quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 Solitude e solidão

Padre João Medeiros Filho

Psicólogos e místicos distinguem solitude e solidão. Esta é o estado de espírito, quando alguém se sente vazio, sozinho e desconectado, mesmo em meio à multidão. Trata-se de experiência desconfortável e até dolorosa. Enquanto, a solitude é consentida e calmante, ao se ficar só. Ela oferece uma escolha voluntária para autoconhecimento, reflexão e recarga de energias, que promovem crescimento e bem-estar. Tal condição de vida é escolhida especialmente por pessoas contemplativas, no caso dos monges, eremitas e anacoretas. A diferença fundamental está na qualidade da conexão consigo mesmo; frágil na solidão, profunda e nutritiva na solitude. Viver ou decidir estar sozinho nem sempre é sinal de abandono. Às vezes, é plenitude. Poderá ser um espaço ou momento, no qual o pensamento floresce e o silêncio se transforma em sabedoria. Aprender a apreciar a própria companhia é uma forma de liberdade. Quem acredita ou confia em si, nunca está realmente só. “Quando você se ama, a solitude se transforma em liberdade”, afirmava Santa Edith Stein.

Para Adélia Prado, “solitude não significa ausência, mas espaço vital de encontro consigo mesmo e o sagrado.” Nela, a alma se manifesta no cotidiano da vulnerabilidade humana e nas contradições da vida, elevando a rotina ao Transcendente. Resulta daí uma comunhão que acolhe tristeza e alegria, carne e espírito. Busca-se a sintonia do íntimo com o universo, aproximação do isolamento e do silêncio para escutar a vida.  A solitude é uma abertura para a verdadeira existência, um tesouro, no qual se pode descobrir a profundidade do ser, a complexidade da vida e a presença de Deus. Tudo isso se manifesta na sensibilidade e no olhar de quem medita. Conhecida é a súplica do salmista: “Olha para mim e tem piedade, Senhor, pois sou pobre e estou sozinho” (Sl 25/24, 16). 

Rainer Maria Rilke, um dos grandes poetas solitudinários, dissera: “As obras de arte nascem do isolamento.” O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard observou que possivelmente o início da solidão humana se encontre no fato de se comparar. Experimentei isso em minha própria carne. Muito jovem e inexperiente fui estudar na Bélgica. Brocoió incurável de Jucurutu, nascido naquela pequena cidade do sertão potiguar, deparei-me com habitantes de tez e cabelos claros, de cultura diversa, amantes da erudição, considerados intelectualizados. Comparei-me com eles. Eu era diferente, introspectivo, de sotaque arrastado do nordeste brasileiro, mais voltado para a oralidade. Não passava de um patinho feio que os colegas discretamente desdenhavam. Raramente, era convidado para ir à casa de algum deles, sendo observado como um ser estranho. A ponto de um professor, ao saber de minha procedência (Jucurutu), perguntar: “De que tribo é você?” Senti-me injuriado e respondi: “Vim de uma tribo menos feroz do que a sua.” 

Foi então, quando me senti solitário. A solidão de ser diferente e inferior. E sofria. Sequer me atrevia a compartilhar meu desapontamento, junto a colegas oriundos de outros países. Parecia-me inútil. Eles não me compreenderiam. E mesmo que entendessem, nada poderiam fazer. Assim, tive que suportar por algum tempo a minha solidão. As caminhadas pelo deserto da vida me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E descobri buscar aquilo que poderia amenizar um solitário: Sagrada Escritura, silêncio, música, literatura, a beleza da natureza, prece e mística. Deste modo, foi se formando aquele que hoje que sou. A solidão se transformou em solitude. 

Confesso que comecei a crescer, quando abandonei as comparações. Elas nos tornam inferiores, pessimistas, menores. Comparar-se pode ser destrutivo, leva à inveja, ao complexo de inferioridade e à “síndrome do vira-latas.” É preciso aprender a aceitar a dor, dela é possível nascer a beleza. Mas, não é aconselhável aceitar o desconforto da comparação, pois não leva à verdade. Dizia o poeta e teólogo Rubem Alves: “a comparação não é cristã.” Jesus a rejeitou, como se pode verificar na parábola narrada pelo evangelista Mateus (cf. Mt 20, 1-16). Nela, o patrão decidiu pagar o mesmo salário (sem distinção) aos operários da vinha. Se por acaso, sentirmo-nos na solidão, rezemos confiantemente: “Não me abandones jamais, ó Deus de minha salvação” (Sl 27/26,9).


 


São Sebastião, padroeiro de Jucurutu (RN) 

Padre João Medeiros Filho 

No dia 20 de janeiro, celebra-se a festa do mártir São Sebastião. Nas décadas de 1860 e 1870, após a Guerra do Paraguai, um surto de “colera morbus” grassou por vários estados do Brasil. Em decorrência disso, os habitantes da paróquia de Jucurutu fizeram uma promessa: “Se a população não fosse dizimada pela epidemia, pediriam ao bispo para o orago da paróquia ser São Sebastião, ficando, à época, São Miguel como co-patrono”. O arcanjo era uma devoção dos jesuítas, que fundaram o aldeamento, cerca de doze léguas, ao sul da Vila do Assú, conforme informações de Serafim Leite, em sua História da Companhia de Jesus. A mudança ocorreu quando Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, então bispo de Olinda, encontrava-se na prisão, vítima da “Questão Religiosa”. Governava o bispado Padre Sebastião Constantino de Medeiros, oriundo do Sítio Umari, município de Caicó. Posteriormente, esse ilustre sacerdote entrou para a Companhia de Jesus, terminando seus dias em Roma, onde foi professor na Pontifícia Universidade Gregoriana. Sou devotíssimo do santo mártir. Fui batizado, crismado, recebi a primeira Eucaristia e ordenado presbítero na matriz a ele dedicado, situado em minha terra natal. São Sebastião é muito cultuado no Ocidente, inclusive no Brasil. Nasceu em Narbona (sudoeste da França), provavelmente no ano de 256 e, pouco depois, seguiu com os pais para Milão. Ali, cresceu na fé cristã, tornando-se também um respeitado capitão da guarda do imperador romano. À época, não havia liberdade religiosa. Os cristãos eram perseguidos, presos e martirizados. As autoridades não sabiam que Sebastião era um deles. Como tal, conseguiu ajudar muitos prisioneiros, doando roupas, alimentos e animando-os a perseverarem na fé. Converteu ao catolicismo vários detentos. Possuía poderes miraculosos. Seus biógrafos descrevem o caso da cura de uma mulher deficiente auditiva. Vários milagres foram realizados por sua intercessão, mormente quando pestes e calamidades atingiam as cidades da Europa medieval. Com a sua proteção populações inteiras foram poupadas ou salvas de enfermidades. Ao descobrirem que Sebastião era cristão, amarraram-no a uma árvore, feriram-no com flechas e o abandonaram. Sobreviveu aos ferimentos. Santa Irene cuidou dele até ficar curado. Após recobrar a saúde, retornou às ações de caridade, tendo sido novamente preso. Desta vez, o imperador decretou o seu martírio. É exemplo de perseverança e coragem, diante dos obstáculos e provações da vida. Devemos ressaltar seu empenho em fazer o bem anonimamente, aproveitando as circunstâncias para semear alegria, consolo e ânimo junto ao próximo. Tinha consciência de que, uma vez descoberta a sua crença religiosa, ele seria martirizado. Sua autenticidade e capacidade de servir são notáveis e devem ser imitadas. A história mostra-nos que a devoção ao Santo de Narbona está presente em muitas localidades de nosso país. Ao longo dos séculos, é invocado contra a peste, a fome e a guerra. Quando surgiam epidemias e catástrofes, crescia o seu culto. Na zona rural brasileira, foram muitos os votos ao santo mártir, pedindo-lhe proteção contra as secas, que assolam o Nordeste, ao longo dos anos. Santo Ambrósio, bispo de Milão, tecia elogios sobre esse oficial do exército romano. No seu túmulo, em Roma, ergueuse uma basílica, perpetuando seu heroismo e memória. Sua morte deu-se entre 284 e 303, sendo imperador Diocleciano, o qual perseguiu muitos cristãos e sacrificou vários mártires do catolicismo. Sua figura, crivada de flechas, foi imortalizada pelos artistas renascentistas. É esta a imagem que possuímos na iconografia do catolicismo ocidental. São Sebastião é um santo da atualidade. Devemos pedir-lhe ajuda contra a violência cotidiana que faz vítimas indefesas e inocentes. Necessita ser invocado contra a peste hodierna das drogas, ceifando vidas. Nos dias atuais, supliquemos sua proteção contra as perseguições aos cristãos de vários Paises. Urge, pois, pedir sua intercessão contra outros males: mentiras, injustiças, ódio, corrupção, radicalismo, desonestidade intellectual, narrativas e tantos que assolam atualmente a nossa pátria. São Sebastião afirmou, com muita convicção, ao ser interrogado pelo imperador: “Antes de ser oficial do Império Romano, sou filho de Deus e soldado de Cristo. Tais palavras retratam sua personalidade, coragem e fé. Legou-nos preciosos ensinamentos e valores fundamentais. Por seu testemunho e martírio, faznos recordar as palavras do apóstolo Paulo: “Para mim o viver é Cristo.” (Fl 1, 21).

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

 PASTORADOR DE AURORAS

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

A visão de quem passa pelo empório dos Guarapes (Macaíba) testemunha um tipo inexprimível de mistério, grandeza e história, que não se manifestam, apenas, na visibilidade dos olhos. Espelho e sombra nos envolvem totalmente. Reflete a casa perdida da infância de qualquer um de nós, mesmo que distem quase duzentos anos de nascença. As cores da vida vem de dentro. Ao derredor da construção principal, aflora o lirismo vegetal e memórias mil de luar. Diante dos Guarapes paraliso o meu corpo e silêncio a boca, ante a emoção e a paz emblemática onde nascem, depois, todas as palavras. Templário erguido ao comércio, ao labor, a vida, a riqueza, ao capital, nele, somente restando, hoje, a raiz e o cupim, sem jardim, sem teto, gasto em sombras, sem rumor, apenas um eco antigo e longínquo da voz imaginária do grande capataz dos mistérios circundantes: Fabrício Gomes Pedroza.

“Feliz do homem que conhece a terra onde será enterrado”, disse o saudoso Dom Nivaldo Monte, já perto de sua partida e despedida. Ele não tinha nas mãos o acento da desesperança. Reescrevi hoje novo texto sobre os Guarapes movido pela aflição de um vento novo, ressurgente, após a longa noite da burla, do engodo e do humano ressentimento. Segundo os pesquisadores, os técnicos, as prospecções ao redor da área indicam um dominó de ocorrências ainda desconhecidas. Estão invisíveis, dissipadas e espalhadas no ar fino das brumas do rio Jundiaí soprando na paisagem do nunca mais. Queremos vê-la restituída, reerguida, alongada até o antigo cais e a capela, até desfazer todas as incertezas. Tudo, para sentirmos o peso da criação do homem que investiu e inovou a economia de Macaíba e do Rio Grande do Norte.

No esforço criativo de restaurar os Guarapes, congregam-se neste ano da paz de 2026, verdadeira confraria habituada às longas viagens repetidas. Para essa plêiade não interessa equívocos e maus murmúrios. Basta que a lembrança retorne submissa na velha casa que repousa em clarões e longos silêncios. Sobre a história do monumento já falei em textos anteriores. Após os gemidos, resta-me, agora, a alegria de haver achado o caminho. Um outro rumor intemporal já escuto e já me revejo diante de um espelho de sustentação. A porta que abriu não me traz enganos. As primeiras imagens dos Guarapes reconstruído renasceu dessa porta. E logo eu que me achava perdido, volto a perceber que não estou só. Estava exausto de ser enganado. Hoje, consegui a vontade política e a sensibilidade de fazer, dos que estão no poder.

A constelação de todos que se mostram envolvidos na obra constitui o fulgor da partida, do início de uma peleja. Naquela colina se ouvirão, logo mais, vozes diárias entre arcos voltaicos de sua beleza e significado para a história do Rio Grande do Norte. Desde o tempo dos holandeses, do temível Jacob Rabbi, disse-me o geólogo Edgar Ramalho Dantas que os Guarapes e Jundiaí, juntos, desafiam os estudiosos pelo circuito de circunstâncias no chão sagrado dos antepassados, a suscitarem descobertas, grutas, ecos irresignados, águas novas e subterrâneas. Atravessando o rio, vê-se de frente o memorial de Uruaçu, santuário dos mártires e bem perto dali as ruínas de Extremoz. Para trás, o Solar do Ferreiro Torto, já restaurado. Chega-se à conclusão que o entorno de Natal, naquele tempo foi o maior teatro de operações da produção de alimentos, comércio, moldura de dissídios e lobisomens, que somente os Guarapes renascido pode restituir pelo olho e o tino do estudo e da pesquisa, já em campo.

 

 

(*) Escritor.