segunda-feira, 24 de março de 2025

 

Centenário de Irmã Lúcia Vieira

Padre João Medeiros Filho

No dia 14 deste mês de março de 2025, celebra-se o centenário de Irmã Lúcia, hoje habitando o Céu. Os Atos dos Apóstolos e as Epístolas relatam que Cristo era seguido e servido por santas mulheres, durante sua permanência neste mundo. Não há como esquecer Maria de Mágdala, Marta e Maria e outras tantas colaboradoras de Jesus e dos apóstolos. Esse fato não é apenas exclusivo dos primeiros séculos do cristianismo. Em Caicó, no alto sertão seridoense potiguar, outra mulher, pequena de estatura, mas gigante pelo amor e caridade, conhecida por Irmã Lúcia Vieira foi exemplo de discípula do Mestre da Galileia. Conheci e privei da amizade da referida religiosa, desde os tempos em que fui residir em Caicó como seminarista, e anos depois, na década de sessenta, como sacerdote e pároco de São José.

Ao longo de décadas, tive contato com a referida religiosa, ícone do amor aos pobres e deserdados, cujo interesse era apenas viver o Evangelho de Cristo. Catequista, professora, superiora da comunidade das irmãs, ministra da eucaristia, Irmã Lúcia era o rosto visível de Cristo, no bairro da Paraíba, em Caicó. Sou testemunha do seu zelo pastoral. Prestava assistência religiosa total aos pobres do bairro onde residiu, no Abrigo Professor Pedro Gurgel. Batizava, levava a comunhão aos doentes, preparava noivos e padrinhos para os sacramentos do matrimônio e do batismo, catequisava os crismandos e as crianças que deveriam fazer a primeira comunhão. Encomendava os corpos dos irmãos que partiam para a Casa do Pai. Só não confessava, porque não era sacerdote, mas ouvia os lamentos e gemidos dos sofridos e pecadores. Chegava aonde os padres de Caicó não assistiam, cheia de ânimo, compreensão e ternura. Costumava eu dizer a Dom Manuel Tavares de Araújo que no Abrigo Prof. Pedro Gurgel havia duas Senhoras das Graças: a Mãe do Céu e Irmã Lúcia, sempre disposta a levar a graça divina, o carinho de Deus e o mimo celestial ao próximo.

Burocracia e insensibilidade juntaram-se para retirar as irmãs da direção do Abrigo. Mas, Irmã Lúcia transcendia os muros daquele asilo de idosos. Seu campo pastoral não tinha limites para o seu amor e caridade. Transferiram a freirinha de Caicó. Arrancaram-na como se retira uma mãe do meio de seus filhos. O lamento e o choro destes não foram ouvidos. Muitos queriam que ela fosse sepultada em Caicó, onde morou por décadas. Foi negado ao povo o seu desejo. A santa religiosa tentou justificar para os seus filhos da alma, (“los hijos del alma”, segundo Miguel de Unamuno) a atitude dos superiores. Na sua profundidade espiritual, exclamou: “Não me pertenço. Sou de Deus e da Igreja.” Sim, Irmã Lúcia, nós também somos Igreja e filhos de Deus. Tínhamos o direito de exigir. Mas, a senhora nos ensinou a virtude da obediência, como expressão da humildade e mansidão. Irmã Lúcia, sua vida era marcada de candura, compreensão e alegria. Lamentavelmente, uma parcela da Igreja instituição não soube reconhecer, tampouco vislumbrar a sua grandeza. O seu galardão foi recebido no Céu. Irmãzinha, a Senhora deve ter ouvido de Cristo, quando adentrou os umbrais da Eternidade: “Vem bendita de meu Pai, recebe a herança que o Senhor te preparou, desde a criação do mundo” (Mt 25, 34).

 


ESSAS FLORES

Essas flores que nascem às margens do rio
Nada ficam a dever às flores de meu jardim.
Essas poesias que surgem do nada
E se vão levadas pelo vento do imaginário
Também não são menores que aquelas
Nascidas do clássico ofício de escrever...
Esses amores...
Ah!, esses amores...
São lindos esses amores que não precisamos guardar
E sobrevivem à margem de tudo
Pela graça da vida
Na liberdade que transcende o nosso querer...


-  Horácio Paiva

 ROSADOS - ROTAS DE COLISÃO E PAZ

 

Valério Mesquita

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Dix-Huit, o velho alcaide, como gostava de ser chamado, pertenceu ao PDT e pediu passagem para ingressar no PPR. Ele integrava a saga dos Rosados que edificou o país de Mossoró ao lado de outros obreiros, irmãos na argila e no sangue. De longe, sempre admirei a união da família Rosado, emblemática, carismática, atávica, mágica. Era o mistério da unidade. O tempo implacável, com as suas angústias, dividiu a família plantando-lhe as sementes da discórdia. Sofridos, abatidos por tragédias, sucumbiram ao peso medonho das amarguras cotidianas do insensato jogo do poder e da política perversa - amor de perdição.

Mossoró, hoje é um país confederado. Fragilizou-se igualmente a Roma, quando dividiu o império para ser destruída depois pelos bárbaros. Desde Dix-Sept, Mossoró teve tempos idos e vividos, consumados com tanta generosidade e autenticidade de espírito, com tanta sensação de se perfazer a aventura da vida com grandeza interior, que hoje não tenho como deixar de proclamar que os Rosados eram felizes e não sabiam.

Com Vingt, perdemos a figura do líder político típico, tópico e até utópico, como foram Dinarte, José Augusto, Georgino e Juvenal Lamartine. Vingt foi o coquetel humano de todos eles. Dix-Huit é o perfil do burgomestre com raízes telúricas e emocionais, daqueles que tem a cara do seu município e de sua gente. Dispunha de ineludível capacidade de reinventar o fluxo virtual da sua atividade, assumindo os contornos de um lirismo político inaugural que contrasta com a presente politicagem dominante na cidade.

Evidentemente, que outros fatores também contribuíram para a queda desse mundo político semidesaparecido. É preciso que se devolva a Mossoró o sentido e o rumor do humano, da civilidade, da paisagem e do tempo. A recomposição dos gestos e os exemplos do passado, voltando-se a resgatar a Mossoró libertária, lutando, resistindo sempre, com paz e amor, portanto, ao som das mesmas canções eternas. Naquele tempo eu dizia ainda sobre o velho mestre: “A vinda de Dix-Huit para o PPR não desagrega. Congrega, conflui. Não consagra nem desconsagra ninguém. Não é uma atitude contra ninguém. Vem para o PPR e não para o PSDB ou PMDB, por isso não cabe veto. Vem se aliar àqueles que já estão na Unidade Popular. Sob o mesmo manto, a mesma égide, pode ressurgir, quem sabe, a paz. A paz fraterna, cósmica, que tanto a família mossoroense deseja”. Tal previsão não ocorreu. E o rompimento da família foi o começo da derrocada.


                                                                      (*) Escritor



quarta-feira, 19 de março de 2025

 



Cartas de Cotovelo – Último dia do Verão de 2025 –10

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes (*)

                Comemoramos hoje o Dia de São José, para mim o “Santo dos Santos” – aquele que teve o privilégio de ser escolhido como esposo da Virgem Maria, pai adotivo do Salvador, que numa vida de silêncio, mas de ação integral, foi alçado à condição de protetor das famílias, dos agricultores, dos operários, dos enfermos, dos oprimidos, da Igreja Católica, dos desesperados, dos necessitados e muitas coisas mais, a quem rogamos olhar para o nosso Brasil, nosso Estado e a nossa Comunidade de Pium-Cotovelos contra as mazelas, as incompreensões e a desarmonia.

                Fazendo a retrospectiva do verão, constatamos que ele foi atípico, porquanto a chuva foi intensa e constante durante o período de veraneio – fenômeno bom para uns, mas não agradável para o lazer.

                Nem por isso podemos esmorecer e devemos manter íntegros os projetos de futuro para a nossa Comunidade, adotando projetos e programas que garantam a tranquilidade e presença da natureza neste recanto do Município de Parnamirim, por tantas pessoas que para aqui vieram plantar e colher sossego.

                Lembro-me bem de uma reunião realizada pela PROMOVEC com secretários da Prefeitura onde nos foram apresentados projetos que garantiam a preservação do vale do Pium como lugar de produção agrícola, distanciado da febre das edificações que, inevitavelmente, vão se aproximando da Capital.

                Também ficou destacada a possibilidade da construção de uma estrada que desviaria o caminho das demais praias do sul, sem necessidade do fluxo pela Comunidade Pium-Cotovelo, senão para os moradores e veranistas da localidade e de Pirangi, que seriam, então, estâncias de residência e veraneio dos seus proprietários.

                Houve mudança de administradores e esperamos que os atuais mantenham os mesmos propósitos, bem como a construção de acessos públicos para os residentes, porquanto existe uma diferença de nível das construções para o mar superior a dez metros, dificultando e até impedindo o caminhar das pessoas de maior idade e os portadores de deficiências.

                Foi por esse motivo que, a uns 25 anos atrás, recuperei um arremedo de escadaria e, mais recentemente, com o auxílio de Octávio Lamartine e outros veranistas, construí uma rampa para tais pessoas, que vem sendo mantida dentro do possível, até que o Poder Público assuma e modifique o seu formato para lhe dar as proporções mais adequadas para os usuários carentes.

                Valei-nos São José protetor. Amém.

   (*) Veranista             

 

 MINHAS REENCARNAÇÕES

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

De anotações feitas à hora do crepúsculo em livros idos e vividos, pincei uma frase que me remete ao delírio das coisas de querer ter sido e não fui: “Eu que tantos homens fui, não fui aquele em cujos braços desfalecia Matilde Ubach”. Pensamentos fluidos, na verdade, de reencarnações em lugares e tempos, sonhos e fugas do real ou transposições de corpo e espírito para lugares onde nunca naveguei, muito além da ponte de Igapó.

Ter sido, por exemplo, acompanhante do Cristo nas peregrinações e presenciado seus milagres para não me dividir hoje, nos conflitos das igrejas do mundo; gostaria de ter sido expectador do teatro shakespeareano e tê-lo conhecido de perto e acompanhado todos os seus porres nas tabernas escuras da Londres elizabetana; como amaria a passagem pelos estúdios de cinema dos anos trinta e quarenta, só para ver Charles Chaplin, Stan Laurel e Oliver Hardy; ter aspirado o odor do charuto de Getúlio Vargas e escutado em dó maior a gargalhada prazenteira; ou como figurante dos filmes de John Ford, viajado nas diligências do tempo pelas pradarias do oeste; de Juscelino a companhia e as conversas dele com o que havia de melhor no PSD naquela época: Israel Pinheiro, Amaral Peixoto, José Maria Alkamim, Benedito Valadares, Tancredo Neves; ou de um pólo para outro, muito me ufanaria haver morado no Rio de Janeiro só para ouvir os discursos do bruxo Carlos Lacerda e acompanhar as suas ações como governador com “m” maiúsculo do Estado da Guanabara; eu, que tantos homens fui, não fui aquele que conviveu mais tempo com Câmara Cascudo, pois considero privilegiados os que receberam essa oblação; quantas vezes não me vi nos shows dos Beatles e como “macaco de auditório”, no começo do yê-yê-yê, no programa Jovem Guarda das tardes de domingo; e quanto fascínio não exercem sobre mim as cidades interioranas da Paraíba, Pernambuco, Ceará, Minas, Bahia, das moças namoradeiras, das praças, dos olhares furtivos e trepantes como se eu quisesse, de repente, paquerá-las todas ou me compensar, ao menos, em contemplá-las lindas e infinitas, renascidas de minhas ilusões de adolescente.

Ah! Como esse mundo de hoje dói. Não há mais ídolos. A violência urbana, as drogas e a guerra mataram os sonhos e as ilusões castas dos nossos pensamentos. É um mundo de aparências, de vaidades e iniquidades. “Olhe, aquele ali é Machado de Assis e com ele Eça de Queiroz!”. Faltou-me alguém que apontasse, naquele tempo, essa visão dos dois monstros insuperáveis da literatura luso-brasileira; e se o sonho triunfar sobre a verdade, posso dizer nesse final que assisti padre João Maria sarar os enfermos; preguei com Frei Damião na noite litúrgica e estrelada de Monte Alegre; que vi subir o balão de Severo e que assisti o último suspiro de Auta de Souza. E se o leitor me acreditar, conheci Lincoln na guerra da Secessão; vi Roosevelt, Getúlio, Tyronne e Evita na Ribeira de guerra. Se todas essas reflexões são febris ou inverossímeis, é preferível crê-las e esquecer as bestas do apocalipse: Putin, Trump e Benjamin Netanyahu, cujas imagens na televisão sujam de sangue as nossas ilusões por um mundo de paz.

 

(*) Escritor.

 

terça-feira, 18 de março de 2025

 

Saber e sabor

Padre João Medeiros Filho

 Em latim as duas palavras têm origem no mesmo verbo: “sapere” (saber). Dele derivam-se os termos “saporis” (sabor) e “sapientia” (sabedoria). Os portugueses usam-no com dois sentidos: gosto e ciência. Exemplo: “Este prato me soube muito bem. Fulano sabe das coisas.” Segundo etimólogos, saber, enquanto conhecimento, é extensão figurada de sabor. Na vida monacal, comida e entendimento estão intimamente ligados. Os mosteiros medievais eram o berço de excelentes cervejas, vinhos, licores e deliciosos pratos, como também de escolas de alto nível. As grandes abadias europeias ainda são famosas por suas adegas e bibliotecas. Pode parecer estranha a conexão entre paladar e intelecto. Entretanto, é lógica a extensão do significado, ligando o saber à sensação de gosto e prazer. Ter um paladar apurado significa possuir afinidade com o conhecimento ou o discernimento das coisas.

Em vários dicionários, o adjetivo “sapiens” (sábio) tem a mesma acepção e diz respeito tanto ao paladar, quanto ao conhecimento humano. No caso do verbete “sapientia”, o nexo torna-se ainda mais claro. Assim, saber ao mesmo tempo em que é gosto apurado dos alimentos, consiste também em técnicas, habilidades e ciência. Em nossos dias, comer, beber e gastronomia ganharam uma relevância justa e merecida. A culinária, além de arte, adquiriu o status científico. A refeição para os de minha idade dizia respeito a um convívio ao redor da mesa, seja com a família ou os amigos. Hoje, passou também a ser objeto de estudos, refinamento de combinações dos vários elementos, criação de novidades e inusitadas surpresas. A gastronomia está se constituindo em carreira promissora e uma área fértil para pesquisas e estudos. Isso demonstra mais uma vez a conexão indissolúvel entre o sabor e a ciência, o sagrado e o profano. Louvo e exalto a UniCatólica de Mossoró por unir teologia e gastronomia, que cuidam da alma e do corpo.

Pergunta-se: o que entra pela boca passa também pela cabeça? Sem dúvida. Os excessos de alimentos redundam inevitavelmente em efeitos desastrosos na mente. É o caso do alcoolismo, que afeta tantos; da obesidade, que se transformou em epidemia; da bulimia, anorexia e outras doenças da beleza e estética ligadas à alimentação, reflexo de uma sociedade desordenada e desarmônica. Por isso, o paladar e os demais sentidos da corporeidade humana devem ser educados, da mesma forma que o espírito. Um curso de gastronomia faz sentido ao lado de graduações em nutrição, fisioterapia, psicologia, teologia e outras áreas do conhecimento. Nos dias atuais, assiste-se infelizmente a um distanciamento dessa unidade indispensável à vida. Além disso, os agrotóxicos estão poluindo as mesas. Por vezes, ingerem-se alimentos para saciar a fome, desconhecendo-se a ingestão simultânea de doenças e comidas nocivas.

O ato de tomar o alimento e degustá-lo em família vai paulatinamente desaparecendo. O advento da televisão, do celular e outras tecnologias vem impedindo as pessoas de estar à mesa, comendo e exercitando o sabor dos alimentos e o saber nas conversas e trocas do coração. Hoje, a família raramente se reúne em torno da mesa. Em geral, cada um tem um horário de refeição. A comida requentada no micro-ondas é engolida às pressas, sem degustação, comumente em frente à televisão, ao computador ou celular. Rompeu-se o elo entre o sabor e o saber. Nos mosteiros, conventos e alguns seminários, as refeições costumam ser feitas em silêncio, ouvindo-se leituras edificantes. Desta forma, unem-se as duas realidades.

Disse o Senhor Jesus: “O Reino dos Céus é semelhante a um banquete” (Mt 22,1). Nesta sugestiva metáfora, encontra-se um convite à reflexão sobre a importância da gastronomia para dar um sentido profundo à existência humana. À mesa, celebra-se a vida em suas dimensões. Aquilo que parece ser apenas algo para satisfazer uma necessidade biológica, transforma-se em ritual de louvação do nosso existir. Na comida saboreada à mesa, Cristo comparou a beleza desse ato com o Reino de Deus. Donde se infere a grandeza dos gastrólogos, diáconos nessa alegoria sagrada. Entende-se porque Cristo nos legou a Eucaristia numa refeição. “Eu sou o Pão da Vida” (Jo 6, 35). “Tomai e comei todos vós” (Mt 26, 26).

terça-feira, 11 de março de 2025

 

Pedaços de mim mesmo”

Padre João Medeiros Filho

Eis o título de um livro de Dom José de Medeiros Delgado, primeiro bispo de Caicó (RN), há 37 anos na Casa do Pai. Nutro por ele profunda admiração, respeito e gratidão. Tentarei acrescentar outros fragmentos, não registrados naquela obra. Ao conferir-me o sacramento da confirmação, tocou-me sua belíssima homília sobre o Sermão da Montanha, dirigida aos fiéis de Jucurutu. Hoje, posso aquilatar a profundidade teológica e espiritual de sua pregação. Era o Ano Santo de 1950. Ele preparava-se para ir a Roma. De volta do Vaticano, trouxe-me um terço, bento por Pio XII e dissera-me: “Seja devoto de Nossa Senhora. Ela é a ternura divina, face maternal de Deus. A Igreja precisará de você.” Dom Delgado não tinha a imponência heráldica que caracteriza alguns “príncipes da Igreja”. Seus gestos inspiravam humildade, abertura, serviço, ternura e amor. Poucos sabiam que ele era amicíssimo e compadre de Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima) e outros líderes. De grande conhecimento didático-pedagógico, impressionou o Ministro da Educação, Gustavo Capanema. Sua transferência para São Luís (MA) foi de uma comoção, só repetida em Caicó, quando do sepultamento de Monsenhor Walfredo Gurgel. Queira Deus que o bispo eleito do Seridó conheça seu pensamento e obra pastoral.

Em Caicó, o legado de seu primeiro prelado é ingente. Contemplou as etapas da vida humana. Fundou a “Pupileira”, primeira creche do Seridó, campo de estágio das alunas da Escola Doméstica Darcy Vargas (obra sua) e abrigo seguro para as crianças, cujas mães necessitavam trabalhar. Além do Ginásio Diocesano, criou oito escolas paroquiais para educar jovens de menos recursos financeiros. Os candidatos ao sacerdócio tiveram sua formação no Seminário Cura d’Ars por ele fundado. Para os idosos deixou o Abrigo Dispensário Prof. Pedro Gurgel.  Transformou um cemitério desativado em centro de reflexão e treinamento para o laicato.

Considero-me privilegiado por ter conhecido, antes do Concílio Vaticano II, um prelado de tanto espírito ecumênico, profunda visão pastoral, sensibilidade humana e dinamismo social. “Ele apascentava no poder do Senhor e na sublimidade de seu Deus” (Mq 5, 4). Eis alguns de seus gestos icônicos. Em 1942, ao fundar o Ginásio Diocesano, convidou um farmacêutico (Zezinho Gurgel) e uma linguista (Myrtilla Lobo), ambos de confissão evangélica, para ministrar aulas de ciências e língua portuguesa. Por esse motivo, denunciaram-no à Nunciatura Apostólica. O Núncio quis ouvi-lo. Respondeu-lhe: “Convidei-os, não para ensinar religião, mas para transmitir o que eles conhecem bem. Por outro lado, os futuros líderes e doutores de amanhã precisam, desde cedo, aprender a conviver com as diferenças.”

Em 1949, recebeu em sua diocese um seminarista salesiano (Luís de França). Os superiores negaram-lhe a ordenação, pois o jovem sofria de epilepsia, considerada à época, desaconselhável para o presbiterato. Após meses observando o jovem, resolveu ordená-lo. Mais denúncias à Nunciatura. Respondeu ao representante do Vaticano no Brasil: “Sou responsável diante de Cristo pelo rebanho que me confiara. Conheço as necessidades do bispado. Deus não discrimina pessoas. O rapaz não é culpado de padecer dessa enfermidade. Os fiéis têm mais compreensão e sensibilidade do que nós, padres e bispos.” Iria ordenar o levita. Mas, este veio a falecer, não da doença, mas de um infarto fulminante, de tanta emoção, ao comprar o cálice para a sua primeira missa.

A caridade de Dom Delgado surpreendia quem não estava acostumado a ver gestos de benignidade evangélica. A marca característica de suas atitudes era a prática da compreensão e misericórdia divina. Em 1964, quando arcebispo de Fortaleza, acolheu dois membros da Igreja Católica Brasileira: Dom Raimundo Simplício de Almeida e Padre Enemias Freire de Almada, que solicitaram à Santa Sé retorno ao catolicismo romano. Sugeriu que morassem na residência arquiepiscopal, pois careciam de adaptação e mais estudos. Um dia, seu secretário particular dissera-lhe: “Dom Delgado, esse bispo e o padre da Igreja Brasileira não regulam bem.” Respondeu o arcebispo: “Você diz isso por puro preconceito, pois vieram da Igreja Brasileira. Quantos padres desequilibrados você conhece na Igreja Romana e os aceita! Estes dois são simples. Deus poderá se servir deles para fazer o bem.” Disse Jesus: “Misericórdia eu quero e não sacrifícios” (Mt 9, 13).

quarta-feira, 5 de março de 2025

 

Significado religioso-bíblico das cinzas

Padre João Medeiros Filho

O ato da imposição de cinzas remonta ao Antigo Testamento. O livro de Ester narra Mardoqueu vestindo-se com pano de saco e cobrindo-se de cinzas, ao saber do decreto de Assuero (Xerxes I, da Pérsia), condenando à morte os judeus ali residentes (cf. Est 4,1). Atitude semelhante teve Jó, demonstrando o seu arrependimento (Jó 42, 6). Daniel, ao profetizar a tomada de Jerusalém pela Babilônia, escreveu: “Voltei o olhar para o Senhor Deus, procurando fazer preces e súplicas com jejuns, vestido de tecido rústico e coberto de cinzas.” (Dn 9, 3). Após a pregação de Jonas, o povo de Nínive se vestiu de roupas grosseiras, impondo-se cinzas. O rei levantou-se do trono e sentou-se sobre elas (Jn 3, 5-6). Tais exemplos demonstram a prática religiosa do uso das cinzas como símbolo de arrependimento, tristeza, penitência, conversão e dor. Cristo aludiu igualmente a esse costume, quando se dirigiu aos habitantes das cidades de Corazim e Betsaida que não se arrependiam de seus pecados, apesar de terem presenciado milagres e ouvido a Boa Nova. “Se em Tiro e Sidônia tivessem sido realizados os milagres feitos no meio de vós, há muito tempo teriam demonstrado arrependimento, vestindo-se de cilício e cobrindo-se de cinzas”, advertiu o Mestre. (Mt 11, 21).

A Igreja, desde os primórdios, continuou este ritual com um simbolismo análogo. Tertuliano aconselhava o pecador a “vestir-se com um tecido de estopa e cobrir-se de borralho.” Eusébio, primeiro historiador da Igreja, relata que Natálio se apresentou com esses trajes, diante do Papa Zeferino, para suplicar-lhe o perdão. No cristianismo medieval, quando o penitente saía do confessionário, o sacerdote impunha-lhe cinzas para significar que o “velho homem” tinha sido destruído, dando lugar ao “novo homem” (Ef 4, 24), do qual fala o apóstolo Paulo.

Por volta do século VIII, as pessoas que estavam prestes a morrer, eram deitadas no chão sobre um tecido rude e nelas se jogava pó. O sacerdote, aspergindo-as com água benta, dizia: “Lembra-te, ó criatura, que és pó e nele te hás de tornar.” (Gn 3, 19). Este rito foi tomando uma nova dimensão místico-espiritual e passou a significar morte ao pecado, em seus diversos aspectos: mentira, orgulho, injustiça, inveja, ódio, violência, insensibilidade etc. Assim, com o passar dos anos, tal costume foi associado ao tempo quaresmal. Neste, somos convidados a sepultar o velho homem existente em nós para ressurgir com Cristo, na Páscoa.

Na liturgia atual, as cinzas utilizadas na quarta-feira são obtidas com a queima de sobra das palmas bentas no Domingo de Ramos do ano anterior. O sacerdote as abençoa e impõe sobre os fiéis, dizendo: “Lembra-te que és pó e nele te hás de tornar”, ou então, com outra fórmula: “Converte-te e crê no Evangelho.” (Mc 1, 15). Essa cerimônia é um convite à preparação para a Páscoa pela vivência da quaresma, tempo privilegiado para uma revisão de tudo o que nos aniquila em nossa caminhada de fé e amor.

Aceitando tal ritual, expressamos duas realidades fundamentais: a consciência de que somos criaturas efêmeras e nossa fé na ressurreição. Cristo ressuscitou dos mortos, prometendo-nos que também ressuscitaremos. É conhecida na mitologia grega a força de Fênix, que renasce das cinzas. Isto lembra-nos que delas também nós podemos surgir, como criaturas novas, pela graça inefável de Deus. Elas simbolizam mudança radical, na medida em que representam aniquilamento ou destruição. Por essa razão, somos chamados a nos converter ao Evangelho de Jesus Cristo, mudando nossa maneira de pensar, julgar e agir, libertando-nos da arrogância, do egoísmo e de tudo aquilo que nos afasta de Deus. A palavra marcante com que se abre a celebração da quaresma – a qual se inicia na quarta-feira, após o carnaval – é conversão. O termo, de origem hebraica, indica mudança interior, dir-se-ia, transformação da mente e do espírito. Foi isto o que Cristo veio trazer com sua mensagem. Ele indicou ao ser humano um novo caminho e modo de ser, pensar e viver. O apóstolo Paulo, de forma inspirada, o chama de “novo Adão”, qual seja, uma nova humanidade (Rm 5, 12-21).

terça-feira, 4 de março de 2025

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 09

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes (*)

ÚLTIMO DIA DE FOLIA

            Com o gosto de “quero mais” para uns ou finalmente, para outros, concluímos mais um período carnavalesco na Praia de Cotovelo, onde passei muitos anos brincando ou aproveitando a natureza com a minha saudosa THEREZINHA.

            Em 2019, ano de sua Páscoa definitiva, lancei em janeiro o livro PROMOVEC – uma bela história e coincidentemente o Carnaval foi em março. Assim, terminamos o veraneio e retornamos a Natal. Comprei as camisas da 3ª Cotovelada, mas inusitadamente na volta à nossa Capital nos deparamos com os problemas de saúde dela e o Carnaval passamos no hospital da UNIMED até o desfecho da sua partida no último dia daquele mês.

            Nos anos seguintes aproveitei o veraneio, mas sem participar de nenhum momento da festa de Momo, mas acompanhei pelos informes de WhatsApp.

            Neste 2025, após a posse da nova Diretoria da PROMOVEC, vivenciamos momentos desagradáveis que me obrigaram a deixar de participar dos grupos de informação, posto que esqueceram o que fiz em colaboração com a referida entidade. Sem problemas.

Grupo de pessoas em uma praça

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

            Mesmo ausente, registrei com alegria o bloco da 7ª Cotovelada, saindo em todos os dias de Carnaval e coletei informações de que tudo saiu bem. Parabéns para os promotores da festa, ao tempo em que desejo que a harmonia seja a tônica para o restante do ano.

 

Pessoas sentadas ao redor de uma mesa

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

            Neste último dia de folia tive a satisfação de receber a visita do Padre Edvaldo Mota, novo pároco de Pirangi/Pium/Cotovelo e adjacências, juntamente com uma colaboradora da Igreja, guiados pelo nosso estimado Octávio Lamartine, que desejava algumas informações sobre a Casa de Pedra de Pium e do seu donatário João Lostau Navarro, mártir de Uruaçu e co-padroeiro de Pium, juntamente com Santa Luzia.

            O referido religioso tem uma missão para dar ênfase ao Santo Mártir, a pedido da Arquidiocese de Natal, o que tenho condições de colaborar com algumas pesquisas que venho trabalhando há algum tempo.

            Não se trata de fazer turismo religioso, mas ressaltar a qualidade do Santo João Lostau, para justificar a sua condição de santificado pelo Papa Francisco, mas quase inteiramente desconhecido da Comunidade religiosa do Distrito de Pium.

            Esse fato trouxe-me compensação pelos percalços que sofri com alguns associados da PROMOVEC, mostrando que ainda posso fazer alguma coisa pela Comunidade, na esperança de que nossos Padroeiros (Santa Luzia e Santo João Lostau) restabeleçam a paz e harmonia tão ansiada pelos que habitam este pedaço de chão.

            O veraneio terminou e com ele o Carnaval – agora vamos viver a Quaresma, com todo fervor possível e o restante do ano que começou, com decisões positivas e favoráveis ao binômio sossego-progresso.

__________________________

(*) Veranista desde 1989.

domingo, 2 de março de 2025

 


Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 08

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes (*)

 

O QUE É O CARNAVAL?

Taí. Uma pergunta complicada! CARNAVAL é um estado de espírito, uma tradição, um período religioso ou simplesmente uma folia? Creio que tudo isso junto.

Sua origem é remota, começou como festividade meramente pagã da Antiguidade, com os entrudos das cidades europeias, com fantasias e carros alegóricos.

Atravessando culturas diferentes, tendo por motivo a inversão das coisas, daí a eleição de um mandatário próprio (Rei Momo), homens vestidos de mulher e vice-versa, máscaras para esconder a identidade, sendo depois incorporado ao calendário cristão como celebração antes da Quaresma. Chegou ao Brasil com influências europeias, africanas e indígenas, tornando-se a festa exuberante de hoje.

Embora seja um acontecimento que lembra festa, alegria, folia o Carnaval tem uma história complexa, envolvendo tradições religiosas e festividades mundanas.

Sua chegada ao Brasil foi precisamente pelos colonizadores portugueses no século XVII, com o mela-mela de farinha, água e outras substâncias, às vezes até nocivas, numa brincadeira popular. Aqui no Rio Grande do Norte tem até o “Bloco dos Cão”, onde as pessoas se encharcam na lama dos mangues e põem chifres nas cabeças

No passar do tempo o Carnaval brasileiro foi se tornando cada vez mais aperfeiçoado, chegando no atual século à condição de apoteose de beleza e cultura, com as escolas apresentando enredo e homenageando pessoas, atraindo turistas e marcando uma das atrações de maior comparecimento de estrangeiros e pessoas nacionais, para os espetáculos das cidades mais notadas como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Recife, sem excluir os bailes nos clubes e nas ruas, tornando-se a nossa maior atração.

Desde o ano de 1932, com a colaboração do jornalista Mário Filho, a popularização do Carnaval gerou a criação das grandes escolas de samba, nos bairros mais importantes das cidades, contribuindo para o aperfeiçoamento de sambas-enredos, transformando-se na maior festa popular do Brasil.

A sociedade vem procurando conciliar o lado profano da bebida, fantasias e barulhos com o início da Quaresma, com jejuns e outras abstinências. É o contraste entre o exagero e a reflexão.

Com a atração turística, temos os grandes gastos das escolas e imenso lucro para as cidades, seja o poder público ou os populares autônomos.

Uma realidade indiscutível – hoje o Carnaval é um estado de espírito do brasileiro, que se sacrifica para garantir belos desfiles e busca do título maior do certame.

Dificilmente um jovem ou uma jovem não passou por esses encontros que se tornaram icônicos na vida de cada um, em suas histórias de vida.

Fui um grande folião, brinquei em escola de samba, pulei nos salões do América, ABC, Alecrim Clube, Brasil Clube e Assem. Participei dos “assaltos” às casas de família, por convite dos seus responsáveis. Não me arrependo de nada e o Carnaval é um capítulo da minha vida.

Agora no outono da vida, só calmaria, paz e quaresma.

 

,