segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

1930
1915 – Uma partida de football em Natal

Elísio Augusto de Medeiros e Silva

Empresário, escritor e membro da AEILIJ
elisio@mercomix.com.br


Após a sua chegada a Natal, uma das maiores novidades que Tibério aguardava conhecer era o “bate bola”, gíria pela qual era conhecida o football que, a partir de 1910, tinha se incorporado aos hábitos da sociedade natalense.
Ao chegar ao local onde seria futuramente construída a Praça Pedro Velho, próximo ao centro hípico (Sport Club Natalense), notou que uma pequena multidão já aguardava ansiosa o início da partida que se realizaria entre dois times locais.
No enorme terreno baldio dois grandes retângulos desenhados no chão, que soube, pelos amigos, tratar-se do campo de jogo.
O terreno livre de qualquer mato estava perfeitamente nivelado, com esparsa grama. De cada um dos seus lados situava-se um dos times, aguardando o início do jogo.
Nos fundos de cada um dos lados desse terreno havia uma trave de madeira serrada, formada por duas linhas em paralelo e unidas no topo por uma outra que ficava na posição horizontal.
Claro que, a princípio, Tibério não entendeu absolutamente nada, mas, atento, passou a observar o movimento daquelas pessoas que circulavam pelo campo. Homens, meninos e até algumas senhoras.
Logo chegaram os dois times de jogadores – cada um deles vestia calções apertados nas pernas e camisas coloridas de cores diferentes. Cada grupo se posicionou em um dos lados do, digamos assim, gramado.
Veio um terceiro elemento, vestido de outra maneira, e colocou um esférico no centro do terreno. Após ser dado início à partida os homens, tanto de um lado como de outro, passaram a correr loucamente e a chutar a tal bola, em direção a cantos totalmente opostos.
A cada chute vigoroso dos tais atletas, os gritos e palmas vinham dos espectadores, alguns soltavam um “Aaaah!”, quando a bola batia em uma das traves - pelo que Tibério notou uns torciam para um determinado grupo de jogadores, enquanto outros para os rivais destes.
Não demorou muito para Tibério perceber que as regras do tal jogo eram bastante simples. Apenas os dois homens que se encontravam abaixo das grades em cada lado do campo podiam pegar no esférico com as mãos. Os demais apenas a tocavam com os pés.
Vez por outra, os homens em campo se zangavam, discutiam, xingavam, gritavam e o homem – o mesmo que colocara a bola no centro do campo no início do jogo -, corria desesperado de um lado para outro e parava o jogo. As suas ordens eram obedecidas por todos os jogadores.
Depois de alguns instantes e muita reclamação tudo reiniciava para a alegria das pessoas que assistiam.
Após tensos minutos do início, apesar de todos os esforços do homem que ficava sob a trave, a bola cruzou a baliza. “Gol, gol”, várias pessoas gritavam. Houve então uma grande comemoração – dentro e fora do campo - aplausos, assobios, gritos e várias pessoas até chegaram a saltar de alegria e a abraçarem-se.
Depois de alguns minutos de jogo, isso se repetiu novamente. Desta feita na trave do lado oposto. Os torcedores que haviam comemorado da primeira vez mantiveram-se calados, enquanto as do outro grupo adotaram o mesmo procedimento de alegria.
E assim o jogo continuou até o seu final, ocasião em que a multidão dispersou feliz. Pelo que Tibério presenciou esse esporte logo ganharia muitos simpatizantes.


Meu caro Ormuz,
 
lendo no seu blog uma das "Cartas de Cotovelo", de nosso amigo Carlos Gomes, aqui no sossego da várzea do Pium, mas também diante do mar de Cotovelo, lembrei-me de um poema que lhe dediquei e que tem o título de "Genealogia". Nele fiz pequenas alterações de texto. Segue o "novo" original, com a velha dedicatória.
Com um abraço fraterno,
 
Horácio Paiva. 

GENEALOGIA


                                   A Ormuz Simonetti


Dos Oliveiras                   
sefarditas ibéricos
trago o sangue judaico
mas sou cristão
- nem novo nem velho –
por convicção.


Das margens do São Francisco
vejo as terras mais próximas
que lhes deu o sonho:
o planalto da Borborema
e o rio Espinharas
que bebe a seca dos sertões.


Dos Paivas                                    
que antes foram Baião
vem-me o sopro da poesia        
de João Soares de Paiva
o trovador primevo
que herdou do rio o seu nome.


Portanto posso dizer
que a dialética das águas
sempre me acompanhou
e que nem sempre sou o mesmo
embora meu destino
seja o mar.


                                   (Horácio Paiva, na ribeira do rio Pium)


21/02/2014 11h31  

Vereadores de Natal anulam ato que 



cassou prefeito no regime militar


Djalma Maranhão e vice-prefeito foram cassados em 3 de abril de 1964.
Prefeito teve mandato voltado à educação e morreu no exílio no Uruguai.

Felipe GibsonDo G1 RN
Djalma Maranhão foi eleito prefeito de Natal em 1960 (Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)Djalma Maranhão foi eleito prefeito de Natal em 1960 (Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 A Câmara Municipal de Natal aprovou nesta quinta-feira (20) uma lei que anula o impeachment dos ex-prefeito e vice-prefeito Djalma Maranhão e Luís Gonzaga dos Santos, que tiveram os cargos cassados durante o período da ditadura militar no Brasil. O projeto, de autoria do vereador George Câmara (PC do B), foi aprovado após votação unânime dos 29 vereadores.


A votação que cassou os mandatos de Djalma Maranhão e Luís Gonzaga completa 50 anos em 2014. "Os 21 vereadores fizeram um documento na época em que diziam não ocorrido pressão para votar pelo impeachment, quando todos sabiam que havia influência dos militares. Foi uma grande mentira, uma farsa que se montou", explica George Câmara.
Ex-prefeito de Natal, Djalma Maranhão foi deposto em 1964 pelo regime militar (Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)Djalma Maranhão com o ex-presidente Café Filho
(Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)
O projeto também foi elaborado em data simbólica, 13 de dezembro do ano passado, data que marcou os 45 anos da instituição do AI-5, como ficou conhecido o ato institucional do governo Costa e Silva que endureceu o regime militar no Brasil.


O texto da lei considera as cassações aprovadas em 1964, ano em que ocorreu o Golpe Militar no Brasil, como "atos antidemocráticos e injustos". De acordo com a lei, como forma de corrigir a "injustiça histórica", os nomes dos dois serão inscritos nos anais da Câmara Municipal e da prefeitura como "dignos representantes dos cidadãos natalenses".



Além disso, a Casa Legislativa fará a entrega “in memoriam” dos diplomas a Djalma Maranhão e Luís Gonzaga, "devolvendo de forma simbólica seus mandatos, eleitos de forma democrática pelo voto do povo", diz o texto da lei. No Palácio Felipe Camarão, onde funciona a Prefeitura de Natal, será fixada ainda uma placa de metal com os nomes do ex-prefeito e vice-prefeito.



De Pé no Chão, Também se Aprende a Ler
Professor de Educação Física e jornalista, Djalma Maranhão militou no Partido Comunista até a década de 1940 e também integrou o Partido Trabalhista Nacional (PTN) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Foi eleito deputado estadual e depois chegou ao cargo de prefeito de Natal em duas ocasiões. Uma delas nomeado pelo então governador Dinarte Mariz e em 1960 por eleição.
Ex-prefeito de Natal, Djalma Maranhão foi deposto em 1964 pelo regime militar (Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)Djalma ficou conhecido pelo projeto 'De Pé no
Chão Também se Aprende a Ler
(Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)
O governo de Djalma ficou conhecido pela campanha "De Pé no Chão, Também se Aprende a Ler", política educacional para alfabetizar crianças em Natal. Equipes de professores visitavam os bairros de periferia para realizar o trabalho.


Em 1964, com o golpe que colocou os militares no poder, o prefeito foi cassado e preso. Djalma Maranhão ficou custodiado em Natal, e posteriormente em Fernando de Noronha e Recife. No mesmo ano, o professor e jornalista pediu exílio político e foi morar em Montevidéu, no Uruguai, onde faleceu em 1971 por insuficiência cardíaca aos 56 anos.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

RECANTOS DE NATAL

Memorial do Grande Ponto

Celso da Silveira

Os bares do Grande Ponto
tenho os seus nomes de cor:
Botijinha, Dia-e-Noite,
Acácia Bar, Rio Grande,
Onde a cachaça de Ovídio
Dessendentava a goela
De Evaristo e Babuá.
Confeitarias - um par:
A Helvética e a Cisne;
Casa Vesúvio - bazar,
e adiante o Natal Clube,
Santa Cruz Futebol Clube
- os dois de primeiro andar.

Cafés Maia e São Luís,
Sorvete do Aracati,
Restaurante Dois-Amigos
com porta de vai-e-vem
e freqüência popular.
E Restaurante Acapulco,
local a que acorriam
Casais da sociedade
E rapazes bem trajados,
Todos lá fazendo hora
Para o baile do Aéro
- requinte/mor da cidade.

Numa esquina, a Alcazar
E na outra o Grande Ponto
- casa de jogos de azar -
um verdadeiro universo
de Tubiba à Mulamanca,
pro poeta fazer verso
como faz Milton Siqueira.

Lá, o Bolero servia
comidas de pratos quentes,
mas, já do lado de cá,
junto do Beco da Lama,
o Pérola vendia bifes
aos habitantes da noite
que voltavam dos bordéis
pra saciar outras fomes.

Lembrança de João Machado
Rutiquiano e Ercilo
(que foram ali quase Reis);
Sorveteria Cruzeiro
e do Salão Santo Antônio;
cigarreira O Zepelim,
que vendia bugigangas
e tinha o jornal/mural
onde "seu" Luiz Cortez
dava notícias do mundo
como que em primeira mão.
Juizes, advogados,
até desembargadores
e muitos aposentados,
recrutas e general
Leitão, Liliu do bilhar,
todo pessoal letrado
- são sombras na paisagem;
foi lá que estreou veado
um tal de Velocidade,
contraste de Tororomba.

Conversas de futebol
de torcedores e atletas,
cada um é melhor técnico
do América ou ABC,
Riachuelo e Atlético,
E o grito marcando gol
Está na boca de todos.

Carnaval na João Pessoa,
Deblechem vem de rei momo
ao lado de Zé Areia
e Djalma Maranhão;
se batalham de confete
e lança-perfume Rodo.
Papangus e colombinas
no toque da banda ao vivo
dançam ao som do "Zé Pereira"

Luís Tavares, de linho
LS-120
sapatos de duas cores,
bico fino de camurça,
ou couro de jacaré,
ditava a moda da praça
e ainda dava de graça
seu jeito de meninão.

Sorveteria Polar
(pianista Paulo Lyra)
onde se falava inglês
- "US Navy, my friend" -
de Aparício Meneses
ao engraxate da casa,
no tempo do americano.
O primeiro telefone
de serventia do povo
(nosso orelhão de outrora)
- "basta pagar e ligar" -
ficava numa cabine
toda vedada de vidro,
na antiga Casa Royal,
onde os segredos guardados
não coravam as namoradas.

É um espaço em aberto
à gente de toda parte;
convergência da cidade,
encontro de viajantes
e de onde as línguas feriam
moças vindas dos cinemas
Rex, Nordeste, Rio Grande,
Ou mesmo, quando mais cedo,
Retornavam das novenas.

Centro referencial
de política e cultura,
de oposição e governo;
a palavra ali falada
no palanque dos comícios
ganharam tal ressonância
que nos seus cantos ecoam,
não, grande ponto final
- leve som de antigamente -
reticência, ponto e vírgula,
mas, ocasionalmente,
exclamação, coisa e tal,
força lúdica, dominante
deste seu memorial
 
CLOTILDE TAVARES
O tempo passava e o mar se tornava cada vez mais próximo, mais presente. Nos anos trinta a quarenta, ele era pouso obrigatório das famílias de classe alta, que durante o verão migravam para a areia, mudando-se completamente para as suas residências praieiras. Eles levavam mobília, pertences, empregados e, por até três meses, fixavam-se ali. Não havia visitas esporádicas à cidade. O reabastecimento dos mantimentos ficava por conta de algum criado, que ia e voltava da cidade à pé, trazendo os pacotes nos braços.
Muitas de nossas praias urbanas encontravam-se ainda selvagens, seu grande atrativo era a tranquilidade, o repouso. Natal já possuia muitos dos traços urbanos da época e as pessoas buscavam modos alternativos de vida durante as férias, fugindo da cidade. Os veraneios de antes eram bem semelhantes aos de hoje, as diferenças ficavam por conta da relação entre as pessoas, todos ali eram amigos, parentes, conhecidos ou filhos de conhecidos. Havia segurança e confiança nos nativos do lugar. Os pescadores da área ajudavam a vigiar as casas e tinham livre acesso às suas portas. Claro, o mar era um prazer para um público seleto. Contavam-se poucas casas de veraneio, mas estas congregavam bastante gente, grandes famílias com muitos filhos, primos e sobrinhos.
Os novos exploradores do mar tinham liberdade para conhecer a área e descobrir os brinquedos do litoral. O território do Forte dos Reis Magos era aberto, sem vigilância, o que o tornava cenário favorito dos piqueniques organizados na época, uma diversão que durava um dia inteiro. A rotina dos dias resumia-se a passeios, brincadeiras na areia e banhos de mar, este último, o mais apreciado. As noites ficavam por conta dos violões dos seresteiros, que reuniam toda a gente das vizinhanças nos alpendres, embalando flertes e conversas com suas canções, que fluiam ao sabor da maresia.
O médico Jahyr Navarro, antigo veranista da praia de Areia Preta, - a primeira a abrigar esse tipo de casas - acompanhou o desenrolar de três décadas naquelas areias. Ele recorda que quando menino seu passatempo favorito era escorregar nas dunas sentado numa prancha de madeira, lubrificada com um pouco de cera de vela. Isso, em 1935, muito antes de alguém associar essa prática ao esporte de neve e apelidá-la de "skibunda". Navarro lembra de detalhes do cotidiano nas praias, como o ônibus amarelo da Força e Luz, única alternativa de transporte além do bonde. "Era um ônibus amarelo da companhia de luz elétrica, que quando chovia era obrigado a ultrapassar o barro acumulado na ladeira do sol de marcha ré, as crianças o usavam como meio de chegar até a escola".
Saudoso daquele tempo, Jahyr recorda ainda a atmosfera das praias na década de cinquenta, quando se reunia com seus companheiros no bar "É Nosso", para ensaiar as marchinhas de carnaval que seriam cantadas nos bailes do Aero Clube - sucessor do Natal Clube na preferência do high society. Vem dessa época também, o surgimento da Praia dos Artistas, mais reservada que as demais. A origem do apelido deve-se a fama de ter hospedado os grandes artistas do rádio, como Cauby Peixoto, Francisco Alves e Maria Creuza, que a escolhiam por estar mais distante da concentração de pessoas. Lá eles podiam tomar banho isolados na prainha. Algum tempo depois a fama de esconder artistas começou a atrair mais gente para a praia, afastando os frequentadores ilustres, mas, deixando o rótulo.
Começava a se espalhar a moda da paquera na areia, "Conhecíamos o ‘ponto’ onde cada moça tomava sol. Elas sempre escolhiam o mesmo lugar, para facilitar o acesso dos pretendentes", afirma o médico. Claro, todo o envolvimento transcorria com muita discrição, não se sonhava ainda com as ousadias de hoje em dia.
Na década de cinquenta, as praias de Natal tiveram a exibição do que seria um traje de banho moderno. A primeira mulher a pisar vestida de maiô numa praia de Natal foi uma aeromoça espanhola, trazida por um rapaz chamado Faruk. A visão das suas curvas ajustadas na peça, que se estendia até os joelhos, desencadeou um tumulto imprevisto nos rapazes, que ameaçaram reduzir bem mais o tamanho do traje, arrancado-o aos pedaços. Felizmente, a moça foi protegida e seu maiô escapou ileso. Era a modernidade começando a arranhar nosso provincianismo.



 

 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Estádio “Mané Garrincha” e as Políticas Públicas
Geniberto Paiva Campos /DF – julho 2013

Sou torcedor do Flamengo/RJ desde pequenino.
Domingo, devido a um incontornável complô familiar, fui assistir ao clássico carioca, Vasco x Flamengo, no novo estádio de Brasília, recém inaugurado e já objeto de polêmicas, resultantes das manifestações de junho, que ecoaram a voz  rouca das ruas.
É preciso esclarecer que adoro futebol. O jogo me fascina. Quando residia no Rio de Janeiro, em tempos idos, me tornei  frequentador assíduo do Maracanã. Guardo boas recordações da época. Hoje, acompanho pela TV. Os meus filhos resolveram que eu precisava conhecer o novo estádio. Não dá para ir contra uma decisão deles. E lá fomos nós.
O “Mané Garrincha”, simpático nome do estádio, é belo e imponente. A escala humana se perde quando adentramos o seu recinto e nos aproximamos das suas imensas colunas.
 O acesso é muito ruim. A organização imposta pela Polícia Militar para o clássico obriga a multidão de adultos, crianças, cadeirantes a um ritual maluco. Parecemos bois em fila, caminhando, silentes, em direção ao trem de carga. Terminada a marcha, após algumas peripécias e o desmonte das barreiras pelo própria PM, quem sabe reconhecendo a sua confusa organização,  e passar  pelo controle eletrônico dos ingressos, chegamos, enfim, ao belíssimo palco do espetáculo. Mas que só teria início dentro de mais 80 minutos. Quase a duração da partida. Mas é preciso chegar cedo, recomendam.
As torcidas gritam. Uivam. Xingam. Fazem gozações ao adversário. De forma espontânea ou coreografada. Sorriem, felizes, quando aparecem no telão do estádio. Uma catarse.
Os ingressos são caríssimos. Noventa reais para sentar no anel inferior. Isso não é preço para assistir futebol. Afasta o povão e torna o espetáculo restrito aos ricos e à (velha) classe média. Logo o futebol no Brasil será jogo de elite. Até que esta elite decida eleger o baseball como esporte dos brasileiros.
Há o ritual de aquecimento dos jogadores. Isso, a televisão, geralmente, não mostra. Aumenta a ansiedade e a expectativa da multidão que já enche o estádio. Senta ao meu lado um amigo. Também torcedor do Flamengo. Uma alegria revê-lo
De repente, me vem à lembrança a pauta das manifestações de junho. E me dou conta de que estou numa espécie de local proibido. Um templo perdulário, que resolveram chamar de “coliseu”. Claro, numa referência aos romanos. Um lugar onde os cristãos eram devorados pelos leões, a mando dos imperadores desalmados e cruéis. Faltam poucos minutos para o início da partida. Mas o meu entusiasmo arrefece. O meu time adentra o gramado. E eu calado, pensando: ”Não deveria estar aqui... não está correto”. Olhava para os meus filhos, alegres, ruidosos. Camisas do Vasco, todos. Absortos no espetáculo que se iniciava. E eu ali, quieto, meditando. Avaliando se era justo assistir ao jogo. E logo nesse local, cheio de estigmas.
Deveria ter escutado o brado das manifestações. E os vídeos. Rapazes e moças, brasileiros de nascença. Mas falando um inglês impecável. Com direito a legendas. Coisa de primeiro mundo. Que orgulho! Numa hora dessas temos de acreditar no antigo refrão: “com brasileiros não há quem possa!” E o que esses rapazes e moças recomendavam, peremptórios? Ai meu Deus, e naquele inglês perfeito: “Não deem importância, esqueçam o futebol! Copa do Mundo? Nem pensar!” (Numa hora eu pensei que eles se enganaram e disseram que a bola do jogo era oval. Mas, parece, o engano foi meu). Essas verdades, ditas em outro idioma têm lá o seu peso. “Pensem nas criancinhas doentes e sem assistência médica. Por quê? Porque os governantes construíram o estádio! Que tomou o lugar dos hospitais e das creches.” Aí, me lembrei bem do rapaz brasileiro que falava no seu inglês rápido, fluente, preciso, dizendo com insistência, (e com as legendas mágicas):  –“Não discutam. Não argumentem. Apenas digam, e repitam  que a  construção do estádio prejudica a saúde e a educação. Eles vão acabar entendendo”. O que é o estudo! E não é que assimilamos a coisa?! Hoje, a maioria das pessoas repete essa verdade.
Com seu belo uniforme, o Flamengo entra em campo. O estádio vem abaixo. Vaias da torcida vascaína. Começa o jogo. Esqueci o “radinho de pilha”, fiel companheiro do Maracanã. Tenho dificuldades para identificar os jogadores. Na TV é mais fácil. Eles dão aqueles closes. O Flamengo está melhor que o Vasco. Mas o jogo é ruim de doer. Ataque rubro-negro bem coordenado chegaram perto gol. Mas, “who cares?”, como diria o rapaz do inglês perfeito. Fico aqui pensando nos pacientes com enfarte do miocárdio e derrame cerebral por culpa do estádio. Na violência nas cidades. No caos do transporte urbano. Tudo culpa desse belíssimo estádio. E chego a imaginar a perfeição do Brasil, sem estádios de futebol e com todos esses problemas resolvidos. Por que os nossos políticos são tão estúpidos e não dão ouvidos ao rapaz e a moça que dizem coisas tão sensatas. E em inglês, com legendas?
Novo ataque do Flamengo. Gol do Paulinho. As coisas melhoram um pouco. Afinal, o meu time precisa dos 3 pontos em disputa. Mas a situação do país, que poderia estar resolvida não me sai da cabeça. Se esse belo estádio, glória da arquitetura e da capacidade de realização dos brasileiros não existisse, fosse apenas um terreno, vá lá, coberto por um gramado, os problemas sociais do Brasil estariam sendo resolvidos. Como fomos bobos em não perceber isso. Que oportunidade perdida. Não soubemos dar ouvidos às patrióticas mensagens bilíngues que recebemos. Povinho bobo, esses brasileiros.
Final do jogo. Vitória do Flamengo. A saída do estádio é bem comportada. A boiada volta de novo silente.  Parecemos um bando de suíços. Não tem os cânticos provocativos. As gozações aos adversários. Nada disso. Com esse preço dos ingressos e esse comportamento educado, temo que o futebol da elite  brasileira  vá se tornando um espetáculo   em que o gol será comemorado pelo lado  esquerdo da plateia, com aplausos – comedidos – e, pelo lado direito com  o sacolejar das joias.  Como recomendavam eternos gozadores, Lennon e McCartney.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014


Há perigo de retrocesso?
“O sono da razão gera monstros” (Antonio Gramsci)
 
(*) Rinaldo Barros
 
Logo após o reinado de momo, serão abertas campanhas eleitorais em todos os Estados ao longo do patropi e, também, no Congresso Nacional. Não será apenas mais uma legislatura, dezenas de senadores estão com seus mandatos em risco.
Estamos assistindo aos primeiros clarões da alvorada de uma nova era política em terras crioulas.
Com a mundialização da economia, com o advento do Mercosul, com a nova geopolítica internacional (o mundo multipolar), com eleições em todos os Estados brasileiros, com a crise na economia estadunidense ainda renitente, necessariamente teremos uma nova realidade política no Brasil, em toda América Latina e Caribe, como de resto em todo o planeta.
É palpável a evanescência de muitos outrora importantes movimentos sociais (como o de mulheres, por exemplo). É visível o declínio da força do sindicalismo, como conseqüência do novo padrão de acumulação do sistema e do desaparecimento de postos de trabalho e profissões, por força da automação.  
Preocupa-me também a tentativa governamental de censurar ou desqualificar o papel da imprensa e da internet enquanto pilares da Democracia, em meio a generalizada sensação de impunidade.
É igualmente muito preocupante a despolitização das novas gerações, às voltas com um individualismo estéril, terreno fértil e perigoso para as manipulações de todos os tipos.
Nosso sistema educacional nem de longe está preparado para orientar nossa juventude nos caminhos da vida, nossos professores estão ainda em busca da compreensão acerca dessa novíssima realidade e, lamentavelmente, ainda sem o indispensável apoio conceitual.
Nossos mestres estão desarmados em pleno campo de batalha, uma loucura sem igual.
Ninguém está preparado ainda para lidar com essa novíssima realidade. Trata-se de uma série de especificidades, eivada de ambigüidades, tecendo uma rede complexa e fragmentada de novos conceitos e novos paradigmas, a qual vai se redefinindo junto a cada movimento do real, a uma velocidade alucinante.
No contexto local, o lulodilmismo levou o País ao retrocesso político e moral ao não punir e até defender e incentivar a corrupção com o dinheiro público, ao lotear cargos técnicos com apadrinhados despreparados e mal-intencionados, ao interferir politicamente em funções do Estado que existem para servir ao cidadão, e não aos interesses do governo.
Além de não fazer nenhuma das reformas fundamentais para a modernização da nossa sociedade.
Todavia, é forçoso reconhecer os méritos do governo atual: a economia cresceu e milhares de novos empregos foram criados, a área social ganhou impulso, e surpreendentemente o País saiu (?) da crise antes do esperado. Em que pese a desigualdade social ainda inaceitável e o câmbio atrapalhar as exportações, o futuro econômico do Brasil é promissor e o PT governo ajudou a construí-lo; a partir da sábia manutenção da política econômica do governo anterior e da preservação do Plano Real, criado em 1994.
Entretanto, tudo se passa como se o PT governo houvesse descoberto uma forma de agir como ditador fingindo estar numa Democracia. Com a “aprovação” da maioria desinformada da população.
Por falar nisso, acho muito estranho quando vejo a quantidade de "medidas provisórias" editadas, melhor, ditadas pelo governo federal; temos a impressão de que o nosso sistema democrático é uma fraude.
Que democracia é esta em que a maioria das leis é feita pelo Executivo e não pelo Legislativo?
É assustador o crescimento da violência urbana, ao lado do consumo endêmico de drogas e, talvez um claro indício de que estamos na barbárie: parte da população – cansada de esperar – começa a fazer justiça com as próprias mãos, promovendo linchamentos de assaltantes em via pública.
É preocupante também a omissão em relação à formação dos militares brasileiros; o que tem garantido a perpetuação, quase intacta, da doutrina de segurança nacional dentro dos quartéis. É mesmo muito estranho.
E, agora, o PT governo anuncia “Estado de Exceção” na Bahia e que vai colocar o Exército nas ruas para reprimir manifestações durante a Copa; quando se sabe que as Forças Armadas não são treinadas para conter multidões, mas estão preparadas para matar e destruir.
Será que estão querendo jogar a opinião pública contra as forças armadas?
Será mais uma pedra no quebra-cabeça da “revolução bolivariana”, novo cenário político para a América Latina? Será o início da fórmula da “pós-democracia” (superação da democracia representativa)?
Será que a frágil Democracia verde-amarela está correndo perigo de novo retrocesso?
A dedução é privilégio do caro leitor.
 
 (*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Instituto Histórico do RN espera parecer de Iphan para reforma

Publicação: 19 de Fevereiro de 2014 (Tribuna do Norte)

Prestes a completar 112 anos no próximo dia 29 de março, o Instituto Histórico e Geográfico do RN ainda não obteve anunência do Iphan-RN para prosseguir com as obras de recuperação de sua sede na Cidade Alta. A obra foi embargada no final de novembro do ano passado, após remoção indevida do piso de ladrilho hidráulico instalado no auditório da mais antiga instituição cultural do Estado há pelo menos meio século. Mesmo com parte da estrutura interditada, a direção da entidade resolveu reabrir as portas nesta segunda-feira (17) para atender visitantes e pesquisadores.
Yuno SilvaObra do auditório permanece parada até parecer do Iphan
Obra do auditório permanece parada até parecer do Iphan

“Aguardamos o parecer do Iphan-RN para retomarmos os trabalhos. Nosso desejo é que, até o fim de março, possamos fazer a festa de aniversário do Instituto e comemorar o primeiro ano da nova gestão em um ambiente limpo e organizado”, disse o presidente do IHGRN, Valério Mesquita.

Porém, passados quase três meses do embargo, a superintendência regional do Iphan informou que ainda não recebeu todos os documentos solicitados para embasar o parecer. “Essa demora foi provocada pelo próprio IHGRN”, garantiu Onésimo Santos, superintendente do Iphan-RN. “Estamos pedindo coisas simples como cópias de documentos pessoais e a planta com o projeto de intervenção. As cópias entregaram um dia desses, mas aguardamos os projetos. De qualquer forma o processo está tramitando. Estamos cumprindo todos os prazos”.

Como o edifício é tombado pelo patrimônio histórico, Onésimo recorda que a direção do Instituto removeu os ladrilhos hidráulicos antes de qualquer autorização formal do Iphan-RN. Em vez de aplicar multa, ficou decidido em comum acordo que a direção do Instituto Histórico e Geográfico irá compensar a remoção do piso antigo com a realização de um estudo memorialista sobre o histórico da entidade. “A documentação formalizando o acordo (da compensação) está pronta e será encaminhada amanhã (hoje) para o setor jurídico regional que funciona em Pernambuco. Eles têm um prazo de até 180 dias para devolver o contrato”, adiantou. A notícia é um balde de água fria na meta determinada pelo diretores do IHGRN.

Questionado sobre a possibilidade do IHGRN se organizar para receber comemorações no final de março, Onésimo Santos explicou que o embargo não impede do local ser limpo e de serviços simples como pintura serem retomados. “O mal feito foi feito (a remoção do piso sem autorização) e a reparação demora. Por enquanto, até que seja definida qual a solução, o auditório ficará sem o piso”, frisa.

O embargo da obra no Instituto coincide com o bom momento financeiro da entidade: valério Mesquita contou na manhã de ontem ao VIVER que o Instituto, finalmente, recebeu parte das emendas aprovadas pela Assembleia Legislativa para o orçamento de 2013 – recursos que serão utilizados para concluir os reparos na estrutura física, incluindo melhorias nas redes elétrica e hidráulica; mais acomodação, limpeza e levantamento completo do acervo.

“Dos R$ 400 mil aprovados na AL ano passado, temos R$ 100 mil disponível em conta. O Governo do RN publicou, no Diário Oficial no dia 15, outros R$ 200 mil que teremos acesso em 30 dias”, disse Mesquita, informando que é chegada a hora de aplicar esses recursos. Paralelo às obras de recuperação, há um projeto arquitetônico em fase final de elaboração que prevê a ampliação e readequação do IHGRN, como a construção de um auditório no subsolo e de um café no pátio. Mas os planos terão que aguardar um pouco, até a proposta ser avaliada pelo Iphan-RN.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014


A TRAGÉDIA DA RUA DAS FLORES
Por: Gileno Guanabara, advogado

A motivação da presente crônica não trata da viela que se chamou Rua das Flores nas cercanias da cidade do Açu, a qual lhe foi dado o nome de “Rua Prefeito Manoel Pessoa Montenegro”. Nela estarão sempre presentes os sobrados, os moradores ilustres e os seus mistérios. Permanece o espírito dos lá nascidos, imorredouras lembranças dos primeiros anos de vida. É como se o quarto onde Machadinho viveu a sua segunda infância estivesse “intacto, suspenso no ar”, no dizer do poeta. Saibam os barnabés que “navegar é preciso” e o nome da Rua das Flores em Açu persiste. Nela, como em qualquer outra via de casas calcetadas, em cor de cal e de números desiguais, a vida corre fagueira e nos comoverá sempre a sua doce lembrança.

Os pensadores no recôndito de suas elucubrações elegem, anotam e legam para o futuro a integralidade das ruas, seus encantos, glórias e emoções vividas. Ou se reportam a outra face, a parte medonha dos desconsolos, das histórias do nunca e dos dramas ocorrentes. São marcas indeléveis da existência humana. Operetas felizes ou acontecências trágicas que se passam nas calçadas ou nos rios de quaisquer cidades, tendo a parcimônia de nos tornar iguais na alegria ou no padecimento. A felicidade é mais fácil de nos arrebatar, às vezes por razões que a própria razão desconhece. Os registros soçobram incólumes em algum lugar, contendo a lavratura temporal de ruas, de personagens ou de acontecimentos raros. Deles a posteridade não tomaria conhecimento, caso não fossem descobertos a tempo.

 Luis de Camões atingido em combate ficou cego de um olho e sobreviveu a um naufrágio. Com uma das mãos amparava o seu tratado, o registro da glória e conquistas lusitanas. Com a outra mão aplacava o mar indômito. A epopeia que relatou em Os Lusíadas assegurou ao mundo conhecer o tempo infinitamente glorioso dos portugueses. Camões sabia dos rumos tomados desde a Torre no Rio Tejo, fortaleza imponente com suas canhoneiras e cordames em pedra, traços mouriscos, orientais e góticos, de onde se aventuravam os marinheiros e as caravanas que seguiam em busca da pecúnia e da riqueza. Camões morreu pobre de Jó.

Ou a façanha do genovês Cristovam Colombo que se lançou ao mar bravio, vencendo resistências no propósito de fazer a guerra do comércio contra os ímpios.  Ao final descobriu o Novo Mundo, sem que se lhe prestassem a merecida justiça. A América, na nomenclatura dos mapas que passaram a retratar a forma convexa dos oceanos, até então desconhecido pelas ciências, consagrou a vida e obra de outro navegador, Américo Vespúcio.

Miguel de Cervantes Saavedra nos legou a obra mais universal das que o gênio humano produziu. Nela estão agasalhados os dois polos que impulsionam o ser humano: a fé e a razão, como lhe referiu Unamuno ao se reportar a Don Quixote. A cidadela natal de Cervantes não foi Sevilha, nem Madrid, nem Córdova, mas uma quinta sem rua, de nome conhecido “Alcalá de Henares”. Aventureiro e insatisfeito com a própria vida que levava, alistou-se nos regimentos espanhóis e participou da batalha de Lepanto, na qual foi ferido e teve inválida uma das mãos. Na viagem de regresso a Espanha foi aprisionado por piratas berberes. A vida de prisioneiro descreveu em duas obras: “Los Baños de Argel” e “Los tratos de Argel”. A vida mísera, sem recursos, mesmo assim teve forças para publicar “La Galetea”. Enveredou pela dramaturgia, pelas novelas, pela poesia.

 Porém, a obra monumental de Cervantes é “Don Quixote”, a criação mais humanamente dramática que se imaginou. Eis a luta diuturna dada pelo cavaleiro louco, suas peripécias e as fatalidades da vida, apontando contra a psicose intolerante e a decadência do absolutismo castelhano.  Em resumo: a tragédia pessoal de quem sobrepunha acima das misérias terrenas a sua fé inabalável. Faleceu em plena atividade de escritor, pobre e sem reconhecimentos, que só lhe foram prestados tempos depois.

Finalmente, A Tragédia da Rua das Flores que titula o manuscrito deixado por Eça de Queiroz, inédito e inacabado, dado a conhecimento público, passados cem anos depois de sua morte. O estudo que ora se faz e a edição preliminar (Obras de Eça de Queiroz, - Livros do Brasil - Lisboa, novembro/2003) preservam as imperfeições, incorreções, repetições, o ritmo alucinante da caligrafia original, as anotações marginais, ou os cortes esboçados pelo autor.

A ocorrência do incesto é recorrente em Eça, com força desde O Primo Basílio, ou em Os Maias. No entanto, o pecado vê-se sublimado em o drama situar-se exatamente na Rua das Flores. Em verdade, caso não se configurasse como tragédia, embora com o mesmo tema, resumir-se-ia a uma proposta de comédia burlesca, simplesmente. A Tragédia da Rua das Flores, pois, consagra personagens e intrigas de época presentes em outras obras clássicas do autor. No entanto, cada rascunho marginal e até as censuras sobrepostas de próprio punho, dão azo a um Eça já equidistante do rigor das motivações do enredo original.

Procederam-se consultas através de fotocópias, a fim de se esclarecer as dúvidas e as repetições, já que não são mais viventes os familiares de Eça, ou quem intimidade tivera com os seus escritos. Superados os questionamentos, oxalá no futuro possa se ter a edição definitiva e o alcance da última obra de Eça de Queiroz.

 

 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014


Coisas que só acontecem comigo III
Por: Augusto Coelho Leal, engenheiro civil
                Anos sessenta, havia tido uma eleição muito acirrada, em que Aluizio derrotou Djalma Marinho e Dinarte Mariz.  Mas com pouco tempo depois, Dinarte candidatou-se a senador e foi eleito.  A festa da vitoria foi na Praça Pio X à noite e começaram logo cedo pela manhã os preparativos.
                A nossa turma de estudante tinha por hábito se reunir depois das onze horas na esquina do Cine Rio Grande, para assistir o desfile das moças que saiam dos vários colégios, principalmente Colégio das Neves, Colégio da Conceição, e o Externato São Luiz ou Colégio de Padre Eymar.
                Naquela época tinha como costume pintar o “cartaz” dos filmes em grandes placas de madeira e papelão e colocavam nos postes para servir de chamadas para os diversos cinemas da cidade. No Cinema Rio Grande tinha um senhor magro, alto, cabeleira cheia, conhecido por Vilinha que era quem pintava estes cartazes. Pois bem, na bilheteria tinha uns ferros grossos que serviam para orientar as filas e eu e mais dois amigos estávamos sentados nestes ferros assistindo os preparativos da festa da vitória de Dinarte. Alguns homens soltando foguetões e um sistema de som anunciava o grande momento. O palanque montado para a Rua Deodoro. Eu observando tudo, quando um foguetão falha e o cidadão solta o dito cujo no chão, deixando o “danado” de frente para a bilheteria do cinema que era na Rua Açu. Observando aquilo notei um deslocamento de ar, poeira e fumaça feito um tubo se deslocando em nossa direção. Entendi que era o foguetão, dei um grito, empurrei os dois amigos e me joguei no chão. O bicho vinha em vôo rasante bateu no meio fio entrou pela janela da bilheteria e estourou na sala de espera onde Vilinha pintava. Amigo (a) foram três pipocos que parecia que o cinema estava caindo. Nisto Vilinha abre a grande porta de ferro do cinema, com os cabelos todos arrepiados, um olho olhando para a Zona Norte o outro para a Zona Sul, a camisa toda aberta melada de tinta, segurando o pincel, olhando para a gente berra.
                - Quem foi o “fela da puta” que soltou essa bomba no pé do meu ouvido? Dito, caiu sentado de zonzo.
                Precisamos chamar o SANDU (alguém se lembra?) para socorrê-lo.
                A Praia de Cotovelo era muito tranquila, é tanto que fiz minha casa sem muro na frente e sem portões. Inspirei-me nas casas da Redinha. Pois bem, tinha uma senhora que vendia tapioca, e como Alzira gosta muito ela logo cedo pela manhã começava a gritar na janela do nosso quarto. Um belo dia de domingo, estava dormindo em uma ressaca feladaputista, quando o diacho desta senhora inventa de gritar na janela do quarto.
                - Olha a tapioca, Dona Maria acorda para comer tapioca, está bem quentinha. Levantei-me emputecido, abri a porta e gritei – pode parar de gritar, hoje não queremos tapioca e ainda largo minha mulher por causa das suas tapiocas, à senhora ouviu?
                - Ouvi sim, não precisa gritar. Mas se o senhor largar sua mulher vai arranjar uma “bem mais pior” do que a sua. Largue para o senhor vê – sentenciou.
                Ouvindo aquilo dei uma gargalhada, entrei peguei uma gelada para rebater a ressaca.
                Estava no Aeroporto de Ezeiza em Buenos Aires quando as várias senhoras resolveram ir para o Free Shop, aliás, me espantei, mulher não gosta de fazer compras não é? Pois bem alguns maridos resolveram acompanhá-las certamente para fiscalizá-las nas despesas, mas como confio na minha resolvi não ir e preferi beber uma cervejinha em uma lanchonete. Fui bem atendido pela garçonete, era uma moça jovem e bonita, e como não tinha com quem conversar, fiquei olhando para o tempo. Para minha surpresa, ela veio até onde eu estava e perguntou qual o motivo de está tão triste. Olhei para ela e respondi em “portunhol”
                - Estoy triste porque murió mi mujer que estaba solo en nel mundo, quieres casarte conmigo e irse a vivir en el Brasil?
                - Si, si, estoy contigo, responde ela
                Pedi a despesa, pois sabia que quando Dona Moça chegasse já ia gritando – vamos, vamos já estamos atrasados (Por que toda mulher é assim atrasa e a gente leva a culpa?) Pois bem, paguei a despesa e fiquei esperando a ordem de debandar. Quando Dona Moça chega e dá as ordens, me levanto olho para ela que no gesto discreto, olha para mim e abre as duas mãos como quem diz – e agora? Eu vim e ela ficou. Mas ainda escrevo um romance – Meu amor portenho.
Olha gente pelo amor de deus não diga a Alzira que escrevi isto, ela não sabe de meus amores secretos.
 
 
                               

domingo, 16 de fevereiro de 2014



                   OS DOMINGOS DE HORÁCIO PAIVA



PÃO E LUZ

                        com lápis invisível
                        descrevo na escuridão
                        o que não vejo

                        e nada sei do pão
                        que está à mesa
                        à espera da luz



SEMPRE DOMINGO

                                   “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã”
                                               -  Mateus, 6:34  -

o domingo estende uma toalha branca
e põe a sua mesa
com flores vinho e frutos do mar

sem imaginar naufrágios
e já quase esquecido do tempo voraz

mas ao meio-dia
com olhos cegos e arma em punho                          
a segunda acorda e precipita seus receios vãos
em nebulosas inquietudes

ao meio-dia do domingo precipita-se a segunda-feira

entorna o vinho então sossegado
e o despede
mas apenas por instantes
pois logo o domingo se refaz
e afeito a vencer desafios milenares
aos poucos afasta as ilusões daninhas
e restaura a paz
                  



PÃO E MEL

a poesia está no simples
e no mistério transfigurado

lembro da emoção que me envolveu
ao ler o relato antigo do encontro
de dois povos:


o viajante extenuado que chegava à terra
após a longa viagem oceânica
e o nativo que lhe oferecia
pão e mel



            ELEGIA

                                               A Carlos Freire, in memoriam
           
Serão estas árvores frondosas
aquelas pequenas mudas que plantamos
enquanto a céu aberto conversávamos
e a luz invadia os nossos olhos?

Você já não se encontra aqui para afirmá-lo

e a velocidade do tempo é tanta
que não surpreendem a saudade e o cansaço

e esta paragem no passado.