sábado, 1 de julho de 2023

 



A REVOLTA DOS GUARAPES

 

Vicente Serejo*

 

Outro dia perguntei ao meu amigo Valério Mesquita, legítimo senhor do velho principado de Macaíba, como se faria para o governo estadual iniciar as obras de restauração do casarão dos Guarapes. Valério contraiu o cenho como um velho personagem de romance, e me respondeu: "Não sei. Só soube que Fabrício Pedroza, inconformado com esse abandono sem fim, arregimenta os fantasmas guerreiros e vai descer do alto dos Guarapes numa revolta armada e sem fronteiras".

Ora, essa mania de gostar de literatura tem esse defeito medonho: não fazemos diferença entre o real e o irreal. A narrativa para nós, leitores como eu, ou escritores como ele, é um toque mágico que faz viver com a força da palavra o que parece ser apenas um quadro na parede, para usar o verso belíssimo do poeta Drummond de Andrade. Pois assim aconteceu. Foi Valério descrevendo a cena épica e o medo cavalgando sobre a alma melancólica deste pobre homem da Rua da Frente. Já imagino o mui austero Fabrício Pedroza, senhor de terras e de gados, de sonhos e de riquezas, na sua ira santa. Duas vezes querem vê-lo vencido pelos reveses da vida. Na saúde que perdeu tão moço e, agora, no seu casarão colonial que deixam cair em ruínas, numa agonia de mais de um século. Resta um frontão já consumindo suas últimas forças, mantendo a aristocracia de seu olhar sobre o rio e os tabuleiros, ali onde seus olhos ficaram pregados na paisagem íntima.

Numa ira santa e tão desafiado na sua coragem dura e antiga como as pedras do seu chão, ninguém duvide mesmo se numa madrugada dessas Fabrício Pedroza, feito um Dom Quixote no seu delírio sonhador, descer do alto do Paço dos Guarapes arrastando seus alabardeiros com as suas alabardas em riste como a guarda suíça do Vaticano. Quanto desse rio e desse mar não foram tesouros seus no comércio das riquezas e das palavras perdidas? Enfrentá-lo, quem há de?

Velho de mais de um século e meio, o casarão de Fabrício é um símbolo pela voragem dos anos, nem o tempo pode apagar sua história. A agitação dos seus dias na exposição de sal, peles, algodão, açúcar e especiarias, conta a história viva de um tempo de fulgor, aqui e d’além mar. Quem sepultará o sonho de Fabrício Pedroza, morto em 1871, se suas mãos e seus feitos não repousam em paz nas paredes históricas da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição?

A ninguém o rigor histórico perdoará pela rendição. Não é só um casarão decaído, suspirando entre ruínas. Mas seus anos de fama, riqueza e poder. Por isso, talvez pela mania de acreditar no milagre da transcendência, tive medo quando Valério Mesquita disse que corre na feira de Macaíba a notícia de que o pequeno e heróico exército de Fabrício Pedroza, sem glória e sem sossego, nesses dias desce do alto dos Guarapes. Numa revolta feita de mágoa e solidão.

(*) Jornalista e Escritor

 

PS.: Sugestão às autoridades municipais e estaduais: que coloquem emendas parlamentares no orçamento da União e Estado, também  os senhores deputados e senadores, para restaurar os Guarapes. 

quinta-feira, 22 de junho de 2023

 Cartas avulsas de Natal

O inverno chegou

Carlos Roberto de Miranda Gomes


    Vencemos o outono com chuvas e trovoadas, até mais da conta para a estação da colheita, da transição entre o verão e o inverno. Ao invés da esperada queda das folhas e dos frutos, tivemos a queda de muita água.

    Sem entender bem os fenômenos da natureza, avalio os bons e necessários momentos de recomposição das reservas hídricas, mas estranho o excesso de chuvas com feição de enchentes, deslizamentos de barreiras e até de um ciclone devastador no Rio Grande do Sul, fenômenos não comum nas plagas gaúchas.

    No plano internacional herdamos dois episódios constrangedores – o desaparecimento de um submergível em viagem de lazer precipitado para ver a carcaça do Titanic, por si só uma história trágica e que até o momento sem se saber o paradeiro, deixando-nos numa expectativa constrangedora e impondo a invocação do Criador para indicar um caminho de volta; o outro é a continuidade da destruição deixada pelas batalhas na guerra Rússia x Ucrânia, com o desafio de encontrar um caminho capaz de estancar o derramamento de sangue de inocentes e destruição de equipamentos urbanos que foram construídos com tanto sacrifício.

    Até quando o homem continuará a ser o lobo do homem nessa luta inconsequente pelo poder?

    A diplomacia mundial parece não ter evoluído após os dois conflitos mundiais, senão alimentando os protagonistas com promessas ideológicas e artefatos de guerra, sem atentar para as milhares de vidas sacrificadas, distanciando-se, cada vez mais, do ansiado armistício.

    É lamentável, em pleno Século XXI, o poder e o interesse econômico sejam motivos de um conflito bélico, sem se atentar para as milhares de vítimas, numa repetição nefasta dos anos 1914-1918 e 1939-1945.

    Deus, não os perdoe – eles sabem o que estão fazendo!



 



OBITUÁRIO DE OMISSÕES

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

É no que Macaíba está se transformando. Sinto-me como prisioneiro de mãos atadas, apenas conduzindo lembranças. A linguagem que eu falo é somente de epílogos. Estive lá semana passada e não vi mais as esquinas, as ruas estreitas do centro repletas de segredos, sentimentos, vultos amigos, antigos, furtivos, que as curvas do tempo encobriram. Ninguém vê mais a lâmina d’água do rio Jundiaí no qual navegou Severo, Auta, Alberto e os Castriciano na lancha de mestre Antônio quando residiam em Macaíba. Uma espessa floresta cobre o leito – e de luto morrem as recordações dos antepassados. A ponte antiga nunca mais viu uma embarcação, cansada de ser todo dia atropelada. Ali, no antigo cais do porto, nunca mais surgiu enorme, carregada de mistérios, a lua cheia que nascia e planava em cima do Solar do Ferreiro Torto.

A cidade de Macaíba hoje é uma fotografia ampliada dez vezes, cuja memória social, política, cultural, virou destroço. Um profundo baú de ossos. Somente a retina e o amor telúrico, sensitivo, de alguns macaibenses conseguem reconstruir, aqui e acolá, a passarela da sua história. Vista do alto, comprova-se que a chaminé das constantes migrações aumentou a população, os veículos, o barulho, a droga, o homicídio, acabou a paz pastoral dos verdadeiros habitantes. Macaíba se abre fácil para os que chegam de perto e da distância. Até motivo de pesquisa e estatística de uma televisão ela e Parnamirim foram notícias. O fato serve de alerta para que a juventude nativa não deixe que apaguem as luzes. As luzes e as vozes dos que construíram, no passado, o seu futuro e o seu espírito. Que não deixe que padeça nem desapareça o sentimento de macaibanidade. Evitem o obituário de esquecimentos!!

É preciso plantar esperanças onde seja possível colher. A geração nova de macaibenses deve exigir oportunidades de trabalho, educação, saúde e segurança, sem olvidar o patrimônio cultural de sua terra que já integra a história do Rio Grande do Norte. Que os migrantes e neomacaibenses no exercício constante de ir e vir não recusem o gesto de amor à cidade. Que venham e que cheguem como quem ama uma flor recém-descoberta. Que não entendam Macaíba como prolongamento de Natal devorada pelo capitalismo econômico. Imponham os limites: dunas brancas, o rio, mesmo sem a lâmina límpida de suas águas, a própria história de Macaíba, única e indivisível. A geografia dos limites entre as cidades não pode ser indecisa. Cada uma tem a sua dor e a sua canção.

O esquecimento deliberado do poder público estadual em restaurar o Empório dos Guarapes é o maior crime perpetrado contra a história do comércio do Rio Grande do Norte. Nas décadas de 1860 a 1880, em termos de comércio de importação e exportação, Macaíba foi o maior do Estado. Essa época de apogeu está sendo apagada da história porque o projeto de restauração dorme em algum birô do Centro Administrativo. A área foi desapropriada pelo governo, paga, tombada por decreto oficial, o projeto técnico concluído, prometida a execução, mas o recurso permanece no obituário da omissão. Na matriz de Nossa Senhora da Conceição, foi celebrada missa de 30 anos de esquecimento. Fabrício Gomes Pedroza estava presente. Se Lampião tivesse subido o monte dos Guarapes, numa chuva de balas, talvez o Guarapes já tivesse sido restaurado.

“Vem, vem nos ajudar”, grito dentro de mim esperando. Senador, governador, deputado, prefeito, vereador, o escambau... Saibam que os moradores dos Guarapes, com a restauração, às suas residências terão valor imobiliário triplicado. O museu histórico do comércio do Rio Grande do Norte atrairá oportunidades diretas e indiretas de emprego. O calçamento já está chegando beneficiando o acesso. Por Lei Municipal Mangabeira e os Guarapes hoje, constituem uma área urbana ou um bairro de Macaíba. E para essa região promissora que a cidade vem crescendo, pois não existe outro com mais razão telúrica e força histórica, a começar com o Ferreiro Torto sempre margeando o rio Jundiaí!!

quarta-feira, 21 de junho de 2023

 



Oitenta anos de Monsenhor Lucas

Padre João Medeiros Filho

No dia 23 de junho, celebra-se o natalício de Padre João Maria Cavalcanti de Brito e Monsenhor Lucas Batista Neto. Inegavelmente, este passará também para a história, como um dos grandes apóstolos do RN. Seguiu o exemplo de seu conterrâneo Padre João Maria, igualmente seridoense, nascido no município de Caicó (RN). Lucas também exerceu o ministério sacerdotal na Matriz da Apresentação, onde o “Santo de Natal” revelara a ternura divina.

Há coincidências na vida de nosso estimado monsenhor. Foi ordenado cem anos após a unção presbiteral dos padres Sebastião Constantino de Medeiros (caicoense) e Cícero Romão Batista (Padre Cícero do Juazeiro), ambos colegas de seminário de Padre João Maria, cuja ordenação fora adiada, pois ele não tinha ainda a idade canônica para o presbiterato. Tudo isto é motivo de agradecimento. Agradecer faz parte da nobreza da alma. A poetisa Violeta Parra proclamou sua gratidão ao Deus da Vida: “Graças à vida que me tem dado tanto.” A inefável bondade do Pai Celestial culminou de bênçãos e graças o pastor querido de muitos. Lucas é a expressão terrena do afeto e carinho de Deus por nós. Sacerdote de muitas virtudes e dinamismo, é também um místico. No âmago de seu ser dialoga com o Infinito de Deus. Apaixonado pela Sagrada Escritura, pediu a Dom Nivaldo Monte para ser ordenado no Domingo da Bíblia. Sempre tocado pela beleza do Saltério, balbucia no silêncio de seu coração preces de louvor e agradecimento. Como Exupéry, sabe que “no silêncio alguma coisa irradia.”

Exemplo de humildade, paciência e perseverança alimenta-se de sua fé: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará” (Sl 23/22, 1). Desafios e lutas acompanham a sua trajetória humana. Sensível e solidário, ainda jovem procurou ajudar os pais a educar uma família de onze irmãos. Para tanto, chegou a ser frentista de posto de gasolina e sorveteiro. “Combati o bom combate, guardei a minha fé” (2Tm 4, 7). Em todos os momentos de sua vida, Lucas conserva a alegria em sua face e a bondade no coração.

Muito lhe deve o Povo de Deus, especialmente o Arcebispado de Natal, onde desempenhou importantes funções como: pároco, vigário episcopal, professor, coordenador estadual do ensino religioso, membro dos conselhos presbiteral, episcopal e de consultores da arquidiocese, diretor de faculdade, criador de várias pastorais católicas. Trabalhou arduamente para preparar a vinda de São João Paulo II a Natal, quando do Congresso Eucarístico Nacional. Dentre muitas virtudes que possui, distingue-se pela simplicidade e lhaneza, disposição para servir, obediência e espírito de fraternidade.

Agradecemos-lhe por buscar romper em nós, seus amigos e irmãos na fé, o pretensioso parêntese da suficiência e nos convencer que só Deus nos basta. Somos gratos pelas belas lições inspiradas no Evangelho. Sempre foi profeta. Pregou firme, ao ver fraqueza. Ensinou ternura, ao sentir aspereza. Mostrou diálogo, quando pressentiu intransigência. Enfim, irradiou amor, quando presenciou frieza e indiferença em tantos. Foi peregrino e viandante no seu profícuo apostolado em Pendências, Macau, Natal (paróquias de Nossa Senhora da Apresentação, Santa Teresinha, Santo Afonso e na Casa da Criança). Demonstrou às pessoas de Igreja que ela não tem fronteiras. “Não se pode prender a Palavra de Deus” (2Tm 2, 9). Estamos unidos, pronunciando a palavra de gratidão de todos aqueles que gozam do privilégio de sua amizade. Digo apenas que o amamos muito. O amor não tem palavras suficientes para se expressar e o reconhecimento é maior que o discurso.

Que Deus o conserve são, lúcido, alegre, generoso e forte. Continue dizendo que é importante o balbuciar da prece. Esta carrega a marca de Deus, inscrição da nossa proveniência, fornalha que arde secretamente em nosso coração. O Espírito Santo o ilumine sempre, fortaleça a sua alma, console-o nas tribulações e aumente a sua fé na graça divina, que transforma o homem e o mundo. Sinta sempre a força do Alto e possa dizer como a Mística de Ávila: “Ó Pai, por tanto tempo o teu poder me abençoou. Conduziste-me pelas estradas do amor e da misericórdia.” Como Nossa Senhora exalte: “O Senhor fez em mim maravilhas, santo é o seu nome” (Lc 1, 49).

sábado, 17 de junho de 2023

 

Recordando a minha vida de rapaz (Paulo Lira)
(texto de PAULO LIRA, Transcrito do jornal “A República”, edição de 17 de setembro de 1974.)
Numa noite de insônia e cansaço (não cansaço por trabalho, porque esse negócio é relativamente pequeno para mim aqui no Rio [...]) eu passei a rememorar dias da minha juventude de rapaz em Natal. Recordei amigos ótimos, namoros, passeios e farras inúmeras. Que noites maravilhosas.
Companheiros de brincadeiras no centro Náutico Potengi, de passeios extravagantes de bicicletas, do circo de “seu” Stringhini, onde Noel Miranda fez um discurso oferecendo um ramalhete de rosas de mungubeiras, tinhorões e outras flores “raras” ao dono do circo e cujo discurso tinha por tema principal recitar um soneto que começava assim: “Sei que sou um sapo, sinto que crio rabo [...]” e “seu” Stringhini protestava “não apoiado!”.
Noutro circo que fomos na Rua do Cajueiro, entramos também no Picadeiro para desafiar o palhaço e criticar os acrobatas.
O final foi meio ruim: fomos cercados pelos artistas armados de pau e ia se dando uma confusão danada [...] felizmente saímos sãos e salvos.
Sobre passeio na Rua Tamarineira onde João Sizenando encontrou uma senhora debaixo da pitombeira e assombrou-se pensando que era uma alma [...]
De outra feita, saímos a bater nas portas alheias. Um sujeito na Rua da Conceição saiu de revólver em punho para amedrontar a turma. Corremos em louca disparada. Numa construção na mesma rua, Alberto Nesi ficou com o paletó encalhado nos andaimes e gritou “me solta! não fui eu!”.
Daquele grupo fazia parte (denuncio agora): João Sizenando Filho, Ângelo Pessoa, Alberto Nesi, Olavo Gluck, Eider Gomes Ribeiro, Carlos Bahia, João Bahia, Arthur Veiga, Luiz Lira, Arnaldo Lira e eu. Talvez uns dois mais cujos nomes não recordo. Essa era a turma que todas as noites tinha um extravagante programa de canalhismo a realizar. Hoje seria a juventude transviada [...]
Todos nós trajávamos impecavelmente calça de flanela bege ou branca, paletó de casimira azul, camisa de palha seda, sapato branco ou de duas cores, muitas vezes encomendado sob medida no Recife. O João Sizenando Filho caprichava nesse particular. Éramos os amigos mais unidos de todos os tempos.
Ah! Os bailes e festas na casa de Jerônimo Moura! Os bailes de seu Ananias, onde ele obrigava as suas filhas a dançar com a gente. Os furtos de cordões da bandeira da Maçonaria “21 de Março”, para nas noites de escuro (sempre faltava luz em Natal), amarrarmos na altura de uns 30 centímetros ligando um muro à parede da venda de Zé da Luz, a fim de que o vendedor de coalhada tropeçasse ao passar com o tabuleiro cheio de copos.
E os jogos de futebol às 4 horas da manhã pelas ruas de Natal, a caminho do Centro Náutico, todos nós em disparada louca atrás da bola [...]
As missas aos domingos na igreja do Bom Jesus com legião de namoradas acompanhando de longe as meninas da Escola Doméstica. O cinema de seu Leal (Royal) com as cadeiras mais duras do mundo onde eu era pianista. Ali o canalhismo era o maior do mundo, sendo comandado por Zé Herôncio, jogando bombas “tranavalianas” na tela!
Assim foi a minha vida de rapaz, tocando piano e me divertindo em inocentes farras!
Mas, tudo passou, hoje todos estão casados, com filhos e netos (eu só tenho nove até aqui) o resto anda por aí ainda vivo, relembrando como eu, nas noites de insônia e as delícias da nossa vida maravilhosa de rapaz.
Todas as reações:
Berg Costa, Geovanira Galvão de Lima e outras 174 pessoas

 Santo Antônio, de Lisboa e de Pádua

Padre João Medeiros Filho 

Celebra-se sua festa litúrgica em 13 de junho. Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo era seu nome civil. Nasceu aos 15/08/1195, em Lisboa. Faleceu com apenas 35 anos, aos 13 de junho de 1231 em Pádua (Itália), onde vivera alguns anos. Por essa razão, passou a ser chamado de Santo Antônio de Pádua, não obstante sua origem lusitana. Inicialmente, ingressou na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, tendo sido ordenado sacerdote no Mosteiro da Santa Cruz, de Coimbra, em 1220. Posteriormente, após uma tentativa frustrada de fixar-se no Marrocos – onde pretendia ser missionário entre os muçulmanos – partiu para a Itália. Durante a viagem, foi acometido de grave doença. O navio em que embarcara acabou desviado por uma tempestade para a Ilha da Sicília. Ali chegando, resolveu ir até Assis para conhecer São Francisco. Este o impressionou e marcou tanto sua vida, que resolveu deixar os agostinianos e ingressar na ordem franciscana. Sua lucidez e equilíbrio eram relevantes. Em carta, São Francisco o chama: “Meu bispo”. Grande pregador e conselheiro, Antônio orientou nobres e ricos de seu tempo. Intermediou vários casamentos entre membros da aristocracia europeia. Conta-se que ajudou muitas noivas a comprar o enxoval e pagar o dote esponsal. Daí, nascem a fama de promotor de matrimônios e o epíteto de “casamenteiro”, surgindo também a devoção das moças casadoiras. Combateu os erros doutrinários de sua época com tanta convicção e sabedoria que São Francisco o designou superior provincial dos franciscanos. Sediado no Convento de Arcella (Pádua), viajou pela Europa com tanta rapidez e frequência, a ponto de a tradição atribuir-lhe o dom de ubiquação, pelo qual podia estar em vários lugares ao mesmo tempo. Dotado de grande eloquência, inteligência privilegiada e exímio conhecimento teológico, reiterou que a virtude maior do cristianismo é a caridade. O convento onde morava era rodeado por pobres e famintos, que lhe suplicavam o pão material e o alimento espiritual. A tradição conserva até hoje o símbolo de sua atenção e amor pelos pobres: o pão de Santo Antônio, distribuído à porta dos conventos franciscanos às terças-feiras (dia da semana em que ocorreu o seu sepultamento). Compreendeu desde cedo a lição de Cristo: “O que fizerdes ao menor dos meus irmãos, é a Mim que o fazeis” (Mt 25, 40). Para pregar unicamente a Palavra de Deus, renunciou à cátedra da Universidade de Bolonha. Sabia da existência dos mais sedentos da Água que nos sacia e famintos do Pão da Vida. O ministério da pregação foi a prioridade de seu apostolado. Na verdade, transmitia “palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Na sociedade contemporânea, inundada de falas e informações pelas redes sociais e mídia, sua mensagem convida-nos a buscar os ensinamentos que nos salvam. Num mundo contaminado por falsos valores, que nos deixam perdidos e atônitos, ele nos leva a encontrar Deus, “tesouro que a traça não corrompe” (Mt 6, 19). Fez muitos descobrir Jesus Cristo. Impressionou tanto os cristãos e as autoridades eclesiásticas pela sua santidade e sabedoria que o Papa Gregório IX o elevou às honras dos altares, canonizando-o em apenas onze meses após a sua morte, declarando-o Doutor da Igreja. Dada à influência portuguesa e à catequese dos franciscanos, primeiros missionários a aportarem no Brasil, bem como à devoção por parte do povo mais simples, Santo Antônio foi integrado aos festejos juninos, ao lado de São João e São Pedro. Muitos conhecem o folguedo: “Matrimônio, matrimônio, isso é lá com Santo Antônio.” Sua influência contribuiu, à época, no registro batismal de muitos portugueses. Havia incidência significativa do prenome Fernando, oriundo das dinastias espanhola e lusitana. O ilustre frade mudou essa rotina. Muitos passaram adotar o nome do santo como prenome ou acrescentá-lo ao já existente. Exemplo relevante é o do poeta Fernando Pessoa. Essa tradição foi trazida para o Brasil. Podem ser encontrados vários registros de Fernando Antônio nos livros paroquiais de batismo e nos cartórios. Rezamos em nossas igrejas: “Bendito seja Deus nos seus anjos e nos seus santos.”

sexta-feira, 9 de junho de 2023

 RELEMBRANDO LAURO DA ESCÓSSIA

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Em 1981, o plano editorial da Fundação José Augusto, a qual presidia, contemplava a publicação do livro “Memórias de um Jornalista de Província”, do mossoroense Lauro da Escóssia, profissional da imprensa e então diretor do Museu Municipal de Mossoró. A obra foi composta e impressa na Gráfica Manibu da Fundação José Augusto e lançada em Natal, na livraria Universitária sob a bandeira desfraldada de Walter Pereira com a presença do mundo cultural de Natal e de Mossoró. Raimundo Augusto da Escóssia, seu filho, meu colega do Tribunal de Contas, trouxe-me a foto do evento para a minha curiosidade e alegria no ensejo da data do centenário do seu pai. Prometi-lhe que faria o registro público para resgate do relato autobiográfico daquele que foi não somente um marco na imprensa mossoroense mas que deixou o legado primoroso de discípulos como Dorian Jorge Freire e Jaime Hipólito Dantas que enobrecem a intelectualidade da terra de Vingt-Un Rosado.

O livro tomou o número CLVI da Coleção Mossoroense e a capa confeccionada pelo competente artista plástico Vicente Vitoriano. O prefácio de Dorian Jorge Freire foi inexcedível no estilo e na forma emocional que só ele sabia fazer, dizer e sentir quando o assunto era Mossoró e seus ídolos. A orelha foi de Raimundo Soares de Brito, monstro sagrado do tabernáculo da cultura daquele “país”. Senti-me, partícipe desse banquete de reminiscências do mestre Lauro da Escóssia porque decidi, à época, imprimir as estórias vindas de sua infância à maturidade, entre 1905 até aqueles dias do ano da graça 1981. A narrativa do autor se confunde com a própria história de Mossoró na diversidade dos temas focalizados.

Relembro-o quando o conheci pessoalmente, do alto dos seus 76 anos, aqui em Natal, na manhã luminosa dos autógrafos. O corpo, pouco curvado, pareceu-me advinda da forma da postura repetida, à máquina de escrever. Os olhos expressivos procuravam detalhes nas coisas que enxergavam como todo bom escriba provinciano. A cabeleira leonina revelava as lutas vencidas e outras adiadas porque ninguém vence todas. Exalava por todos os poros o jeito de ser, o jeito inconfundível do ser mossoroense. Ninguém melhor do que Dorian traçou o seu perfil, como amigo, colega, compadre e aluno no seu memorável prefácio. Superar o brilhante colega e imortal quem há de? A impressão que Lauro me deixou é só minha, exceptuando-se a alegria singular de haver contribuído para a impressão do seu primeiro livro.

Nasceu, como bem afirma, na madrugada friorenta de uma quinta-feira 14 de março de 1905, no número 16 da rua Almeida Castro, centro de Mossoró. A sua marca registrada, em meio a tantos fatos notáveis ligados a sua vida, está fincada na trincheira jornalística de “O Mossoroense”, verdadeira universidade onde se formou e educou gerações na arte e na lide de informar, servir e defender sua urbe, como diria o velho e saudoso alcaide Dix-Huit Rosado. 

Nas comemorações dos 100 anos, “Memória de um Jornalista de Província” mereceu a 2ª edição de parceria com outras pertinentes homenagens ao velho repórter. Ao redigir a ata dos meus sentimentos pela primeira edição, eu o faço com o orgulho de haver também modestamente contribuído para que se revelasse a força evocativa de um baluarte do bravo povo de Mossoró.

Como jornalista, Lauro tinha rara luz singular que provinha de dentro de si mesmo, sem reflexo político de ninguém. Cresceu e se firmou entre as raízes de sua terra, com a tez queimada no cristal do sol de Mossoró. Na lide jornalística, Lauro honrou e dignificou o jornalismo de sua terra.

 

 

(*) Escritor


quarta-feira, 7 de junho de 2023

 

A solenidade de “Corpus Christi”

Padre João Medeiros Filho

É uma festa móvel, celebrada numa quinta-feira, após o Domingo da Santíssima Trindade. A Eucaristia é um gesto sublime do amor de Cristo. Nela, repete-se o mistério da Encarnação, de forma intensa e profunda. Jesus transforma elementos materiais na sua pessoa. Consagra assim o universo, através dos três elementos que o representam: o trigo (pão), a uva (vinho) e a água. Seres inanimados tornam-se suporte da divindade, ali presente, abscôndita aos olhos materiais, mas patente à visão da fé. Na beleza da presença silenciosa, Ele deixa sua palavra repercutir no íntimo daqueles que dele se achegam para mitigar a sede e fome.

No sacramento do altar, a humildade assumida pelo Verbo na Encarnação é levada ao ápice. Por isso, entende-se o motivo pelo qual os judeus, ao ouvirem o Senhor anunciar que deveriam “comer a sua carne e tomar o seu sangue” (Jo 6, 51-52), consideraram tais palavras demasiadamente duras. E não podendo ou querendo aceitá-las, foram se retirando. Diante dessa reação, Cristo desafiou os apóstolos: “Vós também quereis ir embora?” (Jo 6, 67). Pedro respondeu-lhe: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Teologicamente, sua resposta converte-se em profissão de fé.

A Eucaristia perpetua os ensinamentos do Senhor, máxime no que tange ao serviço e à humildade. “Com efeito, o que entre vós for o menor, esse é o maior” (Lc 9, 48). Nela, o Filho de Deus continua o seu ensinamento do amor fraterno: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,12). No Pão Eucarístico, Ele se oferece como alimento igual para todos: pobres e ricos, eruditos e iletrados, santos e pecadores. E nesse augusto sacramento, faz-nos compreender o seu gesto de perdão, doando-se indistintamente a todos. Perdoar é difícil, pois ultrapassa por vezes nossos temperamentos e limitações. Naquele alimento sagrado, Jesus ensina como deve ser o homem: despojado, disponível e de braços estendidos. Assim aceitou a Cruz, gesto este precedido do grande mistério de amor, perpetuado na missa. Nesta, continua milagres de vida. Durante sua permanência neste mundo, curou doentes e ressuscitou mortos. Hoje, pela Eucaristia reanima os desfalecidos pela dor, tibieza na fé ou ausência de Deus. 

Cristo é nossa fortaleza. Quanto mais dele nos aproximamos, mais necessidade sentimos. É uma lenta caminhada até a realização definitiva no banquete celestial. Ao receber Jesus eucaristicamente, já não somos nós que existimos, mas é Ele em nós. “Eu vivo, mas não eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20), expressou o apóstolo Paulo. A Eucaristia é o plantão permanente da eterna solidariedade divina; meiguice de um Pai que envia seu Filho Unigênito para dialogar com os irmãos. Ali, Ele nos diz: “Quem vem a mim, jamais terá fome” (Jo 6, 35). A Eucaristia é a espera de Deus por nós, o abraço celestial que nos é reservado. Beijo carinhoso de um Pai cheio de bondade, que no silêncio da Hóstia nos revela amor e perdão. Eis o sublime sacramento, continuidade da presença transcendental a partir da Encarnação do Verbo. Este quis se unir à humanidade, mostrando-nos que ela tem valor infinito, não importando suas fraquezas. Deus nos perfilhou por ato de sua inefável misericórdia e generosidade.

A Eucaristia antecipa a eternidade, na qual alcançaremos a plenitude de nossa história. “Sem ela, o homem é pequeno demais para o Céu. Com ela, demasiadamente grande para a terra”, afirmou Cônego Luiz Gonzaga Monte. Ela é Deus – em seu Filho –abrandando em nós as saudades do Eterno. É impossível não ficar extasiados diante de tão admirável mistério! Interrogações e inquietudes poderão surgir no coração de alguns. Entretanto, encontrarão a paz na intimidade com o Mestre, presente no altar, de forma sacramental. Sustentados pela fé e sua luz, que ilumina nossos passos na noite de dúvidas e dificuldades, poderemos proclamar, como o saudoso Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, no Congresso Eucarístico de Currais Novos (RN), em 1937: “Glória a Ti, ó Mistério querido, Ó Milagre sublime de amor! Glória a Ti, ó Jesus escondido, Cristo Rei e dos povos, Senhor!”

terça-feira, 6 de junho de 2023

 

Sorte minha
​Fazia algum tempo que não recebia uma mensagem do Goodreads. Para quem não conhece o dito cujo, criado em 2007, ele se intitula “o maior site do mundo para leitores e recomendações de livros”, com a missão específica de “ajudar as pessoas a encontrar e compartilhar os livros que amam”. Segundo seu fundador, o Goodreads “é um lugar onde você pode ver o que seus amigos estão lendo e vice-versa. Você pode criar ‘estantes’ para organizar o que leu (ou quer ler). Você pode reciprocamente comentar as avaliações dos demais usuários. Você pode encontrar seu próximo livro favorito. E nessa jornada com seus amigos você pode explorar novos territórios, reunir informações e expandir sua mente”. Um pouco autoajuda esse final, mas tá joia.
​Fiquei felicíssimo com a mensagem, sobretudo porque ela trazia consigo uma lista de 80 recentes “romances de mistério”, com as devidas recomendações, para que o usuário/leitor possa se enfronhar em novas aventuras do tipo: “você está procurando os romances de mistério mais populares dos últimos três anos? Oitenta deles? Em ordem? Temos uma coincidência extraordinária a relatar. Reunimos abaixo os novos mistérios e thrillers mais populares em circulação recente, conforme determinado pelo que seus colegas Goodreads recomendaram e adicionaram às suas prateleiras. Os livros aqui são classificados como os mais populares e cada um tem uma classificação média geral de 3,5 estrelas ou melhor. Normalmente melhor”.
Realmente, a proposta era/é instigante. E caí para dentro da lista.
Todavia, qual foi a minha surpresa ao descobrir que, dessa lista de mistérios do Goodreads, tidos como os mais badalados dos últimos três anos, pouquíssimos eu conhecia ou mesmo tinha ouvido falar. E olhem que a lista era/é bem diversificada: os tradicionais whodunits, cozy mysteries da moda, thrillers, cold cases, com títulos de escritores do momento e dos famosos ases da turma (tipo Stephen King, James Patterson, Harlan Coben). Conhecia talvez uma meia dúzia: “The Thursday Murder Club” (por Richard Osman), “The Cartographers” (Peng Shepherd), “The Guest List” (Lucy Foley), “The Woman in the Library” (Sulari Gentill), “The Boy from the Woods” (Harlan Coben) e “State of Terror” (Louise Penny e Hillary Rodham Clinton, a outrora primeira-dama e Secretária de Estado dos EUA). Dois deles porque tinham me chamado a atenção título e enredo, que associei à minha amiga Agatha Christie, um deles em razão da autora estadista famosa e os outros porque havia topado com eles (até nas traduções em português) em livrarias daqui e d’alhures.
Por falar em Agatha Christie, devo reconhecer, resignado, que a minha praia são mesmo os clássicos – além da minha amiga, Conan Doyle, C.K. Chesterton, Ian Fleming, Georges Simenon, Raymond Chandler, Dashiell Hammett e por aí vai –, que, graças às venturas da vida, já tive a oportunidade de ler e apreciar.
Fiquei decepcionado comigo mesmo por essa falta de familiaridade com “contemporâneos”. Quase triste. Até que me lembrei de um “slide” do nosso Américo de Oliveira Costa no seu maravilhoso “A biblioteca e seus habitantes” (Achiamé/Fundação José Augusto, 1982): “‘Homem feliz que ainda tem alguma coisa de Eça para ler’, disse, um dia, Afonso Arinos a Tristão de Athayde, ante a informação negativa deste à pergunta se lera certo volume do autor de Os Maias. Carta de Claudel a Gide (1910): ‘Você é feliz por não haver ainda lido as Mémoires d’Outre-Tombe, tendo por isso, em reserva, uma grande satisfação’. O que é uma paralela à pergunta de Eduardo Prado a Batista Pereira: ‘Já leu as Mémoires d’Outre-Tombe?’. E como a resposta não fosse afirmativa, Prado exclamaria como Arinos e Claudel: ‘Que homem feliz! Ainda pode ter esse prazer de ler pela primeira vez!’”.
Pensando bem, tudo sorte minha. Ainda tenho todos esses mistérios para desvendar, todas essas aventuras para sonhar.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

domingo, 4 de junho de 2023

sexta-feira, 2 de junho de 2023

VOLUME MORTO DA MORALIDADE

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Se um golpe nas instituições democráticas desmoraliza ponderavelmente  o país, pior do que ele é a corrupção de um governo. Outra constatação deplorável reside na legislação punitiva que continua frouxa, lasciva e insuficiente. A Polícia Federal, o Ministério Público fazem a sua parte. Descobrem, flagram, prendem, exibem os ladrões, processam, ouvem delações, depoimentos, testemunhos. Tudo!! Mas a lei, - assim como a carne – ela é fraca, volúvel, iníqua. Não é do bem. Dorme de mala e cuia na cama com o defensor do réu.  O benefício da dúvida faz o advogado botar sempre no bolso. Mas, o dinheiro público foi roubado! Acontece que o povo, apenas, é um detalhe. Pra que tornozeleira eletrônica? Melhor para os gestores desonestos é o supositório eletrônico.

Qual o brasileiro que diante de todos esses escândalos não perde a autoestima? Até mesmo o sentimento patriótico porque o Brasil está desmoralizado dentro e fora das fronteiras. A dimensão do assalto no país é o maior da história político-administrativa universal. Se existissem critérios, princípios, sensatez, os gestores desonestos, renunciariam, mesmo que não tivessem praticados os atos ou serem responsáveis diretamente. Mas, por vergonha, para provar que são honestos e que desejam a apuração isenta de todos os crimes contra o patrimônio do país. Permanecendo nos postos, repassam a nítida impressão que no fisiologismo com os congressistas contaminados e magistrados e ministros poderosos (do próprio governo e de outros poderes), o tráfico de influência deturpa a busca da verdade. Por muito menos, nas democracias de países civilizados da Europa, gabinetes de governo são depostos naturalmente, sem crise, sem crase e sem cruzes. A democracia é soberana. O caráter superior. Mas, a lei do toma lá dá cá, é prostituição.

Outro fato aberrante é a tática do político denunciado ou empresário corrutor negarem permanentemente. “Não sei”,  “Não conheço o delator”, “Nunca o vi”, “A imputação é falsa”, “Essa prática, vem desde os governos anteriores...”.

O abuso da desfaçatez cabe na carapuça de muitos. Acho que a maioria dos brasileiros chegou a exaustão com o noticiário da mídia nacional e da rede social. Entrevistar essa gente é pura carniça. Prefiro o canal musical da tv, que diariamente nos brinda com canções do tempo da jovem guarda. E o de forró daquele época? Vixe... É bom demais.

Ninguém pode negar que hoje existe uma guerra civil, gerada pela droga em toda nação, cujas estatísticas de homicídios exibem uma juventude devastada por revolucionários sociais bem municiada e ocultos, cuja guerra a polícia vem perdendo, paulatinamente. Um país desorientado e com essa multidão de marginais não pode suportar tanta dor e tantas perdas. Sem contar as mortes para o Covid e acrescente-se a falta de assistência de médicos e medicamentos nas UPAS e nos hospitais as filas quilométricas para cirurgias em pobres da rede social do INSS.

E o pugilo da saúde pública nos hospitais da capital? Esse merece veemente repulsa. É um libelo à competência dos administradores. A situação deplorável me infunde a convicção de que ninguém mais se comove com a dor humana. O melhor homem é o homem morto. Vivo é desprezível. Doente e pobre, ele fede. Onde deveriam remunerar melhor, paga-se pior e se gasta menos. Hospital público é a antessala da morte iminente porque está desprovido das mínimas condições de higiene e serviços. Denunciar o estado de calamidade não constitui o meu propósito. Mas, apenas, lembrar ao leitor que o ser humano coisificou-se. Deixou de ser carne inteligente. Hospital - lugar de repouso e cura - virou empório do estado, verdadeiro guardador de rebanho, onde o pobre, sem nenhum plano de saúde, tem defeito de circulação do sangue no corpo à alma. Tenho dito.

(*) Escritor



DO PASSADO E SUAS ANTIGUIDADES


Horácio Paiva * 



Relendo velhos escritos de meu irmão Daltro, que morreu em 1996, eis que fixo a atenção nesse curioso soneto que escreveu provavelmente no início da década de 1960 e que trata da morte de um gatinho que criávamos em Macau, de nome Ariel. Todos gostávamos desse gatinho amarelo e branco. Tínhamos também outro, inteiramente branco, no qual pusemos o nome do centauro mitológico Quíron... mas esta é outra história...


No soneto em destaque, Daltro intercala versos de Augusto dos Anjos, Camões e Baudelaire, entre os seus próprios, produzindo um bom efeito estético.


O GATO ARIEL


Vinte e dois de setembro. Madrugada.

Nem uma névoa no estrelado véu...”

Banhei a face despreocupada,

respirei forte, contemplando o céu.


A Morte se apaixona. Enamorada,

vai-nos a vida para o seu vergel.

Safo de Fáon foste desprezada...

Cavalga a morte fúlgido corcel.


Se lá no assento etéreo se consente,”

Vive tranquilo, as nobres atitudes

de esfinge a olhar além das solitudes...”


Deixaste a vida prematuramente

para melhor cingir justo laurel,

pobre amigo querido, meu Ariel!


(Daltro de Paiva Oliveira – n. 04/07/1937; m. 29/05/1996)


Sobre a lenda de Fáon, escreveu o professor Jônatas Batista Neto, em seu blog JONATASNETO’S BLOG, edição de 08/10/2011:


Fáon, Safo e Alceu: três personagens da ilha de Lesbos, envolvidos numa trama meio histórica, meio mitológica. Os antigos diziam que o barqueiro Fáon - um velho pobre e feio - tinha dado, um dia, carona à deusa Afrodite (Vênus) sem lhe cobrar passagem, naturalmente. Agradecida, a divindade presenteou-o com um frasco de unguento mágico: esfregando-o repetidas vezes sobre o corpo, Fáon recuperou a juventude e ainda conseguiu tornar-se o mais belo homem da ilha, a ponto de deixar todas as mulheres caídas por ele. Até a célebre poetisa Safo apaixonou-se pelo barqueiro, só que, por alguma razão, não teve sorte: rejeitada, atirou-se da falésia de Lêucade e encontrou a morte “nas ondas verdes do mar”. Aristóteles diz que foi castigo porque, um pouco antes, ela havia descartado o notável poeta Alceu, que também morava na ilha.”


A propósito de Safo e Alceu, dois grandes poetas da Grécia antiga, recolho esse interessantíssimo e curioso diálogo poético que se encontra na antologia POESIA GREGA E LATINA, organizada e com traduções de Péricles Eugênio da Silva Ramos (Clássicos Cultrix, Editora Cultrix, São Paulo, 1964), na página atribuída a Alceu:



PALAVRAS DE ALCEU A SAFO


Ó cheia de pureza,

ó Safo coroada de violetas

que docemente ris:


eu te diria de bom grado certa coisa,

se não fosse a vergonha que mo impede.


RESPOSTA DE SAFO A ALCEU


Se quisesses tão só o bom e o belo,

se em tua boca más palavras não tramasses,

não haveria essa vergonha nos teus olhos

e poderias exprimir-te francamente.



A antiguidade clássica grega ressurge, aos nossos olhos modernos, no brilho de uma coroa formada por nove musas humanas, nove grandes poetisas, segundo o saber da tradição e citadas no Epigrama 26, do poeta Antípatro da Tessalônica (sécs. I a.C. – I d.C.) - Safo, Corina, Anite, Erina, Telesila, Praxila, Mero, Nóssis e Mírtes -, mas, de sua produção poética, pouco resistiu à corrosão do tempo e das “intempéries” humanas, às vezes movidas pela intolerância, ficando-nos, porém, fragmentos que atestam a sua grandeza. Assim como este, ainda de Safo, na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, que é a nossa chave de ouro no fecho desta breve notícia:


A lua já se pôs,

as Pêiades também:

meia-noite, foge o tempo,

e estou deitada sozinha.”



.................................................................................................................

(*) Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.