que me deram? Eu desisti de morrer. Pelo menos por enquanto. 

 

Tribuna do Norte. Natal 12 out. 2022.