quarta-feira, 20 de novembro de 2013


ESTUDANTE OU ALUNO?

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO (pe.medeiros@hotmail.com)

O tempora, o mores! Como nos faz falta o latim! Se, mesmo, outrora, fazendo parte dos componentes curriculares das escolas, o poeta parnasiano exclamara: “A última flor do Lácio, inculta e bela”, o que diria esse vate nos dias atuais? Indagado sobre o significado da palavra inculta, empregada em seu soneto, respondeu Bilac: “o termo fica por conta de todos aqueles que a maltratam, mas que continua a ser bela”. Sem o ensino do latim nas instituições de ensino fundamental e médio, atropelamos ainda mais o vernáculo.

Quantas vezes, deparamo-nos com afirmações e fatos, partindo do modismo do “politicamente correto”, sem base científica, que surgem do nada e de repente têm trânsito livre nos campi universitários e até nas salas do Ministério da Educação. Adotou-se agora a moda do vocábulo estudante em lugar de aluno. É um risco, pois podemos transformar um sofisma em verdade, e, então consagrá-lo como certo e convencer incautos neste assunto. Há um conceito distorcido, que vem sendo divulgado inclusive entre professores e dirigentes educacionais. E diga-se, per transennam, empregado e enfatizado por palestrantes e orientadores pedagógicos. Trata-se da etimologia da palavra aluno

A nova conotação vem ocupando espaço, explicando que aluno significa "sem luz", pois a palavra é formada pelo prefixo grego “a” (partícula de negação) e pelo elemento “lun”, adulteração de lumen (luz em latim). E, por significar ausência dela, a palavra seria depreciativa e antipedagógica. Para quem estudou latim, sabe que as palavras em português provêm do acusativo, que integra a declinação latina. Caso o étimo aluno derivasse de lumen, substantivo neutro, deveríamos ter ad lumen (próximo da luz), como é a regra geral etimológica. Entretanto, a palavra aluno deriva do latim: alumnus e já existia, antes de Cristo. Tinha como significado primitivo criança de peito, que era nutrida, unida a sua mãe. Daí, o sentido figurado de aluno ou discípulo, enquanto é alimentado, vinculado a alguém. De acordo com o filólogo Ernesto Faria, (catedrático de latim da antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil), Cícero já empregava alumnus, nas suas obras Verrinas e De finibus.  Segundo renomados etimólogos, latinistas e linguistas brasileiros, dentre os quais Antenor Nascentes, padre Auguste Magne, S.J, Serafim da Silva Neto e outros, alumnus deriva do verbo alere: alimentar, fazer crescer, desenvolver. Por analogia, tomou a acepção de crescimento intelectual. É também nesse sentido usado por Cícero em: De Natura Deorum e nas Catilinárias

Seria de bom alvitre que os leitores consultassem o verbete nos Dicionários da Língua Portuguesa de Houaiss e Aurélio, no Dicionário Etimológico Nova Fronteira de A. G. Cunha, nos dicionários da Real Academia Espanhola, Larousse etc. Não se pode aceitar que em nome do “politicamente correto” desvirtue-se a semântica de uma palavra, dando-lhe um sentido que não lhe cabe, banindo o seu uso. É aviltar e empobrecer nosso idioma e a história da educação.

Convém por último ressaltar que, na tradição, bem como nas culturas hebraica, grega, latina e brasileira, aluno é sempre alguém que está inserido, ou seja, matriculado numa instituição e vinculado a um mestre. Por isso, estão consagradas expressões como: aluno do Ateneu, do Salesiano, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,  do curso de medicina, do professor Otto Guerra etc. Data venia, não podemos aceitar uma conceituação equivocada de aluno. Seria agredir os lexicógrafos e a língua pátria. Dom José Adelino Dantas, de saudosa memória, exímio latinista, proferiu esta frase lapidar: “Sem conhecimento do latim, podemos nos tornar apedeutas com certa pavonice". Cabe-nos, por fim, dizer: “Foeci quod potui, potentes faciant meliora”. E, já que não se estuda mais latim, procure-se a tradução no “doutor” Google, guru virtual de muitos.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

“Kristallnacht”

Dalton Mello de Andrade

“Quem dormir no ponto, o jacaré abraça”

            Quem se lembra da “Noite dos Cristais Quebrados”, no dia 9 de novembro de 1939? Que fez agora 74 anos? Poucos, acho eu. Acredito que deve ter saído alguma coisa sobre o assunto na mídia brasileira, mas não vi nada. Jornais estrangeiros não esquecem esses fatos, especialmente os europeus.
            Nesse dia, os nazista agrediram judeus por toda a Alemanha, à mando de Goebell, ministro da Informação de Hitler (hoje, marqueteiro) e com a concordância do partido nazista. Suas pessoas, suas propriedades, lojas e casas, foram atacados e destruídos em todo o país. Foi um prenuncio do que estaria por vir no “Reich” dos propalados mil anos.
Foram mortos cerca de cem judeus, foram destruídas centenas de sinagogas, escolas, lares, e lojas a eles pertencentes. Cerca de 35.000 foram presos, muitos dos quais foram enviados aos já então criados campos de concentração, torturados e assassinados. Foi o começo do Holocausto, que matou seis milhões de judeus. E outras etnias consideradas inferiores pelos “deuses” nazistas.
O argumento dos nazistas foi de que isso era uma reação espontânea ao assassinato de um diplomata alemão em Paris, Ernst Von Rath, morto por um judeu polonês de 17 anos, Herschel Grynzpan. A história diz que ele procurava se vingar, em razão da perseguição à sua família na Alemanha. No entanto, o ataque aos judeus estava muito bem preparado, as organizações nazistas devidamente orientadas pelo partido, e a policia e corpo de bombeiros instruídos para não interferir. Uma noite de terror, muito bem orquestrada, tudo executado com a melhor eficiência, que é e sempre foi a marca registrada do país. A morte do diplomata foi um argumento fajuto.
Quando olhamos para o mundo de hoje, com as conturbações que andam por aí, quando vemos os desentendimentos crescentes no Oriente Médio, as chamadas “primaveras árabes”, a falta de dialogo entre as nações, não há como não nos preocuparmos com o futuro. O que esperar de tudo isso? Teremos adiante novas “noites de cristal”, sem alvo definido ou motivações evidentes?
O que esperar de vândalos, como os que ultimamente surgiram em nossas cidades, sem posições claras ou razões objetivas para um tresloucado comportamento, que prenunciam apenas a anarquia e o desprezo pelo direito dos outros e pela convivência sadia? Do protesto pelo protesto?
Por isso, é bom lembrar essa noite marcante da história da humanidade. Lembrando o passado, podemos evitar que ele se repita. A tolerância dos cidadãos, que aceitaram a destruição e os ataques com um “não foi comigo”, os levaram a pagar muito caro por essa indiferença. Que não se repita o mesmo nos dias presentes e especialmente entre nós.

O populismo, o desprezo pela liberdade em geral e da imprensa especialmente, o desrespeito ao direito, a aceitação das agressões ao patrimônio público e privado, às pessoas e aos policiais, nos leva a prever um triste cenário para o futuro deste país. E não vemos uma reação inteligente ao problema. Muita conversa e pouca ação.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

BENVINDOS

COM SETE MEMBROS, CANGUARETAMA/RN, TEM A SUA ACADEMIA DE LETRAS DESDE O DIA 27-10-2013. PARABÉNS MEUS CONFRADES E CONFREIRAS.


SETE MEMBROS DÃO INÍCIO À ACADEMIA DE LETRAS DE CANGUARETAMA/RN - ALC.


Depois de 155 anos de existência, os canguaretamenses criaram sua academia de letras (Academia de Letras de Canguaretama RN - ALC). A reunião ocorreu na manhã do domingo (27/10/2013), no Casarão da Família Gomes, no centro da cidade. O objetivo que moveu a criação da Academia foi incentivar o desenvolvimento cultural do município. Em breve a diretoria provisória organizará o estatuto e abrirá espaço para a indicação dos membros efetivos. A comissão provisória, que dirige a entidade, foi formada inicialmente por: Francisco Alves Galvão, Eduardo Gomes de Carvalho, Erivan de Souza Lima (TATÁ), João Maria Alves de Castro, Maria de Fátima Pessoa, Anadir Pessoa Cavalcante e Auricéia Antunes de Lima. A reunião se deu num clima especial de companheirismo e preocupação com a cultura local. No final, todos puderam demonstrar a satisfação pelo grande acontecimento e foram feitas várias leituras de obras literárias entre os presentes. Um brinde especial pelo sucesso de todos selou a reunião.

 Fonte: História de Canguaretama 

FONTE: Blog Ponto Crítico

RESULTADO OFICIAL DA ELEIÇÃO PARA RENOVAÇÃO DA DIRETORIA DA UBE/RN - 2014 A 2015.

EDUARDO ANTONIO GOSSON
PRESIDENTE DA UBE/RN 
ROBERTO LIMA DE SOUZA
PRESIDENTE ELEITO DA UBE/RN - 2014/2015

ATA DA ELEIÇÃO DA UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES-UBE/RN, REALIZADA EM 13 DE NOVEMBRO DE 2013
 Aos 13 dias do mês de novembro de 2013, tendo como local a sede da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras ( sede provisória da UBE/RN) sito à Rua Mipibu, 443, Cidade Alta, das 10 às 16 horas, realizou-se a eleição para renovar a Diretoria para o biênio 2014/2015.
 O processo eleitoral foi preparado pelos seguintes atos: 
1. Portaria nº 1/2013 de 27 de setembro de 2013, nomeando a Comissão Eleitoral ( Horácio de Paiva Oliveira, George Antonio de Oliveira Veras e Paulo Jorge Dumaresq Madureira). 
2. Convocatória publicada no site da instituição e no Diário Oficial do Estado, no dia 30 de setembro de 2013. 
3. Edital, de 30 de setembro de 2013, publicado no blog da UBE/RN e afixado no quadro de avisos da UBE. A chapa A União faz a Força foi registrada dentro do prazo legal e tem a seguinte composição:
 CHAPA: A UNIÃO FAZ A FORÇA Biênio 2014-2015 DIRETORIA EXECUTIVA
 Presidente: Roberto Lima de Souza 1º Vice-Presidente: Eduardo Antonio Gosson 2º Vice-Presidente: Manoel Marques da Silva Filho Secretario Geral: Jania Maria Souza da Silva 1º Secretário: Maria Rizolete Fernandes 2º Secretário: Paulo de Macedo Caldas Neto 1º Tesoureiro: Pedro Lins Neto 2º Tesoureiro: Claudionor Barroso Barbalho Diretor de Divulgação: Lucia Helena Pereira 
 Diretor Representações 
Regionais: Antonio Clauder Alves Arcanjo Diretor Jurídico: David de Medeiros Leite CONSELHO CONSULTIVO
 Carlos Morais dos Santos
 Cid Augusto Rosado Maia,  Diulinda Garcia de Medeiros Silva,  Diógenes da Cunha Lima
 José de Castro Joaquim Crispiniano Neto,  Ormuz Barbalho Simonetti,  Tomislav Rodrigues Femenick ,Valério Alfredo Mesquita
 CONSELHO FISCAL:  Aluízio Matias dos Santos,
 Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque,
  Carlos Roberto de Miranda Gomes,
  Geralda Efigênia Macedo Gilvania Rodrigues Machado Às 16 horas, conforme normas estabelecidas na legislação aprovada, a Comissão Eleitoral encerrou a votação e procedeu a contagem de votos: 
A UNIÃO FAZ A FORÇA: 26 votos, nenhum voto branco, nenhum voto nulo.
 Encerrada a apuração, foi proclamada vencedora a chapa A UNIÃO FAZ A FORÇA. Nada mais sendo tratado foi a eleição encerrada, cuja ata é assinada pela Comissão Eleitoral. 

Natal-RN, 13 de novembro de 2013 
Horácio de Paiva Oliveira
 PRESIDENTE 
George Antonio de Oliveira Veras
 SECRETÁRIO
 Paulo Jorge Dumasreq Madureira
MEMBRO
 
19 novembro


Tempos de criança
Augusto Leal, engenheiro

           Eu daria tudo que tivesse /Pra voltar aos tempos de criança/ Eu não sei por que a gente cresce/ E não sai da mente esta lembrança.
           A minha infância foi vivida nos bairros de Petrópolis e Tirol. Nasci e vivi na Rua Seridó, até os seis anos de idade, depois fomos morar na Rua Mossoró de onde sai casado.
            Na Rua Seridó meu pai fez uma casa quase que exclusiva para crianças. O nosso quarto tinha no teto, pintado as figuras do Mickey, Pato Donald, Pateta e outros personagens das histórias de Walt Disney. No jardim casinhas feites com pés de fícus, que dava para a gente entrar e ficar fazendo traquinices, jogando caroço de pitombas e carrapateiras com baladeiras nas pessoas e nos carros que passavam. Tinha uma charrete puxada por um carneiro, chamado Belém, a gente andava dentro do quintal ou na Praça Pedro Velho. Belém morreu e o carneiro passou a ser meu irmão José Maria, que na época era mais gordo que Jô Soares e tinha longos cachos nos cabelos. Por isso foi promovido a carneiro por mim e minha irmã Liege. As tardes mamãe reunia os três no jardim da frente da casa para contar histórias infantis. Lembro-me de uma triste que a madrasta de uma menina enterrou ela no jardim da casa, os cabelos cresceram com as ramas e quando o jardineiro ia cortar as ramas ela cantava uma música que tinha uma parte que dizia assim “Jardineiro de meu pai/ não me cortes o meu cabelo/Minha mãe me penteou, minha madrasta me enterrou/Pelos figos da figueira/Que o passarinho bicou.”
            As tardes uma senhora que morou muito tempo na casa de meus pais, nos levava brincar na Praça Pedro Velho, lá tinha um parque infantil muito grande, com vários equipamentos, como gangorra, balanços, escorregos. Na praça havia bancos para sentar, pés de fícus cortados em formas de animais, de cassinhas, fotógrafos para tirar fotografia naquele momento, tanques com água onde tinham peixes, tartarugas, um coreto com um pequeno bar e lanchonete e uma quadra para a prática de esportes.
            Da Rua Seridò fomos morar na Rua Mossoró no ano de 1950, mas continuei frequentando o bairro de Petrópolis, pois fui estudar depois no Colégio Sete de Setembro e jogar basquete e futebol de salão no Santa Cruz Futebol Clube. Tive como treinador de basquete os irmãos Oscar e Cristalino Fernandes. Oscar era professor de desenho no Sete de Setembro e Cristalino me parece que já era funcionário do Banco do Brasil.
            Na Rua Moçoró, já um meninote, tinha a liberdade de andar só. Fui estudar no Atheneu, ainda continuei ligado a Rua Seridó, pois deixei por lá muitos amigos e continuei jogando pelo Santa Cruz.

            A Rua Moçoró a partir da Rua Prudente de Morais era quase que deserta, principalmente os quarteirões ente a Prudente e a Afonso Pena, sem pavimentação o leito da Rua era de terra batida, servia para os nossos campos de futebol mirim. Havia poucos veículos, é tanto que quando aparecia um, alguém gritava – Parábola- Era um aviso para parar a bola, parar o jogo, quando o veículo passava a “pelada” continuava.
              O quarteirão onde estava localizada a casa de meu, (foi a terceira a ser construída), era de vizinhança escolhida, por serem pessoas boníssimas. Na esquina com a Prudente Djalma Marinho e Eider Furtado, José Barbosa de Farias, por ser muito magrinho e de pouca estatura, era conhecido como Seu Pigmeu, em frente Aderson Eloi de Almeira. adiante Olimpio Procópio de Moura. Iderval Medeiros, Paulo Sobral, Antônio Justino Bezerra, José Idelfonso Emerenciano, José Lopes, Tenente Clotário Tavares, e por último João Rodrigues Barbosa, não sei por que também chamado de João Mamão.
              A Rua Mossoró ainda hoje é ligada com a Ulisses Caldas, onde ficava o comércio de meu pai (Farmácia Natal), e quando eu fazia minhas traquinices, era sentenciado a ir de castigo passar as tardes na Farmácia, aprendendo o oficio ou estudando, ia a pé e voltava a pé. Da Rua Ulisses Caldas já se tinha uma visão ampla da Rua Mossoró, pois não tinha arvores plantada, daí a visão direta do Parque das Dunas. No domingo este morro, na parte por trás do Estádio Juvenal Lamartine, ficava lotados de torcedores que iam assistir aos jogos e sentado no batente do portão da minha casa eu tinha a visão daquela torcida, que às vezes soltava alguns foguetões geralmente anunciando um gol do ABC Futebol Clube.
              Na época do inverno, como o leito da rua era de terra batida, formava grandes poças de água, onde se ouviam o cantar das rãs ou dos sapos que passavam a noite cantarolando. Tinha os vaga-lumes que ficavam desfilando pela noite com sua luzinha apagando e acendendo, e a meninada a procurar pega-los para colocá-los em um vidro para fazer lanterna. Fazíamos coleções de besouros e borboletas caçados nos terrenos baldios, colocados em pequenas caixa de madeira e conservados no formol.
Na rua além das “peladas” jogávamos bola de gude, biloca, triângulos e tila eram as modalidades preferidas. Brincávamos de bandeirinha ou pega bandeira, de tica, de esconde esconde, cobra sega, guerra de baladeiras, tô quente tô frio, bom barquinho e outras.
Nos colégios as quermesses, nas igrejas as festas, íamos às festas do Colégio Sete de Setembro, Colégio Marista, Ginásio São Luiz, quermesse na Lagoa Manoel Felipe, hoje Cidade da Criança, a da Igreja Santa Terezinha, do Colégio Nossa Senhora de Fátima, Festa da Padroeira na Praça André de Albuquerque, Festa da Mocidade, na Praça Pio X. Aos domingos, banho de mar nas praias do Meio, Forte e Areia Preta, ou a travessia do Rio Potengi, nas lanchas de Luiz Romão, ou nos botes a vela, capitaneados por Janjão, Ferrinho ou Gonzaga.]
Cresci, envelheci, ficou a saudade. Boas lembranças de um tempo bem vivido.

domingo, 17 de novembro de 2013


VERDADES CRUZADAS -I
Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado e escritor
   O acaso trouxe-me um encargo no outono da vida – presidir a Comissão da Verdade da UFRN. Por isso, tive de voltar no tempo e no espaço para refazer a memória adormecida nos bancos da velha Faculdade de Direito da Ribeira – época difícil para a história da Democracia, pois iniciei em fevereiro de 1964, véspera do golpe e concluí em 1968, véspera do AI-5.
Lembrei que na mesma época e no mesmo palco alguns jovens sonhavam com um Brasil melhor, no campo e nas cidades e para isso se entregaram, sem medo, à luta contra a ditadura. Eu, por questões de sobrevivência de um prematuro casamento, com o peso da paternidade e a necessidade de garantir a subsistência, não engrossei o contingente dos lutadores, embora torcesse pelo sucesso daqueles idealistas e ter acompanhado seus movimentos grevistas, por solidariedade.
Hoje pago o preço do meu silêncio, por compreender com integral lucidez, a diferença da insônia com liberdade e a castração do sono no confinamento. Embora sem fazer juízo definitivo do valor das ações desenvolvidas, faço apenas a apologia da importância incondicional da liberdade, segundo Kant - o maior bem da vida! 
          O imperativo categórico da nova missão me colocou na cela com aqueles "menino(a)s" que entrevistei, a exemplo de: Geniberto Campos, Arruda Fialho, Josemá Azevedo, Anchieta Jácome, Gileno, Paulo Frassinetti, Iaperi, Rinaldo Barros, Juliano, Ivis, Ivaldo Cetano, Lailson de Almeida, Hermano Machado, Mery, Marcos Guerra, José Bezerra Marinho, Justina Iva... ao lado de outros que não entrevistei - Ginani, Hélio Xavier, Maria Laly, Danilo Bessa, Berenice, Tereza Braga, Djalva Confessor ... e então pude sentir o que significa a insônia sem liberdade, sem opções imediatas, mentalizando o momento da soltura, do reencontro familiar, do retomar o caminho natural da vida. Foram amadurecidos com "carboreto", tirando do fruto o sabor de um amadurecimento natural, livre de pressão externa.
   Começo hoje uma série de artigos, aproveitando a expressão de uma estudante bolsista da CV (Patrícia) para o trabalho – VERDADES CRUZADAS, pois a história oficial nem sempre é a história definitiva, dadas às circunstâncias de tempo e espaço.
 
Artigo I - Fica decretado que agora vale a verdade, agora vale a vida e de mãos dadas marcharemos todos pela vida verdadeira;
Thiago de Mello: Estatuto do homem 
Após uma vivência sob o jugo Português, o espírito de brasilidade foi cultivado nas academias europeias e chega ao Brasil com o histórico “Grito do Ipiranga” no dia 07 de setembro de 1822 através de D.Pedro I, Príncipe Regente, ganhando a adesão da juventude e da comunidade pensante de então.
Composto o Império brasileiro, sequenciado com o governo de Pedro II, assim caminhou até a sua deposição em 15 de novembro de 1889, com o golpe militar de Deodoro, que nos fez ingressar inseguramente nos braços da República, sempre permeada por intervenções militares – revolucionárias as de 1888-1889; reformistas em razão do inconformismo patente nos movimentos tenentistas de 1922, governo de Artur Bernardes, que durou até 1926, em sua maior parte, sob estado de sítio, 1924[1] e 1930, este ano inaugurando um governo herdeiro da crise econômica do ano anterior, fazendo emergir a contestação da revolução social tendo como ponta de lança os partidos comunistas, organizados sob disciplina militar e se espelhando no modelo da União Soviética.
Diametralmente em contrário surgem os movimentos fascistas na Itália com Mussolini e o nazismo na Alemanha com Adolf Hitller, facções que abraçam um aspecto de nacionalismo e de racismo que, no Brasil, se abrigaram no movimento integralista de Plínio Salgado.
A repressão policial, o clientelismo e a corrupção desembocam em revoltas à semelhança de 1922 e 1924 até o fato mais grave do assassinato do Vice-Presidente da República, o paraibano João Pessoa, ocorrido em 26 de julho, estopim para a implantação de um outro momento político, com a chamada Revolução de 1930 e a deposição do Presidente Washington Luiz em 24 de outubro e começo do novo regime em 31 do mesmo mês e ano, assumindo o Senhor Getúlio Vargas no dia 3 de novembro subsequente, ali se estabelecendo.


[1] Em 1924 teve início a Coluna Prestes, liderada por Luiz Carlos Prestes, percorrendo 13 estados e 25 mil quilômetros na busca de angariar adesão para as causas tenentistas, contando com o apoio de militares como Cordeiro de Farias e Juarez Távora e culminando com a sua destituição em fevereiro de 1927 com a deposição de armas na Bolívia.

sábado, 16 de novembro de 2013


“Veramente bellissima”

 

Elísio Augusto de Medeiros e Silva


Empresário, escritor e membro da AEILIJ

elisio@mercomix.com.br


A Ribeira viveu sua época de ouro em meados do século passado. Naqueles tempos, o bairro expressava a vida política, social e cultural de nossa Capital.

Ali se desenvolveu um dos períodos mais prósperos de nossa cidade. Durante a II Guerra Mundial foi palco de grandes eventos, retratados por nossos cronistas e historiadores. O local ainda guarda reminiscências desse período áureo com identidade própria e incontestável.

Ainda hoje, a Ribeira desenvolve intensa atividade cultural durante todo o ano – Teatro Alberto Maranhão, Casa da Ribeira, Capitania das Artes... Ali, tradição, arte, história e cultura encontraram o refúgio ideal.

Por outro lado, a natureza também foi generosa com o bairro, que tem o Rio Potengi a banhar-lhe em toda extensão.

Do alto das ladeiras que a circundam dá para ter uma vista maravilhosa – os casarões, as praças, o rio, a nova ponte. Não deixe de visitar a casa onde nasceu o filho mais ilustre do bairro, Câmara Cascudo.

A Ribeira Antiga forma belo contraste com os modernos arranha-céus que, aos poucos, estão chegando pela Avenida Cordeiro de Farias.

Suas ruas e becos sinuosos convergem em direção às suas avenidas principais – Tavares de Lira, Duque de Caxias... que regem a vida diária da Cidade Baixa.

O bairro é pequeno e acolhedor – foi concebido para se andar a pé. E cada paisagem singular é um convite para um “clique” na sua máquina fotográfica.

Alguns imóveis de interesse histórico foram restaurados, outros estão em processo de reconstrução. Infelizmente, vários locais se encontram abandonados, em ruínas.

Com a promessa de medidas de incentivo por parte da Prefeitura Municipal, talvez, isso se reverta em alguns investimentos que se fazem necessários.

Ver a Ribeira nas primeiras horas da manhã, presenciar o belo espetáculo que o sol dá ao nascer, perambular pelas ruas que margeiam o rio tem um gostinho diferente. O bairro também tem uma luz especial ao entardecer, não há lusco-fusco mais bonito em toda Natal.

Na Ribeira você descobre os encantos de uma região tão presente na cidade. O silêncio conduz a introspecção – e recordações!

O próprio formato dos logradouros nos dá diversos tons do passado, em ruelas perdidas aqui e ali. Cada uma com sua própria identidade singular. O local é propício para obter belas fotografias a qualquer hora do dia ou da noite.

De repente, você pode entrar numa ruazinha de paralelepípedos e descobrir que em uma das casas nasceu o poeta Ferreira Itajubá – em outro prédio funcionou o antigo Palácio do Governo, convertido no Wonder Bar durante o período da II Guerra Mundial.

Ali, em meio a prédios de épocas diferentes, a luz incendeia sobre os antigos trilhos do trem. Chegue até o largo de paralelepípedos e casinhas de fachadas coloridas e observe a construção de moderno terminal de passageiros marítimos, ao lado do cais do Porto. Com certeza, essa obra trará mais encanto ao lugar.

Com o propósito de queimar calorias, visite os antiquários da Rua Dr. Barata, dirija-se até a bela Igreja do Bom Jesus (Praça José da Penha), conheça o Teatro Alberto Maranhão (Praça Augusto Severo) e o cais Tavares de Lira...

Garanto que você não esquecerá o passeio. Como escutei um turista italiano exclamar: “Veramente bellissima”.

O MOSTEIRO DE SANTANA DE EMAÚS

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO (pe.medeiros@hotmail.com)

Na sociedade contemporânea, nem todos compreendem a opção daqueles que decidiram viver no recolhimento dos claustros. Muitos louvam as ordens e congregações religiosas, cuja finalidade é cuidar da educação, dos doentes e idosos ou a pregação do Evangelho para aqueles, que não vislumbraram ainda a luz da mensagem cristã. A Igreja, – responsável pelo anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo – vem, desde as suas origens, dedicando-se à missão de difundir o cristianismo. No entanto, poucos conhecem os mosteiros e conventos, onde religiosos consagram a maior parte do seu tempo e de suas existências à oração e à contemplação da grandeza do mistério e da beleza de Deus. São vocações especiais, irradiando uma paz interior, em virtude de sua comunhão com o Pai.

Em Emaús, Bairro de Parnamirim (RN), verifica-se a presença gratificante de monjas ou freiras contemplativas. Algumas vezes por semana, temos o privilégio de presidir a Eucaristia no Mosteiro de Santana, onde sentimos uma grande quietude, sinal da presença divina. O silêncio reinante penetra em nós, como se fosse um eco celestial. Alguns podem pensar que há na vida monacal um vazio incômodo, sem razão de ser. Ledo engano. A oblação a Cristo pela contemplação é uma entrega de amor total, em que a criatura respira a plenitude do Ser Supremo, num ambiente silencioso e pródigo de alegria interior.

Aqueles que vivem no tumulto do mundo de hoje, raramente, compreendem a fecundidade espiritual que o silêncio propicia. Com o rádio e a televisão ligados o dia inteiro, veiculando propagandas políticas, comerciais e notícias do momento, os celulares e aparelhos eletrônicos tocando, não há praticamente espaço para o silêncio que nos enche de paz, enriquece e conduz a um encontro com o Absoluto. Lembramos bem do que diz o Pequeno Príncipe: “No silêncio alguma coisa irradia”. Para quem deseja orar e sentir a voz de Deus, ele é extremamente importante, rico  e indispensável, transmitindo-nos serenidade e sabedoria.

Na trajetória da Igreja Católica, desde muitos séculos, sempre floresceu a vida contemplativa em conventos e mosteiros. É algo sublime, porque leva a alma à comunhão com a infinitude do Criador, sem que nada a perturbe e distraia desta união com Deus. Trata-se de uma atitude nobre da criatura humana. Aquele que contempla, apesar da contingência das coisas criadas, despoja-se de tudo para viver do mistério divino. A vida dos claustros é um eloquente testemunho de desprendimento do mundo e de busca do Transcendente, do Eterno e Invisível. Vale lembrar novamente Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos”.

Em meio à agitação e ao barulho que nos cercam, o Mosteiro de Santana, dádiva do saudoso arcebispo dom Nivaldo Monte, é um oásis, onde almas privilegiadas – como outrora Moisés no monte (cf. Ex 17, 8-16) – erguem os braços em súplicas intercessoras pelos que, na azáfama da vida, se esquecem de elevar os olhos para o Infinito. Bendito esse recanto, nesga silenciosa, onde nos encontramos com o Criador, verdadeira antecipação da eternidade. As irmãs religiosas lembram-nos um lado adormecido de nossa existência. Tornam-se sacramento de nossa história e fazem por nós aquilo que deveríamos realizar cotidianamente: volver o olhar para a beleza divina e colocar o coração nos braços amorosos e misericordiosos do Pai.

A HERANÇA ESPIRITUAL DE BENTO XVI

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO (pe.medeiros@hotmail.com)

Bento XVI, um dos grandes teólogos de nosso século, em oito anos de pontificado legou aos cristãos e crentes de outras religiões, uma herança espiritual importante: o convite permanente de buscar Deus. Fez-se nosso companheiro na viagem ao encontro de Cristo, chefiando a Igreja chamada a uma profunda renovação, a fim de ser mais pura e fiel à própria missão, como sacramento temporal do Filho de Deus. Antes de renunciar, chegou a confessar com lucidez e humildade: “Faltaram-me a doçura e a ternura de Jesus. A razão é importante, mas não é tudo”. Cristo também demonstrou que não são apenas os argumentos lógicos que traduzem o Evangelho.

Em seus inúmeros escritos e pronunciamentos, pregações e entrevistas, o Papa emérito sempre insistiu que Deus se faz conhecer a quem O procura. “Ele mostra o seu rosto e o seu coração de Pai, que não deseja saber quem somos nem de onde viemos, pois a única coisa que importa é a reciprocidade de um amor filial”. Parece que estamos ouvindo outro doutor da Igreja, Santo Agostinho, ao afirmar: “Deus é muito mais íntimo a mim de quanto eu possa ser a mim mesmo” (cf. Confissões III, 6, 11). E continua o bispo de Hipona: “Não vás fora de ti, reentra em ti mesmo. No interior do ser humano habita a Verdade”. O destino do homem é Deus. Esta foi a lembrança do Pontífice, válida para a humanidade e todas as religiões, pois daí provêm a ética, o direito, a liturgia, a vida social, a economia, a ciência e sobretudo a espiritualidade.

A iniciativa divina precede a qualquer iniciativa humana. Na caminhada para o Eterno é sempre Ele o primeiro que nos ilumina e orienta, em constante respeito a nossa liberdade. É Deus que nos faz entrar em sua intimidade, revelando-se e dando-nos a graça de poder acolher sua revelação pela fé. Jamais podemos esquecer a experiência de Santo Agostinho: “Não somos nós que possuímos a Verdade, após tê-la procurado, mas é a Verdade que nos procura e possui” (Sermão 240).

Bento XVI lembrou-nos que o homem carrega consigo uma sede de infinito, uma saudade da eternidade. Há nele uma busca de beleza, um desejo de amor e uma necessidade de luz, verdade e justiça, que o empurram na direção do Absoluto. Em suma, o homem carrega consigo o desejo de Deus e possui uma fome insaciável do Transcendente, pois é semelhança do Divino. A imagem do Criador está impressa em seu coração.

O pontificado do sucessor de João Paulo II foi espiritualizante e teologal. Muitos, mesmo da Igreja, talvez não tenham percebido as sendas filosóficas e místicas que apontava. Ao materialismo, mostrou a fé. Fez-nos refleti-la, com o seu documento “Porta Fidei”. Ao mundo do egoísmo e dos interesses, ensinou que Deus é Amor (“Deus Caritas est”). Aos desesperados e desanimados, com a encíclica “Spe Salvi”, disse que somos salvos pela esperança vinda de Cristo. Diante dos erros de sua Igreja, afirmou que devemos amar na verdade, tema de sua terceira carta encíclica “Caritas in Veritate”.

O Papa emérito convidou-nos a aprender e saborear as coisas essenciais, que são exatamente as de Deus. Sua aparente sisudez foi um alerta a nos dizer que Deus está tão próximo de nós e não O reconhecemos. Parece uma repetição do episódio dos discípulos de Emaús. Bento XVI deixou-nos ainda uma herança espiritual, materializada em sua coletânea Jesus de Nazaré, onde recorda que Cristo é o único Pão dos Homens. Hoje, ao Papa Francisco, no seu despojamento e humildade, é pedido e esperado que revele a alegria de estar com Deus, pois nada se compara a isto e por essa razão deverá abdicar e esquecer a pompa, o poder e a glória. “Só Deus nos basta”, afirmou Teresa d´Ávila.

“UMA ESMOLA, POR AMOR DE DEUS”

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO (pe.medeiros@hotmail.com)

É comum em nossas ruas, alguém estender a mão e nos dizer: “Uma esmola, por amor de Deus”. (Alguns não falam mais, apenas gesticulam. Cansaram!). Talvez jamais imaginemos qual será a história daquele pedinte, esquálido e envelhecido precocemente. Como terá sido sua infância? Que sonhos teriam povoado sua juventude? Após tantas vicissitudes, o que pensa ainda da vida e espera da sociedade? Poucos se questionam a respeito do ser humano, imagem e semelhança de Deus, à sua frente. E diante de cada pedido, há olhares, palavras e sentimentos de piedade, indiferença ou desdém.

Ante a pobreza do mendigo, cada transeunte tem em mente perguntas ou respostas: umas políticas e ideológicas, poucas evangélicas. Alguns dizem: “Eu não dou esmola”. Outros afirmam: “Eis o resultado de uma sociedade estruturada sobre a injustiça”. Muitos se perguntam; “Onde está o dinheiro de nossos impostos?” ou “Por que o governo nada faz por tais pessoas?” Os mais solidários e sensíveis reconhecem: “Meu Deus, que rosto sofrido!” ou “O que posso ou devo fazer"?

Hoje lançamos naves espaciais; graças a Deus, obtemos progressos consideráveis nas pesquisas do câncer e desenvolvemos tipos de sementes adaptadas às condições climáticas de cada solo e região. No entanto, quantos Lázaros continuam, há anos, percorrendo nossas ruas, estendendo suas mãos para matar a fome com as migalhas de nossas mesas (cf. Lc 16,19-31).

O que fazemos por eles? Qual a postura da Igreja? No passado, havia grandes obras assistenciais, como as Casas de Caridade do Padre Ibiapina. Depois, nasceram iniciativas sociais visando à promoção humana.  Porém, constatamos já não ser isso o bastante. Mister se faz uma renovação das estruturas de nossa sociedade para que o processo de empobrecimento deixe de fazer novos miseráveis.

São incontáveis os necessitados ao nosso lado, não apenas o esmoler das calçadas. Há pobres no campo econômico: famintos, sem teto e sem saúde (em macas, nos corredores dos hospitais), desempregados, vivendo indignamente. Existem pobres no campo social: marginalizados por inúmeras razões, migrantes, analfabetos etc. Deparamo-nos com os pobres na consistência física ou moral: deficientes, alcoólatras, drogados, prostitutas, debilitados psiquicamente. Vemos ainda os pobres de amor: idosos desprezados, crianças sem lar, famílias desfeitas ou desagregadas. Enfim, os pobres de valores autênticos: escravos do prazer, do dinheiro, do poder, os sem Deus.

A mão estendida em nossa direção é um grito de alerta: alguém necessita não só de nossa ajuda material, mas também de nosso tempo, nossa dedicação e amor. Poderemos nos omitir, refugiando-nos em desculpas; ou, então, nos unir a todos os que se inquietam com os olhares e as palavras: “Uma esmola, por amor de Deus!” A Igreja latino-americana declarou sua opção preferencial pelos pobres. Mas, parece que eles não estão em nossos templos nem Ela perto deles!

Ao nosso redor, há crianças carentes; mães grávidas abandonadas; adolescentes que bem cedo são motivo de preocupação; idosos sem família e sem amor. Pensar nesses problemas e interessar-se por eles, poderá ser o primeiro passo para a descoberta de novas respostas para a miséria material e espiritual que nos desafia. Deste modo, talvez descubramos que somos ricos porque Alguém (Cristo), um dia, estendeu sua mão em nossa direção, levantou-nos e nos acolheu como irmãos, dando-nos dignidade e razões para viver. Não será um convite para fazermos o mesmo? Nós que transitamos em carros com ar condicionado, bem vestidos e alimentados, inclusive com direito a lazer, já pensamos que, sem a graça divina, talvez estivéssemos nas ruas, de mão estendida, pedindo “uma esmola, por amor de Deus”?

CAMINHAMOS PARA UM NOVO CONCÍLIO?

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO (pe.medeiros@hotmail.com)

Francisco tem dito sempre que a Igreja deve reformar-se, ir em direção aos pobres, sofredores e excluídos, sair de sua acomodação e ser missionária. É preciso que se torne presença divina no mundo e ofereça luz para questões que nos afligem hoje, como a fome, a miséria, a injustiça, a crise ambiental, a paz e a dignidade humana.

O centro de suas preocupações pastorais é o ser humano, com suas necessidades, dúvidas, perplexidades, dores e potencialidades. Quando falou aos representantes do CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano), na JMJ/2013, no Rio de Janeiro, citou literalmente a Guadium et Spes: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e atribulados, são também alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo”.

Outro aspecto de sua visão pastoral é a centralidade da misericórdia. Aqui também, Francisco aproxima-se de João XXIII, quando, no discurso de abertura do Vaticano II, afirmara: “A Igreja sempre se opôs a vários erros; muitas vezes até os condenou, com a maior severidade. Agora, porém, prefere usar mais o  remédio da  misericórdia do que o da severidade". Entre os sucessores de Roncalli, Bergoglio é o que mais se lhe assemelha, tanto na doçura quanto na firmeza, diz Padre Oscar Beozzo. Nitidamente, suas inspirações são aquelas do Poverello de Assis, seu amor aos pobres e, como João XXIII, a busca de uma Igreja renovada, humilde, ecumenicamente aberta, a serviço da paz e das carências da humanidade. Esta foi uma das tantas razões que o levou a convocar o Vaticano II, com seu tom pastoral e não dogmático. Francisco vai nessa direção pregando a abertura da Igreja, que deve ir para as ruas e dialogar com todos. É preciso ouvir o Povo de Deus de todos os continentes para mostrar o novo rosto eclesial, abandonando a cultura e a “psicologia de príncipes” de certos segmentos clericais.

Francisco encontra-se diante de uma situação análoga à de Cristo, cercado, à época, de três grupos de opositores: o poder de Roma; a hierarquia religiosa e os fariseus com os doutores da lei. O nosso Papa tem diante de si o peso da cúria romana, presente nas estruturas do Vaticano; parte do clero “um pouco atrasado”, não esquecendo ainda os novos defensores radicais do moralismo e do canonicismo, em detrimento do homem, imagem e semelhança de Deus. Para retirar o entulho autoritário da Igreja, como expressou Hans Küng, é preciso coesão e colegialidade. E isto só será possível com um concílio verdadeiramente ecumênico, em que todo o povo de Deus – não apenas os clérigos – manifesta o que pensa e deseja de seus pastores e da Igreja.

Na sua humildade, Francisco diz-se normal e pecador. Deste modo, dessacraliza o papado naquilo que deve ser dessacralizado, isto é, nas formas de poder, herdadas não de sua missão pastoral, mas pelo fato do bispo de Roma ter-se tornado príncipe e chefe de estado. Tem-se comprometido em buscar uma forma de exercício do primado, associando o colégio dos bispos à sua missão de inspirar e conduzir a Igreja. E isto é uma dimensão conciliar. Bergoglio insiste na sua condição de bispo de Roma e em falar “de bispo para bispos”, como entre irmãos. O papa Francisco vem retirando prerrogativas do papado e tem se mostrado muito humano. Assim, está tornando-se uma referência, que vai além de qualquer outra liderança de nossa sociedade. A Igreja é santa – não pelo fato de não ser pecadora – e sim porque, nos seus pecados e na sua simplicidade, deve transparecer o mistério e a bondade de Deus, que excedem à pretensão humana. É inegável que Ratzinger, com a renúncia, e Bergoglio, com sua simplicidade, levaram o papado a um reconhecimento pouco cogitado no passado. Oxalá o Papa atual consiga aquilo que foi o propósito do famoso Pacto das Catacumbas, realizado durante o Vaticano II, em que muitos bispos, sob a liderança de Helder Câmara, expressaram o desejo “de uma Igreja servidora e pobre”.

 

 

 

SANTUÁRIOS E LUGARES DE PEREGRINAÇÃO

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO (pe.medeiros@hotmail.com)

Cristo legou à Igreja a missão de evangelizar a todos. E isto consiste em anunciar, com gestos e palavras, a doutrina, a vida e o mistério do Filho de Deus. E para poder realizá-la, necessita estar atenta a todos os momentos e oportunidades. Capelas, igrejas, basílicas, conventos e mosteiros antigos, estão repletos de imagens, quadros, afrescos, pinturas, estátuas, que são uma forma plástica e visual de catequese e evangelização. Quando a população não tinha acesso à leitura, a Igreja lançou mão desses recursos para transmitir sua mensagem. Os tempos mudaram, vieram os livros e suas ilustrações. Hoje, séculos depois, a mídia ostenta seu poder de expressão e convencimento.

No entanto, ainda nos emocionam certos locais, que recordam fatos, realidades e pessoas marcadas pela fé em Cristo num permanente convite para sentir a presença divina e a ação da graça. Há lugares que tocam e falam, mesmo em seu silêncio de pedra e argila; jardins, praças e naves, que são réstia do Divino e do Sagrado. Isso faz parte do turismo religioso, uma das oportunidades da Igreja para catequisar e evangelizar, bem como do estado e dos municípios para tornarem mais atuais suas tradições e história.

Ano após ano, milhares de pessoas dirigem-se a santuários, igrejas e locais sagrados, quer para uma experiência de fé, quer por mera curiosidade ou algum motivo cultural e científico. E, se a Igreja souber aproveitar tais momentos, poderá atingir pessoas que, de outra maneira, não conseguiria. Mas, muitos desses espaços carecem de estrutura adequada, acolhida organizada e algo que atraia e seja capaz de interessar aos visitantes. Necessitam, portanto, serem estudados, divulgados e conservados.

Toda e qualquer iniciativa para fomentar o turismo religioso é louvável. Sabe-se que essa atividade é relativamente nova no Brasil. Mas, em poucos anos, está dando passos importantes. Por exemplo, em Aparecida, toda a dinâmica implantada naquele santuário gira em torno da acolhida aos peregrinos, visitantes e turistas. E não podemos esquecer que acolher bem é evangelizar e Cristo recomendara: “Quem vos recebe a mim recebe”... (Mt 10, 40). Atualmente, naquela cidade paulista, estão sendo construídos hotéis, centros de convenções, áreas de lazer etc.

Entre nós, não podemos esquecer o empenho de Monsenhor Lucas Batista Neto, tentando difundir nossos lugares de turismo religioso. O ilustre sacerdote lança mão dessa atividade para uma ação catequética e missionária. Patu, Florânia, Carnaúba dos Dantas, Caicó, Acari, Mossoró, Assú, Santa Cruz, Cunhaú, Uruaçu etc. têm sido visitados com certa frequência. Há em seus roteiros e viagens uma proposta de evangelização. Além da peregrinação, há a preocupação cultural e histórica. Mostrar nosso passado, explicar o simbolismo e a dinâmica espiritual de um povo constitui-se em lição sobre o trabalho da Igreja e a caminhada das comunidades. Entretanto, falta ainda uma política oficial, seja oriunda de nossas dioceses, seja por parte dos órgãos governamentais, no sentido de aproximar o povo de suas riquezas culturais e espirituais. Poucos conhecem nossos templos seculares, imagens, monumentos e objetos sacros. Quem já se deparou com a história religiosa de nosso povo?

O importante é que cada diocese e as instituições públicas comecem a ter iniciativas concretas e eficazes, pois possuímos vários locais adequados para o turismo religioso. Faltam ainda organização, investimentos mínimos – oficiais e privados – planos, metas e ações. E não se pode negar que esse tipo de atividade, além de ser teologicamente uma fonte de graças e bênçãos, o é também de divisas financeiras e difusão cultural e histórica. Onde está a pastoral do turismo e dos santuários? 

 “DIAGNÓSTICO DE NOSSO TEMPO”

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO (pe.medeiros@hotmail.com)

Em 1943, Karl Mannheim (1893-1947), sociólogo húngaro, de origem judaica, escreveu um ensaio com o mesmo título, traduzido para a língua portuguesa e publicado no Brasil, em 1961, pela Zahar Editora. Ali, o ilustre escritor analisou os paradoxos do seu tempo, como posteriormente fizera o cronista e comediante americano George Carlin (1937-2008), quando endereçou uma carta a sua esposa. Na verdade, verificam-se situações contraditórias e controversas no comportamento humano e social.

Estamos chegando ao tempo do Advento, que nos prepara para o Natal. As casas e edifícios, lojas e shoppings, ruas e cidades engalanam-se em nome da grande festa do cristianismo. Mas, o personagem principal (Cristo) fica esquecido e relegado a um plano inferior. Fala-se de tudo, menos Dele. Urge que Deus e o Sagrado sejam presentes. No entanto, o Divino parece cada vez mais distante da terra. Em seu lugar, cultuam-se e cultivam-se o consumismo, o egoísmo, o hedonismo e outros tantos ismos. No passado, dava-se primazia à alma. Quando éramos jovens, costumavam perguntar: “Quantas almas tem sua paróquia?” Atualmente, o corpo tomou o seu lugar. Há uma sacralidade corporal. Não a que entende o apóstolo Paulo, quando adverte: “Acaso ignorais que vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que mora dentro de vós”? (1Cor 6, 19).

Temos a sensação de que o mundo perdeu o seu rumo, como um trem que se descarrilha. Hoje, Deus torna-se a autoimagem, a sede e fome da beleza exterior. A religião é o culto do corpo. A fé reside na estética. O ritual virou malhação, aludiu o músico paraibano Herbert Vianna (1961-). Leva-se mais tempo nas academias do que nas missas. Temos mais novelas do que novenas.

Vários consideram o amor ultrapassado. A sinceridade para muitos é insignificante. Para outros a honestidade é ridícula. É válido roubar, perverter, trapacear, seduzir, subornar, corromper etc. Mas, envelhecer e enrugar são motivos de vergonha. Não raro, ser desonesto é sinônimo de sucesso. A ética é sufocada por interesses políticos, socioeconômicos. Pouco importa o bem, o que vale é a “realização” pessoal. O outro não conta. Deus é realmente um substantivo abstrato, etéreo (nada de eterno) e desconhecido.

Dissera Carlin: “Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores. Falamos demais, amamos raramente, odiamos frequentemente.  Aprendemos a sobreviver, mas não a viver. Adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos”. Fomos à lua e voltamos, mas sentimos dificuldades em cumprimentar o vizinho no elevador. Lançamos foguetes, satélites, numa palavra, conquistamos o espaço, mas não o nosso. Chegamos a dominar o átomo, mas não os preconceitos. Aprendemos sim a nos apressar e não a esperar. Uma frase desse autor norte-americano resume bem: “Temos edifícios mais altos e pavios mais curtos; estradas mais largas e pontos de vista mais estreitos”.

Dirigimos automóveis cada vez mais velozes e sofisticados, porém somos lentos para compreender ou perdoar. Por vezes, ficamos acordados até tarde, mas a caridade não é a causa de nossa insônia. Lemos pouco, passamos horas vendo televisão, filmes, navegando na internet etc. e oramos raramente. Hoje, temos mais remédios e menos saúde. Há pílulas para tudo: obesidade, tristeza, impotência, insônia etc. Quando vão descobrir algo que nos desperte realmente para Deus ou nos sacie Dele?

Será que neste Natal vamos nos lembrar da frase de Cristo à samaritana, junto ao poço de Jacó: “Ah! Se tu conhecesses o dom de Deus”? (Jo 4, 10).

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

UMA VISÃO DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA DO BRASIL


Império Conservado
Onde a Monarquia é conservada e o Império encontra uma arma nas mãos jovens: a Retórica

 


               Ao contrário do que muitos pensam no dia 15 de novembro não será celebrado o triunfo da vontade popular através da “proclamação” da República. Tampouco será comemorada a democracia ou a liberdade, mas sim o aniversário de um golpe de Estado, despido de qualquer participação popular e visto pelos brasileiros da época, se não com indignação, com grande indiferença. Na realidade, não era pra ter acontecido, não fossem maquinações e boatos de militares bastante espertos para saberem que não haveria república alguma sem um grande teatro por trás de um golpe que, diga-se de passagem, representou muito bem o “jeitinho brasileiro”.
Para começar, vamos conhecer um pouco mais do nosso herói republicano: Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, nascido em 1827, filho de militar conservador, tinha duas irmãs e sete irmãos, três dos quais morreram servindo a Pátria na Guerra do Paraguai. Deodoro entrou para o Exército em 1843, se formando em 1847 no curso de artilharia. No ano seguinte teve sua primeira participação numa ação militar na repressão da Revolta Praieira (insurreição de liberais e separatistas da província de Pernambuco). Nos anos que se seguiriam, Deodoro participaria da Guerra do Paraguai, e subiria rapidamente na hierarquia militar. Em 1887, após muitas comendas, já como brigadeiro do Exército, e depois de ter ocupado diversos cargos políticos (como o de vice-presidente da província do Rio Grande do Sul), Deodoro foi nomeado marechal-de-campo. Até aí tudo bem, tivemos um grande herói militar, que gozava de grande prestígio entre os colegas de farda, um cidadão prezado, conservador, amigo do Imperador e monarquista convicto. Opa, eu disse monarquista convicto? Isso mesmo: Deodoro era um monarquista convicto.
Ao contrário de outros militares da época, que se deixavam encantar pelas ideias republicanas, Manuel Deodoro insistia que a república seria “desgraça completa”, como vemos em carta enviada ao seu sobrinho Clodoaldo da Fonseca, em 30 de setembro de 1888:
República no Brasil é coisa impossível porque será verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal-educados para republicanos. O único sustentáculo do nosso Brasil é a monarquia; se mal com ela, pior sem ela”.
Logo a seguir voltava a insistir junto ao mesmo parente:
“Não te metas em questões republicanas, porquanto república no Brasil e desgraça completa é a mesma coisa”.
Pois bem, vimos que nosso herói não era lá bem um herói republicano. Ou seja, nosso “proclamador da República” era na verdade um “fiel e leal” súdito da Coroa, até o momento em que seu ego foi atingido. Como assim? Bom, antes de entender isso é necessário conhecer outro protagonista dessa história, um sujeito chamado Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Esse, de herói, não tinha nada. Chegou a ir para a Guerra do Paraguai, como engenheiro civil e militar, mas depois de treze meses voltou alegando doença, e sua mulher, como boa esposa, foi lá busca-lo para lhe dedicar os devidos cuidados em casa. Então ele foi dar aula de matemática na Escola Militar. Mas não vamos deixar de ser justos e clarificar que, apesar de militar, o dito Benjamin não era um militarista. Acreditava na submissão do Exército ao poder civil, e não era um revolucionário qualquer; bem instruído e positivista de carteirinha, era um leitor de Comte e seu republicanismo se devia a isso. Mas onde ele entra na história da “proclamação”? Pois bem, para isso teremos de entender outra história, essa um pouco mais complicada.
Desde a formação do Brasil como Estado soberano e independente, que teve início de facto com a elevação da colônia ao status de reino (Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves), o Exército nunca exercera de fato participação nos destinos políticos do país. Na realidade, o Exército era uma instituição fraca e mal aparatada, bem inexpressiva diante de sua correspondente civil, a Guarda Nacional. Os militares de influência geralmente o eram por serem ao mesmo tempo grande nomes de um dos dois partidos políticos, o Conservador e o Liberal, não por serem militares unicamente. Mas as coisas mudariam com o advento da Guerra do Paraguai, que exigiu o melhoramento da instituição em questão, caso o Brasil quisesse ter sucesso na empreitada. Com o fim da guerra, e com um exército melhor aparatado e “politicamente alfabetizado”, o governo viu o nascimento de uma nova força política, não muito contente com o tratamento que vinha recebendo por parte do executivo imperial. Como se não bastasse esse descontentamento, o Gabinete inferiu algumas punições contra os militares, e iniciou uma política de restabelecimento da Guarda Nacional como maior força armada da Nação. É claro que os ‘novos’ militares não viram isso com bons olhos, e teve início uma peleja política conhecida como “Questão Militar”. De um lado, um poder executivo querendo podar qualquer possibilidade do exército aumentar ainda mais sua influência, e de outro, militares ansiosos por “um assento no banco de decisões” dos destinos do Império.
Voltemos ao nosso marechal. Após a morte do Duque de Caxias e do General Osorio, Deodoro se tornara o grande nome militar do Brasil, a admiração que seus subordinados nutriam por ele não era pouca. Era visto como um herói. Cioso do enorme prestígio do marechal em todo o Exército, Benjamin Constant, o professor de matemática, resolveu iniciar uma empreitada para converter Deodoro ao republicanismo. Mas, apesar de ser profundamente solidário à causa militar, e ter escrito mais de uma vez ao Imperador, implorando por uma intervenção nas ações do governo, Deodoro via o movimento republicano com péssimos olhos, como já foi mostrado. Mas as coisas se voltaram para um caminho tortuoso, e o próprio Deodoro viu que deveria ele mesmo agir contra o governo, e percebeu que não era uma boa ideia importunar o velho e doente Imperador com problemas que talvez ele mesmo pudesse resolver. Mas o monarca não estava tão alheio assim à questão, e respondeu a segunda carta de Deodoro com a demissão, no mesmo dia, do Ministro da Guerra, Alfredo Chaves. Nosso marechal então “deu-se por satisfeito”, para ele a questão tivera seu fim. “Petrus locuta, causa finita” (Pedro falou, o papo acabou). Contudo, o novo ministro não cancelou as punições, mas se pronunciou dizendo que os militares punidos deveriam requerer, junto ao governo, o cancelamento dessas punições. Então voltamos ao ponto de partida: governo versus Exército.
Sabendo da frágil situação física do soberano, que sofria de diabetes e havia adoecido muito nos anos que se seguiram ao término da guerra, os querelantes resolveram não recorrer ao juiz imparcial, para recorrer ao Senado. Rui Barbosa lançou um manifesto em defesa do Exército, no qual dizia:
“(...) Deploramos que a doença inquietadora de Sua Majestade não permita invocar diretamente o Chefe do Estado. Sabe o Exército que o Imperador nenhuma responsabilidade constitucional tem. É-lhe grato saber que, nos abusos de que se tratam, não lhe cabem nenhuma responsabilidade real. Mas, em toda a parte, ainda nos países onde exemplarmente se pratica a monarquia parlamentar, o soberano, se é, como entre nós, um elevado espírito, tem sempre em si, pela sua sabedoria, pela sua experiência acumulada, pela superioridade da sua intuição, pela alta imparcialidade do seu cargo, uma imensa reserva de autoridade moral, de influência persuasiva sobre o ânimo de seus ministros mais independentes, dos seus conselheiros mais austeros, e não lhe faltam ocasiões como esta de exercê-la, com benfazeja discrição, em proveito da justiça, da liberdade e da lei”.
E após discorrer sobre o estado de saúde de Dom Pedro, citando as recomendações médicas de repouso e também os anseios do povo por sua recuperação, termina:
“Não nos resta, pois, senão recorrer para opinião do país, que desde o princípio esposou a nossa causa, idêntica à dele, endereçar ao Parlamento este derradeiro apelo à legalidade, que é nosso dever, do qual nada nos arredará, enquanto o direito postergado não receber a sua satisfação plena”.
Como vemos, a Monarquia ainda gozava de lealdade e prestígio e, na verdade, era bastante popular. O grande vilão da história era o Gabinete de Ministros, órgão que representava o poder Executivo durante o Império. O Brasil era uma monarquia constitucional, ou seja, o Imperador reinava, mas não governava de facto. Essa função cabia o Conselho de Ministros encabeçado por um presidente, que era nomeado pelo Imperador. O Gabinete, por sua vez, convocava as eleições legislativas, e então se formava o Parlamento. O Poder Legislativo era composto por duas câmaras, o Senado e a Câmara dos Deputados que se reuniam uma vez por ano em sessão extraordinária chamada Assembleia Geral Legislativa, ocasião em que o Imperador, em trajes majestáticos e rituais solenes, pronunciava a Fala do Trono. Tínhamos o que os historiadores chamam de “parlamentarismo às avessas”, por ocorrer aqui exatamente o contrário de outras monarquias parlamentaristas, onde primeiro o Parlamento é eleito, então se propõe um governo ao monarca que nomeia então um primeiro-ministro.
Mas apesar das manifestações de diversos políticos no Senado e na Câmara dos Deputados a favor dos militares, o governo não cedeu. Nesse ínterim, Benjamin Constant se dirigia praticamente todos os dias à casa de Deodoro, em consecutivas tentativas de convertê-lo de uma vez por todas ao ideal republicano. Mas o marechal se mostrava intransigente, e dizia que sua amizade e lealdade pelo Imperador, de quem era protegido, eram maiores do que qualquer argumento de Benjamin. Contudo, a tensão entre o governo e o Exército foi aumentando, e no dia 14 de novembro de 1889, o Major Solon Ribeiro espalhou um boato pela capital de que o Gabinete mandara prender Deodoro e Benjamin, por conspiração. Começa aí a jornada do 15 de Novembro.
Na madrugada daquele dia, Deodoro e Benjamin, à frente de tropas militares, se dirigiram ao quartel onde se encontrava em vigília o ministério liberal do Visconde de Ouro Preto, Afonso Celso de Assis Figueiredo. O pobre visconde repetia insistentemente as ordens do ataque contra os sublevados, mas gritava aos ventos. O Ministro da Guerra, Marechal-de-Campo Visconde de Aracaju, confessou que não tinha meios para reagir, enquanto que Floriano Peixoto, ajudante-general do Exército, bradou que não lutaria contra compatriotas brasileiros. Ouro Preto logo viu que não estava entre aliados, e só então foi constatar as prévias atitudes dúbias de Peixoto, e os conselhos dos supostos aliados militares de não se importar com os rumores de conspiração, dos quais o gabinete havia sido alertado diversas vezes pelo chefe de polícia. O presidente então enviou um telegrama ao Imperador, que se encontrava em Petrópolis, comunicando-lhe de sua demissão, e informando que Deodoro entrara triunfalmente no quartel, aclamado pelas tropas. Proclamou-se então a república? Na verdade não. Deodoro havia marchado até ali para derrubar o ministério, e foi isso que ele fez. Após Ouro Preto se entregar, o marechal pronunciou um discurso que não incluía nenhuma república e que, após exaltar o Exército, concluía:
“Quanto ao Imperador, tem minha dedicação, sou seu amigo, devo-lhe favores. Seus direitos serão respeitados e garantidos”.
Assim terminava o dia 15 de novembro, e até então os republicanos viram seu sonho ir por água abaixo. O próprio Benjamin parecia ter-se convencido de que não se podia impor uma forma de governo ao povo. Mas por pouco tempo.
O Imperador já estava no Rio de Janeiro, e nomeou um novo gabinete assim que chegou, como fizera inúmeras vezes durante seus quarenta e nove anos de reinado. O novo ministério seria encabeçado pelo Conselheiro José Antônio Saraiva, que recebeu a seguinte mensagem do palácio, enviada por Franklin Dória:
“Exmo. Amigo Sr. Conselheiro Saraiva – o Imperador e a princesa estimariam que V. Ex.ª viesse agora mesmo ao Paço da Cidade, no qual se espera compareça, daqui a pouco, General Deodoro, a fim de apresentar a S.M. a sua mensagem (...)”.
Tudo teria ocorrido normalmente, o Imperador voltaria a descansar e os detalhes da Questão Militar seriam acertados numa outra ocasião, se certo boato, dizendo que o Imperador nomeara como ministro Gaspar da Silveira Martins, um inimigo pessoal de Deodoro, não tivesse se espalhado pela cidade. Alguns acreditam que tal boato foi obra do espero Benjamin Constant. Deodoro também estava doente, e se encontrava de cama quando mandou chamar Benjamin e, bastante irritado, declarou: “Pois diga ao povo que a República está feita”. Logo, ao contrário do que muitos pensam, a república não se deu num quartel, com o povo gritando vivas ao novo regime, mas sim na cama de um marechal monarquista com o orgulho ferido por um mero boato.
Nas horas seguintes se reuniram homens que em breve seriam ministros, e começaram a pôr em prática o novo regime. Na tarde do dia seguinte, o mesmo boateiro Major Solon, em uniforme de gala e seguido por um piquete de cavalaria, foi ao Paço da Cidade entregar a D. Pedro II a mensagem do governo republicano provisório, que depunha e ordenava o exílio da dinastia (decidi por transcrever este documento em particular em sua grafia original):
“Senhor! — Os sentimentos democráticos da nação ha muito tempo preparados, mas despertados agora pela mais nobre reacção do caracter nacional contra o systema de violação, de corrupção, de subversão de todas as leis, exercido em um gráo incomparável pelo ministério 7 de Junho; a politica systematica de attentados do governo imperial n'estes últimos tempos, contra o exercito e a ar-mada, politica odiosa á nação^ e profundamente repellida por ella, o esbulho dos direitos d'essas duas classes que, em todas as épocas, têm sido entre nós a defesa da ordem, da constitução, da liberdade eda honra da pátria, a intenção manifes- tada nos actos dos vossos ministros e confessada na sua imprensa, de dissolvel-as e aniquilal-as, sub- stituindo-as por elementos de compressão official, que foram sempre entre nós objecto de horror para a democracia liberal, determinaram os acontecimentos de hontem, cujas circumstancias conheceis e cujo caracter decisivo certamente podereis avaliar. Em faced'esta situação, pesa-nos dizer-vol-o e não fazemos senão em cumprimento do mais custoso dos deveres, a presença da família imperial, no paiz, ante a nova situação que lhe creou a revo lução irrevogável do dia 15, seria absurda, impossível e provocadora de desgostos que a salvação publica nos impõe a necessidade de evitar. Obedecendo, pois, ás exigências do votonacional, com todo o respeito devido á dignidade das funcções publicas queacabaes de exercer, somos forçados á notificar-vos que o governo provisório espera do vosso patriotismo o sacrifício de deixardes o território brazileiro, com a vossa família, no mais breve termo possivel.
Para esse fim se vos estabelece o prazo máximo de 24 horas que contámos não tentareis exceder (...)”.
Assim, com um discurso leviano e claramente ressentido, Deodoro traía seu juramento, seu ideal, seu amigo. Assim findava sessenta e sete anos de monarquia constitucional, sem qualquer participação popular no levante, obrigando um monarca idoso e doente a abandonar o país de madrugada, e espalhando o boato de que a Família Imperial havia fugido e abandonado o país face ao perigo quando, na verdade, temia apoio do povo ao velho Dom Pedro, que era bastante popular. Um plebiscito foi prometido para os meses seguintes, mas só aconteceria realmente em 1993, dando à República cem anos para distorcer a história e, como sempre, enganar a população. Em 15 de novembro de 1889, através de um golpe mesquinho, nascia a República, que tirou estadistas e grandes políticos da vida pública, e deu seus lugares a homens inexperientes que, como o próprio Rui Barbosa diria, transformaram o que era uma escola de estadistas num mercado de corrupção. Tem início então era de maus políticos na história da Nação brasileira, que persiste até os dias de hoje.
 
OUTRA VERSÃO:
 

Proclamação da República


Deodoro da Fonseca: executor de uma mudança construída ao longo do tempo.

 
 
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O processo histórico em que se desenvolveu o fim do regime monárquico brasileiro e a ascensão da ordem republicana no Brasil perpassa por uma série de transformações em que visualizamos a chegada dos militares ao poder. De fato, a proposta de um regime republicano já vivia uma longa história manifestada em diferentes revoltas. Entre tantas tentativas de transformação, a Revolução Farroupilha (1835-1845) foi a última a levantar-se contra a monarquia.

Podemos destacar a importância do processo de industrialização e o crescimento da cafeicultura enquanto fatores de mudança sócio-econômica. As classes médias urbanas e os cafeicultores do Oeste paulista buscavam ampliar sua participação política através de uma nova forma de governo. Ao mesmo tempo, os militares que saíram vitoriosos da Guerra do Paraguai se aproximaram do pensamento positivista, defensor de um governo republicano centralizado.

Além dessa demanda por transformação política, devemos também destacar como a campanha abolicionista começou a divulgar uma forte propaganda contra o regime monárquico. Vários entusiastas da causa abolicionista relacionavam os entraves do desenvolvimento nacional às desigualdades de um tipo de relação de trabalho legitimado pelas mãos de Dom Pedro II. Dessa forma, o fim da monarquia era uma opção viável para muitos daqueles que combatiam a mão de obra escrava.

Até aqui podemos ver que os mais proeminentes intelectuais e mais importantes membros da elite agroexportadora nacional não mais apoiavam a monarquia. Essa perda de sustentação política pode ser ainda explicada com as consequências de duas leis que merecem destaque. Em 1850, a lei Eusébio de Queiroz proibiu a tráfico de escravos, encarecendo o uso desse tipo de força de trabalho. Naquele mesmo ano, a Lei de Terras preservava a economia nas mãos dos grandes proprietários de terra.

O conjunto dessas transformações ganhou maior força a partir de 1870. Naquele ano, os republicanos se organizaram em um partido e publicaram suas ideias no Manifesto Republicano. Naquela altura, os militares se mobilizaram contra os poderes amplos do imperador e, pouco depois, a Igreja se voltou contra a monarquia depois de ter suas medidas contra a presença de maçons na Igreja anuladas pelos poderes concedidos ao rei.

No ano de 1888, a abolição da escravidão promovida pelas mãos da princesa Isabel deu o último suspiro à Monarquia Brasileira. O latifúndio e a sociedade escravista que justificavam a presença de um imperador enérgico e autoritário, não faziam mais sentido às novas feições da sociedade brasileira do século XIX. Os clubes republicanos já se espalhavam em todo o país e naquela mesma época diversos boatos davam conta sobre a intenção de Dom Pedro II em reconfigurar os quadros da Guarda Nacional.

A ameaça de deposição e mudança dentro do exército serviu de motivação suficiente para que o Marechal Deodoro da Fonseca agrupasse as tropas do Rio de Janeiro e invadisse o Ministério da Guerra. Segundo alguns relatos, os militares pretendiam inicialmente exigir somente a mudança do Ministro da Guerra. No entanto, a ameaça militar foi suficiente para dissolver o gabinete imperial e proclamar a República.

O golpe militar promovido em 15 de novembro de 1889 foi reafirmado com a proclamação civil de integrantes do Partido Republicano, na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Ao contrário do que aparentou, a proclamação foi consequência de um governo que não mais possuía base de sustentação política e não contou com intensa participação popular. Conforme salientado pelo ministro Aristides Lobo, a proclamação ocorreu às vistas de um povo que assistiu tudo de forma bestializada.
Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola