sábado, 15 de fevereiro de 2014

PARA HOMENAGEAR MINHA AMIGA JOVENTINA SIMÕES


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014


A PRAÇA (AINDA) É DO POVO?
Geniberto Paiva Campos
Brasília, fevereiro / 2014
“Antes de compreendermos que as coisas  se encontram em uma determinada situação, elas já mudaram várias vezes.  Assim sempre percebemos os acontecimentos tarde demais, e a política tem sempre a necessidade de prever, por assim dizer, o presente”. *
1)      Vivemos tempos estranhos. A rapidez com que as coisas acontecem não dá chance aos cientistas sociais, aos teóricos, aos livre pensadores e aos palpiteiros em geral  - também chamados consultores, quando aparecem na TV - formularem as   interpretações  coerentes dos fatos.
A inteligência brasileira está diante de novos e instigantes desafios. Mal refeita do susto das manifestações de junho de 2013, ainda carente de análises e em processo de avaliação, surgem  misturados aos manifestantes, aparentemente mal percebidos por estes, grupos mascarados dispostos a destruírem, de forma violenta e irracional, o que consideram símbolos do poder capitalista. São os “black blocks”, em incontida fúria destruidora. O que tornou a interpretação teórico-conceitual dos filósofos de plantão tremendamente difícil, senão impossível.
Como se isso tudo não bastasse, mais recentemente, a TV invadiu os lares brasileiros com outro estranho, inusitado movimento. Chamado “rolêzinho”, constituído por adolescentes da periferia urbana que assumiram o direito de compartilhar o espaço físico, quase sagrado, dos shoppings,  consensualmente aceito como local  restrito, embora público. Espaço legítimo, reservado aos jovens de alto poder aquisitivo. Como ousam? A Justiça, nesse caso, foi acionada e deu pronta resposta: os rolêzinhos devem procurar outras paragens para o seu divertimento e lazer. As justificativas legais soaram um pouco estranhas, talvez cínicas. Mas as ameaças de multas e outras punições, parece, arrefeceram  momentaneamente ânimos dos novos frequentadores desses templos do consumo.
Tais manifestações democráticas, organizadas por meios eletrônicos, não deveriam ser recebidas com júbilo pela sociedade brasileira? Não seriam elas o equivalente tupiniquim dos movimentos de junho de 1968 – embora com algumas décadas de atraso, admita-se -  ocorridos na França e que balançaram as estruturas do poder?
2)      Parece que o pensamento médio   da sociedade brasileira tem dificuldades em assimilar o novo. Sobretudo quando o novo surge em roupagens desconhecidas, usando máscaras, sem uma pauta reivindicatória definida. Parafraseando McLuhan:  o movimento é a mensagem; a mensagem é o movimento...
*Turgot – citado por  Walter Benjamin . Passagens. Ed. UFMG/ 2006 . pag.520
Talvez seja precipitado falar em tolerância excessiva com o fenômeno. Mas há, sem dúvida, uma certa leniência, em mistura com perplexidade, com as manifestações, por parte do estamento do Estado e dos órgãos de comunicação. Ninguém quer atirar a primeira pedra e assumir o papel  de repressor de manifestações livres, naturais em um regime democrático. Lamentavelmente, tombou uma vítima fatal da violência, aparentemente sem nexo e sem objetivos claros e definidos. Como justificar a morte injustificada do repórter fotográfico Santiago, que apenas cumpria a sua tarefa , no conflagrado espaço urbano, de forma estritamente profissional?  Uma das respostas, das que sempre surgem, quase automática, no cenário político administrativo, desde os primórdios do Brasil como Nação, é a retórica ardilosa que coloca a necessidade de leis restritivas, como solução. Que possam enquadrar o crime e seus agentes, cominando penas absurdas, satisfazendo, assim, os “clamores da opinião pública”.
Parece que desta vez o caso requer respostas mais inteligentes e criativas. Como lidar, vá lá o termo – democraticamente – com a presente situação? Como garantir a livre manifestação da cidadania e, ao mesmo tempo, conter  a boçalidade da violência exercida, de forma estúpida, agora contra pessoas?
3)      Este o desafio que está sendo colocado para o país. E, desta vez, não basta, apenas, infantilizar o debate político, colocando as torcidas em pé de guerra, na arquibancada. Pró governo e Anti governo. O problema afeta a todos. É possível, bem provável até, que a Democracia, o Processo Civilizatório  estejam correndo sérios riscos. “Quid Prodest”? A quem interessa a quebra da legalidade e das liberdades democráticas? Com palavra a Nação Brasileira.  

 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sem norte!
(*) Rinaldo Barros
Não estou certo se os responsáveis atuais pelos destinos do patropi - incluindo meus colegas da universidade, como os cientistas políticos - estão se dando conta completamente das implicações e das consequências do retorno da violência na vida pública brasileira.
Só não está vendo quem não quer que o clima de mal-estar com o funcionamento de algumas instituições democráticas e com a maioria dos órgãos públicos - do PT governo e das unidades federativas - está dando lugar a inúmeras iniciativas de ação direta que, antes de se apoiar no diálogo, na negociação e nas instituições de representação, adotam a violência como forma de protesto e de expressão válida.
A morte de um jornalista, agressões a dezenas de outros profissionais da imprensa, depredações do patrimônio público e privado, ônibus queimados, abusos das polícias despreparadas, crimes das milícias e pânico da população - tudo está dando sinais de que, aos poucos, em diferentes esferas da vida social e política, o conflito - legítimo - em sociedades complexas como a nossa está sendo tratado como se a única solução fosse o uso da força, da violência e do desprezo pela lei e pela vida.
Não digam, por favor, que governos (federal e estaduais) estão sabendo o que fazer, nem que os partidos de qualquer orientação estão sendo capazes de tirar a população da sua miséria cotidiana.
A falácia de que surgiu uma nova classe média não suporta uma investigação preliminar sobre sua capacidade de endividamento. São, em verdade, pobres famílias endividadas e enganadas pela oferta de crédito fácil, contribuindo para aumentar a inadimplência na economia verde-amarela.
Rostos cobertos em manifestações, por sua vez, são sinal de reconhecimento de que se quer praticar atos ilegais, anti-humanos, da mesma forma que a prática da corrupção política mostra o desprezo pelas necessidades do povo e por regras de competição eleitoral equânime.
Ambos são crimes contra a Democracia.
Mesmo sem exagerar o diagnóstico, o que está ocorrendo no Brasil contemporâneo assusta.
Não há dúvida que a deterioração social contribui para o crime.
O quadro do desemprego e da informalidade, no Brasil, é muito grave.
Além disso, a qualidade da educação ainda é baixa para a maioria da população e não lhe dá perspectivas de melhorar de vida ou se inserir no mercado de trabalho; a rigidez da legislação trabalhista é alta, a carga tributária e os juros são assustadores. Assusta os pequenos empresários, aqueles que geram a maioria dos empregos.
Tudo isso conspira contra o equilíbrio entre capital e trabalho, e agrava a situação social.
Os criminosos, apesar de terem diferentes origens, têm uma concepção muito semelhante do mundo em que vivemos. No submundo do crime, as pessoas adquirem valores diferentes daqueles hegemônicos em nossa sociedade, acreditam poder invadir a propriedade dos outros, violentarem seus corpos, liquidarem suas vidas, pouco ligando para as perdas e o sofrimento das suas vítimas.  
Durkheim (1858 a 1917) nos ensinou (em seu livro “A Divisão do Trabalho Social”) que mais importante do que a severidade da pena é a sua visibilidade.
Ou seja, a sociedade precisa mostrar aos criminosos potenciais que a vida após o crime é mais dura do que antes da sua prática. É preciso demonstrar que a vida normal, sem punição, é possível apenas para os que permanecem dentro da Lei.
Os criminosos, mascarados ou não, precisam, no curto prazo, ver as instituições de Justiça e Segurança funcionando plenamente, com a aprovação e apoio da sociedade civil organizada.
Sem isso, continuaremos com medo, ao lado da panela de pressão prestes a explodir.
Sem norte!
 
(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com
Foto da capa

TINGA     Não ao Racismo

TINGA Não ao Racismo

O CORAL INESPERADO
MENSAGEM DE VIDA
 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O homem que queria ser preso

Elísio Augusto de Medeiros e Silva

Empresário, escritor e membro da AEILIJ
elisio@mercomix.com.br


Tudo começou com uma discussão besta de mesa de bar – por causa de times de futebol. Por causa dos efeitos da bebida, aos poucos, os ânimos foram se alterando. Bem que os amigos comuns tentaram apaziguar – em vão, eles não chegavam a um acordo.
Quando menos esperavam, Joãozinho deu um soco em Manuel, que, prontamente, reagiu à agressão. A confusão estava formada, e logo os dois engalfinhavam-se no chão do bar. Os amigos tentavam apartar a briga, mas sem sucesso. Para sorte ou azar dos dois antagonistas, uma viatura da polícia ia passando na ocasião, e os levou presos para a delegacia de plantão.
O delegado, diante do flagrante, não via outra providência senão lavrar o auto e os mandar recolher ao xadrez. Que vexame!
Os amigos logo chegaram à delegacia e tentavam, junto ao delegado, evitar a autuação, alegando que os dois eram pessoas de família, honestas, trabalhadoras, etc.
Diante dos argumentos, o delegado aquiesceu – afinal, tinha sido uma coisa boba, sem ferimentos, e até os dois brigões já se mostravam arrependidos da besteira.
Então, os dois foram colocados à frente da autoridade policial, que lhes comunicou da sua intenção de liberá-los.
- Atendendo aos pedidos de seus amigos, e como vocês tem bons antecedentes, vou liberá-los com a condição de que façam as pazes e acabem com essa besteira.
- Obrigado doutor, disse Joãozinho, estendendo a mão ao Manuel.
- Eu também faço as pazes, disse o Manuel. Mas quero continuar preso, complementou.
Todos se olharam estupefatos, inclusive o delegado.
- Você quer ficar preso, seu Manuel?
- Quero sim, seu delegado.
Bem, neste caso, terei que lavrar o auto que, naturalmente, envolve as duas partes.
- Mas eu não quero ficar preso, disse Joãozinho.
- Eu quero, disse Manuel. Devo pagar pelo mau comportamento na prisão.
Diante disso, não houve mais acordo e o auto de prisão foi lavrado pelo escrivão da delegacia.
Tentando resolver a situação, os amigos se prontificaram a pagar a fiança dos dois. Joãozinho ficou alegre, mas Manuel não aceitou, pois queria continuar preso e ficava repetindo: Quero ser transferido para a detenção!
A essa altura até o delegado, o escrivão, e outros policiais duvidavam das faculdades mentais do Manuel. Onde já se viu isso?! Nunca tinha ocorrido nada parecido antes na delegacia.
Depois de conversarem entre si, os amigos acharam por bem chamar a esposa de Manuel para tentar convencê-lo e fazê-lo mudar de ideia.
Ela veio. Mas, mesmo com muita argumentação e lágrimas, Manuel não mudou sua opinião. Pelo visto, ele queria mesmo era mofar alguns meses atrás das grades.
Aquela tarde foi agitada na delegacia, com amigos, parentes, todos tentando convencer Manuel a aceitar o pagamento da fiança. Até um psicólogo foi chamado pelos familiares.
Somente por volta das onze horas da noite, depois de ouvir conselhos e pedidos de uma porção de parentes e amigos, é que ele consentiu que fosse prestada fiança e liberado.

O difícil mesmo foi se livrar dos repórteres do jornal que aguardavam ansiosos na porta da delegacia. No dia seguinte, os jornais traziam na capa: “Homem se recusa a ser solto”.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014


CAMPO MINADO

 

Valério Mesquita*


 

O processo político sucessório estadual está com o meio de campo embolado. Quem disse que política é circunstância foi contraditado. Os memorialistas e imortais Ticiano Duarte e João Batista Machado já analisaram o atual cenário confrontando as alianças partidárias de noivado e casamento dos idos de mil novecentos e cinquenta com os de hoje. No momento em que a “modernidade” gerencial baixou no terreiro, a desnecessidade do perfil do líder carismático para ser governador e/ou senador, evidenciou o óbito dos manequins de antigamente: carisma, popularidade e densidade eleitoral.

O preenchimento das chapas deve ser casada no civil e na polícia. Província e Planalto tem que dormir no mesmo leito. É a teoria da sustentabilidade, a mesma que alimentou o mensalão.

Qual o líder partidário potiguar que não carrega no colo uma bomba de efeito retardado? O PMDB, se apoiar o PSB para o senado perde o apoio do PT, e para a reeleição da presidência da Câmara Federal. O PSB para o senado se unindo ao PMDB no Rio Grande do Norte não pode aceitar no palanque o senhor Eduardo Campos porque o palco é de Dilma Rousseff. O DEM se apoiar o PMDB para o governo do estado, fica impedido de subir à ribalta porque Dilma manda descer. O PT se conseguir emplacar a disputa para o senado com o apoio do PMDB, não atrairá o concurso do PSB nem do DEM. O PSD, com a estratégia de que “na natureza nada se perde, tudo se transforma”, coloca-se como o partido da esquina mais próxima, tanto para o governo, que já tem inquilino, como para o senado cuja cadeira continua vazia à espera de uma parceria. Podem parecer surrealistas as minhas palavras mas os fatos são verdadeiros e não destoam da matéria.

Às margens esquerda e direita desse mar morto, correm os prós e os contras. Bandeirantes ocasionais, sereias furtivas e estivais, à espera do último milagre. Eles não pisam em campo minado. A leveza não o permite porque o fardo é de plumas e paetês. Quando noventa por cento do legislativo, rompe com o governo, é porque este último é mesmo complexo e confuso.

Contudo, é indispensável dizer que existe uma multidão silenciosa que já não obedece como dantes, a voz dos políticos, por está cansada de tanto ver triunfar as nulidades, a insegurança, a falta de hospitais, a corrupção e a impunidade. De todos as minas que estão no campo sucessório potiguar, a do povo é a de maior teor explosivo. Porque não é vista. Mas existe. Está na hora de um novíssimo testamento.

 

(*) Escritor.
DOIS DEDOS DE PROSA

 
CARTA DO ZÉ COCHILO (da roça) PARA SEU COLEGA LUIZ (da cidade)
 
É interessante e verdadeiro.
 
A carta a seguir - tão somente adaptada por Barbosa Melo -,
foi escrita por Luciano Pizzatto que é engenheiro florestal,
especialista em direito sócio ambiental e empresário,
diretor de Parques Nacionais e Reservas do IBDF-IBAMA 88-89,
detentor do primeiro Prêmio Nacional de Ecologia.

 
Prezado Luis, quanto tempo.
 
Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão e que por isso o sapato sujava. 
 
Se não lembrou ainda, eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra, né Luis? 
Pois é. Estou pensando em mudar para viver aí na cidade que nem vocês. Não que seja ruím o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos aí da cidade. To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente. 
 
Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro de uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança. 
 
Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou, deve ser verdade, né Luís?
Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né ), contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou.
 
Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana, aí não param de fazer leite. Ô, os bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?
  Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que     devia. Nossa! Eu não sei como encompridar uma cama, só comprando outra, né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca. 
 
  Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luís, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelos fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.
 
Depois que o Juca saiu, eu e Marina (lembra dela, né? Casei) tiramos o leite às 5 e meia, aí eu    levo o leite de carroça até a beira da estrada, onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.
 
Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos, as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não vai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luís, aí quando vocês sujam o rio também pagam multa grande, né? 
 
  Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios aí da cidade.
 
Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luís? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora! Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.
 
Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vir fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo, aí eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foram os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.
 
  Tô preocupado, Luís, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, aí tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.
 
  Eu vou morar aí com vocês, Luís. Mas fique tranquilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Aí é bom que vocês é só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem plantar, nem cuidar de galinha, nem porco, nem vaca, é só abrir a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça. 
 
Até mais Luis. 
Ah, desculpe, Luís, não pude mandar a carta com papel reciclado, pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio. 
 
(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.)
___________________________
Recebi por e-mail do meu amigo pernambucano Roberto Paiva e achei interessante. Realmente existe uma "burocracia" no Brasil que impede o seu desenvolvimento. Os projetos passam tempo demasiado para obter licenças, os órgãos encarregados da preservação do patrimônio histórico demoram a dar solução aos casos que olhe são endereçados; as obras estruturantes ficam anos e anos sem implementação (por exemplo as obras do porto, a ponte do baldo, a mobilidade urbana, e etc. mercê de EXIGÊNCIAS INCRÍVEIS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!). MEU DEUS, OLHAI POR NÓS.  

domingo, 9 de fevereiro de 2014

CANÇÕES IMORTALIZADAS
 
 

Ne Me Quitte Pas

Jacques Brel

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
À savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
À coups de pourquoi
Le coeur du bonheure
Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embrasser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quite pas
Ne me quite pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas



 
Bandeira Branca

Dalva de Oliveira

Bandeira Branca, Amor
 Não Posso Mais

 Pela Saudade

 Que Me Invade

 Eu Peço Paz (Bis)

Saudade Mal De Amor, De
 Amor
 Saudade Dor Que Dói Demais

 Vem Meu Amor

 Bandeira Branca
Eu Peço Paz


                                 

Adeus, Cinco Letras Que Choram

Francisco Alves

 Adeus, adeus, adeus
Cinco letras que choram 

 Num soluço de dor 

 Adeus, adeus, adeus 

 É como o fim de uma estrada 

 Cortando a encruzilhada

Ponto final de um romance de amor

Quem parte tem os olhos rasos d'água
(Ao sentir a grande mágoa)
 Sentindo a grande mágoa
 Por se despedir de alguém
 Quem fica, também fica chorando
(Com o coração penando)
 Com um lenço acenando
 Querendo partir também
 Adeus, adeus, adeus
 Adeus, adeus, adeus



 
Mi Buenos Aires Querido            
Mi Buenos Aires querido,
 cuando yo te vuelva a ver,

 no habrá más penas ni olvido.

El farolito de la calle en que nací
 fue el centinela de mis promesas de amor,

 bajo su inquieta lucecita yo la vi

 a mi pebeta luminosa como un sol.

Hoy que la suerte quiere que te vuelva a ver,
 ciudad porteña de mi único querer,

 oigo la queja de un bandoneón,

 dentro del pecho pide rienda el corazón.

Mi Buenos Aires, tierra florida
 donde mi vida terminaré.

Bajo tu amparo no hay desengaño
 vuelan los años, se olvida el dolor.

En caravana los recuerdos pasan
 como una estela dulce de emoción,

 quiero que sepas que al evocarte

 se van las penas del corazón.

Las ventanitas de mis calles de Arrabal,
 donde sonríe una muchachita en flor;

 quiero de nuevo yo volver a contemplar

 aquellos ojos que acarician al mirar.

En la cortada más maleva una canción,
 dice su ruego de coraje y de pasión;

 una promesa y un suspirar

 borró una lágrima de pena aquel cantar.

Mi Buenos Aires querido....
 cuando yo te vuelva a ver...

 no habrá más penas ni olvido...


 

 
 

sábado, 8 de fevereiro de 2014


UMA TARDE PROUSTIANA COM NALVA NÓBREGA
José Antônio Pereira Rodrigues – Procurador do Estado – Professor e Mestre em Direito

O Professor Nanael Simão Batista, jucurutuense, está em fase de montagem de sua Dissertação de Mestrado em Educação, na UFRN. Em seu trabalho, o autor aborda a trajetória pedagógica da primeira professora diplomada a ensinar na cidade de Jucurutú, região seridoense, nos idos de 1928. Essa Mestra, Olívia Pereira Rodrigues, é a minha mãe, daí o convite para o auxílio na pesquisa. Já colhemos relatos preciosos de alguns ex-alunos, assim como da única remanescente do corpo de magistério do Grupo Escolar Senador Guerra, de Caicó, dos anos 40, a Professora Guiomar Nóbrega. Na seqüência, visitamos Nalva, para investigar o episódio da aquisição do primeiro piano para uma escola pública, na cidade de Caicó. Até então, esse instrumento musical não passava de objeto de desejo das classes pobres, sendo de consumo efetivo, embora em pouco número, apenas das famílias abastadas do lugar. Minha mãe havia estudado música, na Escola Normal de Natal, na década de 20, tendo sido aluna do maestro italiano Professor Giuseppe Babini. Ao retornar ao seridó, já diplomada, e depois de sua passagem pela Escola Rudimentar Mista de Jucurutú, entre 1928 e 1930, já lecionando em Caicó, resolveu, certo dia, incentivar o Maestro Manoel Fernandes de Araújo a fundar uma Escola de Bandolins, para os jovens da cidade, incluindo-se ela mesma no corpo de alunos. A Escola foi instalada no dia 28.10.1930, num domingo, pelas 5,00 hs da tarde, em evento registrado pelo famoso fotógrafo Zé Ezelino.

A Professora Olívia sempre foi aficionada pela arte musical. Não prosseguiu nos estudos instrumentais, é verdade, mas, na sua atividade de magistério, transformou o seu amor àquela arte num fator de valorização do seu mister pedagógico. Platão tinha razão ao afirmar que a música é “o instrumento educacional mais potente que qualquer outro”. O sonho daquela Mestra era aplicar a música como ferramenta pedagógica para a interpretação e a produção textual, no ensino fundamental; a música, para ela, podia ser um instrumento motivador e facilitador no processo de apropriação da leitura e da escrita. Daí que, não se dando por satisfeita com os bandolins, resolveu tornar o piano possível e acessível aos alunos pobres do seu querido Grupo Escolar. Junto com sua colega Guiomar Nóbrega, promoveram uma campanha para constituir fundos, através de festas populares, apresentações de teatro e canto, arrecadações no comércio.

Alcançada a meta, era chegada a hora da inauguração. A nossa anfitriã de hoje, Nalva Nóbrega, então a mais destacada pianista da sociedade caicoense, tinha que ser a concertista especialmente convidada para abrilhantar tão marcante acontecimento.  Filha de Zé Nóbrega e Altamira, uma família ilustre, que expandia música aos quatro ventos, dos terraços do seu palacete encantado, no Morro da Graça, com violões em cantata e pianos em serenata. Tudo ficou registrado em Ata daquele Grupo Escolar, de 19.11.1946. As músicas tocadas foram Danúbio Azul e La Cumparsita. Tempo em que o ensino em Caicó era permeado pela sonoridade do piano clássico e do canto dos hinos patrióticos, no hasteamento da bandeira antes das aulas, nas festas cívicas, nos discursos da Professora Júlia Medeiros, nos espetáculos cheios de simbologia e emotividade.

E isto tem a ver com a presença de minha mãe no contexto histórico da educação seridoense. Daí, a importância do nosso encontro no apartamento de Nalva Nóbrega. Foi uma tarde inesquecível. Parecia estarmos em Caicó, mas foi em Petrópolis, sentindo o cheiro de sargaço com maresia, de onde se vê, ao mesmo tempo, a lua nascendo por trás do mar, e o sol se pondo para as bandas do seridó infinito. Presentes ainda sua irmã Maria do Sagrado Coração, minha prima por afinidade, outra pianista exímia e de encantadora voz de soprano, e mais sua netinha americana, de 16 anos, Juliana Iluminata Wilczynski, já poliglota e componente do Coral Girl do Estado de São Francisco da Califórnia, solando Moon River, como gente grande.

Foi uma tarde verdadeiramente proustiana. Com uma diferença: no romance famoso, as madeillenes foram a passagem para o autor remontar ao tempo oculto na memória. Na casa de Nalva o processo se inverteu. O tempo veio antes, as madeillenes, depois. Primeiro, os assuntos, a reconstituição dos fatos, Caicó presente na memória viva de uma das suas mais expressivas damas – diria melhor, uma mademoiselle, na postura sempre jovial, nas maneiras finas, resplandecendo ainda mais, em cores e brilho, ao som do seu piano de calda, no fausto, no acolhimento, no requinte do ambiente, aquele ar de classicismo próprio dos lares europeus, retratados nos romances da belle èpoque - "Antigamente as moças chamavam-se mademoiselles, eram todas mimosas e muito prendadas” (Carlos Drumond).   É o que Nalva nos transmite, na expressão do olhar e na doçura da palavra: uma madame que encanta, na figura da mademoiselle de sempre.

No ar, pairava um misto de cosmopolitismo com o mais arraigado sentimento de pátria caicoense. Pois Nalva é da sua cidade e, ao mesmo tempo, do mundo. Caicó é a sua Cosmópolis, sua cidade universal. A narração de sua história de vida foi uma viagem no tempo. Na sua busca, Marcel usava o taxi de Odilon, marido de Celeste - como lembra Paulo Mendes Campos -, à cata de informações. O nosso chauffeur, a nos guiar no caminho da volta, só podia ser o de todas as eternidades – Seu Manoel da Sôpa

Foi assim o nosso caminho de volta a Swamm, nas estradas poeirentas do tempo, na viagem dos deslumbres e dos encantamentos. E foi vindo o seu momento de produção literária, uma poética que sugere influências ora do romantismo, ora das abstrações metafísicas de Fernando Pessoa. Pelo menos em Balada do sentimento vago” – (...) “algo que não foi dito/ tédio por fim sentido/ uma mágoa deplorada/ sem lhe saber o por que”, em que se sente a presença do poeta português, num misto de racionalidade pura e enleios do coração.

Num passe de magia, Nalva transforma em prodigiosas maravilhas o som do seu piano e, por que não dizer, das suas palavras, que “têm canto e plumagem”, para usar a expressão de Guimarães Rosa, em “São Marcos”. Ela nos contou tudo, tocou e nos encantou. Ao final, elegantemente, pôs-se em pé, a mão delgada pousando sobre o teclado, fez-se reticência. Não desceu o pano, não fechou o piano, mas rogou retornos e postergou despedidas. Como nos velhos e bons tempos de uma Caicó que ainda pulsa em nossos corações, encerrou a tarde-noite com os acordes de “Salão Grená”. A voz de Carlos Galhardo parecia ressurgir, do fundo das nossas almas, como um murmúrio da história. Era como se fosse a ação de uma força telúrica nos atraindo irresistivelmente à terra-mãe: “Sei que voltarás, pois hás de lembrar que foste feliz...”

Formatura das complementaristas

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014




O PRESIDENTE DA UBE/RN TEM A SATISFAÇÃO DE CONVIDAR, PARA OS AUTÓGRAFOS DE DIULINDA GARCIA, CHEGANDO EM MARÇO COM NOVO LIVRO.
DIULINDA RESPIRA POESIA. ESSA É A SUA MANEIRA DE SENTIR A VIDA E VIVÊ-LA COM INTENSIDADE. É PARA A POESIA QUE ELA TRANSFERE OS FRAGMENTOS DO SEU EXISTIR.

O CONVITE É EXTENSIVO AOS FAMILIARES, ESCRITORES, AMIGOS, CONFREIRAS E CONFRADES DAS INSTITUIÇÕES ÀS QUAIS PERTENCE (UBE/RN, AJEB/RN, SPVA/RN. IHG/RN, INRG, ENTRE OUTRAS).

SERVIÇO:

LIVRO: RASCUNHO
DATA: 12-03-214
HORA: 19:HS
LOCAL:BUFFET RENATA MOTTA
RUA MONSENHOR HONÓRIO, 218, TIROL

AGRADECE

ROBERTO LIMA DE SOUZA
PRESIDENTE DA UBE/RN
Foto de Lucia Helena Pereira.
Foto de Lucia Helena Pereira.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014


MENSAGEM DO ARQUITETO MOACYR GOMES DA COSTA AOS DIPLOMANDOS DO CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNP.

EXMA. SNRA. PROFESSORA SÂMELA SORAYA GOMES DE OLIVEIRA, MAGNIFICA REITORA DA UNP, RESPEITÁVEIS MESTRES QUE DOARAM SEU SABER A ESTES JOVENS DIPLOMANDOS, AOS PAIS, INCANSÁVEIS COMBATENTES NESTA VITÓRIA, AOS  FUNCIONÁRIOS, INDISPENSAVEL SUPORTE NA VIDA UNIVERSITÁRIA, CAROS NOVOS COLEGAS ARQUITETOS E URBANISTAS, MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES:

“A ARQUITETURA É UMA MÚSICA DE PEDRAS E A MÚSICA É UMA ARQUITETURA DE SONS” dizia Beethoven há dois séculos passados. O Governador potiguar Cortez Pereira   considerava um “POEMA DE CONCRETO” a Arquitetura  de um  estádio, que inaugurava há 42 anos atrás. O famoso cronista esportivo João Saldanha dizia que o mesmo seria uma “obra prima” quando concluído. Esses pensamentos revelam a importância do ARQUITETO na própria história das artes e da evolução humana. Sendo uma das primeiras  atividades do homem em sua trajetória histórica, nos  deixa o acervo material que  permite o estudo de todo o processo evolutivo da humanidade através do tempo.     
 Assim, a Arquitetura como ARTE, conduz o Arquiteto, aliando a beleza à função, entregando-se com paixão, criatividade e emoção à difícil tarefa de buscar a qualidade de vida do ser humano, cabendo ao Urbanista propor politicas e ações em prol do bem estar de todos os cidadãos, tentando diminuir as desigualdades sociais, procurando a FELICIDADE de todos, na cidade de todos. Isto pode parecer utopia, mas é uma tarefa nobre e prazerosa, que conduz a uma missão das mais elevadas, por isso mesmo, árdua, difícil, quase sacerdotal.
Neste instante em que estes novos profissionais entram no mundo da arquitetura e do urbanismo, quero exaltar sua escolha para o tradicional nome de turma, adotando o título de ”POEMA DE CONCRETO”, em indiscutível referência àquele estádio que encantou Cortez, uma obra arquitetônica consagrada que tinha ultimamente o nome popular de “MACHADÃO”, que levou mais de meio século para ser realizada, superando os percalços de uma verdadeira Odisseia, incorporou-se à vida da cidade por 40 anos, tornou-se um marco arquitetônico do seu patrimônio público, por definição, intocável,  e que, lamentavelmente teve fim infausto, criminosamente destruído, por motivos escusos, cujo mérito não cabe comentar, neste recinto  de alegria e comemoração.
Esta turma, quando inspirou-se na  emoção de Cortez para escolha de seu próprio cognome, não só atestou a qualidade arquitetônica do patrimônio em comento, como quis prestar uma justa homenagem ao grande espírito daquele notável homem, que orgulha  o Rio Grande do Norte.
E, porque não dizer, sem falsa modéstia, que, ao me honrarem com o título de Patrono, nesta solenidade, me brindam e recompensam pela mutilação que todos sofremos.
 Discorrer sobre a perda de algo que custou 50 anos de vida, é profundamente penoso, mas encontra consolo na atitude madura e justa destes colegas ao resgatarem a memória de um patrimônio arquitetônico que nos orgulhava.
“POEMA DE CONCRETO” foi a imagem primorosa construída pelo arrebatamento de entusiasmo do grande Governador José Cortez Pereira de Araújo, conhecido por sua cultura, sensibilidade e notável senso de otimismo, no momento em que inaugurava o novo equipamento, logo consagrado por toda cidade, mas infelizmente destruído, no momento em que o Brasil abdicou de sua soberania em troca de um ilusório “legado” de benesses, ditas salvadoras da pátria, podendo resultar em canto das sereias.  Nada deste patrimônio restou, senão lembranças e fotos.
Nada do que se disser agora, recuperará o patrimônio perversamente perdido para sempre, mas será justo rememorar sua história, até como reconhecimento a todos os abnegados que o realizaram acima de qualquer interesse, e também para exaltar a maturidade e senso de cidadania do gesto desse grupo que, nos festejos de sua primeira vitória, se preocupa em  resgatar a memória do poema destruído, até como repúdio aos  que cometeram essa iniquidade.
Inegavelmente aquela obra de arquitetura era uma das referências da cidade, um dos seus pontos de atração e lazer, incorporou-se aos usos e costumes, trouxe a família e a elegância feminina para o estádio, virou cartão postal, e passou a exibir os maiores jogadores do Brasil e do mundo tais como Pelé, Eusébio, Zico,  Sócrates,  Falcão, Marinho Chagas, e a nível local Scala, Ivan, Alberi, Danilo Menezes, e muitos outros; teve eventos com mais de 50 mil espectadores;  entrou no coração do povo como um dos seus patrimônios mais queridos; teve seus dias de glória, e depois, de abandono e ocaso, até sua extinção programada.
A história começou em 1949, nas vésperas da Copa de 1950, quando conheci o  Professor Pedro Paulo Bernardes Bastos, um dos arquitetos do Maracanã a quem informei meu desejo de especializar-me em arquitetura esportiva.
 Voltamos a nos encontrar em 1954, quando eu concluía meu curso, e ele, como orientador dos nossos trabalhos de encerramento, sabedor de meu desejo vocacional me indicou o tema de um complexo olímpico, como primeiro desafio às minhas pretensões. Apresentei então o estudo preliminar do que chamei de Complexo Olímpico de Lagoa Nova, constituído por Estádio Olímpico, Estádios de Natação, de Tênis, Ginásio poliesportivo, Alojamentos, etc., projeto que veio posteriormente a ser mutilado, por interesses políticos, (velha saga que persegue o Arquiteto) sendo construído apenas o estádio e precariamente o ginásio,  improvisado em local que mal  lhe cabia,  vez que o terreno para ele previsto,  já havia sido invadido.
Assim, aquela simples rotina universitária, de conclusão de curso, transformou-se para mim, num sonho ambicioso, pois o Professor Pedro Paulo aprovou com louvor meu trabalho, incentivando-me a assumir o compromisso de torná-lo o primeiro objetivo de minha carreira profissional que ali se iniciava.                                           
De meados de 1955 até 1959 residi em Natal, a convite do  Governador Dinarte Mariz, prestando serviços profissionais ao Estado, e nesse período firmamos sólida amizade pessoal que perduraria para sempre, e muito ajudou na consecução de nosso desiderato. Juntei-me aos velhos desportistas de minha adolescência, fazendo parte de uma renitente comissão de luta pelo esporte, já naquele momento sonhando com um novo estádio, pois o velho Juvenal Lamartine já dava mostras de sua decadência.      
  Em 1959 o governador prometeu a doação de um terreno vizinho ao atual Centro Administrativo do Estado, local conhecido na época como “corrente”, condicionando à um documento que lhe desse respaldo político. Fui ao Rio de Janeiro e trouxe o documento assinado pela autoridade de Saturnino de Brito. Nessa empreitada contei com o acompanhamento do Jornalista Aluizio Menezes, que dava cobertura ao empreendimento.
O donatário era a Federação Norte-rio-grandense de Desportos, que, mediante convenio, repassou para a Prefeitura de Natal sob a batuta do grande desportista  Djalma Maranhão que imitiu-se na posse do terreno,  fez a cerca e a terraplanagem, e, quando ia iniciar a construção, teve que se exilar no Uruguai, onde morreu de saudade de sua querida Natal, como se sabe, em consequência das injunções políticas do regime então vigente, tornando-se a primeira vitima das inúmeras dificuldades que iriam perseguir aquele empreendimento, como uma bruxa do mal.
A obra parou, até que entre 1966/67, o Prefeito Agnelo Alves, fundou a FENAT- Fundação de Esportes de Natal, que, sob o comando de Ernani Silveira recomeçou a obra em ritmo acelerado.                                                                                                                                                    Já em 1967, o “Agnelão”, andava bem, até que em 1969, o regime político fazia de Agnelo a segunda vitima da batalha, tendo seu mandato interrompido, mas deixando a obra com o mínimo de 40% executada, tornando-a praticamente irreversível, porém,  sem destino certo.
Em 1971 assumia o governo, Cortez Pereira, fazendo seu Prefeito o Engenheiro e Arquiteto Ubiratan Galvão, reconhecidamente bom administrador, que logo percebeu a necessidade de dar continuação ao empreendimento,  já  sob o cognome de Castelão, em homenagem ao Presidente Castelo Branco.  Eis que, mais uma vez a bruxa se soltou, e uma crise política tirou o terceiro prefeito do projeto, até que Jorge Ivan Cascudo Rodrigues, substituto do Prefeito Ubiratan, com apoio de Cortez Pereira, decidiu continuar a obra.
Foi aí que a bruxa nos deu uma trégua. Viajei ao Rio de Janeiro em agosto de 1971 com uma carta de apresentação de João Machado para seu amigo João Havelange, Presidente da CBD, hoje CBF, o qual, apesar de nos desiludir de qualquer ajuda financeira, me autorizou a dizer aos nossos governantes que se garantissem entregar o equipamento pronto em 11 de junho de 1972, Natal seria chave do torneio do Sesquicentenário da Independência, uma espécie de mini-copa do mundo,  garantindo ainda mais, que mandaria a seleção portuguesa, bem classificada no ranking, com a presença do grande craque moçambicano Eusébio, “Bota de Ouro” da Copa de 1966,  considerado o Pelé português.
Tudo deu certo, e Natal teve alguns dias de festa e visibilidade no mundo do esporte, desfilando aqui as seleções do Chile, Equador, Irlanda do Norte e Portugal, tendo terminado o torneio no Maracanã com o Brasil Campeão, e Portugal Vice.
Pode-se dizer que o Machadão ofereceu 40 anos de alegria honesta e barata ao povo de Natal, cujos abnegados realizadores são agora reconhecidos e nominados, embora me pese o risco de cometer omissões involuntárias de memória.
São eles, Silvio Pedrosa, Ernani Silveira, Luis G. M. Bezerra, João Machado, Humberto Nesi, Dinarte Mariz (doador do terreno), Djalma Maranhão, que começou a obra, Agnelo Alves, que a deixou irreversível, Ubiratan Galvão, e, Jorge Ivan Cascudo Rodrigues, que concluiu a obra em parceria com Cortez Pereira, que a inaugurou. Destaque-se os Calculistas Helio Varela de Albuquerque, e José Pereira da Silva, que criaram um partido estrutural “poético”, legítimo exemplo de engenharia estrutural de alta qualidade a nível  de 1º Mundo, tudo executado na, ”munheca” pois não tínhamos qualquer equipamento mecânico requerido para esse tipo de obra, o Topógrafo era João Alves Santana, os Engenheiros Mário Sergio de Viveiros e  Luis Fernando Melo e a inesquecível dedicação dos Engenheiros Antônio de Menezes Lira e Luciano Barros,   que  colocaram a obra acima dos seus interesses empresariais.
Registre-se os Auxiliares Administrativos José Alexandre de Amorim Garcia, Rossine Azevedo e Moisés Dieb, os Desenhistas Rubens Ferreira Campos e Wilder Barbosa, que fizeram o milagre de desenhar um projeto de alta complexidade geométrica, a mão livre, com bico de pena, em escala 1:200 (não existia ainda o autocad), desenhando sobre portas de compensado improvisadas de pranchetas de desenho, com a areia das dunas e nuvens de pulgas entrando pelos cobogós.    
Os engenheiros e arquitetos de Natal perderam a oportunidade de eternizar este momento histórico, ficando indiferentes à estúpida e desnecessária demolição do patrimônio, cumprindo a lamentável vocação  de desprezo ao que é nosso.
Isto é memória, e, povo sem memória não tem história, e, Infelizmente o Rio Grande do Norte tem se revelado campeão da “desconstrução“ e do “desperdício” em detrimento de seus valores, daí a relevância do gesto nobre desta turma chamada “POEMA DE CONCRETO”.  
Por último, caros colegas, a título de exortação, diria que sua missão mais difícil é a de Urbanista.  O Brasil tem hoje cerca de 106.000 urbanistas, praticamente sem maior utilidade, por ignorância dos governantes que não entendem a importância do planejamento urbano como a ferramenta maior para a qualidade de vida de uma comunidade. A grande maioria das cidades brasileiras está beirando o caos, com algumas notáveis exceções, como Curitiba, que além de soluções eficientes na mobilidade urbana, apresenta um índice de 64,50 m2 de área verde por habitante e 94% de índice de coleta de esgoto.
Pelas estatísticas, em 10 anos Natal poderá ter o dobro da frota de veículos particulares, e uma população metropolitana perto de 1,5 milhões. Quantas copas a FIFA faria aqui, para suportar o “legado” necessário para atender a tão fantástica demanda?

Por fim, espero que vocês venham a produzir outros poemas arquitetônicos, sejam de concreto, alvenaria, madeira, fibras ou até de aço, belos projetos de ambientação e paisagismo, mas o que realmente desejo é que procurem dedicar parte de seu esforço ao planejamento urbano, considerando que é tão agradável  contemplar-se um poema de concreto, ou deleitar-se com a música de Beethoven, quanto ouvir-se a sinfonia de sons de crianças felizes brincando no Recreio de uma escola ou num parque público. Isso só é possível, numa cidade bem planejada. Esta é, no meu entender a missão maior do urbanista. Estarei torcendo por Natal e por vocês.  Muito obrigado pela honra e pela alegria que me propiciaram.
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MANIFESTAÇÕES:

 

Estimada escritora e poetisa Lúcia Helena, como é do domínio público, o arquiteto e professor Moacir Gomes da Costa, nosso velho e tradicional amigo, foi alvo de justíssima homenagem prestada, recentemente, pela Turma  de Arquitetura e  Urbanismo da UNP-2013.2, denominando-a de POEMA DE CONCRETO, expressão chantada pelo governador-poeta, Prof. Cortez Pereira, deslumbrado que ficou com as linhas arquitetônicas traçadas pelo velho "MOÁ" ao inaugurar o Estádio denominado “Castelão”, inicialmente, depois, intitulado de João Cláudio Machado, “Machadão.”  Moacir travou duas  grandes batalhas em sua vida: a primeira, para conceber o  belíssimo projeto e o consequente embate para soergue-lo;  a segunda,  a luta titânica para que não fosse destruído pelos homens e por suas avassaladoras máquinas de ferro e aço.  Debalde o combate. Os poderosos  venceram! O Poema de Concreto tombou inerte no solo natalense, embora permaneça intacto no coração do   povo  e de seus amigos.  Não  poderia vingar nos políticos, porque, parece, os políticos não o tem.  É verdade Lúcia Helena.  Os políticos ao invés de conduzirem no corpo um coração, portam, sim, um órgão frio e calculista chamado de " interesse pessoal " ou mais modernamente, "interesse coligado". Mas, deixemos os políticos e as suas mesmices, pois, o importante é pensar como o fez a Turma de Arquitetura da UNP-2013.2: arquitetou uma linda placa com a  expressão: Turma Poema de Concreto. Com esse sentimento de aprovação, prestou várias homenagens, todas muito dignas: ao arquiteto potiguar Moacir Gomes da Costa, o glorioso gladiador que não conseguiu estancar a fúria dos governantes demolidores, porém, se consagrou no coração dos natalenses,  dos seus alunos e dos inúmeros amigos e admiradores que conquistou ao longo do tempo. Portanto, LH do meu coração, a festa promovia pelos graduados da UNP foi muito mais retumbante do que aquela pálida e desnecessária inauguração  da Arena das Dunas, onde o pulsar dos corações deixou muito a desejar. Abraços, Odúlio Botelho.

Gracia Maria De Miranda Gondin Meu querido tio Moacyr, aqui do Rio de Janeiro, onde olho e vejo tantas obras também desprezadas, e se ainda não demolidas, profundamente esquecidas e depredadas como por exemplo o Pedregulho de Afonso Eduardo Ridi. Concluo que o belo da arquitetura não apenas a obra, mas sobretudo o belo que fica na memória, o que enleva o coração e a mente e fica para sempre... Eu como arquiteta e sobrinha, inspirada desde os 4 anos em seus desenhos magníficos a mão livre, sei desse seu sonho, sei de sua coragem quando dessa obra, sei do seu sofrimento com saga assassina do desconhecimento político, estético e ético que ronda nos ultimo anos nossa cidade... o monstro branco, hoje dito estádio, meio sem jeito, o qual vejo da janela do apartamento de minha mãe sua irmã, parece querer imitar de longe alguma coisa do castelão, grotescamente me espantou pela pobreza do desenho e pela cafonice da forma... Confesso, me deu saudades da leveza das curvas e da elegância do porte do castelão, aquele que você desenhou e fez dele um poema. Parabéns meu tio querido, Um beijo carinhos e lhe dizer do orgulho que tenho de você. Gracia Gondim