quinta-feira, 19 de março de 2026

 

Dom João e Dom Sílvio

Padre João Medeiros Filho

A pedido de leitores, escolhi pautar este artigo. O profeta Isaías revela uma realidade teológica, exaltando a supremacia divina em relação ao ser humano: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos e vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55, 8). Diga-se o mesmo da Igreja, sacramento do Filho de Deus. A lógica divina difere dos métodos e planos humanos. A vinda de Dom João Santos Cardoso para ser o nosso metropolita e posteriormente a nomeação de Dom José Sílvio de Brito (natural de Cruzeta/RN) para seu bispo auxiliar foram agradáveis surpresas. Dom João veio para o RN descalço, como um frade carmelita, despojado como um franciscano, ouvinte e questionador ao estilo jesuíta, missionário e pregador à semelhança de um dominicano ou redentorista, reflexivo e orante, inspirado em Santo Agostinho. Nosso pastor aqui chegou, revestido de sua fé, seu amor à Igreja, com seus três pets e a certeza da mão estendida d’Aquele que nos conforta. Aliás, é o seu icônico lema episcopal: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4, 13).

Registrei estas notas, no limiar de meus oitenta e cinco anos, antes que a lucidez brigue comigo e me abandone. Há fatos e feitos que não posso esquecer. Muitos não esperavam em fevereiro a escolha de Dom Sílvio para o episcopado. Não que lhe faltasse mérito. Comenta-se que outros nomes eram cogitados nas sacristias e casas paroquiais. Ele detém muito das virtudes de nosso arcebispo: discreto, simples, avesso à fama e aos holofotes, focado na pregação do Evangelho. Para mim não foi inesperado.

Este velho escriba confessa sua admiração ao ver nosso pastor chegar aqui, há quase três anos, de mãos vazias, desarmado, coração aberto para acolher e perdoar, imbuído do amor a Cristo e à Igreja. Nada pediu, desejava primeiro ouvir e rezar para agir na hora de Deus. Para cá não o acompanhou nenhum sacerdote ou auxiliar. Começou o pastoreio como o Mestre, e foi conquistando os discípulos. Segundo a rotina eclesiástica, é comum a um bispo, ao ser nomeado para uma diocese desconhecida, levar consigo ao menos um secretário. Dom Joaquim Antônio de Almeida, nosso primeiro antístite, ao tomar posse da diocese do RN, trouxe para Natal seis auxiliares. Dom João, nesse e em outros aspectos, procurou seguir as pegadas do Mestre.

Na homilia da Eucaristia, em memória dos quatorze anos de vida episcopal, Dom João anunciou efusivamente, como presente de Deus, a nomeação de seu primeiro bispo auxiliar. Mais um exemplo de despojamento e valorização do clero potiguar. Não seria menoscabo se tivesse indicado um padre amigo, oriundo de outras dioceses. Escolheu, dentre os sacerdotes da arquidiocese, um dos assessores mais próximos. Isso demonstra respeito e consideração ao nosso clero. Este gesto tampouco o impede de indicar um presbítero de outros bispados para ocupar as futuras dioceses (Assú e Santa Cruz). O que deve falar mais alto é o bem da Igreja. Nosso arcebispo segue Jesus: “caminhando junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos (Simão Pedro e André) e os chamou.” (Mt 4,18). Ao escolher seu primeiro bispo auxiliar, seguiu a tradição de seus antecessores Dom Marcolino e Dom Nivaldo. Entretanto, isso não é um impeditivo para outras escolhas, nem desdouro se vier acontecer.

Dom João e Dom Sílvio continuarão abrindo novos caminhos com a força da Palavra Sagrada, colhendo frutos para o bem do Povo de Deus. O desejo que move nosso arcebispo e seu bispo auxiliar é o de compreender, perdoar, amar, viver e difundir o Evangelho, construindo a beleza da Igreja e contribuindo para que possa ecoar sempre a melodia da graça divina. Como nosso Pastor, Dom Sílvio detém as virtudes da simplicidade e ternura evangélicas, independência diante das coisas efêmeras, aceitando o desafio de servir e deleitar-se com o Sagrado. Ambos entendem o poder, em qualquer instância, como um serviço. Dizia Dom Delgado, um grande bispo que pisou o chão do Seridó: “O podertem sentido, quando busca melhorar a vida dos outros e aumenta a sede de Deus.” Cristo advertia: “Quem quiser ser o maior, seja aquele que vos serve” (Mc 10,43).

segunda-feira, 16 de março de 2026

 AS BOAS ATITUDES MELHORAM O MUNDO

 

Valério mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Nesse planeta de dúvidas e de dívidas – muito mais do que antes – é necessário compadecesse do ser humano. As pequenas atitudes melhoram o planeta, repito e é verdade. Contudo, a cada dia, se descobre que todo homem, por mais firme que esteja é pura vaidade. Não reflete que “passa como uma sombra amontoando tesouros e não sabe quem os levará”, conforme ensinou o salmista rei Davi, no auge do declínio político e de poder. Os dias de hoje são ominosos e fatais para a humanidade. Mesmo que você ore que o Senhor é a sua luz e a ninguém deve temer. O tempo mudou muito a imagem e a rigidez disciplinar do Vaticano. O poder doutrinário não é mais tão exigente quanto o de antes. Hoje é pacífico, conciliador.

O ser humano vive a cultura do mundo das paixões, das relações homoafetivas, dos trágicos conflitos racionais, religiosos e políticos. As práticas já alcançaram o nível de extermínio. Nas favelas brasileiras o número de bandidos excedeu o de moradores pobres. Na história das repúblicas latino-americanas os índios foram vítimas de assassinatos, hoje são os doentes nos hospitais públicos pela falta de remédios e de médicos. O egoísmo dos homens corrompeu a democracia, as instituições. Tudo foi depredado: o meio ambiente, o sindicalismo, o mercado de trabalho, o sistema previdenciário, o ensino médio e superior, a legislação penal e a penitenciária. Até no Supremo Tribunal Federal, os ministros colidem e se agridem de forma banal, como nunca se viu décadas passadas. As Casas Legislativas cultivam o silêncio obsequioso em algumas questões e em outras submetem-se a dependência de cargos, favores ocasionais e sazonais.

Prefiro laborar na tese de que o homem sem acreditar na Bíblia não tem futuro na terra e nem no que cuida ou governa. Caso se torne bem-sucedido, fará infeliz uma multidão de seres humanos. Certa vez, procurei ler algo sobre a trajetória do teólogo e pensador Leonardo Boff, notadamente traços de suas colisões com a igreja católica, por causa da Teologia da Libertação. É claro que não pretendo num modesto texto discutir ou discrepar com o famoso escritor e pensador brasileiro. Pinço um fato do seu encontro em 1984, em Roma com o cardeal Ratzinger, sucessor de Wojtyła (Papa João Paulo II). O ex-pontífice era o então prefeito da Congregação para a Doutrina e a Fé. No dia aprazado, Boff escreveu ao cardeal explicando que não poderia comparecer ao chamado da Santa Sé porque naquele dia (05 de setembro), teria compromisso com a Associação das Prostitutas, vítimas de exploração, a qual recebia apoio da CNBB. O papa emérito (cardeal Ratzinger) telegrafou para dizer que “a Igreja deveria vir antes de tudo”. Leonardo Boff foi astuto. Respondeu “que, conforme as palavras de Jesus, as prostitutas gozam de precedências, no Reino dos Céus”.  E citou a parábola de Jesus em Mateus 21.31, quando pregava no templo para os principais sacerdotes e os anciões do povo que davam respostas equivocadas as suas perguntas. (“Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus”).

Veja como a interpretação da palavra de Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) pelas religiões cristãs do mundo está a merecer uma rediscussão a fim de chegar à unicidade e a verdadeira paz. Outro detalhe diferenciador das igrejas católicas e evangélicas: a primeira diz “a paz de Cristo!”. A segunda, para divergir, todavia dá no mesmo, proclama “a paz do Senhor!”. Chegou o momento fundamental de todos se entenderem que o reino desta vida também é de Deus, uno e indivisível. A paz é uma só. Outra grande atitude para melhorar o mundo já pregado e difundido pelo Papa Francisco é o diálogo das igrejas em favor da coletividade humana, sem o fermento da discórdia e do egoísmo na interpretação da palavra do Pai, do Filho e do Espírito Santo. “Quando dois ou mais estão reunidos em meu nome, estou presente no meio deles”. No mais, é deixar que Ele grave no senso trágico da brevidade humana os sinais de sua mensagem.

 

(*) Escritor