sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

 ODE EMERGENCIAL

Agora que já não acreditas em caminhos impossíveis
Mesmo nos emergentes como aquele
De que mais falas: o da paixão
Por que te surpreendes com a ousadia da noite
Que do acaso emerge
E como sibarita da volúpia
Te arrebata o olhar o desejo e o sonho?

Jamais queiras autenticar impossibilidades
Pois o mundo te surpreenderá
Tomado hélas pelo desastre
Embora também lhe caiba representar
O beijo das graças  -
O lado alegre da fortuna

Em toda impossibilidade
Há uma possibilidade do ser
Que se manifesta nos sortilégios do vir a ser
E que faz da impossibilidade
Jazigo apenas temporário
De sua própria possibilidade

Sob o êxtase profético formatas o amanhã
E julgas adivinhar teus passos no escuro
Mas logo em vão te comoves
Na contrariedade das lágrimas
Ou na alegria coroada de luz

Convém pois que absorvas
Impassível o sim e o não
Nunca como anjos do bem e do mal
Mas como unidade harmônica
Do élan vital que move o próprio ser

E se das nuvens chegar o anúncio
Ditado pelas chagas da memória
Do dilúvio iminente
Que te coloca na rota dos abismos
Finge no colo da verdade
Dominar a arte da ausência
E não te deixes levar pelo medo

Que não percas em momento algum
a consciência do fantástico
Nem a doçura e o encanto de teu lirismo

(Horácio Paiva)

 

ACOMODAÇÕES DA 25ª HORA

Valério Mesquita*

A frase do ex-deputado federal pernambucano Thales Ramalho de que “maior que a ilusão política só a ilusão do amor” é de uma verdade tão cristalina que me fez refletir mais ainda sobre os últimos dias de Pompéia. A deterioração dos costumes políticos, as debandadas, as infidelidades à 25ª hora, a substituição das coligações eleitorais pela proliferação de legendas partidárias, as adesões no varejo e no atacado em tom promocional e de liquidação; a troca de legendas antes mesmo de o candidato assumir o mandato, tudo conduz o eleitor ao descrédito da vida pública, estarrecido com a conduta pérfida dos seus protagonistas. Em nome da mudança, do novo, do diferente, alguns agentes políticos estão destruindo a própria biografia no jogo vantajoso das premissas e das facilidades dos governos que estão por vir. Nunca a flauta mágica do fisiologismo tocou tão alto desbotando clichês, ruborizando os céticos e dissolvendo bancadas tal e qual o efeito sonrisal. O que está acontecendo hoje com a chamada classe política? Deu a louca no mundo? É tão grande assim o impacto das dívidas e das dúvidas pendentes da campanha que passou? Dir-se-á que os partidos vencedores quando trocaram a ideologia pela convivência dos contrários, os partidos de direita e de centro perderam o pudor e se misturaram no mais estranho e promíscuo hibridismo partidário da história política do país.

Já que não posso entender, após exaustivas reflexões, espero que tanta gente junta dê certo, tanto aqui quanto alhures, como diria o nosso saudoso Paulo Macedo. Talvez isso tudo seja mesmo uma fogueira das vaidades. E ponto final. Tudo é mesmo ilusão. Nada além de uma ilusão, sobre a qual nos falava o saudoso ator e comunista Mário Lago.

Refletir sobre os fatos e factóides da vida talvez seja a melhor postura diante do mar de Cotovelo. O dom da observação é importante para aprender a viver e dissipar os contrapontos insurgentes. Ergui-me da rede para repensar o imponderável. Vamos devagar com o andor que o santo é de barro e não faz milagre.
Para o conhecimento do crítico de cinema Valério Andrade, o cenário é o mesmo, os figurantes idem. Mudam os atores, os diretores, produtores e roteiristas. A trilha sonora continuará sendo o hino nacional de Fafá de Belém, e por aqui a velha e ilusória marchinha carnavalesca “mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar...”. E o filme? O filme é o mesmo para que muitos, mais tarde, possam repetir novamente: já vi essa fita antes. Está escrito que, na história da humanidade, todos haverão de passar e que o Messias prometido só existiu um. E uma Cleópatra, também. Política, enfim, é mais do que circunstância. É ilusão, mesmo. E muita vaidade. É ilusão gratulatória.

(*) Escritor.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

 

Minhas Cartas de Cotovelo – verão de 2021-48

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

Foi um sucesso o lançamento do livro “A Cidade em Chamas – o serviço de extinção de incêndios em Natal – 1917 a 1955”, da autoria do meu amigo e confrade Flademir Gonçalves Dantas, integrante do Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Norte.

O auditório da Governadoria ficou lotado, em sua esmagadora maioria, pelos companheiros de farda dos soldados do fogo. Ritual emocionante, com discurso do escritor e dos seus superiores, com o cântico do Hino do Corpo de Bombeiros, garbosamente cantado por todos a plenos pulmões, dando um ar de emoção ao evento.

Um trabalho, que tive a honra de prefaciar é indiscutivelmente de fôlego desenvolvido através de pesquisas junto a vários jornais, a teor de A República, Diário de Natal, A Ordem, Tribuna do Norte e outros periódicos aqui não enumerados, mas que não esquecidos pelo autor em sua obra.

Flademir foi beber nas fontes primárias, consultando boletins internos e outros documentos da nossa gloriosa Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, além de relatórios de governo, fotografias raras, biografias e escassas obras memorialistas de autores potiguares, alcançando o período que faz parte do nome complementar do livro.

O seu projeto tem a formatação da história da Cidade em Chamas em três volumes, alcançando este o primeiro ao período de 1917 a 1955, exatamente aquele em que os meios de comunicação eram precários e os instrumentos registrais de difícil visibilidade, sendo anunciado pelos toques do sino da Matriz..

Por integrar uma Corporação muito simpática, cujos integrantes gozam de um belo conceito – (Não somos heróis, apenas mais humanos que muitos humanos                          (Jackson Chevalier Pinto Mourão), esperava grande repercussão na imprensa local, falada, televisada e impressa. Tal não aconteceu injustamente, perdendo lugar para o noticiário pífio, laudatório de acontecimentos com poucos ou nenhum mérito para a sociedade.

Mais uma vez se faz presente uma frase muito difundida nos meios intelectuais – A cultura é uma atividade mendicante.

De repente foram esquecidos os soldados do fogo, notadamente os mais antigos, que combatiam na marra, como o caso do seu primeiro comandante, o famoso Joca do Pará.

Conversando com o meu irmão Moacyr Gomes da Costa – “O menino do Poema de Concreto”, dele recebi a crítica favorável, elogiosa que lhe proporcionou muitas lembranças dos seus 94 anos de vida, notadamente aqueles sinistros que marcaram a sua geração: aquele ocorrido em fevereiro de 1950 nas Lojas Brasileiras 4.400. Os jornais cariocas, Diário de Notícias e A Manhã, Diário da Noite de São Paulo, Jornal 104 do Commercio do Amazonas, Diário de Pernambuco, e dois jornais locais, Diário de Natal e A Ordem estamparam em suas páginas as agruras desse impiedoso incêndio que certamente foi um dos maiores e mais pavorosos. incêndios, tanto em prejuízos materiais como pela extensão e violência do fogo.

Ainda, o maior sinistro da cidade - do Mercado Público da Cidade Alta:

Ocorreu na manhã do domingo de carnaval de 1967. Um grande incêndio destruiu o Mercado Público Municipal, localizado na Avenida Rio Branco, no bairro Cidade Alta, zona Leste de Natal. Na época, Natal não havia supermercado e os mantimentos eram comprados neste mercado público. Por isso, lá vendia todos os produtos possíveis e impossíveis de se imaginar.

São tristes e fortes recordações, mas registros importantes da história do nosso eficiente e heroico Corpo de Bombeiros, apenas num espaço de tempo.

Vale a pena ler esse trabalho muito bem redigido e rico em documentação.

 

 

 

 

domingo, 28 de novembro de 2021

 

Minhas Cartas de Cotovelo – verão de 2021-47

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

GEMELLAGGIO

       O tema da minha Carta de hoje já vinha sendo meditado há algum tempo. Contudo, passei uns dias em Natal e não senti legitimidade de desenvolvê-lo com o nome de “Minhas Cartas de Cotovelo”. Agora que retornei à minha Pasárgada litorânea senti o momento de fazê-lo.

E o que significa essa palavra “Gemellaggio”? um simples nome comum em língua estrangeira ou algo mais? Na verdade é esta alusão do final da frase anterior: significa em tradução não rigorosa “Cidades Gêmeas”, que em meu sentir aqui e agora corresponde a Natal e Cotovelo, onde divido o restante do tempo da minha vida.

Tomei conhecimento dessa denominação num interessante livro que tem o mesmo título e conta o entrosamento entre duas cidades – uma a Cidade de Cássia, na Itália e a outra Santa Cruz no Brasil (Rio Grande do Norte), em torno da devoção pela Santa Rita de Cássia, na cidade italiana onde guarda o seu corpo insepulto e na potiguar onde foi erguida a maior estátua religiosa do mundo.

Tais sentimentos convergiram para uma troca de visitas que culminou com a entrega do título à Cidade de Santa Cruz, como um verdadeiro “Gemellaggio”, face as coincidências devocionais e propósitos religiosos, em solenidade cativante, que logrou o recebimento de uma “relíquia” daquela Santa, hoje depositada na Capela de Santa Cruz. 

O livro foi escrito por autores brasileiro Adriano Nóbrega e italiana Marta Ferraro (Ideia Editora, João Pessoa/PB, 2014).

Agora a justificativa do por quê “Gemellaggio” entre Natal e Cotovelo – primeiro porque praia vizinhas, isto é, a primeira depois de Ponta Negra; segundo em decorrência de que os holandeses quando invadiram o Rio Grande do Norte na expedição de 1633, o fizeram pelo litoral, fundeando seus navios nas cercanias de Cotovelo, proximidade da curva de Pirangi. No dia seguinte levantaram âncoras e partiram para Natal, fundeando em Ponta Negra em 08 de dezembro, pela manhã, e ajudados pelos índios, sem encontrar resistência, de onde saíram a pé para tomarem o Forte dos Reis Magos.

Para não me alongar, em terceiro lugar, em decorrência de que, hoje, Cotovelo é uma cidade dormitório de grande parte da população que trabalha em Natal.

Quem tiver o interesse ou curiosidade para desenvolver este assunto, leia o livro referido e as muitas publicações sobre os holandeses no Rio Grande do Norte, onde ocuparam a Fortaleza dos Reis Magos e a Casa Forte de Pedra de Pium, onde residia João Lostau Navarro.

A expedição, que foi a segunda tentativa, foi comandada pelos chefes militares Jan Corlisz Lichthardt e Baltazar Bijma, acompanhados de Mathijs van Keulen e Servaes Carpenter.

É um tema cativante, que merece ser estudado com mais profundidade. Mãos à obra...