quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
GUSTAVO SOBRAL
Tibau do Sul e praia da Pipa: conversas à beira-mar
Inspirado por pequenas peças sobre a vida cotidiana como o The Talk of the Town, da revista The New Yorker, que completou cem anos em 2025, e pelas Esquinas da revista piauí, que chega aos vinte agora em 2026, Gustavo Sobral imagina um The Talk of the Beach, ou quem sabe Enseadas, trazendo esse espírito para o ambiente do verão e da praia.
Conversas à beira-mar é um livreto digital do jornalista e escritor, resultado de anotações durante um verão vivido na praia. Em textos breves e desenhos, o autor registra impressões sobre o tempo e o espaço à beira-mar, observando o cotidiano do litoral, paisagens, personagens e gestos que costumam passar despercebidos.
O trabalho combina escrita e ilustração em um experimento de jornalismo visual que acompanha o movimento das ondas, dos vendedores, das jangadas, dos surfistas e da vida comum das praias. O resultado, que poderia ocupar as páginas de uma revista, transforma cenas corriqueiras em narrativa sensível, onde texto e traço se complementam.
O livreto está disponível em formato digital para baixar e ler, enquanto a versão impressa está prevista para ser lançada em breve, conforme anunciado pelo autor.
O projeto integra o conjunto de obras que Gustavo Sobral disponibiliza em seu site, onde também estão títulos como Cenas Natalenses e O Guia do Verão.
O acesso direto ao livreto está em https://gustavosobral.com.br/conversas-da-praia-anotacoes-de-um-verao-a-beira-mar/
A água e sua sacralidade
Padre João Medeiros Filho
Nos
meus tempos de jovem padre, ao adentrar numa sacristia, havia em destaque um
quadro sobre uma cômoda, afixado na parede, contendo os nomes do papa, do bispo
local e a indicação da “oratio imperata”. Esta era uma oração obrigatória,
determinada pela autoridade diocesana, a ser rezada na missa, em alguns períodos. De
dezembro a março, costumava-se recitar a prece “ad petendam pluviam” (para
pedir chuvas). Nas comunidades romanas dos primeiros séculos do cristianismo, nos
períodos de maior estiagem, costumava-se realizar o canto processual das
ladainhas (conhecido por rogações), suplicando a clemência divina para enviar chuvas. As
tradições vão sendo esquecidas e abandonadas, mesmo no catolicismo.
O Rio Grande do Norte
conheceu a luta de Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros por água potável e
abundante. Seu engajamento nessa causa foi marcante, a ponto de seu nome ter
sido aposto a uma adutora potiguar. Citava amiúde a Declaração Universal dos
Direitos Hídricos, assinada por vários países em 1992, no Rio de Janeiro.
Consta do seu artigo 4º: “O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da
preservação da água e de seus ciclos.” O inolvidável pároco de São Paulo do
Potengi compreendeu os gestos de Cristo, ao
demonstrar sua predileção pelo precioso líquido.
A água é um elemento
sagrado, essencial à vida, exaltado na Sagrada Escritura. No princípio, “o
espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1, 2). No dilúvio, “elas
purificaram a terra” (Gn 7,10-24). Moisés realizou a travessia dos hebreus pelo
Mar Vermelho, libertando-os do opróbio dos egípcios (Ex 14, 21ss; 15,1-21). No
deserto, fez brotar da rocha uma fonte para
saciar a sede do povo peregrino em busca de Canaã (Nm 20, 10). Em seu batismo,
Cristo foi banhado no Rio Jordão (Mt 3, 13). Na cena do juízo final,
ouvir-se-ão palavras que fazem parte das Obras de Misericórdia: “Tive sede e me
destes de beber” (Mt 25, 35). Fomos aspergidos ou molhados nas fontes batismais
e inseridos na comunidade cristã. O corpo humano contém mais ou menos sessenta por
cento do fundamental líquido, indispensável ao funcionamento dos órgãos. No
catolicismo, sua importância é tanta
que em todas as bênçãos o sacerdote asperge as pessoas ou objetos.
Nos evangelhos, Jesus
apresenta-se marcadamente aquático. Foi batizado no Rio Jordão (Mt 3,13-17).
Posteriormente, tornou o precioso líquido matéria do sacramento do batismo, por
considerá-lo um princípio vital. Dessedentou-se no Poço de Jacó, onde tocou o
coração da samaritana, trazendo-a de volta à graça divina. Navegou, muitas
vezes, pelo Mar da Galileia (Mc 6,45). Fez dele e das barcas sua cátedra (Mc
4,1-2; Lc 5,1-3). Nos momentos de medo dos apóstolos, ordenou às ondas do mar
que se acalmassem (Mc 4,39) e, em outra ocasião, caminhou sobre elas (cf. Jo 6,
18). Certa feita, determinou que dois discípulos seguissem um homem carregando
um cântaro contendo o importante líquido (Mc 14,13). Durante a Última Ceia,
tomando jarro, bacia e toalha, lavou os pés de seus apóstolos (Jo 12,1-17),
gesto repetido nas celebrações litúrgicas da Quinta-feira Santa. No Calvário,
pendendo do patíbulo da cruz, de seu lado aberto por uma lança “jorraram sangue
e água” (Jo 19,34), símbolo da Eucaristia. Prometeu que do interior de quem nele
acreditasse, jorrariam torrentes vivas (Jo 7,
37-39). Segundo os evangelistas, Ele escolheu os doze seguidores,
transformando-os em “pescadores de homens.” (Lc 5, 11).
Não
se pode esquecer: foi diante de um rio, lago ou mar que Cristo começou a sua
Igreja, convocando os primeiros discípulos. Certa feita, passando pelo Mar da
Galileia, viu Pedro e André lançando ali as suas redes. Diante desta cena,
Jesus dissera-lhes: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.”
(Mt 4, 19). De igual modo, chamou os irmãos João e Tiago, que lavavam e
consertavam as tarrafas (Mc 1,14-20; Mt 4, 18-22). Voltando à nossa atualidade:
nosso preclaro confrade Woden Madruga costuma fazer valiosas anotações e
interpretações, acompanhando cuidadosamente a precipitação pluviométrica na
região nordeste. Neste início de ano, diante da escassez das reservas hídricas,
deve-se rezar pedindo um copioso inverno. Lembremo-nos da promessa de Deus a
quem Lhe rogasse com perseverança e fé: “Derramarei água na terra sedenta e
torrentes sobre o solo ressecado” (Is 44, 3).