Somente
num lugar bucólico, como a varanda do primeiro andar da minha casa de Cotovelo
e num veraneio, é possível meditar sobre a natureza e sobre a vida. A natureza
nos trazendo pássaros, em particular o beija-flor, que há anos habita nosso
jardim, possivelmente outra geração, pois tal já acontecia nos primeiros
veraneios, quando minha THEREZA o contemplava feliz. Também o mar, os cajus, as
pitangas, os camaleões, os saguis, figuras que sempre nos fizeram visitas.
Sobre
a vida, o silêncio nos propicia experiência, meditação, tolerância, aptidão
para a leitura e para escrever. Enfim, as visitas dos parentes e amigos, os
banhos de mar, o joguinho de voleibol na frente da casa à noite nos permitem
gozar da comunhão da amizade.
Não
consigo dar conta do quanto aprendi nesses mais de 30 anos de veraneio, seja em
sentimentos de criatividade ou de sofrimento com os problemas naturais da
existência, mas, igualmente, de inspiração para as minhas Cartas de Cotovelo,
Informativos da PROMOVEC, pelo menos cinco livros aqui escritos, dois lançados
na própria comunidade Jiqui-Cotovelo.
No
silêncio foi possível traçar caminhos e projetos, desatar nós da vida, resolver
equações de grande complexidade, melhorar a vida espiritual e tornar-me mais
forte e preparado para as pelejas do cotidiano e a viver sozinho sem minha cara
metade.
Reflexões
foram presentes nesse período e metafísica nos pensamentos e nas ações
transcendentais necessários para uma vida produtiva e feliz.
Paralelamente,
a tudo isso, sempre vivi os meus devaneios ao lado da minha eterna amada até o
veraneio de 2019, registrados em variadas fotografias de momentos lúdicos. E
agora ainda os terei ou somente a saudade, eternamente, habitará o meu coração?
Deixo ao que for decidido pelo Criador.
Impossível
reproduzir tantos instantes de verdadeiro companheirismo, mas certamente agora
o silêncio total tornou-se mais constante e com ele a presença espiritual de
THEREZA. A casa é só lembrança – boas lembranças, eternizando quem foi o ponto
central de toda a alegria.
Só
os que amam verdadeiramente sentirão a dimensão das minhas palavras. Os demais
lerão o texto como mais um apenas. A todos, porém, a minha gratidão pela
atenção ao que o coração joga a ermo e a esmo.
Preparo-me
para o retorno à selva de pedra, certamente com saudade de mais um período de
paz e confraternização familiar e com os amigos. Ficarei voltando à esta Casa
Pasárgada, sempre que possível, para evitar a prescrição, como dizia o meu
estimado e saudoso Mario Moacyr Porto. Até logo aos que ficarem.
domingo, 26 de janeiro de 2020
Cartas de
Cotovelo
(26/01/2020)
Décima Segunda Carta (com satisfação)
Neste meu
último domingo da temporada praiana, registro a leitura de bons livros sobre os
quais apresento a minha crítica literária.
1.Rádio Nacional – o Brasil em
sintonia. Autores: Luiz Carlos Saroldi e Sonia Virgínia
Moreira. Rio de Janeiro, Jorge ZAHAR Editor, 2006.
Comentário:
É um interessante trabalho sobre a radiofonia brasileira, seus precursores,
momentos marcantes, programas e artistas com a riqueza documental e fotográfica
indicando aspectos pouco divulgados, desde 7 de setembro de 1922 até os dias
presentes. Leitura importante para os pesquisadores e historiadores, como
igualmente aos amantes da MPB e seus intérpretes.
2.Do
Vinil ao Download, do
escritor de nacionalidade francesa André Midani. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 2015.
Comentário:
Por coincidência este livro também me foi ofertado pelo fraterno amigo Didi
Avelino, a voz de veludo do Rio de
Janeiro, mas potiguar de nascimento. A obra tem um valor histórico
singular, pois narra a vida e trajetória do seu autor desde o tempo da invasão nazista
a Paris e os perigos para a sua sobrevivência até aportar no Brasil. Vale,
também, como uma complementação à primeira, haja vista que narra a odisseia da
história do disco, em particular no Brasil, com os seus percalços, sucessos e
fracassos. Tem uma rica iconografia e relata a trajetória de consagrados
artistas brasileiros e estrangeiros que nos foram tão queridos num passado
próximo e uns poucos que subsistiram ao caos em que se encontra,
qualitativamente, a MPB e a música universal. A reboque do seu objetivo
principal, registra aspectos comportamentais de artistas nacionais e internacionais
famosos, suas manias, vícios e abusos contratuais dando a exata situação do
mundo dos discos daquela era, da censura no governo militar, que durou bastante
tempo. Os dois livros reunidos enriquecem nossos conhecimentos específicos e
também das histórias paralelas no campo da política.
3.Getúlio
Vargas em dois mundos. Psicografado por Wanda A. Canutti,
pelo espírito Eça de Queirós. Capivari-SP: Editora EME, 2018.
Comentário: Trata-se
de interessante trabalho, de natureza espiritualista, que resgata os relatos
históricos da trajetória política do Presidente Getúlio Vargas e a sua situação
espiritual após a passagem para outra dimensão da vida, onde oferece o seu
sentimento em cada um dos momentos abordados, inclusive no do seu suicídio, com
a consequente conscientização até ser capaz de analisar o encadeamento dos
fatos de sua última trajetória terrena, seus amigos, seus desafetos de
encarnações passadas, tudo copilado e informado pelo espírito de Eça de
Queirós, através da médium Wanda Canutti (1934-2002. Na parte final consta
estudo sobre a obra de Eça de Queirós e a sua nova concepção de vida no mundo
espiritual até a elaboração do livro em referência.
Tais considerações demonstram a importância de um veraneio,
verdadeiro período de férias dos afazeres profissionais cotidianos, dando-nos
um estado de espírito reconfortante, convidativo para a recordação de momentos
maravilhosos que passamos com THEREZA na casa trintenária da Rua Parnaíba, em
Cotovelo.
terça-feira, 21 de janeiro de 2020
Cartas de Cotovelo
– (21/01/2020)
Décima Primeira Carta (com Alegria) QUE LINDA MANHÃ
Ainda estou em Cotovelo e aproveitei o título de uma canção que foi feita para mim por Luiz Assunção, quando cantei em Fortaleza nos idos de 1950, para registrar o momento atual da nossa praia.
Voltou a calmaria, pois terminaram as badalações de Pirangi e agora resta o som dos automotores nos seus trajetos entre as duas pistas, a de ida menos barulhenta e as de volta para Natal, mais agressiva - nada que não se possa suportar, tendendo a diminuir, pois já se nota o começo do ensarilhamento dos petrechos de retorno com a proximidade das aulas da meninada.
Nesse clima aproveitei a linda manhã de sol e desci à praia, com as dificuldades naturais de um oitentão, mas ainda aproveitando a firmeza da velha escadaria e corrimão, de cerca de 30 anos, que construí pelas mãos de João Batista e ao qual já autorizei fazer um reparo.
Caminhei um pouco, acompanhado do meu filho Carlos Rosso e, lá às tantas, decidi tomar um banho de mar, convidativo que estava, com a maré em crescimento, mas ainda bem distante como vem acontecendo neste veraneio, com aquelas pocinhas d'água que THEREZA adorava em nossas caminhadas.
Quando desci levava um tanto de preocupação pelo meu estado de saúde, com a perda quase total do paladar em decorrência da grande quantidade de remédios. Contudo, após alguns mergulhos tive a satisfação de sentir o gostinho das águas do mar de Cotovelo e disse comigo mesmo: "ainda tem jeito"! Vejam o que é a natureza.
Retornei com alegria e bem refeito da fadiga e após um banho doce, cuja água é exuberante aqui nesta praia, sentei-me na minha varanda do primeiro andar e dela vislumbro que a Prefeitura está em ação - ontem colocou a minha lâmpada que estava queimada de longa data e hoje fazendo reparo no poste seguinte - coisa boa. Aplausos.
Aguardo agora que sejam enviadas algumas caçambas de barro ou piçarro para acabar com os atolamentos da Rua Parnaíba, antes do carnaval chegar. Foi um bom começo de ano.
Até breve...
domingo, 19 de janeiro de 2020
Cartas de Cotovelo
– (19/01/2020)
Décima Carta (com Alegria) UM DOMINGO FELIZ
Vivi neste domingo um dia feliz, na festa que a PROMOVEC promoveu para homenagear a minha pessoa e a de Nascimento, com o título de Sócio Benemérito, bem assim a realização de um Bingo com cinco prêmios e quatro sorteios, tudo organizado pelos membros da Diretoria Esam Elali, Presidente, Octávio Lamartine, Vice-Presidente, Alzirene, Secretária Geral, Justa, sua adjunta e Eugênio Rangel, Coordenador de Comunicação, com o apoio de Roberta, nossa permanente colaboradora. Prestigiou o evento o ex-Presidente Carlos Dutra acompanhado de D. Nia. Senti a falta de muitos associados tradicionais. Contudo, o domingo não é o melhor dia para essas reuniões.
Foi uma manhã agradável, contando com a apresentação do jovem cantor Marcelo Miranda e seu violão.
Momentos marcantes registrados pelas lentes de Esam, Roberta e Eugênio:
sábado, 18 de janeiro de 2020
Cartas de
Cotovelo
– (18/01/2020)
Nona Carta (com Saudade)
Foi exatamente há um ano que lancei
na sede da PROMOVEC o meu livro “PROMOVEC – uma bela história”, onde relata a história de
Parnamirim e seus distritos litorâneos Pirangí, Pium, Barreira do Inferno e
Cotovelo, dando conta das suas características e lugares mais relevantes e
particularmente a origem de Cotovelo, seu ordenamento urbano, a criação da
PROMOVEC, seus fundadores, objetivos e ações fundamentais para as melhorias conseguidas
para a comunidade.
Na festa, compareceram muitos amigos e aqui registro
as fotografias que foram tiradas com a presença da minha pranteada THEREZA (Therezinha Rosso Gomes), cheia
de vida, sorridente, mas que inesperadamente fez sua última viagem no dia 31 de
março do ano de 2019, e também da minha querida irmã ELZA, eu também partiu
para a eternidade, para matar as saudades daquele dia tão feliz:
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
Cartas de Cotovelo – 17/01/2020
Oitava Carta (com Saudade)
A viagem final do Menino
Passarinho
Neste 16 de janeiro de 2020 recebi mais uma notícia
de tristeza, o falecimento no Rio de Janeiro, onde morava desde os 10 anos, do
cantor e compositor Luiz Rattes Vieira,
nascido em Caruaru em 12 de outubro de 1928, em consequência de deficiência
respiratória. Era casado com Eurídice
Pereira.
O
pernambucano foi criado pelo avô, no interior do estado, em Alcântara, mas a
sua primeira composição deu-se quando tinha apenas 8 anos e, por isso, ganhou a
fama com o codinome de "príncipe
do baião" e fez sucesso nos anos 1950 como radialista nas rádios
Record e Tupi.
Responsável
por mais de 500 canções e muitos sucessos, o estimado compositor, no entanto,
começou a sua vida trabalhando em diversas outras funções - Chofer de caminhão,
motorista de táxi e engraxate.
O
estilo de Vieira guardou sempre o sentir pungente do nordestino e logo cedo
consagrou-se compondo toadas, canções e cantigas como em 1953, com Menino de Braçanã, consagrada pelos artistas cantores
Ivon Cury e Zizi Possi, de
épocas diferentes. Adotou o linguajar do
matuto estilizado, de poetas populares como o paraibano Zé da Luz, e o
maranhense Catulo da Paixão Cearense, e
desenvolveu-se, tanto em canções assinadas só por ele, quanto nas parcerias com
o maranhense João do Vale. Os dois assinaram clássicos como Nas Asas do Vento,
A Voz do Povo, Estrela Miúda, Maria Filó (O Danado do Trem) e Estrada do Columbandê.
Era um homem culto e pertenceu à elite do rádio
carioca dos anos 50 e 60, com consagradora passagem no programa da TV Jornal do
Commercio de Pernambuco, onde o conheci e passei a admirar, tornando-se
presente em minha vida desde então.
É
autor de clássicos da MPB, como Prelúdio Para Ninar Gente Grande (Menino
Passarinho) e Paz do meu Amor (Prelúdio Nº2).
Afirmam seus biógrafos que em 1958, Luiz Vieira
lançou o primeiro, e provavelmente seu melhor disco: “Retalhos do Nordeste” A
Música e a Poesia de Luiz Vieira (Copacabana). Já em 1951, gravou no selo
Todamérica, tendo suas composições gravadas por inúmeros cantores e cantoras como
Ivon Cury, Marlene, Inezita Barroso, Alaíde Costa, muita gente boa. Retalhos do
Nordeste. São dez faixas, parte delas com uma orquestra dirigida pelo maestro
Moacir Santos.
Luiz Vieira não era apenas cantor ou cantador, como preferia e compositor,
mas encenava as suas composições contando histórias, que o tornava diferente
dos demais cantores da época. Teve grande influência do estilo iniciado por Luiz
Lua Gonzaga e seus parceiros.
Em
2018, quando o cantor completou 90 anos, o produtor Thiago Marques promoveu um
show tributo a Vieira, no Teatro Itália, em São Paulo, que virou disco Luiz Vieira 90 anos, em 2019, com selo da
Kuarup, contendo 20 composições e participação de nomes como os de Zeca
Baleiro, Daniel, Maria Alcina, Renato Teixeira, Claudette Soares, Sérgio Reis, As Galvão, Verônica Ferriani e Ayrton
Montarroyos, tendo a direção musical e arranjos das gravações do pianista
Alexandre Vianna, direção, e produção artística do espetáculo, e do álbum de
Thiago Marques Luiz. O texto de apresentação é assinado por Rolando Boldrin,
que se confessa influenciado por Luiz Vieira, assisti-lo na TV fez com que se
voltasse para a carreira artística.
Ao lado de Luiz Gonzaga, apresentou o programa
“Salve o Baião” na Rádio Tamoio, no Rio. Em São Paulo, o artista foi cantor da
rádio Record. Vieira compôs músicas para Caetano Veloso, Rita Lee, Nara Leão, Moacyr
Franco, Elba Ramalho, Hebe Camargo,
Maria Bethânia e o próprio Luiz Gonzaga, ainda Taiguara, Pery Ribeiro, Augusto Calheiros, Gilberto Alves,
Agnaldo Rayol, Cascatinha e Inhana, Sérgio Reis, e Marcelo Costa.
Gravou criações de Assis Valente, foi produzido
por Moacyr Santos e recrutou os sanfoneiros Dominguinhos, Chiquinho do Acordeon
e Zé Menezes para um projeto dedicado ao forró.
Discografia
·(1951) Pai, acende o lampião/Caixa d,água • Todamérica • 78
·(1951) Baião da Vila Bela/Coreana • Todamérica • 78
·(1952) O retirante/Largo do Cafunçu • Todamérica • 78
·(1952) Dona Catulina/Chova ou faça sol • Todamérica • 78
·(1953) Pegando sol/A lenda do chafariz • Todamérica • 78
·(1953) Rolinha minha saudade/Toada com Maria Jesuína •
Todamérica • 78
·(1954) Pirraça/Lelê belezinha • Todamérica • 78
·(1954) O menino de Braçanã/Os olhinhos do menino • Todamérica •
78
·(1954) Paroliado/Desfeita • Todamérica • 78
·(1955) Viva a Penha/Sodade furadera • Odeon • 78
·(1955) Quem come bebe tudo/Mamãe bate • Odeon • 78
AL-MOUTANABBI (915-965 d.C.), iraquiano,
foi um grande poeta, considerado dos mais proeminentes da literatura árabe.
Alguns de seus poemas são tidos como proverbiais.
O seu poema DIVISA, queacima divulgo na versãodo poeta português Herberto Helder, ei-lo
noutra tradução:
um guia leve, despretensioso, um guia do verão como o verão...
O Guia do Verão
Câmara Cascudo dizia que em Natal só havia duas estações: a estação de trem e o verão. Aclamada Cidade do Sol, Natal está na esquina do continente repleta de praias, diante do mar.
Neste guia, uma encomenda da primeira loja de departamentos da cidade, a Rio Center, um pouco do litoral além das praias urbanas, e mais um pouco de culinária, bebidinhas, etiqueta da areia e um minidicionário. Leve e descontraído para ler e viver uma estação que é o tempo todo na cidade.
Em formato de livro impresso, está disponível gratuitamente nas lojas Rio Center, enquanto durar o estoque e a estação. Aqui, a versão digital, também gratuita.
Pesquisa e texto Gustavo Sobral e ilustrações primorosas de Ariel Guerra. Projeto editorial Sertão Marketing & Mídia. 2020, Guia do Verão Rio Center, praia, sol e mar. 1ed. Natal: Unigráfica, 2020, 68p.
www.gustavosobral.com.br
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
Cartas de Cotovelo –
13/01/2020
Sétima Carta (com
Saudade)
Dindinha Lua
Eis
que chegamos à lua cheia e o período permite que se registre fotograficamente a
sua trajetória, como o fez meu filho Carlos Rosso.
Ao
contemplar a foto muitas foram as lembranças – mamãe costumava cantar uma
canção que falava em “dindinha lua”, com o sentido carinhoso e, se não me
engano, era uma cantiga de ninar. Procurei na internet e não a encontrei – mas
ficou gravada em minha memória.
Outra
lembrança é de THEREZA que nunca deixou de chamar a minha atenção para ver a
lua nos dias de esplendor, sobretudo nos veraneios em Cotovelo, que nunca
deixei de registrar fotograficamente. Aliás, tenho alguns versos sobre ela, mas
nunca os revelei, o que acho que poderá ser feito em livro que pretendo lançar
proximamente, em homenagem à minha eterna amada.
A MPB está
cheia de homenagens à lua, desde os tempos mais remotos como a Lua Branca, de Chiquinha Gonzaga, consagrada por Vicente
Celestino até por artistas mais modernos.