sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Solidão coletiva
“Se você se sente só, é porque ergueu muros em vez de pontes” (William Shakespeare)

(*) Rinaldo Barros
O paradoxo social do nosso tempo é “convivermos” o dia a dia com tanta gente e, ao mesmo tempo, sentirmo-nos solitários. O sentimento de solidão e anonimato em meio à multidão cresce na vida moderna.
Muitas são as situações geradoras de solidão: existe a solidão gerada pelo poder, a solidão decorrente da riqueza, a solidão dos mal casados, a solidão da criança cujos pais são egoístas, a solidão dos velhinhos rejeitados, a solidão das crianças órfãs, abandonadas, a solidão da loucura, a solidão dos internos dos hospitais psiquiátricos, a solidão dos enfermos hospitalizados, a solidão do excluídos pelo mercado de trabalho, a solidão do desempregado, a solidão do camponês que deixou família para trabalhar na cidade grande, a solidão do estigmatizado por preconceitos, e a solidão que caracteriza a sociedade da informação: os solitários das redes sociais (Twitters, Facebook, Whatsapp, Viber e outros menos cotados); os quais possuem milhares de “amigos”, mas nenhum deles preenche, de verdade, o sentimento de solidão do seu cotidiano.
Sem falar na solidão de quem se arrisca como escrevinhador, tendo que enfrentar a solidão, desde o ato sofrido de criar, até receber a lufada de ar da indiferença dos supostos leitores, os quais nunca correspondem à ansiedade ingênua do autor em relação à sua “contribuição” para interagir com o mundo. Escrever, sem dúvida, é uma tentativa de fugir da solidão.
Muitas pessoas solitárias justificam seu “desejo de privacidade”, escolhendo "viver sozinhas porque gostam de liberdade", “preferem viver sozinhas do que mal acompanhadas”.
A tendência individualista de nossa época reforça o temor de conviver com as diferenças humanas, afinal, morar junto implica, sobretudo, sermos tolerantes, compreender o outro, termos que dividir espaços e coisas e aceitar conferir a todo o momento que o outro não nos preenche. Demandamos sempre que o outro irá preencher nosso vazio existencial, mas isso – quase sempre - não passa de um delírio visando zerar nossa falta essencial. Os mais conscientes dessa falta se recusam a investir num relacionamento duradouro.
No universo dos sozinhos, existem aqueles que o fizeram por opção pessoal, e aqueles que devido às contingências da vida foram obrigados a viver desacompanhados.
Muitos aposentados se queixam de terem sumido os “amigos” do trabalho. O rótulo de “inativo” sinaliza exclusão na linguagem e na prática da convivência diária.  Inativo ou aposentado são palavras mal ditas no Brasil. Como de resto, aqui no patropi, o idoso em geral é tido e visto como uma carta fora do jogo.
O isolamento social obrigatório é muito diferente do viver sozinho “por opção”.
No primeiro, existe a imposição do destino ou das circunstâncias, no segundo, a escolha é consciente e deliberada de viver solitariamente.
O artista, cientista ou intelectual, por exemplo, precisa de vez em quando estar sozinho para se concentrar e produzir seu texto, sua obra; o que não quer dizer que ele padece do sentimento de solidão.
Para ler, refletir, escrever, criar ou inventar precisamos estar sozinhos. A solidão só pode ser conquistada - ou domada - por aqueles que encontram coragem e determinação de levá-la a trabalhar, a produzir criativamente, altruisticamente. Entretanto, conquistar a solidão ou domá-la não quer dizer eliminá-la.  
Contam que a Cecília Meireles, mesmo quando acompanhada dos amigos, dava sempre a impressão de estar solitária, vivendo no seu próprio mundo, impenetrável. Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.
Por sua vez, a solidão indomada tem o poder de fazer do sujeito seu objeto, isto é, produz efeitos patológicos previsíveis como a depressão, drogas, hipocondria, alcoolismo e até o suicídio.
E, em nossa sociedade pós-moderna, onde tudo é descartável, a Internet têm sido um instrumento de comunicação ambíguo, pois tanto pode facilitar a busca de companhia virtual como pode ser usado também para sustentar o isolamento social. São os fóbicos sociais, isto é, os que temem sair de casa, não suportando simplesmente qualquer aglomeração urbana.
É possível que o medo, fruto da violência urbana, contribua para o aumento da solidão coletiva.
O aumento dos diversos tipos de solidão, no Brasil e no mundo, põe em dúvida até mesmo a antiga tese de que o humano é um ser eminentemente social.
As novas gerações deverão redefinir se o Homo sapiens é, ou não, um ser social.


(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com



Briga em um cabaré da Ribeira


Elísio Augusto de Medeiros e Silva


Empresário, escritor e membro da AEILIJ

elisio@mercomix.com.br



Não sabemos ao certo como começou aquela confusão. Num minuto, estava formado o maior quebra-pau dentro do cabaré.

Os dois antagonistas engalfinhavam-se, trocando socos e rolando pelo chão. De repente um dos rapazes levou um pontapé na barriga – levantou-se e saiu distribuindo socos a torto e a direito... pegasse em quem fosse. Aí a coisa complicou.

As prostitutas gritavam apavoradas, corriam e se refugiavam debaixo das mesas do salão. Os três garçons largaram as bandejas e se esconderam atrás do balcão do bar.

A luz vermelha do salão foi apagada e luzes normais acesas. No entanto, a essa altura, a confusão já estava formada. Um homem puxou um punhal, mas foi desarmado pelos seguranças da casa. Garrafas, copos e cadeiras eram arremessados de todos os lados.

O chão logo se encheu de perigosos estilhaços de vidro. Os dois rapazes que deram origem a confusão engalfinhavam-se, rolavam e trocavam socos no chão.

Correrias, gritos pavorosos e urros chegam até a Rua 15 de Novembro. Os guardas-noturnos das ruas próximas apitavam sem parar.

As mulheres gritavam apavoradas. Logo a rua estava cheia de curiosos que queriam ver o que acontecia lá dentro do cabaré.

As inquilinas da casa corriam desesperadas de um lado para outro. Algumas seminuas não sabiam o que fazer diante de tamanha confusão.

Os dois “leões de chácara” do cabaré não tinham o que fazer – era gente demais envolvida na briga. Ninguém sabia ao certo como tinha começado aquele bafafá. A briga já durava mais de dez minutos. O prejuízo era enorme.

Quando finalmente a polícia chegou, o salão estava todo quebrado – mesas, cadeiras em pandarecos – até a radiola de fichas não fora poupada. Havia gente de cabeça quebrada, dente fraturado, equimoses pelo corpo...

O grupo de rapazes a quem atribuíram a origem da confusão tinha se “escafedido” do local.

Naquela noite o cabaré fechou bem cedo. Um dos seguranças da casa, um negro de quase dois metros, tinha um olho roxo e um corte no lábio inferior.

- Iam lhe arrancando um olho, disse um dos garçons ao vê-lo. Será que não ofendeu a vista?

Na porta dos fundos, um cidadão gritava, dizendo que tinha perdido cinco mil réis durante a confusão. Quem vai me pagar? Quem vai me pagar? Perguntava preocupado.

Alguns dos envolvidos na briga foram detidos e levados até a delegacia de plantão, que, por sinal, não era muito distante do local. Funcionava ali mesmo, no bairro da Ribeira.

Na delegacia um dos detidos, metido à valente, contava “goga”, a respeito de sua atuação na briga. Ao ser interrogado pelo delegado de plantão, respondeu às perguntas que lhe foram feitas com ar de deboche. Pelo visto, queria dar uma de arrochado. O delegado não contou conversa e mandou meter o insolente no xilindró.

- Você que é disposto chegou na hora certa. Disse, enquanto o soldado conduzia-lhe até uma das celas.

Depois de colocado atrás das grades, o soldado informou-lhe: “Você vai fazer a faxina”. E lá foi o “brabo” de vassoura e balde fazer a faxina completa do local. Os outros presos e soldados olhavam a cena – alguns até riam disfarçadamente.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

               
 
                   
E CHEGOU O CARNAVAL
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
                Gostemos ou não, o Carnaval vem sendo um marco na vida política e administrativa do País, Estados e Municípios. Antes dele as coisas ficam em banho Maria e exatamente no período de Momo, nas confabulações dos alpendres das fazendas, das praias ou mesmo da cidade, são definidos os rumos do ano que começou.
                Para o mais chegados, representa um suspiro para aliviar as pressões do dia a dia, permitindo fazer novas amizades e solidificar as antigas.
                Da minha parte, na juventude fui folião e dos bons. Saía na bagunça, na Escola de Samba dos Deliciosos na Folia e outros, também brinquei de forma autônoma – bailes inesquecíveis no Aero Cube e as matinês no América, Assen, Alecrim Clube.
                Sempre fui comedido, mas não escondo alguns bons porres, em companhia de grandes amigos que marcaram e ficaram para sempre em minha vida.
                Alguns já se foram, pois o tempo é implacável, mas a lembrança deles só traz à memória a parte telúrica da vida.
                Hoje o meu Carnaval é diferente. Prefiro o repouso em minha Cotovelo, lendo bons livros, assistindo filmes marcantes e vendo os desfiles na TV, sem contar o reconfortante banho de mar. É uma alegria com outro padrão, mas continua sendo Carnaval. Às vezes, os netos caem na folia e me envolvem no mela-mela!
                Não sou daqueles que deploram a festa popular em nome da religião. De forma nenhuma, pois a alegria é coisa de Deus. Tudo está a depender de como você conserva a sua integridade nesse período.
                Estou de malas prontas e só voltarei na quarta-feira de cinzas. Fala MANGUEIRA, fala ......
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

UMA VERDADEIRA RELÍQUIA

FAB - Na tradição de Santos Dumont - FORÇA AÉREA
Frases impagáveis do Barão de Itararé
 
Criador do jornal "A Manha", o Barão ridicularizava ricos, classe média e pobres. Não perdoava ninguém, sobretudo políticos, donos de jornal e intelectuais.
Ele não era barão, é claro. Mas deu-se o título de nobre e nobre se tornou. O primeiro nobre do humor no Brasil. Debochava de tudo e de todos e costumava dizer que,"quando pobre come frango, um dos dois está doente". Ele é um dos inventores do contra-politicamente correto.
Há muito que o gaúcho Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé (1895-1971) merecia uma biografia mais detida. Em 2003, o filósofo Leandro Konder lançou "Barão de Itararé - O Humorista da Democracia" (Brasiliense, 72 páginas). O texto de Konder é muito bom, mas, como é uma biografia reduzida, não dá conta inteiramente do personagem, uma espécie de Karl Kraus menos filosófico mas igualmente cáustico.
Quatro depois, o jornalista Mouzar Benedito lançou o opúsculo "Barão de Itararé - Herói de Três Séculos (Expressão Popular, 104 páginas). É ótimo, como o livrinho de Konder, mas lacunar. No final, há uma coletânea das melhores máximas do humorista, que dizia:
 
"O uísque é uma cachaça metida a besta".
O que se leva desta vida é a vida que a gente leva.
A criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer.
Os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes.
Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.
Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.
Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.
Mantenha a cabeça fria, se quiser ideias frescas.
O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.
Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.
Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.
De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
Quem empresta, adeus.
Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.
O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.
Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.
A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
Precisa-se de uma boa datilógrafa. Se for boa mesmo, não precisa ser datilógrafa.
O fígado faz muito mal à bebida.
O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.
A alma humana, como os bolsos da batina de padre, tem mistérios insondáveis.
Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo...
Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está.
Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra!
Devo tanto que, se eu chamar alguém de "meu bem", o banco toma!
Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta...
Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo.
As duas cobras que estão no anel do médico significam que o médico cobra duas vezes, isto é, se cura, cobra, e se mata, cobra.
O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.
Em todas as famílias há sempre um imbecil. É horrível, portanto, a situação do filho único.
Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.
Quem não muda de caminho é trem.
A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.
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Colaboração da amiga e leitora Joventina Simões

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

 
  Foto de Canindé Soares
      

HIPOCRISIA

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

            Nos últimos dias estamos assistindo uma polêmica em torno da demolição ou não do velho Hotel dos Reis Magos.

            Já existem decisões judiciais a respeito, autorizando a demolição. Contudo, pessoas que dizem participar de um movimento em favor da preservação do patrimônio histórico e artístico da cidade, insistem na preservação daquele prédio carcomido pela maresia e considerado irrecuperável para algum aproveitamento.

            Ficamos então a meditar sobre esse tão grande interesse por um prédio sem história, sem estilo merecedor de resguardo e com danos irreparáveis, em detrimento de outros prédios que esses amigos esqueceram de abraçar, como o caso do Machadão, que teve uma petição para o seu reconhecimento para efeito de tombamento, mas o processo sumiu e ninguém se indignou. Este sim tinha história. Nele foram realizadas partidas inesquecíveis, como o jogo da seleção brasileira e a realização da Mini-Copa com a presença de grandes equipes europeias e craques de fama mundial.

            Esqueceram do Machadão e ele foi irremediavelmente demolido para ter em seu lugar um excelente novo estádio, é verdade, mas que não preservou a harmonia da paisagem que então existia, numa combinação de formas com a natureza. O que agora temos é um equipamento volumoso, sem nenhuma delicadeza, agressivo mesmo.

            O imediatismo parece ser algo muito próprio da pouca cultura do nosso povo, que ainda gosta do “oba-oba” das grandes festas. Ninguém atenta para as exigências da FIFA, que impõe as suas regras em detrimento da população nativa.

            Sem dúvida, estamos diante de uma demonstração de hipocrisia e despreparo, fazendo-se o jogo da especulação imobiliária e econômica da exploração de negócios – somente para os autorizados.

            Mas existe uma desculpa para a construção da Arena das Dunas – as obras de mobilidade urbana que são proclamadas como “legado”. Deus permita que essas obras sejam concluídas antes da Copa, pois correm o risco de cair no esquecimento.

            De qualquer maneira, já que o fato está consumado, vamos esperar o sucesso da Copa de 2014, recebendo bem os visitantes nacionais e estrangeiros, procurando mostrar uma cidade hospitaleira e bela como é Natal, investindo na segurança e na infraestrutura de hospitais e equipamentos urbanos que permitam o conforto aos visitantes, sem tumulto, sem manifestações violentas e inconsequentes.

            Esse movimento contra a realização da Copa é histérico, sem lógica, verdadeiramente deletério. Somos integralmente contra isso.

            Vamos ajudar a fazer da cidade do Natal um cartão de visita para os que aqui adentram pela primeira vez, deixando um vínculo de amizade e fidalguia, próprios dos potiguares desde priscas eras.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

1930
1915 – Uma partida de football em Natal

Elísio Augusto de Medeiros e Silva

Empresário, escritor e membro da AEILIJ
elisio@mercomix.com.br


Após a sua chegada a Natal, uma das maiores novidades que Tibério aguardava conhecer era o “bate bola”, gíria pela qual era conhecida o football que, a partir de 1910, tinha se incorporado aos hábitos da sociedade natalense.
Ao chegar ao local onde seria futuramente construída a Praça Pedro Velho, próximo ao centro hípico (Sport Club Natalense), notou que uma pequena multidão já aguardava ansiosa o início da partida que se realizaria entre dois times locais.
No enorme terreno baldio dois grandes retângulos desenhados no chão, que soube, pelos amigos, tratar-se do campo de jogo.
O terreno livre de qualquer mato estava perfeitamente nivelado, com esparsa grama. De cada um dos seus lados situava-se um dos times, aguardando o início do jogo.
Nos fundos de cada um dos lados desse terreno havia uma trave de madeira serrada, formada por duas linhas em paralelo e unidas no topo por uma outra que ficava na posição horizontal.
Claro que, a princípio, Tibério não entendeu absolutamente nada, mas, atento, passou a observar o movimento daquelas pessoas que circulavam pelo campo. Homens, meninos e até algumas senhoras.
Logo chegaram os dois times de jogadores – cada um deles vestia calções apertados nas pernas e camisas coloridas de cores diferentes. Cada grupo se posicionou em um dos lados do, digamos assim, gramado.
Veio um terceiro elemento, vestido de outra maneira, e colocou um esférico no centro do terreno. Após ser dado início à partida os homens, tanto de um lado como de outro, passaram a correr loucamente e a chutar a tal bola, em direção a cantos totalmente opostos.
A cada chute vigoroso dos tais atletas, os gritos e palmas vinham dos espectadores, alguns soltavam um “Aaaah!”, quando a bola batia em uma das traves - pelo que Tibério notou uns torciam para um determinado grupo de jogadores, enquanto outros para os rivais destes.
Não demorou muito para Tibério perceber que as regras do tal jogo eram bastante simples. Apenas os dois homens que se encontravam abaixo das grades em cada lado do campo podiam pegar no esférico com as mãos. Os demais apenas a tocavam com os pés.
Vez por outra, os homens em campo se zangavam, discutiam, xingavam, gritavam e o homem – o mesmo que colocara a bola no centro do campo no início do jogo -, corria desesperado de um lado para outro e parava o jogo. As suas ordens eram obedecidas por todos os jogadores.
Depois de alguns instantes e muita reclamação tudo reiniciava para a alegria das pessoas que assistiam.
Após tensos minutos do início, apesar de todos os esforços do homem que ficava sob a trave, a bola cruzou a baliza. “Gol, gol”, várias pessoas gritavam. Houve então uma grande comemoração – dentro e fora do campo - aplausos, assobios, gritos e várias pessoas até chegaram a saltar de alegria e a abraçarem-se.
Depois de alguns minutos de jogo, isso se repetiu novamente. Desta feita na trave do lado oposto. Os torcedores que haviam comemorado da primeira vez mantiveram-se calados, enquanto as do outro grupo adotaram o mesmo procedimento de alegria.
E assim o jogo continuou até o seu final, ocasião em que a multidão dispersou feliz. Pelo que Tibério presenciou esse esporte logo ganharia muitos simpatizantes.


Meu caro Ormuz,
 
lendo no seu blog uma das "Cartas de Cotovelo", de nosso amigo Carlos Gomes, aqui no sossego da várzea do Pium, mas também diante do mar de Cotovelo, lembrei-me de um poema que lhe dediquei e que tem o título de "Genealogia". Nele fiz pequenas alterações de texto. Segue o "novo" original, com a velha dedicatória.
Com um abraço fraterno,
 
Horácio Paiva. 

GENEALOGIA


                                   A Ormuz Simonetti


Dos Oliveiras                   
sefarditas ibéricos
trago o sangue judaico
mas sou cristão
- nem novo nem velho –
por convicção.


Das margens do São Francisco
vejo as terras mais próximas
que lhes deu o sonho:
o planalto da Borborema
e o rio Espinharas
que bebe a seca dos sertões.


Dos Paivas                                    
que antes foram Baião
vem-me o sopro da poesia        
de João Soares de Paiva
o trovador primevo
que herdou do rio o seu nome.


Portanto posso dizer
que a dialética das águas
sempre me acompanhou
e que nem sempre sou o mesmo
embora meu destino
seja o mar.


                                   (Horácio Paiva, na ribeira do rio Pium)


21/02/2014 11h31  

Vereadores de Natal anulam ato que 



cassou prefeito no regime militar


Djalma Maranhão e vice-prefeito foram cassados em 3 de abril de 1964.
Prefeito teve mandato voltado à educação e morreu no exílio no Uruguai.

Felipe GibsonDo G1 RN
Djalma Maranhão foi eleito prefeito de Natal em 1960 (Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)Djalma Maranhão foi eleito prefeito de Natal em 1960 (Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 A Câmara Municipal de Natal aprovou nesta quinta-feira (20) uma lei que anula o impeachment dos ex-prefeito e vice-prefeito Djalma Maranhão e Luís Gonzaga dos Santos, que tiveram os cargos cassados durante o período da ditadura militar no Brasil. O projeto, de autoria do vereador George Câmara (PC do B), foi aprovado após votação unânime dos 29 vereadores.


A votação que cassou os mandatos de Djalma Maranhão e Luís Gonzaga completa 50 anos em 2014. "Os 21 vereadores fizeram um documento na época em que diziam não ocorrido pressão para votar pelo impeachment, quando todos sabiam que havia influência dos militares. Foi uma grande mentira, uma farsa que se montou", explica George Câmara.
Ex-prefeito de Natal, Djalma Maranhão foi deposto em 1964 pelo regime militar (Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)Djalma Maranhão com o ex-presidente Café Filho
(Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)
O projeto também foi elaborado em data simbólica, 13 de dezembro do ano passado, data que marcou os 45 anos da instituição do AI-5, como ficou conhecido o ato institucional do governo Costa e Silva que endureceu o regime militar no Brasil.


O texto da lei considera as cassações aprovadas em 1964, ano em que ocorreu o Golpe Militar no Brasil, como "atos antidemocráticos e injustos". De acordo com a lei, como forma de corrigir a "injustiça histórica", os nomes dos dois serão inscritos nos anais da Câmara Municipal e da prefeitura como "dignos representantes dos cidadãos natalenses".



Além disso, a Casa Legislativa fará a entrega “in memoriam” dos diplomas a Djalma Maranhão e Luís Gonzaga, "devolvendo de forma simbólica seus mandatos, eleitos de forma democrática pelo voto do povo", diz o texto da lei. No Palácio Felipe Camarão, onde funciona a Prefeitura de Natal, será fixada ainda uma placa de metal com os nomes do ex-prefeito e vice-prefeito.



De Pé no Chão, Também se Aprende a Ler
Professor de Educação Física e jornalista, Djalma Maranhão militou no Partido Comunista até a década de 1940 e também integrou o Partido Trabalhista Nacional (PTN) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Foi eleito deputado estadual e depois chegou ao cargo de prefeito de Natal em duas ocasiões. Uma delas nomeado pelo então governador Dinarte Mariz e em 1960 por eleição.
Ex-prefeito de Natal, Djalma Maranhão foi deposto em 1964 pelo regime militar (Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)Djalma ficou conhecido pelo projeto 'De Pé no
Chão Também se Aprende a Ler
(Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)
O governo de Djalma ficou conhecido pela campanha "De Pé no Chão, Também se Aprende a Ler", política educacional para alfabetizar crianças em Natal. Equipes de professores visitavam os bairros de periferia para realizar o trabalho.


Em 1964, com o golpe que colocou os militares no poder, o prefeito foi cassado e preso. Djalma Maranhão ficou custodiado em Natal, e posteriormente em Fernando de Noronha e Recife. No mesmo ano, o professor e jornalista pediu exílio político e foi morar em Montevidéu, no Uruguai, onde faleceu em 1971 por insuficiência cardíaca aos 56 anos.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

RECANTOS DE NATAL

Memorial do Grande Ponto

Celso da Silveira

Os bares do Grande Ponto
tenho os seus nomes de cor:
Botijinha, Dia-e-Noite,
Acácia Bar, Rio Grande,
Onde a cachaça de Ovídio
Dessendentava a goela
De Evaristo e Babuá.
Confeitarias - um par:
A Helvética e a Cisne;
Casa Vesúvio - bazar,
e adiante o Natal Clube,
Santa Cruz Futebol Clube
- os dois de primeiro andar.

Cafés Maia e São Luís,
Sorvete do Aracati,
Restaurante Dois-Amigos
com porta de vai-e-vem
e freqüência popular.
E Restaurante Acapulco,
local a que acorriam
Casais da sociedade
E rapazes bem trajados,
Todos lá fazendo hora
Para o baile do Aéro
- requinte/mor da cidade.

Numa esquina, a Alcazar
E na outra o Grande Ponto
- casa de jogos de azar -
um verdadeiro universo
de Tubiba à Mulamanca,
pro poeta fazer verso
como faz Milton Siqueira.

Lá, o Bolero servia
comidas de pratos quentes,
mas, já do lado de cá,
junto do Beco da Lama,
o Pérola vendia bifes
aos habitantes da noite
que voltavam dos bordéis
pra saciar outras fomes.

Lembrança de João Machado
Rutiquiano e Ercilo
(que foram ali quase Reis);
Sorveteria Cruzeiro
e do Salão Santo Antônio;
cigarreira O Zepelim,
que vendia bugigangas
e tinha o jornal/mural
onde "seu" Luiz Cortez
dava notícias do mundo
como que em primeira mão.
Juizes, advogados,
até desembargadores
e muitos aposentados,
recrutas e general
Leitão, Liliu do bilhar,
todo pessoal letrado
- são sombras na paisagem;
foi lá que estreou veado
um tal de Velocidade,
contraste de Tororomba.

Conversas de futebol
de torcedores e atletas,
cada um é melhor técnico
do América ou ABC,
Riachuelo e Atlético,
E o grito marcando gol
Está na boca de todos.

Carnaval na João Pessoa,
Deblechem vem de rei momo
ao lado de Zé Areia
e Djalma Maranhão;
se batalham de confete
e lança-perfume Rodo.
Papangus e colombinas
no toque da banda ao vivo
dançam ao som do "Zé Pereira"

Luís Tavares, de linho
LS-120
sapatos de duas cores,
bico fino de camurça,
ou couro de jacaré,
ditava a moda da praça
e ainda dava de graça
seu jeito de meninão.

Sorveteria Polar
(pianista Paulo Lyra)
onde se falava inglês
- "US Navy, my friend" -
de Aparício Meneses
ao engraxate da casa,
no tempo do americano.
O primeiro telefone
de serventia do povo
(nosso orelhão de outrora)
- "basta pagar e ligar" -
ficava numa cabine
toda vedada de vidro,
na antiga Casa Royal,
onde os segredos guardados
não coravam as namoradas.

É um espaço em aberto
à gente de toda parte;
convergência da cidade,
encontro de viajantes
e de onde as línguas feriam
moças vindas dos cinemas
Rex, Nordeste, Rio Grande,
Ou mesmo, quando mais cedo,
Retornavam das novenas.

Centro referencial
de política e cultura,
de oposição e governo;
a palavra ali falada
no palanque dos comícios
ganharam tal ressonância
que nos seus cantos ecoam,
não, grande ponto final
- leve som de antigamente -
reticência, ponto e vírgula,
mas, ocasionalmente,
exclamação, coisa e tal,
força lúdica, dominante
deste seu memorial
 
CLOTILDE TAVARES
O tempo passava e o mar se tornava cada vez mais próximo, mais presente. Nos anos trinta a quarenta, ele era pouso obrigatório das famílias de classe alta, que durante o verão migravam para a areia, mudando-se completamente para as suas residências praieiras. Eles levavam mobília, pertences, empregados e, por até três meses, fixavam-se ali. Não havia visitas esporádicas à cidade. O reabastecimento dos mantimentos ficava por conta de algum criado, que ia e voltava da cidade à pé, trazendo os pacotes nos braços.
Muitas de nossas praias urbanas encontravam-se ainda selvagens, seu grande atrativo era a tranquilidade, o repouso. Natal já possuia muitos dos traços urbanos da época e as pessoas buscavam modos alternativos de vida durante as férias, fugindo da cidade. Os veraneios de antes eram bem semelhantes aos de hoje, as diferenças ficavam por conta da relação entre as pessoas, todos ali eram amigos, parentes, conhecidos ou filhos de conhecidos. Havia segurança e confiança nos nativos do lugar. Os pescadores da área ajudavam a vigiar as casas e tinham livre acesso às suas portas. Claro, o mar era um prazer para um público seleto. Contavam-se poucas casas de veraneio, mas estas congregavam bastante gente, grandes famílias com muitos filhos, primos e sobrinhos.
Os novos exploradores do mar tinham liberdade para conhecer a área e descobrir os brinquedos do litoral. O território do Forte dos Reis Magos era aberto, sem vigilância, o que o tornava cenário favorito dos piqueniques organizados na época, uma diversão que durava um dia inteiro. A rotina dos dias resumia-se a passeios, brincadeiras na areia e banhos de mar, este último, o mais apreciado. As noites ficavam por conta dos violões dos seresteiros, que reuniam toda a gente das vizinhanças nos alpendres, embalando flertes e conversas com suas canções, que fluiam ao sabor da maresia.
O médico Jahyr Navarro, antigo veranista da praia de Areia Preta, - a primeira a abrigar esse tipo de casas - acompanhou o desenrolar de três décadas naquelas areias. Ele recorda que quando menino seu passatempo favorito era escorregar nas dunas sentado numa prancha de madeira, lubrificada com um pouco de cera de vela. Isso, em 1935, muito antes de alguém associar essa prática ao esporte de neve e apelidá-la de "skibunda". Navarro lembra de detalhes do cotidiano nas praias, como o ônibus amarelo da Força e Luz, única alternativa de transporte além do bonde. "Era um ônibus amarelo da companhia de luz elétrica, que quando chovia era obrigado a ultrapassar o barro acumulado na ladeira do sol de marcha ré, as crianças o usavam como meio de chegar até a escola".
Saudoso daquele tempo, Jahyr recorda ainda a atmosfera das praias na década de cinquenta, quando se reunia com seus companheiros no bar "É Nosso", para ensaiar as marchinhas de carnaval que seriam cantadas nos bailes do Aero Clube - sucessor do Natal Clube na preferência do high society. Vem dessa época também, o surgimento da Praia dos Artistas, mais reservada que as demais. A origem do apelido deve-se a fama de ter hospedado os grandes artistas do rádio, como Cauby Peixoto, Francisco Alves e Maria Creuza, que a escolhiam por estar mais distante da concentração de pessoas. Lá eles podiam tomar banho isolados na prainha. Algum tempo depois a fama de esconder artistas começou a atrair mais gente para a praia, afastando os frequentadores ilustres, mas, deixando o rótulo.
Começava a se espalhar a moda da paquera na areia, "Conhecíamos o ‘ponto’ onde cada moça tomava sol. Elas sempre escolhiam o mesmo lugar, para facilitar o acesso dos pretendentes", afirma o médico. Claro, todo o envolvimento transcorria com muita discrição, não se sonhava ainda com as ousadias de hoje em dia.
Na década de cinquenta, as praias de Natal tiveram a exibição do que seria um traje de banho moderno. A primeira mulher a pisar vestida de maiô numa praia de Natal foi uma aeromoça espanhola, trazida por um rapaz chamado Faruk. A visão das suas curvas ajustadas na peça, que se estendia até os joelhos, desencadeou um tumulto imprevisto nos rapazes, que ameaçaram reduzir bem mais o tamanho do traje, arrancado-o aos pedaços. Felizmente, a moça foi protegida e seu maiô escapou ileso. Era a modernidade começando a arranhar nosso provincianismo.