quarta-feira, 15 de janeiro de 2014


Moacy Cirne: um nome essencialíssimo ao Brasil

(Lívio Oliveira)
   
O meu querido amigo Moacy Cirne, escritor e poeta de elevado renome, que não se situava somente nos limites do nosso Rio Grande do Norte, concluiu sua obra terrena na tarde quente do verão natalense desse último sábado que passou. Acompanhava notícias sobre o seu complexo quadro de saúde já havia um bom tempo. Mas, mesmo assim, fui tomado por um certo impacto, um choque, ao ler a notícia numa das redes ditas sociais. Havia ali uma foto de Moacy e alguns vagos dizeres sobre a sua passagem para um outro plano. Logo após, surgiu em mim uma tristeza calma e reflexiva que compartilhei com a minha esposa.
Intelectual múltiplo, Moacy detinha um olhar circular e atento que poucos possuíam neste país. Não é à toa que o mestre Tarcísio Gurgel costuma dizer que Moacy Cirne era o intelectual mais completo de sua geração. Além de toda a obra que deixou em livros e que também firmou na criação e liderança do histórico e emblemático movimento do Poema-Processo, lecionou com afinco e amor em universidade carioca, foi um dos maiores amantes e estudiosos do cinema e dos quadrinhos e exerceu outras muitas tarefas de cultivo do intelecto no seu envolvimento visceral e apaixonado pelo mundo das realizações artísticas e culturais. Firmou, ainda, dignas posições político-ideológicas avançadas e preocupações sociais que manteve até o final dos seus dias.
Moacy também era um grande fazedor de amizades, sabendo alimentá-las com atenção e generosidade, doando a cada um dos seus próximos um pequeno quinhão de sua sabedoria calma, serena. Seu sorriso suave e doce cativava fortemente quem dispunha das saborosas oportunidades de uma conversa mansa, tranquila, ou mesmo com a paixão e os argumentos sólidos e cortantes e até irreverentes por ele levantados. Um aspecto lhe era intrínseco e se fazia indissociável da figura do grande amigo que partiu: Moacy era um sábio, era um sábio, era um sábio! (lembro que ele gostava de brincar com os famosos versos de Gertrude Stein: “uma rosa é uma rosa é uma rosa”). Bastava ouvi-lo e olhar para ele e perceber isso estampado nos seus olhos perspicazes e nas suas barbas brancas que lembravam as de um profeta bíblico. Por sinal, a Bíblia foi um forte objeto de estudos de Moacy nos últimos anos – salientando-se que era ateu (ou agnóstico), reconhecidamente. O livro póstumo terá, certamente, o nome que Moacy já havia escolhido, segundo me afirmou um dia: “A Bíblia: travessia, travessias”, numa alusão direta a Guimarães Rosa.
Os momentos de desfrute intelectual e da amizade com Moacy foram muitos para mim: Encontros fortuitos por Natal, participação mútua em lançamentos de livros, algumas visitas que lhe fiz em casa (nunca encontrei Moacy no Rio, infelizmente. Seria ótimo ver um Fla-Flu no Maracanã e sentir a vibração de Moacy pelo seu Fluminense, mesmo que eu seja sempre Flamengo), um texto introdutório que ele fez para um dos meus livros, uma entrevista que me concedeu em 2008, debates culturais diversos (inclusive através do seu blog “Balaio Porreta, que manteve por muitos anos), dentre outras boas situações que tive de encontrar Moacy e sua inteligência viva e dinâmica.

Ao grande Moa dedico a minha pequena homenagem e agradecimento. Moacy Cirne se fez e se faz essencial à cultura potiguar e brasileira e a todos os seus amigos saudosos. Todos, certamente, dedicarão parte de suas memórias a Moacy, estando em processo de amadurecimento, inclusive, a ideia de um livro coletivo de depoimentos acerca de suas vida e obra, o que é algo que lhe é devido, mas simples diante de tudo que fez por estas bandas de cá. Moacy Cirne é, sim, um nome que se inscreve como essencialíssimo ao Seridó, ao Rio Grande do Norte e ao Brasil. Sempre será lembrado e deverá ser homenageado fortemente (autoridades potiguares que nos ouçam e, se possível, leiam), por seus grandes méritos e valores. Não custa repetir: Moacy vive e nos orgulha a todos!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

CARTAS DE COTOVELO 2014 (7)
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

A vida moderna tem oferecido novas opções para a guarda da memória visual dos momentos mais relevantes da convivência humana.
Como diz o ditado: ‘Cada doido com sua mania’, desde criança, creio que no Natal de 1954, ganhei de presente a minha primeira câmera fotográfica (t. 620 – Agfa), com uma capa de couro, adquirida no tradicional Real Foto, de Waldemir Germano, infelizmente fechado em 2013, deixando uma saudosa memória. Essa máquina hoje faz parte da coleção do meu amigo, médico Paulo Ezequiel.
Progredi, com o passar do tempo, para outras câmeras mais modernas e a cerca de uns 40 anos, mais ou menos, ingressei, também, no campo das filmagens, em uma “super 8”, sucessivamente substituída por outras, passando por uma que gravava direto em DVD e agora para uma digital, ao mesmo tempo projetora de imagem.
Colhi, ao longo de todos esses anos registros memoráveis, os quais venho utilizando em meus trabalhos e, igualmente, perdi algumas películas mal acondicionadas e filmagens importantes, estas por defeitos na filmadora ao não conseguir concluir a gravação, das quais anotei as comemorações natalinas de 2012, aniversários de alguns netos, reuniões familiares, a festa dos 100 anos do meu tio Francisco Gomes da Costa, último ainda vivo e recepção a amigos.
Custei muito a admitir tanta perda, mas segui adiante com uma nova máquina, de última geração, na qual fiz novos e importantes registros familiares, sem a cautela de coloca-las em um computador ou hd externo.
Ao fazer a mudança para o veraneio de Cotovelo dei por falta dessa máquina – desespero novamente. Cheguei a admitir que eu chegara à idade provecta e já estava a precisar de vigilância da esposa e dos filhos, aos quais formalizei o pedido.
Passei o Natal de 2013 e a entrada de Ano Novo sem a filmagem tradicional, repetindo o ano passado, embora tendo feito as fotografias necessárias. Acomodei-me a contragosto!
Esta semana, após incontáveis buscas em Natal e em Cotovelo, sem sucesso, ouvi uma gargalhada de Thereza: achei, achei. O coração quase parou e lá estava a minha câmera filmadora entre as roupas penduradas que ela colocou em um claviculário.
Após agradecer a Deus pelo achado, dei-me à meditação e cheguei à conclusão que a decrepitude não foi minha, ainda! Mas aprendi a lição. As máquinas se vão, mas a memória fica ‘ad eternum’ desde que você não esqueça de acondicioná-las adequadamente.




terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Muito interessante...
Armando Negreiros, médico (armandoanegreiros@hotmail.com)

                Recebi há algum tempo pela internet as afirmações abaixo. Não sei quem foi o pesquisador nem conferi a veracidade de todas as afirmações. Mas que são interessantes são...
O vidro demora um milhão de anos para se decompor, o que significa que nunca se desgasta e pode ser reciclado um número infinito de vezes!
O ouro é o único metal que não enferruja, mesmo estando enterrado no solo por milhares de anos.
A língua é o único músculo do corpo que está ligado apenas a uma extremidade.
Se você parar de ficar com sede, você precisa beber mais água. Quando o corpo humano está desidratado, o mecanismo de sede é desligado.
A cada ano, dois milhões de fumantes param de fumar ou morrem de doenças relacionadas com o tabaco.
Zero é o único número que não pode ser representado por algarismos romanos.
Pipas foram utilizadas na Guerra Civil Americana para entregar cartas e jornais.
A canção, Auld Lang Syne, é cantada a meia-noite, em quase todos os países de língua Inglesa para celebrar o novo ano. No Brasil, Portugal, França, Espanha, Grécia, Polônia e Alemanha é uma canção de despedida. (Adeus amor eu vou partir…)
Beber água depois de comer reduz 61 por cento do ácido na boca.
O óleo de amendoim é usado para cozinhar em submarinos, porque não solta fumaça a menos que seja aquecido acima de 450ºF ou 232ºC.
O barulho que ouvimos quando colocamos uma concha junto ao nosso ouvido não é o oceano, mas sim o som do sangue correndo nas veias da orelha.
Nove em cada 10 seres vivos vivem no oceano.
A banana não pode reproduzir por si só. Ela só pode ser reproduzida pela mão do homem.
Aeroportos em altitudes mais elevadas requerem uma pista mais longa, devido à menor densidade do ar.
A Universidade do Alaska abrange quatro fusos horários.
O dente é a única parte do corpo humano que não pode se curar ou regenerar.
Na Grécia antiga, jogar uma maçã a uma mulher era uma proposta de casamento. Pegá-la significava aceitação.
Warner Communications pagou 28.000 mil dólares para os direitos autorais da canção Parabéns pra Você.
As pessoas inteligentes têm mais zinco e cobre em seu cabelo.
A cauda de um cometa aponta sempre para longe do sol.
A vacina contra a gripe suína em 1976 causou mais mortes e doenças do que a doença pretendia evitar.
A cafeína aumenta o poder da aspirina e outros analgésicos, é por isso que é encontrada em alguns medicamentos.
A saudação militar é um gesto que evoluiu desde os tempos medievais, quando os cavaleiros de armadura levantavam suas máscaras para revelar sua identidade.
Se você estiver no fundo de um poço ou embaixo de uma chaminé alta e olhar para cima, você verá as estrelas, mesmo estando no meio do dia.
Quando uma pessoa morre, a audição é o último sentido a desaparecer. O primeiro sentido perdido é a visão.
Nos tempos antigos estranhos apertavam as mãos para mostrar que estavam desarmados.
Morangos são os únicos frutos cujas sementes crescem na parte exterior.
Abacates têm calorias mais altas do que qualquer outra fruta: 167 calorias para cada cem gramas.
A Lua se afasta da Terra cerca de dois centímetros por ano.
A Terra fica 100 toneladas mais pesada a cada dia devido à queda de poeira espacial.
Devido à gravidade da Terra é impossível montanhas serem mais altas do que 15 mil metros.
Mickey Mouse é conhecido como "Topolino", na Itália.
Soldados em formação não podem marchar quando atravessam pontes, porque poderiam criar vibração suficiente para derrubar a ponte.
Tudo pesa um por cento menos no equador.
Para cada kg adicional de carga em um voo espacial, 530 kg adicionais de combustível são necessários para decolagem.

A letra J não aparece em qualquer lugar da tabela periódica dos elementos.
A CRIAÇÃO E A DESTRUIÇÃO DOS MODELOS NO
EXISTIR TERRESTRE

Por Flávio Rezende *

         Estes dias conversando com uma pessoa ouvi de sua parte lamentos quanto às altas remunerações pagas aos jogadores de futebol. Depois fez comentários sobre o culto ao corpo e o vazio intelectual reinante entre a grande maioria dos seres.
         Em seguida fiquei refletindo sobre tudo isso e percebi que não podemos culpar pessoas por altos salários e foco demasiado ao corpo. Como muitos de nós ainda vivemos na gestação e na infância espiritual, seguimos um modelo de vida mais fácil, não procurando muita sarna para se coçar, buscando quase inconscientemente a satisfação dos sentidos e o porto seguro da materialidade, ficando felizes quando essas coisas estão ok.
         O que percebemos é que no existir terrestre os modelos vão nascendo, tomando corpo e depois inexoravelmente cedendo vez a outros, estando os humanos vivenciando eles nas transições, nascimentos ou existindo exatamente durante todo o tempo de um modelo em vigor.
         O futebol, por exemplo, começou faz tempo com seres jogando coisas redondas para lá, para cá, depois os ingleses deram uma formatada e, hoje, as regras estão aceitas em todo o globo.
Com o tempo e a coisa certinha já em voga, fomos todos gostando muito do tal futebol, que começou a atrair a atenção do povo que sabe ganhar dinheiro, dos políticos que se aproveitam das massas, começando a tomar forma como diversão, como empresa e como ponte para cargos eletivos.
O modelo foi criando verdadeiros heróis, seres que se sobressaem e com suas habilidades levam países inteiros ao delírio. Inevitavelmente esses poderosos indutores da alegria coletiva são excepcionalmente bem recompensados.
     Essa paga além do imaginado, não leva em conta a cor do sujeito, o berço do camarada, o seu gosto musical ou a sua religião. O vencedor desta loteria é verdadeiramente o que domina a pelota, o que faz dela sua refém e o que encanta as torcidas, com um futebol perfeito e eficaz.
No futebol, com milhões de imagens registrando cada milésimo do tempo do trabalhador em campo, só alcança a glória quem de fato é o melhor neste mister.
Quero dizer então, que não podemos cometer a injustiça de condenar fulano ou sicrano pelo alto salário que ganha. Estamos vivendo um modelo e, se alguém tem algo contra, que comece a falar, criar uma organização, protestar e propor mudanças ou sua extinção.
No existir terrestre já vivenciamos diversos modelos econômicos, políticos, religiosos, comportamentais e muitas pessoas já deram a vida pelo nascimento, sobrevivência ou a extinção de modelos.
Os seres, dentro deles, podem sim ser responsabilizados, criticados ou elogiados, tudo depende do ponto de vista e de como estamos situados nos modelos.
Para uma pessoa forte, saudável, que renuncia a pizzas e sorvetes de chocolate para manter um corpo malhado, a visão de um barrigudo lendo um livro, remete seu pensamento a uma condenação. O barrigudo, vivenciando outro modelo, também julga o fortão de acordo com sua percepção das coisas.
A vida é assim, cheia de modelos e, dentro deles, todos nós, vivenciando nossas picuinhas e caminhando, uns para a compreensão, aceitação e transcendência do atual para o ideal e, outros, estacionados em suas doses de satisfação pessoal, simplesmente vivendo de acordo com suas próprias conveniências e sem interesse nenhum em saber se existe algum modelo mais interessante.
Enquanto a Terra viver no modo expiação, todos os modelos seguirão lentamente suas sinas. Quem sabe um dia, no modo regeneração e, lá na frente, iluminação, os modelos acelerem e possamos ter mais luz em nossas existências.
        

·        * É escritor, jornalista e ativista social em Natal/RN (escritorflaviorezende@gmail.com)

COMBATE ÀS TREVAS - XVI - AUTORIA DE EDUARDO GOSSON.

EDUARDO GOSSON

 Liberalização da maconha? não Obrigo-me 
como cidadão e pai a opinar quando vejo 
o vice-presidente da OAB-RN, 
Dr. Marcos Guerra, descendente 
de uma linhagem de homens 
de bem (família Brito Guerra), defendendo a
legalização da maconha, argumentando 
que a política preconizada pela ONU e posta
em prática pelos EUA não surtiram efeito. 
O senhor sabe muito sobre drogas em livros, 
no conforto da biblioteca; eu, não. Aprendi
na prática porque tive um filho - Fausto - que
partiu aos vinte oito anos, vítima de uma
sociedade que está perdendo a guerra para
as drogas (recentemente aqui bem perto, no
Uruguai, o governo liberou o uso da 
maconha).
Abrem-se as portas para o império do Mal. 
Em nome de uma pretensa liberdade total,
 proclama-se a legalização como forma de 
controle das atividades criminosas. 
Esquecem esses intelectuais que nunca
 leram um Graciliano Ramos: “liberdade total 
não existe: começa-se preso pela sintaxe e
muitas vezes termina-se numa Delegacia
de Ordem Política Social” – DOPS O Bras
não fez ainda o dever de casa: saúde, 
educação e segurança pública. Nada funciona
 neste país. Por que então legalizar a maconha?
 Durante 12 longos anos lutei para recuperá-l
 (ele até tentou!), entretanto a dependência
 era maior. Começou fumando cigarro, 
ncentivado pelo vizinho, depois a maconha,
a cocaína e, por último, o crack. Terminou 
morrendo em 26 de maio, por overdose de 
cocaína. A droga triturou todos os seus ossos, 
aumentando o peso em 50 quilos, conforme
 laudo em sua certidão de óbito. Tive que 
encomendar um caixão especial. Dr Marcos 
Guerra, teve uma época que ele quase 
devastou a minha biblioteca, vendendo nos
sebos obras raras, que valiam em torno de
500 reais por 5,00. Este ano que passou 
(2013) tive o Natal mais melancólico 
da minha vida: no meu presépio faltava um 
menino bom - FAUSTO GOSSON. Por esse
 e outros motivos, repense a sua posição. 
Afinal, o senhor é um intelectual, portanto
 formador de opinião.

 Eduardo Gosson Ex-presidente 
da UBE-RN

Cartas de Cotovelo 2014 (6)
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

            Estou desconfiando que já vivi demais, pois todos os livros de reminiscências que tenho lido nos últimos tempos, me encontro na história ou na paisagem.
            A coincidência mais recente ocorreu com a pequena obra ‘Confraria de Floriano’, que recebi de presente de um dos seus integrantes, o amigo e escritor Ormuz Barbalho Simonetti.
            O livro apresenta registros emocionais e emocionados de alguns dos meninos protagonistas dos acontecimentos marcantes dos anos 60 e 70, numa velha bodega na esquina das Ruas Princesa Isabel e Apodi nº 160, de propriedade de Floriano (Jordão de Andrade), de tradicional família macaibense, onde foi fundada a Confraria de adolescentes, compartilhando com o Mercadinho de Pedro David, no outro lado da rua.
            As narrativas evocam os anos dourados em Natal, um verdadeiro ‘tempo dos pardais no verde dos quintais’, onde o medo se chamou ‘jamais’.
            Não participei dessa Confraria, mas de outra que se reunia na Rua Ceará Mirim, no Baldo, mas a bodega era também eventual pouso de nossa turma quando se dirigia para a diversão nos mesmos lugares rememorados dos cinemas Rex, Rio Grande e Nordeste, com algumas incursões no Poti e certamente nos filmes de faroeste e seriados(Legião do Zorro, O Homem Fioguete, Flaxh Gordon, Tarzan, Rock Lane, Roy Rogers, Gene Autry, Cavaleiro Negro) dos cinemas São Luiz e São Pedro, estes no Alecrim, tendo por transporte o velho ‘bonde’, de saudosa memória. Ainda tenho guardada uma substancial coleção de revistas em quadrinhos daquele tempo, iniciada desde 1948 em Macaíba e adquiri praticamente todas as séries em cópias reproduzidas em DVD,s.
            Lembro-me bem que comprávamos cigarros, que eram acesos em uma lamparina permanente acesa, escondida em um pequeno caixote de madeira, com um orifício na parte superior e lá éramos abastecidos com uma guaraná ou, às vezes, algo mais ‘substancioso’ para nossas folias.
            Recordo dos polis fabricados em casa, dos lanches no ‘Dia e Noite, Espaguetilândia, Caldo de Cana Orós, dos porres de lança perfume, da cuba libre, da vodka com laranjada, do cuscuz da Mata, naqueles taboleiros de metal com duas tampas e da correria dos vendedores para atrair clientes, do verdureiro trazendo os seus produtos nos ombros (caçoás), do pão vendido em cestos por Seu Pedro do pão, no lombo de animais, a velha da carimã, pirulito, cocada, rolete de cana, cavaco chinês(está de volta), dos velhos carnavais das ‘bagunças’ e dos bailes na Assen, Aéro, América e ABC. Não conheci o ‘Coice de Mula’, mas lembro dos ‘Tora da linha’.
            As peladas tinham o mesmo ardor, em quintais diferentes no Barro Vermelho ou na própria rua Ceará Mirim, como igualmente a escolha das nossas musas.
            Porém aquela vida pacífica e alegre era comum, algumas vezes perigosa, nos banhos proibidos do poço do dentão ou dos jogos nas lojas de bilhar da Ribeira, com portas fechadas por conta do juizado de menores.
            É claro que havia alguma variação nas preferências, mas a atmosfera era a mesma. Até as alcunhas ou apelidos se pareciam – Zezé, Cacá, Gordo, Magro, China, Bob, Xuba, Lula, Baiá, Bel, Baíto, os Pelados, Dôta, Beto, Gasolina, Gás óleo, Chico. Tivemos as nossas perdas pranteadas, mas nenhuma em decorrência das torturas de um regime de força. Quando muito tivemos vizinhos que responderam processos nos idos de 1964, como Renê, Juarez, Romeiro.
            Posso até ter notado aquela molecada em suas reuniões, mas lhes dei atenção, pois já estava num patamar de idade, pelo menos, em dez anos à frente, onde as diversões eram mais variadas ‘e o buraco era mais embaixo’.   
            Recordar é viver, diz um velho ditado; recordar é sofrer, as sombras do passado; de sonho que viveu em nossos corações ou de um amor que morreu deixando uma cruel paixão. Crer num sonho de ilusão, ver na imaginação ... Basta, a garganta já está embargada!


Cartas de Cotovelo 2014 (5)
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

            Hoje é Dia dos Santos Reis.
            Nessa mesma data, do ano de 1962, tomei a decisão de assumir um compromisso mais sério com Thereza, cujo namora já acontecia há algum tempo.
            Lembro que pequeio bote de Ferrinho, na praia da Redinha, onde estava veraneando, e vim para Natal por volta das 3 horas da tarde e já próximo do entardecer , na presença de toda a família Rosso e Nelson, enfrentei o velho italiano Rocco Rosso e Dona Rosa e pedi a sua filha em casamento, cuja promessa de matrimônio ficava logo aprazada para o mesmo dia do ano seguinte.
            O enlace não se concretizou, pois a família mudou-se para Belém do Pará, em razão da transferência de Arnaldo Jones Nelson, esposa de Rachele para aquela cidade, em razão de ser funcionário da Panair do Brasil e eu exercer a condição de Chefe da 3ª Zona Eleitoral de Natal, responsável pela organização do pleito eleitoral do ‘plebiscito’ que ocorreu exatamente em 06 de janeiro de 1963, devolvendo ao Brasil o regime presidencialista. Era o Governo de João Goulart (Jango).
            Viajei no ‘Constellation’ da Panair, com uma passagem conseguida de cortesia e o matrimônio foi, enfim, celebrado em 16 de março do mesmo ano na Igreja de Santo Antônio, da Paróquia da Trindade, e o casamento civil na casa da Rua Mundurucus, Praça Batista Campos, do outro lado onde ficava a Igreja na cidade de Belém.
            Assim, o dia consagrado aos Reis Magos, daí em diante, ganhou uma conotação especial em nosso calendário familiar, gravado em nossas alianças e, sempre que possível, é comemorado nos alpendres da casa de veraneio.
            Este ano, mais uma vez, estamos em Cotovelo, respirando o ar de um mês de janeiro quente e de uma maré forte e lamentando o desencontro nas caminhadas matinais com os tradicionais veranistas, como Aurino, Godeiro, Zé Correia, Dr. Hélio Santiago.
Registro, com tristeza, a doença de Dona Helena e o infarto recente do Senhor Soares, os quais terão lembrança especial em minhas orações para restabelecimento da saúde dos mesmos, pois são partes essenciais à geografia humana do lugar.

            Mais um Dia de Santos Reis. Que Deus permita que possa renová-lo em 2015.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Cartas de Cotovelo 2014 (4)
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
Agora compreendo a aspiração de todas as famílias, independentemente de condição social ou econômica, em possuir um ponto de referência alternativo, fora do seu habitat natural, para o deleite do que costumamos chamar de veraneio.
Funciona, de certa forma, com se fora uma viagem que se faz a outro lugar do país ou do estrangeiro, para amenizar um pouco a dureza do cotidiano.
O veraneio, em meu sentir, se apresenta mais aconchegante face a sua maior duração e pelo contato mais intenso com a natureza, com a simplicidade e pelo relacionamento interfamiliar.
Outra vertente, ainda, se descortina nesse espaço de tempo – a reflexão sobre a vida, seus problemas e soluções.
Tenho testemunhado em meu já alentado caminhar, a variedade de tons e sons da vivência, num impressionante contraste – nos veraneios vivi os momentos mais significantes da minha existência – telúricos na adolescência passados nos recantos da Redinha, a qual conhecia em todos os seus regalos, mesmo nas noites sem luar, numa época em que a energia elétrica era desligada pelas 21 horas. Ali senti as transformações comportamentais, mercê dos primeiros impactos da puberdade.
Naquela aprazível instância de veraneio escrevi os meus primeiros poemas, onde encontrei inspiração na simplicidade dos encontros no  Redinha Clube, jogos de toda ordem, festas inesquecíveis. Participei de serestas nos alpendres dos veranistas, um dos quais que muito me marcou – Dr. Túlio Fernandes, cultuando as tradições do lugar, proporcionando folguedos como a “Cavalhada”.
Era encantador ficar no trapiche à espera dos barcos à vela ou lancha dos passageiros, pois pela estrada era uma perigosa aventura. A passagem dos navios de passageiro ou de carga, deixando aquele cheiro de óleo diesel e a rapaziada nadando até próximo do canal para uma troca de acenos. A revoada de barcos em direção ao mar aberto para a pesca ou a puxada da rede nas pescarias da costa.
Foram muitos anos de encantamento, de passeios de bicicleta com a meninada no Rio Doce e do ‘brechar’ os casais em seus momentos de amor, quando atrevidamente jogávamos areia e partíamos em disparada para casa.
Com a velhice dos meus pais foi vendida a nossa casa do Maruim, ainda remanescente juntamente com a do ex-vizinho Seu Nelson. As demais desapareceram na saudade.
Agora o veraneio ficou por conta de cada filho já multiplicados com novos componentes e, no meu caso, fiz incursões em Pirangi até o encontro com a praia de Cotovelo, onde resolvi fazer a minha nova ‘Passargada’.
A paixão foi imediata e aqui encontrei novas formas de amar trazendo a família, já florescente, para recompor esse tipo de felicidade.
Não direito que tudo correspondeu a flores, pois percalços da existência trouxeram também dor e a tristeza visitou algumas vezes o nosso cantinho, desafiando a minha pena com poemas de sofrimento e desencanto.
Tal qual o fluxo natural das marés, a cada ano acontecem episódios que promovem encontros e desencontros, os quais vão sendo superados com sabedoria e fé.
Nos últimos veraneios, de um total de 24, as coisas se acertaram de tal maneira, que resolvi registrar os acontecimentos em forma de Cartas de Cotovelo, onde faço narrativas do cotidiano e dos devaneios dos bons momentos praianos.
Assim espero que continue nos próximos anos, embora não possa tanto com o porvir, pois o tempo não para e a velhice vem inexoravelmente ao nosso encontro, como aconteceu com os nossos pais.
Seja como DEUS quiser!   





Cartas de Cotovelo 2013/2014 (3)
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

            Vivemos neste findar de 2013 uma experiência diferente – mudança no período natalino, de Natal para nossa casa em Cotovelo.
            Depois do açodamento inicial da viagem, saindo do conforto da Capital para a simplicidade de uma praia de passagem, começamos a sentir a essência da vida familiar e a proximidade com a natureza.
            Na praia, logo cedo, acordamos com o som vindo das quebradas sucessivas das ondas e o odor característico da maresia, que nos oferecem forças para a jornada do dia.
            Regar as plantas e ver o nascimento do sol coincidindo com o gorjeio dos passarinhos que aqui existem em abundância. Um bom café matinal com a família, coisa que não é tão comum na cidade, onde cada filho tem a sua própria casa e que na praia todos ficam juntos, regado com inhame, tapioca e um pão fresquinho e depois as obrigações domésticas, em intensidade bem menor, prevalecendo a preguiça, cevada numa rede da varanda.
            As coisas da cidade grande não são tão comuns aqui - uma certa dificuldade de ter o conserto do telefone (a Oi passou 15 dias), a aquisição dos jornais do dia e outras facilidades que rareiam, como um bom sinal de internet etc.
            Mas estamos no veraneio e a coisa funciona assim mesmo, pelo menos diferente da cidade de origem.
            Hoje vivemos a expectativa das comemorações da chegada de 2014, com a ceia especial programada, música e a alegria, renovando-se a esperança de que melhorias virão, com menos violência (e bote violência nisso em 2013), mais igualdade, a oportunidade cívica da escolha de novos governantes, para o que rogamos a proteção Divina de nos ofertar maior lucidez nas escolhas.
            Os telefonemas não param – são os amigos e parentes daqui e de além mar nos desejando venturas no ano que vai nascer.
            A internet nos traz mensagens benvindas.
            Deus de amor e bondade, Fazei descer de Vossa mansão Celestial uma centelha de luz para acalentar os sofridos, alimentar os desvalidos e aplacar os desencontros, renovando as esperanças de um tempo de melhor qualidade de vida para o povo paciente do nosso Estado e do Brasil querido.
FELIZ 2014!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

            

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O velho catador de lixo
Por Augusto Leal, engenheiro.

                Estava sentado no alpendre de minha casa, olhando o mar e o nascer do sol, sentido a orquestra tocando a canção da vida, com os acordes do vento, das ondas do mar, o abanar das folhas dos coqueiros. Quando procurava conversar com Deus, lembrando que este ano perdi a convivência material de muitos amigos, espiritualmente eles continuam comigo. Como estarão suas famílias, nesta época de festas – Natal e Ano Novo- muitas, acho consoladas com a Paz de Cristo, outras talvez não. Senti uma tristeza, mas procurei entender os passos da vida, todos nós seguiremos o mesmo caminho.
                Um pouco distante, vejo um senhor velhinho,já com a sua coluna vertebral se curvando, fazendo com que a sua aparência seja de uma pessoa que sempre olha para o chão e com passos lentos revirando o lixo, procurando ali o seu sustendo e provavelmente dos seus dependentes. Lembrei-me que aquele cidadão que é brasileiro igual a mim, faz este triste percurso há mais de trinta e oito anos e nada ou quase nada foi feito neste lugar para que as pessoas melhorem sua posição social, para que se viva com um pouco mais de dignidade, que já é hora para os políticos tomarem vergonha na cara e parar de ser hipócritas, para que pelo menos as crianças que nasceram nas próximas décadas não vejam cenas tristes como eu estou vendo.
                O velho homem passa por mim lento e triste, em um esforço físico procura levantar o rosto e me dar bom dia,  para minha surpresa deseja-me Feliz Natal. Olhei para a minha consciência, os olhos lacrimejaram. Como eu que venho há trinta e oito anos neste local, nunca dei um grito de alerta para que me poupassem daquela cena, ao contrário, sempre assisti calado. Eu uma pessoa que tive bem mais oportunidades na vida, eu uma pessoa que pude estudar, não fiz nada e como a maioria dos veranistas da Praia de Cotovelo, não fez nada por aquelas pessoas que tanto poderiam ter sido ajudada por nós. Erramos sim, só olhamos do portão das nossas casas para dentro, até para o lado, não olhamos, para dar um alô ao o vizinho. É difícil, esta é a nossa sociedade consumista, “venha a nós o vosso reino.” Vivemos em uma sociedade, que pensamos em ter um super carro, sem termos uma boa casa, que temos uma boa casa, mas vendemos para comprar uma em um condomínio de luxo, pois lá estão as pessoas ditas ricas. Não vamos aos hospitais fazer um pouco de caridade, não passamos nos bairros humildes para levarmos um cobertor aos que não tem roupas, não levamos uma ceia para os que mendigam nas ruas, para os que tem fome, e ainda falamos que somos Cristãos.
                De longe no imaginário ouvi uma valsa que minha tia Cristina tocava muito em seu piano na casa de meu avô, Fascinação – Os sonhos mais lindos sonhei /De quimeras mil/Um castelo ergui. Pensei comigo, quais foram ou são os sonhos deste velho homem, quais são os seus castelos? Será que foi ou é justo ele ter passado a sua vida assim? Não sei, talvez se Charlie Chaplin tivesse visto este senhor e esta cena, ele fosse um dos seus personagens nas suas tristes comédias. Embora tenha aprendido cantando: “Que na vida a gente tem que entender que um nasce pra sofrer, enquanto o outro ri,” não me sentia confortável, para mim era triste.
Mas o ato daquele simples homem mostrou-me que podemos viver cordialmente, aprender que ao passar por outro devemos pelo menos dar um bom dia, uma boa noite, de sentir a dor alheia, de falar com Deus e pedir perdão das nossas omissões, dos nossos pecados, de procurar amar o próximo. Que mesmo tendo as adversidades da vida é possível olhar para o seu semelhante e desejar pelo menos um Feliz Natal.

                “Este ano quero paz no meu coração, quem quiser ser meu amigo, me dê à mão.” Vamos fazer um novo ano mais caridoso, vamos compartilhar amor e amizade, vamos procurar amenizar a dor dos mais carentes, vamos procurar valorizar a família, vamos não só ir aos cinemas, teatros, boates, restaurantes caros, vamos também aos hospitais, as casas de caridades, aos lares mais carentes. Esses são meus desejos de um Feliz Ano Novo.

Rinaldo Barros
Para rbEu
Dez 28 em 10:09 AM
O tempo está acabando
"O contrário do amor não é ódio, mas a indiferença". (Friedrich Nietzsche, 1844 a 1900)

(*) Rinaldo Barros
            Grandes terremotos na China... Ciclones em Mianmar... Furacões no Caribe... Tsunamis na Ásia, incêndios na Austrália, Califórnia... Falta d’água na Austrália... Inundações na China, Alemanha, Coréia, Peru, Espanha, Paquistão, Brasil...
            Essas são mensagens de catástrofes naturais que diariamente nos chegam das mais variadas partes do mundo, e de tal forma já incorporadas ao nosso dia-a-dia, que não nos causam mais tanto espanto. Integra o quadro da banalização da vida.
            Vale registrar que, segundo relatórios da ONU e Cruz Vermelha Internacional, nos últimos 10 anos, o número de catástrofes naturais aumentou em 60% e o número de mortes passou de 600 mil para 1 milhão e 300 mil pessoas! Só o Tsunami na Ásia matou 230 mil pessoas e os recentes ciclones em Mianmar na Ásia e terremotos na China mataram mais de 150 mil pessoas. Esses números são catalogados como catástrofes naturais e tendem a aumentar.
            Apesar da seriedade da situação, a Terra continua também a receber diariamente notícias sobre a contínua devastação da floresta amazônica, vazamentos de óleo nos oceanos, derretimentos das grandes geleiras, buracos na camada de ozônio, poluição do ar e águas, aquecimento global, resultando no iminente esgotamento dos recursos naturais.
            Na outra face da moeda, a desvalorização do ser humano, o aumento das drogas, o efeito devastador do desequilíbrio ecológico, a perda da dignidade, a inversão dos valores sociais, o aumento da massa humana sem rumo, a fome, as desigualdades sociais, os preconceitos, as guerras, o terrorismo, a globalização da miséria, a insegurança, o medo, a incerteza do futuro, tudo isto cria uma névoa espessa de energia negativa em volta de nosso (?) mundo.
            É a aura doente do planeta, como conseqüência de milhões de almas doentias.
            Relembro que tudo está ligado! A degradação do ser humano e a do planeta estão intimamente unidos
e da mesma forma as soluções para o problema. 
            A Terra está sendo saqueada por quem deveria protegê-la! Separamo-nos da Natureza.
            O progresso materialista e tecnológico sem cuidados, a ganância sem ética; cobra um preço alto.  
            Concordo com Nietzsche, apud "Nietzsche para estressados", de Allan Percy; quando nos ensinou "voltar à Natureza não significa ir para trás e sim para a frente!"
            ─ "Ajuda-me, diz a Mãe-Terra, a dissipar essa nuvem escura que está ofuscando a luz, exaurindo minhas forças, acabando com minha vida!"  
            É a mãe pedindo para que seus filhos escutem seu apelo.
            A seu modo, o planeta está gritando aos quatro ventos, mas o Homem está tão desequilibrado que perdeu a capacidade de ouvir e ver os sinais.  
            Aprendi que tudo é energia, tudo é uma simples equação de ação e reação. Trate bem que será bem tratado! Destrua e será destruído!
            Ame e será amado! É plantar e colher! Esta regra vale para qualquer situação, desde uma simples equação de física elementar ou convivência pessoal até uma relação Homem-Homem ou Homem-Terra.
            Dar coisas boas e receber coisas boas! Dar ódio, destruição e receber ódio e destruição! É uma regra válida para tudo e para todos! Vale para o microcosmo e para o macrocosmo da mesma forma.
            É uma lei cósmica! Nós decidimos o nosso futuro. 
            É preciso, porém, atentar para o fato de que a nossa espécie "homo sapiens" não tem o poder de destruir o planeta, mas apenas de gerar sua própria destruição. O lindo planeta azul continuará girando em torno do Sol e, daqui a hum milhão de anos, fará surgir uma nova espécie de macacos, armados com paus e pedras, para atacar outro grupo de macacos...começando tudo de novo. 
Ingenuamente, talvez, como queria Agostinho (354 a 430 d.C), continuo com a Esperança, ao lado de suas duas filhas lindas: a Indignação e a Coragem, para lutar por um mundo melhor.
            Felizmente, temos o poder ao nosso alcance e a chance de evitar o desastre ainda está em nossas mãos. Comecemos já, o tempo está acabando.

                Rinaldo Barros é professor - rb@opiniaopolitica.com
Verdades cruzadas - VII
CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES, Professor aposentado do Curso de Direito da UFRN e Presidente da Comissão da Verdade. Sócio do IHGRN.

Pode-se considerar que o agravamento da crise de populismo no Brasil que levou a ascensão dos militares, em 1964, ocorreu a partir do breve governo do Presidente Janio Quadros, que só durou alguns meses do ano de 1961.
Carlos H.P.Cunha e Walclei de A.Azevedo – Podres Poderes-política e repressão. Natal: Infinita imagem, 2013.

 “Depois de passar 19 anos sendo convocado por políticos para debelar crises, o Exército interveio mais uma vez em 1964, desta vez num golpe de Estado que exilou o presidente João Goulart. O governo não foi entregue aos civis: os militares resolveram exercer eles mesmos o poder, acreditando que seriam os únicos a ter a disciplina e a honestidade necessárias para a função.
Foram tragados para um turbilhão de autoritarismo, disputas internas, guerrilha, inflação, tortura nos quartéis e atentados que desmoralizaram a instituição e seus generais-presidentes, apesar da censura importa à imprensa. No governo do último general-presidente, João Figueiredo, a ditadura havia se tornado um labirinto cuja saída foi a devolução do poder aos civis, com a eleição indireta de Tancredo Neves em 1985.” [1]
Começava no Brasil o caminho dos tanques, um período de mordaça dos segmentos sociais e a censura à imprensa sob uma divulgação de combate à subversão e corrupção – temas profundamente contraditórios em razão da história do País, usando-se para isso a força bruta e a grotesca ostentação de armas, torturas, perseguições e mortes, com a conivência e o apoio de parcelas importantes da sociedade – empresários, proprietários rurais, parte da imprensa, a igreja católica e influentes governadores de estados e o silêncio do Supremo Tribunal Federal.
Os golpistas sabiam que teriam problemas a enfrentar e para tanto não usaram o diálogo, mas o convencimento pela repressão, pela truculência, manipulando o processo democrático, cassando mandatos e orquestrando uma farsa eleitoral de dois partidos apenas – ARENA e MDB.
A moldura do governo militar passou a ser  “o milagre econômico”, com projetos de mega dimensão como a Transamazônica e a Perimetral Norte, fomentando um ufanismo nacionalista retratado no slogan “Brasil – ame-o ou deixe-o”.
O Ato Institucional nº 5, em 1968, recrudesceu a ditadura e as forças democráticas repeliriam a violência de todas as maneiras que podiam, ostensivas ou alternativas, estas desenvolvidas no Teatro, no Cinema e na Música.
             Entretanto, as conquistas vão acontecendo paulatinamente no percurso dos governos Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médice.

A partir do general Ernesto Geisel foi anunciado um programa de “abertura lenta, gradual e segura”, num processo político que passou a ser o ponto fundamental da luta nacional pela transição do regime no caminho da verdadeira Democracia, com a revogação dos atos institucionais e reforma da Lei de Segurança Nacional, das eleições legislativas de 1974, com as manifestações da sociedade em favor da redemocratização do país, do Movimento Feminino pela Anistia em 1975, o Comitê Brasileiro pela Anistia em 1978, que permitiram efetivamente a sua aprovação na Lei 6.683, de 28 de agosto de 1979, no Governo João Figueiredo, e finalmente com a emenda Dante de Oliveira de 25 de março de 1984 abrindo o caminho da restauração do processo político. Registre-se que estes últimos Presidentes já trabalhavam no sentido do cumprimento das promessas de retorno à normalidade democrática

Forças reacionárias ainda tentaram reverter o processo de abertura, mas mesmo com o atentado fracassado no Riocentro, em 1981, não foi suficiente para interromper o movimento das “Diretas Já” que preparou a eleição indireta de Tancredo Neves em 1985.
  “A ditadura terminara – e o novo desafio era consolidar a democracia.”[2]
As eleições se sucedem. Tancredo Neves – a velha raposa mineira que se tornara símbolo da redemocratização ao derrotar o candidato Paulo Maluf, coincidentemente, adoece e é internado na véspera de sua posse, em seu lugar assume interinamente José Sarney, em solenidade no dia 15 de março de 1985, um político comprometido com a ditadura, assustado com o encargo que não cogitava..
Não foi um recomeço fácil. A fatalidade de Tancredo deixa atônito o País, notadamente com o seu falecimento em 21 de abril de 1985 – Dia de Tiradentes.
A economia atinge patamar de inflação nunca antes ocorrido, produzindo drástica corrida ao mercado de capitais, fomentando falências e concordatas.
Contudo, a penosa reconstrução da democracia contava com um grande aliado – Deputado Ulisses Guimarães, ganhando força na Nova República de Sarney, como Presidente do Congresso e da Assembleia Nacional Constituinte, dando ao Brasil a sua nova Carta Política de em 05 de outubro de 1988, denominada de “Constituição Cidadã”, com instrumentos jurídicos e políticos modernos para retomar o caminho da normalidade.
Mas o destino fez desaparecer o “Senhor das Diretas”, num desastre de helicóptero em 12 de outubro de 1992.


               





[1] DN Especial – (8) Anos de Chumbo12/7/2005.
[2] Diário de Natal, 12/7/2005.