sábado, 7 de fevereiro de 2026

 TACADAS DE MESTRES

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

01) Há alguns anos, fui ao lançamento do livro do jornalista Paulo Augusto sobre “Zé Areia, o bufão de Natal”. Ótima iniciativa do editor Abimael Silva. Paulo Augusto com a sua verve e estilo inconfundível narra fatos pitorescos e incríveis idos e vividos pela figura de Zé Areia, lenda e legenda do humor natalense. Pesquisou e reuniu em livro tudo o que foi e representou esse “sábio” e sabichão chapliniano das Rocas, Ribeira e Cidade Alta. Esticando a conversa, Diógenes da Cunha Lima, presidente da Academia de Letras do Rio Grande do Norte, lembrou que Zé Areia tinha o hábito de entrar de fininho na casa de Câmara Cascudo, na Junqueira Aires, só para surpreendê-lo de modo bizarro ou atípico. Calçar as meias do mestre, quando se achava sentado ao birô, de pijama, datilografando seus trabalhos. Com certeza, Zé Areia, com o gesto, incluía-se, na sua “acta diurna”.

02) Certa vez, Zé Areia, cortava o cabelo da turma da penitenciária “João Chaves”, ali onde hoje é o Centro de Turismo, em Petrópolis. Trabalho árduo e perigoso. Zé suava às bicas com medo dos erros de cálculo. Baracho, Pé Seco, Lolô, entre outros lampiônicos, eram mais terríveis do que os da chuva de balas no país de Mossoró. Certo dia, casualmente, encontrou-se com o monsenhor e governador Walfredo Gurgel. Incontinenti, pediu clemência e ingressou oficialmente com petitório incomum: “Padre, me aposente logo dali que eu lhe prometo só viver dois anos!”.

03) Dos arquivos implacáveis do saudoso tabelião Raimundo Barros Cavalcante, chegou-me essa história narrada pelo seu filho Paulinho sobre o folclórico Zé Areia. Homem pobre, Zé sempre recorria aos amigos pedindo ajudas providenciais. No cartório de Raimundo ele era “mensalista”. Todo fim de mês a tabeliã substituta Dione Macêdo estava autorizada a proceder o pagamento. Zé Areia chegava de mansinho, sentava, aguardava, recebia e ia embora. Mas, em dezembro, ele recebeu a ajuda e permaneceu sentado e calado. Dione curiosa, perguntou: “Seu José, o que está faltando?”. Zé Areia com aquela seriedade teatral responde sem perder a calma: “O décimo terceiro”. Raimundo, consultado, mandou pagar imediatamente. Zé Areia havia ingressado solenemente na folha salarial do cartório.

04) Lembrei-me da figura poética e etílica do grande Newton Navarro, mergulhando nas madrugadas profundas das Rocas, Quintas, Canto do Mangue, sem se aguentar mais em pé, sem companhia, sem proteção, sem táxi, exposto ao perigo, naquele baixo clero. De repente, impetra um inaudito habeas corpus que só aos poetas do seu porte é dado o privilégio: chamou o carro da polícia para deixá-lo em casa. E sempre foi obedecido. Era a proteção do estado à incolumidade física e intelectual do poeta da cidade.

05) Natal, certa vez, foi prestigiada e lisonjeada com a visita do ilustre deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva. Para quem não o conhece como tal, é melhor chamá-lo pelo codinome: “Tiririca”. Um repórter logo indagou: “Deputado, o que acha do novo “emprego?”. Tiririca, com o habitual sorriso abilolado: “É fantártico!”. “Dizem”, continuou o jornalista, “que lá trabalha-se pouco. Como é o dia a dia por lá?”. Tiririca resumiu: “É ‘fantártico’”. O inquiridor não se satisfez: “O que achou do novo aumento salarial dos deputados três dias depois que assumiu?”. O parlamentar repetiu: “Fantártico!”. O entrevistador aborreceu-se: “O senhor só fala fantástico?”. Tiririca, então explicou: “Ora, a Globo passa a noite do domingo, dizendo que é “fantártico”, “fantártico”, ninguém se irrita. Às vezes nem é “fantártico” como lá em Brasília”. Para finalizar, Tiririca encurtou a conversa: “Obrigado. A entrevista foi ‘fantártica’”. E pegou o beco.


(*) Escritor

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

 Marcas de arrogância e prepotência 

Padre João Medeiros Filho 

O mundo caminha na contramão da doutrina que Cristo transmitiu a seus discípulos: “Aprendei de mim que sou manso e humilde.” (Mt 11, 29). Mansidão e humildade, virtudes destacadas pelo Mestre, opõem-se sempre a qualquer tipo de arrogância e prepotência. Durante sua vida pública, o Filho de Deus deparou-se com a bazófia dos doutores da lei, escribas e fariseus. Procurou chamar a atenção de seus seguidores para o descaso e abuso das autoridades de seu tempo. Diante da presunção deles – uma das faces da prepotência – chamou-os de “sepulcros caiados” (Mt 23, 27). Jesus sempre condenou a atitude do dedo em riste, criticar levianamente e acusar sem provas, culpar sem motivos e destruir sem diálogo. Este comportamento domina o Brasil hodierno. Cristo contrapôs sua mensagem a tais atitudes. “Bem-aventurados os mansos” (Mt 5, 5). A lógica cristã está delineada no Evangelho: “Todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado.” (Mt 23, 12). Vale lembrar um antigo ritual da coroação do papa. Ao colocar a tiara, símbolo do poder pontifício, um dos cardeais pronunciava estas palavras: “Sancte Pater, sic transit gloria mundi!” (Santo Padre, a glória do mundo é transitória). Etimologicamente, a palavra arrogância deriva do verbo latino “adrogare”, que significa exigir para si. No Império Romano, era utilizada para definir alguém que se considerava no direito de impor um reconhecimento que não lhe cabia. Arrogantes de diferentes tipos estão hoje em alta na vida pública e nas redes sociais. Trata-se de atribuir a si poderes ou privilégios, impondo uma suposta superioridade. É manifestação de narcisismo, deslumbramento decorrente de algum frágil predicado ou ausência deste. Segundo os estudiosos da mente humana, trata-se do sentimento de quem se acredita melhor e mais capaz – moral, religiosa, social, política ou intelectualmente – do que os seussemelhantes. Resultado disso é o desprezo em relação aos outros, vaidade e soberba ostensivas. É típico do prepotente acreditar-se dono absoluto da verdade, demonstrando supremacia sobre os demais. O tribuno romano Marco Túlio Cícero afirmou peremptoriamente: “Quanto mais medíocre, mais arrogante. O sábio não impõe.” O Salvador sempre se mostrara despretensioso e propositivo. Quanto mais santidade e sabedoria, mais pureza e humildade, ou seja, consciência de suas limitações. Os soberbos vestem a túnica da empáfia para ocultar sua ilusão e, por vezes, a própria mediocridade. A arrogância embriaga e ilude, faz perder a noção e a lucidez da condição humana. É sempre oportuna a orientação do apóstolo Paulo: “Nada façais por contenda ou vanglória, mas com humildade. Cada um considere os outros como superiores a si mesmo.” (Fl 2, 3). A gênese da arrogância e de seus equivalentes, não raro, está nos recalques e frustrações que se procuram esconder nos gestos e palavras intransigentes. O presunçoso ameaça, procura humilhar, agride e persegue. É um obcecado por destruição. Sente prazer mórbido em descontruir quem o desagrada. Em geral, guarda uma amargura e um azedume interiores, buscando atingir seu semelhante com o ódio ou desprezo. Geralmente, ignora a polidez, educação e urbanidade. As pessoas pedantes tendem a ser ácidas e manter relações tóxicas. A ausência da paz dissemina um clima de negatividade. São pessoas inseguras, dominadas pelo medo de ser descobertas em sua pobreza interior. A arrogância e seus congêneres têm levado muitos a desvarios em pronunciamentos inconsequentes que, não obstante, ecoam fortemente. O nível de morbidez da sociedade é tão expressivo que narrativas e discursos equivocados, marcados de petulância e sofismas, têm mais receptividade e adesão do que as perspectivas construtivas. No entanto, somente estas são capazes de desencadear uma qualificada configuração sociopolítica, religiosa e emocional. A prepotência hospeda discursos negativos e deletérios, sem contribuir para a solução dos problemas que afligem a humanidade. A prepotência é a máscara dos fracos. As posturas de suposta autossuficiência e a ilusão de ocupar uma posição de superioridade são confrontadas pela implacável realidade: quem é o ser humano, habitante deste “pálido ponto azul”, que é o planeta terra, na imensidão do Universo? Assim aconselha a Sagrada Escritura: “A soberba acaba por trazer humilhação, enquanto a humildade leva-nos à glorificação!” (Pv 29, 23).